Debate sobre o artigo de Marques

Debate on the paper by Marques

Debate sobre o Artigo de Marques

Debate on the Paper by Marques

Judith Kardos Kloetzel

Instituto de Medicina Tropical de São Paulo

Universidade de São Paulo

O artigo é muito oportuno. A grande questão é como implementar na prática estratégias que contemplem o imprevisível. A discussão multidisciplinar e a análise prospectiva em muito contribuem para uma reflexão e interação sobre parâmetros não conhecidos.

Porém um dos maiores obstáculos a uma ação efetiva, além da inércia e do conservadorismo, é o limite de recursos. Assim, as políticas públicas necessariamente priorizam os problemas prementes presentes e os previsíveis, relegando, via de regra, a segundo plano aqueles com os quais não nos deparamos de imediato. Além disso, há uma natural resistência em aceitar evidências ainda frágeis de alterações epidemiológicas, quando temos toda uma tradição de pesquisadores renomados que, eventualmente, indicam o contrário.

Dentro do campo da malária, os exemplos são inúmeros. Entre a Segunda Guerra Mundial e a década de 60, acreditava-se que o problema da malária estava praticamente resolvido, com a eficácia dos novos quimioterápicos e dos inseticidas. Não se previa o aparecimento da resistência aos mesmos. A própria Organização Mundial da Saúde, a muito custo, mantinha financiamento de pesquisa de vacinas, o que só foi reforçado depois de nova ascensão da endemia na década de 70. No Brasil, a situação da malária foi ainda agravada com a abertura de novas fronteiras e com o desmatamento.

No começo do século, as observações cuidadosas e o conhecimento multidisciplinar de Adolfo Lutz ligaram a malária emergente na região da construção da estrada de ferro São PauloSantos à existência de bromélias e à reprodução de Kerteszia em suas folhagens. Esta correlação foi contestada por muito tempo por pesquisadores americanos, que não concebiam a malária autóctone em região montanhosa e muito menos aceitavam o reconhecimento de novo vetor (Gadelha, 1994). Só muito depois os achados de Adolfo Lutz foram validados.

Para contornar o problema das bromélias como criadouros de anofelinos, lançou-se mão não só de sua retirada manual e de controle químico, mas, o que parece inconcebível hoje em dia, da destruição pura e simples das florestas próximas a centros urbanos, como medida profilática da malária (Gadelha, 1994).

No Estado de São Paulo, instituídas várias medidas de erradicação da malária seguidas de rigorosa vigilância epidemiológica, aparentemente bem-sucedida, temos, no momento, dados sorológicos que indicam a existência de quantidade insuspeita de malária autóctone, sem que haja número substancial de casos relatados. Há suspeita de malária simiana circulando na região, sem afetar o homem clinicamente (Curado et al., 1994). O que isto representa de risco para o futuro? Qual a prioridade de pesquisa sobre este assunto? Como justificar a destinação de técnicos de campo e de veículos, quando estes são limitados e existem problemas prementes como a ameaça das mais variadas viroses, a expansão do Aedes aegypti, o combate a focos de dengue. Que parte dos recursos alocar para pesquisar hipotéticas endemias? Qual é o impacto futuro que elas poderão ter? Como fazer com que se aceitem novos conceitos?

Outro exemplo: na Amazônia, o Anopheles darlingi é considerado o principal vetor de malária, sendo que algumas outras espécies também têm sido incriminadas. Recentemente pudemos demonstrar que, em certa região do Acre, a espécie predominante de anofelino era Anopheles oswaldoi (Branquinho et al., 1993). Este anofelino não era considerado até então como vetor, e apenas um ou outro exemplar infectado havia sido encontrado, ocasionalmente, por outros pesquisadores. Há localidades no Acre com alta prevalência de malária, onde os únicos anofelinos que encontramos infectados eram A. oswaldoi. Não só havia circunstâncias quase incontornáveis para dar continuidade à pesquisa local sobre o assunto, como também os colaboradores que participaram da captura e do trabalho prático não aplicavam, até há pouco, medidas de prevenção de maneira sistemática em locais onde não encontravam A. darlingi, já que os recursos são escassos e os conceitos anteriores ainda predominam.

Concluindo, além de discussões multidisciplinares, de reconhecimento do imprevisível, na prática seria necessário que, como política de Saúde Pública, fosse destinado sistematicamente percentual dos recursos, mesmo que pequeno, ao controle e à pesquisa de assuntos de importância, aparentemente, secundária no momento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GADELHA, P., 1994. From "Forest malaria" to "Bromeliad malaria": a case-study of scientifïc controversy and malária control. Parasitologia, 36: 175-195.

CURADO, I.; MALAFRONTE, R. S.; MARRELLI, M. T.; BRANQUINHO, M. S. & KLOETZEL, J. K., 1994. Investigações de malária no Vale do Ribeira. Baixada Santista e Litoral Norte. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 27 (Supl. I): 266.

BRANQUINHO, M. S.; TAIPELAGOS, C. B.; ROCHA R. M.; NATAL, D.; BARATA, J. M. S.; COCHRANE, A. H.; NARDIN, E.; NUSSENZWEIG, R. S. & KLOETZEL, J. K., 1993. Anophelines in the state of Acre, Brazil, infected with Plasmodium falciparum, P. vivax, the variant P. vivax VK247 and P. malariae. Transactions of Royal Society of Tropical Medicine & Hygiene, 87: 391-394.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Set 2003
  • Data do Fascículo
    Set 1995
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