Neuropatia por hanseníase: atraso no diagnóstico ou um diagnóstico difícil?

Leprosy neuropathy: delayed diagnosis or a difficult diagnosis?

Marcelo Carneiro Lia Gonçalves Possuelo Andreia Rosane Moura Valim

CARTAS LETTERS

Neuropatia por hanseníase: atraso no diagnóstico ou um diagnóstico difícil?

Leprosy neuropathy: delayed diagnosis or a difficult diagnosis?

Marcelo CarneiroI, II; Lia Gonçalves PossueloI; Andreia Rosane Moura ValimI

ICurso de Medicina, Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, Brasil

IIControle de Infecção e Epidemiologia, Hospital Santa Cruz, Santa Cruz do Sul, Brasil

Correspondência

Caro editor,

Inicialmente, parabenizo os colegas do Ceará pelo interessante artigo 1, Neuropatia Silenciosa em Portadores de Hanseníase na Cidade de Fortaleza, Ceará, Brasil, visto a importância social desta patologia no Brasil, sendo negligenciada em locais de baixa prevalência (1,4/100.000 habitantes) como o Rio Grande do Sul 2. Esse fato é preocupante, pois as queixas de alteração de sensibilidade cutânea são menosprezadas pela equipe de saúde, que realiza outros diagnósticos diferenciais, ocasionando o diagnóstico tardio e com incapacidades estigmatizantes e impacto nas relações biopsicossociais e econômicas 3.

Em uma análise retrospectiva de 38 (100,0%) casos de hanseníase, na cidade de Santa Cruz do Sul (Rio Grande do Sul), do período de 1995 a 2005, verificou-se uma idade média de 50,5 (± 8,2) anos, variando de 20 a 75 anos. O predomínio da cor branca em 33 (86,8%) casos é uma característica regional devido à imigração alemã antes da segunda guerra mundial. O diagnóstico da forma clínica 4 mais frequente, de acordo com a Classificação de Madri, foi a virchowiana em 20 (52,6%) casos e, baseado na classificação operacional da Organização Mundial da Saúde, 27 (71,1%) casos foram incluídos no grupo multibacilar. A proporção de incapacidade verificada em 15 (40%) casos foi maior do que a relatada por Leite et al. 1. Dentre os identificados com incapacidades, 4 (26,7%) pacientes apresentavam grau I e 11 (73,3%) grau II. Infelizmente, não foi possível determinar a frequência de neuropatia silenciosa nesta análise. Na avaliação pós-alta as deformidades mais observadas foram úlceras plantares (13%), artropatia de Charcot (9%) e flexão fixa ("garra") dos dedos das mãos (6%). As reações hansênicas ocorreram em 7 (18,4%) pacientes após a alta, sendo que 3 (42,8%) apresentaram reação reversa e 4 (57,1%) desenvolveram eritema nodoso hansênico. A neurite aguda foi verificada em 30,2% dos casos de reações dos tipos 1 e 2.

O predomínio dos casos nas formas multibacilares e com incapacidades motoras/neurológicas demonstra o atraso no diagnóstico em uma área de baixa prevalência e, consequentemente, o subdiagnóstico da neuropatia silenciosa. Essas evidências permitem supor o despreparo para o reconhecimento das complicações dessa micobacteriose, questionando-se o controle epidemiológico da doença nesta localidade.

Colaboradores

M. Carneiro e L. G. Possuelo participaram da concepção e projeto, com análise e interpretação dos dados, redação do artigo e revisão crítica do conteúdo intelectual, e aprovação final da versão a ser publicada. A. R. M. Valim contribuiu com a revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão.

  • Correspondência:
    M. Carneiro
    Curso de Medicina, Universidade de Santa Cruz do Sul.
    Av. Independência 2293
    Santa Cruz do Sul, RS 96815-900, Brasil.
  • Recebido em 10/Jul/2011

    Versão final reapresentada em 11/Ago/2011

    Aprovado em 22/Ago/2011

    • 1. Leite VMC, Lima JWO, Gonçalves HS. Neuropatia silenciosa em portadores de hanseníase na cidade de Fortaleza, Ceará, Brasil. Cad Saúde Pública 2011; 27:659-65.
    • 2
      Departamento de Vigilância Epidemiológica, Secretaria de Vigilância Sanitária, Ministério da Saúde. Coeficiente de detecção geral de casos novos de hanseníase: Brasil e estados, 2009. http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/graf2_coef_casos_han_2009_1_12_10.pdf (acessado em 10/Fev/2011).
    • 3. Oliveira MHP, Romanelli G. Os efeitos da hanseníase em homens e mulheres: um estudo de gênero. Cad Saúde Pública 1998; 14:51-60.
    • 4. Pardillo FEF, Fajardo TT, Abalos RM, Scollard D, Geler RH. Methods for the classification of leprosy for treatment purposes. Clin Infect Dis 2007; 44:1096-9.

    Correspondência: M. Carneiro Curso de Medicina, Universidade de Santa Cruz do Sul. Av. Independência 2293 Santa Cruz do Sul, RS 96815-900, Brasil. carneiromarcelo@yahoo.com.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      24 Out 2011
    • Data do Fascículo
      Out 2011
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