O Desejo da Teoria e A Contingência da Prática: discursos sobre e na sala de aula (língua materna e língua estrangeira)

RESENHA REVIEW

John Robert Schmitz

Universidade Estadual de Campinas

CORACINI, Maria José e Ernesto Sergio BERTOLDO (orgs.) 2003. O Desejo da Teoria e A Contingência da Prática. Discursos sobre e na Sala de Aula (língua materna e língua estrangeira). Campinas: Mercado de Letras, 342 p.

O livro em tela, uma coletânea de artigos, organizado por Coracini e Bertoldo, recorre à disciplina chamada Análise do Discurso (doravante AD), e especificamente a "linha francesa", como ela é conhecida no Brasil, com a finalidade de apresentar uma série de críticas às metodologias de pesquisa empírica (quantitativa) e interpretativa (qualitativa) utilizadas na disciplina de Lingüística Aplicada (doravante LA).

Pretendo dividir a minha reflexão em três partes. Na primeira, vou descrever a organização da publicação junto com os títulos das diferentes partes, além de identificar os nove autores que colaboraram na realização do livro. Na segunda, vou descrever brevemente os diferentes assuntos tratados e informar os títulos dos artigos. No desenvolvimento desta parte, vou incluir, na qualidade de leitor "crítico", a minha recepção dos trabalhos apresentados. Na terceira parte, vou questionar mais detalhadamente alguns dos temas abordados pela AD na sua crítica à LA, tais como a noção de "regime de verdade", "sujeito consciente" e "ciência moderna".

1. A organização da obra:

Dividido em quatro partes, com um total de quinze capítulos e um prefácio elaborado por parte dos referidos organizadores, O Desejo da Teoria e A Contingência da Prática é de interesse para profissionais e especialistas no campo de ensino de língua portuguesa e de línguas estrangeiras e também para pós-graduandos e graduandos em letras, lingüística e educação, devido ao questionamento e à contestação da práxis atual na área do ensino-aprendizagem de língua materna e estrangeira.

Dado a descrença total por parte dos autores da ciência moderna voltada para a experimentação, a utilização de dados empíricos e a formulação de hipóteses, o livro sob apreço é de interesse para os pesquisadores que recorrem à pesquisa quantitativa, nas ciências naturais e também nas humanas como sociologia, educação e psicologia. Seria interessante saber a opinião a respeito do livro por parte dos que investem tempo e dinheiro em pesquisa de cunho quantitativo e/ou interpretativo fora da área de LA.

A primeira parte do volume tem por título "Lingüística Aplicada: um Campo em Debate" e contém artigos de três diferentes professores: Alastair Pennycook, docente da University of Technology, Sydney, Austrália; Nelson Bolognini, Diretor da Escola de Idiomas Apel, Campinas; São Paulo; Amanda Eloina Scherer, docente da Universidade Federal de Santa Maria, RS. A segunda secção, intitulada "De um Discurso em Lingüística Aplicada: Entre o Desejo da Teoria e a Contingência da Prática" apresenta quatro trabalhos, três de autoria de Ernesto Sergio Bertoldo, professor da Universidade Federal de Uberlândia, MG e um assinado por Maria José Coracini, da Universidade Estadual de Campinas. Constam da terceira parte, "Sobre o Ensino de Línguas: Heterogeneidades e Ideologias", quatro textos: um de autoria de Maria Aparecida Amador Mascia, professora da Universidade São Francisco; outro escrito por Edmundo Narraci Gasparini, docente do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus de Belo Horizonte e dois elaborados por Maria José Coracini. A quarta parte desta publicação também arrola quatro artigos, dois de autoria de Maria José Coracini e um de Elzira Yoko Ueno e outro de Martha Christina F. Zoni de Nascimento, docente da Universidade do Amapá.

2. Os autores, os títulos dos trabalhos e suas idéias:

O artigo inicial de Pennycook tem um título bastante intrigante "Lingüística Aplicada Pós-Occidental". É salutar a inclusão de Pennycook entre o rol de autores, pois ele tem sido, por mais de dez anos, um dos poucos lingüistas aplicados que tem cobrado da LA, um contato maior com as ciências sociais e a educação. Pennycook problematiza a metodologia positivista usada na disciplina e advoga uma mudança para uma "lingüística aplicada crítica" (Pennycook, 1989, 1994).

Scherer é autora do trabalho intitulado "A História e a Memória na Constituição do Discurso da Lingüística Aplicada no Brasil". É importante narrar o surgimento e desenvolvimento de diferentes disciplinas no contexto brasileiro, pois sem uma compreensão das raízes históricas da LA, nós não podemos entender as "vozes" subjacentes aos vários discursos presentes na disciplina neste momento contemporâneo. Um problema sentido com o trabalho é que a autora apresenta uma visão parcial da LA, pois os seus comentários se limitam praticamente ao desenvolvimento da disciplina no âmbito da Universidade Estadual de Campinas. Seria importante explicitar a natureza das pesquisas realizada em outros centros.

A contribuição de Bolognini é o artigo "A Tradição Etnográfica como Regime de Verdade na Metodologia de Pesquisa em LA". Bolognini informa que analisou 24 disssertações de mestrado defendidas na Unicamp entre os anos 1989-1995, todas voltadas para a metodologia "qualitativa de cunho etnográfico" (p. 86). Não identifica os nomes dos autores nem os títulos dos trabalhos analisados e não mostra os méritos ou deméritos das mesmas e afirma que a pesquisa qualitativa "... acaba por reproduzir os mesmos efeitos de verdade e poder que criticava no positivismo" (p. 99). Como alternativa à pesquisa etnográfica, Bolognini considera, como objeto de seu desejo, a utilização da pesquisa chamada "geneológica". Infelizmente não apresenta exemplos deste tipo de pesquisa. A finalidade subjacente do trabalho de Bolognini é simplesmente sugerir (sem dados ou maiores provas) que os métodos quantitativos e qualitativos utilizados na LA não satisfazem.

Coracini, autora do quarto capítulo, cujo título é "O Discurso da Lingüística Aplicada e a Questão da Identidade: entre a modernidade e a pós-modernidade", conclui, com base na psicanálise, que (i) "a identidade é ilusória e só existe como construção imaginária" (p.113) (ii) não existe um sujeito capaz de agir conscientemente (p. 111) e (iii) o lingüista aplicado se encontra "imerso em águas subjetivas" (p.111) procurando soluções para problemas tais como a aprendizagem, a metodologia de sala de aula e a relação professor-aluno. O discurso de Coracini está embasado na visão de uma única disciplina (psicanálise) que concebe unicamente um sujeito inconsciente impossibilitado de tomar decisões ou de propor soluções. Desta forma qualquer atividade cognitiva é vista como "solucionista".

Nos capítulos (5 a 7), Bertoldo oferece três reflexões intituladas respectivamente, "O Discurso da Divulgação Científica da Lingüística Aplicada"(a), "Um Percurso da LA: Demarcando Territórios"(b) e "O Discurso Pedagógico da Lingüística Aplicada" (c). No trabalho (a) Bertoldo afirma que o discurso da referida disciplina "... constrange aquilo que pode ou não ser dito, constitui e separa os sujeitos que podem dizer daqueles que não podem, aparta aquilo que é falso daquilo é verdadeiro, que vale como sua verdade." (p. 143). No texto (b), Bertoldo, com base nas idéias de Foucault, declara que os textos "fundadores" de LA brasileira representam o seu "regime de verdade" os quais os seguidores repetem e reproduzem sem questionamentos (p. 159). Concordo com Bertoldo que as verdades são sempre construídas, inclusive o regime de verdade por ele formulado. Acredito que Bertoldo concordaria que todo texto é susceptível a diferentes interpretações. Um bom exemplo é o trabalho de autoria de Muckelbauer (2002) que lê Foucault "diferentemente", pois na sua leitura ele encontra a presença de uma postura de resistência por parte do sujeito no discurso do renomado filósofo. Quanto ao texto (c), Bertoldo, com base na sua interpretação de depoimentos escritos por parte de professores em sala de aula, participantes da sua pesquisa, argumenta que a LA, na busca de "legitimação científica nos moldes da ciência moderna", não permite discussões sobre "... a dicotomia entre teoria e prática na formação de professores" (p. 188). É uma inverdade a afirmação de que a LA tolhe debate sobre a suposta dicotomia entre teoria e prática. A leitura de Wilkins (1982) e Kramsch (1993) mostra a preocupação na referida disciplina com relação aos perigos de pensamento dicotômico. Edge e Richards (1998) cobram dos lingüistas aplicados uma responsabilidade acadêmica no que diz respeito às afirmações sobre os resultados da pesquisa qualitativa. Nenhum método de pesquisa deve ser descartado categoricamente.

No capítulo 8, Coracini volta a tocar no tema de identidade do professor de língua. O referido capítulo se intitula "Olhar da Ciência e a Construção da Identidade do Professor de Língua". A autora informa que os professores de língua estrangeira que participaram da pesquisa por ela realizada não escapam de "...uma ilusão de controle, de verdade, de objetividade que constitui seu imaginário e sua identidade" (p. 209). Concordo com Coracini que há muitas coisas que nós não podemos controlar nas nossas vidas, mas acredito que alguns indivíduos têm mais controle da sua situação do que outros. O próprio discurso de Coracini e os outros autores do livro não seriam exemplos de uma tentativa de persuadir e controlar?

Mascia, no capítulo 9 da obra sob apreço, intitulado "Discursos Fundadores das Metodologias e Abordagens de Ensino de Língua Estrangeira", declara que a Abordagem Comunicativa de ensino de línguas estrangeiras tem um "caráter de ecletismo metodológico" e por este motivo, mantém "inalterada a concepção de sujeito (positivista e racional), buscando, sempre, a coesão, a sintonia e a homogeneização, e apagando, conseqüentemente, as emergências de heterogeneidade" (p. 218). Sem sombra de dúvida não existe um método perfeito de ensinar línguas estrangeiras. Cabe observar que existe na literatura especializada questionamento e crítica, por exemplo, à abordagem comunicativa. Levando os comentários feitos por Mascia às últimas conseqüências, o que resta fazer numa aula de Prática de Ensino de Línguas se nenhum método tem valor?

No capítulo 10, Gasparini, no artigo intitulado "A Interpretação de Textos em Língua Estrangeira: Entre a Ideologia, a Estrutura da Linguagem e o Desejo", critica a abordagem interativa de leitura em língua estrangeira por considerar que a referida abordagem acredita na noção de um "leitor maduro" (Kato, 1985: 229) que procure nos textos a "intenção do autor". Gasparini não teria tido uma "intenção" ao escrever o seu texto? Ele concordaria que o seu próprio capítulo teria "significação intrínseca", somente num "nível imaginário" sendo assim "um efeito da ideologia"? É óbvio que os nossos próprios textos não escapam também de ideologias.

No capítulo 11, Coracini, no artigo "A Escamoteação da Heterogeneidade" critica a utilização de introspecção, como metodologia de pesquisa em LA. Segundo ela, não é possível entender o processo de leitura e escrita lançando mão de verbalização por parte dos participantes neste tipo de pesquisa. Ela conclui que a introspecção como técnica de elucidação de dados não procede por ser baseada na pressuposição de que "... ler e escrever são atos meramente mentais e, portanto, individuais. O que não está bem explicado é a afirmação de que o uso deste tipo de metodologia "... tem efeitos castradores no ensino-aprendizagem de língua" (p. 255). Com base na sua não aceitação de um sujeito consciente, ela rejeita noções de proficiência como o "bom/mau leitor" ou o "bom/mau professor". O problema é que para um debate justo sobre o conceito de proficiência, seria necessário refutar trabalhos que poderiam servir como contra-argumento. Um exemplo é o artigo de autoria de Bonny Norton e Kelleen Toohey, "Changing Perspectives on Good Language Learners", 2000. Tesol Quarterly. Vol. 35, No. 2:307-322.

No capítulo 12, " A Consciência Crítica sobre e da Sala de Aula", Coracini (p. 273) nos informa que Krashen (1982) propôs uma distinção entre a aquisição ( que é inconsciente) e a aprendizagem (consciente); ela comenta que "aprende-se uma LE, mas se adquire a LM". Trata-se de um equívoco, pois Krashen inclui no seu "modelo monitor" a noção de aquisição que é um processo natural e subconsciente, visto por ele como a força motriz no desenvolvimento de fluência numa língua estrangeira. Para Krashen, a aprendizagem é um processo consciente cuja função é a de monitorar ou "editar" o desempenho dos falantes. Neste modelo proposto por Krashen, o papel da aprendizagem é menor que o da aquisição. O que é original no pensamento de Krashen é a possibilidade de replicação na sala de aula de língua estrangeira das condições ocorridas na aquisição de primeira língua (L 1) através da apresentação de oportunidades para ouvir e falar.

Ueno assina o artigo do capítulo 13 da coletânea, que se intitula "A Relação Eficiência-Eficácia no Ensino de Línguas ( Materna e Estrangeira). No referido trabalho, informa que "... não existem lugares fixos, isto é, não existe de um lado a eficácia e de outro a eficiência, da mesma forma que, de um lado, a teoria e, de outro, a prática, assim como, de um lado, a performance e, de outro, a competência, mas as relações eficácia-eficiência, teoria-prática e competência-performance". (p.292) Ninguém no campo de LA nega que a competência e o desempenho (performance) sejam contínuos em vez de compartimentos dicotômicos fechados. Mencionei anteriormente o livro de Kramsch (1993:2-9) que apresenta uma " perspectiva não-dicotômica" na LA. Este trabalho, na minha opinião, deveria ter sido trazido para a discussão.

O último (capítulo 14) dos cinco de autoria de Coracini é intitulado "A Abordagem Reflexiva na Formação do Professor de Língua". Neste trabalho, Coracini considera que os termos recolhidos dos estudos e pesquisas sobre o ensino reflexivo tais como "dados diretamente observáveis", "descrição detalhada" e "observação direta e registrada" sugerem "... um fazer científico indutivo, que lembra o positivismo e, conseqüentemente, a concepção de sujeito centrado, uno, capaz de atingir a verdade e a totalidade." (p. 325). As afirmações de Coracini não seriam generalizáveis a outras disciplinas que fazem uso de dados qualitativos? A autora estaria sugerindo que os resultados de pesquisa apresentados no Handbook of Qualitative Research ( Denzin e Lincoln, 1994) não têm nenhuma utilidade?

O capítulo 15, escrito por Zoni do Nascimento, intitulado "A Avaliação Emancipatória e o Discurso Educacional" analisa um documento produzido numa escola pública brasileira, que advoga uma política de avaliação emancipatória. O referido documento, segunda a autora, funciona como um "regime de verdade", "um discurso circular", embasado na "concepção de sujeito racional, centrado na consciência."(p. 330). A leitura do artigo mostra uma visão pessimista com respeito à avaliação emanicipatória por parte da autora. Uma postura mais aberta é sentida no artigo de Pennycook (Capítulo 1, p. 41) que, com base nas considerações de Shohamy (1997), questiona as "tradições psicométricas de avaliação de língua", mas acredita numa política de "... desenvolvimento de testes mais "democráticos" nos quais os avaliados e outros participantes locais sejam envolvidos" (p. 41).

3. Reflexões sobre os temas abordados na obra:

Do exposto acima, observa-se que todos os autores pertencem a uma comunidade interpretativa específica (para lembrar Stanley Fish), pois baseiam as suas argumentações nas idéias de Foucault, Derrida, Pêcheux, Nietzsche, Lyotard, Deleuze e Guattari, Freud, Lacan, Authier-Revuz, e muitos outros. Sem dúvida, o aporte de idéias de pensadores estrangeiros para o âmbito de LA contribui para enriquecer a referida disciplina com importantes questionamentos.

Os próprios discursos dos autores que assinam um artigo para a coletânea compartilham interpretações semelhantes com respeito à LA. Todos se referem à noção de "regime de verdade", presente em todas as disciplinas; todos, numa forma ou outra, questionam o papel da ciência moderna ocidental e seu papel na construção de metodologias de pesquisa, tanto quantitativa como qualitativa, utilizadas não somente em LA, mas também numa gama de outras disciplinas tais como educação, sociologia, psicologia, e sociolingüística.

No que diz respeito à noção de "regime de verdade", mencionado por quase todos os autores, é importante refletir sobre o referido conceito que tem preocupado filósofos e lógicos ao longo do tempo e também certos lingüistas na história da referida disciplina. Skelton (1997), na área de LA, diga-se de passagem, mostra que a noção "verdade" é muito complexa, pois, em textos acadêmicos produzidos no campo da medicina, a noção de verdade é apresentada em três formas: (i) a provisória, (ii) a parcial (incompleta) e (iii) a contextualizada. O mesmo autor cita o trabalho de Latour e Woolgar (1986:75) que distinguem entre diferentes tipos de enunciados que têm diferentes "níveis" de verdade (i) "conhecimento comum" ("facts- taken for granted" ) (ii) conjecturas e (iii) afirmações que precisam de argumentação.

O objetivo de todos os autores é apresentar, à guisa de contribuição, um "novo olhar" para a LA. Todos os colaboradores do livro O Desejo da Teoria e A Contingência da Prática são unânimes em rejeitar a noção de um sujeito consciente. Coracini (p. 307) rejeita o ensino reflexivo, usado no ensino de língua porque tal prática pressupõe um "sujeito psicologizante e consciente". Com base no referido pressuposto por parte da autora, a noção de cognição, envolvimento emocional ou racional e um pensamento lógico por parte de sujeitos, segundo a autora, não procedem. No entanto, Roudinesco e Plon (1997) [1998: 130] informam no Dicionário de Psicanálise que, de fato, o vocábulo consciência "... não faz parte do vocabulário da psicanálise", mas acrescentam que o referido vocábulo "... do ponto de vista clínico, a questão da consciência encontra-se em todas as escolas de psicoterapia...". Daí se pode depreender que diferentes disciplinas apresentam diferentes pressupostos ou "regimes de verdade" distintos. Pergunto se é realmente justo descartar uma prática, neste caso, o ensino reflexivo, com base na opção por um tipo de sujeito "autorizado" por uma determinada disciplina, neste caso, a psicanálise.

Cabe também observar que no âmbito da própria AD, existe uma gama de diferentes posturas teóricas e diferentes problemáticas. Charaudeau (1999:32-36) se refere a três diferentes posições na AD. A primeira, a cognitiva e categorizante, admite um "sujeito cognitivo"; a segunda, chamada a comunicativa e descritiva, concebe um sujeito que é concretizado numa "relação de intersubjectividade com outro sujeito"; a terceira, intitulada "representacional e interpretativa", apresenta, por um lado, um sujeito ativo (sujeito consciente) e, por outro, um sujeito passivo, considerado uma ilusão ( ênfase de Charaudeau), "... em vez de ser eu eu, é um isso, pré-construído nos termos de Pêcheux, ora ideológico na visão de Althusser ora inconsciente na de Authier-Revuz".

Com base nestas considerações, pode-se concluir que não existe uma única AD, mas diferentes modelos, todos aparelhados com seu próprio método de análise e a sua maneira distinta de ver o sujeito e as noções de consciência e inconsciência. Coracini e Bertoldo não informam nada a respeito dessa diversidade de orientações de âmbito da AD. Assim, não seria estranho haver outras interpretações da LA, dependendo do modelo escolhido. Em vez de uma "linha francesa" (ênfase minha), não haveria diferentes linhas ou vozes em língua francesa devido à própria polifonia de todos os discursos?

À guisa de conclusão, quero argumentar que a crítica à LA apresentada pelos autores não representa um debate justo. Os autores limitam a sua crítica à referida disciplina com base na sua escolha e na sua interpretação (ambas, intencionais) de um modelo da AD, a linha francesa e subseqüente exclusão (sem maiores discussões) a respeito de outros modelos.

A rejeição de um sujeito (minimamente) consciente e a total não-aceitação, por um lado, do positivismo (empiricismo) e, por outro, do método qualitativo (interpretativo, etnográfico e introspectivo), acoplada à conseqüente descrença numa possível contribuição da Ciência para o conhecimento geral, impedem uma postura de contra-argumentação, que deveria caracterizar o debate acadêmico. Os autores não trazem para a discussão fontes bibliográficas que defendam os métodos de pesquisa acima citados. Muitos dos autores recorrem à expressão "efeitos de sentido do seu dizer" nos seus respectivos trabalhos. Qual seria o efeito do sentido do dizer dos próprios autores da coletânea sobre eventuais leitores que não conheçam a AD ou a LA? Acredito que leitores deste tipo vão ter uma análise enviesada de ambas as disciplinas. Levando as considerações dos autores do livro sob apreciação às últimas conseqüências, tais leitores estariam obrigados a concluir que os conhecimentos advindos da pesquisa em LA nos últimos trinta anos não levam a nada, pois a abordagem interativa de leitura, a avaliação emancipatória, a pedagogia crítica, a abordagem comunicativa (na sua totalidade), estratégias de ensino/aprendizagem, o protocolo verbal e os aspectos cognitivos de leitura (Kleiman, 1989), todos comandados por um sujeito consciente, não procedem e deveriam ser abandonados.

Cumpre dizer que curiosamente o único texto que apresenta uma visão "positiva" de LA, apesar de suas críticas ao positivismo e de suas reservas com respeito à avaliação psicométrica, é a contribuição de Pennycook. Este lingüísta aplicado tece comentários pertinentes a respeito da possível contribuição da Lingüística Aplicada Crítica (doravante LAC) no século XXI, especialmente para as áreas de letramento, tradução, avaliação emancipatória, planejamento e direitos lingüísticos. Acredito que o discurso de Pennycook com respeito à LAC é contrário ao de Coracini que associa uma postura crítica ao logocentricismo. ("Ser crítico é ser consciente", p. 272).

Espero que os meus comentários sobre O Desejo da Teoria e a Contingência da Prática contribuam para a continuação do debate sobre os destinos da LA no contexto brasileiro nos próximos anos.

REFERÊNCIAS

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DENZIN, Norman S. e Yvona S. LINCOLN. (Orgs.) 1994. Handbook of Qualitative Research. London: Sage Publications.

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KRAMSCH, Claire. 1993. Context and Culture in Language Teaching. Oxford: Oxford University Press.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jul 2005
  • Data do Fascículo
    Dez 2004
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