| A interseccionalidade como ferramenta analítica |
A interseccionalidade parte das construções dos ativismos sociais, especialmente de mulheres, que, embora dialogada e nomeada por Kimberlé Crenshaw no início da década de 1990, foi pensada e utilizada anteriormente por mulheres segregadas pela raça, sexualidade e classe social, ou seja, pelas negras, chicanas, asiático-americanas e indígenas que já haviam produzido conhecimentos sobre as opressões interseccionais. A interseccionalidade permite a compreensão de que há singularidades e diferenciações nos grupos sociais que devem ser complexificadas em suas análises teóricas críticas. Ela, enquanto suporte de análise, possibilita a compreensão da realidade social de maneira crítica: “é uma forma de entender e explicar a complexidade do mundo, das pessoas e das experiências humanas”3 (p. 245). A partir das intersecções das opressões relativas a raça, classe social, gênero, sexualidade, geração, entre outras, tece compreensões críticas com a finalidade de proporcionar e garantir a justiça social e a democracia. Outro destaque é que o contexto capitalista e o desenvolvimento das políticas neoliberais são o cerne da análise interseccional, isto é, as abordagens históricas e macrossociais são fundantes para o aprofundamento das intersecções das opressões. |
| Temas centrais para as análises interseccionais |
| Desigualdade social |
A desigualdade social como construção histórica não deve ser naturalizada, pelo contrário, compreender sua gênese proporciona os entendimentos de como a vida social opera na sociedade capitalista. Da mesma maneira, possibilita a compreensão das resistências de grupos sociais nos enfrentamentos face às desigualdades sociais. |
| Intersecções das relações de poder |
As relações de poder são vistas como dinâmicas e interseccionais, isto é, as opressões de raça, classe social, gênero, deficiência, nacionalidade, entre outras, se relacionam entre elas e influenciam a vida de grupos sociais, como nos casos do racismo, sexismo, xenofobia, colonialismo, patriarcado, explorações de classe etc. Não apenas as formas de opressões, mas as resistências são um ponto de discussão primordial para a interseccionalidade. Em síntese, a abordagem interseccional permite a práxis crítica da realidade social e complexifica as relações de poder e as desigualdades sociais. |
| Contexto Social |
As análises do contexto social propiciam as reflexões históricas e políticas que subsidiam a interseccionalidade. A historicidade e as especificidades do contexto social permitem conhecer os engendramentos de cada sociedade ou grupo social. |
| Relacionalidade |
Para além de um pensamento binário, a relacionalidade integra saberes históricos, sociais e individuais, de maneira interconectada. Consequentemente, saber-fazer e teoria-prática estão inter-relacionados, significando que são tidos como faces de uma mesma moeda. A partir disso, é possível usar a relacionalidade como estratégia para se compreender as resistências e os conhecimentos produzidos pelos movimentos sociais diante das opressões. |
| Complexidade |
A complexidade como um tema importante da interseccionalidade diz respeito às análises mais abrangentes e subsidiam esmiuçar relações de poder, contexto, desigualdades sociais e relacionalidade. É um aporte para a expansão das análises críticas, sobretudo quando há valorização também das experiências e da construção dos conhecimentos produzidos pelo Sul Global. |
| Justiça Social |
A justiça social subsidia as análises interseccionais com vistas à construção do conhecimento, para que seja mais democrático e ético e escute as vozes de pessoas destituídas de direitos. Com isso, a garantia de justiça social perfaz a construção ética dos saberes. |