A detecção precoce do câncer de mama no Brasil

Luiz Henrique Gebrim Sobre o autor

Apesar dos esforços para aumentar o número de mamógrafos no Brasil e detectar tumores não palpáveis, o tempo médio para diagnóstico e início do tratamento das pacientes com tumores palpáveis supera 180 dias em grande parte do país. O atendimento na rede primária de saúde é deficiente, faltam diretrizes para encaminhamentos e solicitação de exames subsidiários ao profissional de saúde que atende essas pacientes. Outro aspecto importante é a falta de referências secundárias para a realização da biópsia ambulatorial dos casos suspeitos, contribuindo assim para o retardo da biópsia diagnóstica e longo tempo para o agendamento da consulta especializada nos centros de referências (UNACON - unidades de assistência de alta complexidade em oncologia, ou CACON - Centros de assistência de alta complexidade em oncologia).

São raras as publicações que retratam a atual realidade da assistência às pacientes pertencentes ao Sistema Único de Saúde (SUS) 11. Smith EC, Ziogas A, Anton-Culver H. Delay in surgical treatment and survival after breast cancer diagnosis in young women by race/ethnicity. JAMA Surg 2013; 148:516-23.), (22. Rezende MC, Koch HA, Figueiredo JA, Thuler LC. Factors leading od delay in obtaining definitive diagnosis of suspicious lesions for breast cancer in a dedicated health unit in Rio de Janeiro. Rev Bras Ginecol Obstet 2009; 31:75-812.), (33. Fundação Oncocentro de São Paulo. Registro hospitalar de câncer. http://200.144.1.68cgi-bin/tabnet.rhc/rhc-geral.def (acessado em 25/Mar/2014).
http://200.144.1.68cgi-bin/tabnet.rhc/rh...
. Segundo estimativas do Ministério da Saúde em 2014, cerca de 54 mil novos casos foram diagnosticados no país, sendo cerca de 55% em estádios avançados. A terapêutica dos casos avançados, além de mais onerosa, apresenta chances de cura inferiores a 30%. Dessa maneira, a detecção precoce e principalmente o tratamento em estágios iniciais aumentam substancialmente as chances de cura, diminuindo também o gasto com o tratamento.

A escassez de dados no Brasil favorece a discussão para abordagens empíricas por muitas sociedades médicas, mídia, ONGs e até mesmo universidades públicas, dificultando os legisladores e gestores da saúde na tomada de decisões custo/efetiva para a redução da mortalidade por câncer de mama. Assim, a aquisição de mamógrafos para rastreamento e a ampliação do gasto com quimioterápicos demandam espaço na mídia como prioridades aos gestores.

Frente ao contexto situacional no Brasil, pode-se inferir que a mais efetiva estratégia para a maioria da população brasileira beneficiária do SUS com doença sintomática detectada pela paciente (nódulos maiores que 3cm), seria disseminar a prática do exame clínico das mamas pelos profissionais da saúde capacitados e estruturar uma rede de média complexidade ágil para a confirmação diagnóstica, dotada de mamógrafo, ultrassom e equipe treinada para realizar a biópsia por agulha grossa (core) imediata, oferecendo o resultado anatomopatológico em sete dias e exame imunoistoquímico para os casos positivos em até trinta dias, assegurando o início do tratamento em curto período de tempo.

Alguns autores consideram o tempo para a primeira consulta referenciada superior a 90 dias como retardo no diagnóstico. Estudos realizados no Canadá e Inglaterra revelam que o tempo médio para atendimento especializado e início do tratamento é entre 15 e 61 dias. Ao contrário, na África, Oriente e Leste Europeu, o tempo para início do tratamento supera 7 meses. Segundo Eramah et al. 44. Eramah E, Abdalla F, Buhmeida A, Larbesh E, Pyrhonen S, Collan Y. Diagnosis delay in Libyan female breast cancer. BMC Research Note 2012; 5:442-6., a mediana para consulta na Líbia foi de 4 meses e de diagnóstico de 7,5 meses.

Essa é a linha que defendemos com um projeto financiado pela Susan Komen (Estados Unidos) para replicar em seis grandes cidades brasileiras, pela experiência com o modelo de atendimento resolutivo em consulta única implantado no Hospital Estadual Pérola Byington de São Paulo em 2005. No período de janeiro de 2012 a dezembro de 2014, foram tratadas 3.568 pacientes referenciadas pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ao Centro de Alta Resolutividade (CARE), para atendimento especializado e os exames complementares, quando necessários (mamografia, ultrassom ou biópsia ambulatorial) realizados no mesmo dia 55. Gebrim LH, Shida JY, Hegg R, Topis T, Mattar A. Avaliação do tempo de início do tratamento, estadiamento histopatológico e positividade dos biomarcadores (RE, RP, HER-2) em 3.566 pacientes tratadas pelo SUS no período de 2012 a 2014, no Hospital Pérola Byington. Rev Bras Mastologia 2014; 24:65-9..

Ao avaliar o estadiamento cirúrgico das pacientes, observou-se que o contingente delas nos estádios avançados (III e IV) representou 31,7%. A porcentagem de pacientes com tumores in situ foi de 8%; 17% no estádio I; 44% no II; 28% no III; e apenas 3% no estádio IV. A proporção de casos no estádio III foi inferior aos referidos pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva 66. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2012 - incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva; 2011.. Tal evidência pode ser explicada por uma redução no tempo para diagnóstico e inicio do tratamento, trazendo um maior contingente de pacientes do estádio III para os iniciais. A amostragem representou cerca de 30% dos casos novos tratados pelo SUS na cidade de São Paulo no período. Esse resultado mostra de forma clara que a falta de acesso e de resolutividade é uma das mais importantes causas de progressão da doença, pois em 3 ou 6 meses, parte das neoplasias, em especial as mais agressivas das pacientes pertencentes ao estádio II, progrediria para o III ou IV.

Apesar de não haver um programa de rastreamento voltado para o câncer de mama no Brasil, o rastreamento oportunístico realizado no Estado de São Paulo e a investigação complementar com biópsia estereotáxica das alterações mamográficas suspeitas (Bi-Rads 4 e 5) permitiram diagnosticar e tratar conservadoramente 105 pacientes com carcinoma in situ, o que representou 9,1% das pacientes tratadas.

Cerca de 20% da população brasileira têm plano de saúde complementar, mantido por entidades privadas. Apesar da heterogeneidade das coberturas dos diferentes níveis de apólices, os beneficiários têm acesso a exames e procedimentos de rastreamento do câncer ginecológico e mamário conforme as diretrizes internacionais, validadas pelo Ministério da Saúde do Brasil.

O rastreamento mamográfico oportunístico vem sendo realizado no Brasil às pacientes com idade superior a 40 anos, pertencentes à rede de saúde complementar e, em alguns estados do Sudeste, a uma expressiva proporção de usuárias do SUS. Nesse contexto, deve secundariamente ser considerado até que se conheça melhor a custo/efetividade ou o impacto nos indicadores de mortalidade do país.

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    Smith EC, Ziogas A, Anton-Culver H. Delay in surgical treatment and survival after breast cancer diagnosis in young women by race/ethnicity. JAMA Surg 2013; 148:516-23.
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    Rezende MC, Koch HA, Figueiredo JA, Thuler LC. Factors leading od delay in obtaining definitive diagnosis of suspicious lesions for breast cancer in a dedicated health unit in Rio de Janeiro. Rev Bras Ginecol Obstet 2009; 31:75-812.
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    Fundação Oncocentro de São Paulo. Registro hospitalar de câncer. http://200.144.1.68cgi-bin/tabnet.rhc/rhc-geral.def (acessado em 25/Mar/2014).
    » http://200.144.1.68cgi-bin/tabnet.rhc/rhc-geral.def
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    Eramah E, Abdalla F, Buhmeida A, Larbesh E, Pyrhonen S, Collan Y. Diagnosis delay in Libyan female breast cancer. BMC Research Note 2012; 5:442-6.
  • 5
    Gebrim LH, Shida JY, Hegg R, Topis T, Mattar A. Avaliação do tempo de início do tratamento, estadiamento histopatológico e positividade dos biomarcadores (RE, RP, HER-2) em 3.566 pacientes tratadas pelo SUS no período de 2012 a 2014, no Hospital Pérola Byington. Rev Bras Mastologia 2014; 24:65-9.
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    Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2012 - incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva; 2011.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    2016
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