O traço de gênero na morfossintaxe do português

The gender feature in the morphosyntax of Portuguese

Danniel Carvalho Sobre o autor

RESUMO:

Neste artigo, intenta-se definir gênero como um traço sintático. É assumido na literatura linguística que gênero não possui papel na sintaxe, sendo apenas relevante para as interfaces. O artigo discute propostas correntes sobre a manifestação formal e funcional de gênero nos nomes, objetivando descrever seu comportamento e possíveis consequências para a sintaxe de línguas como o português brasileiro, que apresenta especificidades na concordância deste traço. Assim, gênero natural/biológico e arbitrário possuem a mesma natureza sintática. Este argumento traz consigo importantes discussões acerca de como este processo determina a distribuição e a interpretação semântica dessas estruturas. Tal complexidade pode ser explicada através da própria computação de gênero.

Palavras-chave:
Gênero; Traço gramatical; Morfossintaxe; Sintaxe de D

ABSTRACT

In this paper we intend to define gender as a syntactic feature. It is assumed in the linguistic literature that gender has no role in the syntax and is only relevant to the interfaces. This paper will discuss current proposals on the formal and functional gender manifestation in nouns, aiming to describe their behavior and possible consequences for the syntax in a language such as Brazilian Portuguese, which presents some specificities for this feature agreement. Thus, natural/biological and arbitrary gender have the same syntactic nature. However, this argument brings along important discussion on how this process determine the distribution and the semantic interpretation of such structure. This complexity, nonetheless, can be interpreted by means of computation of gender.

Key-words:
Gender; Grammatical feature; Morphosyntax; D syntax

1. Introdução

Gênero tem sido considerado “um tema tradicional na linguística”1 1 “[A] time-honored subject of linguistics” no original. (Unterbeck; Rissanen 2000UNTERBECK, Barbara; RISSANEN, Matti. 2000. Preface. In: UNTERBECK, Barbara. (Ed.). Gender in Grammar and Cognition. Part I: Approaches to Gender. Berlin: Mouton de Gruyter: xi-xiv.:ix), e Matasović (2004MATASOVIĆ, Ranko. 2004. Gender in Indo-European. Heidelberg: Winter.:13) chama-o de “a única categoria gramatical que sempre evoca paixão”. Corbett (1991CORBETT, Greville G. 1991. Gender. Cambridge: Cambridge University Press.:1) afirma que gênero “é a mais enigmática das categorias gramaticais”. Consequentemente, há uma literatura significativa sobre gênero nos estudos sociolinguísticos (cf.: Lucchesi 2000LUCCHESI, Dante. 2000. A variação na concordância de gênero em uma comunidade de fala afro-brasileira: novos elementos sobre a formação do português popular do Brasil. 364f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro., 2009LUCCHESI, Dante. 2009. A concordância de gênero. In: LUCCHESI, Dante.; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza. (Orgs.). O português afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA: 296-318., Karim 2004KARIM, Jocineide Macedo. 2004. A variação na concordância de gênero no falar da comunidade de Cáceres-MT. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) - Universidade Estadual Paulista, Araraquara., Aguilera; Navarro 2009AGUILERA, Vandersi de Andrade; NAVARRO, Ana Maria Mattos. 2009. Casos de não concordância nominal na linguagem rural paranaense: traços do português arcaico, influência africana ou indígena? In: AGUILERA, Vandersi de Andrade. (Org.). Para a História do Português Brasileiro: Vozes, Veredas, Voragens. V. 3. Londrina: EDUEL: 195-222., Bismarck Lopes 2014BISMARK LOPES, Ícaro de Carvalho. 2014. Traço e concordância de gênero na constituição da gramática do português. 141f. Dissertação (Mestrado em Língua e Cultura) - Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador., para o português; Hellinger; Bußmann 2001HELLINGER, Marlis; BUßMANN, Hadumod. (eds.). 2001. Gender Across Languages: The Linguistic Representation of Women and Men. 3 vols. Amsterdam: John Benjamins., para uma grande variedade de outras línguas), nos estudos de aquisição e processamento de gênero (cf.: Franceschina 2005FRANCESCHINA, Florencia. 2005. Fossilized second language grammars. The acquisition of grammatical gender. Amsterdam: Benjamins., Correia; Name 2003CORREA, Letícia M. Sicuro.; NAME, Maria Cristina L. 2003. The processing of Determiner - Noum agreement and the identification of the gender of Nouns in the early acquisition of Portuguese. Journal of Portuguese Linguistics 2, n.1: 19-43.), nos estudos da tipologia dos sistemas de gênero (cf.: Corbett 1991CORBETT, Greville G. 1991. Gender. Cambridge: Cambridge University Press.), e nos estudos diacrônicos sobre desenvolvimento e perda dos sistemas de gênero (cf.: Matasović 2004MATASOVIĆ, Ranko. 2004. Gender in Indo-European. Heidelberg: Winter.).

Entretanto, a literatura sobre os aspectos morfossintáticos de gênero é bem menos extensa. Há incontestavelmente vários estudos sobre a distribuição de gênero nas diversas línguas, como aponta Corbett (1991CORBETT, Greville G. 1991. Gender. Cambridge: Cambridge University Press., capítulos 2 e 3), mas algumas das questões mais básicas para uma análise morfossintática da atribuição de gênero continuam controversas. Dentre elas, destacamos: (i) em que lugar na estrutura hierárquica gênero está localizado? (ii) como é feita a atribuição morfossintática de gênero? (iii) gênero é lexicalmente listado em um nome? (iv) há uma projeção desta categoria que se combina com o nome para atribuir gênero?

Para dar início à discussão aqui proposta, será assumida, neste artigo, a seguinte definição de gênero adaptada de Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press.):

(1) Definição de gênero2 2 Para uma discussão das consequências desta definição de gênero, ver Carvalho (2016a). Para uma discussão sobre gênero estabelecer uma perspectivização do nome, ver Carvalho, Brito e Farias (2017).

Gênero é a distribuição dos nomes em duas ou mais classes, como refletido na concordância morfológica nos determinantes, adjetivos, verbos e outras categorias sintáticas.

A literatura dos estudos morfossintáticos sobre gênero tende a simplificar a relação entre gênero natural/biológico (gênero baseado apenas em propriedades semânticas, masculino/feminino, animado/inanimado) e gênero arbitrário (Kramer 2009KRAMER, Ruth. 2009. Definite Markers, Phi Features and Agreement: A Morphosyntactic Investigation of the Amharic DP. 360f. Tese (Doutorado em Linguística) - University of California, Santa Cruz.), ou seja, gênero atribuído sem referência a uma propriedade semântica. A distribuição do gênero arbitrário varia nas línguas naturais. Por exemplo, a palavra “manhã” apresenta diferentes gêneros em português (feminino), francês (masculino) e russo (neutro).3 3 Os exemplos do russo em (2) e (3) foram retirados de Corbett (1991:34-35)


Não há nada no significado de “manhã” que requeira um gênero particular nessas línguas. Nesse caso, gênero é atribuído arbitrariamente. Entretanto, existem outros nomes cujos significados determinam de fato seus gêneros nas línguas. “Pai”, por exemplo, é masculino nas três línguas mencionadas acima, pois nomes que referem a entidades masculinas são (geralmente) masculinos em todas essas línguas.


A atribuição de gênero, portanto, opera em duas dimensões: gênero atribuído de acordo com algumas propriedades naturais/semânticas do mundo real; ou gênero atribuído arbitrariamente. Em francês, por exemplo, a morfologia de gênero é usada para indicar gênero biológico (natural) e gênero arbitrário, como ilustrado abaixo:


Em inglês, por outro lado, gênero é restrito a gênero biológico, sendo ele inerente, como em (5a), ou morfológico, como em (5b,c).


Em muitas línguas, gênero é atribuído somente a partir das propriedades naturais do nome (por exemplo, dieri e mangarayi (Kramer 2009KRAMER, Ruth. 2009. Definite Markers, Phi Features and Agreement: A Morphosyntactic Investigation of the Amharic DP. 360f. Tese (Doutorado em Linguística) - University of California, Santa Cruz.), tamil (Arden 1942ARDEN, Albert Henry. 1942. A Progressive Grammar of Common Tamil. 5 ed. Madras: Christian Literature Society for India., Asher 1985ASHER, Ronald E. 1985. Tamil. London: Croom Helm.)). Entretanto, nem todas as abordagens morfossintáticas de gênero tratam gênero natural como algo central em suas análises. Muitas, na verdade, deixam-no de lado, ou convertem-no, via de regra, através de alguma regra em um tipo de traço comum ao gênero arbitrário. Isso talvez ocorra porque a relação morfossintática entre gênero arbitrário e natural tem sido abordada em línguas cujos sistemas de gênero são baseados em gênero arbitrário (por exemplo, espanhol, italiano e grego). Isso torna obscuro como os dois tipos de gênero são expressos através de um mesmo recurso morfossintático, e é ainda mais obscuro se usam o mesmo conjunto de traços. Vale ressaltar, ainda, a carência desse tipo de investigação no português brasileiro, o que contribui para justificar a iniciativa deste trabalho. Quanto à relação entre classe e gênero, Armelin (2015ARMELIN. Paula Roberta Gabbai. 2015. A relação entre gênero e morfologia avaliativa nos nominais do português brasileiro: uma abordagem sintática da formação de palavras. 247f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade de São Paulo.: 41), em estudo sobre a formação de palavras avaliativas, aponta que o português brasileiro, assim como as demais línguas românicas, é tido como uma língua com três classes nominais, distribuídas em três terminações fonológicas (vogais temáticas): -a, -o, -e, ou um Ø fonológico, e que, para além destas classes nominais, o português brasileiro possui duas categorias de gênero: masculino e feminino. Assim, pode-se encontrar nessa língua coincidência entre a marca de classe e de gênero. Mas, como aponta Armelin, nem sempre essas marcas são coincidentes. Este fato leva a autora a diferenciar a marca fonológica de classe da de gênero, o que tem reflexo na organização da estrutura do nominal e, consequentemente, da sintaxe.

Ainda, reconhece-se o esforço em descrever o comportamento sintático-semântico de número nas estruturas de nomes nus no português (cf.: Müller 2000MÜLLER, Ana. 2000. Sentenças genericamente quantificadas e expressões de referência a espécies no português do brasil. Cadernos de Estudos Linguísticos (UNICAMP), Campinas 39: 141-158., 2002MÜLLER, Ana. 2002. The Semantics of Generic Quantification in Brazilian Portuguese. PROBUS 14: 279-298., Müller; Oliveira 2004, Müller; Doron 2012MÜLLER, Ana; DORON, Edith. 2012. Nomes nus e a distinção massivo-contável. Revista do GEL 9: 80-106., Schimitt; Munn 1999SCHMITT, Cristina; MUNN, Alan. 1999. Against the nominal mapping parameter: bare nouns in Brazilian Portuguese. Proceedings of NELS 29., 2002SCHMITT, Cristina; MUNN, Alan. 2002. The syntax and semantics of bare arguments in Brazilian Portuguese. Linguistic Variation Yearbook 2: 253-269., Pires de Oliveira; Rothstein 2011PIRES DE OLIVEIRA, Roberta; ROTHSTEIN, Susan. 2011. Bare singular noun phrases are mass in Brazilian Portuguese. Lingua 121: 2153-2175., entre muitos outros), mas poucos são os trabalhos voltados ao comportamento do traço de gênero em tais estruturas (cf.: Foltran; Rodrigues 2013, Rodrigues; Foltran 2015).

Este artigo, portanto, é uma tentativa de apresentar uma descrição, dados e alguma explicação para o melhor entendimento do comportamento sintático de gênero no português, apresentando suas regras e exceções. Apresentarei evidências, a partir de uma revisão da literatura linguística e da discussão de dados de diversas línguas, para assumir que gênero é um traço sintático a partir do fato de que este traço participa nas relações de concordância que são estabelecidas na computação sintática (Chomsky 2000CHOMSKY, N. 2000. Minimalist inquiries, the framework. In: MARTIN; Roger; MICHAELS, David; URIAGEREKA, Juan (Eds.). Step by Step: Essays on Minimalist Syntax in Honour of Howard Lasnik. Cambridge: MIT Press: 89-155., 2001CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52., Carstens 2000CARSTENS, Vicki. 2000. Concord in Minimalist Theory. Linguistic Inquiry 31: 319-355., 2010CARSTENS, Vicki. 2010. Implications of grammatical gender for the theory of uninterpretable features. In: PUTNAM, Michael (Ed.). Exploring Crash-Proof Grammars. Amsterdam: Benjamins: 31-57.).

2. Um panorama de gênero no português

O português é uma língua de concordância de gênero altamente rica e sua morfologia é bastante transparente. É uma língua que, tradicionalmente, possui dois valores para gênero, masculino e feminino, e abrange tanto seres animados quanto inanimados. Gênero é marcado em diversas categorias flexionais, que incluem artigos definidos e indefinidos (o, a, os, as, um, uma, uns, umas), adjetivos (bonito, bonita), quantificadores e outros pronomes indefinidos (todo, toda), pronomes possessivos, demonstrativos e interrogativos (seu, sua, este, esta, quanto, quanta), os dois primeiros números cardinais e todos os ordinais (um, uma, dois, duas, trigésimo, trigésima), e semi-predicados (sozinho, sozinha, mesmo, mesma).

Morfologicamente, os valores de gênero podem ser marcados através dos morfemas -o e -a como distinção entre os gêneros masculino e feminino. Segundo Kehdi (2003)KEHIDI, Valter. 2003. Morfemas do português. 6 ed. São Paulo: Editora Ática., a flexão de gênero é determinada através de -o/-a, tendo o morfema -o as variantes Ø, como em peru/perua, e u semivocálico, como em plebeu/plebeia. Segundo o autor, uma evidência do morfema -o como marca de masculino no português é a de que ele gera formas masculinas quando no final de palavras femininas, como no contraste mulher/mulheraço. Câmara Jr. (1970CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. 1970. Estrutura da língua portuguesa. 3 ed. Petrópolis: Vozes.), por sua vez, assume uma distinção marcado/não marcado para gênero: o morfema Ø para masculino, sendo esta a forma não marcada, e -a para feminino, sendo esta última a forma marcada.

Segundo Correia e Name (2003CORREA, Letícia M. Sicuro.; NAME, Maria Cristina L. 2003. The processing of Determiner - Noum agreement and the identification of the gender of Nouns in the early acquisition of Portuguese. Journal of Portuguese Linguistics 2, n.1: 19-43.:23),

[f]or historical reasons4 4 Agradeço a um parecerista anônimo por indicar que essa pode ser uma generalização sincrônica, visto que tais padrões são identificáveis pelo falante e aplicados em palavras novas. 4, most Nouns having the thematic vowel -o are masculine whereas most Nouns having the thematic vowel -a are feminine. Since the thematic vowel -a has the same phonological form as the gender inflection -a, an associative pattern can be identified between -o ending for masculine Nouns and -a ending for feminine Nouns, regardless of their morphological status.

Semanticamente, gênero é associado à animacidade. A distribuição de gênero quanto à animacidade pode ser feita de três formas: (i) lexicalmente, como pode ser observado nos pares homem/mulher, boi/vaca, cachorro/cadela, cabra/bode etc.; (ii) morfologicamente, a partir da adjunção do morfema -a à base lexical5 5 Assumo com Câmara Jr. (1970, 1972) que a forma não marcada corresponde ao masculino no português. para o feminino, com ou sem supressão da vogal temática do masculino, como em menin-o/menin-a, professor/professor-a; vítima e alguns nomes de animais, como cobra, onça e jacaré, não possuem forma flexionada para gênero; (iii) sintaticamente, com a marca de gênero expressa apenas no determinante que acompanha o nome, como em o/a estudante.

A concordância de gênero no português é encontrada em uma variedade de domínios, e pode ser realizada como uma concordância local interna ao DP (concord)6 6 Para uma discussão sobre a distinção entre concord e agreement, ver Bloomfield (1933), Greenberg (1978) e, mais recentemente, Carstens (2000) e referências lá contidas. , ou uma concordância predicativa mais distante, marcada em ambos predicados primário e secundário, como ilustrado em (6).

(6) a. Todas estas duas cartas.

b. Todos estes dois livros.

Quantificadores flutuantes demonstram a mesma morfologia de concordância obrigatória de gênero que aquela interna aos DPs, como nos predicados adjetivais e participiais primário e secundário, o que caracteriza concordância de gênero não local. Tal concordância é ilustrada em (7).

(7) a. As cartas estavam todas lidas.

b. Os livros estavam todos lidos.

Apesar de gênero ser visto como um traço intrínseco do nome e de concordância obrigatória em português, algumas restrições no licenciamento morfossintático de gênero não são homogêneas entre diferentes variedades da língua. Alguns trabalhos, incluindo os de Lucchesi (2000LUCCHESI, Dante. 2000. A variação na concordância de gênero em uma comunidade de fala afro-brasileira: novos elementos sobre a formação do português popular do Brasil. 364f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro., 2009LUCCHESI, Dante. 2009. A concordância de gênero. In: LUCCHESI, Dante.; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza. (Orgs.). O português afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA: 296-318.), Karim (2004KARIM, Jocineide Macedo. 2004. A variação na concordância de gênero no falar da comunidade de Cáceres-MT. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) - Universidade Estadual Paulista, Araraquara.) e Bismarck Lopes (2014)BISMARK LOPES, Ícaro de Carvalho. 2014. Traço e concordância de gênero na constituição da gramática do português. 141f. Dissertação (Mestrado em Língua e Cultura) - Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador., mostram que o comportamento da concordância de gênero não é completamente canônico em termos de aplicabilidade da regra em variedades afro-brasileiras do português. Os exemplos em (8) e (9) são da comunidade de Helvécia, localizada na zona rural do sul da Bahia, no nordeste do Brasil.7 7 Os dados foram extraídos de Lucchesi (2000). Para mais detalhes sobre os padrões de gênero nessa variedade do português brasileiro, ver Carvalho (2011).

(8) [...] cada um tem um natureza.

(9) [...] opero no perna e tudo [...]

Entretanto, mesmo em variedades urbanas do português brasileiro, os dados mostram que a concordância de gênero não é uniforme. Concordância não canônica de gênero em português brasileiro é encontrada em construções copulares, como observado por Foltran e Rodrigues (2013:269), e ilustrado em (10) e (11).

(10) Maria bêbada é chato.

(11) Crianças é divertido.

Como apontado por Carvalho (2013CARVALHO, Danniel da Silva. 2013. Algumas considerações sobre a morfossintaxe de gênero. Estudos Linguísticos e Literários 47: 30-46.), dados como os de (10) e (11) são uma evidência de que a regra de concordância no português não é categórica e, muito provavelmente, seu licenciamento depende da relação de gênero com outros traços na gramática dessa língua, como número e definitude.

3. A manifestação do traço de gênero 8 8 Versões desta seção foram publicadas em Carvalho (2013, 2016a). Retomo essa discussão aqui, com algumas alterações, por considerá-la ao mesmo tempo uma revisão robusta e concisa de gênero como traço gramatical e por ser essencial como base para a análise proposta nas seções seguintes.

Da definição de gênero feita em (1) e repetida abaixo, segundo Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press.), pode-se deduzir que: (i) deve haver pelo menos dois gêneros, (ii) gênero é restrito a nomes e (iii) gêneros (subcategorias nominais) são distintos uns dos outros via padrões de concordância.

(1) Definição de gênero

Gênero é a distribuição dos nomes em duas ou mais classes, como refletido na concordância morfológica nos determinantes, adjetivos, verbos e outras categorias sintáticas.

A partir de (i), infere-se que o mínimo de dois gêneros é justificado pelo fato de nomes poderem ser descritos como uma única categoria, não havendo necessidade de defini-los a partir de subclasses, devido à uniformidade de seu comportamento morfossintático (nomes concordam da mesma forma (cf.: Kramer 2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press.:65)). Para (ii), é possível identificar subclasses de verbos e adjetivos (e outras categorias sintáticas) baseado em comportamentos linguísticos diversos em certos contextos (ex.: uma subclasse de verbos tem um certo conjunto de flexões, predicativos adjetivais comportam-se de forma diferente de predicativos não adjetivais em sentenças copulares). Entretanto, para (iii), as diferenças de gênero não são manifestas em padrões de concordância diferentes em outros elementos porque nomes são normalmente a única categoria em uma língua que controla concordância (Cobertt 2006CORBETT, Greville G. 2006. Agreement. Cambridge: Cambridge University Press.:13).

O contraste em (12) e (13) mostra que o sistema de concordância não é suficiente para determinar um gênero particular em um nome de acordo com seu padrão de concordância:


Segundo Kramer, em húngaro, “vaca” e “boi” são palavras distintas e carregam um componente significante de sexo biológico, mas, uma vez que não há padrões de concordância, a língua é considerada como não tendo um sistema de gênero.

Línguas com sistema de classe têm um número relativamente pequeno de classes9 9 Hellinger e Buβmann (2001) apontam pouco mais de 20. . Línguas indo-europeias e semíticas são exemplos de línguas que possuem apenas um número limitado de classes de gênero, normalmente entre duas e três classes, segundo Hellinger e Buβmann (2001HELLINGER, Marlis; BUßMANN, Hadumod. (eds.). 2001. Gender Across Languages: The Linguistic Representation of Women and Men. 3 vols. Amsterdam: John Benjamins.:5). Na sua maioria, as línguas não apresentam necessariamente em seus nomes marcas de filiação de classe, havendo, entretanto, concordância obrigatória com outras classes de palavras dentro e fora do sintagma nominal. É importante apontar o fato de a filiação de classe não ser arbitrária quanto à referência animada, mesmo com o chamado gênero arbitrário, como aponta Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press.). Línguas desse tipo são tradicionalmente chamadas de línguas com gênero gramatical10 10 A expressão línguas de gênero também é usada para classificar tais línguas (cf.: Corbett 2013, Kramer 2015). , grupo que inclui um grande número de línguas, como o árabe, o português e as demais línguas românicas, o tcheco, o dinamarquês, o holandês, o francês, o grego, o hebraico, o hindi, o islandês, o norueguês, o polonês, o russo, entre muitas outras.

Qualquer representação de gênero, seja como uma categoria morfológica, semântica ou pragmática, exige uma leitura apropriada dentro da computação em qualquer das línguas acima mencionadas (cf.: Hellinger; Buβmann 2001HELLINGER, Marlis; BUßMANN, Hadumod. (eds.). 2001. Gender Across Languages: The Linguistic Representation of Women and Men. 3 vols. Amsterdam: John Benjamins.).

Como gênero é definido em (1) como um sistema de classes de concordância, este passa a ser o critério pelo qual tradicionalmente define-se a quantidade de valores de gênero de uma língua e a distribuição dos nomes pelos gêneros. Em italiano, no exemplo (14), donna é apontado como feminino e uomo como masculino, devido à marca de concordância feminina e masculina que engatilham, respectivamente, em seus artigos e adjetivos. Como já apontado na seção anterior, a vogal final do nome não é um indicador confiável de gênero. Por exemplo, mano, em (14d), apesar de apresentar vogal temática -o que caracteriza tradicionalmente o masculino também no italiano, é na verdade feminino, como sua marca concordância demonstra. Entretanto, podemos examinar qualquer alvo11 11 É necessário estabelecer algumas definições para o entendimento das relações de concordância acima. Corbett (2006:4) propõe que concordância envolve a seguinte condição: [w]e call the element which determines the agreement (say the subject noun phrase) the controller. The element whose form is determined by agreement is the target. The syntactic environment in which agreement occurs (the clause for instance) is the domain of agreement. And when we indicate in what respect there is agreement, we are referring to agreement features. de concordância e chegar à conclusão de que o artigo indefinido una e o adjetivo alta em (14a) são igualmente uma boa evidência para o gênero feminino de donna uma vez que o artigo definido la e o adjetivo vecchia in (14c) concordam com o nome no feminino.12 12 Para uma discussão sobre sistemas de gênero que não se comportam como o italiano e o português, o caso do romeno, ver Carvalho (2013, 2016a).


Audring (2014AUDRING, Jenny. 2014. Gender as a complex feature. Language Sciences. Special issue Exploring grammatical gender 43: 5-17.) aponta uma série de dimensões nas quais a representação de gênero pode refletir uma categoria complexa nas línguas. Uma delas é a expressão formal de gênero na morfologia da língua.

Tipicamente, o gênero de um nome não é visível propriamente no nome, mas expresso via concordância em outras palavras, tais como o artigo, o adjetivo, o predicado, o particípio e em vários pronomes.13 13 Corbett (1991:113) oferece exemplos de alvos menos usuais, como adposições e complementizadores.

Em algumas línguas, a concordância é tão onipresente que praticamente cada palavra na sentença carrega marcação de gênero. (15) é um exemplo de chichewa, uma língua bantu da família niger-congo, falada no leste da África (Mchombo 2004MCHOMBO, Sam. 2004. The Syntax of Chichewa. Cambridge University Press, Cambridge.: 87). Os números 7, 1 e 9 indicam classes dos nomes.


Por outro lado, há línguas com expressão de gênero extremamente esparsa. A mais conhecida delas é o inglês, em que gênero é visível apenas em pronomes pessoais e possessivos. Em síntese, a concordância pode ser restringida de diversas formas. Uma ocorrência comum é o fato de ela interagir com outros traços apenas quando da realização de certos valores destes traços, como, por exemplo, o fato de gênero só ser expresso no singular em alemão, na terceira pessoa no servo-croata e apenas no tempo passado no russo (cf.: Corbett 1991CORBETT, Greville G. 1991. Gender. Cambridge: Cambridge University Press.). Um segundo fator restritivo é o sincretismo. Muitos alvos na concordância não têm formas exclusivas para cada célula do paradigma. Isto reduz a probabilidade de que as marcas forneçam informações de gênero sem ambiguidade. Um fator complicador final é a forma das próprias marcas de concordância.

Entretanto, assumo que toda essa complexidade de gênero exposta acima é gerada a partir de sua funcionalidade interna e não por seu reflexo morfofonológico. O reflexo morfofonológico de gênero se deve a sua complexidade na computação, e não do modo inverso. Isto reitera a afirmação chomskyana de que os traços que desempenham um papel na gramática são fornecidos como um conjunto universal, comum a todas as línguas. Como será visto na seção seguinte, o papel de gênero na sintaxe afeta diretamente a interpretação das sentenças nas interfaces.

Parte dessa assunção é compartilhada por Kramer (2016KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677.). Neste trabalho, a autora apresenta uma série de evidências para assumir que gênero é um traço sintático. Seu principal ponto de partida é o fato de que este traço participa nas relações de concordância e, seguindo Chomsky (2000CHOMSKY, N. 2000. Minimalist inquiries, the framework. In: MARTIN; Roger; MICHAELS, David; URIAGEREKA, Juan (Eds.). Step by Step: Essays on Minimalist Syntax in Honour of Howard Lasnik. Cambridge: MIT Press: 89-155., 2001CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52.), de que as relações de concordância são estabelecidas durante a derivação sintática.

Com base no que foi demonstrado até aqui, assumo com Kramer (2016KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677.) que não existe uma projeção funcional responsável pela sintaxe de gênero (algo como GenP - cf.: Picallo 1991PICALLO, M. Carme. 1991. Nominals and nominalization in Catalan. Probus 3: 279-316., Koopman 2003KOOPMAN, Hilda. 2003. The locality of agreement and the structure of the DP in Maasai. In: GRIFFIN, William Earl. (Ed.). The role of agreement in natural language: TLS 5 proceedings. Austin: Texas Linguistics Forum: 207-227, de Belder; van Koppen 2015DE BELDER, Marijke; VAN KOPPEN, Marjo. 2015. One module, different levels of merge: AN(N) compounds in Dutch. Studia Linguistica 70, n. 1: 1-33.), mas, diferentemente daquela autora, defendo que gênero é um traço valorado em D, devido a suas relações com traços contidos nesse núcleo. De acordo com Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press., 2016KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677.), gênero é um traço que pode ou não ser interpretável na gramática a depender da sua posição/localização. De acordo com a autora, um nome tem uma representação sintática como em (16) abaixo.


Em (16), o nome é decomposto em duas partes: uma raiz categorialmente neutra e um núcleo categorial definidor, que pode ser um nominalizador, um verbalizador ou um adjetivador, que torna a raiz uma categoria lexical plena (Kramer 2016KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677.:5). De acordo com essa perspectiva, o traço de gênero não está localizado apenas na raiz. Ao contrário, nesta perspectiva, raízes não possuiriam traço de gênero, uma vez que são consideradas, por questões metodológicas, categorialmente neutras (cf.: Acquaviva 2009ACQUAVIVA, Paolo. 2009. Roots and lexicality in distributed morphology. York Essex Morphology Meeting 2: 1-21.).14 14 Kramer (2016) reforça a ideia de que uma proposta de decomposição lexical, apesar de amplamente divulgada pela Morfologia Distribuída, não é exclusividade desse modelo teórico. No modelo proposto por Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press., 2016KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677.), gênero estaria localizado no núcleo categorial definidor n em seu redor. Assim sendo, numa perspectiva de n para gênero, em uma língua com um sistema de gênero masculino/feminino, haveria um n feminino (n[+FEM]) em um n masculino (n[-FEM]). Esta análise capturaria a complexidade semântica de gênero. Kramer (2016)KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677. afirma que todo sistema de gênero apresenta uma correlação entre sexo biológico e/ou animacidade e um ou mais gêneros. Ainda, em uma perspectiva de decomposição lexical, o traço de gênero pode ser interpretável. Esta assunção parte da ideia de que nomes como verdade em português, por exemplo, que são interpretados como feminino, mas não possuem um referente biologicamente feminino, são explicados através da ideia de que traços sintáticos variam em sua interpretação semântica (cf.: Chomsky 2000CHOMSKY, N. 2000. Minimalist inquiries, the framework. In: MARTIN; Roger; MICHAELS, David; URIAGEREKA, Juan (Eds.). Step by Step: Essays on Minimalist Syntax in Honour of Howard Lasnik. Cambridge: MIT Press: 89-155.). Especificamente, cada gênero (masculino/feminino) possui uma versão interpretável e não interpretável deste traço (algo como [+FEM] interpretável e não interpretável na proposta da autora). Assim, raízes que fazem parte de um nominal interpretado como animado combinam-se com um n com um traço de gênero interpretável, como √MÃE. Mas, por outro lado, raízes que pertencem a um nominal interpretado como inanimado combinam-se com um n com o traço não interpretável. Desta forma, estes nominais não serão interpretados como sendo feminino, mas engatilharão a mesma concordância que qualquer outro nP com traço [+FEM].

Para ilustrar esse modelo, observemos o licenciamento de artista em português em (17).15 15 O exemplo de Kramer (2016) é do espanhol, mas analisamos aqui como seu homônimo no português, o que não interfere no que queremos ilustrar.


Artista é um exemplo do que Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press.) chama de nomes de gênero variável (variable-gender nouns). Assim, tais nomes seriam analisados como tendo uma raiz √ARTISTA licenciada ou por n[+FEM] ou por n[-FEM], ambos, entretanto, com traços de gênero interpretáveis. Assumirei parcialmente esta proposta. Juntamente com Kramer (2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press., 2016KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677.), assumo que o traço de gênero pode ser interpretável ou não. Entretanto, diferentemente da autora, proponho que as diferentes leituras semânticas deste traço são resultado de sua combinação com outros traços disponíveis no inventário de traços dos elementos nominais, como proposto por Béjar (2003BÉJAR, Susana. 2003. Phi-syntax: a theory of agreement. 214f. Tese (Doutorado em Linguística) - University of Toronto.) e Carvalho (2008CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas.). A leitura animada/humana de uma expressão referencial, por exemplo, será feita a partir da presença/ ausência de traços como [animate] no inventário de traços que compõem o nome. Estas relações serão tratadas na seção 5.

4. O efeito sintático de gênero

De acordo com Chomsky (1995)CHOMSKY, Noam. 1995. The Minimalist Program. Cambridge: MIT Press., dentre outros, assume-se que a Gramática Universal fornece um conjunto universal de traços. Um subconjunto desses traços é selecionado por uma língua e acondicionado em alguns nós terminais da sintaxe. De acordo com Alexiadou (2004ALEXIADOU, Artemis. 2004. Inflectional class, gender and DP internal structure. In: MÜLLER, Gereon; GUNKEL, Lutz; ZIFONUN, Gisela (Eds.). Explorations in Nominal Inflection. Mouton de Gruyter, Berlin: 321-372.:27), há duas razões para que certos traços sejam ativos sintaticamente. Primeiro, a presença de conteúdo semântico pode ser vista como uma propriedade relevante para determinar que traços podem ser representados em nós terminais sintáticos, e.g. Tempo e Aspecto. Segundo, traços que não são relevantes para a interpretação semântica, tais como Caso nos nomes, permanecem na computação sintática uma vez que eles engatilham operações sintáticas específicas, tais como movimento e/ou Agree (Chomsky 2001CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52.). A realização morfológica de um dado traço, ainda de acordo com Alexiadou, não traz consigo sua função sintática/interpretativa. Mesmo traços que não parecem relevantes para a sintaxe são morfologicamente realizados, e vice-versa: traços que não recebem realização morfológica são sintaticamente ativos, por exemplo, caso nos nomes no inglês. Alexiadou argumenta que traços que não são sintaticamente ativos nunca encabecem projeções funcionais na estrutura sintática ou estão envolvidos em operações sintáticas nucleares, como Agree. Gênero, portanto, segundo esta distinção, não teria efeito sintático, uma vez que não possuiria conteúdo semântico, nem função sintática.

Alexiadou faz, ainda, uma distinção crucial entre Agree e concordância, sendo a primeira uma operação abstrata na computação sintática, conforme Chomsky (2001CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52.), enquanto a última refere-se à superfície, isto é, a propriedades morfofonológicas do sistema flexional, e não está acessível sintaticamente. Gênero, a partir desta definição, seria um caso de concordância e não de Agree. Como já sugerido anteriormente no presente trabalho, ao contrário do que propõe Alexiadou, gênero mostra-se ativo para a computação sintática como definido em Chomsky (2001)CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52., mesmo que este traço não apresente uma projeção funcional própria, mas, em vez disso, está presente em uma projeção funcional incontestável, D. Assumo aqui que, apesar de gênero não afetar semanticamente a sintaxe, como Tempo e Aspecto, este traço é relevante para certas operações sintáticas, como Agree. Evidências disso são encontradas nas relações anafóricas do português brasileiro que ilustram como predicados (adjetivais e verbais) dependem de concordância φ (sintática e morfológica, mais especificamente de número e gênero) para serem licenciados.

Em espanhol, por exemplo, ligação anafórica requer obrigatoriamente concordância total (full agreement) do pronome, ou seja, todos os traços presentes no controlador precisam estar presentes no alvo (cf.: (18)), o que não é verdadeiro em português (cf.: (19)).


Em português brasileiro, a leitura genérica de (19) desautoriza uma recuperação anafórica do controlador, uma vez que não há traços φ para serem copiados. Se nossa hipótese estiver correta, clíticos anafóricos precisam recuperar não apenas os chamados conjuntos funcionais φ (como pessoa e número), mas também gênero. Pelo contrário, tal retomada só é autorizada por um pronome foneticamente nulo. O pronome anafórico realizado exige um conjunto completo de traços φ, que podem ser encontrados em um determinante finito, por exemplo.

(20) a. As cervejas são boas, mas não posso bebê-las.

b. Umas cervejas são boas, mas não posso bebê-las

c. *Cervejas são boas, mas não posso bebê-las.

d. *Cerveja é boa, mas não posso bebê-la.

e. *Cerveja é bom, mas não posso bebê-la.

f. *Cerveja é bom, mas não posso bebê-lo.

g. Cerveja é bom, mas não posso beber ø.16 16 Como apontou um parecerista anônimo, mesmo com o pronome demonstrativo isso, supostamente forma do neutro no português, como estratégia de retomada anafórica do nome nu referente, o dado em (i) causa, no mínimo, estranhamento: (i) ??Cerveja é bom, mas num tô podendo beber isso.

A sequência em (20) mostra que independentemente da marca de φ no NP (incluindo gênero), na ausência de um determinante, a retomada anafórica de φ é bloqueada. (20a) engatilha concordância morfológica porque mostra marca de φ em seu determinante, que pode ser indefinido, como mostra (20b). (20c-f) não licenciam qualquer marca de φ em seus nominais, enquanto (20g) permite marcação neutra, i.e., não realiza nenhum traço φ em seus nominais, apesar de permitir recuperação anafórica genérica. Mesmo internamente ao predicativo, a concordância φ não é licenciada quando da ausência um determinante.

Ainda, mesmo com anáforas não clíticas, gênero e número, juntamente com D (um determinante) têm um papel na sintaxe dessas estruturas. Assim, referencialidade é codificada através de traços φ valorados, incluindo gênero.

(21) a. Bicicletas são um ótimo meio de transporte porque elas/Ø não poluem.

b. Bicicleta é um ótimo meio de transporte porque *ela/ele/Ø não polui.

As mesmas restrições em (20-21) são encontradas em (22), uma vez que a natureza (biológica ou arbitrária) de gênero é irrelevante para sua sintaxe:

(22) a. A criançai diz que elai/ji brinca de boneca.

b. Criançai diz que *elai/ji brinca de boneca.

Em (22), mesmo quando o pronome anafórico possui um referente diferente, sua realização é bloqueada por efeito-D, i.e., os requerimentos de um D ativo (um artigo, por exemplo, mesmo indefinido) na estrutura de DP. Mesmo quantificadores não são autorizados para satisfazer tais requerimentos, já que não apresentam nenhum efeito de definitude:

(23) Toda/qualquer criançai diz que ela*i/ji brinca de boneca

Observem que a natureza de gênero, isto é, se é natural ou arbitrário, não apresenta relevância em suas relações sintáticas, como defende Duek (2014DUEK, Karen. 2014. Bare singulars and gender agreement in Brazilian Portuguese. In: BELTRAMA, Andrea (Ed.). Proceedings from the 48th Annual Meeting of the Chicago Linguistic Society. Chicago: Chicago Linguistic Society: 205-219.), já que os exemplos de (24) abaixo não apresentam distinção quanto a natureza deste traço para seu papel na computação. Mas, antes, gênero como uma categoria gramatical parece impor restrições em sua computação.

(24) a. Crianças é divertido/*divertida.

a’. Crianças são divertidas

b. Cervejas é bom/*boa

b’. *Cervejas são boas

c. Mulher é chato/*chata

d. Maria bêbada é chato/chata.

Em (24), a natureza do gênero do nome aparentemente interfere nos padrões de concordância. Em (24a), o plural nu animado crianças não suporta um adjetivo feminino como seu predicado, a não ser que este apresente também flexão de número17 17 A razão de o plural autorizar (24a,b) tem a ver com a combinação de traços φ da estrutura predicativa e será discutida na seção 5. . Entretanto, o sujeito de (24b) é um plural nu inanimado e comporta-se da mesma forma que (24a) e (24c), com um sujeito humano, mas não aceita predicado flexionado para número. (24d), por sua vez, apresenta um nome próprio na posição sujeito (Maria) que engatilha concordância interna ao NP e varia quanto ao engatilhamento de concordância externa. A resposta para esse aparente problema reside no fato de que nomes próprios são, na verdade, determinados semântica e pragmaticamente, e, nesses casos, a aplicação das regras de concordância em (24d) faz com que a sentença tenha uma leitura mais específica do que sem a aplicação da regra.

5. Concordância relativizada de gênero

Os padrões propostos até aqui mostram que a distribuição do traço de gênero apresenta especificidades que uma análise tradicional não satisfaz. O licenciamento de concordância crucialmente depende da estrutura sintática (cf.: Chomsky 1995CHOMSKY, Noam. 1995. The Minimalist Program. Cambridge: MIT Press., 2001CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52., Rezac 2003REZAC, Milan. 2003. The fine structure of cyclic Agree. Syntax 6: 156-182., Baker 2008BAKER, Mark C. 2008. The syntax of agreement and concord. Cambridge: Cambridge University Press.). A concordância de gênero, portanto, apenas pode ser explicada se a estrutura do DP for determinada primeiro. Para tentar explicar os padrões de gênero delineados até aqui, precisamos adotar uma estrutura para o DP do português brasileiro compatível com a complexidade do comportamento morfossintático de gênero nesta língua. Assumirei, portanto, a estrutura do DP proposta por Carvalho (2008CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas., 2011CARVALHO, Danniel da Silva. 2011. Sincretismo, subespecificação de traços e a sintaxe de gênero em uma comunidade do português afro-brasileiro: um estudo de caso. Papia (Brasília) 21, n. 1: 83-97., 2016bCARVALHO, Danniel da Silva. 2016b. Concordância fracassada é, na verdade, relativização de traços. In PILATI, Eloisa N. S. (Org.). Temas em teoria gerativa: homenagem a Lucia Lobato. Curitiba, PR: Blanche: 103-129., 2017CARVALHO, Danniel da Silva. 2017. Uma proposta de estrutura interna para os pronomes pessoais no português brasileiro. Signótica, Goiânia, 29, n. 2: 455-481, jul./dez.), que leva em conta sua composição de traços.

Carvalho (2016bCARVALHO, Danniel da Silva. 2016b. Concordância fracassada é, na verdade, relativização de traços. In PILATI, Eloisa N. S. (Org.). Temas em teoria gerativa: homenagem a Lucia Lobato. Curitiba, PR: Blanche: 103-129.) propõe que uma concordância relativizada, isto é, a possibilidade de concordância entre pares sonda-alvo sem correspondência total de traços, é o que permite a diversidade de padrões de outputs no português. Assim, para categoria gênero, nomes entrariam na sintaxe apenas com [class], sendo D o locus da especificação desse nó. Essa proposta tem respaldo interlinguisticamente. No inglês, por exemplo, isso pode ser verificado pela ausência de qualquer marca de gênero em seus nominais, o que não impede a recuperação deste traço quando o nominal é substituído por um pronome especificado para gênero (cf.: (25)-(26)).


Essa constatação tem suporte na proposta de Déchaine e Wiltschko (2002DÉCHAINE, Rose-Marie; WITSCHKO, Martina. 2002. Decomposing Pronouns. Linguistic Inquiry 33, n. 3: 409-442.) que assumem que os pronomes em (25)-(26) são categorias com diferentes sintaxes. Em (25), o pronome objeto se comporta como um pro-φP, enquanto em (26), she se comporta com um pro-DP. A relevância de uma divisão em camadas (ou traços, em nossa análise) se dá pelo fato de tais pronomes terem sintaxes diferentes e poderem se comportar ora como Ds, ora como elementos dependentes (φs), o que pode ser verificado nos testes abaixo:

(27) The boat is old, but I can’t sell herφP/*the herNP/*her boatDP

(28) She/*She boatDP/*The sheNP is old.

A ausência de um traço D nos nominais em inglês impossibilita qualquer retomada de possíveis traços de concordância dos nomes, como o fazem as anáforas pronominais. A mesma restrição é encontrada no português. Dos exemplos acima, também é possível concluir que a presença de D, na forma de um determinante ou de um pronome pessoal (que carrega traços de determinantes) licencia a concordância.


A leitura genérica de (29)-(30) impossibilita a retomada por uma anáfora, uma vez que seus traços não podem ser copiados. Essa leitura se dá pela ausência de qualquer marca de definitude nos referentes (cf.: (20)).

Assim, proponho que o traço D é responsável pelo engatilhamento da concordância φ no DP, isto é, é D quem carrega os traços φ interpretáveis do DP. Conclusões semelhantes são apresentadas na literatura linguística (cf.: Kucerová 2014KUCEROVÁ, Ivona. On two sources of φ-feature valuation and the consequences for syntactic computation: A case study from the Italian nominal inflection. LingBuzz, Sep. 7, 2014. Disponível em: <http://ling.auf.net/lingbuzz/002238>
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, Ritter 1993RITTER, Elizabeth. 1993. Where’s gender? Linguistic Inquiry 24, n.4: 795-803., entre outros). Kucerová (2014), por exemplo, em uma análise independente, chega a conclusões semelhantes ao observar o comportamento da marcação de gênero em dialetos do italiano. Adotando a ideia de Feature Inheritance (Chomsky 2008CHOMSKY, Noam. 2008. On Phases. In: FREIDIN, Robert; OTERO, Carlos P.; ZUBIZARRETA, Maria Luisa (Eds.). Foundational Issues in Linguistic Theory. Cambridge, MA: MIT Press: 133-166.), a autora assume que D é quem introduz φ na derivação. Já Ritter (1993RITTER, Elizabeth. 1993. Where’s gender? Linguistic Inquiry 24, n.4: 795-803.: 795) propõe que gênero é uma instância de variação e é gerado em Num - uma categoria funcional dissociada de N, podendo ser anexado a N através de movimento de núcleo. A essência de ambas as propostas é a mesma: gênero gramatical não é um primitivo dos nomes, mas sim um objeto de ordem funcional.

Isso leva-me a propor que N não possui traços φ valorados. Da mesma forma que número, gênero pode ou não ser marcado no predicado, dependendo da presença de um D especificado. Proponho, portanto, que gênero e número possuem o mesmo comportamento. Dessa forma, o comportamento sintático de ambos os traços é idêntico. Adotando uma geometria de traços, a relação subconjunto/superconjunto (acarretamento nos termos de Carvalho (2008CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas.))18 18 Carvalho (2008) define acarretamento como em (i): (i) Acarretamento: dados dois elementos A e B respectivamente numa ordem hierárquica, a presença de B requer a presença do outro elemento A. seria responsável pela valoração dos traços. O licenciamento de D é feito através da valoração do nó dominante disponível, [π]. Assim, não há leitura, pelo sistema articulatório-perceptual, de traços que não estejam ativos, não havendo leitura específica/definida pelo sistema conceitual-intencional nos exemplos em (20) e (24), por exemplo. A impossibilidade de valoração deste traço é o que acarreta a aparente concordância fracassada (Wechsler 2013WECHSLER, Stephen. 2013. The structure of Swedish Pancakes. In: HOFMEISTER, Philip; NORCLIFFE, Elisabeth (Eds.). The Core and the Periphery: Data-Driven Perspectives on Syntax Inspired by Ivan A. Sag. Stanford: CSLI Publications: 71-98.), o que não impede Agree de ser bem-sucedido. Isso se dá pelo fato de haver um nó responsável pela representação de qualquer elemento referencial independentemente. Esse nó é chamado de [π] por Carvalho (2008)CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas. e domina os demais traços φ. A geometria de traços em (31) é adaptada de Carvalho (2008)CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas. para as expressões referenciais no português brasileiro. Aqui, sugerimos a presença dos traços [animate] e [human] como traços distintivos no processo interpretativo dos nomes nesta língua.19 19 Opto por manter os rótulos dos traços da geometria de Harley e Ritter (2002) na língua do texto original, mesmo aqueles propostos por nós. Não discutiremos aqui, por conta do espaço e do escopo do trabalho, a relevância dos traços [def] e [spcf] na sintaxe do português. Para uma discussão sobre a relevância sintática destes traços, cf.: Cerqueira (2015). A relação entre estes traços obedece acarretamento (cf.: nota de rodapé 18).


Essa generalização é capturada a partir da própria motivação de Agree. De acordo com Chomsky (2001CHOMSKY, Noam. 2001. Derivation by Phase. In: KENSTOWICZ, Michael. (ed.) Ken Hale: A Life in Language. Cambridge: MIT Press: 1-52.:5), Agree seria o mecanismo computacional para lidar com traços não interpretáveis (não valorados):

[i]nterpretability of features is determined in the lexicon [...]. The natural principle is that uninterpretable features, and only these, enter the derivation without values, and are distinguished from interpretable features by virtue of this property. Their values are determined by Agree, at which point the features must be deleted from the narrow syntax [...] but left available for the phonology (since they have phonetic effects).

Assumo, portanto, que a subespecificação de [φ] é responsável pela concordância relativizada. [Φ] é o nó raiz para a concordância φ. Sua total subespecificação gera estruturas maximamente subespecificadas, i.e., que podem ocorrer em qualquer posição sintática, seja ela A ou Ā. Os traços da notação em (31) que são relevantes para nossa discussão são descritos abaixo em (32):20 20 Os demais traços presentes em (31) tem a seguinte leitura: (i) [prtc]: o traço [participant] caracteriza os participantes do processo discursivo (1ª e 2ª pessoas). A ausência deste traço e, consequentemente, dos traços por ele dominados, caracteriza a 3ª pessoa, nos termos de Benveniste (1966), a não pessoa. (ii) [spkr]: a presença do traço [speaker] imediatamente dominado pelo traço [participant] define o pronome como sendo o falante no processo discursivo (1ª pessoa). (iii) [addr]: [addressee] caracteriza o ouvinte no processo discursivo. (iv) [#]: a presença deste traço determina a quantificação do nominal. [#] sozinho caracteriza uma leitura singular do nominal. (v) [group]: a presença do traço [group] é determinada pela presença de [indv[#]] e exige uma leitura plural, i.e. a leitura de mais de um elemento.

(32) a. [π]: representa a categoria pessoa. A presença deste traço corresponde ao requerimento de pessoa como categoria dominante em uma hierarquia para φ (cf.: Noyer 1992NOYER, Robert Rolf. 1992. Features, positions and affixes in autonomous morphological structure. 321f. Tese (Doutorado em Linguística) - MIT, Massachusetts.).

b. [D]: A presença deste traço identifica o nominal como sendo um argumento, como defendem alguns autores. Este traço também domina a projeção que compreende traços como [definite] e [specific].

c. [specf]: denota um indivíduo particular (ou grupo de indivíduos).

Um DP que apresenta o traço [specific] é interpretado como “um indivíduo que é conhecido pelo falante”.

d. [def]: o traço [definite] define quando um DP se refere a algo presente no universo discursivo.

e. [indv]: representa a distribuição de entidades no mundo de acordo com suas propriedades discursivas independentes, tais como classe e quantificação.

f. [class]: esse nó codifica gênero e outras informações de classe.

Não é determinante nas relações de concordância. Sua presença indica que há traços morfossemânticos de classe na língua.

g. [fem]: este traço determina a especificidade de classe relevante para concordância no português e é o único traço de classe legível nessa língua.21 21 Na notação de Harley e Ritter (2002), outros traços são dominados pelo nó [class]. Entretanto, esses traços não são relevantes para a sintaxe dos nomes em português brasileiro, como apontado por Carvalho (2008, 2011). Mesmo o traço [fem] parece não ser relevante para a sintaxe se adotarmos uma teoria cuja concordância só é licenciada para fins de merge (interno ou não), o que não parece ser o caso de gênero. Nas construções que envolvem concordância de gênero no português, tais estruturas parecem ter fins apenas morfofonológicos, autorizando ou não a presença de morfemas de gênero no sistema articulatório-perceptual. Entretanto, ele funciona mais como um valor de traço do que um traço propriamente dito nos termos da teoria chomskyana, e sua combinação com os traços dominados por [class] determina a interpretação de gênero na língua.

h. [anim]: este traço codifica informação de animacidade no elemento referencial. Sua ausência condiciona uma leitura inanimada na língua. Sua combinação com presença/ausência de [feminine] determina a leitura de gênero de um nome.

i. [hum]: este traço codifica informação mais específica dos seres animados, diferenciando-os do animados não humanos. Está condicionado à presença de [animate].

Assim, a combinação dos traços apresentados no inventário acima determina a leitura da expressão referencial em uma dada língua. Uma vez que nossa preocupação no presente artigo é discutir o comportamento morfossintático de gênero, descreveremos em (33) abaixo os possíveis outputs gerados a partir da combinação dos diferentes traços dominados por [class]. Ressaltamos que os traços [animate] e [human] são interpretáveis apenas no sistema conceitual-intencional, não possuindo, no português, interpretabilidade no sistema articulatório-perceptual, como [feminine]. Portanto, mesmo presente na constituição de traços do nome, sua relevância se dá apenas na interface sintático-semântica.


Dessa forma, dados como os apresentados abaixo em (34) têm como estrutura de traços dos pares sonda-alvo as apresentadas nos quadros abaixo, inspirados nos arranjos em (33). Estes dados representam os padrões de realização de gênero nos dados: masculino inanimado (34a), masculino animado (34b), masculino humano (34c), feminino inanimado (34d), feminino animado (34e), feminino humano (34f).

(34) a. o carro

b. o cachorro

c. o homem

d. a mesa

e. a vaca

f. a mulher

Quadro 1
Agree de gênero com pares sonda-alvo (34a)

Quadro 2
Agree de gênero com pares sonda-alvo (34b)

Quadro 3
Agree de gênero com pares sonda-alvo (34c)

Quadro 4
Agree de gênero com pares sonda-alvo (34d)

Quadro 5
Agree de gênero com pares sonda-alvo (34e)

Quadro 6
Agree de gênero com pares sonda-alvo (34f)

Com esta notação em mãos e a partir da ideia de concordância relativizada adotada em Carvalho (2016bCARVALHO, Danniel da Silva. 2016b. Concordância fracassada é, na verdade, relativização de traços. In PILATI, Eloisa N. S. (Org.). Temas em teoria gerativa: homenagem a Lucia Lobato. Curitiba, PR: Blanche: 103-129.) e brevemente delineada no início desta seção, é possível propor (35) como um modelo de análise para [class] e sua valoração.


A partir desse modelo, a possibilidade da marcação de plural sem leitura específica em (24a,b), por exemplo, deve-se à ausência do nó D em D0. Uma vez que esse núcleo possui apenas o nó raiz responsável pelo licenciamento do DP sujeito, D0 ativaria o traço de número em seu #0 através da relação subconjunto/ superconjunto com a sonda. Entretanto, alguma luz ainda precisa ser lançada sobre como a sintaxe lida com a relação e o licenciamento de número e gênero nessas estruturas. A ausência de D é também responsável pela impossibilidade de engatilhamento da concordância de gênero fora do DP, uma vez que este traço está localizado em D.

6. Considerações finais

Neste artigo, a categoria gênero é apresentada como um traço gramatical. A primeira seção apresentou o comportamento morfológico de gênero no português. A seção seguinte lidou com a natureza natural/biológica ou arbitrária de gênero e como essa categoria pode ser concebido através da literatura linguística. Foram mostradas com ênfase as dificuldades empíricas que precisam ser consideradas ao acessarmos a natureza de gênero como uma categoria na gramática. A terceira seção discutiu a manifestação morfossintática de gênero como um traço (complexo), enfatizando as dificuldades em defini-lo como um traço tradicional/primitivo. Assumiu-se aqui que a complexidade de tal traço é devida a sua funcionalidade interna, e que isso não é motivado por questões puramente morfofonológicas. Finalmente, dediquei-me nas duas últimas seções a observar como o comportamento do traço de gênero propriamente dito está relacionado estreitamente com a sintaxe de uma língua como o português brasileiro. Foram apresentadas evidências a partir da sintaxe dos nomes nus nesta língua, cuja concordância mostra-se correlacionada com simples regras de atribuição de gênero. Propus, então, uma análise do traço de gênero simplificada.

Esta análise também reconsidera o locus de gênero, que assumo ser em D0, juntamente com número e pessoa. O nome entra na derivação carregando apenas o nó [class], permitindo uma leitura genérica na ausência de marcação de traços φ. A interação entre número e gênero nas relações de concordância é explicada através de operações internas dos traços dentro do DP.

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  • 1
    “[A] time-honored subject of linguistics” no original.

  • 2
    Para uma discussão das consequências desta definição de gênero, ver Carvalho (2016a)CARVALHO, Danniel da Silva. 2016a. Remarks on the complexity of gender. Cadernos de Squibs 2, n. 1: 10-19.. Para uma discussão sobre gênero estabelecer uma perspectivização do nome, ver Carvalho, Brito e Farias (2017)CARVALHO, Danniel da Silva.; BRITO, Dorothy Bezerra Silva de; FARIAS, Jair Gomes de. 2017. Individuação, aspecto nominal e a função de gênero nas línguas naturais. Ms. Universidade Federal da Bahia..

  • 3
    Os exemplos do russo em (2) e (3) foram retirados de Corbett (1991CORBETT, Greville G. 1991. Gender. Cambridge: Cambridge University Press.:34-35)

  • 4
    Agradeço a um parecerista anônimo por indicar que essa pode ser uma generalização sincrônica, visto que tais padrões são identificáveis pelo falante e aplicados em palavras novas.

  • 5
    Assumo com Câmara Jr. (1970CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. 1970. Estrutura da língua portuguesa. 3 ed. Petrópolis: Vozes., 1972CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. 1972. Dispersos. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.) que a forma não marcada corresponde ao masculino no português.

  • 6
    Para uma discussão sobre a distinção entre concord e agreement, ver Bloomfield (1933)BLOOMFIЕLD, Leonard. 1933. Lаnguаge. New York: Holt, Rinеhart and Winston., Greenberg (1978)GREENBERG, Joseph H. 1978. How doеs a language aсquirе gеnder markеrs? In: GRЕЕNBЕRG, Joseph H.; FЕRGUSON, Charlеs A.; MOГАVСSIK, Еdith A. (Eds.). Univеrsаls of Humаn Languages: III: Word Struсturе. Stanford: Stanfоrd Univеrsity Prеss: 47-82. e, mais recentemente, Carstens (2000)CARSTENS, Vicki. 2000. Concord in Minimalist Theory. Linguistic Inquiry 31: 319-355. e referências lá contidas.

  • 7
    Os dados foram extraídos de Lucchesi (2000)LUCCHESI, Dante. 2000. A variação na concordância de gênero em uma comunidade de fala afro-brasileira: novos elementos sobre a formação do português popular do Brasil. 364f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.. Para mais detalhes sobre os padrões de gênero nessa variedade do português brasileiro, ver Carvalho (2011)CARVALHO, Danniel da Silva. 2011. Sincretismo, subespecificação de traços e a sintaxe de gênero em uma comunidade do português afro-brasileiro: um estudo de caso. Papia (Brasília) 21, n. 1: 83-97..

  • 8
    Versões desta seção foram publicadas em Carvalho (2013CARVALHO, Danniel da Silva. 2013. Algumas considerações sobre a morfossintaxe de gênero. Estudos Linguísticos e Literários 47: 30-46., 2016aCARVALHO, Danniel da Silva. 2016a. Remarks on the complexity of gender. Cadernos de Squibs 2, n. 1: 10-19.). Retomo essa discussão aqui, com algumas alterações, por considerá-la ao mesmo tempo uma revisão robusta e concisa de gênero como traço gramatical e por ser essencial como base para a análise proposta nas seções seguintes.

  • 9
    Hellinger e Buβmann (2001)HELLINGER, Marlis; BUßMANN, Hadumod. (eds.). 2001. Gender Across Languages: The Linguistic Representation of Women and Men. 3 vols. Amsterdam: John Benjamins. apontam pouco mais de 20.

  • 10
    A expressão línguas de gênero também é usada para classificar tais línguas (cf.: Corbett 2013CORBETT, Greville G. 2013. Number of Genders. In: DRYER, Matthew S.; HASPELMATH, Martin (Eds.). The World Atlas of Language Structures Online. Leipzig: Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology. (Disponível online em Disponível online em http://wals.info/chapter/30 , Accessed on 2015-04-04.)
    http://wals.info/chapter/30...
    , Kramer 2015KRAMER, Ruth. 2015. The Morphosyntax of Gender. Oxford: Oxford University Press.).

  • 11
    É necessário estabelecer algumas definições para o entendimento das relações de concordância acima. Corbett (2006CORBETT, Greville G. 2006. Agreement. Cambridge: Cambridge University Press.:4) propõe que concordância envolve a seguinte condição: [w]e call the element which determines the agreement (say the subject noun phrase) the controller. The element whose form is determined by agreement is the target. The syntactic environment in which agreement occurs (the clause for instance) is the domain of agreement. And when we indicate in what respect there is agreement, we are referring to agreement features.

  • 12
    Para uma discussão sobre sistemas de gênero que não se comportam como o italiano e o português, o caso do romeno, ver Carvalho (2013CARVALHO, Danniel da Silva. 2013. Algumas considerações sobre a morfossintaxe de gênero. Estudos Linguísticos e Literários 47: 30-46., 2016aCARVALHO, Danniel da Silva. 2016a. Remarks on the complexity of gender. Cadernos de Squibs 2, n. 1: 10-19.).

  • 13
    Corbett (1991CORBETT, Greville G. 1991. Gender. Cambridge: Cambridge University Press.:113) oferece exemplos de alvos menos usuais, como adposições e complementizadores.

  • 14
    Kramer (2016)KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677. reforça a ideia de que uma proposta de decomposição lexical, apesar de amplamente divulgada pela Morfologia Distribuída, não é exclusividade desse modelo teórico.

  • 15
    O exemplo de Kramer (2016)KRAMER, Ruth. 2016. The location of gender in the syntax. Language and Linguistics Compass 10, n.11: 661-677. é do espanhol, mas analisamos aqui como seu homônimo no português, o que não interfere no que queremos ilustrar.

  • 16
    Como apontou um parecerista anônimo, mesmo com o pronome demonstrativo isso, supostamente forma do neutro no português, como estratégia de retomada anafórica do nome nu referente, o dado em (i) causa, no mínimo, estranhamento: (i) ??Cerveja é bom, mas num tô podendo beber isso.

  • 17
    A razão de o plural autorizar (24a,b) tem a ver com a combinação de traços φ da estrutura predicativa e será discutida na seção 5.

  • 18
    Carvalho (2008)CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas. define acarretamento como em (i): (i) Acarretamento: dados dois elementos A e B respectivamente numa ordem hierárquica, a presença de B requer a presença do outro elemento A.

  • 19
    Opto por manter os rótulos dos traços da geometria de Harley e Ritter (2002)HARLEY, Heidi; RITTER, Elizabeth. 2002. Person and number in pronouns: a feature-geometric analysis. Language 78: 482-526. na língua do texto original, mesmo aqueles propostos por nós. Não discutiremos aqui, por conta do espaço e do escopo do trabalho, a relevância dos traços [def] e [spcf] na sintaxe do português. Para uma discussão sobre a relevância sintática destes traços, cf.: Cerqueira (2015)CERQUEIRA, Fernanda de Oliveira. 2015. A sintaxe do pronome acusativo de terceira pessoa no português brasileiro. Dissertação (Mestrado em Língua e Cultura), Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador..

  • 20
    Os demais traços presentes em (31) tem a seguinte leitura: (i) [prtc]: o traço [participant] caracteriza os participantes do processo discursivo (1ª e 2ª pessoas). A ausência deste traço e, consequentemente, dos traços por ele dominados, caracteriza a 3ª pessoa, nos termos de Benveniste (1966)BENVENISTE, Émile. 1966. La nature des pronoms. In: BENVENISTE, É. Problèmes de linguistique générale. Paris: Gallimard: 251-257., a não pessoa. (ii) [spkr]: a presença do traço [speaker] imediatamente dominado pelo traço [participant] define o pronome como sendo o falante no processo discursivo (1ª pessoa). (iii) [addr]: [addressee] caracteriza o ouvinte no processo discursivo. (iv) [#]: a presença deste traço determina a quantificação do nominal. [#] sozinho caracteriza uma leitura singular do nominal. (v) [group]: a presença do traço [group] é determinada pela presença de [indv[#]] e exige uma leitura plural, i.e. a leitura de mais de um elemento.

  • 21
    Na notação de Harley e Ritter (2002)HARLEY, Heidi; RITTER, Elizabeth. 2002. Person and number in pronouns: a feature-geometric analysis. Language 78: 482-526., outros traços são dominados pelo nó [class]. Entretanto, esses traços não são relevantes para a sintaxe dos nomes em português brasileiro, como apontado por Carvalho (2008CARVALHO, Danniel da Silva. 2008. A estrutura interna dos pronomes pessoais em português brasileiro. 158f. Tese (Doutorado em Linguística) - Universidade Federal de Alagoas., 2011CARVALHO, Danniel da Silva. 2011. Sincretismo, subespecificação de traços e a sintaxe de gênero em uma comunidade do português afro-brasileiro: um estudo de caso. Papia (Brasília) 21, n. 1: 83-97.). Mesmo o traço [fem] parece não ser relevante para a sintaxe se adotarmos uma teoria cuja concordância só é licenciada para fins de merge (interno ou não), o que não parece ser o caso de gênero. Nas construções que envolvem concordância de gênero no português, tais estruturas parecem ter fins apenas morfofonológicos, autorizando ou não a presença de morfemas de gênero no sistema articulatório-perceptual.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Apr-Jun 2018

Histórico

  • Recebido
    07 Dez 2016
  • Aceito
    07 Jul 2017
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