O papel da alimentação como determinante central para a ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), especialmente, em condições endocrinometabólicas relacionadas à obesidade 1, e a padrões alimentares ocidentalizados 2, está bem estabelecido 3. No entanto, a lógica predominante que associa exclusivamente o excesso de calorias ao adoecimento ignora a outra face de um problema de saúde pública complexo: os efeitos deletérios da exposição crônica à insegurança alimentar grave 4, recentemente evidenciados pelo reconhecimento do diabetes mellitus relacionado à desnutrição (DMRD) pela Federação Internacional de Diabetes (IDF, acrônimo em inglês) 5.
Essa forma de apresentação da doença tem ganhado destaque, principalmente, pelos estudos liderados por Meredith Hawkins, que comparou o perfil clínico e metabólico de indivíduos suscetíveis ao diagnóstico de DMRD a pacientes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1) e tipo 2 (DM2) 6. Foi demonstrado que esses indivíduos, negativos para autoanticorpos e para formas monogênicas e lipoatróficas da doença, possuíam menor reserva pancreática de insulina em relação ao DM2, mas com níveis superiores aos observados no DM1. Além disso, apresentaram sensibilidade à insulina preservada, com menor produção endógena e maior captação periférica de glicose em comparação ao DM2, evidenciando um fenótipo clínico fundamentalmente distinto 7.
A insegurança alimentar grave, condição central para a compreensão do DMRD, refere-se à experiência recorrente de fome decorrente da violação do direito humano à alimentação adequada. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, acrônimo em inglês), famílias nessa situação provavelmente ficarão sem comida e seus membros poderão passar um dia ou mais sem se alimentar durante o período de referência 8. No Brasil, a mensuração dessa condição é realizada, principalmente, por meio da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), que permite classificar os domicílios em insegurança alimentar leve, moderada ou grave, com base nas experiências vividas pelos membros da família 9.
Durante o Congresso Mundial de Diabetes de 2025, realizado em Bangkok, Tailândia, além de reconhecer oficialmente a doença, denominando-a como diabetes mellitus tipo 5 (DM5), a IDF anunciou a criação de um grupo de trabalho responsável por definir critérios diagnósticos, elaborar diretrizes terapêuticas e estabelecer um registro global de casos 5. A iniciativa discutiu, ainda, o desenvolvimento de módulos educacionais para profissionais de saúde e a promoção de colaborações internacionais em pesquisa 5. Essa decisão reacendeu o debate na comunidade científica sobre essa forma de apresentação do diabetes, descrita há quase 70 anos, mas ainda ausente nas classificações diagnósticas oficiais.
A primeira descrição do DMRD foi realizada em 1955, pelo médico britânico Hugh-Jones, com dados oriundos da Jamaica 10. Em seguida, outras descrições foram realizadas, principalmente em países da África Subsaariana e Ásia 11,12,13,14,15, com dados de prevalência na Índia de aproximadamente 23% dos casos de diabetes 16. Esses pacientes, em geral, eram jovens, magros, de baixo status socioeconômico e com histórico de desnutrição crônica, manifestando um diabetes com características clínicas distintas dos perfis clássicos da doença 17. Em 1985, a Organização Mundial da Saúde (OMS) 18 chegou a reconhecer oficialmente essa forma de apresentação, denominando-a malnutrition-related diabetes mellitus (diabetes mellitus relacionada à desnutrição), o que fomentou, inicialmente, propostas de critérios diagnósticos 15. Entretanto, anos mais tarde, a classificação foi retirada dos documentos oficiais por alegação de escassez de estudos que sustentassem a diferenciação 19.
Existem evidências consistentes, no entanto, de que populações em situação de insegurança alimentar grave, especialmente durante o início da vida, apresentam maior risco de desenvolver condições metabólicas e cardiovasculares na idade adulta 20,21. Essa relação foi proposta, inicialmente, pelo trabalho pioneiro de David Barker et al. 22, ao descrever a associação entre baixo peso ao nascer - um indicador de má nutrição durante a gestação - e doença cardíaca na vida adulta. Posteriormente, o grupo liderado por Barker ampliou essas observações, identificando associações entre baixo peso ao nascer e outras condições como intolerância à glicose, DM2, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemias 23,24,25.
Esse cenário pode ter implicações ainda mais profundas em regiões historicamente marcadas por desigualdades sociais, como na América Latina, onde a obesidade e as carências nutricionais coexistem, muitas vezes, em uma mesma pessoa, família ou comunidade, caracterizando a dupla carga de má nutrição 26. No Brasil, por exemplo, uma análise transversal da linha de base do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) evidenciou que um quarto da população com 50 anos ou mais de idade havia passado fome na infância, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste 27. Esses indivíduos apresentaram 20% mais chances de desenvolverem diabetes na idade adulta 27.
O reconhecimento tardio do DM5 pode refletir fragilidades no compromisso global com a garantia do direito humano à alimentação adequada, ao negligenciar que a fome pode deixar marcas biológicas profundas. Além disso, há de se considerar que o fenótipo clínico do DMRD se assemelha, em muitos aspectos, ao DM1, afetando indivíduos jovens e magros, frequentemente tratados com insulinização plena 6. Assim, é possível que muitos desses casos possam ser erroneamente classificados em populações historicamente afetadas pela insegurança alimentar grave 6. Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: quantos dos casos de diabetes diagnosticados em países de baixa e média renda não seriam manifestações clínicas da desnutrição crônica?
Estimativas pós-pandemia de COVID-19 revelaram que mais de 33 milhões de pessoas enfrentavam a fome no Brasil, com 58,7% das famílias em algum grau de insegurança alimentar e pelo menos 15,5% em situação de insegurança alimentar grave 28. Esse contexto de insegurança alimentar extrema dialoga com outro dado alarmante: o Brasil é o sexto país do mundo com o maior número de casos da doença, com estimativas do Atlas do Diabetes29 de que 16,6 milhões de pessoas conviviam com a doença em 2024 e que esse número pode chegar a 24 milhões até 2050. A IDF também estima que entre 20 e 25 milhões de pessoas no mundo são afetadas pelo DM5 5. Diante desse cenário, é plausível considerar que a experiência histórica e persistente da fome no país contribua para o aumento das estatísticas de diabetes, por meio do surgimento de casos diretamente relacionados à desnutrição. Pesquisas futuras, como as coortes de nascimento em andamento no Brasil 30, terão um papel fundamental em esclarecer o impacto da insegurança alimentar grave na prevalência dessa forma de apresentação da doença no país.
Cabe destacar que, embora uma anamnese clínica completa deva incluir antecedentes sociais e experiências de vida do paciente, os diagnósticos de DCNT são baseados majoritariamente em parâmetros clínicos e laboratoriais, com pouca ou nenhuma incorporação de aspectos socioeconômicos 31. O reconhecimento do DMRD representa, portanto, uma quebra de paradigma ao propor que a formulação diagnóstica considere dimensões sociais como parte indissociável do processo de adoecimento 6.
No Brasil, a operacionalização dos dados de exposição crônica à fome para a geração de estatísticas de interesse poderá ser realizada com informações sobre baixo peso ao nascer 32, autorrelato de insegurança alimentar grave na infância ou baixa estatura na vida adulta como proxy de desnutrição infantil 33. Além disso, domicílios em situação de insegurança alimentar poderão ser identificados precocemente por meio da Triagem para Risco de Insegurança Alimentar (TRIA) 34, um screener, composto de dois itens, recentemente incorporado no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB), com o objetivo de detectar situações de vulnerabilidade alimentar de forma ágil e padronizada nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) 35.
A retomada da discussão sobre o DMRD também abre espaço para a reformulação de políticas públicas de saúde voltadas à proteção da gestação e da primeira infância. Isso porque os determinantes dessa forma de diabetes frequentemente se iniciam na vida intrauterina, quando a exposição da gestante à insegurança alimentar e à má nutrição pode comprometer o desenvolvimento fetal e programar, biologicamente, maior vulnerabilidade metabólica ao longo da vida 6,20,21. Portanto, fortalecer políticas que garantam segurança alimentar e nutricional no período gestacional e nos primeiros anos de vida é essencial para prevenir não apenas a desnutrição, mas também suas repercussões de longo prazo, como o surgimento de formas atípicas de diabetes. Intervenções nesse período crítico do curso da vida têm potencial de romper ciclos intergeracionais de pobreza, fome e adoecimento, contribuindo para a equidade em saúde e para o enfrentamento das desigualdades sociais estruturais que marcam o cenário brasileiro.
A iniciativa da IDF de reconhecer oficialmente o DMRD, e criar um grupo de trabalho internacional para definir critérios diagnósticos e terapêuticos, representa um marco significativo na compreensão dos múltiplos determinantes do diabetes em diferentes contextos socioeconômicos, além de representar uma inflexão importante na forma como a saúde pública global encara os determinantes sociais de doenças endocrinometabólicas.
A inclusão desse tema nas agendas globais impulsiona a ampliação da compreensão dos mecanismos fisiopatológicos associados aos efeitos da fome prolongada, reforçando a necessidade de se produzir conhecimento mais sensível às realidades vividas por populações marcadas historicamente por profundas desigualdades sociais. Ainda não há consenso quanto a critérios diagnósticos ou abordagens terapêuticas. No entanto, a inclusão do tema na pauta de uma organização internacional como a IDF abre caminho para novas pesquisas e revisões, possibilitando maior atenção à doença, especialmente em países de baixa e média renda, onde a insegurança alimentar grave e a desnutrição são desafios persistentes.
Agradecimentos
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo financiamento por meio de bolsa de doutorado. Agradecem também ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome (INCT Fome), pelo apoio institucional à pesquisa.
Referências bibliográficas
- 1 Park HK, Ahima RS. Endocrine disorders associated with obesity. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol 2023; 90:102394.
- 2 Afshin A, Sur PJ, Fay KA, Cornaby L, Ferrara G, Salama JS, et al. Health effects of dietary risks in 195 countries, 1990-2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017. Lancet 2019; 393:1958-72.
- 3 Jayedi A, Soltani S, Abdolshahi A, Shab-Bidar S. Healthy and unhealthy dietary patterns and the risk of chronic disease: an umbrella review of meta-analyses of prospective cohort studies. Br J Nutr 2020; 124:1133-44.
- 4 Gallegos D. Effects of food and nutrition insecurity on global health. N Engl J Med 2025; 392:686-97.
-
5 International Diabetes Federation. IDF launches new type 5 diabetes working group. https://idf.org/news/new-type-5-diabetes-working-group/ (accessed on 22/Apr/2025).
» https://idf.org/news/new-type-5-diabetes-working-group/ - 6 Wadivkar P, Thomas N, Jebasingh F, Bacot-Davis VR, Maini R, Hawkins M. Undernutrition-associated diabetes mellitus: pathophysiology of a global problem. Physiology (Bethesda) 2025; 40:441-53.
- 7 Lontchi-Yimagou E, Dasgupta R, Anoop S, Kehlenbrink S, Koppaka S, Goyal A, et al. An atypical form of diabetes among individuals with low BMI. Diabetes Care 2022; 45:1428-37.
- 8 Food and Agriculture Organization of the United Nations. The state of food security and nutrition in the world 2024. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations; 2024.
- 9 Segall-Corrêa AM, Marin-León L, Melgar-Quiñonez H, Pérez-Escamilla R. Refinement of the Brazilian Household Food Insecurity Measurement Scale: recommendation for a 14-item EBIA. Rev Nutr 2014; 27:241-51.
- 10 Hugh-Jones P. Diabetes in Jamaica. Lancet 1955; 266:891-7.
- 11 Abdulkadir J, Worku Y, Schheuder GMT, D'Amaro J, Vries RRP, Ottenhoff THM. HLA-DR and -DQ antigens in malnutrition-related diabetes mellitus in Ethiopians: a clue to its etiology? Tissue Antigens 1989; 34:284-9.
- 12 Alemu S, Dessie A, Seid E, Bard E, Lee PT, Trimble ER, et al. Insulin-requiring diabetes in rural Ethiopia: should we reopen the case for malnutrition-related diabetes? Diabetologia 2009; 52:1842-5.
- 13 Huh KB, Lee HC, Kim HM, Cho YW, Kim YL, Lee KW, et al. Immunogenetic and nutritional profile in insulin-using youth-onset diabetics in Korea. Diabetes Res Clin Pract 1992; 16:63-70.
- 14 Chattopadhyay P. Malnutrition related diabetes mellitus (MRDM) in preschool children. J Trop Pediatr 1996; 42:246-7.
- 15 Chattopadhyay PS, Gupta SK, Chattopadhyay R, Kundu PK, Chakraborti R. Malnutrition-related diabetes mellitus (MRDM), not diabetes-related malnutrition: a report on genuine MRDM. Diabetes Care 1995; 18:276-7.
- 16 Tripathy BB, Kar BC. Observations on clinical patterns of diabetes mellitus in India. Diabetes 1965; 14:404-12.
- 17 Balasubramanyam A, Yajnik CS, Tandon N. Non-traditional forms of diabetes worldwide: implications for translational investigation. Transl Endocrinol Metab 2011; 2:43-67.
- 18 Diabetes mellitus. Report of a WHO study group. World Health Organ Tech Rep Ser 1985; 727:1-113.
- 19 Alberti KGMM, Zimmet PZ. Definition, diagnosis and classification of diabetes mellitus and its complications. Part 1: diagnosis and classification of diabetes mellitus. Provisional report of a WHO consultation. Diabet Med 1998; 15:539-53.
- 20 Sainty R, Silver MJ, Prentice AM, Monk D. The influence of early environment and micronutrient availability on developmental epigenetic programming: lessons from the placenta. Front Cell Dev Biol 2023; 11:1212199.
- 21 Perna L, Zhang Y, Wild B, Kliegel M, Ihle A, Schöttker B, et al. Childhood exposure to hunger: associations with health outcomes in later life and epigenetic markers. Epigenomics 2020; 12:1861-70.
- 22 Barker DJP, Osmond C, Winter PD, Margetts B, Simmonds SJ. Weight in infancy and death from ischaemic heart disease. Lancet 1989; 334:577-80.
- 23 Hales CN, Barker DJ, Clark PM, Cox LJ, Fall C, Osmond C, et al. Fetal and infant growth and impaired glucose tolerance at age 64. BMJ 1991; 303:1019-22.
- 24 Bhargava SK, Sachdev HS, Fall CHD, Osmond C, Lakshmy R, Barker DJP, et al. Relation of serial changes in childhood body-mass index to impaired glucose tolerance in young adulthood. N Engl J Med 2004; 350:865-75.
- 25 Barker DJP, Hales CN, Fall CHD, Osmond C, Phipps K, Clark PMS. Type 2 (non-insulin-dependent) diabetes mellitus, hypertension and hyperlipidaemia (syndrome X): relation to reduced fetal growth. Diabetologia 1993; 36:62-7.
- 26 Grajeda R, Hassell T, Ashby-Mitchell K, Uauy R, Nilson E. Regional overview on the double burden of malnutrition and examples of program and policy responses: Latin America and the Caribbean. Ann Nutr Metab 2019; 75:139-43.
- 27 Félix-Beltrán L, Seixas BV. Childhood hunger experiences and chronic health conditions later in life among Brazilian older adults. Rev Panam Salud Pública 2021; 45:e39.
- 28 Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil (II VIGISAN): relatório final. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert/Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional; 2022.
- 29 International Diabetes Federation. Diabetes atlas. 11th Ed. Brussels: International Diabetes Federation; 2025.
- 30 Confortin SC, Ribeiro MRC, Barros AJD, Menezes AMB, Horta BL, Victora CG, et al. RPS Brazilian Birth Cohorts Consortium (Ribeirão Preto, Pelotas and São Luís): history, objectives and methods. Cad Saúde Pública 2021; 37:e00093320.
- 31 Allen LN, Smith RW, Simmons-Jones F, Roberts N, Honney R, Currie J. Addressing social determinants of noncommunicable diseases in primary care: a systematic review. Bull World Health Organ 2020; 98:754-65B.
- 32 Care of Preterm or Low Birthweight Infants Group. New World Health Organization recommendations for care of preterm or low birth weight infants: health policy. EClinicalMedicine 2023; 63:102155.
- 33 Sichieri R, Barbosa FS, Moura EC. Relationship between short stature and obesity in Brazil: a multilevel analysis. Br J Nutr 2010; 103:1534-8.
- 34 Carvalho RES, Poblacion A, Gouveia AVS, Correia MEG, Segall-Corrêa AM, Cook J, et al. Validade do instrumento para triagem de domicílios em risco de insegurança alimentar em diversos estratos da população brasileira. Cad Saúde Pública 2022; 38:e00239521.
- 35 Coordenação-Geral de Alimentação e Nutrição, Departamento de Prevenção e Promoção da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 51/2024-CGAN/DEPPROS/SAPS/MS. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
Datas de Publicação
-
Publicação nesta coleção
03 Out 2025 -
Data do Fascículo
2025
Histórico
-
Recebido
15 Maio 2025 -
Revisado
11 Jul 2025 -
Aceito
30 Jul 2025
