Crítica social e idéias médicas nos excessos do desejo: uma análise dos "romances para homens" de finais do século XIX e início do XX

Social criticism and medical ideas on desires' excesses: a study of "novels for men" from late nineteenth to early twentieth century

Resumos

Este artigo procura analisar a produção literária pornográfica desde a segunda metade do século XIX até o início do XX no Brasil. Também conhecidos como "leitura para homens" ou "romances para homens", esses enredos alcançaram uma repercussão singular naquele período. Se, em um primeiro momento, essas narrativas, repletas de fantasias e desejos, tratavam de questões sociais e políticas, com a chegada do novo século, de modo evidente, elas passaram a estabelecer um estreito diálogo com as teorias médicas e científicas da época.

Literatura; Pornografia; História; Gênero; Raça; Classe


This article analyses the pornographic literature from the second half of the nineteenth century until the beginning of the twentieth century in Brazil. Also known as "reading for men" or "novels for men", these plots reached a singular repercussion at the time. If at first these stories, full of fantasies and desires, talked about both social and political issues, with the coming of the new century they clearly started to establish a close dialogue with current medical and scientific theories.

Literature; Pornography; History; Gender; Race; Class


ARTIGOS

Crítica social e idéias médicas nos excessos do desejo: uma análise dos "romances para homens" de finais do século XIX e início do XX

Social criticism and medical ideas on desires' excesses: a study of "novels for men" from late nineteenth to early twentieth century

Alessandra El Far

Pós-doutoranda no Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu/Unicamp, bolsista Fapesp do Projeto Temático desenvolvido no Pagu – "Gênero, Corporalidades". aleelfar@usp.br

RESUMO

Este artigo procura analisar a produção literária pornográfica desde a segunda metade do século XIX até o início do XX no Brasil. Também conhecidos como "leitura para homens" ou "romances para homens", esses enredos alcançaram uma repercussão singular naquele período. Se, em um primeiro momento, essas narrativas, repletas de fantasias e desejos, tratavam de questões sociais e políticas, com a chegada do novo século, de modo evidente, elas passaram a estabelecer um estreito diálogo com as teorias médicas e científicas da época.

Palavras-chave: Literatura, Pornografia, História, Gênero, Raça, Classe.

ABSTRACT

This article analyses the pornographic literature from the second half of the nineteenth century until the beginning of the twentieth century in Brazil. Also known as "reading for men" or "novels for men", these plots reached a singular repercussion at the time. If at first these stories, full of fantasies and desires, talked about both social and political issues, with the coming of the new century they clearly started to establish a close dialogue with current medical and scientific theories.

Key Words: Literature, Pornography, History, Gender, Race, Class.

I. Livros para todos: a proliferação de romances populares e pornográficos

Na segunda metade do século XIX, em especial a partir de 1870, o mercado editorial carioca desenvolveu-se a olhos vistos. Diversos foram os livreiros, nesse período, que decidiram unir à venda de livros, trabalhos editoriais de grande investimento. Ansiosos por uma clientela ampla e heterogênea, esses comerciantes buscavam oferecer um grande número de obras sugestivas e envolventes. Nas estantes das livrarias podíamos encontrar traduções dos folhetins franceses, de textos filosóficos do iluminismo europeu, manuais de boas maneiras, histórias infantis, livros de poesia, de orações, de direito, e, como não poderia deixar de ser, um variado arsenal de enredos pornográficos, também conhecidos como "romances para homens". Todos esses volumes eram impressos a baixos custos, podendo, assim, alcançar uma gama ilimitada de consumidores.

Com as novas tecnologias de impressão, o livro no Brasil, pouco a pouco, deixou de ser um produto caro, reservado apenas às elites abastadas e ilustradas. O uso do papel de menor qualidade, as capas brochadas e o tamanho econômico das edições conferiram aos editores a liberdade de proclamar nos jornais: "Não vale hoje a desculpa de que não se pode ler porque o livro é caro!" (Gazeta da Tarde, 22/6/1896). O famoso cronista João do Rio, que costumava perambular pelas ruas do Rio de Janeiro a fim de conseguir temas sedutores para as suas colunas nos jornais, em diversos textos, comentou sobre a proliferação de obras a preços irrisórios. Numa ocasião, ele citava o livreiro Cruz Coutinho, que junto ao seu acervo de caros livros de direito, decidia vender romances "em sofrível papel". Em sua opinião, os "reclames" para esse tipo de publicação cumpriam à risca sua tarefa. Com muito alarde, eles anunciavam as novidades e promoções do momento: "Trezentos réis! Quase o preço do Jornal do Comércio!", "Cinco tostões pelo Sigamo-lo!, uma história tão bonita", ou então como sugeria o literato, "fica pelo preço de uma limonada".1 1 "Autores e editores. As edições populares", O Dia, 02/07/1901.

Diante do novo perfil que o mercado editorial brasileiro assumia, os comerciantes de livros pornográficos aproveitavam cada vez mais os baixos custos de impressão para disseminar, em meio a uma massa irrestrita de leitores, enredos repletos de cópulas e relacionamentos afetivos considerados ofensivos aos bons costumes. Não por acaso, encontramos nas páginas de anúncio da imprensa carioca listas e mais listas de livros sob a denominação "romances para homens". Essa situação nem sempre passava desapercebida pelos jornalistas e críticos literários mais conservadores. Preocupados com o espaço que esse gênero literário ganhava a cada dia, esses homens de letras, em alto e bom tom, lançavam a público falas inconformadas e de protesto.

Um jornalista da Revista Ilustrada, escondido sob o pseudônimo Alter, em sua coluna "Livros a ler", não só desqualificava esse tipo de narrativa literária, como também exigia da polícia alguma punição. Escrevia ele, em 1883:

A Biblioteca imunda – Leituras para homens – enriquece-se a cada dia; os livros sujos brotam como cogumelos.

Certamente deve haver quem os leia: há quem os escreva.

Há gente para tudo neste mundo. (...) Eu tenho sobre a mesa um livro, cuja torpeza começa logo no título – que eu prefiro calar, para não lhe fazer o anúncio.

Indecente, porco, imoral, sem gramática, mentiroso sem estilo, sem ortografia nem vergonha, criminoso, eu denunciá-lo à polícia, se polícia houvesse para essas coisas.

E por que não deve haver um castigo para essas infâmias da especulação?

Na parte da polícia de terça-feira vi eu esta semana que a "preta Joana foi presa por estar a proferir palavras obscenas".

Por que não há de então haver uma pena para os que escrevem obscenidades, se há para os que as proferem?

O livro indecente é ainda mais perigoso do que a preta desbocada; a preta vai-se, o livro fica; as obscenidades de Joana voam, esquecem-se; as obscenidades do livro ficam escritas.

(...) Eu não os leio, atiro-os à cesta, para o lixo (Revista Ilustrada, 20/10/1883).

Embora o Código Criminal do Império (1861:203) previsse a pena de até seis meses de prisão para aqueles que ofendessem a moral pública, através do "comércio ou da distribuição, entre mais de quinze pessoas, de papéis impressos, litogravuras, estampas ou desenhos", os romances chamados para homens eram impressos e vendidos sem restrição para qualquer ponto do país. O Código Penal Republicano (1891), por sua vez, não fazia menção explícita à produção e disseminação de obras pornográficas, limitando-se, de modo genérico, a punir possíveis atentados ao pudor e ofensas públicas. Somente na década de 1920, com a promulgação do decreto-lei de número 4743, algumas regras iriam estabelecer limites mais visíveis à "liberdade de imprensa" em nosso país (Coleção das leis, 1924:169).2 2 O artigo 5º desse decreto proibia, de modo claro, a venda e a circulação de livro, folheto, periódico, gravura, desenho ou impresso de qualquer natureza que pudesse ofender a moral pública ou os bons costumes. No entanto, mesmo com a instauração de alguns poucos processos jurídicos, nenhuma punição ou medida mais severa recaiu sobre as publicações de cunho pornográfico.

Quer dizer, no Brasil as restrições a esse gênero literário repousaram basicamente no âmbito da moral. Por essa razão, temia-se tanto que as mulheres tivessem acesso a essas narrativas, tão repetitivas em seu formato, mas, via de regra, tão eficaz em seus propósitos e deleites imaginários.

II. "Romances para homens"

Como o próprio termo sugere, os enredos que recebiam tal subtítulo deveriam ser proibidos às mulheres, vistas naquela época como pessoas de personalidade frágil, por isso, suscetíveis aos encantos da narrativa. Entregues a essas histórias, as leitoras poderiam se esquecer das convenções sociais e sair em busca de emoções e afetividades distantes de sua realidade. Os homens, de modo diferente, por serem capazes de discernir o mundo da ficção do cotidiano das regras e dos bons costumes, não corriam o mesmo risco. Por isso, tinham acesso irrestrito a essas leituras.

Diante desses preceitos, não foram poucos os médicos e juristas que alertaram aos pais e maridos sobre os perigos das leituras pornográficas no imaginário feminino. O que não fariam "as mulheres de cérebro fraco entregando-se desordenadamente à leitura de romances de um erotismo perfumado e traiçoeiro?", perguntava o advogado Gilberto Sabóia (1896:20). Viveiros de Castro, conhecido professor de direito criminal na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em Atentados ao pudor, defendia um argumento semelhante. Na sua perspectiva, determinadas obras despertavam nas mulheres "curiosidades terríveis".

Duas amigas [dizia ele] se encontram, falam do romance que ambas leram, experimentam ao vivo a sensação que o escritor tão ardentemente escreveu, gostam do ensaio, transmitem adiante a descoberta, iniciando outras em segredo (Viveiros de Castro, 1895:238).

A palavra pornografia, cuja raiz etimológica significa "escrever sobre prostitutas", adquiriu no mercado editorial carioca do século XIX um sentido bem mais amplo. Ela foi emprestada às histórias que davam vez a seqüências intermináveis de fornicações e cópulas como também a todo enredo que exibisse em seu texto descrições corporais pouco sutis, namoros proibidos e menções a prazeres que feriam os bons costumes. Isso significa que, no universo literário, as obras identificadas pela expressão "para homens" variavam não apenas pelo estilo narrativo de seus autores, mas também pela quantidade de encontros sexuais descritos. O leitor carioca, entretanto, apesar de identificar esse diversificado rol de livros com um mesmo denominador comum, o da pornografia, sabia distinguir as narrativas mais sutis daquelas que apresentavam incontáveis cenas de relações sexuais relatadas em suas minúcias e detalhes. E, de acordo com as suas preferências, ele levaria uma ou outra para casa.

Mesmo sem contar, pelo menos a princípio, com o rentável público leitor feminino, "os romances para homens" conseguiam bons índices de venda, isso, graças à crescente população masculina e assalariada que se instalava diariamente na cidade do Rio de Janeiro, com o final da escravidão. Esse excedente de homens jovens, que aqui chegava muitas vezes sem mulher e filhos, foi bem visto pelos livreiros cariocas, que acharam no comércio de histórias pornográficas um filão bastante lucrativo.

O universo dos romances para homens era bastante diversificado. Muitas foram as coleções lançadas a público, os títulos de sucesso e os autores da moda. Enquanto algumas histórias enfatizavam a crítica política e religiosa, outras reforçavam o ideal de mulher livre-pensadora e independente, a liberdade de escolha sexual e as possibilidades irrestritas de satisfação sexual. No decorrer desses enredos, de modo recorrente, os ideais do casamento, virgindade, fidelidade e maternidade, tão caros aos padrões sociais da civilização ocidental daquele período, eram constantemente ignorados, questionados e transgredidos. Inúmeras foram as personagens desses romances que viveram intensamente relações amorosas pautadas no adultério, no incesto, no homossexualismo e na prostituição, sem temer quaisquer punições sociais.

No entanto, uma leitura mais cuidadosa e crítica a esse gênero literário pode nos ajudar a perceber que enquanto algumas convenções sociais eram, de fato, corrompidas, outras, por seu turno, continuam intactas, quando não sublinhadas e revalorizadas. Na verdade, esse quadro se torna mais evidente com a produção literária pornográfica do final do século XIX e início do XX. Até mesmo por dialogar de modo direto com as teorias cientificistas e darwinistas que entravam em nosso país, vários foram os "romances para homens" que pareciam seguir à risca os tratados médicos e jurídicos daquela época. Se as narrativas do início da segunda metade do século XIX enfatizavam fenômenos sociais e políticos como, por exemplo, o papel desempenhado pela mulher na sociedade e os abusos cometidos pela igreja católica, os enredos que viriam a seguir repousavam sua tônica em questões relativas ao corpo propriamente dito e ao comportamento sexual tido como desviante. Com isso, em muitos casos, exibiam aos leitores os efeitos e conseqüências de uma sexualidade considerada anormal e pervertida.

Como mostra o historiador francês Jean-Marie Goulemot, a obra pornográfica detém, acima de tudo, o objetivo de levar o leitor "ao universo implacável da paixão devoradora", incitando em sua imaginação o desejo de obter ele mesmo prazeres semelhantes àqueles descritos pelas personagens de ficção (2000:64). Porém, é preciso ter em mente que essas narrativas conseguiam o efeito desejado ao estabelecerem uma estreita comunicação com os anseios, desejos e conflitos de seu tempo. Não por acaso, os editores brasileiros, apesar de traduzirem os sucessos franceses e ingleses daquela época, tais como Teresa Filósofa e Fanny Hill, diversas vezes adaptaram essas narrativas ao cenário brasileiro. Além disso, assim que o nosso mercado editorial começou a publicar em uma escala mais representativa não faltaram, como veremos abaixo, enredos nacionais e temas mais afinados com os dilemas locais.

III. Os Serões do convento: humor e crítica social

Os serões do convento foi a obra pornográfica por excelência ao longo de toda a segunda metade do século XIX em nosso país. Seu título constava nos catálogos das principais livrarias cariocas, que costumavam vender exemplares sobre encomenda para todo o Brasil, como também no acervo dos mercadores ambulantes de livros. No prefácio de um de seus romances, Figueiredo Pimentel (1896:prefácio) ilustrava a predileção dos leitores por essas pequenas histórias, narrando o caso de um homem fino e bem-educado que, receoso de ser escutado pelas pessoas a seu redor, indagava "misteriosamente ao ouvido do caixeiro" se ele não tinha "Os serões do convento...". Aluísio de Azevedo, ao comentar sobre a atmosfera da cidade de São Luís, em um artigo de jornal no ano de 1881, dizia em tom de reclamação:

O trabalho acha-se completamente desaprumado – só se enriquece por um acaso da sorte ou por se ter inventado algum depurativo violento do sangue (...) Reimprime-se Os serões do convento – uma imundice, e procura-se nas livrarias com insistência bestial o sétimo volume de Bocage (Montello apud Corrêa, 2001:298).3 3 Agradeço à professora Mariza Corrêa por ter me indicado essa citação.

Assinados somente pelas siglas M. L., Os serões do convento foram publicados originalmente na tipografia do Bairro Alto, na cidade de Lisboa. A primeira série composta por três volumes no formato de bolso in-12º circulou tanto em Portugal como no Brasil. Alguns dicionários bibliográficos apontam para a existência de uma impressão de Os serões do convento, em tomo único no tamanho in-8º, feita no Rio de Janeiro sem a declaração de data e do nome do impressor (Paiva, 1929:107; Silva, MCMVIII, tomo XIX:209). Esse exemplar, mais tarde atribuído à livraria de Bernardo Xavier Pinto de Souza e ao ano de 1862, sugere, na verdade, a confecção de uma das primeiras edições piratas dessa obra, infringindo assim o Código Criminal do Império (1861:216), que proibia a omissão de dados referentes ao local e ao ano de impressão.

Segundo os dicionários bibliográficos, as siglas M. L., que assinavam Os serões do convento, pertenciam a José Feliciano de Castilho, irmão do grande poeta português Antonio Feliciano de Castilho (Paiva, op cit:107; Andrade, 2000:44). José Feliciano, que na altura da publicação gozava de considerável status intelectual e literário, teria escolhido tal pseudônimo para preservar, como era de costume no âmbito das publicações pornográficas, seu nome e reputação. Nascido em Lisboa, em 1810, José Feliciano mudou-se para o Rio de Janeiro em 1847, onde, ao que tudo indica, deu à luz Os serões do convento e morou até sua morte, no ano de 1879. Durante toda sua vida, exerceu uma pluralidade de atividades. Ainda em Portugal, estudou direito, medicina e filosofia, obteve cargos diplomáticos e colaborou em diversos periódicos. No Brasil, abriu banca de advogado, publicou artigos em jornais e traduziu romances.

O esmero de sua educação pode ser notado na redação de Os serões do convento. Detentor de um texto fluído, carente de rebuscamentos lingüísticos, José Feliciano de Castilho preferia metáforas e figuras de linguagem ao vocabulário vulgar designado, normalmente, para descrever o estado de excitação das personagens. Enquanto, muitos autores preferiam adotar as palavras "pica", "caralho" ou "porra" para falar, por exemplo, da genitália de suas personagens, as histórias criadas por José Feliciano adotavam as expressões "varinha de condão", "lança", "instrumento", "serpente", "furão", "apêndice varonil", que de modo indireto e bem-humorado chegavam ao mesmo significado.

Os serões do convento começavam com uma pequena introdução. Nela o narrador explicava ser aquela obra um relato verídico publicado a partir de um manuscrito deixado por um diretor de consciência de um convento feminino, da região do Minho, em Portugal. O objetivo do autor era informar, com isso, aos pais e educadores o que realmente se passava no claustro: cenas de luxúria e volúpia.

Os primeiros dois volumes reuniam histórias contadas pelas próprias freiras durante um festejo de Santo Antônio. Eram, em suma, episódios que descreviam as relações amorosas das freiras com seus funcionários leigos, maridos enganados por padres, ermitões que rompiam seus votos de castidade para deflorar jovens donzelas, haréns paradisíacos, bailes de carnaval cuja fantasia resumia-se em poções que deixavam luminosos os órgãos genitais, dentre outros. Os títulos de cada capítulo, engraçados e maliciosos – tais como, "O que umas ceroulas podem conter de pacificação", "o remédio infalível", "o dízimo das casadas", "o cabide" e "um italiano que vive da sua prenda", já adiantavam ao leitor o teor dessas histórias. Ao fim de cada serão, as freiras, bastante perturbadas com aquela sucessão de cópulas bem-sucedidas, trocavam beijos, afagos, suspiros e encaminhavam-se em duplas ou trios em direção às celas com a intenção de exercitar os feitos daquelas histórias. Dizia o narrador: "Despediram-se, abraçando-se e beijando-se".

O terceiro tomo diferenciava-se dos demais por conter uma única história intitulada "Roberto do Diabo". Nela, o jovem Roberto aplicava pequenos e divertidos truques para colocar em práticas suas endiabradas incursões sexuais. Filho de um abade com uma rendeira, Roberto aprendeu com uma tia aos 13 anos a "meter o furão na toca". Preocupado com a reputação do rapaz, que já era conhecido na vizinhança como "o terror das mulheres", o abade resolvia enviá-lo para a casa de Domingos Engrácio, famoso por desempenhar a respeitada função de "educador dos rapazes da rua". Em seu novo lar, Roberto aprontou as mais diversas confusões. Conquistou a empregada da casa, dormiu com a patroa e vingou-se da autoridade de Engrácio, delatando suas infidelidades conjugais.

Em pouco tempo, a casa do educador transformou-se num festival de coitos e cópulas. Roberto aproveitava as ausências de Engrácio para se deitar ora com Genoveva, a empregada, ora com Rufina, sua patroa. Nesse mar de felicidade, o jovem, ciente de suas habilidades, propunha às amantes estratagemas sexuais que pudessem satisfazê-los todos ao mesmo tempo, evitando qualquer cena de ciúmes entre as duas mulheres. Como "vocês bem vêem", falava Roberto, "eu não tenho senão um instrumento, porém", continuava ele, "tenho duas mãos, que também servem. Venham cá, façam como lhes eu disser":

Sentou-se, e encostou-se na palha, um pouco inclinado para trás, sentou depois sobre si a Genoveva, que ficou logo enfiada num parafuso, como o S. Jorge na sua cela; sobre as pernas de Genovena sentou a mestra, que foi abraçada pela cintura pela ex-criada, agora sua sócia, sua cúmplice, sua amiga, sua inseparável. Toda a máquina principiou a jogar com o impulso que Roberto lhe comunicava; com a peça essencial ele fazia ondular suavemente a Genoveva em quanto com as cabeças dos dedos grandes da direita e da esquerda, estava lá adiante a revolver a abertura de Rufina. As três respirações, cada vez mais freqüentes, e entrecortadas de gemidos mimosos, formavam a música e o compasso daquela dança, tanto mais bem imaginada, quanto as duas não viam olhos nenhum a observarem-nas, e desfrutava cada uma o seu prazer numa espécie de solidão.

O rapaz, quase chegado ao cúmulo do deleite, tirou as suas mãos de entre os lábios da mestra, para abraçar a sua colaboradora mais próxima, a qual, por ordem sua, lá foi com seus dedos oficiosos prosseguir em Rufina a tarefa que ele deixara em meio, e todos os três caíram, gemendo, sobre o feno, afogados em ventura (M. L., s.d., vol. III:71).

Roberto, que ao longo da trama ainda inventaria maneiras de reunir até cinco mulheres num mesmo encontro sexual, detalhava aos leitores a participação de cada um nessa maquinaria corporal destinada a satisfação conjunta dos prazeres. Como os demais livros pornográficos, ele e suas parceiras encontravam-se num estado permanente de excitação, compartilhavam de bom grado as carícias recebidas, e, sem exceção, chegavam ao orgasmo.

No entanto, apesar do narrador enfatizar o sentimento de êxtase sexual conjunto, capaz de anular nesses instantes de prazer quaisquer diferenças, hierarquias e privilégios, reconhecemos na narrativa diversos indícios que apontam para a construção de uma severa e irônica crítica social. Como vimos, logo no início da narrativa, o autor mencionava as origens de seu principal protagonista. Roberto era filho de um "abade com uma rendeira". Com essa afirmação, M. L. não só sublinhava o grave delito cometido pelo religioso, como também situava a procedência social de Roberto. Por ser filho de uma rendeira, certamente ele não poderia desfrutar de uma condição financeira confortável, nem mesmo de uma posição de destaque em sua comunidade.

Porém, detentor de qualidades sexuais extraordinárias, Roberto iria abalar, através de estratagemas ousados, essas fronteiras sociais, ridicularizando os personagens que gozavam de reputação e privilégios. Domingos Engrácio, por exemplo, cujo nome já indicava com malícia um certo comportamento efeminado, ao invés de representar a figura de um sério preceptor, surgia como "educador dos rapazes da rua", em outras palavras, como aquele que por ser mais velho e experiente iniciava sexualmente seus jovens pupilos. Depois de poucos dias em sua casa, Roberto flagrava as infidelidades conjugais de Domingos Engrácio, que rapidamente assistiria ao ruir sua autoridade moral e familiar.

Uma outra ironia aos papéis e hierarquias sociais aparecia, por exemplo, na descrição da relação sexual de Roberto com Genoveva e Rufina, citada acima. Mesmo sendo Rufina a patroa, era Genoveva quem ganhava o melhor lugar naquele intercurso sexual. Enquanto Genoveva logo se via "enfiada" no "parafuso" de Roberto, Rufina ficava um tanto à margem. Embora abraçada pela criada, Rufina, ao longo de todo o processo, era apenas tocada pelos dedos de seu jovem amante.

Em linhas gerais, Os serões do convento continham todos os ingredientes caros a esse tipo de narrativa: crítica social, boas doses de humor e pornografia. Nesse sentido, o corpo biológico não era questionado, surgia, sim, como um instrumento, uma máquina capaz de obter um prazer desmedido e que a todos satisfazia. Seguindo muitos dos parâmetros traçados pelas narrativas libertinas da França pré-revolucionária, o descrédito frente ao papel da Igreja e a severa crítica às desigualdades sociais ganhavam lugar de destaque. Por isso, da mesma forma que os monastérios e conventos surgiam nessas narrativas de ficção como lugares de orgias e práticas eróticas, homens e mulheres cercados de poder e riqueza eram constantemente desmoralizados e ridicularizados.

As diferenças de raça não apareciam nesses enredos. Na narrativa de Roberto do Diabo ou mesmo nas várias histórias contadas pelas freiras nos serões de Santo Antônio não encontramos personagens negros, mulatos ou escravos. Provavelmente, pela grande influência dos enredos europeus, as histórias traduzidas ou escritas nesse início da segunda metade do século XIX, apesar de circularem no interior de uma sociedade rigidamente escravocrata e com uma significativa população negra e mulata, apenas faziam menção a personagens brancos.4 4 Não encontrei, de fato, nos inúmeros livros que pesquisei referentes a esse período, personagens negros ou mulatos. Isso, porém, apesar de apontar para uma forte tendência literária, não anula, é claro, a possibilidade de haver algum "romance para homem" que tenha trazido para o centro de sua cena protagonistas negros ou mulatos, tendo em vista a ampla produção desse tipo de literatura em nosso país.

Ou seja, as ações de Roberto, que interagiam com o mundo ao seu redor sem "o peso do erro e do pecado"5 5 Uma análise inspiradora do personagem pícaro é feita por Antonio Candido (1993:47) no artigo "Dialética da malandragem". , caminhavam livremente pelos extremos da ordem e da desordem. Seu corpo, sempre disposto e vigoroso, não se preocupava com as conseqüências futuras. Diferente das personagens que iriam povoar os "romances para homens" do final do século XIX e início do XX, mais atentos às fragilidades e às pré-disposições de seu próprio corpo.

IV. Os casos de inversão na narrativa erótica do novo século

Em 1897, a livraria Cruz Coutinho anunciava na Gazeta de Notícias uma série de "romances para homens", entre eles um curioso título: Amar, gozar, morrer..., de um escritor anônimo que se identificava apenas pelos caracteres ***. Essa narrativa escrita em Portugal, mas também vendida no Rio de Janeiro, contava a história da jovem Amélia e o despertar da sua sexualidade. Ao espionar os encontros amorosos de sua mãe adotiva com o cavalheiro de ***, Amélia tomava rapidamente a decisão de não se casar para assim poder desfrutar com maior liberdade de todos os prazeres que a vida lhe pudesse proporcionar. "Prefiro ficar solteira", dizia ela, "gozarei por este modo de toda a minha liberdade". Apesar de repreender a filha, a condessa de ***, ainda muito jovem e bela, também havia optado, depois da morte de seu marido, pelo mesmo caminho (***, s/d).

Certo dia, Amélia, que havia aprendido nas páginas de um romance que duas mulheres poderiam gozar de inúmeros prazeres "sem o concurso de qualquer homem", passou a seduzir sua mãe adotiva, que não demorou a lhe proporcionar noites de intenso deleite. No entanto, após algumas semanas, os excessos da libido começavam a deixar marcas de decadência física no corpo da condessa. Suas faces agora eram "encovadas", seu olhar "sem brilho", seu peito "mirrado" e seus braços "descarnados". Essas descrições de um corpo decadente e abatido pelos limites ultrapassados, igualmente presente nos tratados médicos, sublinhavam os perigos de uma sexualidade desenfreada. No capítulo intitulado "Conseqüência fatal de abusos sensuais", a condessa, em plenos 25 anos, mas já em seu leito de morte, dava seu último conselho à filha:

(...) acreditando que suportaria com igual facilidade tão repetidos combates, entreguei de alma e coração a esse terrível vício que de duas mulheres fortes e belas, tantas vezes tem feito dois cadáveres. (...) Os combates do amor foram criados para indivíduos de sexo contrário. Esses cansam, fatigam, mas não matam (Id. ib.:43).

A favor do casamento harmônico e duradouro, muitos intelectuais de oitocentos, em especial, os médicos e os juristas, afirmavam a importância de um bom relacionamento sexual entre os conjugues, condenando, ao mesmo tempo, o gozo egoísta e solitário, no caso das mulheres, a prática do chamado "clitorismo" e do "tribadismo", e, entre os homens, o celibato e a pederastia.

Segundo o médico Pires de Almeida, a propagação e a voga do "clitorismo" pertenciam às moças em idade de casamento e às solteironas, que podiam praticá-lo sem qualquer "risco". Porém, advertia o médico, mais cedo ou mais tarde essas mulheres seriam vítimas dos inúmeros sintomas nefastos que, de modo inevitável, viriam à tona. Uma adepta do "clitorismo", no seu diagnóstico, teria, em breve, os "seios moles", o hálito "forte e às vezes mesmo ácido", os lábios e a gengivas descorados, olhos sem "aquela doce umidade", a tez pálida, o rosto com sardas, espinhas e tecido muscular flácido, aspectos que colocariam em evidências suas "ocupações secretas". Além disso, essas mulheres perderiam a memória, a razão e seriam levadas sem demora ao leito de morte, como bem aconteceu com a mãe de Amélia, a condessa de *** (Almeida, 1906:198-9).

O prazer alcançado nesses divertimentos poderia ainda conduzir as mulheres ao homossexualismo, denominado naquela época de "tribadismo". Nesse viés, o que era apenas uma brincadeira entre amigas, corria o sério risco de se tornar algo bastante perigoso, visto que duas mulheres apaixonadas constituiriam um típico caso de "inversão sexual", encarado com preocupação por desprezarem os principais alicerces da vida em sociedade: o casamento, a família e a maternidade. De acordo com essas premissas, o autor de Amar, gozar e morrer..., apesar de, em um primeiro momento, entreter e seduzir seus leitores narrando os prazeres experimentados pelas duas jovens, descrevia, mais tarde, como as falas cientificistas, suas terríveis conseqüências.

Os homens, por sua vez, deveriam evitar o estilo de vida celibatário, quer dizer, o cotidiano de bailes, festas e de namoros efêmeros. Esse tipo de comportamento não representava apenas uma recusa aos ideais do casamento e da família, como provocava também o crescimento de casos de aborto, infanticídio, prostituição e de doenças sexualmente transmissíveis. Nessa perspectiva médica, o corpo sofria inevitavelmente uma enorme debilidade, tornando-se fraco, impotente e "gasto".

A disseminação dessas idéias no final de oitocentos era tão eficaz que o romance intitulado Um homem gasto (1885), assinado pelo pseudônimo L. L., rapidamente ganhou espaço nas colunas da crítica literária daquele período. Tratava-se do drama de um rico brasileiro, recém-casado, que, em resposta aos anos de libertinagem, via-se impedido de consumar seu casamento. Nas palavras publicadas num jornal, faltava-lhe o "essencial para as funções matrimoniais" (A Semana, 9/5/1885). Desesperado, o protagonista, "já gasto", procurava a ajuda dos médicos para remediar sua situação. Depois de provar em vão reagentes e medicamentos, o herói enlouquecia e, em seguida, cometia o suicídio (L.L., 1885). Além de possuir cenas provocativas, Um homem gasto, anunciado como um "romance para homem", assim como Amar, gozar e morrer..., parecia acreditar nos preceitos científicos propagados na época.

O homossexualismo masculino também era considerado, na perspectiva médica, um comportamento anômalo e degenerado. Além dos atos impulsivos, os pederastas eram vítimas de perturbações mentais e de um ciúme excessivo, que muitas vezes os levavam a crimes atrozes e violentos. Ao descreverem os corpos desses homens, os cientistas ressaltavam o fato de seus órgãos genitais serem extremamente pequenos e os testículos atrofiados. Ademais, tinham a voz adocicada, gestos efeminados, e gostavam de se vestir como as mulheres em festas e em bailes de carnaval (Castro, 1895:222-4).

Semelhante às "tríbades", os "pederastas" sofriam de males como o "desequilíbrio mental", a "depravação moral" e a "loucura erótica". Isso os fazia repelir as mulheres e desejar os homens. Segundo Viveiros de Castro, a puberdade constituía uma fase decisiva. Seria nessa idade que os garotos se ligavam "nos colégios em amizades apaixonadas com seus companheiros" e escreviam uns aos outros "cartas ternas e doces". "Em seus sonhos", continuava o jurista, nunca aparecia a "imagem da mulher, são sempre as formas viris do homem que lhes excitam a imaginação e os sentidos" (Id. ib.:229-30).

Na literatura daquele período, poucos foram os enredos pornográficos que retrataram explicitamente cenas homossexuais masculinas, como, por exemplo, a história de O menino do Gouveia (1914), publicada na coleção "Contos Rápidos", do jornal O Rio Nu. Essa brochura, picante e de apenas 15 páginas, relatava, sem nada esconder, os anseios eróticos do jovem Bembem. Ainda aos 13 anos, Bembem, que nunca sentira nada por mulher alguma, apaixonava-se por seu tio, de quem era hóspede. Assim, confessava ele aos seus leitores: "O meu único pensamento era poder apreciar ereto o membro viril do titio" (Maluco, 1914:4). Depois de espionar durante uma noite o desempenho amoroso de seus tios, Bembem acordou decidido a planejar uma infalível conquista. Porém, como resposta, o jovem foi repelido por seu tio e rapidamente expulso de casa.

Sem desanimar, Bembem saiu à procura de um "fanchono", dizia ele, "em quem as minhas formas afeminadas despertassem o apetite e provocassem uma cantata" (Id. ib.:8). Foi, então, no largo do Rossio, um local conhecido por ser freqüentado pelos "frescos" de voz macia e comportamento delicado, que o jovem encontrou Gouveia, um homem mais velho e experiente, que não demorou a convidá-lo para um local distante dos olhares curiosos do público. No quarto de um hotel, relatava Bembem:

(...) deixou-me então a boca e veio sugar-me os pequenos bicos dos meus peitos. Recebi com um choque elétrico; a natureza (...) pôs-me nos seios a qualidade feminina, isto é, às carícias do Gouveia eles responderam ficando eretos, empinadinhos, tal qual como si eu fosse mulher (Id. ib.:11).

Mesmo diante dos encantos de Gouveia, uma decepção ocorria. "A minha pica", dizia Bembem, "mantinha-se como sempre estendida completamente, porém mole, flácida, mulambenta" (Id. ib.:13). Todo esforço era em vão. Isso, entretanto, não significava o final do encontro amoroso. Pelo contrário, o verdadeiro desejo de Bembem era o de ser possuído por outro homem.

Apesar do relato de Bembem descrever uma prática sexual intensamente condenada, levando os leitores a conhecer as intimidades trocadas entre dois homens, ele também corroborava com os discursos médicos e jurídicos da época que se apoiavam no determinismo biológico e na existência congênita de anomalias sexuais. Desde o início da narrativa, Bembem aparecia, não como um garoto normal, mas sim como um jovem de formas "afeminadas", o que justificaria sua atração por homens. Tal característica ganharia visibilidade no momento de sua iniciação sexual. Nesse trecho da história, a própria personagem enfatizava a "qualidade feminina" de seu corpo durante o ato sexual: os bicos eretos de seus seios contrapostos à flacidez de sua genitália. Assim como as explicações científicas daquele tempo, Bembem, independente da sua vontade, não sentia atração física por mulheres, mas sim por homens, representando, deste modo, um típico caso de "inversão sexual", ou seja, de "degenerescência biológica", que, de modo inevitável, o levaria ao universo da prostituição masculina (Green, 1999:63). Não por acaso, em O menino do Gouveia, é o próprio Bembem, um prostituto já experiente, quem conta em primeira pessoa episódios de sua adolescência.

Porém, é preciso ressaltar que se o homossexualismo feminino em Amar, gozar e morrer..., como também em muitos outros enredos desse período, aparecia nas classes abastadas, a princípio como um jogo amoroso lúdico e despretensioso, capaz de ser remediado se não levado às últimas conseqüências, o caso homo-erótico masculino encontrava-se vinculado, de modo inevitável, ao universo da prostituição e da pobreza. A jovem Amélia, mesmo tendo sido iniciada por uma mulher mais velha e experiente, continuava suas aventuras, conquistando nos círculos da nobreza novos amantes, desta vez, homens vigorosos e ricos. Bembem, diferente de Amélia, encontrava-se fadado, depois de sua aventura com Gouveia, a uma vida marginal e condenada.

No decorrer dos anos, muitos foram os romances que mantiveram a tendência de criar personagens seguindo os modelos cientificistas. Da mesma maneira que os homens, dotados de uma forte inclinação para anomalias como a pederastia, surgiam feminilizados, as mulheres entregues a uma vida de prazeres desmedidos igualmente apareciam com um aspecto masculinizado. O grande exemplo, já nos anos de 1920, era a personagem de Benjamim Costallat, Mademoiselle Cinema (1924), cujas três primeiras edições no ano de seu lançamento alcançaram a cifra de, pelo menos, 25 mil exemplares vendidos.6 6 Esses dados foram retirados do livro Fitas de Benjamim Costallat (1924).

Mademoiselle Cinema, que na verdade era uma versão brasileira do grande sucesso francês La garçonne, de V. Marguerite, viveu plenamente, aos seus dezessete anos, todos os seus desejos e caprichos sexuais. Na narrativa, essa menina com ares de garoto possuía cabelos curtos, seios miúdos, "quase imperceptíveis", e cigarro na boca. Seu comportamento sem limites deixou-a, como enfatizou o autor, "viciada", "corrompida" e "gasta" (Costallat, 1999:55). No entanto, esse mal, decorrente do desleixo e da educação deficiente oferecida por seus pais, ressaltado inúmeras vezes no decorrer do romance, poderia, segundo o narrador, ser superado.7 7 Ver Finamori, 2006. Afinal, Mademoiselle Cinema era uma menina rica, branca e advinda de uma camada social bastante privilegiada.

V. Gênero, raça e classe

É interessante perceber como os "romances para homens", de finais do século XIX e das primeiras décadas do século XX, articulam os aspectos de gênero, raça e classe. Nesse universo ficcional encontramos uma imensa e variada gama de personagens: homens ricos, empregados, prostitutas, mulheres finas e educadas, brancos, mulatos, sertanejos, todos eles envolvidos nas mais diversas fantasias e desejos sexuais. Mas, ao entrar nesse imaginário literário reconhecemos algumas repetições, que acabam por nos mostrar certas predileções e preceitos amplamente compartilhados.

Um comportamento sexual considerado pernicioso, mas, por vezes, passível de ser remediado, em geral, aparecia em personagens brancas, advindas de uma classe social abastada. Mademoiselle Cinema nascera em uma família carioca rica e influente. Seu pai, um ex-ministro da República, satisfazia todos os seus caprichos, porém ocupado com seus afazeres se eximia do encargo de educador. Assim, em meio a uma vida de luxo e prazeres fáceis, Mademoiselle Cinema entregava-se ao "vício". Isso, entretanto, não constituía algo inato ao seu corpo. Era apenas conseqüência da falta de cuidado e atenção de seus pais.

O romance O homem gasto ilustra uma situação semelhante. Após a publicação dessa história, que terminava com o suicídio do jovem bem-nascido, que ficara impotente em razão dos anos festivos da mocidade, uma forte polêmica se instaurou nos jornais da época. Na revista A Semana, escrevia um jornalista escondido sob o pseudônimo de "O Noviço":

Um homem perfeito física e intelectualmente é um forte; e um forte vence, não é vencido; resiste à corrupção, não cede a ela tão facilmente.

Se, pois, Alberto cedeu pela forma porque o romancista expõe, é que ele não passava de um ente fraco, se não vesânico, com predisposições para a crápula, e todos os vícios que o levaram ao suicídio (A Semana, 30/5/1885).

Mas, se alguma discussão ainda se fazia em torno das personagens pertencentes às classes abastadas e de cor branca, nenhum desacordo vinha à tona quando um negro ou uma mulata, proveniente das camadas mais desfavorecidas, se identificava com o mundo da prostituição e do comportamento sexual "anormal" e "invertido".

Em 1896, a Livraria do Povo anunciava, com todo alarde necessário, A mulata, "grande romance de leitura de fogo" (Gazeta de Notícias, 04/05/1896), escrito pelo novato português Carlos Malheiro Dias, em estadia no Brasil. A primeira edição, composta por cinco mil exemplares, iluminava as esperanças de sucesso do editor. Como o título já diz, o livro trazia a história de uma mulata chamada Honorina, mulher pública, que seduz o "indefeso" Edmundo, jornalista e filho de uma família rica. Edmundo apaixona-se por Honorina e, em sua companhia, inicia uma vida "malsã". Malheiro Dias ia de encontro com as teorias cientificistas do século XIX, que julgavam ser a mulata parte integrante de uma raça "decadente", justificando, assim, sua opção pelas ações perniciosas e imorais.8 8 Uma discussão mais aprofundada sobre as teorias cientificistas e as questões raciais do século XIX pode ser vista em Schwarcz (1993). No romance, poucos fatos se sucedem, permanecendo a narrativa em torno da vida promíscua de Honorina, sempre guiada por seus instintos levianos, e da sujeição de Edmundo ao mundo "pérfido da profanação sexual". O final era trágico. Edmundo morria doente, sem dinheiro, esquecido pelos amigos e parentes. Honorina, pouco depois, seguia o mesmo destino.

A mulata foi um sucesso editorial naquele período. O livro de Malheiro Dias inspirou outros romances como A crioula, uma descarada brincadeira ao título original, e Lenita: cenas pecaminosas do Rio de Janeiro. Com cenas ainda mais picantes, Lenita plagiava sem qualquer receio o enredo do literato português. A personagem central também era uma prostituta mulata "venal e traiçoeira" por quem o branco e rico Luciano, ingenuamente, havia se apaixonado.

Mesmo sem apresentar o teor da escola naturalista, vários outros "romances para homens" deram ênfase ao comportamento sexual da mulata. Na coleção "Contos Rápidos", uma pequena história chamada Na zona... narrava as aventuras de um homem, recém desempregado, obcecado pela idéia de obter intensos prazeres sexuais. Caminhando por uma área de prostituição no Rio de Janeiro, o personagem recorria, sem muito pensar, a uma francesa, "alta loura, bem pintadinha e cheiazinha de corpo" (Don Felício, s/d.:4), que, logo de cara, estabelecia certos limites. Apesar de momentos de êxtase ao lado da francesa, o narrador, ainda insatisfeito, continuava sua busca até encontrar uma mulata brasileira, por sua vez, "especialíssima", e que não lhe negou qualquer pedido. Dizia o narrador:

Mal entrei na zona e logo um mulatão, correto e apetitoso, todo dengosa, de olhar lânguido e voz harmoniosa, pegava-se pelo braço. Depois, quando já despidos, pude apreciar a mulata, fiquei satisfeito com a fazenda. Era um tipo bonita de mestiça nacional, os seios pequenos e bastante rijos (...), tinha as coxas grossas e com as pernas bem torneadas; a boca de lábios carnudos e bem sensuais (Id. ib.:7-8).

Ao contrário da prostituta francesa que fazia exatamente o combinado, a fogosa mulata deixava-se levar por seus sentimentos de prazer. Inebriada com as habilidades de seu parceiro, não só aceitava a relação anal proposta, como sugeria que ele passe a ser seu "homem". Ou seja, no mundo condenado da prostituição, era a mulata aquela quem recebia os maiores elogios do narrador, que, mesmo sem ter uma posição de destaque na sociedade carioca, passava a ser sustentado por ela. Nesse sentido, a falta de dinheiro era compensada por sua potência sexual bastante vigorosa. Como afirma Cristiana Schettini Pereira, que analisou com perspicácia inúmeros livros dessa coleção de pequenas brochuras de O Rio Nu, "o que viabiliza a posse da mulher desejada são, ao contrário do dinheiro, as características inatas do narrador: sua esperteza, sua virilidade, seus dotes físicos, sua beleza" (Pereira, 1997:195).9 9 Ver também Pereira, 2004.

Nessa mesma vertente podemos, então, acompanhar a história de Ambrósio Minhoca, o empregado pobre, vindo do sertão, de "beiços grossos" e detentor de "um formidável nariz", que não tardou em se transformar no objeto de desejo da sua patroa. Dona Zizi, seduzida pela aparência corpulenta de Ambrósio, logo se esquecia de seu marido, "um capitão de navio", obrigado pelos males de sua profissão a se ausentar de casa por longos períodos. A rudeza de Ambrósio e seus aspectos animalescos, desvalorizados em qualquer outro contexto, eram sublinhados na conquista amorosa. Apesar de ser "burro como uma besta" (d'Amour, s/d.:3), ele tornava-se, ao menos nas suas relações eróticas com Zizi, "o patrão da patroa".10 10 Faço aqui uma menção a um divertido livro publicado por O Rio Nu chamado Cenas da alcova, segundo este jornal, "interessantíssimos episódios da vida de um pobre copeiro que acaba como patrão da patroa" ( O Rio Nu, 05/03/1913).

Essas histórias escritas por homens e lidas, provavelmente, por homens de diferentes camadas sociais, tendo em vista os baixos preços e os altos índices de venda, repetidas vezes, davam visibilidade a conquistadores bem dotados, espertos e bem-sucedidos na satisfação de seus desejos, capazes de superar qualquer adversidade, sejam elas de raça ou de classe, por meio de seus estratagemas sexuais. Com exceção dos casos de homossexualismo masculino, esses homens, na falta de uma situação financeira avantajada, podiam contar com as conquistas advindas de suas qualidades sexuais. Já as mulheres, por sua vez, lidavam com uma situação um tanto diferente. Enquanto a mulher branca e rica desfrutava da possibilidade de uma bem-vinda redenção frente aos seus dias de luxúria e caprichos passageiros, a mulata, apesar de oferecer aos seus parceiros intensos prazeres, via-se fadada à prostituição e a uma vida futura cercada de sofrimento e amarguras.

VI. Considerações finais

Quer dizer, tão diferente dos "romances para homens" traduzidos ou publicados no início da segunda metade do século XIX, marcados pela aventura picaresca e pela crítica social, muitas das histórias escritas já na virada para o século XX dialogavam com os preceitos cientificistas em voga, enfatizando a performance biológica das personagens e seus comportamentos sexuais também influenciados pelos aspectos da raça e da classe.

Numa época em que os médicos e juristas aproveitavam seu crescente status intelectual e posição política privilegiada para anunciar suas reflexões sobre o país, vemos, através desses romances, a repercussão das idéias cientificistas em meio a outros grupos sociais. De certo modo, a vulgarização dessas teorias, no interior do discurso literário, nos mostra uma via de acesso ao que poderíamos chamar de imaginário popular da época, tendo em vista, que essas narrativas, por conta dos baixos preços, circulavam por camadas sociais bastante heterogêneas.

De modo geral, podemos dizer que as idéias nascidas das inquietações dessa elite pensante, com base em tantos estudos de casos e nas teorias européias de ponta, tão disseminadas pela imprensa daquele período, foram reapropriadas e disseminadas por esses autores de romances, chegando assim aos inúmeros leitores brasileiros distantes da realidade científica. O que parecia fadado a circular somente nos meios restritos de uma pequena camada social, pouco a pouco, como vimos, ganhou novas dimensões, caminhos e interpretações.

Periódicos

O Dia

Gazeta de Notícias

Gazeta da Tarde

Revista Ilustrada

A Semana

Recebido para publicação em junho de 2006, aceito em novembro de 2006.

Agradeço ao professor Sérgio Miceli, aos pareceristas incógnitos deste artigo e a todas as professoras e pesquisadoras do Pagu, que, em razão das valiosas críticas e sugestões, contribuíram de modo significativo para a versão final deste texto.

  • ***. Amar, gozar, morrer... Typographia Pudicícia, s/d.
  • ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Higiene Moral Homossexualismo: a libertinagem no Rio de Janeiro. Estudo sobre as perversões e inversões do instinto genital Rio de Janeiro, Laemmert & C., 1906.
  • ANDRADE, Adriano Guerra. Dicionário de pseudônimos e iniciais de escritores portugueses Lisboa, Biblioteca Nacional, 2000.
  • CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1993.
  • CAPADÓCIO, Maluco. O menino do Gouveia Ilha de Vênus, Casa Editora Cupido & Comp., 1914.
  • CASTRO, F. J. Viveiros de. Atentados ao pudor: estudo sobre as aberrações do instinto sexual Rio de Janeiro, Livraria Moderna, 1895.
  • CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim São Paulo, Brasiliense, 1986.
  • Código Criminal do Império do Brasil Rio de Janeiro, Typ. de Quirino e Irmão, 1861.
  • Código Penal dos Estados Unidos do Brasil Oficinas da Livraria Americana, Porto Alegre, 1891.
  • Coleção das leis Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1924.
  • CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil Bragança Paulista-SP, Universidade São Francisco, 2001.
  • COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar Rio de Janeiro, Graal, 1979.
  • COSTALLAT, Benjamim, Fitas Rio de Janeiro, Benjamim Costallat & Miccolis, 1924.
  • __________. Mademoiselle Cinema Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 1999 [1924].
  • D'AMOUR, Lucio. A pulga Ilha de Vênus, Casa editora Ilha de Vênus, s/d.
  • DARNTON, Robert. Sexo dá o que pensar. In: NOVAES, A. Libertinos e libertários São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
  • DON Felício. Na Zona... Ilha de Vênus, Casa editora Ilha de Vênus, s/d.
  • EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação. Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924) São Paulo, Companhia das Letras, 2004.
  • ENGEL, Magali. Meretrizes e doutores. Saber médico e prostituição no Rio de Janeiro (1840-1890) São Paulo, Brasiliense, 1988.
  • FINAMORI, Sabrina Deise. O gênero e a espécie: paternidade e sexualidade nas décadas de 1920 e 1940. Dissertação de mestrado, Departamento de Antropologia Social do IFCH/ Unicamp, 2006.
  • GOULEMOT, Jean-Marie. Esses livros que se lêem com uma só mão. Leitura e leitores de livros pornográficos no século XVIII São Paulo, Discurso Editorial, 2000.
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  • MOUTINHO, Laura. Razão, "cor" e desejo São Paulo, Editora Unesp, 2004.
  • PAIVA, Tancredo de Barros. Achêgas a um diccionario de pseudonymos Rio de Janeiro, J. Leite, 1929.
  • PEREIRA, Cristiana Schettini. Sexo e humor para (alguns) homens. Nossa história, ano 1, nş 7, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, maio de 2004.
  • __________. Um gênero alegre. Imprensa e pornografia no Rio de Janeiro (1898-1916). Dissertação de mestrado, Departamento de História/Unicamp, 1997.
  • PIMENTEL, Figueiredo. O terror dos maridos: scenas da alta sociedade Rio de Janeiro, Livraria Jacintho Ribeiro dos Santos, 1896.
  • ROHDEN, Fabíola. Uma ciência da diferença Rio de Janeiro, Fiocruz, 2001.
  • SABÓIA, Gilberto Ribeiro de. O lenocínio Rio de Janeiro, Typ. de Carlos Schmidt, 1896.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças São Paulo, Companhia das Letras, 1993.
  • SILVA, Inocêncio Francisco da. Diccionario bibliographico portugues Lisboa, Imprensa Nacional, MCMVIII, tomo XIX.

  • 1
    "Autores e editores. As edições populares",
    O Dia, 02/07/1901.
  • 2
    O artigo 5º desse decreto proibia, de modo claro, a venda e a circulação de livro, folheto, periódico, gravura, desenho ou impresso de qualquer natureza que pudesse ofender a moral pública ou os bons costumes.
  • 3
    Agradeço à professora Mariza Corrêa por ter me indicado essa citação.
  • 4
    Não encontrei, de fato, nos inúmeros livros que pesquisei referentes a esse período, personagens negros ou mulatos. Isso, porém, apesar de apontar para uma forte tendência literária, não anula, é claro, a possibilidade de haver algum "romance para homem" que tenha trazido para o centro de sua cena protagonistas negros ou mulatos, tendo em vista a ampla produção desse tipo de literatura em nosso país.
  • 5
    Uma análise inspiradora do personagem pícaro é feita por Antonio Candido (1993:47) no artigo "Dialética da malandragem".
  • 6
    Esses dados foram retirados do livro
    Fitas de Benjamim Costallat (1924).
  • 7
    Ver Finamori, 2006.
  • 8
    Uma discussão mais aprofundada sobre as teorias cientificistas e as questões raciais do século XIX pode ser vista em Schwarcz (1993).
  • 9
    Ver também Pereira, 2004.
  • 10
    Faço aqui uma menção a um divertido livro publicado por
    O Rio Nu chamado
    Cenas da alcova, segundo este jornal, "interessantíssimos episódios da vida de um pobre copeiro que acaba como patrão da patroa" (
    O Rio Nu, 05/03/1913).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jul 2007
  • Data do Fascículo
    Jun 2007

Histórico

  • Aceito
    Nov 2006
  • Recebido
    Jun 2006
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