Mortes infantis e violência interpretativa no Nordeste brasileiro: levando em conta as narrativas de mães cearenses enlutadas

Investiga a etnoetiologia de óbitos infantis evitáveis na óptica da mãe em luto no Nordeste brasileiro. Refina o debate antropológico sobre a "negligência materna seletiva" como relevante explicação de alta mortalidade infantil. Trata-se de uma análise crítica de dados preexistentes. Entre 2003-2006, foram resgatadas 316 entrevistas etnográficas coletadas pela autora durante 1979-1989, em seis comunidades no Ceará, Brasil. Identificaram-se 45 narrativas de mães sobre a doença fatal e morte de 56 filhos < 5 anos para aprofundamento. Apesar da baixa renda e escolaridade, as mães construíram explicações próprias para a morte precoce. Causas maiores são doenças infecto-contagiosas (37,9%) e cuidados desumanizados do profissional de saúde (24,1%). Nenhuma mãe acusa o descuido, desapego ou negligência materna. Nesse contexto de pobreza, argumenta-se que se existe "desprezo" é do sistema econômico-político e social injusto e da prática da saúde pública desumana que violentam os direitos da mulher-cidadã. Caracterizar essa mãe em luto como "negligente", ou, pior, cúmplice na morte do filho, é uma violência interpretativa que injustamente culpabiliza e desmoraliza a mãe-cuidadosa nordestina.

Mortalidade Infantil; Comportamento Materno; Maus-Tratos Infantis


Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rua Leopoldo Bulhões, 1480 , 21041-210 Rio de Janeiro RJ Brazil, Tel.:+55 21 2598-2511, Fax: +55 21 2598-2737 / +55 21 2598-2514 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br