Sexualidade masculina, gênero e saúde

RESENHAS BOOK REVIEW

Márcia Thereza Couto

Departamento Saúde, Educação, Sociedade, Universidade Federal de São Paulo.

Gomes R. Sexualidade masculina, gênero e saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 183 p.

A obra ancora-se na larga experiência de pesquisador das relações entre sexualidade, saúde e doença. Mais especificamente, nos últimos cinco anos, Romeu Gomes vem se dedicando aos aspectos da sexualidade masculina, tomando como referencial a perspectiva relacional de gênero. Em outras palavras, compreende a sexualidade masculina–bem como a feminina–com base na contextualização dos modelos de gênero construídos culturalmente nas relações e nas instituições sociais. Em suas palavras: [...] adoto uma abordagem sociocultural da sexualidade, procurando interpretar o contexto, as razões e as lógicas das falas e das ações, correlacionando-as ao conjunto de inter-relações e conjunturas, entre outros corpos analíticos.

O eixo central da obra é o explícito propósito de contribuir para a promoção da sexualidade masculina saudável. Assim, embora os capítulos abordem especificidades de relações estabelecidas entre sexualidade masculina, gênero e saúde, a confluência do referencial analítico priorizado–gênero–aplicado aos contextos empíricos apresentados resulta na defesa da noção de sexualidade saudável que, nas palavras do autor, remete à [...] experiência de uma vida sexual prazerosa, informada, sem riscos de doenças, livre de violência e baseada na auto-estima, sem que questões do masculino sejam vistas separadamente das do feminino.

O livro está organizado em seis capítulos e conta, ainda, com uma interessante apresentação escrita por Lilia Blima Schraiber. Nesta, são ressaltadas as contribuições do livro no campo da Saúde Coletiva em termos de um movimento de abertura e estímulo ao debate recém-inaugurado acerca das contribuições da perspectiva de gênero–e das masculinidades–para o entendimento das necessidades de saúde e ao desenvolvimento de inovações tecnológicas no campo dos programas e ações de saúde.

O capítulo 1 situa a pertinência, que se reflete em termos de atualidade e relevância, de abordar a temática da sexualidade masculina, relacionando-a às questões de gênero e saúde. Além disto, apresenta as motivações do autor para a realização da obra. A principal centra-se na intenção de trazer subsídios para a promoção da saúde sexual masculina de forma a beneficiar não só os homens como também as mulheres, no contexto das relações de gênero.

Para o posicionamento em defesa de uma abordagem de gênero da sexualidade masculina e suas conexões com a saúde, o autor inicia apresentando e debatendo possíveis estranhamentos que podem vir de alguns setores do campo da Saúde Pública a tal abordagem. Entre estes, especialmente, a referência a um possível retrocesso, tendo em vista que só nas últimas décadas, e por força da ação política do movimento de mulheres junto ao setor saúde, se estabeleceram políticas de saúde diferenciadas para as mulheres, visando assegurar a equidade de gênero. A defesa da abordagem de gênero no tocante à sexualidade masculina aposta na ampliação do diálogo entre as tradicionais questões no campo da saúde da mulher - e mesmo da criança - com as relativamente recentes questões no campo da saúde da população masculina. Também, tomando como exemplo questões de saúde reprodutiva e saúde sexual no campo da assistência à saúde das mulheres, o autor assegura que a discussão acerca da saúde e sexualidade masculina faz mais do que sentido, se faz necessária. Fundamentalmente, o que este capítulo inicial propõe é a apreensão dos leitores na temática da obra a partir de dois questionamentos–por que sexualidade masculina? e por que saúde do homem?–que são, enquanto questões, convites e, na busca por respostas, afirmação de um novo campo de debate na Saúde Coletiva.

Com o objetivo de introduzir o leitor no cenário que se insere a discussão proposta, o capítulo 2 apresenta o panorama geral da morbi-mortalidade da população masculina no Brasil para, em seguida, focalizar nas discussões sobre a sexualidade masculina. Este recurso se mostra de grande importância para que o leitor possa problematizar as questões centrais da obra - gênero, masculinidade, sexualidade - no contexto dos comprometimentos da saúde e nos padrões de mortalidade. A ênfase na caracterização do perfil da saúde masculina a partir dos indicadores de mortalidade e morbidade decorre da forma como o sistema de saúde se estrutura, tomando por base informações advindas de classificações de mortalidade e morbidade. Como argumenta o autor: "Quando se procura caracterizar a saúde das pessoas, independentemente do seu sexo, com informações do setor saúde, o que mais se encontra, ao contrário da saúde, são a doença e a morte". No tocante à mortalidade, discute o dado de que os homens apresentam sobretaxas de mortalidade mais elevadas, considerando-se todas as faixas etárias, relativamente às mulheres. Destaca, ainda, as principais causas de morte da população masculina: em primeiro lugar, aparecem as doenças do aparelho circulatório, em seguida, as causas externas sendo, dentre estas, os homicídios e os acidentes de transporte as principais, e, em terceiro lugar, as neoplasias. Os padrões de morbidade da população masculina são analisados em comparação com os da população feminina. Chama atenção o fato de que, apesar dos homens morrerem mais e mais precocemente do que as mulheres, estas últimas apresentam taxas de adoecimento mais altas do que as dos homens. Somado a isto, aponta, a partir da literatura consultada sobre autopercepção de saúde e uso de serviços, que as mulheres apresentam avaliação do estado de saúde como mais deficiente comparativamente aos homens. Estes dados são analisados a partir de referencial socioantropológico, que considera na análise dos riscos de adoecimento as configurações histórico-sociais de gênero.

Além da discussão deste panorama de morbi-mortalidade da população masculina numa perspectiva de gênero, este capítulo também problematiza aspectos relacionados ao reduzido envolvimento de homens com os cuidados em saúde, seja no que refere ao autocuidado, seja no que diz respeito à procura de cuidados especializados. No quadro de possíveis respostas à questão, sobressaem as influências dos modelos de masculinidades no tocante à dificuldade de acesso e uso dos serviços de saúde, especialmente da atenção primária, pela incompatibilidade de horários de atendimento do serviço e disponibilidade de tempo do homem que trabalha; percepção de que estes serviços de atenção primária são espaços voltados preferencialmente para mulheres e crianças; medo e/ou vergonha de expressar fraqueza e necessidade de cuidado; crença de que os homens são fortes e invulneráveis à doença.

No capítulo 3, trabalha densamente os referencias que dão suporte ao investimento nas temáticas sexualidade masculina e saúde dos homens. Apresenta e discute criticamente os conceitos "gênero", "masculinidade" e "sexualidade masculina" com base em diversos autores nacionais e internacionais. O percurso conceitual realizado demonstra o quanto o campo de estudos de gênero e das masculinidades tem avançado teoricamente, especialmente a partir das duas últimas décadas. E, o que é instigante, também aponta para a necessidade de um olhar vigilante nos conceitos e em seus empregos nas pesquisas, já que as fronteiras e tensões entre estes conceitos–sexo, sexualidade, gênero, masculinidade–nem sempre são nítidas e, na maior parte das vezes, carregam fortes conotações ético-políticas.

Nos dois capítulos seguintes–o quarto e o quinto o autor avança em direção à aplicação do referencial conceitual posto ao material empírico produzido em suas pesquisas.

No capítulo 4, trabalha a análise dos conteúdos da revista de circulação mensal Men´s Health que, embora publicada em vários países, foi lançada no Brasil apenas em 2006. Ao interpretar as narrativas presentes nesta revista, destaca a maneira como a mídia vem abordando a saúde e a sexualidade masculinas e desvenda modelos subjacentes às mensagens veiculadas para segmentos específicos desta população. O foco central da análise dos conteúdos visuais e textuais desta publicação ancora-se na crítica ao modo como a mídia propõe, veicula e propaga, mesmo que inicialmente para segmentos específicos, discursos no campo da saúde que servem a ideologias que (re)produzem os valores da masculinidade hegemônica–heterossexual, branca, classe média, alta escolarização–que exclui e marginaliza a diferença, transformando-a em desigualdade.

No capítulo 5, desvendam-se cenários, enredos e personagens de narrativas sexuais masculinas. O material empírico que compõe este capítulo remete à recente pesquisa de campo envolvendo dez homens de pouca ou nenhuma escolaridade e oito homens com ensino superior, ambos com quarenta anos de idade ou mais e moradores do Rio de Janeiro. A partir das falas dos sujeitos, produz uma análise das trajetórias vivenciadas pelos homens na construção de sua sexualidade, problematizando-a e situando-a no espectro das ações em saúde. Assim, temas como iniciação sexual, experiências afetivo-sexuais em relacionamentos estáveis e extraconjugais, servem de base para análises problematizadoras do modelo hegemônico de masculinidade e do exercício cotidiano de busca de atualização deste. Ressalte-se, ainda, que o autor nos brinda com uma análise na qual é possível capturar a coexistência de diferentes modelos de masculinidade que, embora sejam refreados no discurso de grande parte dos sujeitos em prol do modelo hegemônico, em alguns momentos, e para alguns sujeitos, sobressaem discursos que apontam para valores de masculinidades contra-hegemônicas.

O capítulo seis traz a contribuição que considero mais autoral da obra, já que apresenta, caracteriza e defende o que seria a sexualidade saudável. Neste capítulo, o diálogo com a produção acerca de duas temáticas de importância no campo da Saúde Coletiva, medicalização e promoção da saúde, é frutífero em termos da atualidade, relevância e estratégia. Para o autor, a sexualidade saudável [...] reflete um cenário histórico, socialmente construído. Agir de maneira sexualmente saudável vai depender, de um lado, da compreensão da própria noção do que seja uma sexualidade saudável e, de outro, do que é considerado adequado em termos do uso dos corpos [...]. Os princípios que fundamentam esta noção, e que são produtos do debate no campo político-acadêmico nas últimas duas décadas, giram em torno de dois grandes eixos: a especificidade ou singularidade da sexualidade masculina e a equidade nas relações de gênero.

Assim, Sexualidade masculina, gênero e saúde é um trabalho inovador e de relevância para o campo da Saúde Coletiva. Com linguagem clara, precisa e acessível, tem potencial de alcançar grande e variada audiência, especialmente entre aqueles com interesse nas áreas de estudo em gênero e masculinidade e suas inúmeras interfaces com os processos de saúde-adoecimento e cuidado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2009
  • Data do Fascículo
    Abr 2009
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