Investigação qualitativa na área da saúde: por quê?

Jaime Ribeiro Dayse Neri de Souza António Pedro Costa Sobre os autores

As idiossincrasias da investigação qualitativa ainda recebem olhares de soslaio de investigadores da área da saúde, onde prevalece a hegemonia dos ensaios clínicos. Persiste a incerteza do que é a investigação qualitativa e qual o seu contributo nesta área. Ouve-se frequentemente que “Não dá para generalizar”, “É pouco rigorosa”, “Estudam-se poucos indivíduos” e, até depreciativamente “Isso é muito subjetivo”. Estas críticas contribuíram para a sua evolução, alertando para o rigor que pauta os estudos bem conduzidos. Embora não se corporize a generalização estatística, constata-se a aposta na validade interna que traduz as especificidades do grupo/fenómeno/caso estudado. São incontornáveis os seus contributos para a construção do conhecimento, pois o que eventualmente se desaproveita em extensão rentabiliza-se em profundidade e compreensão. A descrição detalhada de fenómenos, a subsequente desconstrução e reconstrução, possibilitam a mobilização de conhecimento, a transferibilidade crítica, permitindo assim a generalização analítica.

A inseparabilidade dos fenômenos do seu contexto alicerça a investigação qualitativa, pois é impossível discernir opiniões, perceções e significados dos indivíduos silenciando o contexto. É a particularização contextualizada que permite almejar a maiores níveis de compreensão.

Passado este “abre-olhos” acerca da investigação qualitativa, surge a questão: Por que fazer investigação qualitativa na área da saúde? Porque os métodos qualitativos têm muito a oferecer àqueles que estudam os serviços de saúde. Em primeiro lugar, hoje a credibilidade crescente nos estudos mistos fará ruir paulatinamente a dicotomia quantitativo-qualitativo, seja usando-se a investigação qualitativa como exploratória para a quantitativa ou, ao contrário, esclarecendo, a partir de questionários, opiniões e comportamentos no ambiente natural de ocorrência do fenômeno estudado.

Em segundo lugar, porque os estudos qualitativos se focam nas pessoas, naquilo que as faz recorrer aos cuidados e nas vivências pessoais com impacto na sua condição de saúde. A natureza da investigação qualitativa se centra na procura de significados, na medida em que os fenômenos, as manifestações, as ocorrências, os fatos, os eventos, as ideias, os sentimentos e os assuntos moldam as vivências humanas. Os significados que sobrevêm passam também a ser partilhados culturalmente e assumem-se como estruturadores do grupo social que orbita em torno destas representações e destes simbolismos.

Conhecer as significações dos fenômenos do processo saúde-doença pode contribuir de sobremaneira para melhorar a qualidade da relação entre consumidores e fornecedores de serviços de saúde; fomentar maior adesão em ações de saúde implementadas individual e coletivamente; e, entender mais profundamente emoções e comportamentos dos doentes, famílias e profissionais de saúde. Indubitavelmente, a saúde é das pessoas, para as pessoas e pelas pessoas, pelo que, uma auscultação profunda da “subjetividade” permite um maior conhecimento e, consequentemente, respostas ajustadas às pessoas, usuários e profissionais de saúde.

Esta edição especial compila trinta e um artigos de elevada qualidade, integrando nove oriundos do 4º Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa. Os trabalhos aqui publicados são o rosto das premissas apresentadas, através dos quais os autores indagam as vivências e a qualidade de vida dos que utilizam os serviços, as experiências dos que os prestam, a importância da relação entre os profissionais de saúde e os clientes e, não menos importante, a avaliação de programas de intervenção e de formação profissional e pessoal dos futuros técnicos de saúde e da própria comunidade que é participe e sujeito dos serviços e dos cuidados.

Jaime Ribeiro 1,2, Dayse Neri de Souza 2, António Pedro Costa 2
1Instituto Politécnico de Leiria
2Universidade de Aveiro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2016
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