Open-access O Que É o Bolsonarismo? Muito Além da Abordagem Sociológica

What is Bolsonarism? Far Beyond the Sociological Approach

Qu’est-ce que le Bolsonarisme ? Bien Au-delà de l’Approche Sociologique

¿Qué es el Bolsonarismo? Mucho más Allá del Enfoque Sociológico

Resumo

O artigo parte de uma crítica às contribuições da abordagem sociológica, que concebem o bolsonarismo como produto de novas subjetividades conservadoras ou mesmo como um movimento social. A partir da análise dos resultados de uma pesquisa qualitativa nacional com bolsonaristas renitentes e arrependidos, exploramos vários aspectos de sua adesão a temas como corrupção, segurança pública, família, gênero e valores tradicionais, além da formação de suas preferências políticas e hábitos de consumo de informação. Argumentamos que é necessário ir além da constatação das adesões substantivas dos bolsonaristas a valores, e olhar para a maneira como obtêm informação. A hipótese principal é que o nexo maior do bolsonarismo é sua esfera comunicacional, que permite aos aderentes fácil acesso a versões alternativas de fatos e narrativas. Concluímos o texto refletindo sobre as limitações das teses sociológicas para o entendimento do bolsonarismo e apontando para deficiências metodológicas dos trabalhos qualitativos desse campo.

Palavras-chave
bolsonarismo; Brasil; movimentos sociais; pesquisa qualitativa; consumo de mídia

Abstract

The article begins with a critique of the contributions of the sociological approach, which conceives Bolsonarism as a product of new conservative subjectivities or even as a social movement. Based on the analysis of the results of a national qualitative survey with staunch and repentant Bolsonaristas, we explore various aspects of their adherence to issues such as corruption, public security, family, gender, and traditional values, as well as the formation of their political preferences and information consumption habits. We argue that it is necessary to go beyond the observation of Bolsonaristas’ substantive adherence to values and look at how they obtain information. The main hypothesis is that the strongest link in Bolsonarism is its communication sphere, which allows supporters easy access to alternative versions of facts and narratives. We conclude by reflecting on the limitations of sociological theories in understanding Bolsonarism and highlighting methodological shortcomings in qualitative research in this field.

Keywords
Bolsonarism; Brazil; social movements; qualitative research; media consumption

Résumé

L’article part d’une critique des contributions de l’approche sociologique, qui conçoivent le bolsonarisme comme produit de nouvelles subjectivités conservatrices ou même comme un mouvement social. À partir de l’analyse des résultats d’une recherche qualitative nationale menée auprès de bolsonaristes récalcitrants et repentis, nous explorons divers aspects de leur adhésion à des sujets tels que la corruption, la sécurité publique, la famille, le genre et les valeurs traditionnelles, en plus de la formation de leurs préférences politiques et habitudes de consommation d’information. Nous soutenons qu’il est nécessaire d’aller au-delà de la constatation des adhésions substantielles des bolsonaristes aux valeurs, et de regarder la façon dont ils obtiennent l’information. L’hypothèse principale est que le plus grand lien du bolsonarisme est sa sphère communicationnelle, qui permet aux adhérents un accès facile à des versions alternatives de faits et de récits. Nous concluons le texte en réfléchissant sur les limitations des thèses sociologiques pour la compréhension du bolsonarisme et en pointant sur les lacunes méthodologiques des travaux qualitatifs de ce domaine.

Mots-clés
bolsonarisme; Brésil; mouvements sociaux; recherche qualitative; consommation des médias

Resumen

El artículo parte de una crítica a las contribuciones del enfoque sociológico, que conciben el bolsonarismo como producto de nuevas subjetividades conservadoras o incluso como un movimiento social. A partir del análisis de los resultados de una investigación cualitativa nacional con bolsonaristas renuentes y arrepentidos, exploramos varios aspectos de su adhesión a temas como la corrupción, la seguridad pública, la familia, el género y los valores tradicionales, además de la formación de sus preferencias políticas y hábitos de consumo de información. Argumentamos que es necesario ir más allá de la constatación de la adhesión sustantiva de los bolsonaristas a ciertos valores y fijarse en la forma en que obtienen la información. La hipótesis principal es que el nexo más importante del bolsonarismo es su esfera comunicativa, que permite a sus seguidores acceder fácilmente a versiones alternativas de los hechos y narrativas. Concluimos el texto reflexionando sobre las limitaciones de las tesis sociológicas para comprender el bolsonarismo y señalando las deficiencias metodológicas de los trabajos cualitativos en este campo.

Palabras clave
bolsonarismo; Brasil; movimientos sociales; investigación cualitativa; consumo de medios de comunicación

Introdução

A recente ascensão de políticos e partidos de extrema-direita mundo afora se refletiu rapidamente na produção acadêmica, particularmente a da ciência política, que já vinha há alguns anos estudando processos de retrocesso democrático ( Bermeo, 2016 ; Greskovits, 2015 ; Mainwaring, Pérez-Liñán, 2014). O Brasil passou a figurar na lista de casos de estudo após a crise política que se instaurou a partir de junho de 2013 e se intensificou com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2018. Referências bibliográficas a Bolsonaro e ao bolsonarismo têm experimentado um crescimento forte a partir do final da década passada. Uma pesquisa rápida que conduzimos pela ferramenta Google Books Ngram Viewer revela crescimento praticamente constante da ordem de quase 30% ao ano de instâncias de emprego da palavra “Bolsonaro” – e suas possíveis derivações – em livros, a partir de 2016.1

A fim de mapear a literatura acadêmica sobre o tema, fizemos uma pesquisa bibliográfica com o auxílio do programa Publish or Perish na base do Google Acadêmico.2 Uma vez obtidos os resultados, selecionamos os 50 textos com maior fator de impacto (índice h) e que tratavam da compreensão do bolsonarismo – descartando falso-positivos. Em seguida, classificamos os textos selecionados de acordo com a maneira como definem o bolsonarismo. Infelizmente, tal questão de ordem ontológica não é discutida explicitamente pela maior parte dos trabalhos sobre o tema. Ainda assim, o critério se mostrou bastante produtivo no trabalho de classificação dos textos, pois, entre outras coisas, ele nos permite discutir a natureza do fenômeno ao qual nomeamos “bolsonarismo”. Após uma leitura rápida dos 50 textos com maior fator de impacto, encontramos três abordagens principais, distintas entre si pela maneira como concebem o fenômeno do bolsonarismo: discursiva, sociológica e de opinião pública.

A abordagem discursiva toma o bolsonarismo como um fenômeno cujo nexo deve ser buscado no âmbito da linguagem, ou seja, ela o concebe como uma combinação de discursos ( Nunes, 2021 ; Baptista, Hauber, Orlandini, 2022; Lynch, Cassimiro, 2022). A tarefa do analista, então, estaria em identificar os componentes discursivos do bolsonarismo (autoritário, militarista, misógino, necropolítico etc.) e suas imbricações. Do ponto de vista metodológico, ela é fortemente dominada pelo ensaísmo, ou seja, por um estilo de prosa acadêmica que não lança mão do exame sistemático de dados empíricos. Ademais, essa abordagem privilegia a emissão do discurso por parte de Bolsonaro e seus seguidores, e não a recepção por parte de apoiadores e do eleitorado.

A abordagem de opinião pública concebe o bolsonarismo como fenômeno de formação de preferências, processo estudado também sob o rótulo epistêmico do “comportamento político”. Em grande medida, está preocupada em capturar o aspecto eleitoral do bolsonarismo, isto é, as interações entre o voto em Bolsonaro e posições socioeconômicas, e preferências por valores e políticas públicas dos cidadãos ( Rennó, 2020 ; Amaral, 2020 ; Almeida, Guarnieri, 2020). É uma abordagem que lança mão de métodos estatísticos para a análise sistemática de dados empíricos e é focada quase que exclusivamente na recepção, ou seja, na formação de opiniões, comportamentos e preferências do eleitorado, e não na oferta de discursos por parte de líderes políticos.

A terceira abordagem identificada em nossa análise trata o bolsonarismo como um fenômeno sociológico, daí seu nome. Escolhemos tal abordagem como principal interlocutora neste artigo por algumas razões. Primeiramente, ela partilha com o presente estudo a opção pela adoção de métodos qualitativos. A técnica adotada aqui, grupos focais on-line síncronos, nos permite obter informações sobre a operação do bolsonarismo que colocam em questão aspectos importantes da abordagem sociológica. Pretendemos mostrar que parte das deficiências substantivas identificadas nessa literatura advém de problemas metodológicos. Segundo, porque, assim como a abordagem de opinião pública, a abordagem sociológica também foca na recepção do bolsonarismo, avaliando a formação de opiniões e preferências por parte dos cidadãos comuns. Cremos ser o estudo do processo de recepção mais produtivo para o entendimento do sucesso eleitoral do bolsonarismo.

O texto que segue está dividido nas seguintes seções: revisão das principais contribuições à literatura do bolsonarismo como fenômeno sociológico, que termina com a identificação de suas deficiências; apresentação da metodologia do presente estudo; apresentação dos principais resultados da pesquisa nacional qualitativa; discussão dos resultados à luz da literatura; e uma conclusão que retoma as deficiências apontadas, agora discutidas a partir dos resultados substantivos de nossa pesquisa.

Abordagem Sociológica

Os trabalhos que adotam essa abordagem tomam o bolsonarismo como um fenômeno sociológico, frequentemente como um movimento social. Por exemplo, o artigo de Gabriel Feltran (2020) carrega a palavra já em seu subtítulo: “A Totalitarian Movement in Contemporary Brazil”. Segundo o autor:

O movimento de massa que fez Bolsonaro é impulsionado pela promessa redentora de resolver os conflitos sociais do Brasil e acabar com suas diferenças sociais... O movimento não é, como às vezes se pensa, um de elites contra os pobres. Dentro do mundo urbano popular, há muitos bolsonaristas, entre os quais o caráter totalitário do movimento é claramente compreendido. ( Feltran, 2020: 95-6)3

Feltran parece se mover contra um argumento-espantalho de que o bolsonarismo seria uma trama de elites, e tenta provar que, pelo contrário, se trata de um movimento de massas. Mas nunca ficamos sabendo ao certo como essa teoria do bolsonarismo de elite é articulada, e nem quem a articula, pois o artigo não contém diálogo com a literatura sobre o tema. Ele também carece de referências empíricas sistemáticas, permanecendo o tempo todo no plano do ensaísmo. O autor declara, no início do texto, que observou o crescimento do movimento bolsonarista em 2013, quando fez trabalho de campo etnográfico na periferia da cidade de São Paulo ( Feltran, 2020: 95), mas nenhum outro dado empírico é de fato analisado.

Classificamos também sob o guarda-chuva da abordagem sociológica trabalhos que flertam com a psicologia social, como a contribuição de Rosana Pinheiro-Machado, que enxerga o bolsonarismo como produto de uma nova subjetividade conservadora no Brasil, vinda à tona devido às crises políticas e econômicas que têm assolado o país nos últimos anos, bem como ao crescimento das redes sociais e à disseminação de notícias falsas (Pinheiro-Machado, Scalco, 2020). A metodologia adotada é uma “etnografia longitudinal” para entender o surgimento dessa subjetividade conservadora no Brasil, mas, de fato, são estudados os apoiadores de Bolsonaro no Morro da Cruz, uma região de baixa renda localizada na periferia de Porto Alegre.

Outra contribuição que fica sob o guarda-chuva da abordagem sociológica é a de Isabela Oliveira Kalil (2018) , que trata o bolsonarismo como uma coleção de identidades sociais. Em sua pesquisa, Kalil enumera 16 tipos de apoiadores, eleitores e potenciais eleitores de Bolsonaro, com base em marcadores de classe social, raça/etnia, identidade de gênero, religião, formas de engajamento e crenças. A autora hierarquiza diferentes fatores que motivam o voto em Bolsonaro, associando vários deles a sentimentos de medo e repulsa, que seriam oportunisticamente mobilizados pelo discurso bolsonarista. Segundo relata Kalil (2018:5), a coleta de dados foi realizada em protestos, manifestações e atos políticos ocorridos em São Paulo entre 2013 e 2018, com ênfase em eventos como o acampamento da FIESP, em 2016, e o evento contra Judith Butler, em 2017. Ou seja, como nas outras contribuições examinadas acima, a base empírica é de baixíssima representatividade e a amostragem é carente de qualquer sistematicidade.

Entre os autores da abordagem sociológica que tratam o bolsonarismo como um movimento social, destacam-se Camilla Rocha, Esther Solano e Jonas Medeiros, por terem publicado muitos artigos e um livro sobre o assunto (Rocha, Solano, Medeiros, 2021). Sua contribuição é, assim nos parece, a mais laboriosa e teoricamente sofisticada produzida até agora dentro do subgênero da abordagem sociológica, e por isso merece especial atenção. Segundo Rocha et alii , o processo de redemocratização, tendo como marco a Constituição de 1988, levou à formação, no Brasil, de uma esfera pública pós-burguesa, termo emprestado de Nancy Fraser (1997) , que é caracterizada pela expansão do sistema de direitos e da inclusão social de grupos marginalizados produzida pelo ativismo dos movimentos sociais. Essa expansão, na narrativa dos autores, também serviu de gatilho para o cultural backlash da direita. O bolsonarismo seria, então, um movimento de reação a essa esfera pública pós-burguesa, capaz de integrar demandas dos grupos subalternos (p. 144). Mais especificamente, o bolsonarismo é caracterizado como um movimento de contrapublicidade dominante que, utilizando-se das redes sociais e da internet, visou a desmantelar a esfera pública pós-burguesa no Brasil e estabelecer uma nova autocracia burguesa inspirada pela ditadura militar (p. 160).

A contrapublicidade como tática de movimentos sociais teria irrompido no espaço público a partir do ciclo de protestos iniciado em junho de 2013, colocando em xeque o sistema político representativo. Bolsonaro e a nova direita, em meio à qual ganhou centralidade a figura de Olavo de Carvalho, aproveitaram-se dessa janela de oportunidade para tentar atender ao descontentamento popular amplificado pelo ciclo de protestos. Fazendo uso de uma estratégia de apresentação pessoal histriônica e disruptiva, Bolsonaro aproveitou-se desse estado de coisas para vencer as eleições de 2018. Uma vez no poder, o núcleo central do bolsonarismo continuou a usar a contrapublicidade como uma estratégia radical contra-hegemônica.

Na abordagem sociológica de Rocha et alii , o bolsonarismo é também explicado como um movimento social a partir de um arcabouço fornecido pela teoria deliberativa, mais especificamente, pela teoria da ação comunicativa reformulada para aplicação à esfera pública pós-burguesa. Mas a explicação para por aqui, pois não ficamos sabendo como se organiza de fato esse “movimento social”, a não ser que por meio das redes sociais, em grupos nos quais abunda o discurso disruptivo, o que é uma descrição bastante genérica. Na verdade, não se vê um esforço dos autores de explorar os diferentes aspectos do movimento bolsonarista, particularmente no que toca à mobilização de recursos (Edwards, McCarthy, 1996; McCarthy, Zald, 1977) e ao processo político ( McAdam, 1996 ; Tarrow, 1994 ). Ademais, a política institucional em si, inclusive em seu aspecto eleitoral, é tratada como um epifenômeno de fatores sociais mais profundos.

Assim, não há uma explicação clara de como esse “movimento social” produziu o fenômeno de opinião que permitiu a Bolsonaro vencer em 2018 e quase repetir o feito em 2022. Ou, melhor dizendo: poderia esse fenômeno de opinião, que mobilizou mais de 50 milhões de eleitores em duas eleições presidenciais seguidas, ser explicado como um movimento social?

As opções metodológicas do trabalho de Rocha, Medeiros e Solano são dignas de nota. Na maioria dos capítulos, a análise é baseada em informações provenientes de outros trabalhos dos autores e em fontes de terceiros. No capítulo 4, contudo, há um esforço de se apresentar a metodologia de pesquisa produzida pelos próprios autores, antes da discussão dos resultados. Trata-se de entrevistas com sete moradores de São Paulo, escolhidos para representar uma variedade de situações econômicas, profissões, idades e gêneros, e conversas colhidas ao longo de atividades com grupos de alunos de uma escola pública do 1º e 3º anos do ensino médio situada em São Miguel Paulista, um bairro carente na periferia de São Paulo. Ainda segundo o relato dos autores, participaram da pesquisa 40 estudantes do último ano e 20 do primeiro ano. Por fim, adicionam a informação de que boa parte desses alunos podem ser considerados eleitores fiéis de Bolsonaro, dado um pouco exótico, pois muitos estudantes do 1º ano do ensino médio sequer teriam idade suficiente para tirar o título de eleitor. Seguindo a tradição dos trabalhos da abordagem sociológica ao estudo do bolsonarismo, a preocupação com metodologia é aqui bastante tênue.

Em outros trabalhos sobre o tema do bolsonarismo, as autoras empregam a metodologia do “minigrupo focal etnográfico”, cada um formado por três pessoas que se conhecem previamente e “têm uma composição homogênea em termos de faixa etária, renda, sexo ou outras características” ( Solano, 2021 ; Rocha, Solano, 2019). Segundo sua interpretação, essa conformação aumentaria a empatia entre o entrevistador e os entrevistados. Novamente, aqui nos deparamos com uma falta de preocupação com a representatividade amostral e com os detalhes metodológicos da pesquisa. Ora, o fato de serem somente três pessoas e elas se conhecerem reduz drasticamente a representatividade da amostra. Nesses trabalhos, diferentes recortes populacionais são estudados, sempre bastante restritos: uma das pesquisas utiliza dados de minigrupos realizados em um número reduzido de cidades – Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro ( Solano, 2021 ); na outra, as autoras focam somente nas pessoas de rendimento médio (Rocha, Solano, 2019). Ou seja, a combinação de grupos de três com restrições nos recortes demográficos prejudica muito a representatividade da amostra.

Em suma, os trabalhos analisados acima mostram a tendência de os autores da abordagem sociológica reduzirem o bolsonarismo a um movimento social ou mesmo a um conjunto de identidades. Não haveria problema nessa redução se ela fosse tomada somente como hipótese a ser testada pela análise de dados. O problema surge quando verificamos que as metodologias adotadas para dar conta da tarefa de confirmar essa hipótese sobre a natureza do fenômeno carecem de sistematicidade, pois trabalham com amostras de exígua representatividade, que geram dados tratados de maneira anedótica, quando não puramente ensaística.

A hipótese que guia o presente trabalho é que a melhor explicação para a formação de preferências em favor de Bolsonaro não é a atuação de um suposto movimento social bolsonarista – nunca exaustivamente descrito pela literatura –, mas a estrutura comunicativa montada em torno de sua figura, que permite a seus seguidores habitarem uma esfera comunicacional própria, na qual circulam as narrativas e versões de fatos bolsonaristas. A maneira como diferentes pessoas adentram essa esfera comunicativa varia, pois ela parece ser bastante heterogênea e descentralizada, mas o contato cotidiano com essa esfera comunicacional parece ser uma marca comum dos integrantes do bolsonarismo, como iremos demonstrar.

A Pesquisa

Organizamos uma pesquisa qualitativa de escopo nacional cujo objetivo principal foi produzir conhecimento substancial e preciso acerca do bolsonarismo, tomando-o prima facie como um fenômeno de opinião pública. Em outras palavras, suspendemos as premissas fundamentais da abordagem sociológica, que o consideram como um movimento social ou um conjunto de novas subjetividades, e das abordagens que o tomam como discurso. Do ponto de vista teórico e metodológico, isso nos parece ser um passo prudente. Ora, o dado mais imediatamente disponível quando escutamos um participante de pesquisa, seja utilizando a metodologia de entrevistas em profundidade ou a de grupos focais, são suas falas, que, por seu turno, expressam opiniões sobre o mundo, ou, mais especificamente, sobre os assuntos que lhe são apresentados. Se todas essas falas, uma vez coletadas, codificadas e interpretadas, conseguem sustentar uma concepção do bolsonarismo como movimento social, discurso etc., isso é algo que só podemos concluir ex post , e não assumir ex ante , como premissa ontológica que estrutura a pesquisa.

O desenho de nossa pesquisa se beneficiou da análise de dados quantitativos sobre o bolsonarismo, produzidos por pesquisas de opinião frequentemente publicadas em jornais e na internet, e dos trabalhos acadêmicos da área dos estudos do comportamento político ( Amaral, 2020 ; Rennó, 2020 ; Russo, Pimentel Junior, Avelino, 2022).

No momento em que fomos a campo, maio de 2021, a série de pesquisas quantitativas ( surveys ), feitas por institutos como DataFolha, IPESPE e Quaest, mostrava uma certa movimentação dos grupos demográficos que apoiavam Bolsonaro, em relação à eleição de 2018. O Brasil enfrentava o segundo ano da pandemia de COVID-19, sob o governo de Bolsonaro, e o clima político era bastante conflituoso. A CPI da COVID fora instalada pelo Senado Federal para investigar as ações e omissões do governo durante a pandemia, especialmente as relacionadas à compra de vacinas e ao colapso do sistema de saúde em Manaus. O Ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, alvo de muitas acusações de negligência e má-fé no trato da pandemia, foi substituído por Marcelo Queiroga. As tensões entre o presidente e governadores e prefeitos sobre medidas de restrição e lockdown para conter a pandemia continuavam altas. Enquanto isso, a vacinação estava atrasada e envolta em polêmicas relativas à compra de vacinas, incluindo denúncias sobre a Covaxin. De quebra, tínhamos um elevado grau de tensão entre o Executivo e o STF, causado pelas frequentes bravatas do presidente contra as decisões da Corte.

Bolsonaro parecia ter perdido um pouco do apoio entre os brasileiros mais escolarizados e de maior renda, mas ganhado apoio entre os setores de menor escolarização e renda da nossa população; perdido apoio na região Sudeste, região fundamental para sua vitória eleitoral em 2018, mas ganhado outras regiões do Brasil. Algumas dessas tendências viriam a se confirmar no resultado do pleito de 2022, particularmente a perda de apoio relativo nos grandes estados do Sudeste. Ao mesmo tempo, os relatórios dessas pesquisas também mostravam que o ex-capitão conseguia manter forte apoio do eleitorado evangélico. De qualquer maneira, a despeito dessas movimentações, o dado mais relevante revelado pelas pesquisas era a impressionante manutenção, por parte de Bolsonaro, de um público de apoiadores numericamente expressivo, mesmo em um cenário adverso que combinava forte crise econômica, os efeitos da pandemia da Covid-19 – com os quais sua administração lidava com extrema incompetência – e denúncias de corrupção envolvendo seus familiares e aliados no governo. Um apanhado de 45 pesquisas de aprovação do governo Bolsonaro, feitas ao longo de seu mandato pelos institutos Datafolha, PoderData, CNT/MDA e CNI/Ibope, mostra que no período em que a pesquisa foi feita, maio de 2021, sua taxa de aprovação média, desde o começo do mandado, era de 31%.4

É de conhecimento público, além de ser ratificado pela literatura acadêmica, que o debate sobre valores é um elemento fundamental da propaganda/comunicação de Jair Bolsonaro, seja como candidato em 2018, ou presidente, a partir de 2019. Assim, reservamos parte da pesquisa à exploração da adesão dos respondentes a valores e posturas adotadas pelo então presidente. É verdade que algumas pesquisas quantitativas eventualmente incluem perguntas sobre valores e políticas públicas. Contudo, sua metodologia baseada em questionários rígidos não permite o exame de assuntos complexos de maneira conjunta e integrada, particularmente no que diz respeito a seus aspectos narrativos, algo que a pesquisa qualitativa está mais bem equipada para fazer.

Os tópicos selecionados para a pesquisa foram valores tradicionais, segurança, corrupção, militares no governo e na política, e pandemia. A adesão a valores tradicionais foi testada pela indução de discussões sobre as questões de gênero e da família. O tema da segurança foi abordado por meio de discussões acerca da posse e do porte de armas e sua regulação. Utilizamos os exemplos concretos da Operação Lava Jato e das “rachadinhas” atribuídas a Flávio Bolsonaro para iniciar a discussão sobre corrupção. O tópico dos militares no governo foi discutido diretamente, dando particular atenção à imagem que os respondentes têm dessa categoria do funcionalismo público, além de suas percepções acerca da Ditadura Militar. Já o tema da pandemia serviu para que pudéssemos explorar a força da desinformação e do negacionismo entre os eleitores de Bolsonaro, dando especial atenção à vacinação, tópico muito quente no período em que a pesquisa foi realizada.

Metodologia

A técnica dos grupos focais nos pareceu ideal por suprir uma lacuna na literatura, pois ou temos trabalhos que empregam técnicas qualitativas de N muito pequeno – como as contribuições da abordagem sociológica, quase todas adeptas da técnica da etnografia e de entrevistas com um número bastante limitado de pessoas –, ou análises quantitativas de N muito grande. Como veremos abaixo, nossa pesquisa incluiu um número significativo de participantes (≅ 240), recrutados de maneira estruturada a fim de cobrir uma grande parte do território nacional, aumentando assim a representatividade da amostra. Esse “meio do caminho” em termos amostrais possibilita a combinação da vantagem do aprofundamento de temas, tipicamente produzido por metodologias qualitativas, com uma representatividade amostral maior, possibilitada pelo número generoso de grupos focais (Boydell et al ., 2014:24). Conduzimos os grupos focais por meio on-line , utilizando o programa Google Meet.

Para a determinação dos perfis demográficos dos grupos, partimos das tradicionais variáveis socioeconômicas dos estudos de opinião pública, a saber: sexo, renda, escolaridade, idade e local de residência (região). Baseados nos dados das sondagens quantitativas acerca do apoio a Bolsonaro, adotamos também o filtro de designação religiosa “evangélico/não evangélico” para o recrutamento de entrevistados.

Como o objetivo maior era o estudo do bolsonarismo, escolhemos como primeira variável-filtro o voto em Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018. Em seguida, aplicamos a segunda variável-filtro, o arrependimento do voto, a fim de capturar as razões por trás desse arrependimento e as diferenças específicas entre aqueles que ainda o apoiavam e os que desistiram da escolha feita no pleito. Ou seja, produzimos algo análogo a uma variável dependente binária em um modelo estatístico quantitativo.

Fizemos ainda uma segmentação dos grupos utilizando as variáveis classe (níveis de renda), escolaridade, idade e religião, além de região de moradia – essas seriam, por analogia, as variáveis independentes. Outra variável, a distribuição geográfica dos grupos, cobriu as cinco regiões do país. O recrutamento de participantes ocorreu nas seguintes capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Goiânia, Belém e Recife. O critério utilizado para a escolha das capitais estaduais foi o fato de serem as mais populosas em suas respectivas regiões. A região Sudeste foi a única agraciada com duas capitais estaduais, por se tratar das cidades mais importantes do país em termos populacionais, econômicos e de poder simbólico. A escolha das capitais tem o sentido geral de aumentar a representatividade da amostra, pois a centralidade dessas aglomerações humanas, mesmo quando se trata de uma capital regional, permite que projetem sua influência cultural sobre o restante da população, inclusive por concentrarem os meios de comunicação mais poderosos. Esse dado é relevante para uma pesquisa que investiga valores culturais, posições políticas e hábitos.

Os grupos focais on-line ganharam enorme popularidade durante a pandemia, pois mostraram ser uma solução viável para a continuidade da atividade de pesquisa científica e de mercado em um contexto de isolamento social. Há um crescente debate acadêmico acerca das vantagens e desvantagens que essa técnica tem em relação aos grupos focais tradicionais, os presenciais (Forrestal, D’Angelo, Vogel, 2015; Menary et al ., 2021; Richard et al ., 2021). De qualquer maneira, como veremos abaixo, as conversas desenvolvidas nas sessões on-line geraram material riquíssimo para a análise, de maneira similar ao que seria gerado em sessões presenciais.

No total, foram realizados 24 grupos focais on-line , com duração média de 1h15 cada, entre os dias 14 e 29 de maio de 2021.5 Contamos com uma média de 8 a 9 participantes por grupo. O desenho final dos grupos foi o seguinte:

O recrutamento dos participantes foi feito por meio de profissionais do ramo, que operam nas diferentes praças onde executamos a pesquisa. Os participantes foram devidamente informados acerca dos autores da pesquisa, seu conteúdo e propósitos, e assinaram um termo de anuência. Foram também informados de que os resultados da pesquisa, incluindo suas falas, só poderiam ser publicados ou divulgados de modo que os falantes não pudessem ser identificados, ou seja, de forma anônima.

O roteiro foi assim estruturado: após uma breve introdução de apresentação da pesquisa aos participantes e de apresentação de cada participante, fizemos um aquecimento, discutindo a vida cotidiana e seus problemas e logo entramos no bloco do roteiro que tratou da adesão a valores e políticas públicas, que foi estruturado de modo a começar cada discussão com um vídeo mostrado aos participantes. Os temas foram: família, gênero e valores tradicionais; segurança pública e armas; corrupção e Lava Jato; relação entre militares, democracia e administração pública; e pandemia, ciência e desinformação.6 Todos os vídeos traziam Bolsonaro falando, em entrevistas ou discursos públicos, sobre os respectivos temas selecionados para a pesquisa.

Em seguida, discutimos as percepções sobre a política, as razões do voto para presidente em 2018 e as perspectivas para o voto na eleição vindoura, de 2022. Por fim, conversamos sobre os hábitos de acesso à informação política utilizados pelos respondentes no seu dia a dia.

Resultados

Nesta seção, analisamos os principais resultados da pesquisa, pontuando-os com as falas dos participantes, devidamente anonimizadas.

Percepções sobre a Vida Atual e o Contexto da Pandemia

Em todas as cidades da pesquisa, foi generalizado o sentimento de piora da situação financeira, causada pela pandemia, seja dos participantes ou de seus familiares e amigos. Foram recorrentes as menções ao aumento do preço dos alimentos essenciais (arroz, carne, óleo) e também dos combustíveis. Alguns apoiadores de Bolsonaro, em particular aqueles “não arrependidos do voto”, “evangélicos” e “acima de 25 anos”, relataram perceber uma retomada econômica, ainda que de modo tímido. As exceções ocorreram entre profissionais das áreas da saúde e tecnologia, como enfermeiros e técnicos em informática, para os quais a pandemia favoreceu a manutenção do emprego ou até mesmo a conquista de um novo posto.

No que tange aos responsáveis pela situação de piora na economia e renda, a diferença entre os arrependidos do voto em Bolsonaro e os demais foi pronunciada. Os “arrependidos” creditam a Bolsonaro a irresponsabilidade na condução da crise sanitária e a incapacidade de gerir a economia. Já os apoiadores mais enfáticos fazem uma defesa intransigente do presidente. No seu modo de ver, os problemas econômicos são causados pela pandemia, que, por seu turno, é uma fatalidade. Em geral, citam os governadores e prefeitos como os principais responsáveis e, na sequência, culpam também empresários e comerciantes “gananciosos”. Por outro lado, Bolsonaro não pouparia esforços para combater a doença, tentando, ao mesmo tempo, salvar a economia. E isso enquanto é atacado pelos demais políticos e pela mídia.

Aparece no discurso dos apoiadores mais radicais, em diversas cidades, a atribuição da crise econômica à “política do fique em casa”. Na visão desses participantes, ocorreram fechamentos desnecessários em momentos em que a pandemia não estaria grave.

A distribuição de percepções sobre o estado da economia deixa antever forte efeito da posição política dos participantes (apoiador renitente ou arrependido). Ou seja, enquanto os arrependidos identificavam Bolsonaro como um dos principais responsáveis pela crise econômica, seus apoiadores usam um conjunto de argumentos de deflexão: a culpa é dos prefeitos e governadores, da “política do fica em casa”, da fatalidade da pandemia etc.

Orientação a Valores e Políticas Públicas

Parte central do roteiro dos grupos diz respeito à adesão a valores e a políticas públicas. Ainda que não de maneira sistemática, procuramos cobrir os temas mais candentes do momento e/ou mais salientes da imagem pública do bolsonarismo.

Família, Gênero e Valores Tradicionais

É um consenso da literatura que o apego aos valores da família tradicional é elemento central no discurso de Bolsonaro ( Albernaz, 2019 ; Lynch, Cassimiro, 2022; Lacerda, 2022b; Nunes, 2021 ). Assim, o primeiro vídeo mostrado aos participantes é uma reportagem da TV Record que traz o então presidente discursando na Marcha para Jesus, pela Família e pelo Brasil, em 10 de agosto de 2019. Ele diz:

Se querem que eu acolha [os direitos da população LGBT], apresentem uma emenda à Constituição e modifiquem o artigo 226, porque lá está escrito que família é homem e mulher. E mesmo mudando isso, como não dá pra emendar a Bíblia, eu vou continuar acreditando na família tradicional.

O vídeo então corta para outra parte do discurso, no qual declara:

O presidente que acredita e valoriza a família vai respeitar a inocência das crianças em sala de aula. Não existe essa conversinha de ideologia de gênero. Isso é coisa do capeta!

No segmento de bolsonaristas que não se arrependeram do voto, a intensidade da defesa da “família tradicional” (composta por homem e mulher), conforme as palavras de Bolsonaro no vídeo, caminha em paralelo ao vínculo religioso dos participantes. A menção à Bíblia, que orientaria a união entre homens e mulheres, faz parte dos argumentos centrais dos participantes evangélicos. Para os mais moderados, mesmo quando concordam com Bolsonaro, acrescentam que o presidente deveria abordar o tópico de um modo mais leve, pois seu jeito soa agressivo e desrespeitoso. Radicalmente distinta é a avaliação do segmento que está arrependido do voto, com ligeira exceção para os grupos de Curitiba. Avaliam que tal concepção de família é equivocada e não condiz com a postura de um presidente. Afirmam que a família encontra sua unidade no amor e não em combinação de gêneros específica de seus membros. Ademais, pontuam que a família tradicional, não raro, é palco de todo tipo de violência.

Eu acho muito bonito ele combater essas coisas. Ele não aceita, por isso que a oposição faz de tudo pra tirar ele. Para mim também casamento tem que ser entre homem e mulher. É assim que a palavra ensina. (Belém, +25 anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)

O conceito de família está em constante mudança. Nem sempre a família é formada por pai e mãe. Família é onde tem amor. Ao afirmar isso você está deslegitimando os outros tipos de família. Não é legal dizer isso. (Rio de Janeiro, +25 anos, C/D, qualquer religião, arrependido do voto)

O povo brasileiro não está acostumado com o presidente falar do jeito que ele fala. A mídia então pega no pé. É claro que ele exagera, às vezes ultrapassa o que deve dizer, e a mídia acaba aproveitando para cair em cima dele. (Rio de Janeiro, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

O vídeo trouxe também a discussão sobre a “ideologia de gênero”. O tema provocou maior unanimidade que o anterior. Quando a expressão foi introduzida, o apoio a Bolsonaro ganhou força. Foi generalizado o entendimento de que durante os governos do PT a educação pública era orientada para “ensinar sexo” às crianças e naturalizar a homossexualidade. As raras exceções apareceram no segmento arrependido, entre pessoas que reconhecem ser a educação sexual diferente de “ensinar sexo” nas escolas. Contudo, a maioria dos participantes não possui essa noção, afirmando que caberia à família, e não à escola, conversar com a criança e orientá-la dentro do que considera correto.

Vários participantes disseram haver hoje uma “modinha” de estimular crianças e adolescentes a experimentarem contatos amorosos com pessoas do mesmo sexo. Atribuem tudo isso ao nebuloso conceito de “ideologia de gênero”, algo que repelem veementemente, pois a tomam como uma ameaça à família. A cartilha de educação sexual supostamente adotada pelo MEC e o “kit gay” foram citados mais de uma vez por bolsonaristas aguerridos como fatos incontestes.

Eles querem enfiar goela abaixo. O pessoal que está na frente da ideologia de gênero, que quer essas leis nessa coisa toda, eles querem que a gente aceite de qualquer maneira, eu não acho decente isso. (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Eu concordo no caso das crianças, tem que saber como falar viu? Tudo tem um tempo, um tempo certo, como aquela cartilha das crianças que foi tão falada. (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Como vimos, muitas pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018 não aderem ao discurso ultraconservador de defesa dos valores tradicionais da família. Na verdade, ele não foi consensual nem entre os apoiadores renitentes de Bolsonaro. Por outro lado, é digno de nota o sucesso da dispersão de notícias falsas, como o “kit gay” e o ensino de sexo nas escolas, e de ataques ao espantalho da “ideologia de gênero”.

Segurança Pública e Armas

Outro tópico recorrente no campo bolsonarista é o da segurança pública e das armas ( Solano, 2018 ; Pinheiro-Machado, Scalco, 2018; Kalil, 2018 ). O vídeo sobre o tema, retirado da internet desde sua publicação, traz Bolsonaro declarando: “irresponsável o governo que desarma o cidadão de bem e deixa a vagabundagem muito bem armada”. Acrescenta que deseja dar direito de “legítima defesa” à população, mas com critério para posse e porte de arma de fogo.

Não houve consenso sobre o tema mesmo no segmento que ainda apoiava Bolsonaro. Para quem defende a medida, os principais argumentos utilizados foram a falta de policiamento em alguns bairros (a polícia demora para chegar ou sequer comparece), a defesa da família e da propriedade privada em caso de roubo ou assalto, ou mesmo o direito da posse de arma, pois “os bandidos já têm”. Quem não concorda com a medida, no segmento de apoiadores, acreditava que “violência gera mais violência”.

Já no segmento de arrependidos emergiu o argumento de que a segurança é um dever do Estado e não uma tarefa individual, de cada cidadão. Vale destacar que os participantes oriundos de famílias com militares e policiais tenderam a ser favoráveis à medida, inclusive as mulheres. Quando estimulados pela moderação dos grupos a considerarem um potencial acidente doméstico com armas, avaliaram se tratar de uma ameaça contornável, pois os pais podem ensinar e orientar os filhos a lidarem com elas, além de guardá-las em lugar seguro.

Uma parte que o presidente falou eu concordo, uma parte não. Hoje em dia, se você tem uma arma, não é só Deus para lhe guardar. Porque o bandido é astuto. Ele não tem medo de nada. Um cidadão de bem, mesmo sendo treinado, sendo capacitado, ele não tem a habilidade que o bandido tem. (Belém, +25 anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)

Eu sou super a favor do armamento, é como vi num vídeo sobre violência doméstica, se a mulher tiver um armamento, vai poder se defender dos caras que são violentos. Eu compraria da cor rosa. Acho que essa coisa de acidente não tem nada a ver. Tem arma branca, a faca. A pessoa quando quer fazer, pega um pedaço de pau, uma faca... As pessoas gostam de sempre criticar o presidente. (Rio de Janeiro, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Outra fala muito recorrente entre aqueles que defendem as armas é que isso não se dará de maneira fácil, pois os pleiteantes terão que passar por exames psicológicos, testes e por averiguação conduzida pelo Exército. Assim, só pessoas responsáveis terão permissão. Muitos também fazem um paralelo entre o processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e aquele que seria implantado para a concessão de posse e porte de armas de fogo. Em ambos os casos repetem a fala de Bolsonaro.

Os participantes que são favoráveis à disseminação do porte e da posse aderem à máxima de que quem mata é a pessoa e não a arma. Para eles, armas brancas, como facas, já estariam à disposição de “quem quer fazer coisa ruim”. Outros defensores acrescentam que a liberação do acesso às armas deveria ser acompanhada pelo endurecimento do código penal, a fim de limitar o abuso eventual pelo medo da punição mais severa.

Eu acho que o bandido pensaria duas vezes antes de entrar na nossa casa. Eu concordo com o Bolsonaro. Tem que ter um treinamento. Tem que instruir antes. É como tirar habilitação, a pessoa passa por um psicólogo. (Goiânia, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Sou a favor de liberar, mas acho que o Brasil ainda não está nesse patamar de educação. A gente não tem todo esse desenvolvimento de um país que teria essa cultura de utilizar da maneira correta. A gente tem muita coisa para tratar – a violência, a pobreza, a miséria –, do que ficar liberando arma para piorar todo o país. (Curitiba, + 25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)

Ainda mais claramente que os valores tradicionais, o tema da segurança pública e das armas dividiu os participantes entre apoiadores renitentes e arrependidos, o que indica ser esse tema importante na formação de preferências por Bolsonaro.

Corrupção e Lava Jato

Esse tema é central para a presente investigação, como veremos à frente, e também foi bastante explorado pela literatura sobre Bolsonaro ( Rennó, 2022 ; Albernaz, 2019 ; Ricci, Izumi, Moreira, 2021). O vídeo sobre corrupção tem a Operação Lava Jato como tópico principal. Ele traz Bolsonaro, na função de presidente da República, discursando em um ato de apoio à aviação civil, no dia 10 de outubro de 2020, ao lado de Luciano Hang. Nas palavras de Bolsonaro:

É uma satisfação que eu tenho, dizer para essa imprensa maravilhosa nossa, que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato. Porque não tem mais corrupção no governo... [palmas esparsas da plateia]. Eu sei que isso não é virtude, é obrigação.

A fala de Bolsonaro foi avaliada por muitos participantes como exagerada, mesmo entre seus mais fiéis apoiadores. Esse segmento acredita que o presidente de fato acabou com a corrupção na Presidência da República, mas não no seu governo como um todo, pois a corrupção é endêmica à política. Já os arrependidos avaliam o vídeo de modo extremamente negativo, como uma farsa. Nesse segmento, o caso da “rachadinha” envolvendo Flávio Bolsonaro surgiu espontaneamente.

Quando estimulados a falar da “rachadinha”, os apoiadores mais renitentes disseram que Bolsonaro não teria culpa alguma pelos atos do seu filho e, portanto, não pode ser considerado corrupto. Contudo, para ser coerente, ele teria que apoiar as investigações de modo isento. Muitos têm certeza da total honestidade do presidente e de seu empenho na luta contra a corrupção.

Dizer que terminou a corrupção no Brasil não é verdade, mas melhorou bastante. A gente tem uma cultura, isso está no jeitinho brasileiro. A gente precisa modificar esse jeitinho brasileiro de ser. (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

[rachadinha] acontece não só no Rio de Janeiro, acontece em todo o Brasil, em todas as assembleias legislativas. A maioria dos deputados, 99% fazem isso. Isso sempre vai acontecer. Está tendo muita evidência com isso porque ele é filho do Bolsonaro. Se Bolsonaro tivesse alguma coisa muito suja pessoal, já teriam descoberto. Como não conseguem achar alguma coisa, começam a fuçar a família toda. (Belém, +25 anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)

O Bolsonaro sim é um homem íntegro, ele é honestíssimo. Antes de ser presidente, ele já era honesto. E agora ele é mais honesto ainda. (Goiânia, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

É engraçado ele dizer isso, porque acabar com a corrupção é impossível mesmo nos países mais avançados. (Rio de Janeiro, +25 anos, C/D, qualquer religião, arrependido do voto)

A maioria dos participantes acredita que a Lava Jato não deveria parar, pois ela funcionaria como um instrumento de controle da corrupção dos políticos. Com o fim da Lava Jato, prosperaria o sentimento de impunidade no mundo da política. Muitos participantes bolsonaristas convictos criticam o STF por ter interrompido os trabalhos da operação, assim como por anular as condenações de Lula. Já aqueles mais críticos ao capitão aposentado afirmam que não foi ele quem acabou com a operação, e que novamente ele estaria mentindo. Ao mesmo tempo, manifestam ter uma imagem bastante positiva da Lava Jato.

A maioria dos apoiadores de Bolsonaro acredita que seu filho Flávio, de fato, está implicado no caso das “rachadinhas”, mas que haveria repercussão excessiva devido ao empenho da Rede Globo em prejudicar o presidente.

Nessa questão de fiscalização dos políticos deveria ter continuado uma Lava Jato, mas que acontecesse de uma forma mais ampla. (Curitiba, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Dois anos de pandemia e já tem CPI. O Moro conseguiu, a Lava jato deu toda aquela credibilidade. Aí vem o Bolsonaro. Mais esperança para o povo brasileiro. Aí vem o Bolsonaro, esperança 100%. Mas eu me senti num castelo de areia. A esperança e credibilidade, foi jogada água em cima. (Curitiba, +25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)

Não existe negócio de que roubou, mas fez. Eu acho que cada um é responsável por suas atitudes. Caso ele venha a fazer isso, tem que responder pelos atos dele. A única coisa que eu não acho justo é meu filho quebrar um copo e eu ser culpado. O exemplo do pai que tem, está por aí há um bom tempo, e nunca se sujou com nada. Ele deveria seguir o espelho do pai dele. Se cometer um erro tem que pagar, como o pai dele diz. (Belém, +25 anos, C/D, evangélico, não arrependido do voto)

O tema da corrupção mobilizou os respondentes de maneira diferente dos anteriores. Praticamente todos se mostraram sensíveis a ele, mas muitos desaprovaram a afirmação bombástica de Bolsonaro, em geral porque veem a política como atividade irremediavelmente envolta em corrupção. As referências à Lava Jato, quase sempre positivas, demonstram o efeito duradouro dessa Operação sobre a opinião pública brasileira, particularmente no que toca a associação da política com corrupção.

Militares, Democracia e Administração Pública

Devido a questões políticas e mesmo biográficas, o tema dos militares é indissociável da figura de Bolsonaro (Lacerda, 2022a; Lynch, Cassimiro, 2022; Avritzer, Rennó, 2021). Na pesquisa, aproveitamos para explorá-lo em conexão à legitimidade de golpes de Estado e à sua participação na administração pública. Começamos por mostrar um vídeo de Bolsonaro, já presidente, falando para seu “cercadinho”. Ele começa acusando um agente indeterminado de querer levar o Brasil para o socialismo usando a estratégia de “sucatear as forças armadas nos últimos vinte anos”. A razão dessa estratégia de sucateamento, segundo ele, é porque “nós, militares, somos o último obstáculo contra o socialismo”. O então presidente emenda: “quem decide se um povo vai virar uma democracia ou uma ditadura são suas Forças Armadas”. Bolsonaro ainda profere uma ameaça dizendo que ainda há liberdade no Brasil, mas “se nós não reconhecermos o valor dos homens e mulheres que estão lá, tudo pode mudar”. E termina com a tirada “imagina o Haddad no meu lugar”, que provoca risos na audiência do “cercadinho”.

A discussão nos grupos se encaminhou para temas como a ocupação de cargos por militares, no atual governo, e as percepções sobre um potencial retorno da ditadura militar. É preciso destacar que o apoio ao retorno da ditadura foi bastante minoritário, mesmo entre os grupos de apoiadores mais fiéis ao presidente. As falas carregadas de entusiasmo acerca da perspectiva da mudança de regime foram limitadas a poucos participantes, geralmente homens mais velhos e de posicionamento bastante radical em todos os temas. Contudo, vários bolsonaristas renitentes avaliavam a ditadura de modo saudosista, pois acreditam ter sido uma época de segurança e sem corrupção, que foi ruim apenas para “gente da esquerda”. Há também uma visão de que o regime militar não teria sido de fato uma ditadura, pois ditaduras “são como a Venezuela ou Cuba”.

Ainda que não tenha sido tema de vídeo, o STF surgiu espontaneamente na fala de alguns entrevistados neste momento. Em sua visão, Bolsonaro seria perseguido pela Corte e estaria com dificuldades para promover seu projeto político. Desse modo, a aproximação com os militares seria uma estratégia para equilibrar o jogo.

[A ditadura é] inviável para o Brasil nos dias de hoje. Se ele fizesse isso seria uma grande repercussão mundial, só quem iria perder era o Brasil. Tem muita coisa que ele fala que é só pra agradar quem votou nele. Ele falou que não ia comprar vacina da China. Esse é o grande mal dele. Se tornou presidente, mas continua governando somente para o público dele, infelizmente é isso. (Belém, +25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)

Para mim, voltar ditadura é regredir depois que a gente alcançou a democracia. O problema do militarismo é que o Bolsonaro põe no meio da saúde quem não é médico. O regime militar deveria ser adaptado para estar na parte administrativa. Ele pode ser readaptado. Dentro do quartel funciona. Mas na administração da saúde não. (Curitiba, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Eu vivi na época do governo militar. Não se ouvia falar de assalto; você saía na rua e andava na hora que queria; os muros não tinham portão. O cidadão vive hoje atrás das grades e o bandido está solto na rua. Não sou a favor da ditadura, fazer uma coisa muito feroz, mas que seja uma coisa leve e que ponha ordem no galinheiro. (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Pelo que eu pesquisei de história, nós nunca tivemos ditadura. Nós tivemos governos militares. Ditadura a gente vê na Venezuela, viu na sucessão do Maduro com Hugo Chávez, o Evo Morales por exemplo no Peru [sic]. Isso se enxerga como ditadura. A pessoa vai falar alguma coisa e morre. Liberdade de expressão funciona para a esquerda pra atacar o Bolsonaro; mas se você critica alguém, você é chamado de fascista e de homofóbico. Nós já estamos numa ditadura. Só umas migalhas servem para dizer que a gente vive uma democracia... A ditadura que a Globo fala não existe. (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Se a volta da ditadura militar é rejeitada pela maioria, o mesmo não pode ser dito da ocupação de cargos do poder Executivo pelos militares. O grosso dos apoiadores de Bolsonaro tem uma visão bastante idealizada dos militares, como pessoas de valores firmes, disciplinadas e obedientes à hierarquia, fator que muitos enxergam como extremamente positivo em um país em que tudo vira “bagunça”. A ideia de que os militares são menos corruptos quando comparados aos políticos também emerge nas narrativas dos participantes.

Alguns apoiadores, particularmente nos grupos de São Paulo, relataram aumento da sensação de segurança desde que Bolsonaro foi eleito. Isso seria um reflexo, na concepção dos entrevistados, de sua proximidade com a corporação policial.

Em grupos de eleitores arrependidos do voto, foram feitas críticas à falta de experiência e treinamento dos militares para exercerem alguns cargos técnicos. Houve diversas menções, inclusive no segmento de apoiadores, à incompetência do general Pazzuello na condução do ministério da Saúde, como exemplo disso.

Eu sou de família militar. Inclusive, já fui militar. Eu não sei se é impressão, mas depois que o Bolsonaro ganhou, eu sinto que – em São Paulo particularmente – eu sinto que nossa cidade está mais segura. Eu não sei vocês, mas eu não moro numa região nobre. Eu acho que está bem mais seguro. Não sei se é um apoio político dele... Está apoiando bastante os militares e a polícia, e isso acaba desencadeando um combate maior à criminalidade (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Colocar militares em outros tipos de funções que não são de segurança eu acho incorreto. Você é militar, serviu o exército, tem entendimento de segurança, eu não acho correto colocar na área de saúde. Em relação à ditadura, eu acho que o Brasil não consegue viver uma ditadura novamente. (Goiânia, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

O apoio a um golpe militar não foi forte, mesmo entre os apoiadores renitentes. É claro que naquele momento não havia ainda a campanha sistemática contra as urnas eletrônicas, movida pelos bolsonaristas no contexto da eleição de 2022. Por outro lado, é notável a imagem positiva que os militares gozam entre muitos respondentes, em sua maioria apoiadores renitentes.

Pandemia, Ciência e Desinformação

O quinto e último vídeo tratou de um assunto muito importante naquele contexto, a pandemia da Covid-19, mas ao mesmo tempo explorou questões ligadas à legitimidade do conhecimento científico e à desinformação ( Rennó, 2022 ; Rocha, Medeiros, 2022; Cesarino, 2021 ; Cesarino, 2022 ; Rocha, Solano, 2019). Bolsonaro abre o vídeo argumentando que não se deve correr para comprar vacina, pois não há comprovação de sua eficácia. Em seguida, diz que a vacina que foi criada mais rapidamente demorou quatro anos e que, portanto, não sabe “por que correr em cima dessa”. Então, emenda que seria mais fácil investir na cura do que na vacina, proclamando: “eu, por exemplo, sou um testemunho [sic], eu tomei hidróxido de cloroquina, outros tomaram ivermectina, outros Anitta, e deu certo. E pelo que tudo indica, todo mundo que tratou precocemente com essas três alternativas aí, foi curado”.

Os participantes se envolveram em duas discussões principais: a necessidade e urgência da vacina, e o uso de tratamento precoce com medicamentos sem comprovação científica. A maioria declarou pretender se vacinar, e avaliou que esse é o caminho adequado. Contudo, os apoiadores mais fiéis, particularmente aqueles de orientação religiosa evangélica, disseram que a demora na compra da vacina foi produto da cautela do presidente: um “cuidado” de Bolsonaro para não colocar em risco a saúde da população. Já os arrependidos do voto demonstraram forte indignação pelo atraso da vacinação.

Emergiram dúvidas sobre a eficácia da vacina. Para alguns participantes, a China é culpada pelo vírus e, por isso, o desenvolvimento de uma vacina pelos chineses seria motivo de desconfiança. Haveria interesse comercial na venda das vacinas por parte daquele país e de outras indústrias farmacêuticas, o que denota má fé. A ANVISA foi também citada por não ter autorizado a vacina com antecedência, tirando assim a responsabilidade do presidente pela falta de interesse na compra antecipada.

Foi falado que o Brasil está demorando muito para dar a vacina, pela mídia dando pancada no governo. Mas a vacina não se faz do dia para o outro. É muito estudo, muita pesquisa. O governo teve a sua preocupação. O Brasil é o quarto país do mundo que tem o povo mais vacinado. Estamos acima de países ricos da Europa. Tem muita gente que já foi vacinada aqui. Se essa vacina vai funcionar ou não, eu não sei. A China lançou o vírus e agora ela está lucrando com isso. A China está no topo da economia mundial. (Rio de Janeiro, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Eu acho que ele foi omisso nessa situação. A gente está vendo uma situação que não dá para esperar quatro anos, como ele disse pra gente. Tem que meter o pé pelas mãos, tentar de todas as formas. Ele não perdeu parente, mas muita gente perdeu. Tem muita gente morrendo. É uma coisa que deixar que daqui a quatro anos a gente resolve, não dá. (São Paulo, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Quanto ao uso de tratamento precoce, não houve consenso. Porém, uma parcela significativa dos entrevistados concordou com Bolsonaro acerca de sua eficácia. Muitos declaram ter, eles mesmos, tomado os medicamentos recomendados pelo presidente. Outros participantes disseram ter testemunhado amigos e familiares serem curados pelos medicamentos. O tratamento precoce serviria de reforço à imunidade, que pode ou não funcionar, sem maiores danos, tal como o uso de uma vitamina.

Na visão de muitos participantes, diante das incertezas sobre tudo que circunda a Covid-19, o tratamento precoce é uma alternativa que funcionaria para algumas pessoas. Portanto, valeria a pena arriscar. Mesmo quando foram estimulados pela afirmação da mediadora de que estudos científicos negam a eficácia dos medicamentos, os participantes utilizaram o argumento de que alguns médicos dizem o oposto. Ou seja, utilizaram a suposta autoridade dos médicos sobre a ciência para questionar a legitimidade do saber científico, adotando um raciocínio do tipo: não há consenso entre os médicos, logo, esses estudos científicos podem ser questionados.

Houve comparações do tratamento precoce com práticas como a homeopatia e outras medidas terapêuticas populares. Segundo esse raciocínio, mesmo não havendo comprovação científica da eficácia do tratamento, muitas pessoas são de fato curadas por ele. Os mais radicais declararam existir interesse da indústria farmacêutica de vender vacinas, já que os medicamentos são muito mais baratos e dariam pouco lucro.

Sou totalmente a favor da ciência. Sou a favor do tratamento precoce e a favor do antídoto. Quanto mais coisas a gente fizer contra essa doença, acho melhor. (Recife, +25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Por ser cristão, acredito no que o Bolsonaro falou: tem que tratar de várias formas, tanto com vacina como com medicação. Eu tratei com cloroquina e tratei com ivermectina. Não tratei com azitromicina. Porque na segunda vez que eu peguei foi mais elevado. Então entrei com antibiótico mais forte. De patamar mais alto. Com as medicações que o presidente falou aí, eu fui ficando cada vez melhor. Eu tenho certeza. (Goiânia, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Eu tive covid ano passado e fiz tratamento com ivermectina e azitromicina, comigo funcionou, ponto. Eu sou favorável à vacina, mas acho que ninguém é obrigado a tomar vacina. Toma quem quer. Eu tomaria. Quando chegar a minha vez eu vou tomar. (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

O tema mostrou forte interação com o apoio renitente a Bolsonaro. A maior parte dos participantes arrependidos rejeitaram a postura do presidente e as narrativas por ele propaladas acerca da vacina e do tratamento precoce, ao passo que os apoiadores renitentes se mostraram altamente permeáveis a elas, reproduzindo-as com frequência em suas falas. Nesse tópico notamos claramente a operação da máquina de comunicação bolsonarista, pois tais versões dos fatos, diferentemente da adesão a valores tradicionais ou ao militarismo, são muito recentes; foram produzidas durante o período da pandemia, e não foram disseminadas por grande parte da imprensa tradicional.

O Voto em 2018 e 2022

Após a discussão sobre valores e políticas públicas, enveredamos para o tema eleitoral, perguntando aos participantes quais suas motivações para terem votado em Bolsonaro em 2018, e quais suas expectativas para a eleição de 2022. Como a pesquisa foi feita no primeiro semestre de 2021, as pessoas encontravam-se naquele momento praticamente equidistantes dos dois eventos e não sofriam o efeito direto de campanhas, que sempre induzem à maior politização.

A literatura que toma o bolsonarismo como um fenômeno de opinião pública faz uso da análise estatística de microdados de surveys , buscando testar a interação da preferência eleitoral por Bolsonaro com variáveis socioeconômicas e de adesão a valores e políticas públicas ( Rennó, 2020 ; Amaral, 2020 ; Russo, Pimentel Junior, Avelino, 2022). Nosso objetivo nesta seção, contudo, não foi testar diretamente essas variáveis propriamente – atividade que já realizamos nas seções anteriores –, mas focar mais especificamente no aspecto informacional da adesão a Bolsonaro, tópico raramente estudado pela literatura especializada. Já a abordagem sociológica, como vimos, não demonstra interesse pelo fenômeno eleitoral, tratando-o como uma mera consequência da dinâmica social que acreditam animar o bolsonarismo.

A quase totalidade dos participantes da pesquisa, em todas as cidades, declarou não conhecer Bolsonaro antes da campanha de 2018. A maioria expressiva dos entrevistados, sejam eles apoiadores ou arrependidos, foi motivada pelo desejo de ruptura com a classe política tradicional, vista como corrupta e autointeressada, sentimento que muitas vezes se traduziu em explícita rejeição ao PT e a Lula. Dentre o segmento de arrependidos da classe A/B, foi identificado com maior força esse sentimento de repulsa à representação política. Já os apoiadores evangélicos, em sua maioria, declararam adesão ao atual presidente pela defesa de valores conservadores – especialmente os da “família tradicional” – conforme já comentamos acima, mas isso veio muitas vezes casado com a percepção de corrupção disseminada da política.

Eu nunca nem tinha ouvido falar do Bolsonaro. Foi na campanha para presidente mesmo que eu acompanhei. E achei assim que ele tinha uma capacidade para governar o país. Não tenho político de estimação. Gostei das propostas dele de apoio à família tradicional. E as propostas para a economia também. Acho que melhorou bastante o governo federal. Acho que melhorou bastante. Estou satisfeita. (Curitiba, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Em 2018 todo mundo votou no Bolsonaro para tirar o PT. Pelo que eu estou vendo aqui todo mundo ou pelo menos uma grande parcela da população vai votar no PT para tirar o Bolsonaro. Não tem uma terceira via. (Rio de Janeiro, +25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)

Eu já o conhecia de alguns anos, eu e o meu irmão acompanhávamos ele e seus projetos de castração química, coisa do tipo. Eu votei nele. Acreditei e acredito que ele consegue colocar o país nos eixos, abrir mais a economia, nos libertar desse buraco em que a gente acabou caindo, que os governos anteriores acabaram deixando. Eu votaria novamente sim no Bolsonaro. (São Paulo, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

No tocante ao pleito de 2022, os arrependidos manifestaram alto grau de rejeição a Bolsonaro, rejeição essa misturada a sentimentos de traição e decepção. Diversos entrevistados afirmam que se tratava do “maior arrependimento da vida”. Uma pequena parcela desses eleitores disse esperar por uma terceira via em 2022, pois também não desejavam votar em Lula (ou no PT). Contudo, uma expressiva maioria de arrependidos defendeu de modo convicto o voto no ex-presidente petista (especialmente no 2º turno). Chama a atenção o fato de que tais eleitores narraram as conquistas do governo Lula de modo nostálgico. Já os apoiadores moderados afirmam que seguem votando em Bolsonaro se a situação continuar como está, enquanto os mais fiéis – geralmente evangélicos – declararam que não mudariam o voto em nenhuma circunstância.

Para quem mantém o apoio, o comportamento grosseiro e disruptivo de Bolsonaro é percebido de modo positivo, pois expressaria “sinceridade” e “apelo popular”. Os que se arrependeram do voto tinham expectativa que essas características, já vistas com alguma desconfiança em 2018, fossem amenizadas devido à seriedade que o cargo exige. Contudo, constataram que isso não havia ocorrido. A percepção de que Bolsonaro “não age como presidente” era disseminada, mesmo entre apoiadores renitentes.

Eu acho que a gente só dá valor àquilo que a gente perde. Acredito que Bolsonaro foi eleito justamente pelo discurso dele de mudança. Eu obviamente votaria no Lula. É só a gente olhar a quantidade de pessoas que faziam faculdade, não tinha faculdade fechando, ao contrário. Agora, 9 hospitais fechando. O dólar era alto, mas era muito mais baixo do que agora. (São Paulo, + 25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)

Não queria que entrasse o PT. Teve os escândalos enormes de corrupção na época do PT. Foi isso que me motivou a voltar em Bolsonaro no segundo turno, mas eu tinha muito medo de que o governo dele ia ser muito radical. Está sendo. Além das muitas bobagens que ele faz e fala, tem muita coisa que a gente não via. O que o governo faz, o que os ministros estão fazendo. O governo do PT não foi de todo mal. Na época, a gente tinha muito emprego, não tinha gente desempregada... Mas aí o campo da corrupção piorou de vez. Hoje, se fosse pra escolher entre Bolsonaro e Lula, talvez até eu cederia de novo por Lula. Pois roubar os dois roubam. Mas pelo menos a gente estava mais estável no governo do PT... Tomara que tenha uma terceira opção, para fugir desses dois. (Curitiba, +25 anos, A/B, qualquer religião, arrependido do voto)

Os resultados desta seção mostram claramente que Bolsonaro foi escolhido pelo seu eleitorado por emplacar o papel de outsider da política, que no momento era fortemente associada à corrupção. E essa escolha foi feita durante o período da campanha, pois o político até então era praticamente desconhecido da população.

Mapeamento dos Hábitos de Informação

Finalmente chegamos à seção da pesquisa sobre os hábitos de consumo de informação dos participantes. Como já comentamos acima, a literatura acadêmica, inclusive a abordagem sociológica, coloca muita ênfase na associação entre o fenômeno do bolsonarismo e a ascensão e disseminação das redes sociais ( Cesarino, 2019 ; Cesarino, 2021 ; Rocha, Solano, Medeiros, 2021).

Logo de cara tivemos uma surpresa com os dados. Muitos participantes dos grupos focais revelaram-se consumidores do jornalismo da televisão aberta. Parece haver um claro fator etário nessa preferência, pois o hábito de obter informação política de telejornais é diretamente proporcional à idade do participante: quanto mais jovem, menos consome mídia tradicional – entendida aqui como jornais e revistas impressos e telejornais. Mesmo entre esses eleitores mais jovens, contudo, é grande o número dos que preferem se informar nos portais de jornalismo da grande imprensa na internet (G1, UOL e feed de notícias do Google), além das redes sociais.

Um padrão marcante nas conversas foi o dos participantes que emprestavam apoio mais intenso a Bolsonaro mostrarem-se altamente refratários à Rede Globo. Avaliavam que a emissora persegue Bolsonaro e distorce fatos para causar-lhe dano reputacional. O Jornal Nacional foi chamado por alguns de “Jornal Covid”, pois, segundo essa visão, dedicava grande parte de sua programação a noticiar as calamidades da pandemia, no claro intuito de atingir o presidente. Esse segmento preferia acompanhar o jornalismo da Record e do SBT. A CNN também foi citada entre as preferências desse eleitorado – alguns acompanham o conteúdo do canal via YouTube.

Os participantes fiéis a Bolsonaro, mesmo aqueles que preferiam acompanhar as notícias da política via televisão e internet, tratavam os canais próprios de comunicação direta do ex-presidente e de seus filhos e esposa como “canais oficiais”. Falas sobre o uso desses canais como instrumentos de verificação de notícias foram recorrentes. É nesses canais que tais participantes disseram buscar as versões verdadeiras de narrativas e fatos.

Se, por um lado, os bolsonaristas convictos rejeitavam fortemente a Globo, por outro, vários entrevistados arrependidos declararam consumir o jornalismo da emissora, ainda que não deixem de considerá-la tendenciosa.

Eu gostava muito da Globo, mas a Globo só fala mal do Bolsonaro. Agora eu não quero mais assistir. Quando chega a hora do jornal, eu desligo ou vou fazer outra coisa. Eu procuro não assistir mais o Jornal Nacional . O Jornal Nacional só fala mal do Bolsonaro. Eu sigo o Bolsonaro e a esposa dele no Instagram. (Goiânia, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

[...] porque a Globo hoje em dia bota as coisas de ponta-cabeça. Quem não conhece, termina acreditando. Tem aquela turma do PT que fala: “Olha aí a Globo falando!” Você já viu o Globo falar? (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Hoje em dia, para assistir televisão é muito complicado porque têm muitas formas de ocupar seu tempo; cada emissora tem seu ponto de vista e quer defender o seu lado. Antes, Lula era o rei; depois Lula virou ruim. Apoiaram o Bolsonaro no início, por conta de Lula, mas como foi cortada uma “mamatinha” da Globo, hoje Bolsonaro virou o ruim da história. Já em outras emissoras, as quais Bolsonaro está ajudando, ele já é bom lá. Então depende muito do meio de comunicação que você procura. Eu sigo Bolsonaro e os filhos dele. (Recife, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

O hábito de seguir influenciadores nas redes sociais não apareceu frequentemente, mesmo entre os críticos ao chamado “jornalismo tendencioso da Globo”. Dos perfis digitais citados como preferidos por alguns participantes tivemos Jovem Pan, Alexandre Garcia, Caio Copolla, Gabriel Monteiro, Arthur do Val, Nando Moura e MBL (com ressalvas). Os arrependidos de classe A/B foram os únicos a citar o consumo de podcasts, ainda que de maneira residual. Foram identificados os podcasts de Leandro Karnal, Globo News, Gabriela Prioli e Renata Lo Prete. O rádio foi pouco lembrado, mas os que utilizavam essa mídia declararam ouvir a Jovem Pan e A Voz do Brasil .

No geral, é possível perceber que as páginas e perfis de jornais nas redes sociais (especialmente no Instagram) servem de atalho para a obtenção de informações. O Facebook aparece pouco nas citações dos entrevistados, assim como o Twitter. A sugestão de vídeos no YouTube é consumida por alguns participantes, mas poucos declararam “assinar” canais específicos.

Eu sigo alguns políticos das redes sociais, como o capitão Assunção e o Eduardo Bolsonaro. Jornal Nacional não vejo muito. Eu prefiro ver o Fantástico no domingo. No YouTube não vejo nada. (Goiânia, até 25 anos, C/D, qualquer religião, não arrependido do voto)

Eu acompanho pela Globo e pela Record, mas onde eu me informo mesmo é pelo canal do Bolsonaro, onde eu me informo do que está acontecendo e do que ele fez. (São Paulo, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Eu gosto bastante da Rede Massa, do SBT,... Não gosto de assistir à Globo mais,... Não assisto. Eu não sigo nenhum político, nenhum influenciador, assim, na internet, (Curitiba, +25 anos, C/D, evangélica, não arrependido do voto)

Em suma, os padrões de consumo de informação estão muito distantes da imagem pintada pela literatura que muitas vezes reduz a comunicação bolsonarista às redes sociais. A mídia tradicional é ainda muito importante, seja quando é consumida diretamente, como nos telejornais da Record, SBT, Globo, CNN etc., ou quando é acessada via portais noticiosos na internet ou perfis desses meios nas redes sociais.

Discussão dos Resultados

Os testemunhos acerca da imagem que os apoiadores têm de Bolsonaro ilustram claramente aquilo que Max Weber denominou “carisma”, ou seja, o poder obtido por meio da percepção da excepcionalidade do caráter do líder por parte de seus seguidores (Weber, 1978). Supreendentemente tal detalhe passou praticamente desapercebido da abordagem sociológica. Só encontramos uma referência ao conceito, de passagem, em uma nota de rodapé ( Cesarino, 2021 ). Por outro lado, os trabalhos da abordagem discursiva aplicam o conceito mais frequentemente (Lynch, Cassimiro, 2022; Barbosa de Almeida, 2022 ; Ricci, Izumi, Moreira, 2021). Contudo, como focam sua análise somente no conteúdo emitido, ou seja, nas falas do personagem político, esses autores não têm meios para confirmar a realização do carisma, coisa que pudemos fazer a partir dos resultados da presente pesquisa.

Como mostram as falas dos apoiadores renitentes, a percepção da excepcionalidade de Bolsonaro lhe confere uma cobertura de “teflon”: nada de negativo gruda em sua figura. É recorrente o discurso de que as forças políticas não deixam Bolsonaro trabalhar, por isso que as coisas não vão tão bem em seu governo quanto deveriam. Muitos apoiadores disseram que a culpa pela crise econômica e mesmo pela falta de vacinas é dos governadores e prefeitos, e não de Bolsonaro, reproduzindo um argumento que ele fez publicamente reiteradas vezes.

Foi comum a afirmação peremptória da honestidade de Bolsonaro, ainda que conjugada à percepção de que as pessoas em volta dele necessariamente não o sejam. Isto é, para os apoiadores que confiavam plenamente na integridade de Bolsonaro, a política continua corrupta, enquanto Bolsonaro preservava sua essência antipolítica, depois de dois anos e meio no cargo de presidente da República. Mesmo quando o caso das “rachadinhas” que envolveu Flávio Bolsonaro foi citado, os apoiadores renitentes raramente tentaram defender o filho, optando por contra-argumentar que o pai não tem nada a ver com o caso. Empregaram até um bordão para isso: “são CPFs diferentes”.

Os participantes evangélicos frequentemente manifestaram uma identidade, como evangélicos ou cristãos, apartada do resto da sociedade. Essa separação é articulada em termos morais, pois entendem que sua forte adesão a valores supostamente cristãos oriente suas práticas no mundo e os diferenciem dos não evangélicos. Vários utilizaram explicitamente a identidade religiosa como argumento para justificar suas posições: “como sou cristão, penso assim, ou ajo dessa maneira”. Os evangélicos também usaram frequentemente a expressão “homem de bem”, dividindo a população em duas categorias. A categoria complementar é quase sempre o bandido, mas pode também ser o esquerdista, o petista, aquele que despreza os valores da família, ou mesmo o corrupto.

Os apoiadores evangélicos fazem repetidas referências a Deus em suas falas, mostrando uma concepção fortemente teísta do mundo. Para além da obviedade de expressar forte religiosidade, tais falas denotam propensão alta de receber informações e opiniões daqueles que propagam a palavra de Deus, ou seja, líderes religiosos e outros evangélicos.

O insulamento moral dos evangélicos corre de mãos dadas com o que podemos chamar de seu insulamento comunicacional. A metáfora não é perfeita neste caso, pois a abundância comunicacional do mundo atual não permite que um grupo fique totalmente ilhado. Contudo, há uma forte afinidade eletiva dos evangélicos por meios de comunicação e comunicadores evangélicos que apoiam Bolsonaro. A forte rejeição à Globo e a preferência pelos canais Record e SBT, já notadas em outros trabalhos (Rocha, Solano, 2019), são sinais claros disso. A participação em grupos do WhatsApp e Telegram formados por pessoas de pensamentos afins, ou mesmo por membros de uma mesma igreja, também foi relatada com alguma frequência pelos participantes evangélicos.

As páginas das redes sociais da família Bolsonaro e de alguns de seus apoiadores foram citadas também como fontes por vários integrantes evangélicos. Alguns disseram acompanhá-las periodicamente; outros declararam usá-las com o intuito de checar versões, ou seja, sempre que recebem uma notícia da qual desconfiam da veracidade, vão às páginas bolsonaristas para se informar sobre a versão “real” dos fatos.

A maior parte dos hábitos de consumo de informações dos evangélicos é partilhada pelos apoiadores renitentes não evangélicos. Ou seja, o bolsonarismo se alimenta de um cenário comunicacional complexo e em crescente fragmentação, para o qual os evangélicos contribuem, mas não são o único grupo.

Praticamente todos os jovens participantes, de idade menor que 25 anos, não utilizam o telejornalismo como fonte de informação política. A maioria declara sequer assistir à TV. E muitos participantes maiores de 25 anos disseram que voltam tarde para casa do trabalho e não têm tempo ou disposição para assistir à TV.

Entre os que veem TV, é comum a manifestação de repúdio e desconfiança em relação à Rede Globo, também entre os apoiadores renitentes não evangélicos, que não raro descrevem a emissora como petista. Somente uma pessoa arrependida declarou que a Globo perseguia também o PT e Lula, e agora se voltou contra Bolsonaro. Assim como os evangélicos, os outros renitentes que consomem notícias na TV tendem a optar pela Rede Record e, em segundo lugar, pelo SBT. A CNN foi muito mais citada que a GloboNews como fonte de informação entre os participantes em geral.

Nossa hipótese de constituição de uma esfera comunicacional bolsonarista por meio da ruptura da esfera comunicacional tradicional é, em parte, baseada na observação reiterada de que os meios de comunicação são percebidos como politizados, ou seja, como instrumentos de fazer política utilizados por suas empresas proprietárias. As evidências vão além de adesões e rejeições fortes a determinados meios. Há também uma percepção generalizada de politização da comunicação, manifesta pelo bordão “a imprensa tem lado”, pronunciado muitas vezes pelos entrevistados.

Vários participantes disseram que, depois de verem as notícias na mídia tradicional – que eles entendem como sendo os telejornais ou os portais noticiosos das grandes empresas de mídia –, vão atrás de outras fontes para checar sua veracidade. Há duas variantes atitudinais aqui, os bolsonaristas mais convictos recorrem diretamente às páginas do presidente e de seus fiéis influenciadores nas redes sociais. Mas há aqueles que declararam buscar por versões dos fatos em diferentes canais, pois nenhum é inteiramente confiável. O raciocínio é: se “a imprensa tem lado”, não se pode confiar inteiramente em nenhum canal de comunicação.

Esse aumento da percepção de politização dos meios, ou seja, de que eles têm lado, mina sua legitimidade como fontes fidedignas de informação – legitimidade essa que era altíssima antes do advento das redes sociais ( SECOM, 2014 ) – e gera um ambiente de pós-verdade, no qual convivem a adesão explícita dos consumidores de informação aos meios ideologicamente mais alinhados a suas próprias convicções – um tipo de paralelismo político 2.0 ( Artero, 2015 ; Mancini, 2015 ) – e um alto grau de ceticismo e desconfiança em relação a todos os outros meios. A esse processo chamamos de “ruptura da esfera comunicacional tradicional”. Tal ruptura não ocorreu no passado, durante os governos petistas, por mais que no Brasil a grande imprensa tenha consistentemente se comportado de modo politizado, buscando influenciar resultados eleitorais por meio do enviesamento da cobertura contra o PT ( Azevedo, 2017 ; Feres Júnior, 2020; Miguel, 1999 ).

Em outras palavras, a pesquisa mostra que o bolsonarismo foi exitoso em romper com o status quo anterior da comunicação política em nosso país, cooptando parte dos meios tradicionais (Record, SBT, Jovem Pan, CNN e uma miríade de mídias regionais e locais Brasil afora), trazendo para perto de si as estruturas de comunicação evangélicas e, ao mesmo tempo, articulando uma rede forte de apoiadores nas plataformas sociais. Se por um lado o bolsonarismo não teria feito isso se não fosse a ascensão das redes sociais, por outro, é bastante ingênuo concluir que ele é basicamente um fenômeno comunicacional das redes sociais, como o faz boa parte da literatura acadêmica.

Nossos resultados não confirmam a tese de que as redes sociais têm um papel central na informação dos eleitores de Bolsonaro em 2018. Muitos bolsonaristas ainda usam os meios tradicionais como fonte de informação, e mesmo os usuários que privilegiam a internet reportam usar intensamente portais noticiosos da imprensa tradicional. Pouquíssimos participantes relataram seguir influencers . Facebook, YouTube e Twitter não foram muito citados como fontes de informação, mesmo quando a pergunta foi colocada explicitamente.

A ruptura da esfera comunicacional tradicional gera um clima de pós-verdade e negacionismo. No tema da Covid 19, particularmente no que toca o tratamento precoce e as vacinas, esse estado de coisas se revelou com força. Foi comum a percepção de que não há de fato fontes confiáveis de informações para além do conflito de versões. Muitos declaram simplesmente não saberem o que dizer sobre esses assuntos polêmicos; já outros apoiadores renitentes, ao constatar que a politização da informação é bastante alta, tomam partido nessa disputa aderindo às versões fornecidas pelos meios bolsonaristas de comunicação.

Notícias falsas são abundantes entre os apoiadores renitentes de Bolsonaro: alguns afirmam haver provas de que a cloroquina e a ivermectina curam o vírus, que as vacinas não são eficazes, que o vírus é uma estratégia da China para dominar o mundo e ganhar muito dinheiro etc. Mas há também evidências de que a aposta na desinformação por parte do bolsonarismo é bem anterior ao advento da pandemia da Covid 19 e toda a discussão em torno das vacinas e dos tratamentos curativos. A imensa maioria dos apoiadores manifestou crença de que os governos do PT de fato distribuíam o “kit gay” nas escolas públicas.

A percepção da economia também foi influenciada pelo clima geral de disseminação de notícias falsas e guerra de versões. Vários apoiadores renitentes disseram que a economia estava melhorando, mostrando-se otimistas perante o estado de coisas em meados de 2021. Avaliavam que 2021 estava muito melhor que 2020, como se os piores efeitos da pandemia já tivessem passado. Tal percepção contrasta com os dados da economia no primeiro semestre de 2021, quando a pesquisa foi feita, pois tanto o PIB quanto a taxa de desemprego, por exemplo, encontravam-se estagnados, depois de uma série de flutuações nos trimestres anteriores.7

Conclusão

Os resultados gerados pela pesquisa permitem que ponhamos algumas teses e percepções comuns sobre o bolsonarismo sob escrutínio. Primeiramente, tratemos da tese mais saliente na literatura que toma o bolsonarismo como fenômeno sociológico, a de que ele deve ser melhor entendido como um movimento social ( Feltran, 2020 ; Pinheiro-Machado, Scalco, 2020; Rocha, Solano, Medeiros, 2021). Seu problema central é que ela não identifica a mediação entre o bolsonarismo como movimento social e o bolsonarismo como fenômeno de opinião, tratando as duas coisas de maneira indistinta. Ademais, falta uma análise empiricamente orientada que dê conta de como esse movimento social se estrutura, quais são suas hierarquias, recursos institucionais, critérios de membresia etc., e, o mais importante, como ele produz o fenômeno de opinião. Os autores não se preocuparam sequer em analisar o funcionamento concreto desses contrapúblicos do ponto de vista comunicacional, deixando os seus leitores à deriva em um vasto oceano de conjecturas.

Nossa pesquisa mostrou claramente que nem todos os eleitores de Bolsonaro, e mesmo seus mais ardentes simpatizantes, são ativos participantes de redes sociais, militantes virtuais, produtores ou disseminadores de conteúdo. Apenas uma parcela dos participantes da pesquisa – quase todos eles jovens – declarou dedicar-se mais intensamente a consumir informação de canais virtuais. Mesmo assim, esse hábito sequer foi majoritário entre os jovens. No terreno das conjecturas, é possível que esse padrão de alta mobilização da base, muitas vezes sugerida pela concepção do bolsonarismo qua movimento social, seja específico de certos recortes de classes sociais. Como todos os participantes bolsonaristas não arrependidos eram das classes C e D, nossa amostra pode ter sub-representado tal comportamento. Mas o ônus de mostrar a existência dessa interação entre classe e ativismo é da literatura que defende a tese do bolsonarismo como movimento social, não nosso, e até agora não há sinal de que seus autores tenham feito isso de maneira satisfatória.

A questão de como esse suposto movimento social gerou o fenômeno de opinião, na verdade, contém uma forte assimetria, pois um de seus polos, o fenômeno de opinião, está muito bem documentado por meio de surveys e resultados eleitorais concretos – é inegável que uma proporção substancial do eleitorado brasileiro preferiu Bolsonaro no primeiro turno e uma proporção ainda maior no segundo turno dos pleitos presidenciais nos quais concorreu: 46% e 55% em 2018, e 43% e 49% em 2022, respectivamente. Enquanto isso, o outro polo, o movimento social, é na verdade uma abstração parcamente definida e estudada.

A tese de que modos de comunicação disruptiva imperam nos contrapúblicos bolsonaristas também não foi confirmada por nossa pesquisa. Pelo contrário, eleitores de Bolsonaro arrependidos e não arrependidos são capazes de dar razões para suas preferências, baseados nas informações que obtêm e em suas adesões a valores. Não houve sequer um episódio de performance disruptiva durante as discussões conduzidas em 24 grupos focais, espalhados por todas as regiões do país. Talvez seja mais importante ainda frisar que mesmo a adesão declarada a influenciadores bolsonaristas que empregam técnicas disruptivas de comunicação foi fraca.

Há, de fato, uma percepção generalizada de que o próprio Bolsonaro se comunica de maneira grosseira e disruptiva. Contudo, seus seguidores menos inflamados rejeitam tal característica como uma incapacidade de se portar propriamente como presidente da República, juntamente com os eleitores arrependidos. E mesmo entre seus adeptos mais renitentes há quem rejeite esse estilo comunicativo, como impróprio para um presidente. Em suma, é inegável que Bolsonaro e alguns de seus seguidores utilizam um estilo comunicativo disruptivo, mas tal elemento está longe de explicar seu sucesso de público e de voto.

O dado mais consistente é a adesão – quase sempre seletiva – dos bolsonaristas a valores, versões de fatos e narrativas afinados com a agenda de Bolsonaro: defesa da família tradicional e da heteronormatividade; apoio relativo aos militares; apoio ao porte e posse de armas de fogo; crença em notícias falsas acerca da pandemia, das vacinas e dos tratamentos supostamente curativos; crença de que Bolsonaro mantem-se incorruptível, a despeito de evidências abundantes em contrário. Ou seja, nos parece evidente que há um fluxo informacional importante aqui: essas pessoas estão sendo continuamente alimentadas com esses fatos e narrativas. Mas como isso se dá? Por quais caminhos isso acontece?

Ora, o módulo da pesquisa sobre hábitos de consumo de informação visou exatamente a explorar essa questão da mediação. A participação ativa em contrapúblicos estruturados nas redes sociais não apareceu como fator preponderante nas respostas dos entrevistados, mas outros meios se mostraram relevantes. Primeiramente, temos o consumo de informação provida por telejornais. Uma parte substancial das pessoas mais velhas (acima de 25 anos) obtém suas informações preferencialmente desses meios, que são, como mostram surveys de opinião recentes, ainda a forma preferencial de os cidadãos brasileiros obterem informação política.8

Em segundo lugar, temos as preferências seletivas pelos canais de informação da TV aberta. A Rede Globo aparece como grande referência e, ao mesmo tempo, divisor de águas: bolsonaristas convictos a rejeitam com força, enquanto a maior parte dos arrependidos declaram ainda assistir à emissora. Os muitos consumidores de notícias da TV que rejeitam a Globo declaram preferir os canais Record e SBT, quando não CNN e Jovem Pan.

Essa correlação positiva entre rejeição à Globo e adesão a Bolsonaro coloca uma dúvida de natureza causal: o que vem primeiro? Os resultados de nossa pesquisa sugerem que o segundo elemento, a adesão a Bolsonaro, é de fato a principal causa da rejeição à Globo. Isso porque muitos apoiadores renitentes declararam o hábito de assistir ao noticiário da Globo no passado e terem deixado de fazê-lo porque a emissora passou a perseguir o ex-capitão e a focar somente nos aspectos negativos da pandemia, com o fito de atacá-lo.

Em terceiro lugar, no nexo comunicativo que explica o bolsonarismo, temos os hábitos de consumo de informação dos evangélicos. Poderíamos até arriscar chamá-los de um contrapúblico, mas não nos parece haver ganhos analíticos nessa escolha, pois esse público não é nichado nas redes sociais e tampouco parece adotar preponderantemente estilos disruptivos de comunicação. A característica mais saliente dos hábitos de consumo de informação dos evangélicos bolsonaristas é a homofilia: declaram participar de discussões políticas em grupos de WhatsApp com outros membros da igreja, família ou outros “cristãos”. Alguns dizem ouvir as opiniões políticas dos pastores, outros são frequentadores de canais de figuras de destaque do bolsonarismo nas redes sociais e, por fim, consistentemente preferem a Record e o SBT à Globo. Aqui nos parece haver um paralelo entre o insulamento moral explicitado em suas falas e um insulamento comunicacional, reconstruído a partir das várias pistas fornecidas durante os debates nos grupos focais.

Na verdade, a ilha dos evangélicos bolsonaristas está localizada dentro daquilo que chamamos esfera comunicacional bolsonarista, que é mais extensa. E seu relativo insulamento comunicacional parece se reproduzir em maior escala nessa esfera, que, a despeito de ser mais diversa, partilha da forte preferência por meios alinhados ao bolsonarismo, com a Rede Globo sendo o elemento contrapositivo mais importante.

Do ponto de vista substantivo, nossa pesquisa indica que definir o bolsonarismo como uma nova subjetividade conservadora (Pinheiro-Machado, Scalco, 2020) é por demais reducionista. Vários participantes apoiadores renitentes não concordavam com as posições conservadoras de Bolsonaro em relação aos valores da família tradicional e, particularmente, com sua homofobia mal disfarçada. Pesquisas de opinião mostram que a maioria dos bolsonaristas é favorável ao Bolsa Família e mesmo às cotas, e contrários às privatizações – ou seja, não são conservadores no campo da economia. É fato que os eleitores de Bolsonaro são em média mais conservadores que os de Lula, mas isso não pode ser tomado como um sinal inequívoco de novas subjetividades, e, o que é mais importante, isso não significa que a identificação de diferentes subjetividades dê conta de explicar o bolsonarismo.

Crítica similar deve ser feita aos trabalhos que tratam o bolsonarismo como uma coleção de identidades sociais ( Kalil, 2018 ), ainda mais se a metodologia adotada não permite que seja avaliado o peso relativo de cada uma dessas identidades. Mesmo em pesquisas de natureza qualitativa é importante atentar para a intensidade das preferências, ainda que não possamos conferir significância estatística a elas. A questão não respondida é a mesma que afeta a tese da nova subjetividade: como foi operada a produção dessas identidades? Não é suficiente argumentar que a campanha de Bolsonaro apelou para “sentimentos de ansiedade de classe, meritocracia e punitivismo entre os homens de baixa renda”. É preciso tentar explicar como essas narrativas chegaram a essas pessoas, ou seja, deslindar o aspecto comunicacional do processo.

É importante notar o fato de que todos os trabalhos examinados aqui adotam métodos qualitativos. Contudo, isso não é necessariamente um produto da abordagem sociológica per se . Podemos conceber, ainda que no plano da conjectura, desenhos de pesquisa que empreguem técnicas quantitativas dentro de uma abordagem sociológica do fenômeno do bolsonarismo. Na verdade, os trabalhos que tratam o bolsonarismo como fenômeno de opinião, geralmente classificados na área de comportamento político, quase sempre chamam a atenção para a relevância de variáveis demográficas, e não somente politológicas, na descrição e análise do bolsonarismo ( Amaral, 2020 ; Nicolau, 2020 ; Rennó, 2020 ).

O problema de ordem metodológica detectado por nós na abordagem sociológica ao estudo do bolsonarismo não é o fato de seus trabalhos terem predileção por metodologias qualitativas, mas sim a pouca importância que dão ao aspecto metodológico do trabalho em si. Os procedimentos de pesquisa são descritos de maneira muito ligeira, sem detalhes acerca dos parâmetros que balizaram o recrutamento, os roteiros das entrevistas ou mesmo as observações etnográficas. Em meio a essa despreocupação metodológica se sobressai a falta de empenho em desenhar pesquisas cuja amostra seja representativa da população brasileira. A periferia da cidade de São Paulo ( Feltran, 2020 ), o Morro da Cruz na periferia de Porto Alegre (Pinheiro-Machado, Scalco, 2020), manifestações ocorridas em São Paulo ( Kalil, 2018 ), uma escola pública de ensino médio de São Miguel Paulista (Rocha, Solano, Medeiros, 2021), esses são todos lugares válidos pare se fazer pesquisa, mas estão muito longe de representar minimamente a população brasileira. O excesso de localidades paulistas só se explica por uma razão não científica – a localização institucional dos pesquisadores – que, na realidade, parece interferir na representatividade da amostra.

Retomando o debate conceitual, parece-nos ingênuo assumir que há uma, e somente uma, definição correta de bolsonarismo. A ideia pragmatista de que a questão ontológica é mais bem respondida pela perspectiva epistêmica nos parece bastante verdadeira e produtiva ( Rorty, 1979 )9. As concepções do bolsonarismo como um emaranhado de discursos, como um conjunto de subjetividades ou identidades ou como movimento social não são necessariamente falsas, mas elas são muito mal equipadas para explicar o sucesso político e eleitoral de Bolsonaro e políticos aliados, pelas razões teóricas e metodológicas discutidas aqui. A hipótese da existência de esfera comunicacional bolsonarista – surgida a partir da ruptura da esfera comunicacional tradicional – como espinha dorsal daquilo que denominamos “bolsonarismo” foi fartamente confirmada em nossa pesquisa. Tal esfera comunicacional fornece o nexo que liga adesões a valores e narrativas a identidades sociais, e sustenta o excepcionalismo tão caro à figura carismática de Bolsonaro. Por fim, aprendemos também que tal esfera comunicacional bolsonarista não se reduz aos influenciadores da extrema-direita ou mesmo às redes sociais. Sua infraestrutura é composta, em parte, por perfis de redes sociais, por grupos de discussão de serviços de mensageria, mas também por portais noticiosos de mídias tradicionais na internet e pelo consumo direito de informação política via mídias tradicionais, mormente os canais de televisão Record, SBT e CNN-Brasil. Mas esse é um tópico para ser detalhado em estudos futuros.

Tabela 1
Perfil sociodemográfico e eleitoral dos grupos focais (maio/2021).

Referências

Notas

Notas

1

. Utilizamos a string “Bolsonaro_INF”, que permite capturar a palavra Bolsonaro e seus possíveis derivados, como bolsonarista e bolsonarismo. Busca realizada em 16 de janeiro de 2025. A base de busca são todos os livros da coleção do Google, ou seja, não somente livros acadêmicos. O resultado da busca foi uma reta com crescimento constante, ano a ano, de aproximadamente 30%. É razoável supor, contudo, que o crescimento da literatura acadêmica seja pelo menos igual ou ainda maior do que essa taxa anual.

2

. A pesquisa, realizada no dia 16 de janeiro de 2025, utilizou a string de busca “bolsonaro OR bolsonarismo OR bolsonarism” no campo de busca de palavras-chave (keywords) do Google Scholar no Publish or Perish, e foi limitada a 1.000 resultados de busca, que é o máximo permitido pela ferramenta.

3

. Tradução nossa, do original em inglês.

5

. Essa pesquisa foi financiada pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), e seus resultados preliminares publicados na forma de relatório na página da entidade: https://iree.org.br/iree-e-lemep-uerj-divulgam-pesquisa-sobre-perfil-do-bolsonarismo-no-brasil/ .

6

. Para o tema “família, gênero e valores tradicionais” mostramos o vídeo acessível no link https://www.youtube.com/watch?v=HSXjgsicVIQ . Para o tema “segurança pública e armas” mostramos o vídeo acessível no link https://youtu.be/fZrTDtlqJPA .Para o tema “corrupção e Lava Jato” mostramos o vídeo acessível no link https://www.youtube.com/watch?v=78lz6wnDdkM . Para o tema “relação entre militares, democracia e administração pública” mostramos o vídeo acessível no link https://www.youtube.com/watch?v=qbWOV2UCz48 .Para o tema “pandemia, ciência e desinformação” mostramos o vídeo acessível no link https://www.dropbox.com/s/xp7z5gkeix7hduy/5.%20Pandemia.mp4?dl=0 .

9

. “We should give up the notion that philosophy can find a set of terms which are naturally privileged, which define the ‘essence’ of a human being, or the ‘true nature’ of anything else. [...] We are no closer to discovering what we are ‘really’ made of, or what we ‘really’ are, than we were when the Greeks talked about being made of fire, air, earth, and water. We should not seek a single, privileged vocabulary for describing ourselves, but rather see ourselves as describable in many ways, depending on the purposes of the description.” (p. 360)

Declaração de financiamento

Não houve financiamento para esta publicação

Declaração de disponibilidade de dados

Disponibilidade de Dados de Pesquisa – Não se aplica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2025

Histórico

  • Recebido
    01 Nov 2024
  • Revisado
    18 Jan 2025
  • Aceito
    19 Mar 2025
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