Open-access Dueto poético em Libras e português: co-construção para performance integrada

Duet poetry in Libras and Portuguese: co-construction of an integrated performance

Resumo

Nesta pesquisa perguntamos quais as possibilidades de escolhas de linguagem poética na produção de um dueto poético bilíngue-bimodal (Libras-português). Especificamente, sobre quantas informações (unidades de significado) podem ser expressas simultaneamente comparado com um poema produzido por uma pessoa ou um dueto em apenas uma língua em qualquer modalidade. Usamos os estudos literários das línguas de sinais (Sutton-Spence, 2005) e sobre a simultaneidade das línguas de sinais (Napoli & Sutton-Spence, 2010), para investigar a estruturação de um dueto poético de Leo Castilho e André Rosa. Desenvolvemos uma pesquisa qualitativa, caracterizada como estudo de caso, tendo como intuito descrever as características desse dueto. Utilizamos a metodologia de pesquisa em literatura close reading (Dubois, 2003; Durão, 2020), o processo foi registrado em diário de pesquisa e os enunciados foram transcritos no software Elan (Eudico Linguistic Annotator). Discutimos, então, a integração dos poetas na performance e os momentos de expressão individual que se complementam. Evidenciamos as possibilidades linguísticas e estéticas que surgem pelo fato de o fenômeno criativo ser um dueto.

Palavras-chave:
Literatura em língua de sinais ; duetos em Libras ; duetos bilíngues-bimodais ; simultaneidade em língua de sinais

Abstract

This study investigates the linguistic possibilities for creating a poetic duet performed in Libras and Portuguese as well as how the signed and spoken elements produced by the two artists interact to create poetic effects. To that end, we ask how much information (i.e., how many units of meaning) can be expressed simultaneously in a Libras-Portuguese poetic duet compared to a poem produced by one person or a duet produced in just one language. We build on existing studies of sign language literature (Sutton-Spence, 2005) and simultaneity in sign languages (Napoli & Sutton-Spence, 2010) to investigate the structure of a bilingual-bimodal poetic duet (Libras-Portuguese) by Leo Castilho and André Rosa. Having transcribed our data using the Elan annotation software, we used close reading (Dubois, 2003; Durão, 2020) to describe the duet’s characteristics and recorded the process in a research diary. Thus, we describe the way the poets work together in their performance and the moments of individual expression that complement each other. Our analysis highlights the linguistic and aesthetic possibilities for the poem that arise from the fact that the creative phenomenon is a duet.

Keywords:
Sign language literature ; duets in Libras ; bilingual-bimodal duets ; simultaneity in sign language

1. Introdução

A produção artística e literária das comunidades surdas é abrangente. A característica viso-espacial, comum às línguas de sinais e, consequentemente, sua literatura em sinais atribuem a ela especificidades não vistas nas produções em línguas vocais-auditivas. Sutton-Spence e Machado (2018) discutem o quanto a língua de sinais criativa é multifuncional e multidimensional. Assim, o que já foi estudado dos gêneros literários baseados na literatura escrita pode não se adequar às particularidades das obras corporificadas em línguas de sinais, o que requer grande engajamento dos pesquisadores para a descrição dessa literatura.

A poesia em línguas de sinais tem destaque nos estudos linguísticos e estudos surdos (Wilcox, 2000). Contudo, há novas formas e criações literárias que desconstroem os padrões e desafiam os estudiosos da linguagem a desvendar suas nuances, como os poemas criados e apresentados em duplas, chamados de duetos poéticos.

Um dueto é “uma performance artística de duas pessoas que coordenam suas ações para produzir uma obra notavelmente diferente daquela realizada por uma pessoa” (Sutton-Spence & Pedroni, 2023, p. 3201). Em duetos há a criação/composição de poesia para dois executantes em qualquer língua. Particularmente, neste trabalho, analisamos um dueto utilizando-se de duas línguas de modalidades diferentes (a Libras e o português), de Leo Castilho e André Rosa. A performance integra elementos corpóreo-faciais e vocais-auditivos2. Diante deste contexto de expressão da linguagem, construímos algumas questões de pesquisa. Quando a performance é bilíngue e bimodal, quais composições são estabelecidas entre os dois artistas? Como estabelecem a cooperação para a construção do enunciado poético? Quais papéis assumem nas diferentes línguas envolvidas? Quantas informações podem ser produzidas simultaneamente?

Na seção 1, introduzimos questionamentos e reflexões sobre a pesquisa. Na seção 2, indicaremos como os estudos já têm descrito as produções de informações linguísticas simultâneas. Na seção 3, é feita uma revisão sobre duetos poéticos em línguas de sinais. Na seção 4, passamos, então, à descrição sobre as múltiplas informações produzidas em duetos em Libras. Na seção 5, será abordado o percurso metodológico da pesquisa. Na seção 6, há uma descrição detalhada da performance de Leo Castilho e André Rosa. Na seção 7, finalizamos o artigo com os principais achados dessa obra singular, contribuindo na compreensão de novos elementos para a composição de poemas em dueto.

2. Informações múltiplas produzidas por uma pessoa

Antes de investigarmos quantos e quais elementos com significado podem ser feitos durante uma performance por duas pessoas, devemos considerar quais as possibilidades para a produção de informações múltiplas quando uma única pessoa sinaliza, fala ou sinaliza e fala simultaneamente. Nossa pesquisa aborda as performances de duetos bilíngues bimodais.

As línguas de sinais usadas nas comunidades surdas ao redor do mundo são línguas humanas naturais que não são sonoras, mas visuais-espaciais-cinéticas, produzidas por “ação corporal visível” (Kendon, 2017) principalmente acima da cintura e percebidas visualmente. Um sinalizante pode usar as duas mãos, os braços, o tronco, o pescoço e a cabeça, o rosto inteiro e partes do rosto (sobrancelhas, olhos, nariz, bochechas e boca). Isso permite que um só sinalizante produza enunciados simultâneos. É possível apresentar entidades particionadas, por exemplo as mãos do sinalizante representam as mãos de uma pessoa enquanto o corpo representa o corpo de outra pessoa (por exemplo: a mão dando uma tapa na cara - entendemos que uma pessoa não tapeia a sua própria cara). Assim, a incorporação de duas personagens está integrada em um só sinalizante, criando uma mega-sobreposição (Dudis, 2004).

O uso de estruturas linguísticas simultâneas produzidas por uma pessoa já foi amplamente pesquisada em todos os níveis linguísticos, desde sua fonologia até o discurso (Friedman, 1975, Miller, 1994 e a coleção organizada por Vermeerbergen et al., 2007). Uma pessoa expressar duas proposições simultaneamente é comum em muitas línguas de sinais, seja uma produzida manualmente e outra não manualmente, ou duas proposições manuais articuladas, uma em cada mão. Podem ser produzidos dois sinais lexicais (um em cada mão) ou dois classificadores que mostram a posição relativa, o movimento e a interação de dois referentes (por exemplo, uma das mãos produz o classificador para uma árvore e a outra um classificador para um gato que sobe na árvore).

A linguagem mais criativa nas línguas de sinais permite produzir até três proposições, falando de três sujeitos simultaneamente. No poema Three Queens de Paul Scott (em BSL3, Figura 1a), as duas mãos mostram duas rainhas olhando para uma bandeira (previamente estabelecida). A cabeça e o corpo do poeta incorporam a terceira rainha. No poema Trio de Dorothy Miles (em BSL, Figura 1b), a poetisa, seu cachorro e um pássaro cochilam simultaneamente, usando a mesma técnica de uma mão sinalizando um classificador representando a cabeça do cachorro e a outra a cabeça do pássaro, enquanto a poetisa incorpora o humano.

Figura 1
Três proposições simultâneas em “Three Queens” e “Trio”

Em contraste, como as línguas faladas são produzidas por um único sistema articulatório, podemos supor que só é possível expressar um enunciado por vez. No entanto, embora não possamos articular duas palavras faladas simultaneamente, a fala muitas vezes é acompanhada por gestos e Nobe (2000) constatou que 90% dos enunciados falados tinham algum gesto de acompanhamento. McNeill (2000) observa que muitos gestos que acompanham a fala são coexpressivos - isto é, que a informação no gesto se sobrepõe à informação no enunciado falado (por exemplo, dizer "dispersar" enquanto gesticula espalhando algo com os dedos). No entanto, os gestos e a fala também podem fornecer informações proposicionais simultâneas, mas diferentes, especialmente quando o gesto é um emblema com um significado convencionalizado (como polegar para cima significando bom). Assim, podemos ver que os falantes podem facilmente expressar dois enunciados simultaneamente - e isso é frequente.

Napoli & Sutton-Spence (2010) comparam o número máximo de sujeitos ou proposições simultâneas que podem ser produzidas por uma única pessoa na língua de sinais e na língua falada. As autoras concluíram que o limite de sujeitos ou proposições simultâneas em uma língua de sinais é quatro, e que esse limite ocorre principalmente nos gêneros mais criativos, sugerindo que a restrição não é motivada pela produção, mas principalmente devido aos limites da memória visual de curto prazo. Por outro lado, o limite para uma língua falada é provavelmente três proposições com significado simultâneos, se o falante explorar gestos não-verbais (e possivelmente quatro, se usar os suprasegmentais, como o sarcasmo). Napoli e Sutton-Spence (2010) exemplificam com o emblema do “polegar para cima” enquanto os olhos olham para o lado e a boca diz: “Não posso dizer o resultado da sua prova até amanhã”. A mensagem geral é que o destinatário foi aprovado na prova, mas o falante não pode dizer isso abertamente porque há alguém relevante que pode ouvi-lo.

Proposições simultâneas em contexto bilíngue e bimodal

Tanto nas línguas faladas quanto nas línguas de sinais, as proposições simultâneas são conectadas semanticamente e pragmaticamente e muitas vezes sintaticamente. Isso produz um evento simultâneo coerente e compreensível. Estas expressões bimodais podem ser feitas simultaneamente sem que a mensagem de um canal interfira na mensagem do outro. Vimos que os falantes podem gesticular enquanto falam. Os sinalizantes podem usar a boca para produzir informações linguísticas significativas que são separadas - mas relacionadas - das informações linguísticas articuladas nas mãos, e não interferem na produção gramatical de uma língua sinalizada5. Podemos vê-los como elocuções bilíngues bimodais.

A articulação-boca (mouthings) tem suas origens nos movimentos de boca produzidos quando uma palavra é falada. É fisicamente possível produzir uma articulação-boca simultaneamente com um sinal manual, sem que um interfira na articulação do outro, mas se complementam para a construção do sentido. Sutton-Spence e Day (2001) descobriram que as articulações-bocas acompanham mais de dois terços (69%) de todos os sinais transcritos na pesquisa. A maioria foi derivada do equivalente ao sinal manual que acompanhava. Por exemplo, o sinal manual ESPERA ocorria com a fala “espera” e MENINO com “menino”. Porém, em 15% dos sinais com articulação-boca o sinal e a articulação-boca não corresponderam - o que Sutton-Spence (2007) chamou de mismatch (incongruência).

O tipo mais comum de incongruência foi a continuação de uma articulação-boca sobre um ou mais sinais produzidos sequencialmente, sobre um sinal indexical, por exemplo MAN (homem, em português) com o mouthing “man” que continua enquanto o sinalizante aponta para o local do homem no espaço.

Os bilíngues bimodais, pessoas bilíngues que usam duas línguas de modalidades diferentes, uma falada e uma sinalizada, misturam-nas de uma forma muito peculiar, um fenômeno conhecido como code-blending, ou sobreposição de línguas. A sobreposição é um fenômeno natural que ocorre em contextos bimodais e é possível justamente pelo fato de as duas línguas acessarem canais que permitem e favorecem a produção simultânea, refletindo tanto a gramática da língua de sinais quanto da língua falada, mantendo as nuances prosódicas das duas línguas (Quadros et al., 2020).

A sobreposição pode ser completa, quando para cada item lexical há uma tradução equivalente sobreposta na outra língua ou parcial, quando uma das línguas produz todos os itens lexicais e a outra língua sobrepõe alguns deles.

Esta breve revisão mostrou que uma pessoa, sozinha, tem muitas opções para produzir várias proposições simultaneamente, utilizando de falas, sinais, gestos e articulações-boca. Podemos agora perguntar: Se uma única pessoa pode fazer isso, o que duas pessoas podem produzir, coordenando sua produção poética e linguística? Vemos as mesmas coexpressões como nas pessoas sozinhas? O que pode ocorrer além disso ou de forma diferente em um dueto?

3. Duetos em Libras

O termo “dueto” normalmente refere-se a composições de duas pessoas em uma linguagem artística. Os duetos poéticos em Libras são apresentados por dois sinalizantes que, juntos, compõem e co-apresentam uma performance.

A primeira pesquisa que conhecemos sobre os estudos de duetos em Libras é de Pedroni (2021) . Dando continuidade, Sutton-Spence e Pedroni (2023) observaram que os duetos oferecem diferentes opções espaciais organizadas em planos diferentes: frente-trás, lado a lado ou acima-abaixo (Figura 2).

Figura 2
Diferentes planos espaciais em duetos

As pesquisadoras utilizaram quatro modos de acoplamento na dança definidos por Waterhouse et al. (2014), para categorizar a participação vista nos duetos de Libras: uníssono, em que os poetas movem-se juntos, utilizando movimentos idênticos ao mesmo tempo; complementares (ou em contraponto), em que os poetas se movem juntos, realizando diferentes movimentos ao mesmo tempo; troca de turnos, em que um poeta se move e o outro faz uma pausa, esperando para participar novamente; pausas, em que ambos os poetas estão em repouso em algum momento.

Nos duetos poéticos em Libras, o uníssono, no qual os sinalizadores executam o mesmo movimento ao mesmo tempo, é visto especialmente nos duetos lado a lado. O impacto de duas pessoas sinalizando a mesma coisa ao mesmo tempo é maior do que se uma pessoa sinalizando sozinha e contribui para a criação de simetria nos poemas quando os mesmos sinais são produzidos simultaneamente em ambos os lados do plano vertical. Os poetas podem realizar os mesmos sinais simultaneamente e independentemente ou movimentos idênticos com as mãos em contato.

O movimento complementar destaca o ritmo e a sincronização dos sinais nos duetos. Frequentemente, o tempo dos movimentos (o início, deslocamento e a velocidade) dos dois poetas é igual, mas os sinais diferem, portanto, a direção do movimento e a configuração da mão, orientação e localização dos sinais podem ser diferentes.

Na troca de turnos, muitas vezes, quando um poeta termina, ela segura o sinal final enquanto a outra sinaliza algo contrastante ou complementar, relacionado ao mesmo tema. O que os poetas dizem em cada turno pode ser completamente diferente; parecido, mas com algumas diferenças; ou uma repetição exata do que foi dito no turno anterior. Quando um poeta sinaliza e outro dá continuidade ao movimento, ocorre, então, a sucessão na produção do sinal, uma técnica denominada canon (Smith-Autard, 2000).

A partir desta compreensão das características gerais da interação entre dois sinalizantes em um dueto, vamos discutir a seguir quantas informações simultâneas podem ser produzidas nos duetos em Libras.

4. Informações múltiplas produzidas por duetos em Libras

Duetos em Libras são monolíngues e monomodais. Conforme relatamos, as pesquisas sobre as informações simultâneas produzidas por uma pessoa sinalizando. Também dissemos que, em duetos, os dois artistas têm a possibilidade de usar duas vezes mais articuladores do que um artista tem. Nos duetos frente-trás, geralmente um artista se esconde atrás do outro e vemos apenas os braços e as mãos do artista de trás. Então, os articuladores disponíveis são uma cabeça (e o rosto), um tronco, duas pernas e quatro braços e mãos.

Nos duetos lado a lado, como em As Brasileiras , de Anna Luiza Maciel e Klicia Campos quando os artistas se encostam (Figura 3a), temos duas cabeças (e assim, dois rostos), dois troncos, quatro pernas, mas apenas dois braços e duas mãos. Quando se afastam, como em e Lei de Libras , de Anna Luiza Maciel e Sara Theisen (Figura 3b), vemos o número máximo de articuladores: duas cabeças (e assim, dois rostos), dois troncos, quatro pernas e quatro braços e mãos. Isso também pode acontecer nos duetos acima-abaixo.

Figura 3
Duetos lado a lado

Perguntamos, então, quantas informações são produzidas simultaneamente nos duetos monolíngues. Uma análise dos 12 duetos no mesmo corpus de Sutton-Spence e Pedroni (2023) procurou ver quantas informações simultâneas ocorrem em duetos monolíngues e monomodais. Nos duetos frente-trás (em que um tronco e uma cabeça - com olhos e boca - e quatro mãos estão disponíveis como articuladores independentes), ocorrem quatro informações simultâneas. Por exemplo, num dueto Um passeio de moto (de Daniela de Carvalho Cruz e Paulo Sérgio da Silva Andrade)6, a artista da frente usa uma mão para sinalizar segurando o guidão, a outra mão para mostrar o velocímetro, enquanto o resto do corpo incorpora a motociclista focando na estrada. As duas mãos da pessoa de trás mostram a paisagem do lado esquerdo e direito. Podemos imaginar uma paisagem diferente nos dois lados, mas neste caso são iguais, então afirmamos que a pessoa atrás produz apenas uma informação.

Figura 4
Quatro informações simultâneas no dueto em Libras

É raro as duas mãos da pessoa de trás produzirem dois sinais diferentes. Isso ocorre no poema Crise da dívida de Yanna Bárbara de Souza Porcino e Maria José de Souza Porcino sobre as fases da vida até se chegar aos problemas da vida adulta. Neste dueto, as mãos da pessoa da frente ou não articulam ou produzem apenas um sinal. Em Figura 5, constatamos três informações: a pessoa de trás segura um bolo com a mão esquerda e com a mão direita tira uma foto, enquanto a da frente sopra as velas do bolo.

Figura 5
Três informações simultâneas no dueto em Libras

Em Figura 6, temos quatro informações: a pessoa da frente coloca as duas mãos na cabeça em uma ação única com expressão assustada, e a de trás mostra dois boletos em dois momentos diferentes.

Figura 6
Quatro informações simultâneas no dueto em Libras

Quando estão lado a lado, os artistas têm a opção de criar até oito informações simultâneas (quatro para cada um) mas, no corpus de Sutton-Spence e Pedroni (2023), não vimos essa ocorrência. As duas pessoas apresentam elementos não-manuais diferentes, mas os sinais seguem três principais padrões: 1) são iguais; 2) um sinal é feito por uma mão dos dois artistas; 3) um artista faz uma pausa mostrando um sinal sem movimento, enquanto o outro sinaliza.

O único exemplo de seis informações ocorreu no dueto As Brasileiras de Klícia de Araújo Campos e Anna Luiza Maciel (Figura 7), em que uma artista sinaliza diferente nas duas mãos e a outra artista produz outro sinal. As mãos da artista da esquerda mostram uma jarra sendo segurada e jogando um copo de água, e o rosto mostra uma expressão de dúvida. As mãos da artista da direita mostram uma tigela, a expressão facial e do tronco expressam alívio e a boca a ação de beber.

Figura 7
Seis informações simultâneas

O único poema de acima-abaixo no corpus com cinco informações éManipulado , de Bruno Ramos e Weslei da Silva Rocha (Figura 8). O corpo e o rosto do artista abaixo incorporam a personagem e as quatro mãos dos artistas produzem sinais diferentes. As mãos do artista acima representam duas ações diferentes de controlar o boneco: a mão direita representa os fios de comando, que comunicam ao boneco os gestos e ações pretendidas pelo animador; a mão esquerda representa o comando ou cruzeta, destinada a controlar os fios e os movimentos do boneco, mas o resto do corpo não está visível. As mãos do artista abaixo mostram duas ações diferentes feitas simultaneamente pelo boneco e o resto do corpo incorpora a expressão do boneco ou figura animada, representando um ser humano que sinaliza.

Figura 8
Poema acima-abaixo, com cinco informações simultâneas

Assim, afirmamos que, mesmo com a possibilidade de criar mais informações com dois poetas, constatamos no máximo seis a partir desse corpus. Vimos, então, que os limites de um dueto monolíngue em Libras já ultrapassam os limites das produções solo, sugerindo que os limites encontrados por Napoli e Sutton-Spence não são impostos pelos limites de percepção. Agora, veremos as possibilidades de produzir informações simultaneamente em duas modalidades diferentes. Uma pessoa que sabe uma língua de sinais e consegue ouvir uma língua falada pode perceber quantas informações?

Duetos bilíngues-bimodais

Há pesquisas que mostram as possibilidades de produzir informações simultâneas nos duetos bilíngues e bimodais. O poeta de ASL ouvinte Kenny Lerner co-constrói e co-apresenta obras performáticas com o poeta surdo Peter Cook, na dupla conhecida como The Flying Words Project (Projeto Palavras Voadoras). Nas performances, Lerner não atua como tradutor-intérprete, mas fornece dicas contextuais para o público (por meio de frases em inglês, efeitos sonoros ou outras dicas auditivas) que complementam a ASL em vez de uma interpretação simultânea completa. Estas dicas são direcionadas aos ouvintes, uma vez que os surdos não terão acesso ao canal vocal-auditivo produzido pela voz do tradutor-intérprete. O objetivo é proporcionar ao público ouvinte realmente assistir a um poema em ASL, por uma interpretação que dá “apenas o suficiente para o público se conectar com as imagens visuais e ressoar um significado pessoal”10 (Spooner et al., 2018, p. 118). Por exemplo: os sinais que identificam a árvore, o pássaro e a cobra precisam de uma tradução para o público ouvinte entender o significado dos sinais, mas quando os reconhece, consegue entender quando a cobra desliza na árvore e come o pássaro. Como Lerner diz, “o público desempenhou um papel fundamental na construção de sua própria animação mental simultânea” (Spooner et al., 2018, p. 119)11 porque a partir das dicas contextuais e assistindo à sinalização, ele consegue construir a imagem mental da cena.

Kenny Lerner (Spooner et al., 2018), ainda diz que destaca que, na expressão em voz alta dos sinais apresentados, é preciso escolher o tom e a intensidade da voz para dar um efeito de sentido semelhante. Ele explica o processo de “tradução” do vernáculo visual para o inglês, em que o público consegue acompanhar as produções visuais altamente icônicas de Peter Cook. Em vez de traduzir, Kenny inventa um diálogo paralelo para contextualizar a performance do Peter, que se torna um policial e um suspeito. No entanto, Kenny não acha necessário traduzir isso com palavras como “sua cabeça bate na parede”: em vez disso, criou uma fala do policial gritando ao suspeito que permitiu ao público entender o contexto e ver claramente o significado da performance. Este processo de tradução permite uma composição diferenciada e complementar na língua de modalidade vocal-auditiva que acompanha esporadicamente a expressão em língua de sinais. A vocalização é acordada previamente entre os dois apresentadores (surdo e o ouvinte, neste caso). No projeto enunciativo o que vai ser traduzido é combinado entre o artista surdo e o tradutor, como um trabalho em equipe presumindo o que precisa ser explicitado para os espectadores ouvintes para causar o efeito de sentido pretendido na performance. Assim, a performance cultural surda é apreciada por meio da visualização de toda a sinalização e encenação associada em alguns momentos por informações vocalizadas como um adendo ao público ouvinte.

No Brasil, o grupo que se destaca na produção de duetos de surdos e ouvintes, integrando a Língua Brasileira de Sinais e a língua portuguesa oral é o Corposinalizante, de São Paulo, que fundou o Slam do Corpo em 2014. Nestas performances, acontece um jogo de línguas com “discordâncias, roubos, disputas” (Lucena, 2017, p. 103) e existe um esforço de coexistência das duas línguas, uma cooperando com a outra, sem que cada uma perca seus contornos. O poema em dueto bilíngue bimodal analisado neste trabalho é de autoria de um artista surdo e um ouvinte - Léo Castilho e André Rosa, integrantes do Corposinalizante.

Nas próximas seções, explicitamos o percurso metodológico e a descrição detalhada da performance selecionada para este trabalho.

5. Metodologia de pesquisa

Para compreender as formas de composição, a cooperação, os papéis assumidos e verificar quantas informações podem ser produzidas simultaneamente em uma performance em dueto bilíngue e bimodal, selecionamos um poema de Leonardo Castilho e André Rosa, disponibilizado no canal do Youtube do Sapoti Projetos Culturais, que publica produções do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Educativo)12. O vídeo tem na sua descrição “Estação Sensorial para a exposição Jean-Michel Basquiat obras na coleção Mugrabi” e é composto por três performances em Libras e português. O dueto selecionado é a primeira delas, no tempo 00:10s até 1:13 segundos.

O estudo segue uma abordagem qualitativa. Quanto aos objetivos é uma pesquisa descritiva e os enunciados foram transcritos utilizando o software Elan13 (Eudico Linguistic Annotator). No dueto analisado, os autores colocam-se lado a lado na performance e assumem diferentes funções na composição do poema. André Rosa é um artista ouvinte, formado em Letras, trabalha como arte-educador e é intérprete de Libras e Professor. Leonardo Castilho é um artista surdo, que estudou artes, dança, teatro e trabalhou no Museu de Arte Moderna de São Paulo como arte-educador. Eles participam do grupo Corposinalizante.

Nesse sentido, desenvolvemos um estudo de caso do poema “Slam em Libras - Estação Sensorial para a Exposição Jean-Michel Basquiat Obras na Coleção Mugrabi”. A análise empreendida neste trabalho é fruto de um desdobramento da pesquisa realizada pelos autores Albres, Klamt e Sutton-Spence (2023), cujo objetivo consiste em discutir as construções de sentido dos possíveis interlocutores do mesmo poema. Neste trabalho, empregamos o método da literatura “Close reading” e optamos pela tradução de Pedersen e Tortella (2016), como “leitura meticulosa”.

O close reading é uma técnica de leitura utilizada em estudos literários que tem por objetivo analisar vários aspectos do texto ou selecionar um desses aspectos, dirigindo-se para uma compreensão profunda do texto. Não se trata de interpretação de texto, pois utiliza-se de uma leitura que significa um exame minucioso do material literário.

Para Durão (2020, p. 41) o close reading permite “decalcar do material verbal as passagens ou itens dignos de ser colocados sob a lupa analítica”. O autor traduz por “leitura cerrada” e considera importante trabalhar com três gestos paradigmáticos: “[o] primeiro é o da escolha do trecho ou elemento a ser analisado”, a partir de um texto que deve ter sido lido diversas vezes e com o qual o pesquisador já tenha estabelecido uma relação de intimidade; “o segundo gesto refere-se à imaginação interpretativa do pesquisador, do que fazer com o detalhe selecionado” (Durão, 2020, p. 41); por último, “a materialidade decalcada e analisada na leitura cerrada” deve ser articulada “com o argumento desenvolvido” (Durão, 2020, p. 42), para o objeto de estudo definido pelo pesquisador literário.

Em uma leitura meticulosa, delicadamente, desnudamos o texto, ao retirar camada por camada de sua significância. Além de provocarmos uma autópsia no texto, esse processo de descoberta e ampliação de significados é uma importante ferramenta para o desenvolvimento da argumentação lógica e do pensamento crítico, além do exercício da fundamentação das opiniões. (Pedersen & Tortela, 2016, p. 57).

Portanto, ao fazer uma leitura meticulosa do texto, no caso, o vídeo do dueto poético selecionado, buscamos compreender os seus significados a partir dos trechos selecionados com o intuito de verificar a natureza da cooperação estabelecida entre os dois artistas na composição do dueto poético.

Com relação à ética na pesquisa, o material foi coletado do youtube, um espaço virtual (Estalella; Ardévol, 2007) público e de acesso aberto, e além disso, por ser produzido pelo CCBB Educativo, há um caráter público e de investimento governamental. Compreendemos que apesar de o material ser público e não ser necessária a solicitação do consentimento livre informado, o vídeo veicula obras que mostram a presença dos artistas, o que confere autoria. Isto implica que não foram usados nomes fictícios, os autores foram informados e concordaram que sua produção fosse utilizada para pesquisa. O Quadro 1 apresenta sinteticamente o delineamento metodológico desta pesquisa.

Quadro 1
Tipo de pesquisa

6. Análise do poema

O poema “Slam em Libras - Estação Sensorial para a Exposição Jean-Michel Basquiat Obras na Coleção Mugrabi” , de Leonardo Castilho e André Rosa, preparado para compor a estação sensorial da exposição da coleção Mugrabi do artista Jean-Michel Basquiat em São Paulo, no ano de 2018, tem como intenção sensibilizar o espectador sobre a desigualdade no reconhecimento social da arte produzida pela periferia, em especial o grafite. Os artistas trazem como fio condutor a biografia do artista Basquiat e retratam fatos do processo criativo e do entorno social dos grafiteiros.

Para análise do poema, nos propomos a responder quais composições são estabelecidas entre os dois artistas quando a performance é bilíngue e bimodal; como a cooperação é estabelecida para a construção do enunciado poético em língua de sinais; quais os papéis assumem nas diferentes línguas envolvidas; e, por fim, quantas informações podem ser produzidas simultaneamente.

Composições estabelecidas pelos dois artistas na performance bilíngue e bimodal

Quando a performance é bilíngue e bimodal, as composições estabelecidas pelos dois artistas levam em conta dois corpos que produzem informações em duas línguas e expressões corpóreo-faciais. Os articuladores disponíveis, com duas pessoas, são duas cabeças (com rosto), dois troncos, quatro braços (totalizando quatro mãos) para produzir a língua de sinais e, ainda os aparatos vocais que podem produzir: i. o poema em português (língua falada); ii. onomatopeias; iii. articulações-boca sem som, correspondentes aos sons dos referentes.

Na coordenação das duas línguas, encontramos informações articuladas somente em uma das línguas - por uma ou duas pessoas - ou nas duas línguas, de forma congruente ou incongruente.

Figura 9
Sobreposição parcial Libras-português

O trecho da figura 9 é um exemplo de sobreposição parcial, com a informação em língua de sinais articulada pelos dois poetas e o português falado pelo poeta ouvinte. É parcial pois nem todos os itens lexicais em português são articulados em Libras, já que a performance faz uso de incorporação e classificadores. No entanto, foi observada congruência a nível semântico.

Enquanto o poeta André diz “eu abro os olhos” em português, Léo produz em Libras, em frente ao rosto, o verbo manual (classificador) de piscar e abrir os olhos. Em seguida, André articula um outro classificador de livro aberto posicionando as mãos em frente a Léo e em seguida diz em português “e tenho um livro”, enquanto Léo mantém a posição das mãos perto da cabeça e direciona os olhos para as mãos de André. Ou seja, a informação recebida é a mesma nas duas línguas, portanto houve congruência semântica. O que chama a atenção é que apesar de que estas informações pudessem ser produzidas por uma única pessoa (um bilíngue bimodal), dois classificadores simultâneos utilizando quatro mãos não poderiam ser articulados por uma única pessoa, ou seja, essa construção só é possível em dueto.

Os poucos exemplos de congruência encontrados, com sobreposição completa, ocorreram apenas no nível lexical, como no exemplo da Figura 10, com a palavra “mistura” sendo articulada em português e um sinal equivalente em Libras é produzido pelos dois poetas simultaneamente.

Figura 10
Sobreposição - congruência no nível lexical

A maior parte do poema traz sobreposições parciais, com incongruência no nível da ordem das palavras. O poema utiliza pouco do vocabulário convencionado da Libras, explorando mais dos classificadores e incorporação para a construção da performance, típico do discurso poético sinalizado. Isso explica que o sentido, geralmente, continua preservado, mas não a forma ou a estrutura.

Na Figura 11, o poema neste trecho refere-se ao fato de que a arte do grafite deve ser tão valorizada quanto àquela exposta na galeria. Em português, André diz “pixo chique sem desconto”, Em Libras, Léo faz incorporação do artista e com um verbo manual (segurar a latinha) produz o movimento da pichação (11a), depois, em uníssono Léo e André produzem o sinal “gastar” (11b) e, no final (11c), somente Léo produz um sinal que poderia ser uma tradução relacionada à palavra “chique”, produzida no início da sentença/verso. Pode-se afirmar que o sentido foi preservado nas duas línguas, apesar de a forma de dizer ter mudado.

Figura 11
Incongruência sintática, congruência semântica

Além disso, algumas construções que aparecem em uma língua, não aparecem em outra, como na expressão “Foi a minha mãe quem trouxe” (Figura 12) que só estaria acessível aos ouvintes em uma performance ao vivo.

Figura 12
Informação disponível em apenas em uma língua (falada)

Nesta expressão, o poeta refere-se à biografia de Basquiat quando, internado após um acidente, sua mãe lhe trouxe um livro sobre anatomia. A cena do acidente é narrada em Libras, bem como o momento em que a pessoa atropelada abre os olhos e vê um livro, mas a referência ao livro ter sido trazido pela mãe só aparece em português. A construção do sentido completa com todas as informações só é possível na integração das duas línguas, por um interlocutor ouvinte bilíngue.

Portanto, podemos afirmar a partir da análise do poema que as composições estabelecidas entre os artistas, quando a performance é bilíngue e bimodal e é fruto de uma criação conjunta, envolvem a articulação de duas línguas, mas nem sempre todas as informações que estão em uma língua vão estar acessíveis da mesma forma na outra. Além disso, quando aparecem nas duas línguas pode haver mudanças na forma de dizer, mas o sentido geral é preservado. Como dito, a expressão completa é possível de ser percebida nas duas línguas pelos interlocutores ouvintes que conhecem as duas línguas. Foi observado também que algumas construções são possíveis de se articular apenas porque a performance é apresentada em dueto. A integração dos dois corpos viabiliza a construção de mais possibilidades já que está disponível o dobro de articuladores para produzir toda a riqueza de construções estéticas e significações.

Cooperação para a construção do enunciado poético em língua de sinais

Nas composições de dueto em língua de sinais, dois poetas sinalizam juntos, podendo estar um em frente ao outro (frente-trás) ou um ao lado do outro (lado-lado), colaborando na criação do poema. No poema analisado, os poetas estiveram em toda a performance na posição lado-lado. Quando se fala da apresentação de um dueto frente-trás, um poeta tende a ser o principal e o outro descreve o cenário ou é o apoio do poeta principal (Pedroni, 2021; Sutton-Spence, 2023). No poema analisado, mesmo sendo um poema lado-lado, os dois poetas quando sinalizam atuam de forma colaborativa, mas Léo, o poeta surdo, foi o principal sinalizante, pois ele quem mostra as ações descritas no poema e André, o poeta ouvinte, os sinais do cenário - o livro, a rua, a pessoa - em que estas ações são descritas. Em algumas cenas, os dois poetas sinalizam juntos, criando um efeito estético de simetria e sincronia.

Visto que este dueto é lado a lado, podemos considerar os articuladores da língua de sinais - ainda sem apreciar a língua falada, no entanto todos os articuladores não são usados necessariamente ao mesmo tempo. Foram observadas, principalmente, quatro formas de composição dos sinais manuais e não manuais entre Léo e André, seguindo a classificação proposta por Sutton-Spence e Pedroni (2023): i. uníssono: ii. complementar; iii. troca de turnos; iv. pausas.

i. Uníssono

Quando os dois poetas sinalizam juntos a mesma expressão, de forma sincronizada, isto cria um efeito estético de simetria. Na Figura 13, é possível observar um exemplo destes, no sinal em Libras para o termo “gastar”. Na Figura 10, outro exemplo de uníssono foi observado na expressão “mistura”, que também ficou sobreposta ao português.

Figura 13
Uníssono - poetas sinalizam juntos

ii. Complementar

A expressão vista na Figura 14 é formada por Léo primeiro, em que suas mãos representam referentes diferentes: uma superfície e um objeto redondo sendo colocado em cima dela. Simbolicamente, compreendemos que o objeto descrito neste trecho do poema, sendo colocado em cima da superfície, é uma latinha que será usada para descrever o ato de pichar dos grafiteiros. Isto por conta também da presença da língua portuguesa “Latinha firme, pino pronto”. Em seguida, André com uma de suas mãos coloca algo em frente às mãos de Léo, que entendemos ser o pino da latinha, como explicado anteriormente. Assim, na composição em dueto em que os artistas atuam de forma complementar, parte da expressão pode ser feita por um poeta e outra parte feita por outro.

Figura 14
Complementar - Cada poeta articula uma parte da expressão

iii. Troca de turnos

Na troca de turnos, exemplificada na Figura 15, dois classificadores distintos se unem para formar uma expressão, no entanto, toda a expressão é realizada com um poeta sinalizando de cada vez, enquanto o outro faz uma pausa com o classificador sem movimento. André está sinalizando um classificador de entidade para humano com a mão direita. Léo está sinalizando um classificador de entidade para veículo. Cada ação descrita pelas duas entidades que interagem para descrever uma cena de acidente é feita uma de cada vez, em troca de turnos: uma pessoa de pé (15a), um carro se deslocando em alta velocidade (15b), a pessoa rolando até cair na rua (15c), a pessoa voltando à posição inicial e o carro dando ré, como em um flashback (15d e 15e).

Figura 15
Troca de turnos na descrição da cena do acidente

iv. Pausas

No trecho ilustrado pela Figura 16, os dois poetas pausam a sinalização, mantendo só o português “O carro me pegou de cheio”. Essa pausa cria um momento de tensão após a descrição da cena do atropelamento.

Figura 16
Pausa na sinalização, com a manutenção do português

Passamos, agora, a descrever os diferentes papéis assumidos pelos dois poetas nas línguas envolvidas.

Papéis assumidos pelos poetas nas diferentes línguas envolvidas

Considerando a língua falada e a língua de sinais, observou-se que este dueto poético apresenta duas possíveis combinações mais gerais entre os poetas e línguas:

Figura 17
Papéis dos poetas nas línguas envolvidas

Na Figura 17a, o poeta ouvinte André articula o poema em português oral ou produz uma onomatopeia (como em “pum, pa, pum, pa”) e pode ou não (+/ -) associar a um classificador ou sinal manual, enquanto o poeta surdo Léo faz a incorporação de um personagem. Esta incorporação pode ser associada ou não (+/ -) a um classificador ou sinal manual.

Na Figura 17b, outra combinação possível seria André articular oralmente o poema em português, enquanto pode ou não (+/ -) usar seus braços/mãos marcando a sua própria fala de forma ritmada (beat) ou destacar a sinalização de Léo, que faz a incorporação de um personagem, associada (+) ou não (-) a um classificador ou sinal manual.

Sintetizando: nas duas possíveis combinações, o poeta ouvinte André nunca executa incorporação e o poeta surdo Léo está regularmente produzindo incorporação de algum dos personagens, associada ou não a um classificador ou um sinal. André articula o português ou produz uma onomatopeia e pode simultaneamente produzir um classificador ou sinal ou usar suas mãos para dar ênfase à sua fala (beat) ou à sinalização do outro poeta (apontação).

Assim, os dois poetas atuam neste poema de forma colaborativa e as línguas se complementam e são potencializadas pela outra sem perder suas nuances. No entanto, no poema analisado Léo, o poeta surdo, foi o poeta principal em Libras, pois ele é quem mostra as ações descritas enquanto o poeta André atua na maior parte do tempo na construção do cenário ou na complementação de uma expressão iniciada por Léo. Por sua vez, o André é quem apresenta predominantemente as palavras em português falado, sendo ele, principalmente, quem expressa a poesia em português para o público ouvinte. Na cena do atropelamento (Figura 15), os dois se complementam na troca de turnos representando manualmente um referente cada um, mas quem incorpora os personagens do atropelado e do motorista é o poeta surdo.

Temos mais uma pergunta: considerando a simultaneidade na língua de sinais produzida em dueto e a sobreposição do poema em língua portuguesa, quantas informações foram produzidas ao mesmo tempo neste poema?

Quantidade de informações que podem ser produzidas simultaneamente

As informações podem ser articuladas pelas mãos, pelos articuladores não manuais ou pela voz. As informações não manuais estão mais presentes pela incorporação (principalmente nos olhos e na expressão facial). As que são manuais podem fazer parte da incorporação ou podem ser sinais classificadores. Encontramos muitos exemplos em que os artistas juntos produzem três informações simultâneas tanto em Libras quanto em Libras e português.

Figura 18
Três informações simultâneas em Libras

Na Figura 18, vemos: 1) A pessoa está localizada na estrada (Libras); 2) Carro dá ré afastando-se da pessoa (Libras); e 3) A pessoa olha para a pessoa localizada na rua (Libras).

A seguir, apresentamos exemplos de quatro informações foram vistos em Libras (Figura 19): 1) Pessoa segura e mostra o livro (articulado pela mão esquerda e pelo rosto do ator A); 2) Move a traquéia do livro para a pessoa (articulado pela mão direita do ator A) e, simultaneamente em 3), Pessoa recebe traqueia (na traquéia do ator B); e 4) A pessoa olha para o livro.

Figura 19
Quatro informações simultâneas em Libras

No próximo excerto, registrado na figura 20, analisamos cinco informações simultâneas, observamos uma mistura de cinco informações manuais e não manuais em Libras, e outro exemplo de quatro informações manuais e não manuais em Libras, mais uma em português.

Em Libras, temos (Figura 20): 1) pessoa 1 segura o livro (manual); 2) pessoa 1 olha para o livro (olhos); 3) pessoa 2 olha para a obra de arte (olhos); 4) pessoa 2 desenha (manual); e 5) pessoa 2 sorri (expressão facial).

Figura 20
Cinco informações simultâneas em Libras manual e não manual

Constatamos, então, que o número máximo de informações simultâneas nesse poema dueto bilíngue e bimodal é cinco. Cinco, também, é o número máximo de informações simultâneas que encontramos nos duetos de poemas monolíngues no modo visual.

7. Resultados

Recentemente, a produção poética surda, especialmente os duetos em Libras começam a ser estudados e descritos. Os duetos poéticos em Libras possuem traços estéticos que os diferenciam dos poemas feitos por apenas uma só pessoa, uma vez que as formas de participação dos dois poetas influenciam visualmente no resultado apresentado. O uso de elementos manuais e não manuais permite que a simultaneidade ocorra mesmo em um poema apresentado por uma só pessoa, mas quando apresentado por duas pessoas, muitas informações podem ocorrer simultaneamente, ainda considerando somente um poema apresentado em língua de sinais. Verificamos, no corpus de Sutton-Spence e Pedroni (2023) que até seis informações simultâneas podem ser apresentadas em um dueto em Libras.

No entanto, na produção de duetos bilíngues e bimodais, ou seja, que são apresentados em duas línguas de forma sobreposta, como a Libras e o português, nos perguntamos como os elementos falados e sinalizados interagem entre si para criar a estética desse tipo de poema. Com relação às composições estabelecidas nas duas línguas, podemos observar na análise do poema que as informações foram articuladas por uma ou duas línguas e por uma ou duas pessoas. Assim, foi possível encontrar as seguintes combinações: i) apenas um poeta sinaliza em Libras; ii) apenas um poeta fala em português; iii) dois poetas sinalizam em Libras; iv) dois poetas sinalizam em Libras, enquanto um deles fala em português. Quando as duas línguas foram articuladas juntas, isto ocorreu geralmente de incongruente, pois cada língua produziu enunciados independentes entre si, porém integrados do ponto de vista do sentido.

O enunciado em Libras utilizou pouco do vocabulário convencionado e muitos recursos como incorporação, classificadores, troca de papéis e especificamente formas de cooperação em duetos, como os quatro acoplamentos já descritos por Sutton-Spence e Pedroni (2023). Assim, foram observados no corpus os quatro tipos: uníssono (os dois poetas articulam juntos, de forma sincrônica); complementar (cada poeta articula parte da expressão); troca de turnos (os dois poetas se revezam para sinalizar) e pausas (pausa na sinalização com a manutenção do português).

Quanto ao papel de cada poeta na apresentação do poema, notamos que o poeta ouvinte articula uma ou duas línguas e quando faz isso, pode articular o poema em português oral ou uma onomatopeia e, por vezes, também combina essa produção com um classificador ou sinal manual, mas nunca produz uma incorporação. Também pode usar suas mãos para marcar sua própria fala ou destacar a sinalização do poeta surdo. Já o poeta surdo articula apenas uma língua neste poema, mas sempre incorpora um personagem e esta incorporação pode estar associada ou não a um classificador ou sinal manual. No poema analisado, o poeta surdo é o principal para expressão em Libras, pois ele mostra as ações descritas, enquanto o poeta ouvinte atua na construção do cenário ou na complementação de uma expressão do poeta surdo, sendo ele quem principalmente apresenta o português falado.

Vimos que as informações podem ser veiculadas pelos sinais manuais, sinais não manuais e pela voz. Encontramos entre três a cinco informações sendo apresentadas simultaneamente, sendo mais recorrente três informações. As três ou quatro informações podem ser apresentadas somente em Libras pelos dois poetas, ou uma informação em português. Quando são apresentadas cinco informações simultâneas, mesclam-se informações manuais, não manuais e português.

Portanto, constatamos que um poema dueto bilíngue bimodal usa uma série de recursos comuns às produções criativas como o uso de incorporação, classificadores, troca de papéis, sinais não manuais. No entanto, ele se diferencia, em sua forma de apresentação e composição, tanto dos poemas com uma só pessoa quanto dos duetos poéticos em Libras por exibir possibilidades de combinação das duas línguas e integração dos dois poetas que são específicos deste gênero.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no [canal do Youtube do Sapoti Projetos Culturais, que publica produções do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Educativo)] e pode ser acessado em [ https://www.youtube.com/watch?v=W180UjFiWK8&t=12s ].

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    Jul-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    14 Dez 2023
  • Aceito
    06 Maio 2026
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