Este artigo investiga as alegações dos críticos de que John Dewey negligenciou o tratamento adequado do racismo - particularmente sua cumplicidade com a “branquitude”, incluindo sua valorização da democracia americana como um exemplo do legado anglo-saxão, vista pelos críticos como uma narrativa do progresso humano do “primitivo” ao “moderno”; sua falha em abordar seus próprios preconceitos e suposições sobre o aluno e a comunidade e a evitação das realidades raciais relacionadas à “experiência negra”. Essas críticas podem ter ramificações para a filosofia para crianças, que, segundo Matthew Lipman, tem uma dívida com Dewey. Defendemos que a educação nas democracias de estilo ocidental não tem respondido adequadamente à intolerância racial e que a democracia liberal não tem correspondido aos seus ideais filosóficos de direitos e oportunidades iguais, independentemente da origem das pessoas. No entanto, argumentamos que o problema é mais profundo, que o próprio conceito de liberdade no liberalismo é um obstáculo para superar os problemas identificados pelos críticos de Dewey. Concluímos que, uma vez que a reconstrução é inerente à epistemologia pragmática, reconstruir alguns dos pressupostos que orientam a comunidade de investigação - especialmente os pressupostos sobre democracia e deliberação - tem o potencial de fortalecer o compromisso com os conceitos aborígenes de liberdade e autonomia, desafiando, assim, a crença na superioridade do pensamento filosófico liberal na democracia ocidental. Iniciamos nossa argumentação chamando a atenção para os conceitos liberais de liberdade e autonomia (como características de identidade idealizadas que constituem o fundamento da compreensão liberal da natureza humana), seguidos de críticas à visão ideal de Dewey sobre o aluno e a comunidade da sala de aula, bem como sua falha em reconhecer a existência das dinâmicas raciais. Em seguida, apresentamos o conceito político aborígene de “autonomous regard (consideração autônoma)”, um conceito central que envolve respeitar simultaneamente a autonomia dos outros e que promove uma visão de mundo relacional da comunidade e da terra. Essa cosmovisão relacional é inspirada em sistemas de conhecimento aborígenes que enfatizam a observação e interação cuidadosas, deliberadas e pacientes como um processo de compreensão de nossa relação com o mundo. Nesse sentido, eles compartilham características com a epistemologia relacional de Dewey, a interconectividade da experiência e a continuidade do mundo humano, orgânico e natural, e podem ser entendidos como precursores do pragmatismo. Assim, recorremos à pedagogia relacional para suprir as lacunas teóricas presentes na teoria e na prática de Dewey e para nos concentrarmos na experiência indígena e na colonização, especialmente nas experiências de pertencimento à terra como parte integrante da identidade, do conhecimento e das práticas culturais, incluindo a governança, o parentesco e a sociedade.
palavras-chave:
consideração autônoma; colonização; pedagogia descolonizadora; individualismo liberal; pedagogia relacional.