Intoxicação por chumbo em crianças e o discurso da imprensa

Lead poisoning in children and media discourse analysis

Nilce Emy Tomita Niura Aparecida de Moura Ribeiro Padula Sobre os autores

Resumos

Houve ampla divulgação na mídia sobre a descoberta e interdição de uma fábrica de baterias com elevada emissão de chumbo, no município de Bauru (SP), em 2002, dada a relevância do assunto para a saúde pública. O objetivo deste estudo é avaliar as publicações na imprensa relativas à contaminação ambiental por chumbo em uma área residencial, sua repercussão sobre a saúde infantil e as iniciativas do poder público para enfrentamento desta questão. A análise do discurso da imprensa escrita é realizada mediante a leitura de notícias publicadas no ano de 2002, utilizando ferramentas de análise qualitativa. A partir da abordagem da imprensa sobre esta sucessão de acontecimentos, esta reflexão constitui uma contribuição à elaboração de programas educativos que têm como foco os cuidados com o meio ambiente e as suas repercussões sobre a saúde da população.

Chumbo; Meio ambiente; Crianças; Mídia impressa; Ação intersetorial


The finding and interdiction of a battery factory with high lead emission got massive media coverage in the city of Bauru (SP), in 2002, given the relevance of this issue to public health. Aiming at evaluating the publications in the press related to lead environmental contamination in a residential area, its repercussion on infantile health and the initiatives of government to face this subject, the present study has been delineated. The analysis of the press discourse is accomplished by the reading of news published in the year of 2002, using tools of qualitative analysis. Starting from the approach of the press on this sequence of events, this reflection represents a contribution to the elaboration of educational programs that focus on the care of the environment and its impact on public health.

Lead poisoning; Environment; Children; Printed media; Intersectorial action


ARTIGO ARTICLE

Intoxicação por chumbo em crianças e o discurso da imprensa

Lead poisoning in children and media discourse analysis

Nilce Emy TomitaI; Niura Aparecida de Moura Ribeiro PadulaII; GEPICCBIII

IDepartamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. Al. Octávio Pinheiro Brisolla 9-75, 17012-101, Bauru SP. netomita@usp.br

IIDepartamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho

IIIGrupo de Estudo e Pesquisa da Intoxicação por Chumbo em Crianças de Bauru

RESUMO

Houve ampla divulgação na mídia sobre a descoberta e interdição de uma fábrica de baterias com elevada emissão de chumbo, no município de Bauru (SP), em 2002, dada a relevância do assunto para a saúde pública. O objetivo deste estudo é avaliar as publicações na imprensa relativas à contaminação ambiental por chumbo em uma área residencial, sua repercussão sobre a saúde infantil e as iniciativas do poder público para enfrentamento desta questão. A análise do discurso da imprensa escrita é realizada mediante a leitura de notícias publicadas no ano de 2002, utilizando ferramentas de análise qualitativa. A partir da abordagem da imprensa sobre esta sucessão de acontecimentos, esta reflexão constitui uma contribuição à elaboração de programas educativos que têm como foco os cuidados com o meio ambiente e as suas repercussões sobre a saúde da população.

Palavras-chave: Chumbo, Meio ambiente, Crianças, Mídia impressa, Ação intersetorial

ABSTRACT

The finding and interdiction of a battery factory with high lead emission got massive media coverage in the city of Bauru (SP), in 2002, given the relevance of this issue to public health. Aiming at evaluating the publications in the press related to lead environmental contamination in a residential area, its repercussion on infantile health and the initiatives of government to face this subject, the present study has been delineated. The analysis of the press discourse is accomplished by the reading of news published in the year of 2002, using tools of qualitative analysis. Starting from the approach of the press on this sequence of events, this reflection represents a contribution to the elaboration of educational programs that focus on the care of the environment and its impact on public health.

Key words: Lead poisoning, Environment, Children, Printed media, Intersectorial action

Introdução

Nas sociedades modernas, os meios de comunicação ocupam um lugar privilegiado de produção e reprodução do real, com forte influência cultural. O papel da mídia impressa se realiza em dois planos: um que procura narrar as notícias do dia, procurando cumprir sua função informativa; outro, no qual se configura e expressa um sistema de valores, associado ao lugar do jornal como sujeito da enunciação (Njaine & Minayo, 2002).

Lèfevre (1996) define o fato como um acontecimento, algo que ocorre ou acontece como uma inundação, uma partida de futebol, um incêndio e que é trabalhado pela mídia como instaurador de uma gramática de produção de fatos. Mas a des-construção ou des-montagem do discurso e da retórica jornalística ou midiática permite mostrar que a geração espontânea do fato é um efeito de discurso e (...) que sempre subjaz, implícita, uma concepção do fato, uma contextualização, uma gênese, uma teoria e uma explicação, a serem resgatadas.

Essa contextualização pode ser vista nas notícias resgatadas de três jornais ao descreverem uma sucessão de fatos ocorridos em Bauru (SP), após a interdição de uma indústria de baterias, em que se detectou emissão de chumbo acima dos padrões aceitáveis (Quitério et al., 2003).

Com relação ao jornal, Canclini (2002) observa estar diante de um meio que oferece mais elementos discursivos que outros para refletir sobre a cidade e elaborar a condição de cidadão, mas que não contribui para expandir a visão sobre a cidade em uma proporção comparável ao crescimento de seu território e sua complexidade. Assim, mais do que estabelecer novos lugares de pertencimento e de identificação de raízes, o importante para as mídias é oferecer certa intensidade de experiências.

Breve histórico do fato

Em janeiro de 2002, notificação da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) à Secretaria Municipal de Saúde de Bauru informava sobre teores de chumbo oriundo de resíduos industriais (São Paulo, 2002) como fonte de contaminação e conseqüentes agravos à saúde de parte de sua população (Centers for Disease Control, 2002; Paolielo et al., 1997, Moreira & Moreira, 2004).

A partir da localização de uma fábrica de acumuladores (baterias), instalada desde 1958 em área periférica do município, dejetos com sal de óxido de chumbo e sulfato de chumbo presentes na poeira (pluma) e a deposição de chumbo metálico no solo foram detectados (Instituto Ambiental Vidágua, 2002; São Paulo, 2002).

Mediante a existência de 314 crianças com taxas de plumbemia superiores àquelas aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde (10µg Pb/dl sangue), foram desencadeadas ações emergenciais, visando reduzir riscos de re-contaminação, que incluíram a raspagem de camada superficial das vias públicas, resultando em 1.392m3 de terra com material tóxico, que permanece depositada nas dependências da fábrica. Foi promovida a aspiração de poeira do interior de 164 residências, utilizando equipamento industrial, bem como a lavagem e vedamento das caixas d'água (Tomita & GEPICCB, 2003).

Este fato inédito na história do município suscitou, por parte da mídia, uma série de matérias de cunho jornalístico sobre a contaminação por chumbo em Bauru. Aliados à relevância do assunto para a saúde pública, alguns aspectos sociais permearam a abordagem da imprensa, sobretudo aqueles relacionados às conseqüências da interdição da empresa.

A cronologia dos fatos pode ser acompanhada pelo material impresso, recuperado a partir de recortes de jornal, partindo do princípio que a imprensa escrita tem importante papel no "processo de acumulação cultural e documentação da história de uma sociedade" (Moreira et al., 2002).

O presente estudo tem por objetivo analisar as publicações da imprensa relativas à contaminação ambiental por chumbo, sua repercussão sobre a saúde infantil e as iniciativas do poder público para o enfrentamento deste problema, tendo como pressuposto teórico que o noticiário pode exercer um papel importante no controle social, dando voz aos diferentes personagens envolvidos na história.

Método

A pesquisa que serve de base a este trabalho tem como matéria-prima textos publicados em dois jornais de circulação nacional (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo) e um jornal de circulação loco-regional (Jornal da Cidade). Foram selecionados artigos que faziam menção à contaminação por chumbo no município de Bauru (SP), no período de fevereiro a dezembro de 2002.

A notificação da Cetesb que desencadeou a sucessão de fatos ocorreu em janeiro de 2002 e as primeiras matérias na imprensa foram publicadas a partir de abril daquele ano. Foram recuperadas 66 matérias publicadas no ano de 2002, que foram inicialmente dispostas em ordem cronológica. A numeração nos quadros 1, 2 e 3 respeita esta ordem.




No trabalho empírico, a leitura do material impresso propiciou a criação de três categorias explicativas: o que aconteceu (e suas repercussões sociais), o que foi descoberto (diagnóstico médico e epidemiológico) e o que foi feito (intervenções ambientais e clínicas). Os extratos de discursos são citados em itálico no presente trabalho e sua numeração se refere ao título da matéria disposto nos quadros.

A tridimensionalidade dos efeitos do discurso, entendida como texto, interação e prática social (Njaine & Minayo, 2002) propicia um exercício de entendimento da sucessão de fatos ocorridos após a detecção deste problema ambiental, permitindo uma análise de natureza qualitativa (Minayo, 1993).

Resultados e discussão

O que aconteceu

Matérias jornalísticas que foram classificadas na categoria explicativa o que aconteceu lançaram luz sobre uma seqüência de fatos ordenados historicamente, revelando à sociedade um acidente ambiental, as reações dos moradores e algumas repercussões sociais, além da reação da empresa.

Caso Ajax está na lista do Greenpeace. Bauru é uma das 17 localidades do Brasil que, segundo entidade ambientalista, sofre com contaminação industrial 25 (Quadro 1).

As notícias desta categoria foram compondo um mosaico, em que a perplexidade da população se somou à inquietação dos moradores da área mais diretamente atingida. Moradores das chácaras vizinhas do setor metalúrgico da Acumuladores Ajax aguardam o resultado do laudo do solo apreensivos.1

Algumas repercussões do fato gerador da notícia denotam um aspecto econômico, uma vez que, desde a orientação dada pela Secretaria Municipal de Saúde, para suspender o consumo de ovos de aves criadas nas propriedades rurais, leite das vacas (...) e de algumas verduras, a vida dos moradores mudou: estão comprando alimentos que até então produziam.1

Além da incidência de chumbo (...) e da precariedade de infra-estrutura urbana, como falta de iluminação, asfalto, galeria para águas pluviais e postos de saúde próximos, os moradores das áreas próximas à fábrica de baterias Ajax (...) agora têm mais um motivo para reclamar: seus imóveis perderam valor depois do conhecimento dos altos índices de chumbo na área.49Essa população vulnerável, como outras que se viram em situação semelhante na história recente do Brasil, como as residentes em Santo Amaro da Purificação (BA) e Adrianópolis (PR), percebe-se diante de perdas e as relata por meio do noticiário.

Segundo Porto (2002), a origem conceitual de vulnerabilidade remonta à concepção ecossistêmica de resiliência (capacidade de um sistema recuperar-se frente a perturbações) e aos estudos sobre populações excluídas em países do Terceiro Mundo, que de certo modo vivem uma situação de "desastre cotidiano" frente às precárias condições de vida e sobrevivência. O tema da vulnerabilidade tem especial relevância ao designar tanto os processos geradores quanto as características das populações e regiões que possuem maiores dificuldades de absorver os impactos de eventos de risco.

Diante destes fatos gerados pela descoberta da exposição a um agente tóxico e dos seus efeitos sobre este grupo populacional, possibilidades de enfrentamento vão sendo buscadas. Na seqüência dos acontecimentos, foi noticiada a implantação, em agosto de 2002, de uma Comissão de Saturnismo, integrada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Bauru, Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico, Instituto Ambiental Vidágua, Departamento de Saúde Coletiva, Delegacia Regional de Saúde (DIR 10), Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Ministério do Trabalho, Empresa Ajax, Associação de Moradores Tangarás e Câmara Municipal de Bauru.42 A imprensa participa à sociedade uma mobilização intersetorial para melhor compreender a questão ambiental.

Após a interdição da empresa, foi noticiado que, apesar de acreditar na possibilidade de que a liberação de chumbo (...) tenha sido provocada por uma fábrica clandestina, a empresa mostra-se disposta a seguir as recomendações feitas pelos órgãos de saúde.43 Observa-se que o papel da imprensa, como veículo de expressão plural de diversos segmentos sociais, não persegue o objetivo de julgar ou punir, mas propicia aos diferentes personagens envolvidos no processo um canal de expressão.

Os jornais, enquanto dispositivos do campo das mídias, estabelecem uma tensão de forças e de relações simbólicas com os demais campos de saberes e de poderes, aspectos que são ilustrados pelo conjunto de transações realizadas mediante o trabalho simbólico propriamente dito e que se caracteriza pela intervenção daquele no processo de rotinas e de construção dos acontecimentos (Moreira et al., 2002).

Numa espécie de encruzilhada entre engajamento e imparcialidade, nem sempre o discurso do noticiário é neutro ou isento, nem se pressupõe justo. A leitura das notícias mostra uma alternância de tons na abordagem dos fatos que vão se sucedendo.

Se, em alguns momentos, a imprensa escrita parece exercer uma espécie de parceria com os serviços públicos no sentido da divulgação da informação, por outro, também amplifica a voz de uma população que expressa inquietações. Maria alega que a maioria das informações que ela obtém sobre a contaminação da terra e os perigos que corre (...) são dos veículos de comunicação. Ela diz que a equipe da saúde esteve lá e avisou o que estava acontecendo, mas já faz tempo.45

A imprensa também cobra providências, na voz de um morador, que refere que a empresa deveria arcar com os custos.50

Por sua vez, diante da interdição do setor metalúrgico, a empresa divulga estar em fase de conversações que podem resultar na transferência de pelo menos uma parte da fábrica de baterias para Agudos (município distante cerca de 10 km de Bauru)... Em Bauru desde 1958, a empresa é geradora de aproximadamente 1.000 empregos na cidade, porém esta matéria ressalva que um detalhe que talvez possa interferir nessa possível transferência é o fato da Ajax vir a ter que providenciar (...) a reparação de supostos danos ambientais causados em Bauru.53

As vozes do poder público são expressas por meio das falas de um vereador, considerando que além da lentidão do trabalho, percebemos que as colaborações por parte da empresa são mínimas. Ela deveria assumir todo o ônus da descontaminação. A administração municipal não pode se responsabilizar por estes custos sozinha. Compartilha da mesma opinião o "promotor do meio ambiente", para quem a posição da empresa (escassa colaboração no processo de descontaminação) seria uma estratégia jurídica... Por sua vez, a "secretária municipal de saúde" confirmou que a empresa tem respondido com presteza às reivindicações feitas.59

Moreira et al. (2002) observam que a mídia procura estabelecer uma relação que contemple os interesses de diferentes públicos, visando ser significativo como formador de opinião pública, veiculando notícias informativas, relevantes e bem fundamentadas aos seus leitores. A relação da imprensa com a cidade é, por outro lado, entendida pela observação que a desordenada explosão rumo às periferias (...) faz com que os habitantes percam o sentido dos limites de "seu" território (que) é equilibrada com os relatos dos meios de comunicação sobre o que acontece nos lugares mais distantes dentro da cidade (Canclini, 2002). Assim, a construção sociodemográfica de uma cidade e a compreensão do que nela acontece se faz com importante apoio do diálogo mediado pelos jornais.

O que foi descoberto

Ao abordar o que foi descoberto, o papel da imprensa como tradutor de diagnósticos médico-clínicos, epidemiológicos e ambientais mostra uma atuação de "mediação" entre os diferentes setores da sociedade. O excesso de chumbo no sangue pode provocar anemia crônica, alterações no crescimento e problemas renais e neurológicos, como retardo mental,3 (...) uma doença denominada saturnismo (...) e até a morte.34

Embora estas informações sejam corretas sob o ponto de vista técnico (Rojas et al., 2003; Moreira & Moreira, 2004), a natureza complexa, subjetiva e contextual da relação entre saúde-doença-cuidado, descrita em outros estudos que envolvem a análise de percepção de moradores da periferia urbana sobre as questões ambientais (Rego et al., 2002), não é descrita na imprensa (Quadro 2).

Atuando como porta-voz disposto a compartilhar os diagnósticos provenientes das análises laboratoriais, as chamadas na imprensa vão enfileirando números em ordem crescente: Em Bauru, já são 88 crianças intoxicadas.3 Alta dosagem de chumbo já atinge 124 crianças.4 Já são 162 com alta dosagem de chumbo.17 Contaminados por chumbo já são 186.21 Alta dosagem de chumbo já atinge 213.23 Desde março (...) já são 263 pessoas – 262 crianças e uma gestante – com mais de dez microgramas de chumbo por decilitro de sangue.26 O número de crianças (...) subiu para 275 com a chegada de mais um lote de resultados de exames.34 Uma das 295 crianças que estão contaminadas por chumbo em Bauru morreu no sábado, devido a uma pneumonia.56 Acima desta referência (10 microgramas por decilitro de sangue) ficaram 307 menores.60

A delimitação de um suposto nexo causal entre a emissão de poluentes e a saúde da população infantil é reforçada, no discurso da imprensa, por avaliações descritivas (traduzidas pelos níveis de plumbemia), reduzindo a compreensão do processo de adoecimento a uma questão numérica. Com relação à possível associação entre doença e fatores de risco ambientais (...) não se trata apenas de uma ação externa de um elemento ambiental agressivo, nem da reação de um hospedeiro susceptível, senão de um sistema (totalizado, interativo, processual) de efeitos patológicos (Rego et al., 2002).

Um gestor da área da saúde relata: a Secretaria Estadual de Saúde, ao longo dos últimos meses, vem desenvolvendo inquérito epidemiológico na região da Ajax, o que envolve vários eventos e a análise do solo é um deles.37

A terra superficial foi analisada pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), mostrando que há chumbo no solo, mas não em concentrações que (...) exijam a remoção dos moradores de suas casas.37 O laudo (...) também aponta a existência de chumbo em águas subterrâneas da área em que se localiza a Ájax.40

De Marchi (2002), ao comentar o acidente de Seveso, Itália, em que houve liberação de uma nuvem tóxica com dioxina proveniente de uma indústria química, refere que ninguém na cidade sabia que estava em situação de risco, não havendo consciência do problema, tanto por parte da população local, como também por parte das autoridades públicas, incluindo a sanitária. Se em muitos aspectos os acidentes podem ter conseqüências semelhantes (...), as diferenças maiores se encontram na resposta da sociedade a esse tipo de acidente. Essas diferenças revelam a vulnerabilidade das populações em termos da capacidade de resposta no sistema social, que ou protege as pessoas (...), como foi o caso de Seveso, ou abandona as mesmas a sua própria sorte, como foi o caso de Bhopal, Índia.

Neste aspecto, a relação entre saúde e ambiente será moldada pela intervenção de alguns setores do sistema social, visando reverter o processo de adoecimento das crianças intoxicadas. O seguimento (follow-up) desta população é acompanhado pela imprensa, que em outubro de 2002 traz com destaque a informação: cai concentração de chumbo entre as crianças do Tangarás. O resultado da terceira amostra de sangue (...) indica que a contaminação caiu porque o bairro não conta mais com o emissor do metal, uma vez que as atividades da fábrica de baterias foram suspensas.60

O que foi feito

Algumas ações de intervenção no âmbito da clínica e da vigilância sanitária e epidemiológica, além de ações emergenciais de descontaminação, são descritas nas matérias categorizadas como o que foi feito. A expressão de expectativas da população diante das ações de intervenção confere à imprensa uma espécie particular de "controle social" (Quadro 3).

Com relação aos cuidados assistenciais à saúde das crianças expostas, a imprensa relata, em maio de 2002, um movimento de adesão de diversas instituições de ensino/pesquisa e de voluntários às esferas municipal e estadual do setor saúde.

A iniciativa é do Hospital de Reabilitação de Anomalias Crânio-Faciais-USP (Centrinho) e envolve mais de uma dezena de parceiros (...). O superintendente do Centrinho (...) explica que pretende reunir estudantes (...) de cursos como nutrição, psicologia, serviço social, odontologia, biologia, entre outros. As crianças foram selecionadas por profissionais (...) da Prefeitura Municipal de Bauru e serão examinadas durante todo o sábado por uma equipe multidisciplinar, formada por médicos neuropediatras, fonoaudiólogos e pediatras.5

Ações resolutivas de maior complexidade são descritas. Cerca de 20 crianças contaminadas (com índice acima de 25 microgramas de chumbo por decilitro de sangue) serão internadas (...) em ciclos de 20 dias, até normalizar o índice. Como o medicamento pode produzir efeitos colaterais como aumento da pressão arterial e problemas renais e neurológicos, a internação é necessária para acompanhar de perto as crianças e intervir se for necessário.30

A intersetorialidade tem espaço nas medidas tomadas em prol da proteção a esta população. Um termo de ajuste de conduta foi proposto pelo Ministério Público do Trabalho e Estadual, (com objetivo de) garantir que não ocorram problemas de contaminação do meio ambiente no futuro.10

Secretaria Municipal do Meio Ambiente interdita córrego Vargem Limpa. O motivo da medida é a concentração de chumbo detectada no local através de análise de amostras feitas pela Cetesb.44

A Cetesb fez algumas recomendações referentes a medidas que podem ser adotadas na área contaminada (como) a raspagem do solo, pavimentação das ruas e passeios, limpeza de telhados e paredes das casas, concretagem dos quintais ou plantação de grama nos mesmos e verificação das caixas d'água das residências.38

A secretária (municipal de saúde) explica que há uma seqüência de ações a serem colocadas em prática. "Estamos reunindo as Secretarias de Obras, Meio Ambiente, Administrações Regionais e Departamento de Água e Esgoto para estabelecer a seqüência. Como não é um procedimento só da Saúde temos que ouvir os técnicos de cada área específica".52

Em novembro de 2002, a imprensa acompanha um acontecimento inusual na crônica dos sucessivos acidentes ambientais que se tornaram públicos no Brasil. Tomando um rumo diferente dos morosos e ineficientes processos que tornam o curso da vida destas populações vulneráveis mais difícil, o noticiário documenta ações emergenciais – e seus contratempos – desenvolvidas neste bairro.

Os trabalhos de raspagem do solo (...) foram interrompidos no meio do dia devido à chuva. Supervisionados por servidores municipais, funcionários da Ajax iniciaram a retirada de cinco centímetros de solo superficial.65

Algumas contradições humanas, como o fato de moradores da região contaminada estarem dificultando as ações de descontaminação, foram observadas. Em seis casas, os moradores impediram a entrada dos funcionários, que não puderam executar a aspiração do interior das residências e a raspagem de terra dos quintais. Um morador refere que só raspar não vai resolver nada. O bom seria pavimentar. É um trabalho inútil. Se o chumbo penetrou no solo, não é só raspar por cima que vai adiantar... A diretora do Departamento de Saúde Coletiva (Secretaria Municipal de Saúde) esclarece que as ações são consideradas prioritárias e têm como objetivo evitar a recontaminação das crianças que apresentam altos índices de chumbo no sangue e estão recebendo acompanhamento médico.66

Desde a conclusão do estudo epidemiológico (...), a administração municipal realizou a limpeza de cerca de 300 caixas d'água (...) e foram retirados 70 caminhões de terra. O material está sendo depositado em um barracão localizado na Fábrica de Baterias Ajax e deve ser analisado pela Cetesb.66

Embora se contabilizem casos de exposição a agentes tóxicos, com repercussões importantes sobre a saúde de populações, no Brasil e no mundo, é no âmbito local que muitas decisões precisam ser tomadas. A escassez de protocolos ou "manuais" para atuar diante de situações emergenciais foi notada. A secretária (municipal de saúde) explica que como o assunto é novo surgiram várias dúvidas.52 "Ainda temos muitas dúvidas e preferimos discutir melhor. Não podemos correr o risco de contaminar os servidores (que atuarão na descontaminação)".54 Também se enfatizou a questão do destino da terra resultante da raspagem do solo: "o que faremos com os resíduos?". 52

Ao realizar previsões e tomar decisões num contexto de incertezas, de riscos tecnológicos, ambientais e estruturais, Hottois propõe uma ética de solidariedade (...), baseada (...) no diálogo aberto, que implica o confronto pluralista e interdisciplinar; na ética reguladora; no pragmatismo; na não-exclusão do sentimento (...) do conjunto de elementos que cooperam na tomada de decisão ética; na ética da ambivalência, no sentido de ser esta uma escolha, e não uma conclusão lógica, ou um resultado mecânico; na ética evolutiva e da reversibilidade dos princípios; na ética da co-responsabilidade (Hottois, 1994, apud Silva & Schramm, 1997).

Diante da magnitude dos fatos e seus desdobramentos, e da premente necessidade de tomadas de decisão, estudos devem ser efetuados.

Funcionários da Funasa (vão) fazer um estudo sobre o impacto ambiental da suspeita de contaminação por chumbo na cidade. O coordenador geral de Vigilância Ambiental em Saúde do Centro Nacional de Epidemiologia da Funasa (...) disse que espera que, a partir dos resultados, possam ser estabelecidas práticas de prevenção e orientação sobre saúde e meio ambiente.33

Também é reconhecido que as leis de licenciamento ambiental precisam de atualizações constantes, à medida que a industrialização vai sofrendo o impacto de novas tecnologias e os próprios métodos de aferição da poluição desenvolvem-se ao longo do tempo.2 Lewinsohn (1997) refere alguns exemplos de crises que suscitaram a consciência ecológica, que, contudo, não significam que os problemas ambientais tenham sido inteiramente compreendidos a seu tempo, nem que as soluções tenham sido suficientes. O que espanta é que civilização após civilização caia em armadilhas semelhantes, experimente crises parecidas e tente lidar com elas tardiamente e por soluções técnicas parciais (Lewinsohn, 1997).

Considerações finais

O período histórico coberto pela presente análise não contempla a totalidade dos fatos, uma vez que o processo encontra-se em curso e a história vai sendo escrita no acompanhamento cotidiano dos acontecimentos.

A leitura de matérias selecionadas para a categoria o que aconteceu mostra um papel eminentemente descritivo da imprensa, relatando à sociedade uma sucessão de acontecimentos, com uma contextualização própria do meio "jornal".

Ao abordar o que foi descoberto, o papel da imprensa como tradutor de diagnósticos médico-clínicos, epidemiológicos e ambientais mostra uma atuação de mediação entre os diferentes setores da sociedade, ainda que sua abordagem não apreenda a natureza complexa, subjetiva e contextual da relação saúde-doença-cuidado.

A expressão de expectativas da população diante das ações de intervenção no âmbito da clínica e da vigilância sanitária e epidemiológica, e suas contradições diante das ações emergenciais de descontaminação, mostradas nas matérias categorizadas como o que foi feito, confere à imprensa uma espécie particular de controle social.

Na medida em que interessam ao campo da saúde todos os dispositivos sociais que possam contribuir para melhorar a existência individual e coletiva (Njaine & Minayo, 2004), a presente reflexão constitui uma contribuição à elaboração de programas educativos que têm como foco os cuidados com o meio ambiente e as suas repercussões sobre a saúde da população.

Colaboradores

NE Tomita trabalhou na concepção teórica, análise e redação final do texto; NAMR Padula participou na coordenação do GEPICCB e discussão dos achados.

GEPICCB – Grupo de Estudo da Intoxicação por Chumbo em Crianças de Bauru – constitui um locus privilegiado de discussões sobre este problema socioambiental e sanitário e seus participantes contribuem na forma de reflexão coletiva sobre o tema.

GEPICCB: Carlos Henrique Ferreira Martins, Clarice Umbelino de Freitas, Esiquiel de Miranda, José Alberto de Souza Freitas, José Gualberto Tuga Martins Angerami, José Roberto Pereira Lauris, Kátia de Freitas Alvarenga, Márcia Helena Simonetti, Márcia Maria Ferreira Lima, Maria Helena de Abreu, Nilce Emy Tomita, Niura Aparecida de Moura Ribeiro Padula, Olga Maria Piacentin Rolim Rodrigues, Patrícia de Abreu Pinheiro Crenitte, Plínio Ferraz, Telma Maria Ribeiro

Centers for Disease Control and Prevention 2002. Case studies in environmental medicine: lead toxicity. Disponível em <

http://www.phppo.cdc.gov/cdcRecommens/

showarticle.asp?a_artid=P0000017&TopNum=

Artigo apresentado em 3/12/2004

Aprovado em 6/06/2005

Versão final apresentada em 18/07/2005

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Mar 2006
  • Data do Fascículo
    Dez 2005

Histórico

  • Aceito
    18 Jul 2005
  • Revisado
    06 Jun 2005
  • Recebido
    03 Dez 2004
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