Resumo
O estudo objetivou comparar a percepção de aceitabilidade e viabilidade de diferentes atores da escola sobre ações de promoção de atividade física e saúde baseadas na estratégia da Escola Promotora da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (EPS-OMS). Estudo transversal com amostragem intencional das cinco regiões do Brasil. Foi utilizada a estratégia de “bola de neve”. Uma lista padronizada com ações das oito categorias da EPS-OMS foi empregada, sendo 20 ações sobre governança e política da escola e 16 sobre a organização da escola. Para cada ação, escores de aceitabilidade e viabilidade foram calculados com escala padronizada. Foram incluídos 121 participantes de todas as regiões do Brasil, sendo 15 gestores, 23 pesquisadores, 37 professores e 46 profissionais de saúde. Em comparação com os pares de outros grupos, escores negativos de aceitabilidade foram observados entre os gestores para quatro ações de políticas governamentais, uma ação sobre políticas e recursos da escola e para a oferta de serviços de saúde. Em conclusão, reduzir as disparidades de percepção entre atores da escola acerca de como ações de governança política e institucional baseadas na estratégia da EPS-OMS podem ser implementadas é fundamental para promover atividade física e saúde na escola.
Palavras-chave:
Saúde na escola; Promoção da saúde; Ciências da implementação; Estudo transversal; Saúde do jovem
Abstract
This study aimed to compare the perception of different school actors regarding the acceptability and feasibility of actions about physical activity and health promotion which were based on the Health-Promoting Schools framework from the World Health Organization (HPS-WHO). This is a cross-sectional study, with convenience sampling from all five regions of Brazil. The “snowball” strategy was used. A standardized list with actions from the eight HPS-WHO categories was used, including 20 actions on governance and 16 on school organization. For each action, acceptability and feasibility scores were calculated with a standardized scale A total of 121 participants were included in this study from all regions of Brazil: 15 school managers, 23 researchers, 37 schoolteachers and 46 school health professionals. Lower acceptability scores were observed among managers in comparison to other groups for four actions on government policies, one action on school policies and resources, and one action on the school health services. In conclusion, reducing disparities between school actors on how HPS-WHO’s governance actions can be implemented is needed to promote physical activity and health in the school context.
Key words:
School health; Health promotion; Implementation sciences; Cross-sectional study; Youth health
Resumen
Este estudio tuvo como objetivo comparar la percepción de aceptabilidad y viabilidad de diferentes actores escolares sobre acciones de promoción de la actividad física y la salud, basadas en la estrategia de la Escuela Promotora de la Salud de la Organización Mundial de la Salud (EPS-OMS). Se realizó un estudio transversal, con muestreo intencional en las cinco regiones de Brasil. Se utilizó la estrategia de “bola de nieve”. Se aplicó una lista estandarizada con acciones correspondientes a las ocho categorías de la EPS-OMS, incluyendo 20 acciones relacionadas con la gobernanza y las políticas escolares, y 16 relacionadas con la organización escolar. Para cada acción, se calcularon puntajes de aceptabilidad y viabilidad mediante una escala estandarizada. Se incluyeron 121 participantes de todas las regiones de Brasil: 15 gestores, 23 investigadores, 37 docentes y 46 profesionales de la salud. En comparación con los demás grupos, se observaron puntajes negativos de aceptabilidad entre los gestores para cuatro acciones relacionadas con políticas gubernamentales, una acción sobre políticas y recursos escolares, y la oferta de servicios de salud. En conclusión, reducir las disparidades de percepción entre los actores escolares respecto a cómo se pueden implementar las acciones de gobernanza política e institucional basadas en la estrategia de la EPS-OMS es fundamental para promover la actividad física y la salud en el ámbito escolar.
Palabras clave:
Salud escolar; Promoción de la salud; Ciencias de la implementación; Estudio transversal; Salud juvenil
Introdução
A escola tem sido reconhecida como contexto relevante para fortalecer estratégias e políticas públicas que visam a promoção da saúde de crianças e adolescentes1. Na idade escolar, a promoção de condições de vida saudáveis (incluindo a prática de atividade física e segurança alimentar) permite que crianças e adolescentes desenvolvam toda as suas potencialidades e sejam protegidas das iniquidades/vulnerabilidades que podem produzir doenças crônicas mais tarde na vida2.
O cenário escolar, no contexto das ações de saúde, sofreu mudanças ao longo dos anos por fatores políticos, sociais e históricos3. Nesse sentido, a Carta de Ottawa elenca o entendimento do território, incluindo a escola como potencializadora das políticas públicas para criar ambientes de apoio e cuidado em saúde4. Isso foi reforçado sobretudo nos anos de 1990, quando a Organização Mundial da Saúde propôs recomendações e princípios para a Escola Promotora de Saúde (EPS-OMS)5.
Após mais de 20 anos, com o desenvolvimento de experiências e a produção de evidências sobre as estratégias e recomendações de promoção da saúde na escola baseadas na proposta da EPS, a OMS publicou uma série de documentos com a descrição de padrões (adiante denominados por nós de categorias) com indicadores específicos para cada um e etapas de implementação da EPS6,7.
Nesses documentos, ações em oito categorias distintas foram recomendadas, as quais buscam fortalecer a governança (gestão de recursos e liderança) e a estruturação do contexto escolar (no currículo, na organização dos ambientes físicos e sociais e nos serviços de saúde) para favorecer a saúde e o desenvolvimento de sua comunidade. A partir dessas propostas, a OMS convocou os diferentes atores da escola (formuladores de políticas, gestores escolares, profissionais de saúde que atuam na escola, professores e estudantes) a reconhecer e se engajar na implementação de ações de promoção da saúde na escola à luz dessa proposta6,7.
Contudo, intervenções prévias com ações similares às propostas pela EPS-OMS apresentam dificuldades na sua implementação, incluindo fragilidades na aceitabilidade dos atores envolvidos (alunos, pais e funcionários) e na viabilidade (adaptação) das ações conforme realidade local, bem como o desalinhamento em relação aos objetivos e às ações da governança escolar8. Portanto, estudos que possam reconhecer elementos que favorecem a implementação de ações de promoção da saúde na escola, como a promoção de atividade física, representam parte de uma agenda de pesquisa a ser valorizada na área da saúde escolar.
As percepções dos indivíduos envolvidos influenciam como as ações serão implementadas e como elas terão impacto na rotina e nas práticas na escola9. Em particular, a avaliação da aceitabilidade permite compreender se a ação é agradável e satisfatória, o que é importante para a adoção de ações em diferentes contextos e realidades10. Não obstante, a avaliação da viabilidade contempla como uma nova ação poderá ser usada com sucesso em determinada escola, permitindo compreender as condições (formação e recursos) necessárias para implementar as ações propostas10. Nesse cenário, a implementação de ações de promoção da saúde é influenciada por múltiplos fatores, incluindo o contexto organizacional, as estratégias de implementação em cada realidade e como elas são percebidas pelas pessoas que irão aplicá-las ou recebê-las11. Portanto, compreender esses pressupostos das ciências da implementação podem apoiar a tradução das evidências sobre as estratégias a serem consideradas pelos atores escolares.
Com base nessas premissas, o estudo buscou comparar a percepção de aceitabilidade e viabilidade de diferentes atores da escola a respeito de ações de promoção da atividade física e da saúde baseadas na estratégia da EPS-OMS.
Método
Desenho e aspectos éticos de estudo
Estudo transversal envolvendo diferentes grupos de atores escolares brasileiros, aprovado pela Comissão de Ética sob o parecer 6.107.653; todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre, voluntário e esclarecido (TCLE) para participar do estudo.
População, amostragem e critérios de seleção
O presente estudo envolve uma amostra intencional, não probabilística, considerando os seguintes critérios de inclusão - adultos que autodeclararam pertencer a um dos grupos de atores interessados em saúde na escola, conforme definidos pela OMS6: 1) gestores/formuladores de educação/saúde, ou seja, que trabalham na gestão de políticas ou programas municipais, estaduais ou federais voltados diretamente à saúde na escola (por exemplo, no Brasil, os coordenadores locais ou municipais do Programa Saúde na Escola); 2) pesquisadores atuantes em instituições de ensino e pesquisa e que desenvolvem estudos científicos contemplando diretamente a saúde na escola; 3) profissionais da saúde que desenvolvem ações de promoção da saúde na escola (por exemplo, vinculados ao Programa Saúde na Escola); e 4) professores da educação básica. Foram elegíveis os participantes que atenderam a um dos critérios, independentemente da região do país, do contexto de atuação e pesquisa (ações de saúde voltadas à atividade física, prevenção da obesidade ou outros temas de saúde na escola) ou do contexto de atuação/pesquisa (escolas públicas/privadas, zonas urbanas/rurais etc.).
Foram excluídos os indivíduos que aceitaram participar da pesquisa porém responderam o questionário de forma incompleta. Buscou-se alcançar representantes de todas as cinco regiões do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste).
A estratégia bola de neve foi implementada a partir de uma lista inicial de contatos de atores da escola, incluindo contatos pessoais (e-mail ou contato telefônico) e institucionais (escolas estaduais de saúde pública) e perfil profissionais em ambientes virtuais (grupos de redes sociais)12. Para o grupo de pesquisadores, uma lista de contatos foi produzida considerando autores de publicações científicas sobre saúde na escola e atividade física e saúde. Contatos eletrônicos disponíveis nos portais eletrônicos de programas de pós-graduação em saúde coletiva, ciências do movimento humano e áreas afins das cinco regiões do país também foram abordados.
Além disso, participantes foram convidados por e-mail, mensagens de texto e publicações em redes sociais como WhatsApp e Instagram, pois são ferramentas úteis para alcance do público desejado13,14. Foram então enviados o TCLE e o questionário para os potenciais participantes. Quando finalizado o preenchimento, o participante recebia um certificado de participação e o pedido para indicações e compartilhamento da pesquisa com outros atores, a fim de alcançar novos participantes elegíveis. A seleção dos participantes foi finalizada quando a saturação foi percebida pelos pesquisadores, ou seja, as estratégias de convite e divulgação da pesquisa não culminavam mais em novos participantes12.
Coleta de dados e variáveis em estudo
A coleta de dados ocorreu no período de julho a setembro de 2023. Os participantes receberam o convite, contendo o link de acesso ao TCLE e ao questionário, após o aceite e a assinatura do TCLE, deram seguimento ao preenchimento do questionário. Este foi estruturado na plataforma SurveyMonkey, que permite um melhor controle e qualidade das respostas (ao evitar respostas não padronizadas) em levantamentos online. O questionário foi composto por diferentes seções: 1) orientações e anuência; 2) identificação dos grupos de atores; 3) percepção da aceitabilidade e viabilidade; e 4) dados sociodemográficos.
A seção do questionário de identificação tinha perguntas relativas a aspectos profissionais e sociodemográficos: nome completo, e-mail, região do país onde mora e atua, grupo de atores da escola ao qual pertence, faixa etária, estado civil, ocupação, gênero, raça/cor da pele, escolaridade, área de formação (graduação) e área de saúde na escola pela qual mais se interessa. As oito seções seguintes continham as ações de promoção de atividade física e saúde conforme as oito dimensões da EPS-OMS.
As ações foram baseadas em um estudo prévio que elaborou uma lista para contemplar ações de promoção da atividade física e saúde baseadas nas categorias da EPS-OMS15. No estudo, 24 documentos e revisões sistemáticas sobre intervenções baseadas na EPS-OMS foram consultadas e sumarizadas, incluindo experiências em escolas brasileiras, seguidos de uma análise de clareza e semântica das ações. Portanto, este estudo representava uma lista abrangente das diferentes possibilidades de ações de promoção de atividade física e saúde na escola. Ao todo foram analisadas 36 ações baseadas na EPS-OMS, sendo 20 relacionadas às quatro categorias de governança (oito sobre políticas e recursos governamentais; cinco sobre políticas e recursos da escola; três sobre governança e liderança da escola; e quatro sobre parcerias da escola com a comunidade) e 16 relacionadas às quatro categorias de organização da escola (sete sobre currículo escolar; três sobre ambiente socioemocional; três sobre ambiente físico; e três sobre serviços de saúde na escola).
Os participantes indicaram sua percepção de aceitabilidade e viabilidade para cada uma das ações. Para tanto, questões adaptadas de instrumentos de aceitabilidade e viabilidade de ações em saúde16-19 foram consideradas. A aceitabilidade incluiu cinco questões com respostas objetivas: 1) Você gostaria que esta estratégia fosse usada na sua escola/rede escolar?; 2) Quão útil você classifica esta estratégia para promover saúde e bem-estar?; 3) Quão fácil para você seria usar esta ação/estratégia?; 4) O tempo necessário para realizar esta estratégia é aceitável?; e 5) Como você classificaria sua satisfação geral com esta estratégia? Para avaliação da percepção da viabilidade, outras duas questões foram consideradas: 1) Esta estratégia é atrativa e viável para ser realizada em escolas com diferentes realidades?; e 2) Você acha que os profissionais na escola têm treinamento suficiente para usá-lo corretamente?
As opções de resposta variaram em uma escala do tipo Likert de cinco pontos16,18: -2 - “Discordo totalmente”; -1 - “Discordo”; 0 - “Tanto faz”; 3 - “Concordo”; e 4 - “Concordo totalmente”. Os valores das respostas foram organizados em polos negativos e positivos para representar a direção da percepção dos participantes sobre os questionamentos, ou seja, uma avaliação positiva ou negativa de cada questão de aceitabilidade e viabilidade. Em seguida, esses escores foram somados para gerar um escore total de aceitabilidade e viabilidade, em que pontuações mais elevadas indicam uma melhor percepção nesses dois constructos. Pela quantidade de questões para viabilidade (cinco) e aceitabilidade (duas), os escores totais de cada ação poderiam variar de -10 a 10 pontos para aceitabilidade e de -4 a 4 pontos para viabilidade.
Tratamento e análise dos dados
Os dados foram importados do SuveyMonkey para uma planilha de Excel. A avaliação dos dados válidos (completos) foi feita por um pesquisador e revisada por outro. As informações foram organizadas conforme os grupos de atores da escola, ações e categorias da EPS-OMS.
A caracterização dos participantes foi apresentada por meio das frequências absoluta e relativa, enquanto os valores de percepção foram organizados por indicadores de tendência central (média) e variabilidade (desvio padrão) (Material Suplementar 1, disponível em: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.RBVFJS).
Para melhor representação gráfica dos resultados20, os valores médios dos escores de aceitabilidade e viabilidade foram apresentados em gráficos de estilo radar. Neles é possível visualizar quão próximo do máximo e distintos são os valores médios dos escores de aceitabilidade e viabilidade em cada grupo de atores (cada linha inserida no radar) e em cada ação (cada ponta do radar). Portanto, é possível visualizar as curvas do radar (formatos, assimetrias e variações) de acordo com o grupo de atores da escola. Considerando que a quantidade de ações varia conforme a categoria da EPS-OMS, os radares elaborados têm formas geométricas distintas (triângulos, losangos, entre outras).
Em adição à análise de dados, os generalized linear models (GLM) foram utilizados para comparar os valores médios entre os grupos de atores para cada um dos escores de aceitabilidade e viabilidade. Essa análise permite apresentar parâmetros estatísticos robustos frente à distribuição dos dados gerados a partir das escalas de resposta e escores totais. Para tanto, foi escolhido o software Statistical Package for the Social Science (SPSS), considerando intervalo de confiança de 95% (IC95%) e nível de significância de p < 0,05.
Resultados
O procedimento de bola de neve permitiu alcançar 375 participantes potencialmente elegíveis, por terem acessado o formulário. Desses, 137 marcaram que aceitavam participar da pesquisa mas não deram continuidade em nenhuma das questões; sete não aceitaram participar da pesquisa; 47 só preencheram os dados iniciais (nome; e-mail; onde mora; ator da escola) e 63 não finalizaram todas as seções do questionário. Portanto, a amostra final do estudo foi composta por 121 participantes, sendo 15 gestores/formuladores de políticas e programas, 23 pesquisadores, 37 professores e 46 profissionais de saúde.
Conforme a Tabela 1, a maior parcela dos participantes era do Nordeste (61,2%), do gênero feminino (56,2%), da faixa etária de 35 a 39 anos (22,3%), de raça/cor da pele parda (42,1%), com especialização concluída (42,2%) e da área de interesse de atividade física/vida ativa (35,6%).
Os valores médios dos escores foram apresentados nas Figuras 1 e 2. Dados detalhados (média, desvio padrão e valor de p das comparações entre os grupos) são apresentados no Material Suplementar.
Gráfico radar da percepção de aceitabilidade das ações de promoção da atividade física e saúde inseridas nos oito padrões da Escola Promotora de Saúde, da Organização Mundial de Saúde (EPS-OMS), segundo os atores da escola.
Gráfico radar da percepção de viabilidade das ações de promoção da atividade física e saúde inseridas nos oito padrões da Escola Promotora de Saúde, da Organização Mundial de Saúde (EPS-OMS), segundo os atores da escola.
Na visualização gráfica e no formato das linhas no radar (ver Figura 1) é possível perceber que, de modo geral, os profissionais da saúde apresentaram maiores escores totais de aceitabilidade das ações das diferentes categorias da EPS-OMS. Isso fica visível pelas linhas tracejadas de cor cinza nas partes mais externas no radar. Nas das ações da categoria 5 (ações curriculares), os professores tiveram escores de aceitabilidade mais elevados, com distribuição no radar similar aos dos profissionais de saúde. Contrariamente, o formato das linhas do radar, com linhas com curvaturas próximas a valores menores, demonstra escores mais baixos de aceitabilidade para os demais grupos nas diferentes categorias da EPS-OMS, principalmente entre os gestores/formuladores de políticas (linhas pontilhadas de cor preta).
Na viabilidade (ver radares da Figura 2), o formato das linhas de cada grupo de atores demostra importantes variações no escore de viabilidade entre os grupos e as ações das categorias da EPS-OMS. Embora os profissionais da saúde (linhas tracejadas de cor cinza) tivessem maiores escores de viabilidade em boa parte das ações e categorias, houve sobreposições das linhas em vários gráficos do radar; ou seja, outros grupos com maiores escores de viabilidade para determinada ação. Por exemplo, na categoria de ações curriculares, os pesquisadores (linhas com traços e pontos de cor cinza) tiveram escores médios próximos de zero na ação “planejar e executar aulas que incluem metodologias ativas”, e escores de viabilidade mais próximos dos demais grupos para outras ações.
Na comparação estatística entre os grupos de atores da escola, piores escores de aceitabilidade foram observados entre os gestores de saúde/escolares para quatro ações da categoria da EPS-OMS sobre políticas e recursos governamentais, a saber: “apoiar a implementação de ações de saúde nas redes de ensino e escolas” (p-valor = 0,05), “criar um sistema organizacional de planejamento, monitoramento, desempenho e revisão” (p-valor = 0,03), “priorizar recursos financeiros do governo” (p-valor = 0,02) e “estabelecer parcerias intersetoriais” (p-valor = 0,01). Piores escores de viabilidade foram observados para os pesquisadores em uma ação da categoria da EPS-OMS sobre currículo da escola: “planejar e executar aulas que incluem metodologias ativas”. Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de atores da escola para as outras ações das categorias da EPS-OMS.
Discussão
Os resultados do presente estudo revelaram similaridades entre os atores da escola na percepção de indicadores de implementação (aceitabilidade e viabilidade) de boa parte das ações de promoção de atividade física e saúde baseadas na EPS-OMS. Contudo, em quatro das oito ações sobre governança institucional e escolar foram percebidas como de menor aceitabilidade pelos participantes que atuam diretamente como gestores de políticas e programas de educação/saúde, em comparação com os pares que assumem outras funções/papéis na escola. Isso demonstra que a complexidade de promover atividade física e saúde na escola é percebida de maneira desafiadora pelos atores que atuam diretamente no planejamento e na gestão escolar. Estes achados enfatizam a necessidade de fortalecer a implementação de ações voltadas à governança e à gestão escolar que favoreçam a promoção da saúde no contexto escolar.
Houve diferentes percepções entre os profissionais da saúde e gestores em diferentes ações avaliadas. Enquanto os profissionais da saúde apresentaram maiores escores de aceitabilidade das ações, ocorreu o inverso entre os gestores. Uma possível explicação envolve a pouca difusão dessas estratégias no Brasil. Estudo21 apontou incompreensão em parcela de gestores quanto à amplitude das ações que envolvem a promoção da saúde, principalmente em relação à intersetorialidade - um desafio a ser superado. Isso gera comportamentos limitados a parcerias, com acordos frágeis no que diz respeito a encaminhamentos, compartilhamentos de alguns recursos materiais e humanos22.
Outra possibilidade envolve a formação de profissionais para assumir cargos de gestão nos setores da saúde e educação. Muitas vezes o processo de formação inicial e continuada não permite que competências profissionais específicas para esse campo sejam desenvolvidas21. Quando inseridos nas funções de gestão dos setores, as dificuldades da formação se alinham com os desafios financeiros, de recursos humanos e de infraestrutura. Portanto, mudanças advindas de novas tecnologias e propostas que agregam complexidade ao processo de trabalho, como as da EPS-OMS, enfrentam resistências e dificuldades de implementação21.
A promoção da saúde que visa a construção de EPS-OMS deve ter estratégias que visam agregar as competências, os recursos e a rotina de trabalho de gestores. Para isso, é necessário um processo em que os gestores adquiram e adotem conhecimentos, competências e práticas para agir com outros atores da escola, com o devido suporte para sua implementação e reconhecimento das práticas exitosas que ocorrem nos contextos escolares. Assim, as ações de governança política e da escola poderão ser implementadas e impactar positivamente quando os gestores estiverem envolvidos na apropriação de habilidades decorrentes do desenvolvimento de ações de promoção da saúde.
Considera-se que as práticas intersetoriais podem contribuir para uma melhor compreensão dos papeis e ações de promoção de saúde, o que acarretará a melhoria das condições de saúde da comunidade escolar a longo prazo21. No entanto, os desafios de colocar a intersetorialidade em prática não se restringem apenas aos gestores. Em relação à gestão e ao trabalho em saúde na escola, há o desafio de estabelecer uma prática integrada, considerando que o setor saúde, isoladamente, não é capaz de efetivar a promoção da saúde, uma vez que não contemplaria os determinantes sociais da saúde23.
Os pesquisadores apresentaram piores escores de viabilidade para ações curriculares que incluem metodologias ativas, quando comparados aos demais grupos. Esse achado indica a existência de possíveis distanciamentos entre a percepção dos profissionais dos serviços e a dos pesquisadores que estudam o objeto em análise acerca das estratégias de promoção da saúde na escola. Para superar essa realidade, devem ser incentivadas pesquisas que priorizem o diálogo com os profissionais e outros atores do contexto escolar, tais como investigações qualitativas que busquem compreender fenômenos decorrentes de desalinhamentos e da falta de colaboração para a transformação das realidades escolares. Ao pesquisador cabe estabelecer relações horizontalizadas, buscando compreender as limitações de cada postura epistemológica e considerar a si próprio como ferramenta da pesquisa24.
Nota-se melhor avaliação das ações de aceitabilidade pelos grupos de profissionais de saúde. Isso pode significar um aprimoramento dos paradigmas formativos para profissionais de saúde, com foco em um modelo direcionado para práticas de promoção da saúde24. Esse achado indica a complexidade dos aspectos formativos que se interconectam com saberes curriculares, saberes experienciais da vida cotidiana e profissional e o reconhecimento dos determinantes sociais, econômicos, culturais, ambientais e políticos na produção da saúde26. Esses processos evidenciam a práxis como uma dinâmica entre os aspectos teórico-conceituais e as metodologias práticas que (re)produzem ações de promoção da saúde, estimulando ações intersetoriais como a estratégia da EPS-OMS23.
No Brasil, constatam-se avanços em prol de aspectos intersetoriais, como a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) e a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNERS), que podem estar impactando o desenvolvimento profissional ao favorecer o reconhecimento do trabalho como espaço de aprendizagem e a importância de formação específica para a promoção da saúde27,28. Sob esse prisma, observam-se, no contexto brasileiro, esforços nos currículos de formação profissional com a criação das residências e mestrados que valorizam aspectos formativos para a área da promoção da saúde. Nesse sentido, leva-se em consideração a substituição da lógica biologicista (de uma intervenção descontextualizada) por uma perspectiva ampliada e holística do desenvolvimento humano que leva as pessoas a refletir sobre os objetos em seu contexto e sua complexidade29.
Professores tiveram escores de aceitabilidade e viabilidade semelhantes aos demais grupos em todas as ações. Entretanto, em uma interpretação dos dados dentro deste grupo para as ações curriculares da EPS-OMS, escores médios foram mais próximos dos valores máximos para aceitabilidade do que para viabilidade. Isso reflete parte dos desafios conjunturais e estruturais relacionados à implementação de ações de saúde na escola no Brasil, em particular a falta de articulação dos currículos de formação de professores com a imersão nas temáticas de saúde e em outros temas que permeiam a vida. Essa lacuna pode fazer com que muitos professores se concentrem exclusivamente nas habilidades específicas dos componentes curriculares e se tornem resistentes à inclusão desses temas nas aulas de forma transversal. Além dos desafios do processo formativo de professores, a falta de recursos e de estrutura em muitos contextos tem inviabilizado a implementação de estratégias que envolvam práticas inovadoras de promoção da saúde nas ações curriculares30.
Os achados do presente estudo reforçam a necessidade de novas pesquisas que contribuam para apoiar políticas e práticas de saúde na escola baseadas na EPS-OMS. Futuros estudos devem focar processos (por exemplo, por meio de pesquisa-ação) que favoreçam o engajamento e o desenvolvimento das competências de gestores e da comunidade escolar para lidar com a governança e as práticas intersetoriais de saúde na escola. Podem também aprofundar ações como a oferta de formação permanente e o apoio com recursos, para que os participantes possam aprimorar sua percepção de competência e ampliar os recursos necessários à implementação de ações baseadas na EPS-OMS. Isso é necessário para ampliar ações em escolas brasileiras que garantam a intersetorialidade e o protagonismo dos diferentes atores na promoção da atividade física e da saúde na escola.
Este estudo teve maior concentração de participantes da região Nordeste do Brasil, o que limita a extrapolação dos resultados para cenários de outras regiões e sua representatividade nacional. Um melhor alcance de contextos representativos e daqueles com baixo número de participantes (pesquisadores e gestores) pode ser obtido por meio de outras estratégias de divulgação (por exemplo, contatos durante eventos científicos presenciais ou encontros nacionais), uma vez que as estratégias virtuais foram limitadas para alcançar um número elevado de participantes de outras regiões e desses grupos. Não obstante, estudos futuros podem considerar o detalhamento de diferentes temáticas de saúde para os atores da escola, uma vez que, mesmo entre os sete temas majoritários, uma parcela importante dos participantes se identificou como especialista em “outros” temas. Portanto, pesquisas futuras devem considerar esses aspectos para ampliar o conhecimento sobre a pluralidade dos territórios e das possibilidades de promoção da saúde na escola.
Conclusão
O presente estudo evidenciou que os profissionais de saúde, quando comparados aos outros grupos de atores da escola (gestores, professores e pesquisadores), tiveram uma melhor percepção de aceitabilidade de quatro das oito ações sobre políticas e recursos governamentais da EPS-OMS. Ao mesmo tempo, a análise gráfica permitiu identificar que gestores apresentavam baixos escores médios de aceitabilidade e viabilidade das ações baseadas na EPS-OMS. Não obstante, pesquisadores de saúde na escola têm uma melhor percepção da viabilidade de uma das ações curriculares, quando comparados aos professores, gestores e profissionais da saúde.
Essas diferenças revelam a importância de políticas, programas e pesquisas que apoiem a implementação de futuras ações da EPS-OMS no Brasil. Em particular, com ações envolvendo e fortalecendo o protagonismo dos múltiplos atores da escola (gestores, professores, profissionais, familiares, estudantes e pesquisadores), mobilizados para decisões e ações intersetoriais de promoção da saúde. Também há a necessidade de maior investimento em políticas públicas, com financiamento de recursos e desenvolvimento de formações para os profissionais que assumem a governança escolar e o trabalho pedagógico na escola e nas redes de ensino. Ações para reduzir essas disparidades entre atores da escola sobre como ações baseadas na EPS-OMS podem ser implementadas podem representar uma estratégia promissora para ampliar a promoção da atividade física e da saúde na escola no contexto brasileiro.
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Legenda: linhas pontilhadas indicam os gestores/formuladores de políticas e programas de educação/saúde (n = 15); linhas com traços e pontos indicam pesquisador(a)/especialista em saúde na escola (n = 23); linhas com tracejado menor contínuo indicam professor(a) na educação básica (n = 37); e linhas com tracejado maior contínuo indicam profissional de saúde que realiza ações de saúde na escola (n = 46).Notas: as ações com * indicam p-valor < 0,05. As ações foram simplificadas nas figuras, porém estão com a escrita completa no material suplementar.Fonte: Autores.

Legenda: Linhas pontilhadas indicam os gestores/formuladores de políticas e programas de Educação/Saúde (n=15); linhas com traços e pontos indicam pesquisador (a)/especialista em saúde na escola (n=23); linhas com tracejado menor contínuo indicam professor (a) na Educação Básica (n=37) e linhas com tracejado maior contínuo indicam profissional de saúde que realiza ações de saúde na escola (n=46).Notas: As ações com * indicam p-valor < 0,05. As ações foram simplificadas nas figuras, porém estão com a escrita completa no material suplementar.Fonte: Autores.