O novo normal no Vale das Ninfas: a COVID-19 e os circuitos de sociabilidade gay na região metropolitana do Recife/PE, Brasil

The new normal in Vale das Ninfas: COVID-19 and the gay sociability circuits in the metropolitan region of Recife, State of Pernambuco, Brazil

Luís Felipe Rios Karla Galvão Adrião Cinthia de Oliveira José Ítalo Francolino Matheus Coelho Ingrid de Melo Silva Mateus Souza Araujo Carlota Parra Sobre os autores

Resumo

O texto aborda os circuitos de sociabilidade de homens que fazem sexo com homens, na Região Metropolitana do Recife durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19. Em março de 2020, com a chegada da doença ao Brasil, um primeiro movimento foi caracterizado pelo deslocamento das interações para a dimensão on-line. A partir de junho, após distanciamento social mais rigoroso, as interações sexuais offline, a social na casa de amigos, a volta aos bares e a sociabilidade na rua foram sendo, nessa ordem, retomadas na esteira do que acontecia na sociedade abrangente. No descompasso entre o discurso negacionista do presidente da República e o protagonismo do governo estadual em implantar as medidas de distanciamento social, nas contradições geradas pela leniência em relação à aglomeração no transporte público na ida para o trabalho e nas tentativas de contenção das aglomerações de lazer, produziu-se um novo normal caracterizado pelo negacionismo, a onipotência e o fatalismo. Entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021, o que mais se viu foram festas, circulação ostensiva das pessoas e ausência do uso de máscara, impulsionando os números de infectados e de mortos, na normalização de uma crise sanitária sem precedentes no Brasil.

Palavras-chave:
COVID-19; Homossexualidades; Território; Sexualidade; Sociabilidades

Abstract

The text addresses the sociability circuits of ‘men who have sex with men’ in the Metropolitan Region of Recife during the first year of the COVID-19 pandemic. In March 2020, with the arrival of the epidemic in Brazil, a first movement was characterized by the shift of interactions to the online dimension. From June onwards, after stricter social distancing, offline sexual interactions, social interactions at friends’ houses, the return to bars and sociability on the street were resumed in that order, in the wake of what was happening in the broader society. In the mismatch between the negationist speech of the President of the Republic and the role of the state government in implementing measures of social distancing; in the contradictions generated by the leniency regarding crowding in public transport on the way to and from work and the attempts to contain the crowds seeking leisure activities, a ‘new normal’ emerged and was marked by negativism, omnipotence and fatalism. Between September 2020 and February 2021, what were most evident were parties, ostensive circulation of people and the lack of mask use, boosting the numbers of the infected and the dead, in the normalization of an unprecedented health crisis in Brazil.

Key words:
COVID-19; Homosexuality; Territory; Sexuality; Sociability

Introdução

Este ensaio discute as formas de sociabilidade e as condutas sexuais de homens que fazem sexo com homens (HSHs) na Região Metropolitana do Recife (RMR), durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19 - doença causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (Sars-CoV-2), com altas capacidades de transmissão e, como consequência dessas infecções, de colapsar os sistemas públicos de saúde. Na ausência de vacina e medicamentos de comprovada eficácia, o distanciamento físico foi, durante o primeiro ano de pandemia, a principal medida para reduzir a circulação do vírus, junto ao uso de máscara, higienização dos corpos e isolamento dos casos11 Aquino EML, Silveira IH, Pescarini JM, Aquino R, Souza-Filho JA, Rocha AS, Ferreira A, Victor A, Teixeira C, Machado DB, Paixão E, Alves FJO, Pilecco F, Menezes G, Gabrielli L, Leite L, Almeida MCC, Ortelan N, Fernandes QHRF, Ortiz RJF, Palmeira RN, Junior EPP, Aragão E, Souza LEPF, Netto MB, Teixeira MG, Barreto ML, Ichihara MY, Lima RTRS. Medidas de distanciamento social no controle da pandemia de COVID-19: potenciais impactos e desafios no Brasil. Cien Saude Colet 2020; 25(Supl. 1):2423-2446.

2 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913.
-33 Observatório COVID-19/Fiocruz. Boletim Observatório COVID-19. Semanas Epidemiológicas 05 a 07 de 2021. [Internet]. [acessado 2021 fev 26]. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/documento/boletim-do-observatorio-covid-19-semanas-epidemiologicas-05-e-07-de-2021
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O distanciamento social reduz as interações em uma comunidade, na qual circulam pessoas infectadas, mas não isoladas. O lockdown é o caso extremo de distanciamento social, consiste na proibição, aplicada a toda uma região, de as pessoas saírem de seus domicílios, objetivando reduzir drasticamente o contato social. A quarentena é a restrição do movimento, durante o período do ciclo do vírus/doença, de pessoas que, presumidamente, foram expostas ao agente etiológico mas que não apresentam sintomas11 Aquino EML, Silveira IH, Pescarini JM, Aquino R, Souza-Filho JA, Rocha AS, Ferreira A, Victor A, Teixeira C, Machado DB, Paixão E, Alves FJO, Pilecco F, Menezes G, Gabrielli L, Leite L, Almeida MCC, Ortelan N, Fernandes QHRF, Ortiz RJF, Palmeira RN, Junior EPP, Aragão E, Souza LEPF, Netto MB, Teixeira MG, Barreto ML, Ichihara MY, Lima RTRS. Medidas de distanciamento social no controle da pandemia de COVID-19: potenciais impactos e desafios no Brasil. Cien Saude Colet 2020; 25(Supl. 1):2423-2446.. No cotidiano da RMR, quarentena tornou-se conceito guarda-chuva que recobre quaisquer das medidas acima definidas.

No discurso veiculado nas mídias, as ações já citadas retardariam a quantidade de infectados, enquanto cientistas se esforçavam pela criação de vacinas seguras e eficazes, o que ocorreu em finais de 2020. No Brasil, a vacinação foi iniciada em janeiro de 202133 Observatório COVID-19/Fiocruz. Boletim Observatório COVID-19. Semanas Epidemiológicas 05 a 07 de 2021. [Internet]. [acessado 2021 fev 26]. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/documento/boletim-do-observatorio-covid-19-semanas-epidemiologicas-05-e-07-de-2021
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. A categoria novo normal - utilizada em 2009 para se referir às rupturas estruturais causadas pela recessão econômica - passou a designar uma “promessa futura”, uma alternativa às estratégias mais rígidas de distanciamento social, como o lockdown44 Berino A, Cabral T. O "novo normal" em tempos de pandemia: a sociedade capitalista em questão [Internet]. ReDoC 2020, jul. [acessado 2021 Feb 26]. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/re-doc/announcement/view/1113
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[...] a possível reabertura comercial e a retomada econômica, com a condição de que [...] devemos repensar nosso estilo de vida em sociedade, nossas relações afetivas, nossas formas de lazer e diversão, nossos comportamentos e ações em público, nossos hábitos de higiene, o uso obrigatório das máscaras de proteção, dentre outras questões44 Berino A, Cabral T. O "novo normal" em tempos de pandemia: a sociedade capitalista em questão [Internet]. ReDoC 2020, jul. [acessado 2021 Feb 26]. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/re-doc/announcement/view/1113
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Nesse contexto, interações com fins sexuais podem se tornar meios de propagação do Sars-Cov-255 Sousa ÁFL, Queiroz AAFLN, Lima SVMA, Almeida PD, Oliveira LB, Chone JS, Araújo TME, Brignol SMS, Sousa AR, Mendes IAC, Dias S, Fronteira I. Prática de chemsex entre homens que fazem sexo com homens (HSH) durante período de isolamento social por COVID-19: pesquisa online multicêntrica. Cad Saude Publica 2020; 36(12):e00202420.

6 Rios LF. Sexualidade e prevenção entre homens que fazem sexo com homens nos contextos das pandemias de AIDS e da COVID-19. Cien Saude Colet 2021; 26(5):1853-1862.

7 Escalante M, Noriega G. Motivaciones, significados y riesgos en los encuentros sexuales de hombres gays de La Ciudad Autónoma de Buenos Aires en el contexto del COVID-19. Sex, Salud Soc 2021; 37:e21201.
-88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266.. Sobre isso, uma pesquisa realizada com HSHs brasileiros entre abril e maio de 2020 indicou que 53% dos participantes relataram relações sexuais com parceiros casuais na pandemia. Considerando apenas os não testados para COVID-19 e que relataram interação sexual com parceiros casuais, 38,3% declararam sinais e sintomas de síndrome gripal, sugestivos de COVID-19, durante o período de distanciamento social. Jovens (21-30 anos) e adultos jovens (31-40 anos) apresentaram mais relatos de sintomas de síndrome gripal do que as outras faixas etárias. O número de parceiros sexuais no período foi proporcionalmente maior naqueles que apresentaram sintomas gripais22 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913.,88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266..

O estudo22 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913.,88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266. aponta para a necessidade de melhor explorar o fenômeno, compreendendo que a utilização das medidas preventivas é multideterminada e envolve dimensões socioculturais, subjetivas e programáticas que podem produzir variados contextos de vulnerabilidade ao Sars-Cov-299 Ayres JR, Franca Junior I, Calazans GJ, Saletti Filho HC. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: Czeresnia D, Freitas C, organizadores. Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2003. p. 117-139..

Na dimensão sociocultural, a estigmatização das homossexualidades produz circuitos que permitem a conexão sexual de homens de diferentes identidades sexuais1010 Parker R. Entre homens: homossexualidade e AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: ABIA; 1998.

11 Rios LF. Corpos e prazeres nos circuitos de homossociabilidade masculina do centro do Rio de Janeiro. Cien Saude Colet 2008; 13(2):465-475.
-1212 Monteiro S, Vargas E, Cecchetto F, Mendonça F. Identidades, trânsitos e diversidade sexual em contextos de sociabilidade juvenil no Rio de Janeiro (Brasil). Cad Pagu 2010; 35:79-109., além da territorialização de suas porções mais visíveis em estabelecimentos comerciais de diversão voltados para lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e afins (LGBT+)1212 Monteiro S, Vargas E, Cecchetto F, Mendonça F. Identidades, trânsitos e diversidade sexual em contextos de sociabilidade juvenil no Rio de Janeiro (Brasil). Cad Pagu 2010; 35:79-109.

13 Facchini R, Franca I, Braz C. Estudos sobre sexualidade, sociabilidade e mercado: olhares antropológicos contemporâneos. Cad Pagu 2014; 42:99-140.
-1414 França I. Espaço, lugar e sentidos: homossexualidade, consumo e produção de subjetividades na cidade de São Paulo. Revista Latinoamericana de Geografia e Gênero 2013; 4(2):148-163..

Os HSHs são, há quatro décadas, especialmente vulneráveis ao HIV/AIDS1010 Parker R. Entre homens: homossexualidade e AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: ABIA; 1998.,1515 Kerr L et al. HIV prevalence among men who have sex with men in Brazil: results of the 2nd national survey using respondent-driven sampling. Medicine (Baltimore) 2018; 97(Suppl. 1):S9-S15., ensejando pesquisas sobre a não aderência ao uso de preservativo1616 Ferraz D, Paiva V. Sex, human rights and aids: an analysis of new technologies for HIV prevention in the Brazilian context. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):89-103.. Há sinergia do sexo desprotegido com a dinâmica dos espaços, com estilizações corporais e vinculações afetivas. Tesão, amor e confiança figuram como sentimentos capazes de suplantar o medo nas cenas de infecção pelo HIV1616 Ferraz D, Paiva V. Sex, human rights and aids: an analysis of new technologies for HIV prevention in the Brazilian context. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):89-103.

17 Antunes M, Paiva V. Territórios do desejo e vulnerabilidade ao HIV entre homens que fazem sexo com homens: desafios para prevenção. Temas Psicol 2013; 21(3):1125-1143.

18 Grace D, Chown SA, Jollimore J, Parry R, Kwag M, Steinberg M, Trussler T, Rekart M, Gilbert M. HIV-negative gay men's accounts of using contextdependent seroadaptive strategies. Cult Health Sex 2014; 16(3):316-330.
-1919 Rios LF, Albuquerque AP, Santana W, Pereira AF, Oliveira Junior CJ. O drama do sexo desprotegido: estilizações corporais e emoções na gestão de risco para HIV entre homens que fazem sexo com homens. Sex, Salud Soc 2019; 32:65-89..

Na dimensão programática, chamam atenção as maneiras contraditórias como os governos federal, estaduais e municipais responderam à pandemia de COVID-19 em seu primeiro ano de existência. O presidente da República reiteradamente negou a letalidade do vírus, despotencializando as recomendações científicas. As políticas de mitigação dos efeitos da pandemia foram muitas vezes ineficientes ou inadequadas, exigindo interferências do Legislativo e do Judiciário para corrigi-las2020 Centro de pesquisas e estudos de direito sanitário (CEPEDISA). Um ataque sem precedentes aos direitos humanos no Brasil: a linha do tempo da estratégia federal de disseminação da COVID-19. Direitos na pandemia 2021; 10:6-31.,2121 Correia D, Santos AF, Brito KPA, Guerra LDS, Vieira KJ, Rezende CLS. Auxílio emergencial no contexto de pandemia da COVID-19: garantia de uma proteção social? J Manag Prim Health Care; 2020, 12:e37..

Os relatos de sexo casual na pandemia22 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913.,55 Sousa ÁFL, Queiroz AAFLN, Lima SVMA, Almeida PD, Oliveira LB, Chone JS, Araújo TME, Brignol SMS, Sousa AR, Mendes IAC, Dias S, Fronteira I. Prática de chemsex entre homens que fazem sexo com homens (HSH) durante período de isolamento social por COVID-19: pesquisa online multicêntrica. Cad Saude Publica 2020; 36(12):e00202420.

6 Rios LF. Sexualidade e prevenção entre homens que fazem sexo com homens nos contextos das pandemias de AIDS e da COVID-19. Cien Saude Colet 2021; 26(5):1853-1862.

7 Escalante M, Noriega G. Motivaciones, significados y riesgos en los encuentros sexuales de hombres gays de La Ciudad Autónoma de Buenos Aires en el contexto del COVID-19. Sex, Salud Soc 2021; 37:e21201.
-88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266., as reflexões acerca dos contextos de vulnerabilidade e a literatura sobre sexo desprotegido para o HIV permitiram formular as questões que guiam este texto: como a COVID-19 e as formas de enfretamento interferiram na sociabilidade e condutas sexuais de HSHs? Como as dinâmicas observadas podem produzir maior suscetibilidade à infecção pelo Sars-Cov-2?

Sobre a pesquisa

Os dados foram coletados em pesquisa etnográfica sobre a vulnerabilidade de HSHs à infecção pelo HIV na RMR, em etapa realizada entre 2019 e 2021, por meio de observação participante nos lugares on-line (mediados pelas tecnologias de informação e comunicação - TICs) e offline de homossociabilidade, entrevistas e pesquisa documental2222 Rios LF, Adrião KG. On descriptions, rectifications, and scientific objectivity: methodological reflections from a research on sexual behavior and HIV/AIDS among men who have sex with men. Saúde Soc 2022; 31(1):e210427.. Com o trabalho já em andamento quando a COVID-19 chegou ao Brasil, foi necessário abordar a nova dinâmica, que afetou a coleta de dados, os espaços de sociabilidade e a vida sexual dos HSHs.

A realização de entrevistas foi suspensa em março de 2020, retornando em setembro daquele ano de maneira remota. A partir de dezembro de 2020, algumas entrevistas ocorreram offline. Foram entrevistados 16 HSHs, contatados a partir da rede de relação dos pesquisadores, com idades variando entre 20 e 35 anos (Quadro 1).

Quadro 1
Dados sociodemográficos dos entrevistados e modalidade de realização das entrevistas.

Foi empregada a análise temática2222 Rios LF, Adrião KG. On descriptions, rectifications, and scientific objectivity: methodological reflections from a research on sexual behavior and HIV/AIDS among men who have sex with men. Saúde Soc 2022; 31(1):e210427., de modo a compreender as cenas de sociabilidade e de práticas sexuais. Foram especialmente importantes as respostas às questões do roteiro de entrevistas sobre as mudanças nos espaços de homossociabilidade e a respeito as três últimas cenas sexuais com e sem o uso de preservativo.

Para ajudar a compreender os fatores externos à dinâmica comunitária em foco, além de observação participante, realizamos pesquisa documental, tendo como base principalmente veículos de um consórcio (O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, Extra, G1 e UOL) formado em junho de 2020 para coletar e divulgar os números de infectados e mortos pelo Sars-Cov-2, dadas as controvérsias na divulgação de dados oficiais pelo Ministério da Saúde do Brasil. As matérias utilizadas neste trabalho são apresentadas no Quadro 2. Também consultamos fontes oficiais das diferentes instâncias de governo, de forma a produzir uma compreensão sobre as mudanças nas respostas programáticas ao Sars-Cov-2.

Quadro 2
Matérias na mídia on-line.

Resultados

Entrevistamos seis homens negros, oito brancos, um amarelo e um não quis responder. Três haviam concluído o ensino médio, nove cursavam o ensino superior e quatro tinham concluído o ensino universitário. A classe foi inferida pela equipe de pesquisa a partir de renda per capita, condições de moradia e acesso a bens e serviços. Sete foram classificados como de classe pobre, cinco de remediada e seis de média (Quadro 1).

Marco zero: o Vale das Ninfas em fevereiro de 2019

Nosso cenário é o Vale das Ninfas (Vale), coração da comunidade LGBT+ da RMR. O nome vem de uma rua que faz esquina com a Av. Manoel Borba, onde está localizada a Boate Clube Metrópole. O Vale se estende pelo centro, especialmente pelo bairro da Boa Vista. Inclui boates, bares e comércio ambulante, além de espaços mais libertinos, onde é possível ter sexo, como saunas, cinemas pornôs e motéis. Também inclui estabelecimentos não explicitamente LGBT+. Em muitos, é a ocupação em determinados horários e/ou dias da semana que os fazem se tornar espaços de homossociabilidade, como o posto de gasolina Select.

O Select e as barraquinhas de comércio ambulante próximas a bares e boates eram descritos como esquentas, pontos de encontro nos quais amigos começavam e bebiam para ficar no brilho (alegres e desinibidos). A própria casa de um deles também funcionava como local de esquenta, o que denominavam de fazer a social.

Ficar na rua em frente aos estabelecimentos LGBT+ era estratégico para exercer roteiros eróticos de azaração/paquera que, na dimensão offline, envolvem códigos não verbais, com centralidade nos olhares para demonstrar a possibilidade de passar a interações sexuais de maior proximidade corporal2323 RIOS LF. Parcerias e práticas sexuais de jovens homossexuais no Rio de Janeiro. Cad Saude Publica 2003, 19(Supl. 2):223-232..

O smartphone era o portal para conectar as duas dimensões existenciais, offline e on-line, e podia ser acionado várias vezes no episódio, seja na troca de mensagens entre amigos, seja para a azaração on-line que ocorria em paralelo à offline, em aplicativos de busca de parceiros como o Grindr. Ou ainda para disponibilizar nas redes sociais, em tempo real, imagens da diversão.

Até o início da pandemia, o Select era uma alternativa para quem ia esperar para pegar o primeiro transporte do dia, após noitada, pois fica próximo de paradas de ônibus. Ainda assim, o trecho entre os bares e boates e o posto é perigoso de madrugada, onde aconteciam situações de violência. Por isso a importância de se andar com os amigos.

O primeiro ano de convivência com o Sars-Cov-2

Em março de 2020, intensificam-se os rumores sobre a chegada da pandemia ao Brasil. Gestores da saúde das três esferas de governo iniciam então o enfrentamento ao problema. Frente ao negacionismo do presidente da República, o governo de Pernambuco assume o protagonismo, seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ainda em março, decretos alteram profundamente o cotidiano dos pernambucanos. Dia 18, ficam proibidos eventos com mais de 50 pessoas; dia 21, suspensão de comércio e serviços não essenciais, com exceção de entregas; no dia 24, a proibição total de eventos11 Aquino EML, Silveira IH, Pescarini JM, Aquino R, Souza-Filho JA, Rocha AS, Ferreira A, Victor A, Teixeira C, Machado DB, Paixão E, Alves FJO, Pilecco F, Menezes G, Gabrielli L, Leite L, Almeida MCC, Ortelan N, Fernandes QHRF, Ortiz RJF, Palmeira RN, Junior EPP, Aragão E, Souza LEPF, Netto MB, Teixeira MG, Barreto ML, Ichihara MY, Lima RTRS. Medidas de distanciamento social no controle da pandemia de COVID-19: potenciais impactos e desafios no Brasil. Cien Saude Colet 2020; 25(Supl. 1):2423-2446.,2424 Pernambuco. Lista dos decretos por data [Internet]. 2022. [acessado 2020 abr 5]. Disponível em: https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/
https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.b...
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A chegada da COVID-19 coloca em suspensão a sociabilidade HSH offline. Identificamos três fases, rumo a um “novo normal”, compostas por sete movimentos, implicando inflexões na lida com o agravo e deslocamentos nos espaços (on-line e offline).

É preciso dizer que a temporalidade é aproximativa e aponta para o início dos movimentos que vão se sobrepondo e reconfigurando os elementos de sociabilidade e conduta sexual. Iniciaremos a descrição das fases apresentado a dinâmica social mais ampla e as respostas programáticas, para em seguida descrever aspectos relacionados aos HSHs.

Março 2020 - rumo à dimensão offline

Quando a COVID-19 chega ao Brasil, em março de 2020, cientistas de todo o mundo já trabalhavam para responder às inúmeras questões que o Sars-CoV-2 colocava. As novidades logo eram suplantadas por outras numa velocidade impressionante, o que potencializava muitas incertezas para as pessoas não acostumadas com a forma de proceder nas ciências.

Um exemplo é o de uso de máscaras. Em março, ainda não havia consenso sobre a proteção conferida por seu uso em espaço público. A mídia, escutando especialistas, dizia que as pessoas deveriam ficar em suas casas e que não adiantaria utilizá-las na rua, que apenas daria a falsa sensação de proteção. No caso brasileiro, em menos de um mês, o discurso muda e ela entra no cardápio oficial da prevenção (Quadro 2 - A, B).

Também em março, o presidente da República iniciou verdadeiras campanhas para incentivar o uso de medicamentos para prevenção e tratamento da COVID-19 sem comprovação científica e para desrespeitar as medidas de prevenção (Quadro 2 - C). Depois de muita pressão social, foram implementadas, a partir de abril, políticas de mitigação dos efeitos econômicos da pandemia (Quadro 2 - D, E)2020 Centro de pesquisas e estudos de direito sanitário (CEPEDISA). Um ataque sem precedentes aos direitos humanos no Brasil: a linha do tempo da estratégia federal de disseminação da COVID-19. Direitos na pandemia 2021; 10:6-31.,2121 Correia D, Santos AF, Brito KPA, Guerra LDS, Vieira KJ, Rezende CLS. Auxílio emergencial no contexto de pandemia da COVID-19: garantia de uma proteção social? J Manag Prim Health Care; 2020, 12:e37..

A adesão da população às medidas de enfrentamento não foi suficiente para interromper a velocidade de circulação do vírus e o número de mortes em Pernambuco (gráficos 1 e 2)2525 Pernambuco. COVID-19 em dados [Internet]. 2021. [acessado 2020 fev 26]. Disponível em: https://dados.seplag.pe.gov.br/apps/corona.html
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. É decretado lockdown entre 16 e 31 de maio de 2020 em Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe e São Lourenço da Mata, municípios da RMR2424 Pernambuco. Lista dos decretos por data [Internet]. 2022. [acessado 2020 abr 5]. Disponível em: https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/
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Gráfico 1
Evolução dos infectados por Sar-CoV2 em Pernambuco, por data de boletim (Semanal) (23/02/2021).

Gráfico 2
Evolução dos casos fatais por Sar-CoV2 em Pernambuco, por data de boletim (Semanal) (23/02/2021).

Primeiro movimento - suspensão da sociabilidade offline

Quando eu chego em casa, umas quatro horinhas depois, eles [pessoas do trabalho] mandam mensagem: “Tá todo mundo em casa. Ninguém pode mais sair!” Foi um momento de choque. [...] Eu, por exemplo, só tive noção da gravidade, pra você ver!, quando a Globo parou a novela. [risos] Eu falei: “Aí, o bicho tá pegando. O mundo acabou!” Porque a novela nunca para (Thiago).

Outros interlocutores também relataram o sentimento de choque e medo. Na medida do possível, seguiram as principais medidas preventivas indicadas naquele momento: evitar sair de casa e higienizar as mãos e objetos que entravam nas residências.

Para alguns, o distanciamento dos espaços do Vale permanecia no momento da entrevista. Gilberto, entrevistado em novembro, foi categórico quando solicitado a descrever os lugares que frequenta:

Atualmente nenhum, né? [...] Se é uma norma de segurança você ficar em casa, e o governo disse isso, a Organização Mundial da Saúde disse isso, eu sou bem rigoroso. [...] Só mercado, farmácia e para o meu trabalho, que agora voltou com dois dias presenciais. Mas, antes de tudo acontecer, meu espaço preferido, que eu chamo até de “minha segunda casinha”, era a Metrópole.

A maioria dos participantes da pesquisa passaram a se utilizar majoritariamente da dimensão on-line para a sociabilidade com amigos e para as diversões sexuais.

Segundo movimento - sociabilidade e sexo à distância on-line

Sites de busca de parceiros sexuais na internet passaram a postar mensagens incentivando seus integrantes a manterem interações on-line e evitarem o sexo real. Um site internacional, especializado em pornografia, muito acessado por HSHs, disponibilizou seu acervo privado para uso gratuito (Quadro 2 - F).

O Clube Metrópole, que já possuía perfis no Facebook e Instagram, expandiu suas inscrições on-line. Em 19 de março de 2020, lançou uma programação especial, as lives da Metro, com shows de seus DJs no Instagram. Também passaram a oferecer um serviço de delivery de bebidas. Em 27 de junho, realizou, on-line, sua tradicional festa de São João, Festa da Espiga, marcada por shows de strip-tease e pelo concurso da melhor espiga entre os homens concorrentes, com a venda de ingressos.

No plano sexual, os relatos em conversas informais mostraram que houve diminuição no número de convites para encontros offline por meio de sites e aplicativos, e o aumento de interações sexuais on-line. Estas envolveram o sexting (troca de mensagens sexuais), o envio de nudes (imagens de partes nuas dos corpos), exibições por meio de vídeo chamadas e até mesmo sexo grupal on-line.

Terceiro movimento - adesão irregular às medidas de prevenção

Vendo as cenas que compõem o terceiro movimento, narradas a seguir, temos a impressão de que a pandemia não afetou a vida de muitas pessoas. Ainda que houvesse a consciência das pessoas de que algo extraordinário estava acontecendo, as práticas observadas ou relatadas se configuravam como uma espécie de resistência às medidas para o controle da pandemia. Jorge, entrevistado em dezembro de 2020, não pareceu esboçar preocupações ou mudanças de conduta sexual diante da pandemia.

[Três cenas nas quais usou camisinha.] Cenas raras! [...] eu estava no aeroporto de São Paulo, conheci um cara pelo Grindr [...] A outra, eu estava em Brasília. Conheci um cara num hostel [...] no meio da pandemia. Em Brasília também liguei o Grindr, e aí conheci um menino. [...] Minhas três últimas transas foram sem camisinha mesmo. A primeira delas foi [...] sábado, com um gringo. Foi um cara da Inglaterra que estava aqui [...]. Ele teoricamente era hétero. A outra foi na segunda. Foi também com um gringo da França, que eu conheci no Ramon [bar em Boa Viagem], ele é bi. A outra foi na terça. Foi um menino [...] em Maracaípe, surfista etc. [...] Ele veio aqui em casa [...] pra gente fumar um “beque” (maconha) e tal.

No que se refere à sociedade englobante, desde as primeiras recomendações para o uso de máscara, a adesão sempre foi mais recorrente em regiões centrais dos municípios - onde comércio e bancos estão localizados - do que nos bairros mais afastados. Mesmo nos espaços centrais, muitos/as utilizavam de forma incorreta (abaixo do nariz ou no queixo) e de modo inconsistente (apenas quando entravam nos estabelecimentos). Essa movimentação só aumentou na medida em que os meses passaram.

Junho - esfumaçando o distanciamento social

A família dela (amiga) pegou quase toda. Porque o pai pegou e aí ela pegou. Depois eu peguei. [...] No meu caso, meses antes, minha mãe também tinha pego e ela cuidava de um senhor. E o senhor morreu de COVID, por isso que ela pegou COVID. E aí ela perdeu trabalho. [...] ninguém nasceu pra ficar enclausurado esse tempo todo. Especialmente nos dias, nos catorze dias que a gente tinha que ficar preso. Eu tinha que sair pra comprar comida, pra fazer alguma coisa, porque não tinha ninguém, saca? Então coloca você numa situação totalmente diferente. Porque eu sei que estava tendo uma pandemia no resto do mundo, tinha restrições. Mas quando você chega em bairro pobre… Bairro pobre não tem muito o que escolher. Se há aquele comerciante e tal, pequenino, é uma pessoa que precisa realmente comprar alguma coisa. Então, é literalmente botar a cara a tapa e esperar que o pior não aconteça. [...] E o pior aconteceu em várias, várias famílias (Thiago).

O relato de Thiago mostra a tentativa das pessoas mais pobres de cumprir as medidas de proteção e todas as dificuldades que isso implicava. Muitas se infectaram e, como circulava a ideia de que os que já haviam se infectado estariam imunes, isso pode ter conferido um “passaporte” para circulação, incluindo o não uso da máscara (Quadro 2 - G).

Na RMR, a saída do lockdown acontece no primeiro dia de junho, mas a reabertura dos estabelecimentos comerciais e o retorno de outras atividades na forma offline, como praias, academias e bares, obedeceu a um rígido cronograma estabelecido no “Plano de convivência com a COVID-19 em Pernambuco” (Figura 1)2626 Pernambuco. Plano de convivência - Atividades econômicas - COVID-19. 2020. [Acessado 2021 fev 26]. Disponível em: http://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/wp-content/uploads/2020/11/plano-de-conivencia-das-atividades-economicas-com-a-covid-19-v-20-29-10- 2020
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. Plano que muitas vezes foi contestado por diferentes setores da economia, pelo governo federal e pessoas comuns, que não concordavam com as novas regras.

Figura 1
Resumo do cronograma de reabertura.

Um capítulo à parte eram as contradições que o transporte público colocava à premissa do distanciamento social. O setor diminuiu bastante a oferta de transporte durante os primeiros meses da epidemia, porém a oferta de transporte não aumentou proporcionalmente ao retorno das atividades laborais (Quadro 2 - H). Em paralelo, o presidente da República continuava a produzir contradições ao enfrentamento, chamando a população a se rebelar contra os planos de enfrentamento estaduais e municipais (Quadro 2 - I). A partir de julho, a consolidação da opinião do governo de Pernambuco de que a epidemia estava diminuindo em número de casos e de mortes no estado2525 Pernambuco. COVID-19 em dados [Internet]. 2021. [acessado 2020 fev 26]. Disponível em: https://dados.seplag.pe.gov.br/apps/corona.html
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parece ter sido interpretada por parcela da sociedade como se o vírus estivesse sob controle.

Paulatinamente, houve um aumento do relaxamento no distanciamento social e no uso da máscara - apesar de decreto estadual de 31 de julho de 2020, que passou a tornar obrigatório o uso dessa proteção nos espaços públicos2424 Pernambuco. Lista dos decretos por data [Internet]. 2022. [acessado 2020 abr 5]. Disponível em: https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/
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e estabelecimentos comerciais pernambucanos. É essa movimentação nos níveis programáticos e da sociedade abrangente que aponta para o que vai acontecer nas redes de sociabilidade HSH.

Quarto movimento - a volta do sexo offline

Dia após dia, integrantes do circuito HSH foram cansando do sexo on-line e, vez por outra, surgia algum convite para a passagem ao sexo real. Após o lockdown, os convites vinham, em especial de ex-namorados, ex-ficantes e/ou de pessoas que integravam as redes sociais on-line:

[Essa situação de pandemia prejudicou as relações, a tua vida sexual?] [...] um pouco, principalmente no começo. No auge da pandemia, eu mesmo parei de usar (aplicativos de busca de parceiros), sempre que alguém queria ficar comigo, mesmo na pandemia, naquele auge, muita gente. Mesmo assim me procuravam e mesmo assim eu recusava. [...] [Isso pelo aplicativo?] Não, pelas redes sociais, porque eu já tinha parado com o aplicativo mesmo. [Que redes sociais tu usas?] Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp (Fabrício).

Os convites vinham por meio de conversas on-line e envolviam a explicitação de estar cumprindo quarentena (sic) rigorosa, acompanhada de insinuações sobre carência e tesão. Nesse âmbito, havia sugestão do encontro offline que, em algumas cenas descritas, o parceiro recusava sob alegação de medo de se infectar, ainda que estivesse com muito tesão.

No final do lockdown, a observação participante em contexto pandêmico permitiu notar a forte presença de roteiros de azaração nos estabelecimentos declarados essenciais, especialmente supermercados. A rua foi reforçada como local de pegação, mas com mais discrição do que a experienciada nos lugares LGBT+. Certamente relacionada ao temor pela discriminação e violência.

O mês de julho parece ter sido aquele em que o sexo estava no ar. A azaração corria solta nas ruas, nos parques, e também nos aplicativos de pegação. José, entrevistado em dezembro, relata que retornou à vida sexual offline com a ajuda do Grindr:

A primeira vez que eu saí de casa pra transar (depois de a pandemia começar) foi com um cara em Cavaleiro, um bairro aqui de Jaboatão. Eu saí com a máscara, tudo direitinho. E na mesma semana em que eu fiquei com ele, eu fiquei com outra pessoa lá no bairro da Boa Vista, no Recife. [...] Ambos em julho, na mesma semana. E o terceiro foi agora em novembro. [...] Eu já o conhecia de vista, e do Grindr. [...] Então eu passei pelo bairro dele, o lugar onde ele mora. Falei com ele no Grindr, ele me chamou e eu fui. Eu tinha voltado de um evento e fui ficar com ele. Já era um domingo à tarde. Eu já o conhecia de outras datas.

Em meados de julho, tivemos a oportunidade de observar a pegação em um parque público66 Rios LF. Sexualidade e prevenção entre homens que fazem sexo com homens nos contextos das pandemias de AIDS e da COVID-19. Cien Saude Colet 2021; 26(5):1853-1862.. Chamou atenção a grande quantidade de homens no local, quando comparada com observações realizadas antes da pandemia. A cena incluía o uso de máscaras pelos homens passeando pelo parque, alguns portando álcool em gel.

Para Miguel, entrevistado em setembro, a quebra da quarentena (sic) aconteceu uma semana antes da realização da entrevista. Conheceu o parceiro no Twitter, depois passaram para o Instagram, e resolveram se encontrar em um bar. Miguel estava preocupado por ter transado sem camisinha, sobretudo porque o parceiro tinha falado que ele estava transando durante a pandemia, e sabe Deus lá se ele estava usando camisinha ou não. [...] É uma merda a gente dizer isso, que a gente confia na imagem da pessoa.

Dos 16 entrevistados durante o período pandêmico, apenas dois não relataram interações sexuais entre março de 2020 e fevereiro de 2021. Três relataram interações sexuais somente com parceiros fixos. Os outros 11 entrevistados tiveram relações sexuais com parceiros casuais, e os ambientes on-line foram os mais utilizados para o primeiro contato.

Quinto movimento - retorno da social

A sociabilidade HSH offline acompanhou a reabertura da economia e se antecipou à ida aos bares. É nesse contexto que a vontade dos homens de estarem juntos, sem mediação das TICs, fez reaparecer um importante ponto de conexão das redes de sociabilidade. José volta a encontrar os amigos em setembro:

Eu passei o período todinho da quarentena isolado em casa. Só vim começar a sair em setembro, e desde então eu venho indo a praias com alguns amigos LGBTs, e pra uma social com poucas pessoas na casa de algum amigo em Boa Viagem. [Uma social?] É uma festa mais privada com poucas pessoas, até dez no máximo. A gente bebe e depois cada um vai pra sua casa, de máscara e tal. Eu tenho evitado aglomerações.

A social, lugar de esquenta para a noitada, em um primeiro momento da reabertura se autonomiza como lugar da homossociabilidade. O critério para juntar os amigos era o de parecer cumprir as principais medidas de proteção.

Sexto movimento - reabertura do Vale

O plano de convivência com a COVID-19 para a RMR previa a volta de bares e restaurantes a partir de 20 de julho de 20202424 Pernambuco. Lista dos decretos por data [Internet]. 2022. [acessado 2020 abr 5]. Disponível em: https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/
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,2626 Pernambuco. Plano de convivência - Atividades econômicas - COVID-19. 2020. [Acessado 2021 fev 26]. Disponível em: http://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/wp-content/uploads/2020/11/plano-de-conivencia-das-atividades-economicas-com-a-covid-19-v-20-29-10- 2020
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. A Metrópole, que desde março estava funcionando com um serviço de delivery de bebidas, abre finalmente suas portas à comunidade dois dias depois da autorização. Em 21 de julho, em sua página no Facebook, anuncia a abertura do Bar do Delivery, de quarta a sábado, das 14h às 20h. Na divulgação nas redes sociais, menciona as medidas sanitárias que garantiriam a segurança do público em relação à COVID-19.

Setembro - normalização

A partir de setembro a reabertura se intensificou com a massiva presença das pessoas no comércio e nos espaços de lazer. Programas televisivos de grande audiência apresentavam cenas de pessoas famosas interagindo sem máscara e com contato físico, contradizendo as informações consagradas sobre os riscos de transmissão (Quadro 2 - J).

Também é em setembro que a cobertura da pandemia na mídia passa a dividir espaço com os acontecimentos das eleições municipais. Ainda que regras tenham sido estabelecidas para impedir aglomerações durante as campanhas eleitorais, não foi bem isso que se viu em Pernambuco (Quadro 2 - L). Passadas as eleições, a pauta da COVID-19 voltou com força aos noticiários. A mídia fala de uma segunda onda, ou repique, expressa no crescimento de números de casos e de mortes (Quadro 2 - M) (gráficos 1 e 2).

Em Pernambuco, aumentou a frequência nas praias e bares, gestores de saúde se manifestaram preocupados com a ausência de máscaras. Apontavam para a necessidade de redobrar o cuidado com as confraternizações no final do ano e propunham uma nova etiqueta para os eventos, divulgada nos telejornais. Não obstante, os transportes públicos continuavam superlotados.

Continua o posicionamento do presidente favorável ao uso do kit-covid no tratamento precoce, com aderência de boa parte da população, mesmo com o desmentido da ciência, de laboratórios e de alguns setores da medicina (Quadro 2 - N). Também se contrapunha às vacinas, que naquele momento se concretizavam como horizonte possível para o controle da pandemia (Quadro 2 - O). Neste contexto, e seguindo o discurso do presidente, aumenta o uso de expressões negacionistas na população, como é só uma gripezinha, ou onipotentes, como só pega em quem tem medo - redundando na fatalidade do vamos todos morrer um dia ou do só se vive uma vez, preciso aproveitar o momento (Quadro 2 - I). Representações sobre o infortúnio da COVID-19 que justificavam a saída às ruas sem máscaras.

Em janeiro de 2021, acontece a crise do oxigênio em Manaus/AM, dada a carência do insumo frente à superlotação dos serviços de saúde (Quadro 2 - P). Outra questão preocupante era a disseminação de novas cepas do Sars-CoV-2 (Quadro 2 - Q). Preocupado com as aglomerações em praias e bares, o governo de Pernambuco proíbe música nos estabelecimentos (Quadro 2 - R). Fevereiro, mês do Carnaval, é marcado por decretos que proíbem a realização de festas e aglomerações em dois importantes polos festivos da RMR (Quadro 2 - S). No final do mês, como tentativa de frear as curvas da epidemia, em ascensão em todo o Brasil, um decreto regulamenta o toque de recolher na RMR, focando as aglomerações noturnas de lazer (Quadro 2 - T)2424 Pernambuco. Lista dos decretos por data [Internet]. 2022. [acessado 2020 abr 5]. Disponível em: https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/
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Sétimo movimento - burlando medidas preventivas

Em setembro, segue crescendo a volta dos gays ao Vale. Apesar de muitas restrições, o que parece acontecer é o festejar de um fim imaginado da pandemia:

Fui no dia da eleição, dia 14 de novembro. Tava muito lotado e foi um público completamente diferente, porque tem muita gente nova que tá indo pra lá. [...] agora a própria Metrópole e os outros bares da rua estão fechando à meia-noite. A galera realmente está ficando no meio da rua. Então têm momentos que fica impossível passar (José).

Além da lotação, José também menciona o aumento da frequência de jovens e menores de 18 anos. Sua descrição aproxima o que vê no Vale ao Carnaval.

[Os jovens] tão bebendo, dançando, isso sempre aconteceu na rua das Ninfas, só que agora tem muita gente. [...] Digamos que antigamente tinham 100 pessoas no meio da rua, agora tem mais de 300 [...] aglomeradas lá. Tá parecendo o Carnaval de Olinda (José).

Ainda que os estabelecimentos informassem, em seus perfis on-line, que seguiam as medidas recomendadas, não foi bem isso que se viu. Dentro dos bares havia um certo relaxamento sobre o cumprimento das regras, exceto quando ocorriam fiscalizações. Embora o Carnaval tenha sido suspenso no Recife, os bares do Vale continuaram com sua programação, sem se afetarem com o objetivo da medida: impedir as aglomerações das festas de Carnaval.

Discussão: o novo normal no Vale

A definição de novo normal33 Observatório COVID-19/Fiocruz. Boletim Observatório COVID-19. Semanas Epidemiológicas 05 a 07 de 2021. [Internet]. [acessado 2021 fev 26]. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/documento/boletim-do-observatorio-covid-19-semanas-epidemiologicas-05-e-07-de-2021
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situaria para a população a necessidade de manutenção de práticas de redução de risco para a COVID-19 durante meses ou anos, ainda que todos estivessem vacinados, uma vez que não se sabia o tempo que as vacinas confeririam proteção44 Berino A, Cabral T. O "novo normal" em tempos de pandemia: a sociedade capitalista em questão [Internet]. ReDoC 2020, jul. [acessado 2021 Feb 26]. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/re-doc/announcement/view/1113
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Mas o novo normal que vimos se configurar careceu de distanciamento e de uso de máscara e se justificou pelo fatalismo, forjado nas contradições enfrentadas pelas classes trabalhadoras durante o primeiro ano da pandemia. Narrativas como a de Thiago revelam a dificuldade de distanciamento social e isolamento dos casos nos bairros mais pobres2727 Natividade MDS, Bernardes K, Pereira M, Miranda SS, Bertoldo J, Teixeira MDG, Livramento HL, Aragão E. Distanciamento social e condições de vida na pandemia COVID-19 em Salvador-Bahia, Brasil. Cien Saude Colet 2020; 25(9):3385-3392., dada a carência de políticas públicas robustas de redução dos impactos econômicos da pandemia nas famílias2020 Centro de pesquisas e estudos de direito sanitário (CEPEDISA). Um ataque sem precedentes aos direitos humanos no Brasil: a linha do tempo da estratégia federal de disseminação da COVID-19. Direitos na pandemia 2021; 10:6-31.,2121 Correia D, Santos AF, Brito KPA, Guerra LDS, Vieira KJ, Rezende CLS. Auxílio emergencial no contexto de pandemia da COVID-19: garantia de uma proteção social? J Manag Prim Health Care; 2020, 12:e37.. Dinâmica que não foi incidental e que teve como importante protagonista o presidente da República2020 Centro de pesquisas e estudos de direito sanitário (CEPEDISA). Um ataque sem precedentes aos direitos humanos no Brasil: a linha do tempo da estratégia federal de disseminação da COVID-19. Direitos na pandemia 2021; 10:6-31.,2828 Schwarcz L, Starling H. A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; 2020.. Esse contexto mais amplo vai situar os modos de sociabilidade e condutas sexuais dos HSHs.

Sociabilidade

A social na casa de amigos foi a primeira conexão offline a voltar após as medidas de distanciamento social. Sugerimos que isso se deu não só por escapar da regulação governamental com maior facilidade, mas por atualizar a centralidade das amizades na sociabilidade gay. Os amigos são importantes na autoaceitação e no come out de homens homossexuais; são guias para ingresso nos espaços de homossociabilidade e coadjuvantes na proteção contra a violência. Amizades também envolvem erotismo e aprendizagem da sexualidade nas narrativas das aventuras sexuais1111 Rios LF. Corpos e prazeres nos circuitos de homossociabilidade masculina do centro do Rio de Janeiro. Cien Saude Colet 2008; 13(2):465-475.,1313 Facchini R, Franca I, Braz C. Estudos sobre sexualidade, sociabilidade e mercado: olhares antropológicos contemporâneos. Cad Pagu 2014; 42:99-140.,2929 Green A. Além do Carnaval. A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: UNESP; 2002.,3030 Braz C. Entre sobreviventes e bichas dos tempos dourados - memória, homossexualidade e sociabilidade na cidade de Goiânia, Brasil. Cad Pagu 2015; 45:503-525..

Na segunda quinzena de julho de 2020, os estabelecimentos do Vale reabriram, readequados conforme o plano de convivência. São pontos de convergência offline, de disseminação de opiniões e de modos de vida para quem os frequenta1212 Monteiro S, Vargas E, Cecchetto F, Mendonça F. Identidades, trânsitos e diversidade sexual em contextos de sociabilidade juvenil no Rio de Janeiro (Brasil). Cad Pagu 2010; 35:79-109.

13 Facchini R, Franca I, Braz C. Estudos sobre sexualidade, sociabilidade e mercado: olhares antropológicos contemporâneos. Cad Pagu 2014; 42:99-140.
-1414 França I. Espaço, lugar e sentidos: homossexualidade, consumo e produção de subjetividades na cidade de São Paulo. Revista Latinoamericana de Geografia e Gênero 2013; 4(2):148-163.,1717 Antunes M, Paiva V. Territórios do desejo e vulnerabilidade ao HIV entre homens que fazem sexo com homens: desafios para prevenção. Temas Psicol 2013; 21(3):1125-1143.. Os empresários do mercado rosa, na falta de políticas públicas de mitigação dos impactos econômicos da pandemia, alinharam-se a outros setores econômicos na crítica a ações que representassem diminuição de faturamento. Isso se expressa na tendência a serem lenientes com o uso dos insumos de prevenção, reforçando a falsa ideia de que a pandemia havia terminado.

O limite da quantidade de pessoas nos bares, os horários do transporte público e a violência no entorno do Vale certamente contribuíram para fazer a aglomeração na rua crescer. Em adição, bebidas e cigarros, tanto nos bares como na rua, impediam o uso de máscaras. Lembrando que o uso de álcool e outras drogas é facilitador para a despreocupação com o cuidado de si1717 Antunes M, Paiva V. Territórios do desejo e vulnerabilidade ao HIV entre homens que fazem sexo com homens: desafios para prevenção. Temas Psicol 2013; 21(3):1125-1143., um conjunto de condutas bastante perigosas no contexto da COVID-1955 Sousa ÁFL, Queiroz AAFLN, Lima SVMA, Almeida PD, Oliveira LB, Chone JS, Araújo TME, Brignol SMS, Sousa AR, Mendes IAC, Dias S, Fronteira I. Prática de chemsex entre homens que fazem sexo com homens (HSH) durante período de isolamento social por COVID-19: pesquisa online multicêntrica. Cad Saude Publica 2020; 36(12):e00202420.,88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266..

A forte presença de jovens pode estar relacionada ao emprego da categoria “grupo de risco” na prevenção da COVID-19 - formado por idosos e pessoas portadoras de doenças crônicas -, deixando os jovens “desimplicados” da prevenção. A experiência do HIV/AIDS nos ensinou como a lógica do grupo de risco contribuiu para a formatação dos caminhos da epidemia, ao desconsiderar a dinâmica dos vírus que usam das tessituras sociais para se espalhar99 Ayres JR, Franca Junior I, Calazans GJ, Saletti Filho HC. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: Czeresnia D, Freitas C, organizadores. Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2003. p. 117-139.,3131 Barcellos C, Bastos F. Redes sociais e difusão da AIDS no Brasil. Bol Oficina Sanitaria Panam 1996; 121(1):11-24.. Além de poder levar o Sars-CoV-2 para suas famílias, mesmo quando assintomáticos3232 Observatório COVID-19 BR. Nota sobre a transmissão de COVID-19 por pacientes assintomáticos. Análises comentadas 2020a. [acessado 2021 fev 26]. Disponível em: https://covid19br.github.io/analises.html? aba=aba7
https://covid19br.github.io/analises.htm...
, análise realizada no âmbito do Observatório COVID-19 BR3333 Observatório COVID-19 BR. Esgotamento de leitos por jovens e adultos. Análises comentadas 2020b. [acessado 2021 fev 26]. Disponível em: https://covid19br.github.io/analises.html?aba=aba8#
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mostrou como, em São Paulo, os doentes não idosos, que eram metade dos pacientes hospitalizados, poderiam impactar o sistema de saúde, contribuindo para o esgotamento de leitos.

Sexualidade

Em março de 2020 houve um deslocamento das interações sexuais para a dimensão on-line, cuja exclusividade durou pouco. Em junho e julho, a azaração na rua, no comércio essencial e na internet é expressiva de que boa parte das pessoas estava voltando à atividade sexual offline22 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913.,77 Escalante M, Noriega G. Motivaciones, significados y riesgos en los encuentros sexuales de hombres gays de La Ciudad Autónoma de Buenos Aires en el contexto del COVID-19. Sex, Salud Soc 2021; 37:e21201.,88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266., ainda que alguns interlocutores permanecessem com suas experiências sexuais concentradas na dimensão on-line na ocasião das entrevistas.

Adalberto conheceu o namorado na academia, no processo de reabertura. Fernando parecia mapear no Grindr pessoas já conhecidas. Essas cenas nos remetem a algumas estratégias dos HSHs para lidar com o risco de se infectar pelo HIV1616 Ferraz D, Paiva V. Sex, human rights and aids: an analysis of new technologies for HIV prevention in the Brazilian context. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 1):89-103.

17 Antunes M, Paiva V. Territórios do desejo e vulnerabilidade ao HIV entre homens que fazem sexo com homens: desafios para prevenção. Temas Psicol 2013; 21(3):1125-1143.

18 Grace D, Chown SA, Jollimore J, Parry R, Kwag M, Steinberg M, Trussler T, Rekart M, Gilbert M. HIV-negative gay men's accounts of using contextdependent seroadaptive strategies. Cult Health Sex 2014; 16(3):316-330.
-1919 Rios LF, Albuquerque AP, Santana W, Pereira AF, Oliveira Junior CJ. O drama do sexo desprotegido: estilizações corporais e emoções na gestão de risco para HIV entre homens que fazem sexo com homens. Sex, Salud Soc 2019; 32:65-89.: relaxar o uso do preservativo com pessoas de suas bolhas1818 Grace D, Chown SA, Jollimore J, Parry R, Kwag M, Steinberg M, Trussler T, Rekart M, Gilbert M. HIV-negative gay men's accounts of using contextdependent seroadaptive strategies. Cult Health Sex 2014; 16(3):316-330.. Isso porque algumas profissões, classes sociais, grau de escolaridade, ou o fato de serem amigas de amigos/as nas redes on-line, geram a sensação de melhor conhecer os potenciais parceiros e/ou de que eles são mais cuidadosos com a saúde1919 Rios LF, Albuquerque AP, Santana W, Pereira AF, Oliveira Junior CJ. O drama do sexo desprotegido: estilizações corporais e emoções na gestão de risco para HIV entre homens que fazem sexo com homens. Sex, Salud Soc 2019; 32:65-89.. A aparência saudável parece interferir sub-repticiamente para a produção das cenas de sexo desprotegido1717 Antunes M, Paiva V. Territórios do desejo e vulnerabilidade ao HIV entre homens que fazem sexo com homens: desafios para prevenção. Temas Psicol 2013; 21(3):1125-1143.,1919 Rios LF, Albuquerque AP, Santana W, Pereira AF, Oliveira Junior CJ. O drama do sexo desprotegido: estilizações corporais e emoções na gestão de risco para HIV entre homens que fazem sexo com homens. Sex, Salud Soc 2019; 32:65-89., semelhante ao comentário culposo de Miguel sobre o primeiro rapaz com quem saiu depois do início da pandemia.

De todo modo, ainda que quebrassem a quarentena (sic), muitos de nossos interlocutores buscavam alguma forma de se proteger do Sar-Cov-266 Rios LF. Sexualidade e prevenção entre homens que fazem sexo com homens nos contextos das pandemias de AIDS e da COVID-19. Cien Saude Colet 2021; 26(5):1853-1862.

7 Escalante M, Noriega G. Motivaciones, significados y riesgos en los encuentros sexuales de hombres gays de La Ciudad Autónoma de Buenos Aires en el contexto del COVID-19. Sex, Salud Soc 2021; 37:e21201.
-88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266.. Podemos pensar que a regulação das práticas em função dos vínculos afetivos desempenhou papel importante no uso da máscara. É exemplar o relato de José sobre a retomada da social na casa de amigos, em que é necessário retirá-la para beber. Do mesmo modo, ele afirma ter utilizado máscara em sua primeira transa durante a pandemia. O uso de máscaras na cena de pegação no parque, em julho de 2020, é um outro exemplo66 Rios LF. Sexualidade e prevenção entre homens que fazem sexo com homens nos contextos das pandemias de AIDS e da COVID-19. Cien Saude Colet 2021; 26(5):1853-1862.. Ambas são cenas sexuais com pessoas estranhas.

Jorge presentifica o caso de homens que não pararam de transar, mesmo nos meses de lockdown rigoroso22 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913.,88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266.. As cenas mostram porosidade das identidades sexuais, apagando as fronteiras entre os circuitos LGBT+ e a sociedade englobante, que nos relatos se expandem do local para o mundo. Ainda que não seja uma doença transmitida pelo sexo, as cenas produzem ambiências para o Sars-CoV-2 prosperar66 Rios LF. Sexualidade e prevenção entre homens que fazem sexo com homens nos contextos das pandemias de AIDS e da COVID-19. Cien Saude Colet 2021; 26(5):1853-1862.,88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266..

Considerações finais

Abordamos a sociabilidade e a sexualidade de HSHs no contexto da epidemia de COVID-19. Por limitações do escopo de nossa pesquisa, não exploramos discursivamente as medidas utilizadas para proteção do novo vírus. Ainda assim, as cenas aqui discutidas dão contexto intersubjetivo aos resultados de Carvalho et al.22 Carvalho HEF, Schneider G, Sousa AR, Camargo ELS, Nunes RV, Possani MA, Barbosa DA, Mendes IAC, Sousa AFL. Síndrome gripal suspeita de COVID-19 em homens que fazem sexo com homens e se envolveram em sexo casual. Rev Bras Enferm 2020; 73(Supl. 2):e20200913. e Alves et al.88 Sousa AFL, Oliveira LB, Queiroz AAFLN, Carvalho HEF, Schneider G, Camargo ELS, Araújo TME, Brignol S, Mendes IAC, Fronteira I, McFarland W. Casual sex among men who have sex with men (MSM) during the period of sheltering in place to prevent the spread of COVID-19. Int J Environ Res Public Health 2021; 18(6):3266. e oferecem subsídios para refletir sobre os contextos de vulnerabilidade à COVID-1999 Ayres JR, Franca Junior I, Calazans GJ, Saletti Filho HC. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: Czeresnia D, Freitas C, organizadores. Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2003. p. 117-139..

Sublinhamos que a desobediência às regras de convivência na pandemia não foi exclusiva aos HSHs. Eles as trouxeram de seus bairros, dos ônibus superlotados, com forte influência do discurso negacionista do presidente da República.

No ano de 2020, o Brasil computou 194.949 óbitos por COVID-19. Podemos dizer que, no período estudado, produziu-se um novo normal caracterizado por negacionismo, onipotência e fatalismo. A partir de setembro de 2020, o que mais se viu foram festas, circulação ostensiva de pessoas e ausência do uso de máscara, impulsionando os números de infectados e de mortos na normalização de uma crise sanitária sem precedentes no Brasil.

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  • Financiamento

    A pesquisa que originou este artigo contou com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no formato de bolsa de Produtividade em Pesquisa (processo 310468/2018-3) e concessão de bolsas de Iniciação Cientifica pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Pernambuco (FACEPE) e pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da UFPE.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jun 2022
  • Data do Fascículo
    Jul 2022

Histórico

  • Recebido
    12 Dez 2021
  • Aceito
    04 Abr 2022
  • Publicado
    06 Abr 2022
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