Identidades, trânsitos e diversidade sexual em contextos de sociabilidade juvenil no Rio de Janeiro (Brasil)

Identities, transit and sexual diversity in contexts of youth sociability in Rio de Janeiro (Brasil)

Resumos

A partir de um estudo etnográfico em espaços de sociabilidade juvenil homoerótica na cidade do Rio de Janeiro, este artigo discute os modos de expressão das identidades sexuais entre mulheres e homens jovens, as motivações para as interações afetivo-sexuais e as dinâmicas da circulação nos espaços pesquisados A análise é informada pela influencia dos marcadores sociais, relativos à inserção social, gênero e cor/raça, na conformação das práticas e identidades sociais. As interações homoeróticas juvenis urbanas sugerem permanências e mudanças nas distinções de gênero, bem como uma ampliação das experiências sexuais e uma tendência a menor fixidez das identidades sexuais.

Identidade Sexual; Jovens; Sociabilidade; Homossexualidade; Gênero; Rio de Janeiro


Based on an ethnographic study in homoerotic social environments in the city of Rio de Janeiro, this article discusses the expression of sexual identities among male and female youth, the motivations behind affective-sexual relationships and the dynamics of circulation in social environments. The analysis is informed by the influence of social markers of gender and color/race in shaping the social practices and identities. The homoerotic interactions among urban youth suggest continuities and changes in gender distinctions, as well as an expansion of sexual experience and a trend towards less fixed sexual identities.

Sexual Identity; Young People; Gender; Sociability; Homosexuality; Rio de Janeiro


DOSSIÊ: RAÇA E SEXUALIDADE EM DIFERENTES CONTEXTOS NACIONAIS

Identidades, trânsitos e diversidade sexual em contextos de sociabilidade juvenil no Rio de Janeiro (Brasil)

Identities, transit and sexual diversity in contexts of youth sociability in Rio de Janeiro (Brasil)

Simone MonteiroI; Eliane VargasI; Fátima CecchettoI; Felippe MendonçaII

ISimone Monteiro (msimone@ioc.fiocruz.br), Eliane Vargas (epavargas@ioc.fiocruz.br) e Fátima Cecchetto (face@ioc.fiocruz.br) são doutoras em Saúde Pública/Saúde Coletiva e pesquisadoras do Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde, Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz (Rio de Janeiro, Brasil)

IIBacharel em Ciências Sociais pela UERJ. felippemend@ig.com.br

RESUMO

A partir de um estudo etnográfico em espaços de sociabilidade juvenil homoerótica na cidade do Rio de Janeiro, este artigo discute os modos de expressão das identidades sexuais entre mulheres e homens jovens, as motivações para as interações afetivo-sexuais e as dinâmicas da circulação nos espaços pesquisados A análise é informada pela influencia dos marcadores sociais, relativos à inserção social, gênero e cor/raça, na conformação das práticas e identidades sociais. As interações homoeróticas juvenis urbanas sugerem permanências e mudanças nas distinções de gênero, bem como uma ampliação das experiências sexuais e uma tendência a menor fixidez das identidades sexuais.

Palavras-chave: Identidade Sexual, Jovens, Sociabilidade, Homossexualidade, Gênero, Rio de Janeiro.

ABSTRACT

Based on an ethnographic study in homoerotic social environments in the city of Rio de Janeiro, this article discusses the expression of sexual identities among male and female youth, the motivations behind affective-sexual relationships and the dynamics of circulation in social environments. The analysis is informed by the influence of social markers of gender and color/race in shaping the social practices and identities. The homoerotic interactions among urban youth suggest continuities and changes in gender distinctions, as well as an expansion of sexual experience and a trend towards less fixed sexual identities.

Key Words: Sexual Identity, Young People, Gender, Sociability, Homosexuality, Rio de Janeiro.

Este artigo analisa as expressões das identidades sexuais de um grupo de jovens, a partir de um estudo qualitativo em contextos de sociabilidade homoerótica no Rio de Janeiro. O conceito de identidade sexual ganhou sentido e relevância histórica a partir do lugar que a sexualidade passou a ocupar na cultura ocidental moderna, possibilitando a emergência de sujeitos em determinados contextos de relações sociais que expressam um discurso de verdade na descrição de si ligado ao sexo (Foucault, 1985). A marca de tal perspectiva, vinculada à vertente teórica do construtivismo, é o assinalamento do peso da cultura e da história na definição e diferenciação do significado e dos padrões da experiência sexual dos grupos sociais (Gagnon, 1990; Vance, 1991, Weeks, 1999).1 1 Na vertente do construtivismo, as relações de gênero são consideradas um elemento prioritário para compreensão e análise da sexualidade. Outra tendência, expressa no trabalho de Butler (1999), defende uma descontinuidade no plano teórico, entre gênero e sexualidade, dado que esta associação pode conduzir a uma espécie de heterossexualização do desejo. Tal descontinuidade não significa afirmar que sexualidade e gênero estão sempre dissociados, mas que não são idênticos.

Essa discussão tem norteado a realização de estudos na área das ciências sociais acerca da construção social das identidades sexuais no contexto nacional. Os estudos apontam para os casos da não correspondência direta entre desejo, práticas sexuais e identidade sexual nas biografias dos sujeitos. As discussões acerca das expressões das identidades sexuais igualmente assinalam as variações na apresentação de uma imagem de si pelos indivíduos e ao longo de suas trajetórias de vida. Para alguns, a identidade social e seus modos de apresentação não se assentam exclusivamente na experiência da sexualidade. Para outros, essa dimensão ocupa um lugar central na identificação dos sujeitos, expressa na percepção e definição de sua orientação sexual e no agenciamento de tal referência em contextos públicos e privados. São exemplos de expressão das identidades sexuais em uma dimensão pública os grupos e/ou militantes do movimento LGBT2 2 De acordo com Facchini (2005) a sigla GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), atualmente renominada de LGBT, surgiu como contraponto à sigla GLS, percebida, pelo movimento social, como algo que é atribuído "de fora" por uma visão heterossexual e com pouco apelo político. a partir da luta pelos direitos sexuais e humanos e pelo respeito à diversidade sexual (Fry, 1982; Perlonguer, 1987; Parker, 1991; Heilborn, 1996; Guimarães, 2004; Cárceres, 2005; Facchini & Barbosa, 2006).

A partir da compreensão do caráter mutável das identidades sexuais, este trabalho reflete sobre as configurações das identidades sexuais entre jovens em um contexto metropolitano. O artigo focaliza as relações entre as dinâmicas de circulação dos/das jovens nos espaços pesquisados, as motivações do grupo para as interações afetivo-sexuais e os seus modos de expressão das identidades sexuais. A análise é informada pelo influencia dos marcadores sociais relacionados à inserção social, articulados ao gênero e à cor/raça3 3 Tendo em vista que existem diferentes acepções das categorias utilizadas na classificação da cor/raça, os termos serão apresentados em itálico, ora referentes às obras citadas, ora às categorias oficiais do IBGE, ora as auto-classificações dos membros da equipe e dos informantes. na conformação das práticas e identidades sexuais.

A etnografia das interações afetivo-sexuais foi realizada em contextos de sociabilidade juvenil de dois bairros da cidade do Rio de Janeiro, focalizando as representações e práticas sobre corpo, cor/raça, gênero, sexualidade e nas noções de territorialidade, num período de quatro meses. Na seleção dos espaços de sociabilidade juvenil levou-se em conta a facilidade de acesso por meio de transportes públicos, as condições mínimas de segurança e uma rede de contatos estabelecidos em estudos anteriores Com base nessas características foram privilegiados espaços de sociabilidade, especialmente com interação homoerótica, dos bairros de Madureira e da Lapa, cujas particularidades são descritas a seguir.

O bairro de Madureira é classificado socialmente como subúrbio4 4 No Rio de Janeiro subúrbio é utilizado tanto como demarcador da posição socioeconômica como estilo de vida. O ethos suburbano corresponderia à valorização do contato face a face, das redes de vizinhança, do parentesco consangüíneo e afetivo e da celebração da proximidade (Heilborn, 1984). por estar longe do Centro (cerca de 50 min) e da Zona Sul da cidade, região conhecida pelas belas praias e pela intensa vida noturna. A importância do bairro como centro de vida noturna em relação ao entorno pode ser debitada à sociabilidade fortemente associada à música. Não só o samba, mas o jongo, o pagode, além de ritmos musicais de inspiração norte-americana como o funk, o hip hop e o charme5 5 No Rio de Janeiro, o charme é conhecido como um estilo musical que tem por base a música negra norte-americana, mais especificamente o Rhythm and Blues. O Baile charme é um tipo de lazer noturno, socialmente percebido como um espaço cultural de positivação da estética negra. , que reúne em sua maioria homens e mulheres negros. O local é associado a uma das maiores arrecadações de impostos sobre consumo de mercadorias (ICMS) do Município, todavia, a região é habitada predominantemente por segmentos de classe baixa e média baixa. A maior parte dos freqüentadores da vida noturna é das classes populares, oriundos do bairro e dos arredores. Na visão dos pesquisadores, a maioria da população é constituída de pardos e pretos. A menor proporção de brancos nesse contexto é coerente com as estatísticas nacionais sobre a maior concentração de pretos e pardos nos extratos populacionais de menor poder aquisitivo. O acesso via transporte público é realizado por duas linhas férreas que vão para o Centro da cidade e demais municípios, um terminal de ônibus intermunicipal e inúmeras linhas de transportes alternativos. Tais dados indicam que Madureira é uma área um pouco mais favorecida, econômica e culturalmente, que os demais bairros da redondeza. São encontradas galerias comerciais, um amplo shopping center, um aglomerado de lojas de comércio popular, bem como antigos clubes e praças.

A Lapa, localizada no Centro do Rio, reconhecida como um dos locais tradicionais da boemia carioca, nos últimos anos, sofreu um processo de revitalização cultural, o que de acordo com os freqüentadores6 6 As recentes mudanças na Lapa podem ser ilustradas pelo movimento social Eu sou da Lapa "que tem como missão resgatar a vocação residencial do bairro. O movimento foi inspirado na campanha I Love NY, da década de 1970" [ http://pt.wikipedia.org/wiki/Eu_sou_da_Lapa]. , tem influenciado a atual conformação do público. Caracterizado pela visitação de pessoas de diversas classes sociais e localidades, o bairro abriga cinemas, teatros, bares, restaurantes e casas noturnas com estilos musicais e públicos diversos. Situado entre as Zonas Sul e Norte, encontra-se numa região privilegiada em termos de vias de acesso e de transporte público.

No que diz respeito à configuração de cor/raça, os relatos de campo informam um predomínio de pessoas de cor branca, mas ganha novos contornos quando comparada a outros espaços cidade. Em relação à Zona Sul da cidade, que concentra grupos com maior poder aquisitivo, a Lapa pode ser pensada como menos branca, mais mista e mais popular. Todavia, em comparação à população de Madureira, o bairro se torna mais branco e mais de classe média. Outra característica marcante dessa localidade remete à convivência de diversos estilos juvenis. Os jovens se distribuem pelas ruas, bares e boates em grupos relativamente homogêneos. Como há muitas casas noturnas e uma forte sociabilidade de rua, cada grupo elege sua proposta de festa e seu espaço naquele território de acordo com critérios associados ao estilo de música, poder aquisitivo, tipo de vestimenta, entre outros aspectos.7 7 A proposição implícita de uma conjunção entre espaço (o bairro, o subúrbio, a rua) e uma cultura ou universo fechado foi relativizada nesta investigação. Não coube, por conseguinte, fazer um estudo exaustivo dos bairros selecionados e sim de alguns espaços de sociabilidade e lazer noturno locais frequentados por jovens.

O trabalho de campo incluiu, além da observação participante, 12 entrevistas e 24 roteiros fechados com mulheres e homens, de 18 a 26 anos, freqüentadores desses espaços, que declararam práticas homoeróticas. Os jovens foram contatados a partir das relações estabelecidas pela equipe durante o trabalho de campo em Madureira e na Lapa. Nas entrevistas e nos roteiros fechados foram abordados dados sócio-demográficos; trajetória familiar, escolar e profissional; renda; religião; sociabilidade; relacionamentos; gênero; experiência sexual e afetivo-amorosa; conjugalidade, parentalidade e maternidade; gravidez/contracepção; saúde e DST/Aids; uso de drogas; discriminação; projetos de vida.

Entre as mulheres entrevistadas, uma se auto-definiu como "homossexual", outra como "entendida" e quatro usaram a categoria "bissexual", havendo algumas especificações, como "bissexual mais para homo" e "bi com preferência por meninas". Entre os homens, um se auto-denominou "homossexual" e cinco como "gay"; sendo que dois, além de "gay", citaram "entendido" e "homossexual". As auto-denominações atestam a amplitude das categorias utilizadas por aqueles com relacionamentos com pessoas do mesmo sexo ou de ambos os sexos, para além das categorias homo e bissexual. Sobre o termo entendido/a, Lacombe (2005) informa que o uso dessa categoria entre mulheres está relacionado ao enfrentamento do estigma social da homossexualidade e a noção de compartilhamento de um segredo.8 8 Guimarães (2004) identificou o uso da categoria "entendido" entre homossexuais masculinos das camadas médias nos anos de 1980, como forma de distinção dos denominados "bichas". Facchini e Barbosa (2006) discutem a conotação política do termo lésbica dentro do movimento social de afirmação de uma identidade sexual. A maior recorrência do termo lésbica nas pesquisas realizadas durante a Parada do Orgulho Gay do Rio de Janeiro, voltadas para a promoção da cidadania LGBT (Carrara e Ramos, 2005), reforça esse ponto de vista.

Os/as jovens contatados em Madureira residem em bairros com predomínio de pessoas com menor poder aquisitivo. Já os/as jovens encontrados na Lapa afirmam morar em bairros de perfis de renda variado. A maioria do grupo declarou ainda residir com seus pais e/ou parentes. Quanto à escolaridade foram observadas diferenças: em Madureira foram encontrados jovens com o ensino médio (incompleto e completo); na Lapa prevaleceu o contato com estudantes universitários. Na auto-classificação da cor/raça, houve variação nos termos utilizados nas respostas abertas (negro, branco, mestiço, tudo, moreno, chocolate claro, pardo). As tendências indicadas pelas entrevistas correspondem à dos roteiros fechados quanto à auto-definição da orientação sexual e da cor/raça, assim como em relação ao perfil socioeconômico.

Em suma, os dados sobre escolaridade, renda familiar, inserção no mercado de trabalho e local moradia, sugerem que os/as jovens encontrados na Lapa apresentam melhores condições de vida quando comparados aos de Madureira. As diferenças relativas à inserção social, articuladas às variações de gênero e cor, serão exploradas na análise da constituição das identidades sexuais.

As interações no campo

A equipe de campo9 9 Agradecemos a equipe responsável pelo desenvolvimento do trabalho de campo, integrada por Bruno Zilli, Diana Dianovsky, Felippe Mendonça, Igor Torres, Lady Cristina, Lisis Fernandes, Layla Peçanha e Silvia Aguião Rodrigues e coordenada por Fátima Cecchetto e Anna Paula Vencato. foi constituída por oito estudantes de graduação e pós graduação de 21 a 24 anos (com apenas uma exceção), ou seja, com faixa etária semelhante a do grupo investigado, e duas pesquisadoras, totalizando sete mulheres e três homens de diferentes cores/raças, orientação sexual e local de moradia, garantindo uma heterogeneidade na composição da equipe.

As aproximações entre a equipe e os interlocutores no campo tiveram por base a conversação mediada por freqüentadores assíduos dos espaços, pertencentes à rede de contatos dos pesquisadores, facilitando o estabelecimento de laços de confiança. O maior ou menor sucesso na interação dependeu das marcas sociais de gênero, geração, cor/raça e orientação sexual da equipe de pesquisadores, o que determinou os modos de circulação no campo.

A inserção nos espaços demandou que os pesquisadores circulassem por bares, "flanassem" nas ruas, dançassem nas boates, etc. A proposta era explorar os significados das interações afetivo-sexuais, as formas de aproximação entre pares, as estratégias de paquera, o vestuário, os padrões de consumo, etc. Uma questão recorrente era a negociação em torno do momento da explicitação da identidade de pesquisador e, principalmente, da orientação sexual. A marca geracional, por vezes, funcionou como um complicador, sobretudo entre os mais jovens da equipe, dado que a proximidade etária e os assuntos tratados promoveram interesse sexual por parte dos informantes, mesmo diante da explicitação da condição de pesquisador. Tanto na "rua" de Madureira quanto nas boates gays da Lapa, era comum os indivíduos buscarem interações erótico-sexuais com os pesquisadores, como indicado por outras pesquisas desenvolvidas em espaços com intensa interação sexual (Bolton, 1995; Parker et alii, 1995).

Nos circuitos homoeróticos da Lapa, com exceção das boates gays, foi observado que o público homossexual era menos fixo e mais diverso, sendo composto por pessoas de bairros variados da cidade. Essa característica pode justificar, em parte, a não identificação de um grupo habitué do local e a dificuldade de estabelecimento de laços mais estreitos e de maior proximidade e aprofundamento nas interações pesquisador-pesquisado.

Em ambos os campos, havia uma distinção entre o que se observava durante a semana e nos fins de semana. Ademais, determinados eventos foram impossíveis de serem acompanhados pelo fato de acontecerem exclusivamente no fim da madrugada, horário que muitos pesquisadores foram desestimulados, pelos próprios freqüentadores, a permanecer no "campo".

Em termos da classificação local da cor, os dois circuitos apresentam pontos de contato no que se refere à adoção de um sistema classificatório múltiplo (Maggie, 1996), o que denota o uso restrito de um modo de classificação bipolar (branco X negro). Todavia, em Madureira, a categoria negro é menos valorizada na escala de cores, quando comparada ao uso da mesma na Lapa, onde o termo negro parece associar-se a uma postura positiva de apresentação de si, uma forma de valorização estética da chamada "negritude". Não podemos vincular essa postura à adesão ao ideário político encontrada em grupos do movimento social negro e nas recentes políticas de recorte racial, caracterizados pela afirmação de uma identidade racial (Maio & Monteiro, 2005; Telles, 2003). Todavia, podemos supor que a conotação positiva do termo negro resulta, em parte, da visibilidade que o tema das relações raciais adquiriu no cenário nacional em anos recentes, expressa, por exemplo, pelo debate nos meios de comunicação em torno das políticas de ação afirmativa com recorte racial (Fry et alii, 2007). Considerando que a Lapa concentra diversos segmentos sociais, incluindo aqueles de maior poder aquisitivo, podemos inferir uma maior incorporação neste espaço de um discurso em torno da construção e afirmação de uma identidade racial, comparado à realidade de Madureira.

Nessa perspectiva, cabe ilustrar o caráter auto-reflexivo dos diários de campo dos pesquisadores em relação a como se comportar frente às demandas dos informantes para vínculos de amizade e/ou erótico-afetivo, decorrentes das estratégias de aproximação e contato durante o trabalho etnográfico. Alguns membros da equipe se indagaram sobre a influência da sua cor na interação e na percepção da cor dos freqüentadores dos contextos de sociabilidade. É ilustrativo que, em Madureira, a auto classificação mestiça/negra de duas pesquisadoras foi contestada pelos freqüentadores locais: "porque ser negra se você pode ser branca?".10 10 As referidas pesquisadoras têm o tom da pele moreno claro e longos cabelos encaracolados; a depender do contexto elas podem ser classificadas como branca, morena, mestiça ou negra. A proximidade de alguns pesquisadores com o círculo de amigos que freqüentavam o mesmo ambiente, especialmente na Lapa, também foi problematizada pelo fato de facilitar o acesso aos informantes, mas ao mesmo tempo deixá-los "mais expostos" e com maior dificuldade de ter um estranhamento devido à familiaridade com o grupo estudado (Velho, 1989). A heterogeneidade da equipe permitiu que esses temas fossem compartilhados e debatidos entre os pesquisadores e incorporados na análise dos dados, considerando a relevância do envolvimento intersubjetivo na pesquisa etnográfica e os desafios que representam a proximidade/distanciamento em alguns espaços sociais, como mostram reflexões do campo (Peirano, 1995; Augé, 1994).

Dinâmica da circulação nos espaços de sociabilidade

Madureira

A sociabilidade articulada à expressão do homoerotismo acontece numa pequena travessa, próxima à estação de trem – um evento público, aberto e gratuito. Este local, nomeado pelos freqüentadores como "a rua", abriga pessoas de várias partes da cidade e conta com a presença de redes, de composição cambiante, por meio das quais jovens, gays ou lésbicas se encontram para namorar, paquerar, conversar e ouvir música. Nesse ambiente, foi possível identificar o uso vernacular do espaço, ou seja, a presença que instaura um modo de estar e ser reconhecido como integrante de um circuito (Magnani, 2002). Além disso, a eleição de um circuito é influenciada por pressões do grupo, pela visibilidade de modelos, assim como pelas circunstâncias socioeconômicas.

Integra ainda este circuito homoerótico uma casa noturna conhecida como Boate Papa G (gay), que funciona de quarta-feira a domingo, sendo intensamente freqüentada por casais que se conhecem na "rua" e desejam um contato corporal mais íntimo. A boate possui vários ambientes musicais e de dança, mantendo uma programação semanal com shows variados, incluindo performances de travestis ou drag queens.11 11 Muitos depoimentos dão conta da precedência da Boate Papa G na criação do espaço de interação homoerótica na "Rua". Para mais detalhes sobre a Boate Papa G, ver www.papag.com.br

A acessibilidade, financeira e de transporte, pode ser considerada um elemento que favorece a freqüência ao circuito de interações homoeróticas na região. O deslocamento para outros lugares, especialmente na Zona Sul da cidade, para muitos dos/das jovens ouvidos, fica limitado pela falta de dinheiro ou companhia. Todavia, para além da "rua", os/as freqüentadores/as citaram outros locais preferidos em seus momentos de lazer, indicando uma circulação relativamente ampla. Os espaços foram classificados como "lugar para dançar", "lugar de pegação"12 12 Pegação, originalmente, foi associado à prática homossexual (com ou sem penetração) em locais variados – banheiros públicos, shopping centers, cinema, parques, saunas, conforme descrito por Lacombe (2005) e Rios (2003). Atualmente, o significado do termo tem sido ampliado para situações como paquera, envolvendo homo, hetero e bissexuais, particularmente entre os jovens. (ex.: boates gays de bairros próximos à Madureira), para "se divertir com amigos" e/ou lugares "de encontros para paquera e azaração", como a "quarta gay" que ocorre em um shopping do mesmo bairro. Ademais, alguns afirmaram frequentar, ocasionalmente, outros pontos de sociabilidade homoerótica no centro e na Zona Sul13 13 Na Lapa foram mencionados o Cine Ideal, a Febarg, o Sal e Pimenta e Festa de @rromba, na Zona Sul, a Bunker Le Girl e Show Bar. da cidade, bem como lugares denominados "heteros", considerados como "caretas" e definidos como "um lugar normal, sem gays".14 14 As denominações dos lugares como "hetero" ou "gay" correspondem a categorias nativas que se sobrepõem aos demais aspectos descritivos dos espaços.

Dentre as motivações relatadas para frequentar esse circuito, a "familiaridade" foi um componente recorrente nas falas. Foi frisado que "encontrar amigos e pessoas conhecidas" fazia da "rua" um ambiente parecido com a "casa", conforme a categorização dicotômica "casa" versus "rua" desenvolvida por DaMatta (1985).

O discurso da valorização da proximidade15 15 Apesar do cultivo de relações centradas na proximidade, a interação com pessoas "novas" e moradores de outros locais era bem recebida e até exaltada. e sua associação com a localidade foram sintetizados na avaliação sobre as boates gays da Zona Sul carioca, que, segundo alguns freqüentadores em Madureira, concentram grupos sociais de maior poder aquisitivo. Eles foram descritos por um entrevistado como "a galera que fica com o nariz meio em pé [esnobes]" (Madureira, gay, 24, negro). Este depoente revelou a sua não identificação com o grupo: "(...) eu não curto essa gente (...) eles são diferente da boate X, [uma casa noturna dos arredores] onde as pessoas se igualam".16 16 As legendas das falas indicam o local de contato com o/a jovem (Madureira ou Lapa), orientação sexual, idade e cor/raça auto-referidas. Nessa linha, alguns jovens afirmaram preferir os lugares freqüentados por pessoas do mesmo "nível social", onde seriam bem recebidos e aceitos. Essa preferência foi expressa na seguinte fala: "Eu costumo procurar lugares, assim, que são o meu ambiente" (Madureira, homo, 26, mestiça). Neste e em outros depoimentos foi revelado o constrangimento dos/das jovens de Madureira e dos arredores ao deslocarem-se para partes da cidade consideradas "nobres" ou de maior poder aquisitivo.17 17 Na análise da sociabilidade juvenil de segmentos médios na Feira de São Cristóvão (espaço de sociabilidade dos imigrantes nordestinos no Rio de Janeiro), Rezende argumenta que a distinção entre esses universos (camada média e popular) não produz o isolamento, mas foi apontada pelos jovens como "completamente diferente" do contexto deles (2001:6). Com base na experiência de amigas que viveram constrangimentos em um desses bairros (Barra da Tijuca na Zona Oeste da cidade), uma jovem se refere à auto-exclusão de certos ambientes percebidos como distantes de sua realidade: "porque eu sei o meu lugar, onde devo ir e onde eu não devo ir (...) fazer o que lá? Neguinho ficar zoando com a minha cara?" (Madureira, entendida, 20, morena).

As considerações acerca de uma delimitação hierárquica entre as "zonas" da cidade, com maior ou menor ênfase, corroboram a idéia de classificação simbólica entre grupos no Rio de Janeiro (Cecchetto e Farias, 2009). Assim, ser ou não ser morador de uma ou outra localidade, mais especificamente da Zona Sul, denota uma série de acusações sobre certo modo de ser e de saberes, contrastivo com os da Zona Norte. O que parece estar implícito na auto-imagem e percepção do "outro" é a demarcação das fronteiras entre "nós" e "eles" como expressão de relações sociais. A auto-exclusão da jovem de ambientes percebidos como fora de sua realidade pode indicar uma disposição social interiorizada e, portanto, uma forma de reconhecimento antecipado do preconceito nos termos de Bourdieu (1994). A percepção da oposição entre grupos de status mais elevado (estabelecidos) e aqueles em posição considerada inferior, no que concerne às relações de força (outsiders), tem sido abordada na literatura em circunstâncias sociais muito diversas (Elias & Scotson, 2000).

A percepção de diferentes padrões de sociabilidade entre os grupos integra uma visão generalizada e do senso comum que enfatiza na cultura tradicional brasileira, ainda forte nos subúrbios, a simpatia, a hospitalidade e as relações quentes, em oposição a uma postura individualista associada aos moradores da Zona Sul da cidade. Quer dizer, localidade e proximidade são aspectos valorizados pelos freqüentadores de espaços homoeróticos de Madureira. Esse conjunto de representações sobre o outro, a partir da sua localização espacial, encontra validade nos estudos sobre a cidade e os sistemas de classificação social como forma de distinção e prestígio (Velho, 1989).

Em síntese, entre os/as jovens de Madureira, as variações no modo de circulação entre os espaços de sociabilidade são definidas em função das motivações para as interações afetivo-sexuais (paquera, busca de sexo, etc.) ou convívio com a rede de amigos. Esses contextos são geralmente marcados por uma pluralidade de opções em termos de tipo de música (funk, tecno, charme) e multiplicidade de ambientes (hetero, homo, misto). Os jovens combinam suas preferências e consomem bens, na montagem dos estilos, que nem sempre significam dispêndio financeiro, haja vista que a maioria pertence a grupos de menor poder aquisitivo.

Lapa

Segundo os/as jovens contatados, a Lapa se traduz como o lugar da diversidade, não só de orientação sexual, mas de estilos musicais e nível socioeconômico. Uma das frequentadoras apontou a presença de estrangeiros ou "a galera de fora, os mochileiros que vão para lá e ficam malucos" por se sentirem atraídos por "um público específico". O específico, neste caso, significa um lugar "misturado": "ali tem de tudo, de tudo, acho impressionante, assim, a diversidade das pessoas que frequentam a Lapa" (Lapa, bi, 24, negra).

Na observação dos pesquisadores, uma parcela do público gay, que frequenta o circuito homoerótico da Zona Sul e Oeste da cidade, parece ir ao bairro da Lapa eventualmente, na busca de uma variação. A fala de um informante é ilustrativa: "é um lugar mais trash para rir um pouco". Todavia, há espaços marcadamente de interação homoerótica como as boates Cine Ideal e Cabaret Casanova. O Cine Ideal é freqüentado mais por homossexuais masculinos das classes baixa e média baixa, de diferentes faixas etárias, em sua maioria, pardos e brancos. Na boate Casanova, cuja dona é uma travesti negra, predominam pessoas das camadas populares e moradores de subúrbios, havendo mais pardos e pretos, bem como travestis. É vista como decadente pelo público de maior poder aquisitivo.

Além dessas boates, as interações homoeróticas na Lapa foram observadas em alguns bares e festas ocasionais, bem como pelos diversos flyers colhidos durante o trabalho de campo. Em contraposição à Madureira, as manifestações homo-afetivas nas ruas – beijos e contatos físicos – foram identificadas como mais raras e pontuais. Não foram localizadas ruas ou bares com concentração de sociabilidade homossexual feminina, o que limitou as interações da equipe com esse universo. Ao estudar um bar de sociabilidade lésbica no centro do Rio de Janeiro, Lacombe (2005) observou que as lésbicas circulam de forma dispersa pelos vários clubes e boates e nos pontos de socialização de homossexuais masculinos. Uma certa "invisibilidade" de locais com predomínio de lésbicas também foi registrada no estudo de Perucchi (2001).

Na Lapa, os circuitos mais heterossexuais ou mistos (homo, bi e hetero) são mais visíveis e mais frequentados por segmentos médios. As fronteiras centradas na orientação sexual parecem menos definidas, quando comparadas aos dados de Madureira, sugerindo uma maior fluidez e indefinição das marcas identitárias sócio-sexuais.

De acordo com os/as jovens, o gosto pelo "plural" se expressa na variedade de locais freqüentados para se divertir:

Eu gosto de muita coisa (...) eu vou para tudo. Eu vou para umas boates de play-boy, para a quadra de escola de samba, para Lapa (...) porque eu gosto das pessoas (...) que é um lugar que não é tão meu estilo de vida, mas mesmo assim me sinto à vontade (...) acho que sou muito camaleão (Lapa, homo, 20, negro) (grifo nosso).

Esse depoente complementa que não gosta de sair para "pegação" em "ambiente gay", "tipo boate gay", por considerar "chato" a "pessoa muito gay". Ele prefere interagir com gays "inseridos num contexto mais aberto". Com argumentos próximos, outro entrevistado afirmou não ir especificamente a nenhum lugar gay, uma vez que a "Lapa já é gay" (Lapa, gay, 24, tudo). Outra disse não ter um lugar específico para paquerar: "Acho que posso paquerar em qualquer lugar" (Lapa, bi, 24, parda). Essa tendência à indiferenciação dos espaços relaciona-se à não caracterização de uma rede ou "grupo fixo":

É porque a gente não tem um reduto gay (Lapa, bi, 24, negra).

Vou pra tudo que é lugar, de A a Z. Lugar gay, lugar hetero, cinema, praia, rave, boate, festa, Circo Voador, Lapa (...) Até micareta eu já fui (Lapa, gay, 25, pardo).

Dentre os lugares frequentados, a micareta (carnaval fora de época) foi percebida como um espaço mais refratário à diluição das marcas identitárias, conforme revela esse mesmo jovem:

tem vezes que eu acho meio, meio estranho, assim, me sinto meio peixe fora d’água. Assim, quando eu vou com amigos estritamente hetero às vezes eu fico meio confuso, mas levo numa boa. Confuso porque você acaba vivendo uma coisa ali naquelas horas onde você tá ali numa realidade que não é sua totalmente.

Tal compreensão pode estar relacionada ao fato da micareta se caracterizar por um espaço marcadamente heterossexual e de afirmação de virilidade masculina.

De maneira diferenciada, os ambientes marcadamente gays, como as boates Cabaret e Cine Ideal na Lapa, guardam algumas semelhanças com Madureira, no sentido de uma maior afirmação de uma identidade gay que pode ser atribuída a uma maior aproximação com o perfil socioeconômico. Isso não significa uma definição rígida de identidades sexuais, mas tendências que podem ser interpretadas à luz dos marcadores sociais, como a classe e gênero.

Aproximações e contrastes entre os diferentes contextos

A percepção de certa permeabilidade entre as fronteiras dos espaços "hetero" e "gay" na Lapa, embora de forma menos recorrente, também foi observada em Madureira. Um jovem que gosta de freqüentar o Baile Charme, explicou

Não é que eu goste mais, é que eu tenho mais afinidade (...) embora seja uma coisa que a princípio não seria feita para mim, já que eu sou gay, não sou hetero, já que lá não posso me expressar, mostrar para os outros o que [eu sou], mas eu me identifico mais, acho que pela questão do som também (Madureira, gay, 23, moreno) (grifo nosso).

Demais relatos revelam variações em termos dos fatores que definem a maior ou menor circulação dos jovens nos espaços marcadamente "hetero" ou "gay". Uma jovem de Madureira contou que vai a lugares "heteros" acompanhada dos amigos heteros, pois eles não freqüentam os lugares "gays". Em relação aos lugares de interação homoerótica, ela informa que vai com o "pessoal homossexual". Em função das críticas das suas amigas "lésbicas" à assunção de uma identidade bissexual, ela afirma que precisa ter "duas caras, apesar de não gostar (...); tenho que mentir" (Madureira, bi, 19, morena).

A indicação de uma rejeição da identidade bi em um círculo de convivência lésbica não foi observada nos relatos das jovens recrutadas na Lapa, auto-declaradas bi. Elas dizem não possuir uma rede bem-estabelecida de amigas lésbicas, prevalecendo o convívio com grupos de amigos mistos (homo, bi, hetero), em geral, universitários. Uma situação relativa à delimitação de espaços "hetero" ou "gay" refere-se ao forte desejo de uma depoente em conhecer uma casa noturna frequentada por "heteros", onde mulheres fazem strip-tease. "Queria ir no show Bar (...) os homens que vão são heteros para ver as streapers (...) até as barman são mulheres, segurança mulher, imagina" (Madureira, entendida, 20, morena). A depoente, que indicou preferência por meninas mais femininas, alega não ir devido ao valor do ingresso.

Outro fator que determina uma maior ou menor incursão na noite é a ideia de "fases", que comporta uma variação ligada ao tipo e ao tempo dos relacionamentos afetivo-sexuais, descritas como "fase de casado", "fase da galinhagem", fase de "só ficar" ou "só fazer sexo". Em termos da dimensão temporal, há referências a fase inicial, por vezes associada à idade, como "ter 16 anos", caracterizada pelos primeiros momentos de descoberta dos lugares. Esse período é seguido por uma maior estabilização, ilustrada pela expressão buscar "uma coisa mais certa". Nesse contexto, a categoria "casado" foi definida como uma relação mais estável, que não significa união formal ou jurídica. O "estar casado" foi qualificado como uma auto-restrição às paqueras e a demais relacionamentos.

Embora os circuitos de sociabilidade sejam influenciados pelo grupo de pares ("as várias tribos"), que se reúnem para sair ou ir na "casa de amigos" para fazer churrasco e comer pizza, quando se busca interações sexuais, essa importância adquire um sentido diferenciado. Ou seja, alguns espaços são percebidos como melhores para circular com os amigos e outros "sem os amigos", pois ampliam o exercício da liberdade e as chances de "ficar". Uma entrevistada afirma: "Eu gosto de ir sozinha por causa disso, fiquei com cinco pessoas, é ótimo" (Madureira, entendida, 20, morena). Nessa direção, os lugares denominados "pra procurar alguém" foram percebidos como desinteressantes quando se está numa relação mais estável.

Nas interações afetivo/sexuais nos espaços homoeróticos da Lapa e de Madureira foi identificado o valor da juventude enquanto um capital simbólico relevante na representação positiva de si, principalmente no circuito de paqueras, uma das características centrais da sociabilidade local. Nesses territórios, há uma freqüência relativamente ampla de pessoas das mais diversas idades, desde os recém-saídos da puberdade (15, 16 anos), até aqueles na faixa dos 40 a 50 anos. Na Lapa, em particular, foram vistos alguns estrangeiros com jovens mais moços, bem como uma apropriação específica do espaço no qual os homens mais velhos se concentram no bar, apreciando as performances juvenis na pista de dança. Não foram observados constrangimentos ou situações de submissão associada à idade, mas a faixa etária que parece ser a mais valorizada é de 18-25 anos, alvo da pesquisa em foco.

Ao estudar a tensão entre geração e identidade gay masculina moderna, Simões (2004) assinala uma tendência mais atual de revalorização de atributos do "gay maduro" ou "coroa", associados à maturidade, experiência e estabilidade financeira e emocional. Todavia, o autor reconhece que os elementos simbólicos de juventude ainda são importantes, bem como a imagem de ser bem-sucedido financeiramente. Essa análise parece coadunar com os discursos de alguns gays mais velhos abordados durante o trabalho de campo, nos quais eles reconhecem a valorização de marcas de juventude, em geral corporais, nas interações afetivo/sexuais, mas também a revalorização de marcas da "maturidade".

Sexualidade, gênero e identidade

Entre os frequentadores dos espaços de interação homoerótica de Madureira e da Lapa foram identificadas variações de estilos.18 18 Estudos sobre as juventudes contemporâneas têm verificado a diversidade com que jovens realizam a transição para a vida adulta e a importância do conceito de estilo para pensar as incorporações rápidas e efêmeras da moda, do consumo, das drogas, dos comportamentos sexuais, entre outros, que não podem ser mais interpretados somente pela perspectiva de cultura de classe. Os estilos, por sua natureza fragmentada, permitem pensar essas novas configurações, orientadas não por um projeto único, mas já em si um feixe simbólico de relações. Assim, não é possível apontar somente uma identidade para explicar os comportamentos dos grupos. Essas possibilidades de transformação do corpo e a incorporação de estilos estão mais ou menos disponíveis na sociedade globalizada e são fluidas e transitórias (Cecchetto, 2004). Aqui denominados de homoeróticos, tais estilos resultam da variedade de nomeações e representações identitárias dos jovens, relacionadas, entre outros, à assunção de uma performance de gênero (mais masculina ou feminina); à postura ou hexis corporal (Bourdieu, 1994), ao vestuário, à preferência musical. Dito de outro modo, as combinações desses marcadores sociais configuram modos de expressão de si e da vivência da homossexualidade, encarnados em um elenco de estilos enunciados por meio de termos diversos.

O universo masculino é caracterizado por contraposições entre masculinidade e feminilidade, ilustradas por termos como "machões" X "bichinhas" ou "efeminados". Há referências aos corpos mais sarados, no caso dos mais "machões", e aos corpos mais magrinhos das "bichinhas". Nas atitudes de "pegação", "pegar muito na mala" do outro é sinal de feminilidade, enquanto "ficar excitado mais rápido" indica masculinidade. Em relação às vestimentas, em geral os que usam roupas mais justas (em especial as calças) são vistos como mais femininos. Os mais "masculinos" ficam apenas de calça ou bermuda, em geral, denominados de "sarados", "barbies" ou "fortinhos", ou adotam o "básico com estilo", "boy" ou "moderninho". As camisetas mais "básicas", largas, ou modelando o corpo sem ser justas, são vistas como mais masculinas, ao passo que as mais apertadas, ou estilo "baby-look", mais femininas.

Entre o grupo de mulheres há igualmente classificações centradas nas contraposições "masculina" ou "feminina", avaliadas de acordo com uma série de atributos – jeito de se "portar" (voz e gestos), vestimentas, adereços, corpo e forma de arrumar o cabelo. Em termos mais gerais, as "mais masculinas" foram associadas ao cabelo curto, raspado ou preso, a corpos mais gordos, ao uso de tênis, de bonés, mochilas (quanto maior a mochila, mais masculina) e camisetas não justas ou compridas, calça jeans, em geral larga, ou bermudas, (o que parece ser quase uma confissão de "masculina"). Os termos "sapas bofinhos", "caminhoneira" e "machonas" são representativos desse estilo. Em oposição, as "mais femininas" foram relacionadas ao uso de mini-saias, tops curtos, camisetas justas, decotadas ou "baby-look", saltos altos, maquiagem, usos mais ostensivo de acessórios – colares e brincos –, assim como a corpos mais magros ou torneados, bem delineados pelas roupas mais justas. A denominação "lady" foi correlacionada a esse estilo. No circuito de Madureira, era comum o uso de lentes de contato coloridas e de cabelos alisados e pintados de loiro nas expressões das performances de gênero feminina entre os/as jovens. Na performance de gênero masculina, expressas pelo uso cabelo curto e corpos mais gordos, foi observada entre algumas "lésbicas" de pele mais escura, percebidas como "machonas". Uma informante, auto definida como negra, afirma preferir meninas "de pele mais clara" por serem "mais carinhosas e gostosas".

As manipulações dos traços fenotípicos na performance feminina indicam uma positivação do pólo branco, enquanto o estilo masculino foi mais percebido entre as lésbicas de pele mais escura, sugerindo a presença da cor articulada ao gênero na conformação dos estilos homoeróticos.19 19 Entre os jovens da Lapa, frequentadores de espaços hetero e mistos, podemos contrapor a positivação do polo branco com a valorização de um estética africana, identificada pelo uso do cabelo black power, colares de conta e estampas coloridas. Ainda que de forma breve, tais indicações apontam para a atualização das representações sociais acerca da associação entre pele escura, masculinidade e virilidade20 20 Em trabalho sobre casais de cores diferentes (heterocrômicos), Moutinho (2004) identificou no erotismo um componente importante para a compreensão das interações afetivo-sexuais. , em contraposição à feminilidade, pela clara e passividade.

As convenções de gênero também foram expressas nas visões e práticas dos jovens nos circuitos homoeróticos observados. Nos relatos de campo, um dos aspectos marcantes no ambiente da "rua" de Madureira refere-se à forte liberalização sexual no tocante à exibição pública de contatos físicos eróticos ("pegação") entre casais, principalmente entre gays masculinos, às vezes consumados em atos sexuais em horários mais avançados. Convergem com esse cenário a busca a múltiplos parceiros ("caça") para beijos intensos e contatos sexuais desatrelados de envolvimento afetivo. Na boate Cine Ideal da Lapa predomina um clima de dança, paquera e procura de variados parceiros, mas os contatos físicos são mais raros e discretos. A formação de casais é menos comum, apontando, à semelhança de Madureira, para relações mais efêmeras e sem vínculos afetivos.21 21 Outros estudos sobre sociabilidade homossexual masculina desenvolveram análises acerca de locais e contextos específicos onde há uma intensa liberdade sexual, ver Pelonguer (1987), Bolton (1990), Parker (1991) e Rios (2003).

Diferente da forte liberalização sexual masculina, as expressões homoeróticas das mulheres na "rua" foram registradas como mais limitadas a beijos e carícias corporais. Ademais, os relatos do universo feminino indicaram maior controle dos desejos sexuais e maior conjugação entre sexualidade e afeto. O contraste entre comportamento masculino e feminino aparece na piada estereotipada ouvida em Madureira: "O que um gay e uma lésbica levam para o segundo encontro? A lésbica as malas (sugerindo um compromisso), o gay nada, pois não tem o segundo encontro".

Na caracterização do universo feminino notamos o predomínio da associação entre afeto, comprometimento e sexualidade. Em contraposição, entre os homens prevalece o distanciamento entre sexo e sentimento e a valorização das parcerias múltiplas. Tal perspectiva é igualmente expressa pelos/as entrevistados/as da Lapa. Um deles mencionou: "É do instinto da mulher ser mais fiel" (Lapa, gay, 24, tudo). Outro afirmou valorizar relacionamentos longos e estáveis, mas aponta ter dificuldades de encontrar parceiros com os mesmos objetivos: "Eu sou um rapaz centrado no que quero (...) eu quero um namoro sério, namorar mesmo; neguinho quer transar, trepar" (Madureira, gay, 22, branco). Entre as mulheres, igualmente, houve uma diferenciação entre o instinto masculino e feminino:

Os homens têm um instinto mesmo, um instinto animal em relação ao sexo; com a mulher é uma coisa mais de amor, tem tesão (...) é físico, mas muda um pouquinho (Lapa, bissexual, 24, parda).

(...) eu acho que eu conseguiria identificar mais a promiscuidade entre eles [gays] (Lapa, bissexual, 26, branca).

os homens são bem mais promíscuos (Lapa, bissexual, 24, negra).

A percepção das experiências sociais de gênero como uma das dimensões da vida social dos jovens tem sido amplamente discutida pela literatura (Heilborn et alii, 2006; Monteiro, 2002). Nessa direção, Salem (2004) salienta a complementaridade entre os jovens das camadas populares no domínio da sexualidade ao revelar as distintas lógicas que orientam os comportamentos, no que tange às práticas sexuais, que opõem o descontrole sexual masculino, ou seja, a disposição dos homens ao "excesso", e ao controle sexual feminino, expresso pela disposição das mulheres para ter "cabeça fria". Nessa perspectiva, a traição constitui uma especificação de certa vocação masculina: "Acho que a mulher trai, mas trai muito menos (...) trai por sentimento (...) homem trai mais pelo sexo mesmo, mais pela sacanagem (...) safadeza" (Madureira, gay, 23, moreno).

Ao discutir o processo de autonomização juvenil, decorrente das mudanças no domínio da sexualidade, Bozon (2004) argumenta que a experiência de sexualidade das mulheres não provoca forçosamente uma redefinição igualitária das relações de gênero. A ocorrência da primeira relação sexual concomitante à primeira união ou relacionamento estável, declarada mais pelas jovens, ilustra como diferentes percepções relativas ao gênero podem resultar em expectativas sociais, nas quais as mulheres se posicionam com maior engajamento nos compromissos sexuais, ao passo que os homens se sentem mais livres.

Considerações finais

Nos espaços de sociabilidade, as variações na circulação espacial dos/das jovens remetem às motivações para as interações afetivo-sexuais, aos modos de expressão das identidades sociais e às percepções sobre as localidades. Entre os/as jovens contatados em Madureira, as concepções de familiaridade e acolhimento parecem conformar uma valorização das relações de sociabilidade local que se diferencia dos espaços da Zona Sul, no qual os comportamentos dos freqüentadores são percebidos como mais impessoais e, por vezes, discriminatórios. Na Lapa, além de uma maior diversidade de público e de espaços, identificamos uma maior permeabilidade nas fronteiras dos territórios "hetero" e "gays", devido ao trânsito no amplo cardápio de locais de sociabilidade e pela não afirmação de um "reduto gay", particularmente entre segmentos médios.

Os cenários descritos, ainda que refratários às fronteiras identitárias e apontem a convivência entre diferentes categorias sexuais – semelhantes aos modelos hierárquicos e igualitários descritos por (Fry, 1982)22 22 Sobre as categorias sociais relativas à sexualidade masculina no Brasil, Fry (1982) sistematiza dois modelos. No modelo hierárquico, mais comum nas classes populares , as identidades sexuais são determinadas pela associação entre os papeis de gênero (masculino X feminino) e o comportamento sexual (ativo X passivo). De forma diferenciada, o modelo igualitário ou simétrico, mais recorrente entre os grupos de maior poder aquisitivo no contexto urbano, se caracteriza pela disjunção entre a orientação sexual (homo ou heterossexual) e os papeis de gênero (masculino X feminino). No primeiro modelo, as representações das relações sexuais-afetivas, entre "homens" e "bichas" e entre "homens" e "mulheres", referem-se à dominação e submissão e não sobre a "homossexualidade" em si, indicando a rigidez da hierarquia dos papéis de gênero masculino e feminino. No segundo modelo, as identidades sexuais são discriminadas pela orientação sexual, quer dizer, o homem que se relaciona com outro homem passa a ser "entendido" ou "homossexual"; a possibilidade de "troca-troca" é permitida, instaurando, idealmente, a simetria ou a igualdade entre parceiros do mesmo sexo. e Guimarães (2004) –, não parecem apagar demais marcadores sociais, como classe, na medida em que foi observada uma maior distinção de gênero nos estilos e parcerias homoeróticas entre os jovens de menor poder aquisitivo. Em contraste, verificou-se uma maior indiferenciação entre aqueles dos segmentos médios, pela tendência a não fixidez das classificações identitárias no que concerne à área da sexualidade e de gênero.23 23 Essa perspectiva se conecta com reflexões acerca de identidades sexuais em contextos urbanos discutidas por Heilborn (1996) e abordadas, mais recentemente, no trabalho de Eugenio (2006) sobre jovens cariocas que recusam configurações identitárias fixas e estáveis.

A partir das transformações de valores em direção à modernidade, o exercício da sexualidade se une a uma redefinição do ser humano como intrinsecamente "mutável e transformável", a partir de uma relação com um mundo concebido como concreto e palpável (Duarte, 2005). Nessa direção, a afirmação de "satisfação" e "prazer" tornou-se um dos traços marcantes da denominada cultura ocidental que requalifica o "erotismo" como fonte específica de prazer. Tais representações correntes, presentes neste estudo, crescem na medida em que se impõe o ideário individualista de liberdade e autonomia em diferentes contextos de exercício da sexualidade (Vargas et alii, 2010). Nessa conjuntura, observa-se o fortalecimento dos movimentos sociais de afirmação de direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), cuja força e visibilidade são indicadas pelo crescimento e repercussão das Paradas do orgulho LGBT em diferentes cidades do país.

A análise das interações afetivo-sexuais dos/das jovens remete às reflexões sobre o espraiamento do ideário moderno nas experiências sexuais e ao modo como são produzidas conformações específicas entre os diversos segmentos sociais (Duarte, 2005). No universo pesquisado coexistem valores hierárquicos e igualitários entre os grupos sociais, que podem ganhar uma interpretação diferenciada. Tal perspectiva se aproxima dos argumentos de Heilborn (1996) sobre a presença das distinções de gênero em contextos igualitários, a partir da investigação com casais heterossexuais e homossexuais (masculinos e femininos) de camadas médias. Segundo a autora, embora os casais postulem o igualitarismo, característico do individualismo, na conformação da unidade e da dinâmica conjugal, tais arranjos atualizam as marcas de distinção hierárquicas de gênero, afeitas ao ideário tradicional.

Nessa perspectiva, o universo juvenil caracteriza-se por diversas transições, entre elas o aprendizado da sexualidade, perpassadas por um processo mais amplo de experimentação pessoal e de incorporação de valores entre parceiros, constituído pelos sistemas de normas e hierarquias sociais. Os achados sobre as interações homoeróticas juvenis urbanas sugerem permanências e mudanças nas distinções de gênero, bem como uma ampliação das experiências sexuais e uma tendência a menor fixidez das identidades sexuais. Tais constatações indicam as aproximações entre sexualidade e gênero e suas interfaces com demais marcadores sociais como classe e representações sobre a cor.

Recebido para publicação em abril de 2010, aceito em setembro de 2010. A pesquisa integra o projeto "Relações entre raça, sexualidade e gênero em distintos contextos nacionais e locais", coordenado no Rio de Janeiro pelo Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz e internacionalmente pelo CLAM/UERJ-USP-CEBRAP.

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  • 1
    Na vertente do construtivismo, as relações de gênero são consideradas um elemento prioritário para compreensão e análise da sexualidade. Outra tendência, expressa no trabalho de Butler (1999), defende uma descontinuidade no plano teórico, entre gênero e sexualidade, dado que esta associação pode conduzir a uma espécie de heterossexualização do desejo. Tal descontinuidade não significa afirmar que sexualidade e gênero estão sempre dissociados, mas que não são idênticos.
  • 2
    De acordo com Facchini (2005) a sigla GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), atualmente renominada de LGBT, surgiu como contraponto à sigla GLS, percebida, pelo movimento social, como algo que é atribuído "de fora" por uma visão heterossexual e com pouco apelo político.
  • 3
    Tendo em vista que existem diferentes acepções das categorias utilizadas na classificação da cor/raça, os termos serão apresentados em itálico, ora referentes às obras citadas, ora às categorias oficiais do IBGE, ora as auto-classificações dos membros da equipe e dos informantes.
  • 4
    No Rio de Janeiro subúrbio é utilizado tanto como demarcador da posição socioeconômica como estilo de vida. O
    ethos suburbano corresponderia à valorização do contato face a face, das redes de vizinhança, do parentesco consangüíneo e afetivo e da celebração da proximidade (Heilborn, 1984).
  • 5
    No Rio de Janeiro, o
    charme é conhecido como um estilo musical que tem por base a música negra norte-americana, mais especificamente o
    Rhythm and Blues. O Baile charme é um tipo de lazer noturno, socialmente percebido como um espaço cultural de positivação da estética negra.
  • 6
    As recentes mudanças na Lapa podem ser ilustradas pelo movimento social Eu sou da Lapa "que tem como missão resgatar a vocação residencial do bairro. O movimento foi inspirado na campanha I Love NY, da década de 1970" [
  • 7
    A proposição implícita de uma conjunção entre espaço (o bairro, o subúrbio, a rua) e uma cultura ou universo fechado foi relativizada nesta investigação. Não coube, por conseguinte, fazer um estudo exaustivo dos bairros selecionados e sim de alguns espaços de sociabilidade e lazer noturno locais frequentados por jovens.
  • 8
    Guimarães (2004) identificou o uso da categoria "entendido" entre homossexuais masculinos das camadas médias nos anos de 1980, como forma de distinção dos denominados "bichas".
  • 9
    Agradecemos a equipe responsável pelo desenvolvimento do trabalho de campo, integrada por Bruno Zilli, Diana Dianovsky, Felippe Mendonça, Igor Torres, Lady Cristina, Lisis Fernandes, Layla Peçanha e Silvia Aguião Rodrigues e coordenada por Fátima Cecchetto e Anna Paula Vencato.
  • 10
    As referidas pesquisadoras têm o tom da pele moreno claro e longos cabelos encaracolados; a depender do contexto elas podem ser classificadas como branca, morena, mestiça ou negra.
  • 11
    Muitos depoimentos dão conta da precedência da Boate Papa G na criação do espaço de interação homoerótica na "Rua". Para mais detalhes sobre a Boate Papa G, ver
  • 12
    Pegação, originalmente, foi associado à prática homossexual (com ou sem penetração) em locais variados – banheiros públicos,
    shopping centers, cinema, parques, saunas, conforme descrito por Lacombe (2005) e Rios (2003). Atualmente, o significado do termo tem sido ampliado para situações como paquera, envolvendo homo, hetero e bissexuais, particularmente entre os jovens.
  • 13
    Na Lapa foram mencionados o Cine Ideal, a Febarg, o Sal e Pimenta e Festa de @rromba, na Zona Sul, a Bunker Le Girl e Show Bar.
  • 14
    As denominações dos lugares como "hetero" ou "gay" correspondem a categorias nativas que se sobrepõem aos demais aspectos descritivos dos espaços.
  • 15
    Apesar do cultivo de relações centradas na proximidade, a interação com pessoas "novas" e moradores de outros locais era bem recebida e até exaltada.
  • 16
    As legendas das falas indicam o local de contato com o/a jovem (Madureira ou Lapa), orientação sexual, idade e cor/raça auto-referidas.
  • 17
    Na análise da sociabilidade juvenil de segmentos médios na Feira de São Cristóvão (espaço de sociabilidade dos imigrantes nordestinos no Rio de Janeiro), Rezende argumenta que a distinção entre esses universos (camada média e popular) não produz o isolamento, mas foi apontada pelos jovens como "completamente diferente" do contexto deles (2001:6).
  • 18
    Estudos sobre as juventudes contemporâneas têm verificado a diversidade com que jovens realizam a transição para a vida adulta e a importância do conceito de estilo para pensar as incorporações rápidas e efêmeras da moda, do consumo, das drogas, dos comportamentos sexuais, entre outros, que não podem ser mais interpretados somente pela perspectiva de cultura de classe. Os estilos, por sua natureza fragmentada, permitem pensar essas novas configurações, orientadas não por um projeto único, mas já em si um feixe simbólico de relações. Assim, não é possível apontar somente uma identidade para explicar os comportamentos dos grupos. Essas possibilidades de transformação do corpo e a incorporação de estilos estão mais ou menos disponíveis na sociedade globalizada e são fluidas e transitórias (Cecchetto, 2004).
  • 19
    Entre os jovens da Lapa, frequentadores de espaços hetero e mistos, podemos contrapor a positivação do polo branco com a valorização de um estética africana, identificada pelo uso do cabelo
    black power, colares de conta e estampas coloridas.
  • 20
    Em trabalho sobre casais de cores diferentes (heterocrômicos), Moutinho (2004) identificou no erotismo um componente importante para a compreensão das interações afetivo-sexuais.
  • 21
    Outros estudos sobre sociabilidade homossexual masculina desenvolveram análises acerca de locais e contextos específicos onde há uma intensa liberdade sexual, ver Pelonguer (1987), Bolton (1990), Parker (1991) e Rios (2003).
  • 22
    Sobre as categorias sociais relativas à sexualidade masculina no Brasil, Fry (1982) sistematiza dois modelos. No
    modelo hierárquico, mais comum nas classes populares
    , as identidades sexuais são determinadas pela associação entre os papeis de gênero (masculino X feminino) e o comportamento sexual (ativo X passivo). De forma diferenciada, o
    modelo igualitário ou simétrico, mais recorrente entre os grupos de maior poder aquisitivo no contexto urbano, se caracteriza pela disjunção entre a orientação sexual (homo ou heterossexual) e os papeis de gênero (masculino X feminino). No primeiro modelo, as representações das relações sexuais-afetivas, entre "homens" e "bichas" e entre "homens" e "mulheres", referem-se à dominação e submissão e não sobre a "homossexualidade" em si, indicando a rigidez da hierarquia dos papéis de gênero masculino e feminino. No segundo modelo, as identidades sexuais são discriminadas pela orientação sexual, quer dizer, o homem que se relaciona com outro homem passa a ser "entendido" ou "homossexual"; a possibilidade de "troca-troca" é permitida, instaurando, idealmente, a simetria ou a igualdade entre parceiros do mesmo sexo.
  • 23
    Essa perspectiva se conecta com reflexões acerca de identidades sexuais em contextos urbanos discutidas por Heilborn (1996) e abordadas, mais recentemente, no trabalho de Eugenio (2006) sobre jovens cariocas que recusam configurações identitárias fixas e estáveis.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Jan 2011
  • Data do Fascículo
    Dez 2010
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