Dinâmica da ocupação do espaço na Cidade de São Luís e a leishmaniose visceral

The dynamics of territorial occupation and visceral leismaniasis in the city of São Luís, Maranhão State, Brazil

CARTAS LETTERS

Dinâmica da ocupação do espaço na Cidade de São Luís e a leishmaniose visceral

The dynamics of territorial occupation and visceral leismaniasis in the city of São Luís, Maranhão State, Brazil

Wellington da Silva Mendes 1

José de Ribamar Trovão 1

Antônio Augusto Moura da Silva 1

1 Núcleo de Patologia Tropical e Medicina Social, Departamento de Patologia, Universidade Federal do Maranhão. Praça Madre Deus 2, São Luís, MA 65025-560, Brasil.

w.mendes@elo.com.br

A Leishmaniose Visceral Humana (LVH) tornou-se importante nosologia em São Luís a partir do ano de 1982, quando teve início uma epidemia que viria a totalizar 1089 casos ao longo de 15 anos (Costa et al., 1995; Silva et al., 1997). Neste mesmo período, a capital maranhense recebia um grande fluxo migratório tanto externo (advindo de outros Estados do Nordeste) quanto interno, decorrente do êxodo do homem do campo para a capital em busca de melhores condições de vida.

O fenômeno migratório direcionado à capital do Estado, que ganhou importância na década de 1960 e 1970 (IBGE, 1971), atingiu seu ponto mais alto na década de 1980, momento em que a Cidade de São Luís apresentou, segundo o censo do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), um dos maiores índices de crescimento populacional urbano do Brasil (IBGE, 1981).

Os primeiros casos de leishmaniose visceral humana em São Luís foram notificados em setembro de 1982 nos bairros de Tirirical e São Cristóvão. Estes bairros, à época, eram importantes receptores de migrantes vindos do interior do estado bem como do Piauí e do Ceará, via BR-135, asfaltada na década anterior. Os casos subseqüentes foram registrados no sentido da rodovia MA-205, por onde fluía grande corrente migratória, dirigindo-se ao sentido norte da Ilha de São Luís, determinando a ocupação do litoral. Entre 1980 e 1985, estimulados pela política de incentivos fiscais do Governo do Estado, foram implantados, no sul do município, o Consórcio Alumínio do Maranhão e o Programa Grande Carajás controlado pela Companhia Vale do Rio Doce, os quais promoveram o deslocamento de um grande contingente de famílias que residiam nas áreas do distrito industrial e que tinham na lavoura e na pesca a base de seu sustento. Estes migrantes ocuparam área na periferia da cidade, próxima a estas companhias, na região do Itaqui-Bacanga, especialmente o bairro do Anjo da Guarda e suas imediações (Trovão, 1994) que, a partir de 1984, passaram a ser uma das principais áreas onde os novos casos notificados de LVH concentraram-se. Esse movimento de migrantes rumo à periferia foi de tal importância, que já em 1998, segundo a Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Urbano do Maranhão, mais de 30% da população de São Luís viviam na periferia da capital.

No início da década de 1990, o litoral ao norte da cidade, assim como o centro da capital, encontrava-se com grande adensamento demográfico. Assim, o fluxo migratório passou a se concentrar principalmente nos setores sul e leste do Município de São Luís, onde havia grandes faixas de terras disponíveis, servidas por estradas vicinais, acompanhando a rodovia BR-135 e a ferrovia de Carajás. A partir de 1992, a distribuição dos novos casos de calazar concentrou-se nestes mesmos setores, que vieram a se constituir um dos mais importantes focos da doença ao longo da epidemia. Essa "periferização" da epidemia ocorreu no momento em que enquete populacional realizada pela Fundação Nacional de Saúde identificou um terço da população urbana da capital residindo em áreas de ocupação "ilegal" na periferia da cidade.

Desta forma, ainda que não possamos inferir relação de casualidade, observamos que os casos de calazar ao longo da epidemia em São Luís tenderam a se concentrar no mesmo espaço em que se concentrou o fluxo migratório.

COSTA, J. M. L.; VIANA, G. M. C.; SALDANHA, A. C. R.; NASCIMENTO, M. D. S. B.; ALVIM, A. C.; BURATTINI, M. N. & SILVA, A. R., 1995. Leishmaniose visceral no Estado do Maranhão: A evolução de uma epidemia. Cadernos de Saúde Pública, 11: 321-324.

IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 1971. Censo Demográfico. Maranhão. VIII Recenseamento Geral do Brasil - 1970. Rio de Janeiro, IBGE.

IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 1981. Censo Demográfico. Maranhão. IX Recenseamento Geral do Brasil - 1980. Rio de Janeiro, IBGE.

SILVA, A. R.; VIANA, G. M. C.; VARONIL, C.; PIRES, B.; NASCIMENTO, M. D. S. D. & COSTA, J. M. L., 1997. Leishmaniose visceral (calazar) na Ilha de São Luís, Maranhão, Brasil: Evolução e perspectivas. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 30:359-368.

TROVÃO, J. R., 1994. Transformações Sociais e Econômicas no Espaço Rural da Ilha do Maranhão. Tese de Doutorado, Rio Claro: Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Ago 2001
  • Data do Fascículo
    Set 2000
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