Open-access Ciência em tempos de pandemia

As revistas científicas têm papel essencial no conjunto de estratégias e ações voltadas para o controle da pandemia causada pela COVID-19. Em seu conjunto, elas possibilitam a divulgação do desenvolvimento científico sobre os mais variados aspectos relacionados ao tema.

Diante da gravidade da situação atual, mesmo as revistas pagas estão liberando o acesso aos artigos publicados. Na Fiocruz, foi criada uma plataforma temática para apoiar a pesquisa e a adoção de medidas relacionadas ao novo coronavírus 1. Organizada por meio do software livre de gerenciamento de referências bibliográficas - Zotero -, a base continha cerca de 1.600 itens em 22 de março, o que mostra o enorme esforço empreendido pela comunidade científica em todo o mundo.

Em CSP, todas as atividades editoriais estão sendo mantidas por via remota, e procuraremos dar a maior velocidade possível ao processo de avaliação e publicação dos artigos aprovados, que abordem o tema da COVID-19. Mas por que manter a rotina de publicação de temas aparentemente não tão relevantes neste momento de crise?

Sabemos que mesmo que os estudos científicos sejam fundamentais para orientar decisões imediatas, a Ciência tem impacto significativo no futuro das sociedades, e que a produção do conhecimento científico exige investimento de médio e longo prazos do poder público e da sociedade. Não adianta pedir urgência no desenvolvimento de vacinas 2 se as condições para isto não tiverem sido criadas a tempo. Além disso, a desconfiança quanto à segurança das vacinas 3, incentivada por governantes 4,5, gera limitações que deverão ser enfrentadas no controle e mitigação dos danos da epidemia.

A lista de problemas com os quais nos deparamos no momento atual é grande. A esperança de diminuir o impacto da epidemia no Brasil vem do que se acumulou de conhecimento. As várias revistas científicas brasileiras publicaram estudos sobre o impacto da atenção primária em saúde na saúde das populações 6, inclusive, como cabe aos cientistas, apontando os limites e condições para o aperfeiçoamento no contexto atual 7. No entanto, em vez de aperfeiçoar a proposta, houve demissões em massa 8. O subfinanciamento do SUS em todas as suas dimensões também mereceu a atenção de cientistas, inclusive como resultante de uma política de austeridade fiscal que tem retirado um volume expressivo de recursos para as áreas sociais e de saúde 9.

A capacidade de resposta dos países certamente depende da configuração de seus sistemas de saúde. Mesmo na Itália, com um sistema universal de atenção à saúde considerado um dos melhores da Europa, a assistência hospitalar chega ao limite da sua capacidade de resposta aos pacientes que necessitam de internação e cuidados intensivos 10. Enquanto na Espanha adotam-se mecanismos de bloqueio e nacionalização do sistema privado de saúde 11, no Brasil aumenta-se o financiamento dos planos de saúde privados 12. O Reino Unido vai manter os salários dos trabalhadores para evitar demissões 13; no Brasil as empresas são autorizadas e cortar jornada de trabalho e salário 14.

O enfrentamento da epidemia deve incorporar a realidade de países com grandes desigualdades socioeconômicas e carga de doença. Não é porque um novo patógeno se dissemina que a situação de saúde anterior desaparece. A alta prevalência de hipertensão, um dos fatores de agravamento do quadro clínico 15, e a baixa situação socioeconômica e de escolaridade influenciam fortemente o controle dos níveis pressóricos e o desfecho da doença 16. O distanciamento social dificilmente será factível em comunidades de baixa renda. Por isso, além da iniquidade na assistência, também a propagação será desigual.

O olhar capaz de predizer os caminhos do coronavírus traz a metodologia científica que incorpora as informações geradas por inúmeros trabalhos 17. Os dados de tráfego aéreo e de deslocamento dentro dos estados permitem simular o espalhamento da epidemia, orientando a alocação de recursos 18.

Esse é o papel da publicação científica, que tem no sistema de revisão por pares uma mínima garantia da qualidade da produção acadêmica. O que coloca a discussão das soluções mágicas, como o recente artigo (que nos recusamos a citar), com 26 pacientes, cujo desenho é cheio de erros básicos, que concluem que a hidroxicloroquina estava associada à diminuição da carga viral. Imediatamente governantes de diversos países, sem qualquer garantia de eficácia, decidiram ignorar as regras de segurança e estimular a produção e uso do medicamento. Rigor científico virou barreira ao tratamento 19. Mesmo que a cura promovida por tal tratamento seja duvidosa, e os efeitos colaterais graves.

O papel de CSP é publicar a produção científica honesta e bem conduzida, como fizemos recentemente com um artigo que aponta o papel da vigilância em saúde oportuna e eficaz 20. Pretendemos acelerar a avaliação e publicação de artigos que abordem aspectos diversos da saúde pública para a melhor compreensão e enfrentamento da epidemia.

Certamente, cientistas de todo o mundo irão gerar o conhecimento que permitirá enfrentar não só a pandemia da COVID-19, mas também subsidiar políticas que organizem a assistência e possibilitem o cuidado adequado aos pacientes. Queremos contribuir na mitigação dos danos dessa pandemia e também pensar no futuro. Afinal, tratar a gravidade da infecção também passa por tratar a hipertensão 21.

Referências bibliográficas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Abr 2020
  • Data do Fascículo
    2020
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