Open-access Mulheres em situação de rua no Centro da cidade de São Paulo, Brasil, e acesso alimentar

Resumo

Acesso alimentar implica questões subjetivas, como desejo de alimentar, e estruturas sociais, políticas e culturais. Interessou-nos olhar para o acesso alimentar de mulheres em situação de rua (MSR). Realizamos um estudo com perspectiva etnográfica, entre 2018 e 2022, com MSR no Centro de São Paulo, Brasil. A análise dos dados ocorreu pelo método de análise de conteúdo temática. Atravessaram a pesquisa referenciais teóricos, éticos e metodológicos do feminismo negro e da socioantropologia da alimentação. Emergiram duas categorias êmicas centrais para a discussão, que dizem respeito a locais e formas de acesso à comida pelas participantes e às percepções delas sobre a comida acessada (“bocas de rango” e “bocas de fudê”). As participantes produziam estratégias para segurança alimentar e nutricional (SAN) que levavam em conta seus processos de decisões alimentar, o que incluiu o que percebiam como prazeroso e desejável para comer e experienciar pela alimentação. A construção da SAN para e por MSR exige fortalecer os meios materiais, políticos e culturais em que se debruçam para decidirem de maneira autônoma e coerente o que comem, tendo em seus prazeres e desejos implicações importantes para suas decisões em torno do acesso alimentar.

Palavras-chave:
Segurança alimentar e nutricional; Prazer; População em situação de rua; Decolonização; Mulheres

Abstract

Food access involves subjective issues, such as food desires. In addition, involves social, political, and cultural structures. This study focused on examining food access among women experiencing homelessness (WeH). We conducted an ethnographic study between 2018 and 2022 with WeH in central São Paulo, Brazil, and data were analyzed using the thematic content analysis method. Black feminist theory and socio-anthropological perspectives on food guided the research”s theoretical, methodological, and ethical approach. Two emic category emerged from the findings about the spaces and ways by which participants accessed food, and their perceptions of this access (“bocas de rango” and “cocas de fudê - “bocas de rango” may be comparable to “food dens”, “bocas de fudê” may be loosely translated as “fucking awesome food den” due to the great food experience). We concluded that participants developed strategies for food and nutritional security (FNS) based on their food choices, including what they perceived as pleasurable and desirable to experience through food. In this sense, building FNS by and for WeH requires strengthening the possibilities of material, political, and cultural resources that support their autonomous decision-making about what they want to eat, with their pleasures and desires playing a significant role in this process.

Key words:
Food and nutrition security; Pleasure; People experiencing homelessness; Decoloniality; Women

Resumen

El acceso a los alimentos implica cuestiones subjetivas, como los deseos alimentarios, así como las estructuras sociales, políticas y culturales. Este estudio se centró en examinar el acceso a los alimentos entre mujeres en situación de calle (MeC). Llevamos a cabo un estudio etnográfico entre 2018 y 2022 junto a MeC en el centro de São Paulo, Brasil, y los datos fueron analizados mediante el método de análisis de contenido temático. La teoría feminista negra y las perspectivas socio-antropológicas sobre la alimentación orientaron el enfoque teórico, metodológico y ético de la investigación. Dos categorías émicas surgieron de los hallazgos: los espacios y los métodos mediante los cuales las participantes accedían a los alimentos y sus percepciones sobre este acceso (“bocas de rango” y “bocas de fudê”). Concluimos que las participantes desarrollaron estrategias para la seguridad alimentaria y nutricional (SAN) basadas en sus elecciones alimentarias, incluyendo lo que percibían como placentero y deseable para comer. En este sentido, construir la SAN para MeC requiere fortalecer los recursos materiales, políticos y culturales que respalden la toma de decisiones autónoma sobre lo que desean comer, con sus placeres y deseos desempeñando un papel significativo en este proceso.

Palabras clave:
Seguridad alimentaria; Placer; Personas sin hogar; Decolonización; Mujeres

Introdução

O acesso alimentar abrange a relação entre as características do ambiente alimentar e as capacidades de indivíduos e coletivos desejarem e estarem propensos fisicamente, materialmente e subjetivamente a usarem esse ambiente¹. Em dimensões práticas, o acesso alimentar está condicionado ao preço dos alimentos, aos tipos de serviços disponíveis e a localidade, relação geográfica e de recursos (como transporte ou renda), preferências e desejos pessoais e dinâmicas de vida que dificultam ou facilitam o acesso a um ou outro serviço ou a um ou a outro alimento (incluindo acesso a doações). Sob esse olhar, o acesso ao alimento implica questões subjetivas, como desejo alimentar e aceitabilidade, e também estruturas sociais, políticas e culturais contextualizadas aos sujeitos¹.

Interessa-nos aqui pensar o acesso alimentar de mulheres em situação de rua (MSR) que vivenciam insegurança alimentar e nutricional (IA). A IA no Brasil é mensurada a partir da Escala Brasileira de Medida Domiciliar de Insegurança Alimentar², tendo as experiências de famílias domiciliadas como parâmetro, e pode se referir à falta de comida entre os adultos ou, quando grave, de todos os membros da família. A IA também pode se referir a mudanças na qualidade e no tipo de comida que a família acessa, como aumento no consumo de ultraprocessados³. As MSR não são abarcadas por mensurações como esta, por não estarem domiciliadas, e o que temos de principal informação sobre IA nas MSR vem de censos, que, até o momento, olharam para a presença ou ausência de comida no dia a dia, e de maneira não discutida por gênero e raça. Pelo Censo de 2019, na cidade de São Paulo, 35,3% das pessoas em situação de rua (PSR) entrevistadas responderam que passaram um dia inteiro sem comer nos sete dias anteriores à pesquisa porque não conseguiram comida4. Foi o único Censo que inclui essa pergunta.

A última estimativa sobre as PSR no Brasil apontou para 236.400 pessoas nessa situação5, sendo 22,8% na cidade de São Paulo. Dessas, a maior parte se autodeclarava preta ou parda. E apesar de a maioria das PSR na cidade se auto reconhecer como homens cis, 40% das violências auto notificadas por pessoas em situação de rua são referentes a mulheres cis e, principalmente, transgênero5. Alguns aspectos sociais que contribuem para que MSR vivenciem a situação de rua de maneira mais violenta, bem como a IA, são as diferentes exposições a estigmas e violências de bases racistas, misóginas e cis-heterocentradas5.

Jussara Campos e Rita de Cássia Akutsu6, a partir de uma revisão integrativa, discutiram as imbricações entre segurança alimentar e nutricional (SAN) e gênero, compreendendo que, de acordo com as políticas públicas de alimentação e nutrição no Brasil, a SAN consiste “no acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”6 (art. 3º). As autoras pontuam a importância de olhar para estratégias de mulheres para o acesso alimentar, e reforçam a centralidade de mulheres como produtoras de SAN, uma vez que a atuação delas na agricultura e nos domicílios urbanos provém comida às suas famílias e a construção de estratégias adaptativas para obter a comida. Apesar de não ser um critério de exclusão, na revisão das autoras não emergiram estudos voltados para MSR. Rosa e Brêtas7 trouxeram experiências de violências que MSR vivenciam na capital paulista, inclusive relacionadas à alimentação. As participantes do estudo tinham a percepção de sujeição e encarceramento a regras de horários, convivência e formas de se alimentar em espaços como albergues, nos quais “eram obrigadas a adequarem seus hábitos e costumes de cuidado com o corpo, higiene, alimentação, entre outros, em compatibilidade com as condições que os serviços lhes ofereciam e com as regras que tinham”7 (p. 279). A pobreza, e consequências como a fome, são experienciadas de diferentes formas pelas intersecções de raça com gênero, classe, sexualidade, entre outros marcadores sociais8, e isso se atrela a elementos coloniais da sociedade contemporânea9,10. O sistema capitalista em países como o Brasil permanece se utilizando de elementos coloniais, como o apagamento cultural e simbólico de mulheres pobres e pessoas negras, e perpassam esses elementos coloniais o controle e disciplinamento de corpos, tanto por regras rígidas e excludentes de convivência quanto por negligência a aspectos subjetivos como desejos e prazeres de sujeitos(as)9-11. Nesse sentido, a relação com a comida e com o acesso alimentar para MSR inclui estratégias de combate a estereótipos e estigmas que as levam a ambientes alimentares excludentes e hostis, em que suas subjetividades não são consideradas11,12.

Santos et al.13 contribuíram para a compreensão das implicações de realidades socioeconômicas ao acesso alimentar, a partir de um estudo com mães da área urbana de Cruzeiro do Sul, no Acre. Mesmo não sendo um estudo com MSR, os dados corroboram a importância de olhar para estratégias alimentares de mulheres, sobretudo pobres, para construção de SAN. No estudo, mulheres mães com piores realidades socioeconômicas desenvolviam uma maior quantidade de estratégias para lidar com as dificuldades financeiras e a falta de variedade de alimentos regionais e coerentes culturalmente com elas. Por exemplo: substituições de alimentos, como vegetais por ultraprocessados, e a compra fora de grandes supermercados, mas junto a vendedores ambulantes que propiciavam praticidade, alimentos mais regionais e melhores preços.

Nesse sentido, quais as possíveis estratégias que MSR desenvolvem para o acesso alimentar? E como isso pode nos comunicar sobre seus processos de construção de SAN e acerca da abrangência e profundidade dos obstáculos e potencialidades desse processo? Tendo em vista que o acesso alimentar concatena dimensões subjetivas, como desejo alimentar e aceitabilidade1, que as bases coloniais no Brasil apagam e negligenciam historicamente essas dimensões relativas às MSR e que há uma lacuna de estudos que analisem esse grupo populacional, nos debruçamos sobre as estratégias para o acesso ao alimento que MSR desenvolvem no Centro da cidade de São Paulo cotidianamente, com atenção às estratégias que apontam para o que consideram desejável e coerente como comida.

Processo metodológico

Realizamos um estudo exploratório, descritivo e qualitativo, com perspectiva etnográfica. Fizemos a imersão e construção dos dados no Centro da cidade de São Paulo, por ser a região com maior número de PSR no município nos últimos censos paulistanos4. A duração do estudo foi de 2018 a 2022, período no qual utilizamos diferentes modalidades de construção dos dados, conforme detalhado a seguir.

A construção dos dados

Delineamos uma perspectiva metodológica etnográfica e desenvolvemos observação participante, não participante e entrevistas semiestruturadas no Centro de São Paulo, com uso de diário de campo15. Durante as observações não participantes, observamos: interação de mulheres pernoitando na região com demais pedestres, comércios e o território em geral; doações ou vendas de comida nas calçadas, praças e embaixo de viadutos; e funcionamento de serviços de alimentação com a presença de PSR, focando a presença ou ausência de MSR. Para Maria Teresa Anguera15, a observação não participante prevê que a pesquisadora não inicie uma relação de interação com as pessoas observadas, ou que pelo menos essa interação não seja base para as notas e observações. Porém, isso não implica neutralidade da pesquisadora em campo, e sem dúvida a presença em si de uma pessoa observadora contorna e impacta as possibilidades de interações locais.

Iniciamos as observações participantes em eventos e audiências públicas produzidas por ou sobre as PSR, no Centro da cidade, em serviços de acolhimento e durante a oferta de refeição no território, nas calçadas, viadutos e praças. Além das MSR, desenvolvemos conversas com membros de entidades, organizações e movimentos ligados às MSR. A aproximação a possíveis participantes em logradouros públicos se deu de maneira gradual e informal, com apresentação prévia da pesquisadora, contando seu nome, seu interesse em estar ali e o foco do trabalho. Aquelas que se interessavam e que se auto reconheciam como mulheres que pernoitavam na região eram então convidadas a participar da pesquisa - a partir de observações participantes no seu dia a dia ou de entrevistas. Essa forma de aproximação visava ser não coercitiva ou invasiva, pautando-se em Pacheco-Vega e Parizeau14. As observações participantes e não participantes foram descritas em diário de campo, que funcionou como material de registro empírico, em que as relações intersubjetivas da pesquisadora, das participantes e dos territórios foram sendo anotadas, refletidas e reinterpretadas, nos auxiliando na compreensão dos avanços e recuos interpretativos do campo, no registro de dilemas éticos e na reformulação de perguntas de pesquisa, sendo uma ferramenta auxiliadora para gerar interpretações e conclusões.

No que diz respeito às entrevistas em profundidade, aplicamos um questionário semiaberto entre 2021 e 2022. A data de início foi apenas em 2021 devido à pandemia de COVID-19, sendo que as conversas se iniciaram de maneira informal, a fim de que ambas (pesquisadora e participante) fizessem entender seus interesses ou aceites. À medida em que a participante se sentia confortável para rever a pesquisadora e conversar um pouco mais, as entrevistas ocorriam. A duração das entrevistas não foi uniforme, variando segundo a disponibilidade da participante, tendo variado de 30 a 120 minutos.

As participantes

A PSR é caracterizada no Brasil como um grupo heterogêneo que tem em comum características como: extrema pobreza, vínculos familiares comprometidos e a inexistência de moradia convencional regular16. A inclusão das participantes se deu a partir de dois critérios: estar em situação de rua pernoitando em albergues ou logradouros públicos do Centro da cidade de São Paulo e se autoidentificar como mulher. Como critério de exclusão, aquelas que já passaram pela situação de rua mas estavam domiciliadas no tempo da pesquisa. Ao todo, 27 participantes consentiram com a observação participante, e dessas, 13 concederam entrevistas em profundidade. O processo de consentimento é descrito adiante.

Os atravessamentos da COVID-19

Em decorrência da pandemia de COVID-1917, entre março e setembro de 2020, acompanhamos notícias produzidas por entidades ligadas às PSR e mantivemos contato com essas entidades, sem estarmos em imersão no território. Esse período visou o resguardo da saúde das participantes e da pesquisadora. A partir de setembro de 2020, retomamos as idas ao território para colaborar na distribuição de marmitas junto às entidades e dar continuidade às observações. Nesse período, a prefeitura de São Paulo adotou, como principal medida emergencial de alimentação, a ação Rede Cozinha Cidadã18. No Centro da cidade havia três pontos de distribuição, com oferta de cerca de 2.400 refeições por dia18,19. Foi nesses espaços que nos inserimos durante a retomada gradual das atividades no território.

Entre maio de 2021 e junho de 2022, com a vacinação das PSR e de profissionais da saúde na cidade, iniciamos entrevistas com MSR e aumentamos a frequência das observações participantes, sempre com anotação em diário de campo. A pesquisadora se encontrava com as mesmas participantes repetidamente ao longo desse período (n = 27). A saída do campo (junho de 2022) ocorreu quando houve saturação dos dados19, pois não houve mais a emergência de novos conteúdos e teve início a repetição de dados nas três frentes de produção (observações participantes e não participantes e entrevistas).

Análise dos dados

A análise se deu pelo método de análise de conteúdo temática21. O processo de categorização foi realizado por duas pesquisadoras treinadas. Em uma primeira etapa, as entrevistas foram transcritas logo após cada conversa, e essas transcrições, em soma ao nosso diário de campo, foram organizados no software MAXQDA20, formando nossos dados de pesquisa. Em uma segunda etapa, sublinhamos e destacamos trechos com sentidos semelhantes nos dados de pesquisa, e em seguida, dentro do contexto das falas, trechos foram agrupados. Esses agrupamentos foram nomeados, com expressões êmicas ou não, dando conta de tais sentidos, originando temas de análise. Depois construímos uma versão resumida de codebook, recomendado por MacQueen22. Pautando-se nesse codebook, a segunda pesquisadora empreendeu o processo de categorização, e ambas discutiram continuamente a concordância e reprodutibilidade dos temas construídos e trechos categorizados. Os temas que anunciaram estratégias de acesso à comida pelas participantes foram discutidos neste artigo. Interpretamos os dados em interlocução com a socioantropologia da alimentação e com as epistemologias construídas pelo feminismo negro, a partir, por exemplo, de Patrícia Hill Collins, bell hooks e outras(os) autoras(es) decoloniais, como Achille Mbembe.

Questões éticas

Para a condução ética do trabalho de campo, nos pautamos em Pacheco-Vega e Parizeau14, que colocam três questões para etnografias junto a populações em vulnerabilidade social: 1) posicionalidade da pesquisadora em campo em relação às participantes da pesquisa e ao território, trazendo luz à importância de reconhecer e refletir criticamente sobre os privilégios de raça, gênero, sexualidade e classe de quem escreve a realidade observada; 2) aproximação em campo não coercitiva, que respeite confidencialidades, disponibilidade e disposição das participantes, buscando não gerar constrangimentos na rotina; e 3) comprometimento com um tratamento, interpretação e divulgação dos dados de forma ética, que não represente de maneira estigmatizante as participantes e o território, considerando a posicionalidade das pesquisadoras nesse momento e a confidencialidade de informações sensíveis.

Durante as conversas, as tarefas diárias das participantes não eram interrompidas e a pesquisadora se colocava para participar de possíveis demandas, como carregar carrinho de reciclagem ou conversar caminhando no trajeto delas para alguma atividade (como comparecimento em entrevista de emprego). Por trabalharmos com uma população em extrema vulnerabilidade social, a gravação das entrevistas ocorreu apenas mediante aceite das participantes.

Todas receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, entregue após uma descrição detalhada sobre a pesquisa, sendo recapitulado sempre que solicitado pelas participantes. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (protocolo nº 29137419.9.0000.5421).

Resultados e discussão

Caracterização das participantes

A caracterização das participantes será descrita nesta seção a partir de termos êmicos em articulação com termos estudados pela literatura científica, como é o caso das expressões “mulheres cisgênero” e “mulheres transgênero”23-25, “em situação de rua”16 e mulheres “brancas, pretas e pardas”26,27. Ao longo das falas das participantes, esses termos ajudaram a padronizar a caracterização das interlocutoras.

Apesar de reconhecerem como válida a expressão “estar em situação de rua”, esta não foi usada por todas as participantes, devido às diferentes representações do termo para elas. Na literatura científica e entre os movimentos ligados às PSR, a ideia de “situação de rua” serve como uma expressão guarda-chuva, de cunho teórico e político, para agrupar um conjunto heterogêneo de modos de vida, que são reconhecidos por quem os vivencia16. Entre as expressões que emergiram do campo, e que expressam a situação vivenciada, há o “ser maloqueira”, que na percepção de Pérola é representada pela presença da maloca - em seu caso, a barraca -, que propicia algum tipo de suporte quando comparado ao estar na calçada, “em situação de rua”, contexto ainda mais vulnerável aos seus olhos. Também surgiram “dormindo em serviços de acolhimento”, quando acolhidas em albergues, “estar pernoitando a região”, “estar na rua” e “eu fico ao redor”, referindo-se geralmente a não estar acolhida em nenhum serviço e pernoitar debaixo de marquises ou calçadas.

Em relação ao gênero, a autoidentificação ou aparecia de maneira espontânea ao longo da conversa ou era colocada como pergunta para a participante, compreendendo a não linearidade e a fluidez de quaisquer signos estéticos, não se encerrando em uma binaridade feminino e masculino28,29. Algumas participantes atrelaram suas respostas de gênero à orientação sexual, intuindo que ser mulher é se relacionar com homens, geralmente cis, e afirmando-se como mulheres a partir desse critério. Sobre aquelas que não se identificavam como cisgênero, tanto se autoidentificavam como “trans” ou “travestis” ou mesmo como “mulher gay”, e denominavam as mulheres cisgênero em situação de rua como “as outras mulheres” ou “as mulheres normais”. No Centro da cidade de São Paulo há apenas uma casa de acolhimento destinada a mulheres transgênero, o que expõe as mulheres trans e travestis às ruas e calçadas30. Do total de participantes (n = 27), 34% identificaram-se como mulheres trans, travestis ou “mulher gay”.

Sobre raça, a maioria das participantes se reconheceram como mulheres negras (52%), seguidas de mulheres de que não obtivemos a autoidentificação sobre raça (33%) e mulheres que se autoidentificavam como brancas (15%). Erroneamente, não foi estruturada uma pergunta direta sobre raça nas observações participantes, visto não ser uma questão para inclusão delas. Porém, ao longo da etnografia, a percepção sobre a importância nos níveis histórico e político de compreender a autoidentificação delas sobre raça nos fez passar a adentrar o tema. A partir desse momento, a maioria dos termos de autoidentificação que surgiram foi “ser negra”. Além disso, em uma das falas, a autoidentificação trouxe explícita a intersecção de gênero com a autoidentificação racial:

Pesquisadora: Você se considera em qual gênero?

Natalina: Sou mulher, mulher, negra, cabelo duro (mulher cisgênero negra).

Por fim, tivemos falas em que a autoidentificação racial vinha espontaneamente, e criticamente, pela comparação com a cor da pesquisadora.

Eu não estava em um momento de campo, estava passando enquanto pedestre [...] após atravessar a rua, uma mulher se aproximou “Oi, linda! Eu sei que eu não sou linda, branquinha assim como você”, e olhou meu corpo, “mas você me ajuda comprando um absorvente?” Iniciamos uma breve conversa e ela me ajudou com informações sobre o território (diário de campo, trecho sobre Lorraine).

É importante frisar que essa autocomparação não se interrompe no nível da cor da pele, visto que cor - como um dos parâmetros de raça - se intersecciona com classe e com gênero7,23. Além disso, as intersecções entre gênero, sexualidade e raça nas autoidentificações das participantes regem uma discussão teórica já bem firmada por intelectuais e feministas negras, que enfatizam a importância de compreender que essas categorias sociais constroem mutuamente as vivências das participantes, e que encará-las isoladamente propicia a invisibilização dos sentidos e significados que essas mulheres atribuem à vida7,31.

Temas de análise

Os dados foram categorizados em dois principais temas, apresentados no Quadro 1.

Quadro 1
Descrições gerais dos temas categorizados quanto a estratégias e percepções de mulheres em situação de rua em torno do acesso à comida, um estudo no Centro da cidade de São Paulo, Brasil.

A comida acessada: locais e formas de acesso à comida

Os locais de acesso a refeições perpassaram: 1) doações por pedestres ou entidades sociais, principalmente em praças, próximo a estações de metrô e embaixo de viadutos; 2) marmitas oferecidas em Centros Temporários de Acolhimento e núcleos de convivência da região central (sobretudo Rede Sefras, espaço social D”Achiropita e núcleo INFOREDES - chamado de Penaforte pelas participantes); 3) refeições produzidas em espaços religiosos de convivência; 4) marmitas oferecidas em pontos de distribuição emergenciais18,32; 5) compra de refeições ou alimentos avulsos nos comércios da região, com o dinheiro da catação de recicláveis ou de outros trabalhos; 6) o ato de pedir aos comerciantes e pedestres locais refeições prontas ou dinheiro para compra; 7) cozinhando a própria comida, o que demandava outras formas de acesso, como pedir por ingredientes culinários e utensílios ou comprar ingredientes com a renda de seus trabalhos.

Em termos êmicos, locais de distribuição de refeições por entidades sociais, filantrópicas ou públicas, além de locais no território em que entidades e ONGs iam para doar comida de maneira mais constante, eram chamados de “bocas de rango”. Eram nesses espaços que as participantes acessavam a maior parte de suas refeições. A Figura 1 reúne as principais “bocas de rango” acessadas pelas participantes.

Figura 1
Mapa com os principais locais de acesso à comida por mulheres em situação de rua no Centro da cidade de São Paulo, conforme estudo etnográfico entre 2018 e 2022.

As “bocas de rango” apresentavam dias certos de funcionamento e horário limite para retirada das refeições, inclusive com padrão de horário das doações ao longo do dia. O conhecimento delas sobre o território e os possíveis locais de acesso atrelava-se à possibilidade de não ficarem sem alguma refeição importante do dia. Cada participante se locomovia entre diferentes “bocas de rango”, fosse no mesmo dia ou entre os dias da semana, para buscar refeições diferentes, que considerasse melhores, ou por precisar se deslocar na cidade para trabalhos informais, busca de documentos e outras demandas. Na maior parte das refeições, preferiam acessar “bocas de rango” mais próximas dos seus locais de guarda de pertences, pelo medo da retirada destes por policiais caso não estivessem perto.

A heterogeneidade da vivência da situação de rua por mulheres consiste também nas diferentes maneiras de interação com as calçadas e praças; isso é importante de ser comentado pois se entrelaça com as formas de acesso à comida. As participantes que pernoitavam nas calçadas ou embaixo de viadutos - em barracas próprias, tapetes de papelão ou cobertores - tinham uma relação mais permanente na convivência com as calçadas e praças, uma relação de não transeunte, nas palavras de Frehse32. O acesso à comida do dia a dia por essas mulheres também provinha mais das calçadas e praças, de modo que elas se identificavam mais com o estar em situação de rua. A construção de estratégias para acesso à comida se dava a partir da interação com esses espaços públicos. Portanto, pedestres, “bocas de rango”, vendedores ambulantes ou comércios locais tornavam-se importantes para o acesso à comida diária. Nesses casos, elas precisavam se relacionar diretamente com diferentes espaços, os quais têm diferentes horários, circulação de pessoas e regras. Isso as levava, apesar da situação de rua ser reconhecida como uma situação de errância, a buscar ter alguma relação mais estável com o território (pernoitar e comer em locais já reconhecidos por elas, por exemplo), pois a menor errância poupavam-nas de reconstruírem estratégias de acesso constantemente.

Já as participantes que pernoitavam ou mesmo passavam o dia em espaços de convivência se relacionavam com as calçadas e praças do centro como espaços de passagem: para ir ao trabalho ou para a ida a cursos e possibilidades de profissionalização. O acesso à refeição em si ocorria sobretudo nos próprios espaços de acolhimento. Por vezes, a distância da casa de pernoite e as atividades que desenvolviam ao longo do dia as faziam percorrer distâncias a pé na cidade, voltando apenas para dormir. Esse trajeto as fazia esperar para comer na própria casa de acolhimento, ou em “bocas de rango”. Nesses dois casos, eram maneiras de comer refeições com arroz e feijão e alguma mistura, sem precisarem pedir por elas em comércios ou a pedestres. Outras vezes, compravam algum alimento pronto, inclusive ultraprocessados como biscoitos, pela praticidade, fome ou desejo que sentiam ao longo do dia.

Algumas participantes pernoitavam em casas de acolhida religiosas, que não eram albergues e provinham cozinha para uso coletivo. A possibilidade de cozinhar a própria comida fora das calçadas dava a elas o sentimento de maior segurança, além de um maior distanciamento da percepção de estar em situação de rua. Isso significa que as formas de acesso à comida contornavam a autoidentificação das participantes quanto a estar em situação de rua. Algumas participantes afirmavam que não se mora na rua, sobrevive-se nas ruas. Mas esse sobreviver não se construía sem afetos e estratégias de acessos prazerosos e desejos. No próximo tema, detalharemos as percepções delas acerca dos locais de acesso e das comidas acessadas.

Percepções sobre a comida acessada: as “bocas de rango” e as “bocas de fudê”

Violeta: Lá [cidade em que pernoitavam anteriormente], fazíamos assim: quando caía um caminhão, pegávamos as verduras, os legumes, as comidas que caiam e fazíamos um buffet pra todos nós... lá eles tinham fogo em uma lata com gás, e era um monte de coisa!

Jazmin: Uma delícia, nossa! Boca de fudê! É quando tem fartura, sabe? Comida farta!

Violeta: Isso. Tinha verdura, legumes, de tudo (ambas mulheres negras transgênero, em entrevista).

Em contraposição às “bocas de rango”, inserimos aqui também em termos êmicos suas noções sobre as “bocas de fudê”. Entre as diferenças dos termos êmicos apresentados, há uma nuance importante de significado que os difere. As “bocas de rango” são espaços físicos nos quais o acesso à comida diária tendia a acontecer, fosse esta comida percebida como mais ou menos desejosa, mais ou menos prazerosa. Contudo, as “bocas de fudê” não são um espaço físico de acesso, mas representavam sentidos atribuídos ao comer no que tange à percepção de uma comida deliciosa, prazerosa, quista. Essa percepção teve como base tanto a variedade dos tipos de comida disponíveis quanto a quantidade, bem como a vivência do comer de maneira farta, à vontade, servindo-se. Os elementos em torno do comer da “boca de fudê”, inclusive, apareceram em outras falas a partir de outros termos, como o prazer ou desejo em “comer à vontade” ou no “comer em formato self-service”, “comer de maneira farta, um banquete”, também emergindo aspectos da quantidade livre e da autonomia.

Quanto às “bocas de rango”, havia a insatisfação com o sabor, a variedade e a quantidade das comidas servidas. Contudo, era a maneira mais disponível de acesso à comida. Além, as “bocas de rango” geravam incômodo em algumas participantes pela presença maior de homens cis, o que as faziam se sentir inseguras quanto a assédio ou violências físicas na fila (empurrão e brigas, por exemplo). Algumas mulheres relatavam também não saber se poderiam frequentar alguns desses espaços, pois apesar de pernoitarem nas ruas do Centro, elas tinham à disposição casa de parentes.

Além disso, as regras em algumas bocas de rango públicas ou filantrópicas as faziam se sentir pouco autônomas em relação ao próprio comer, precisando seguir normas de quantas vezes de se servir, quantidade de comida, tempo na fila, horários para estar na fila, e a convivência com grupos muito heterogêneos de pessoas (homens, mulheres, idosos, pessoas sob o uso de álcool e sem uso de álcool, por exemplo). Rosa e Brêtas12 trouxeram dados semelhantes ao pesquisarem sobre experiências de violências com as MSR no Centro de São Paulo, com relatos sobre se sentirem em “prisões semiabertas” quando frequentavam espaços como albergues. Essa noção de encarceramento pode ser discutida à luz de Michel Foucault11, cujas obras trazem uma ampla discussão acerca de estratégias de disciplinamento na sociedade capitalista moderna como dispositivos de produção de poder. Essas estratégias perpassam a homogeneização de comportamentos em espaços institucionais, como modelo punitivo e disciplinar de corpos e subjetividades11. O disciplinamento parte da configuração de verdades e saberes hierárquicos que sustentam relações de poder, como a do opressor-oprimido. Mbembé33 (2018) complexifica essa discussão a partir da lógica pós-colonial e de países colonizados, mostrando que as relações de poder no capitalismo partem de políticas de morte, necropolíticas, que produzem poder e soberania pela produção de verdades que definem quem deve morrer e quem pode matar nas sociedades. O disciplinamento de corpos, portanto, em uma sociedade de bases coloniais, como o Brasil, precisa também ser discutido pensando os elementos desse capitalismo moderno que dá continuidade projeto de poder colonial sob corpos historicamente alvo da necropolítica, como MSR.

A ideia de “fudê” desloca, ainda, a ideia de acesso desejado à comida para um lugar socioantropológico do sexo e da luxúria, via fartura, articulando símbolos culturais de prazer sexual/carnal ao prazer alimentar35. A “boca de fudê” subverte a noção de mendicância e de extrema pobreza, e do aprisionamento às normatizações das “bocas de rango”. As participantes constroem a subversão tanto ao desejarem o prazer da “boca de fudê” quanto ao estarem atentas a oportunidades de produção dessa forma de comer (como a de pegar alimentos que “caíram de um caminhão”). A boca de fudê - mesmo que ainda contextualizada na situação de rua - se difere do acesso mais comum na situação de rua: condicionado a regras, horários, temperos, sabores e alimentos que nem sempre são coerentes com suas percepções de gostoso e quisto. Em meio às limitações das bocas de rango e da falta de moradia, a boca de fudê acaba funcionando como uma estratégia política de saída momentânea do projeto colonial de precariedade material e simbólica para as MSR.

Em uma das conversas, Isys, MSR cisgênero negra, compara um núcleo de convivência que frequentava para pessoas em situação de rua a um quartel, afirmando não ir mais ali por não querer ser tratada como se estivesse encarcerada: “Não estou na cadeia”.

As “bocas” são mais do que espaços físicos de acesso alimentar, são espaços alimentares em que há diferentes possibilidades de relação com a comida, e com isso de percepções de si mesmas36. No caso de Isys, as regras do albergue remetem à prisão, ao encarceramento. As formas de acesso alimentar, portanto, comunicam relações, inclusive entre o Estado e a população; e torna-se uma continuidade de aspectos de democratização, promoção de saúde ou, como no caso, de disciplinamento e biopoder11,34. Da mesma forma que pernoitar calçadas e praças confere diferentes formas de se perceberem subjetivamente, o como/o quê/quanto e onde comer também podem gerar diferentes noções de si.

É importante citar que as bocas de fudê não aconteciam constantemente, sendo oportunidades mais difíceis no Centro de São Paulo. Outras estratégias são traçadas na rotina delas, também potentes do ponto de vista de subversão à falta de comidas que saciassem seus desejos e prazeres: pedir por alimentos e refeições desejadas, aceitar e comer apenas doações que considerassem gostosas e adequadas para suas saúdes e, quando possível e acessível, comer em casas de familiares (mãe e avó). Estratégias de agenciamento em prol do que elas desejam e sentem prazer em comer remeteram à construção do decidir sobre a própria alimentação. Pensando a partir de bell hooks37, nesse processo de agência, as MSR deslocam a construção da SAN do centro hegemônico da sociedade para a margem, para as suas próprias decisões, e deslocam suas subjetividades da “margem ao centro”.

Conclusão

Pesquisas sobre a alimentação de MSR podem influenciar políticas públicas e o olhar da sociedade em geral para a desconstrução de negligências históricas a pessoas em extrema vulnerabilização. Os contornos do acesso à comida por MSR nos contam sobre o que elas querem comer e sobre as lacunas estruturais para esse acesso. Além disso, as estratégias construídas e os sentidos dados pelas MSR para o acesso à comida nos mostram mulheres agentes do próprio comer, que resistem à redução de sua alimentação à fome biológica e à redução de suas identidades à margem e precariedade. Quando MSR constroem estratégias para sentirem prazer ao comer e persistem no desejo pela fartura, e não pelo mínimo para sobrevivência, elas rompem com estereótipos de mendicância e de marginalização, subvertendo as ordens neocoloniais que prescrevem o Brasil9,10. O prazer e as subjetividades das participantes eram alvo de tecnologias de disciplinamento e de produção de poder11. As “bocas de rango” se diferem em suas dimensões sociológicas das “bocas de fudê”, pelas distintas interações socioculturais entre indivíduos e processos que produzem ambas (mais ou menos comensalidade, mais ou menos autonomia, mais ou menos coerência com os próprios desejos e preferências), e pelas representações e significados que ambas as “bocas” carregam social e culturalmente (uma, encarceramento; outra, fartura/gozo/autonomia, por exemplo). Assim, o prazer via esse sentimento de “fudê” das bocas desejadas pelas participantes é um caminho de subversão à ordem, em que elas constroem estratégias não hegemônicas de vida e que, em nossa compreensão, podem se refletir em caminhos de SAN - inclusive no nível de políticas públicas, caso esses prazeres sejam considerados e respeitados no centro de discussões políticas.

Por fim, as MSR participantes produziam caminhos para SAN anunciando que o exercício do direito à alimentação adequada perpassa não apenas o acesso ao alimento em si, o que se encerraria com a presença de serviços públicos de refeições e doações de refeições no território, por exemplo, mas sobretudo a escuta e valorização dos processos de decisões alimentares delas, o que inclui o que consideram prazeroso e desejável. Nesse aspecto, sublinha-se a necessidade de fortalecer os meios estruturais, materiais, políticos e financeiros sobre os quais as mulheres precisam se apoiar para exercer suas decisões alimentares de maneira autônoma e coerente com o que desejam para si, estejam ou não em situação de rua..

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  • Financiamento
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), número do auxílio 304385/2021-2.
  • Declaração de disponibilidade de dados
    As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
  • Editores-chefes:
    Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vania de Matos Fonseca

Disponibilidade de dados

As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    Ago 2026

Histórico

  • Recebido
    09 Nov 2024
  • Aceito
    19 Maio 2025
  • Publicado
    21 Maio 2025
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