Northup, Solomon. 12 anos de escravidão. Tradução de Caroline Chang. Penguin Classics Companhia das Letras, 2014. 273 p.

Vanessa Lopes Lourenço Hanes Sobre o autor
Northup, Solomon. 12 anos de escravidão. Chang, Caroline. Penguin Classics Companhia das Letras, 2014. 273

É surpreendente que no momento histórico em que o Brasil se encontra, após um período já consideravelmente longo no qual debates sobre questões de cunho político-social como feminismo, racismo, etc., são estimulados e bem-recebidos no âmbito governamental, acadêmico e até mesmo na mídia em geral, as obras literárias internacionais consolidadas como de grande representatividade para os embates acerca das mesmas temáticas ainda encontrem pouco espaço nas pautas das editoras nacionais para que sejam traduzidas ou retraduzidas. Tal percepção se aplica ao livro alvo da presente resenha: aparentemente foi necessário que Hollywood redescobrisse o livro 12 years a slave e o transformasse em um filme fadado ao sucesso com alguns dentre os seus principais atores, e ainda que a obra fílmica resultante dessa empreitada fosse reconhecida como o melhor filme do ano de 2013 através do Oscar 2014 (além de haver também recebido o Oscar de melhor roteiro adaptado e de melhor atriz coadjuvante), para que o público brasileiro finalmente tomasse conhecimento de uma das obras literárias de maior relevância no cenário afro-americano. Graças ao grande sucesso do filme, em 2014 foi lançada pela primeira vez no Brasil uma tradução do texto em apreço, intitulada 12 anos de escravidão. O livro foi traduzido para o leitorado brasileiro por Caroline Chang e publicado através do selo Penguin Companhia, resultante de uma parceria entre a editora britânica Penguin Classics e a Companhia das Letras. Na verdade, 45% da Editora Companhia das Letras foram adquiridos pela Penguin, o que tem resultado, desde 2010, na publicação de novas traduções de títulos do catálogo da Penguin Classics no Brasil.

12 anos de escravidão é uma obra autobiográfica originalmente publicada em 1853 na qual o autor, o carpinteiro e músico Solomon Northup, narra uma incrível parte de sua história de vida: no ano de 1841, ao aceitar uma oferta de emprego provisório como violinista, Northup, um negro livre nascido no estado de Nova York, acaba sendo enganado, sequestrado e vendido como escravo no sul dos Estados Unidos, e permanece nesta condição por doze anos até conseguir reconquistar sua liberdade, voltar para sua casa e família e acabar se tornando um dos mais importantes nomes na luta do movimento abolicionista norte-americano. Em sua narrativa Northup transmite ao leitor como se deu sua experiência de escravidão, descrevendo de modo objetivo, porém muitíssimo tocante, as diferentes posturas daqueles que tiveram autoridade sobre sua vida, bem como parte da história, das agruras e das atitudes dos diferentes escravos com os quais teve contato em sua jornada. A narrativa chocante de Northup serve como exemplificador máximo da barbárie da escravidão e de suas nuances em território estadunidense. Diante da contundência de seu relato, o público leitor da época logo transformou seu livro em um best seller. O texto seguiu os passos de Uncle’s Tom Cabin (1852), livro ficcional sobre a escravidão norte-americana de autoria de Harriet Beecher Stowe (a quem Northup inclusive dedica sua obra), e, mais do que isso, serviu como corroboração da realidade dos fatos relatados por Stowe em sua ficção. Assim sendo, a obra de Northup desempenhou importante papel no período anterior à Guerra Civil Americana, conscientizando a população sobre os horrores da escravidão.

O paratexto da tradução brasileira indica inconfundivelmente a estreita relação estabelecida entre a obra literária e a obra fílmica para sua comercialização no Brasil: ao menos a terceira reimpressão do livro, que foi analisada para a presente resenha, foi comercializada com uma sobrecapa contendo uma foto do ator principal do filme semelhante àquela do pôster utilizado nos cinemas de todo o país à época de sua exibição. A sobrecapa exalta o fato de essa ser a obra literária da qual a obra fílmica foi originada, bem como o fato de o filme em questão ter sido ganhador do Oscar de melhor filme de 2014. Há ainda na sobrecapa uma citação direta do diretor, Steve McQueen, comparando a importância do livro àquela de O Diário de Anne Frank.

Talvez também graças à repercussão do filme e da consequente importância atribuída à figura de Northup, a edição brasileira do livro é minuciosa na manutenção dos elementos paratextuais originais: a breve descrição da história que segue o título do livro já na folha de rosto, a introdução de autoria de David Wilson, a dedicatória da obra a Harriet Beecher Stowe e o belo poema do abolicionista William Cowper são elementos da primeira edição de 1853 que se encontram presentes também na tradução lançada pela Penguin Companhia. O livro traz ainda um importante acréscimo paratextual: um posfácio de autoria de Henry Louis Gates Jr, um crítico literário, acadêmico, escritor e editor americano que atuou como consultor para a elaboração da obra fílmica. A única omissão observada foi de um elemento que, talvez, não seria considerado exatamente paratextual: foram cortadas da tradução brasileira listas que apareciam no começo de cada capítulo do original, elencando os tópicos gerais abordados especificamente naquele capítulo, como se fossem subtítulos.

Ainda sob uma perspectiva macroestrutural, observa-se que a edição lançada pela Penguin Companhia dá à tradutora Caroline Chang posição de considerável visibilidade por todo o texto. Seu papel enquanto tradutora da obra é abertamente mencionado já na primeira página do livro, que antecede a folha de rosto: nesta página são apresentadas uma breve biografia do autor Solomon Northup, em primeiro lugar; de Chang, a tradutora, em segundo; e por fim, do autor do posfácio, Henry Louis Gates Jr. A biografia da tradutora traz informações sobre o seu local de nascimento, a formação acadêmica e a experiência profissional de Chang, enfatizando sua experiência prévia como tradutora de outra obra que se passa no sul dos Estados Unidos e tem os negros (e o seu falar) e as questões raciais como principal enfoque: A Resposta, de Kathryn Stockett (originalmente intitulado The Help). Ao considerar outras obras publicadas sob o mesmo selo, é possível perceber que a ênfase na biografia do tradutor, incluindo-a já logo após aquela do autor do texto originário, é uma política estabelecida para as obras englobadas pela Penguin Companhia como um todo.

As notas do tradutor são abundantes: na realidade a maioria delas se trata de notas explicativas para explicitação do conteúdo do texto original, que podem ser encontradas não só na tradução do texto de Northup em si, mas também naquela da introdução do livro e na de seu posfácio. A abundância de tal recurso provavelmente se dá em parte por conta de o relato ser não-ficcional (e assim, rico em fatos) e fazer referência a diversos elementos de conhecimento geral do leitorado da obra original, porém assumidamente desconhecidos pelo público brasileiro. Um exemplo seria a nota utilizada para explicar quem foi William Henry Harrison: “militar e político americano. Foi o nono presidente dos Estados Unidos e o primeiro a falecer durante o mandato” (p. 30). Outro exemplo, já no posfácio, seria quando ocorre a menção da Linha Mason-Dixon, explicada por Chang como “linha demarcatória estabelecida ainda na época colonial que separou os estados do Norte e do Sul, tornando-se sinônimo das diferenças culturais e políticas entre as duas áreas” (p. 269).

Um dos elementos interessantes da tradução de Chang foi sua escolha por manter determinados trechos em verso, como os cantos dos escravos encontrados nas páginas 177 e 178, em língua inglesa. Os cantos em questão são ricos em elementos dialetais do inglês afro-americano, e foram traduzidos somente em notas de rodapé, com poucas tentativas de demonstrar que a língua utilizada naqueles trechos é divergente da norma culta. É possível observar opções tradutórias como “Intão” em lugar de “Então”, e a concordância incorreta observada em “Dois feitor”. Embora Chang faça uso de um número consideravelmente menor de ocorrências de língua não-padrão em suas traduções do que o número presente no texto originário, ainda assim graças a alguns pontos fica claro para o leitor que se trata de uma passagem com carga dialetal. Ademais vale ressaltar, entretanto, que mesmo em um poema no qual originalmente não aparecem recursos da língua não-padrão, encontrado na página 209, Chang opta por apresentar a tradução somente como nota de rodapé. Com relação aos cantos com expressões dialetais, as quais no original acabam por implicar em um registro linguístico menos elevado, opções do português em um registro mais alto, como a utilização da ênclise “Façam-no”, na página 178 podem ser notadas.

Na realidade o tratamento da questão dialetal tanto no texto em inglês quanto na tradução de Chang é extremamente complexo. Primeiramente porque, embora narrada em primeira pessoa por um negro norte-americano, pertencente a uma parte da população daquela nação que historicamente faz uso de construções dialetais em seu discurso, o texto de Northup traz pouquíssima carga dialetal na voz do narrador, até mesmo nos momentos em que o autor transcreve seu próprio discurso direto (uma das poucas exceções seria um único uso de “haint got” em uma de suas conversas). O mesmo é verdadeiro no caso de escravos com nível educacional/social mais elevado, como Eliza e Celeste, as quais não utilizam o inglês divergente da norma culta em nenhuma ocasião. Por outro lado, ao apresentar o discurso direto de outros personagens que Northup conhece no sul dos Estados Unidos, tanto de senhores e feitores brancos (por exemplo os personagens Peter Tanner e Edwin Epps), quanto de diversos escravos com os quais teve contato (como Kentucky John e Patsey), o autor lança mão da língua não-padrão em diversas ocasiões. E é na representação desses diferentes falares, nem sempre congruentes mesmo no texto original, que a tradução de Chang apresenta uma característica peculiar.

Primeiramente, ao traduzir a voz narrativa de Solomon Northup, Chang mantém sua adesão à língua padrão e até mesmo a exacerba ao, mais uma vez, utilizar elementos indicativos de registro alto na língua portuguesa, um deles sendo o frequentemente observado pretérito-mais-que perfeito. Entretanto, o que mais surpreende é a abordagem da tradutora frente ao discurso direto dos personagens: Chang adota duas estratégias diferentes para a representação dos dialetos típicos dos Estados Unidos observados na narrativa, a saber, o dialeto afro-americano e o dialeto sulista dos brancos, os quais na realidade contêm muitos elementos em comum. Ao traduzir o discurso direto dos personagens negros nos quais há a presença de carga dialetal, Chang em geral adota uma forma de pseudodialeto contendo elementos dos dialetos caipira e mineiro (observa-se, para exemplificar, o uso de “ocê”, presente nesses dois dialetos brasileiros, em lugar do pronome pessoal “você”). Um exemplo pontual: a escrava Mãe Phebe (em inglês, “Aunt Phebe”) afirma que “Massa Epps was g’wuine to sell me to a tanner ober in de Pine Woods”, e Chang traduz seu discurso como ““o sinhô Epps” ia me “vendê para um curtidô em Pine Woods”” (p. 202). Já no caso dos personagens brancos com discurso original divergente da norma culta, Chang opta por utilizar a representação através do português brasileiro segundo a norma padrão. Um exemplo disso pode ser encontrado logo na sequência do mesmo capítulo mencionado, na página seguinte. Em inglês Epps afirma: “You’re fond of moving round – traveler – ain’t ye? Ah, yes – like to travel for your health, may be? Feel above cotton-scraping, Ispose. ” Chang traduz essas palavras do personagem como: “ Você gosta de mudar – viajante, não é mesmo? Ah sim – gosta de viajar por causa da saúde, pode ser? Se sente acima do desbaste de algodão, imagino” (p. 203). Os marcadores dialetais “ain’t” e “’spose” desaparecem, como ocorre em diversos outros casos de discurso direto de personagens brancos. Por outro lado, percebe-se aqui uma tentativa de compensação por parte da tradutora ao utilizar uma próclise no início de uma sentença, “Se sente” quando a norma culta exigiria uma ênclise, “Sente-se”. As compensações parecem ser a principal maneira encontrada por Chang para transmitir a informalidade nas ocorrências dialetais no discurso de personagens brancos.

A elevação do registro observada em algumas passagens do texto de Chang não causa surpresa, por ser já uma característica historicamente observada nas traduções literárias brasileiras. Por outro lado, o que chama a atenção é aquilo que poderia ser chamado de uma abordagem mista da língua, na qual elementos dialetais e não-dialetais são usados em português para a representação de falares originalmente permeados por dialetos, com o critério de escolha de sobre quem representar através de traços dialetais recaindo sobre as características raciais dos personagens. É bem verdade, entretanto, que não se trata simplesmente de personagens brancos versus negros, mas também de personagens opressores versus oprimidos: o falar dos negros, para além de determinar a sua identidade racial, também serve para demonstrar sua posição na sociedade. E esta não seria a primeira tradução publicada no Brasil a optar por trazer os falares com alta carga político-social como um português divergente da norma culta, embora a utilização de tal estratégia tradutória venha crescendo nos últimos anos. Parece oportuno também lembrar a complexidade de traduzir dialetos de uma língua para a outra: como bem coloca Britto (2012), o dialeto negro dos Estados Unidos não tem equivalente no português brasileiro, e assim sendo, ocorre uma perda ao traduzi-lo. E o mesmo pode ser dito a respeito do dialeto sulista norte-americano utilizado pelos brancos e representado no texto de Northup: não há algo no Brasil que cumpra função social semelhante, ou que tenha carga histórica ou cultural equivalente. Entretanto, a relevância político-social do inglês sulista dos brancos também é bastante grande, particularmente quando se considera a discriminação sofrida pelos falantes do mesmo nos Estados Unidos hoje, discriminação esta propagada inclusive pela mídia. Ainda assim, as traduções literárias publicadas no Brasil tendem, até o momento, a adotar postura semelhante à de Chang, apagando os traços dialetais da representação da fala dos brancos sulistas.

Deixando de lado a questão dos dialetos, vale ainda ressaltar que as opções tradutórias de Chang nem sempre são as mais ortodoxas possíveis. Um exemplo disso pode ser observado na página 189, na qual “Soft soap old Epps” foi traduzido como “Um cordeirinho, o velho Epps”, quando “soft soap” seria tradicionalmente algo próximo de adular, o que caberia no contexto da história, no qual Epps recebe uma denúncia acerca de seus escravos terem um plano de fuga, e supõe se tratar somente de uma tentativa de agradá-lo por parte de um personagem que desejaria ser seu feitor. Entretanto, o uso de “cordeirinho” funciona no texto alvo por passar a impressão de que Epps acredita que há uma tentativa de enganá-lo, o que, em última instância, está realmente sendo implicado.

A utilização de determinados termos cujo significado foi modificado com o decorrer do tempo também parece haver sido um obstáculo para Chang em alguns momentos: quando Northup se refere a “change of linen”, Chang opta por utilizar a expressão “jogo de lençóis” (p. 27), quando, naquele momento histórico, “linen” também poderia ser utilizado para designar uma troca de roupas íntimas, algo bem mais provável de ser levado em uma viagem de trabalho que Northup acreditava que seria breve.

De modo geral, é possível concluir que tanto a tradução de Chang quanto a política editorial adotada pelo selo Penguin Companhia são importantes marcos para o movimento de defesa da visibilidade do tradutor no Brasil. Tanto a política geral da editora de apresentar os tradutores ao público juntamente com os autores quanto a política em nível microestrutural de concordar com a utilização das opções tradutórias divergentes da norma culta são grandes passos rumo a uma pluralidade almejada, porém até então ainda pouco observada no Brasil. A adoção dos diferentes falares para a representação da oralidade na literatura traduzida parece estar sendo cada vez mais vista como uma opção pelas editoras nacionais, sinalizando também uma maior tolerância da aproximação entre o português brasileiro oral e escrito. Por outro lado, a não-sistematicidade na utilização de diferentes falares (como, em especial, a opção pela língua padrão e não-padrão para representar dialetos dentro da mesma obra analisada) mostra que, definitivamente, trata-se ainda de um momento de experimentação e, até mesmo, de incerteza, no qual novas possibilidades têm sido desenvolvidas e exploradas, e cuja abordagem provavelmente será consolidada ou refutada diante da recepção do leitorado e da crítica brasileiros.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-Aug 2017

Histórico

  • Recebido
    15 Nov 2016
  • Aceito
    23 Fev 2017
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