Resumo
O conceito de território é atravessado por singularidades, potências criativas, questões socioambientais, estigmas e como metáfora. O Tour do Morro, coletivo analisado neste trabalho e que ocorre em uma periferia urbana, foi concebido para contribuir com outra metáfora: comunidade - indo além da lógica de vulnerabilidade do território. Assim, visa-se responder à seguinte questão: A metáfora comuπidade, traduzida pelo bairro Jesus de Nazareth, e disseminada pela iniciativa Tour do Morro, se articula de que formas com a concepção de futuros com a natureza? Para análise dos dados, foi acolhida a hostipitalidade como estratégia para realização do deslocamento das agendas, reconhecendo a disseminação e a língua em viagem no percurso de tradução (Derrida, 2011). O estudo das experimentações, teve como fundamentação empírica a iniciativa Tour no Morro materializado em ações do Projeto Emancipação Social a partir da Soberania Alimentar - PESSoA, do Desafio das Escadarias e do evento Arte com Lixo. Ao final temos como resultado a relação das metáforas e das concepções de futuros, lidas com o suporte dos discursos sobre a natureza como pensamentos abertos a rupturas na trajetória de desconstrução.
Palavras-chave:
coletivos
;
desconstrução
;
metáfora
;
comunidades urbanas e favelas
;
soluções baseadas na natureza
Abstract
The concept of territory is permeated by singularities, creative powers, socio-environmental issues, stigmas and as a metaphor. The Tour no Morro, collective analyzed in this work and which occurs in an urban periphery, was conceived to contribute with another metaphor: community - going beyond the logic of vulnerability of the territory. Thus, it aims to answer the following question: The metaphor comuπity, translated by the neighborhood Jesus de Nazareth and disseminated by the Tour no Morro initiative, is articulated in what ways with the conception of futures with nature? For data analysis, the following was adopted hostpitality as a strategy for shifting agendas, recognizing dissemination and language travel in the translation process (Derrida, 2011). The study of the experiments was empirically based on the Tour no Morro initiative, materialized in actions of the Social Emancipation Project based on Food Sovereignty, of the Staircase Challenge and the Art with Trash event. We have as a result the relationship of metaphors and conceptions of futures, read with the support of discourses on nature as thoughts open to ruptures in the trajectory of deconstruction.
Keywords:
Collectives
;
deconstruction
;
metaphor
;
urban communities and slums
;
nature-based solutions
1. Introdução
A concepção e implementação de futuros com a natureza pressupõe a acolhida de múltiplas vozes e agências. Questões como comunidade, hospitalidade, metáforas, singularidades, acontecimentos, valores emocionais, amizades e pertencimentos se apresentam como hipóteses que podem facilitar o porvir e a confluência de perspectivas no que tange às relações entre seres humanos e não-humanos. Nesse sentido, ao se pensar a comunidade reconhece-se diversas leituras e traduções (Mocellim, 2011). Há leituras que enfatizam o pertencimento e os interesses racionalmente motivados como bases para o estabelecimento de uma relação comunitária, assim como há traduções e narrativas que visam ampliar a sua dimensão afetiva. Segundo Weber (1994), a relação social que trata de agrupamentos humanos é em parte comunitária (valores emocionais) e em parte associativa (valor racional). Observa-se que esse modo de tradução apaga o papel da natureza, do território e das questões socioambientais como fatores constituintes da comunidade.
A leitura desconstrutiva da comunidade, por sua vez, destaca a importância da hospitalidade nesse percurso. Entende-se que os elos, as redes e as traduções são desenvolvidas a partir de discursos marcados pela tolerância, rejeição, recepção e pelas tensões, ou seja, há contradições, há hostilidades, há regras formais, rastros e singularidades que podem facilitar e/ou dificultar a acolhida de outras vozes (outrem) e agências na trajetória da comunidade, inserida em um contexto em que há seres humanos e não humanos em um território que contém elementos da natureza transformada. O movimento da desconstrução derridiana apresenta os quase conceitos hospitalidade condicional e hospitalidade incondicional como modo de compreender as traduções, estigmas e metáforas que perpassam as relações entre seres humanos e não humanos no território.
A hospitalidade pode ser lida “como um outro nome da desconstrução” (Bernardo, 2005, p. 175), isso se justifica ao compreender o registro espectral na relação com o outro, que se revela como enigma, impossível de pré-determinar e controlar. As imprevisibilidades na história da comunidade levam a uma postura de acolhida traduzida como “visita” ou “convite”. O convite pressupõe procedimentos, etapas e fluxos que devem ser respeitados para a entrada na comunidade, em uma lógica de hospitalidade condicional. A visita, por sua vez, reconhece a alteridade em relação ao que vem como rastro, com leituras singulares sobre o território e a natureza. Nesse caso, assume-se a incompletude na leitura da comunidade, o suplemento como metodologia de tradução, com estranhamentos e deslocamentos (Derrida, 2013). De acordo com os acontecimentos, aflora-se a hospitalidade incondicional, na lógica da visita (Bernardo, 2001). Todavia, há eventos de violência que podem levar a hostilidade ao que é estrangeiro, com uma hospitalidade condicional que estabelece protocolos para a acolhida no território, em uma lógica de convite, com regras e leis bem rígidas.
Ressalta-se que a hospitalidade condicional e incondicional não se apresenta como dicotomias, mas sim como “hostipitalidade” (Derrida, 2003, p. 41). Assim, o território, o lugar (topos), é atravessado por singularidades, potências criativas, questões socioambientais, coletivos e estigmas, além de ser palco de metáforas e ele próprio se traduzir como uma. Esses atravessamentos (traduções) podem colaborar para com o apagamento do comunitário e da natureza, ao enfatizar os discursos ligados à vulnerabilidade (estanque e imutável) segundo alguns estereótipos. Outra perspectiva é reconhecer nesses atravessamentos a possibilidade de desconstrução dos discursos estigmatizantes do território, ao deslocar as agendas que oprimem a potência criativa da comunidade - especialmente comunidades urbanas e favelas, atravessadas pela desigualdade econômica e social. Assim, reconhece-se a hostipitalidade como uma estratégia para realizar o deslocamento de agendas, pois trata-se de uma leitura que colabora para um contragolpe reflexivo, um ressalto que rompe com os sistemas, com as representações esquemáticas (estruturas metafísicas e retóricas), por meio de suplementos (tropos irruptivos) que possibilitam desdobramentos e articulações com a galáxia de coletivos (Universos) associados à comunidade.
A análise dos discursos, conflitos e perspectivas conceituais desenvolve-se à luz de Derrida (2011), cujo propósito é analisar a leitura que ocorre no percurso. As traduções sobre comunidade, sob essa perspectiva, são envolvidas por metáforas que trabalham para moldar as competências e interpretações (Derrida, 2013). O autor compreende essa trajetória como logocentrismo, traçado por oposições, permeadas por relações hierárquicas que servem como modelo para pensar a comunidade, com o intuito de moldar o discurso de acordo com os interesses políticos e institucionais (Derrida, 1973). Além disso, aponta que a tradução é compreendida como uma experimentação e invenção de metáforas para questionar os padrões e deslocar a escrita como língua em viagem (Derrida, 2003). Ciente desse cenário, este trabalho concentra-se em responder a seguinte questão de pesquisa: Como a metáfora comuπidade1, traduzida no bairro Jesus de Nazareth2, e disseminada pela iniciativa Tour do Morro, se relaciona com a concepção de futuros com a natureza?
Nessa galáxia de coletivos há universos, movimentos comunitários que pautam outras agendas, ao ousar disseminar outras perspectivas, outras leituras nas relações homem-natureza. Neste trabalho, propõe-se estudar a história do movimento (coletivo) Tour no Morro, chamado de Tour em algumas partes deste texto. O intuito é reconhecer em suas experimentações comunitárias quais eventos contribuem para um outro olhar, uma outra tradução de comunidade, focando as reflexões no Bairro Jesus de Nazareth. A partir desses acontecimentos e movimentos, este trabalho visa contribuir, principalmente, com os seguintes temas em debate: a) Propor a metáfora comuπidade, como língua em viagem, de modo a refletir sobre a concepção de futuros com a natureza; b) Estudar como o movimento Tour do Morro colaborou para a disseminação da metáfora comuπidade, traduzida no bairro Jesus de Nazareth.
2. Metáforas e Futuros com a Natureza
Neste artigo não entendemos a metáfora como oposição do próprio e do não próprio, mas como língua em viagem. Nesse deslocamento, não há um padrão de tradução a seguir. Lê-se o processo criativo como “experiência do instante”, perda absoluta do sentido. A metáfora como língua em viagem reconhece a alteridade absoluta da relação com a originalidade, com a noção de propriedade sendo metaforizada (Bernardo, 2007). Desloca-se o discurso que busca domesticar e estabilizar a trajetória criativa (metáfora) como um procedimento, o que se configura quando se conduz a viagem com um roteiro pré-definido, como um círculo logocêntrico cujo propósito é a referência, à origem em todas as interpretações. Quando refletimos sobre futuros com a natureza, há metáforas que inspiram as discussões, como no caso da abordagem reducionista de sustentabilidade.
O relatório Brundtland, desenvolvido pela Comissão Mundial de Meio Ambiente (CMMAD) da Organização das Nações Unidas - ONU e publicado em 1987, trouxe uma perspectiva para pensar a questão socioambiental, que guardava até então certo tom de inovação em termos discursivos: o desenvolvimento sustentável. Todavia, ao longo do tempo essa proposta configurou-se em uma narrativa reducionista, no sentido que afirma a economia como referência para pensar a sustentabilidade - a ênfase na gestão eficiente de recursos. A própria transferência de sentido da natureza para recurso elimina a vida não humana, ao reduzi-la estritamente à vontade econômica do humano (que em um sistema econômico como o capitalista, promove outra redução: da vida, inclusive a humana, à dimensão financeira). Devido a esse pensamento, há outras leituras que questionam essa visão de desenvolvimento. Barbieri & Silva (2011), por exemplo, problematizam o entendimento sinônimo entre crescimento e desenvolvimento. Para eles, essa interpretação equivocada serviu de argumento para defender que o crescimento econômico é a resposta para superar a pobreza.
Acselrad (2005), vai de encontro ao pensamento expresso pela CMMAD, ao discordar da leitura que compreende a questão ambiental como uma externalidade, uma falha que precisa ser ajustada ao tempo do mercado. Silva, Reis & Amâncio (2011) entendem que nessa leitura a natureza é analisada de modo instrumental, como um recurso gerenciável. Kearins & Springett (2003), por sua vez, argumentam que o pensamento neo-marxista destaca o nível de consumo e de produção, legitimados pela leitura reducionista da sustentabilidade, como os fatores que potencializam a crise socioambiental. Os pressupostos capitalistas impedem um aprofundamento e o desenvolvimento de outras metáforas e futuros com a natureza. Assim, propõe-se uma trajetória dialética que possibilite a crítica dos instrumentos ideológicos, políticos e epistemológicos, relacionados ao desenvolvimento sustentável.
Mais recentemente tem emergido o conceito de soluções baseadas na natureza3 como um futuro com a natureza. Nessa perspectiva o objetivo não é o desenvolvimento, mas sim o bem-estar humano e a biodiversidade, simultaneamente. Assim, não é sequer razoável pensar apenas em um dos dois pilares isoladamente. Essa proposta simbiótica encontra amparo, tanto discursivo como de ação, em Nêgo Bispo e suas reflexões sobre favelas e periferias: “para enfraquecer o desenvolvimento sustentável, nós trouxemos a biointeração; para a coincidência, trouxemos a confluência (...)” (Santos, 2023, p. 14, itálico no original).
Assim, dada a atual crise climática, os futuros com a natureza necessitam considerar a re-fundação do humanismo a partir da re-fundição entre humano e não-humano, como ocorre na realidade concreta (configuração do jogo), e não como ocorre a partir da ciência analítica, de laboratório. Na ciência analítica o foco é a busca pela verdade, por decifrar uma origem que escapa às singularidades e reafirma o humanismo como centro controlador do futuro. Todavia, na dinâmica de confluência com a natureza, ousa-se superar o homem como centro, reafirmando o jogo, marcado por eventos incontroláveis (Derrida, 2011). Com este propósito, assume-se, neste artigo, que a categoria “futuros com a natureza” inscreve-se na configuração de uma dinâmica marcada por imprevisibilidades, onde não se busca o controle, e não se reduz a questão socioambiental a um recurso a ser gerenciado, diante da descontinuidade e do acaso que atravessam a biointeração.
3. Hostipitalidade: Um modo de ler o Tour na comunidade?
A hostipitalidade pode ser lida na lógica da economia da suplementariedade. Essa discussão derridiana se desenvolve por meio de inversões e deslocamentos. As inversões buscam abrir lacunas nas oposições que servem de base para um determinado discurso. No caso do Tour do Morro4, observa-se a estratégia de recontar a história da comunidade por meio das experiências, o que revela um exemplo de acolhida ao estrangeiro, ainda que se observe um comportamento hostil, principalmente no que se refere a notícias que circulam na mídia, normalmente negativas sobre a comunidade. Ou seja, convive-se com situações ambíguas na relação com estrangeiro, hospitalidades e hostilidades (Gambassi & Lima, 2020). Esses eventos abrem brechas para questionar estereótipos a partir das experimentações, das coletividades e das redes locais. Para viabilizar essa inversão e reconhecer essas brechas, faz-se um deslocamento, um espaçamento entre conceitos (morro e comunidade), com o propósito de desconstruir protocolos e representações, arcabouços da língua metafísica (Derrida, 1973).
Ao pensar essa discussão em relação a possibilidade de futuros com a natureza, assume-se a responsabilidade diante da crise socioambiental como hostipitalidade ao porvir, o que possibilita a reescrita de caminhos de interpretação da questão socioambiental. Isso ocorre por meio de uma disseminação inventiva lida através da economia da suplementariedade, como feixe de traduções (Derrida, 1973; Derrida, 2013). Esse percurso de invenção, marca uma experimentação de leitura, na qual cria-se metáforas, brechas e suplementos que deslocam a lógica da identidade, cujo traçado precipita o sentido e rompe com a circularidade da interpretação a partir da alteridade. Deste modo, não se estuda o texto isoladamente, mas a tradução do acontecimento, na trajetória de análise (Nascimento, 2001).
A alteridade se revela enquanto acontecimento singular, como razão interpretada por meio de uma hospitalidade. A metáfora da leitura, nesta abordagem, é a acolhida do outro, de modo a possibilitar interpretações e rasuras além do pensamento restrito, em um sentido de hospitalidade incondicional (Derrida, 2013). Esta hospitalidade se encontra entre duas perspectivas: a do “convite”, que busca estabelecer protocolos para a acolhida do outro; e a perspectiva da visita, que reconhece brechas para outras interpretações e leituras, marcadas pela imprevisibilidade, na qual lê-se o outro, na sua singularidade (Bernardo, 2007).
Essas perspectivas abrem oportunidades para traduzir a iniciativa Tour na comunidade. Na leitura da comunidade, reconhece-se diversas interpretações. Há perspectivas que enfatizam o pertencimento e os interesses racionalmente motivados como bases para o estabelecimento de uma relação comunitária. Reconhece-se que a relação social é comunitária (valores emocionais) e associativa (valor racional). Assim, destaca-se o engajamento em confrarias, lugar em que as relações emocionais se estabelecem como referência para a relação comunitária (Weber, 1994). Observa-se que esse modo de tradução parece apagar o papel da natureza, do território e das questões socioambientais como fatores constituintes da comunidade. A leitura derridiana da comunidade, todavia, enfatiza a hospitalidade nessa trajetória, e reconhece-se que os elos, as redes e as traduções são desenvolvidas à luz de discursos marcados por tolerância, rejeição, recepção e tensões inseridas em um espaço social que pode ser lido a partir da aproximação ou afastamento com a natureza. Ousa-se traduzir os discursos que permeiam essa disseminação inventiva como comuπidade, que é envolvida pelo pensamento slam e pelo pensamento slum.
O pensamento slam (batida) é traduzido à luz da hospitalidade incondicional, marcado por imprevisibilidades que surgem na iniciativa Tour. Reconhece-se o território Jesus de Nazareth como lugar atravessado por singularidades, potências criativas, questões socioambientais, coletivos e estigmas, e entende-se esses atravessamentos como possibilidade de desconstrução dos discursos estigmatizantes do território ao deslocar as agendas que oprimem a potência criativa da comunidade. Já o pensamento slum (favela) é lido através da hospitalidade condicional e define protocolos para aceitar os discursos que envolvem a comunidade Jesus de Nazareth. Há contradições, hostilidades, regras formais, rastros e singularidades que podem facilitar e/ou dificultar a acolhida de outras vozes e agências na trajetória da comunidade.
Todavia, a metáfora comuπidade não compreende a relação pensamento slam (batida) e pensamento slum (favela) como dicotomias, o que se verifica é um movimento de indecidibilidade e tradução que assume a concretude do evento e do acontecimento no território. A comuπidade lê o território como uma criação (escritura), com diferenciadas forças qualitativas de relacionamentos com o rastro (metáforas). O π que rasura a palavra comunidade é lido como um suplemento, uma reserva de potências criativas marcada pela alteridade absoluta. Reconhece-se que há múltiplos modos de compreender e determinar o π (Tadeu et al. 2018), há contradições com relação a sua origem e sua definição (Pommer, 2019). Todavia, para o uso metafórico, neste trabalho, acolheremos a leitura de π proposta por Miranda & Silva (2022), principalmente no que tange a interpretação associada a palavra grega περιφέρεια (peri + ferein), traduzida como periférico, como “referência ao que está afastado dos diversos centros, topológicos, epistêmicos, políticos, econômicos, sociais, étnico-raciais, de gênero e sexualidade” (Miranda & Silva, 2022, p. 4).
Ao trazer essas traduções para discutir comunidade, busca-se reconhecer as dificuldades de determinar as potências do território e a importância de acolher as experimentações e disseminações do percurso de leitura. Neste sentido, entende-se o processo criativo como oportunidade de disseminação de outras metáforas interpretativas no jogo de rastros e traduções (Derrida, 2011). Nesse jogo, verifica-se diversas tensões e deslocamentos, e observa-se que a metáfora morro, moldada neste percurso de leitura, é equivocada para ler as diversas traduções já que se reduz às periferias ao seu conteúdo negativo. Na metáfora comuπidade, por sua vez, acolhe-se as múltiplas potências criativas do território ao ler a questão socioambiental como elo constituinte deste percurso de tradução.
4. Percurso Metodológico
A acolhida da desconstrução derridiana na trajetória analítica pressupõe uma tomada de posição na análise de dados que interpreta os discursos do Tour como território de traduções e contradições (Cooper e Burrel, 1988). Neste trabalho, estuda-se as traduções que envolvem a iniciativa Tour do Morro a fim de entender as configurações que estruturam os pensamentos sobre o território. Questiona-se a proposta de roteiro pré-definido, problematiza-se os pensamentos que reforçam os pressupostos do logocentrismo (Derrida, 1995). A desconstrução possibilita analisar as metáforas que se desenvolvem na travessia do Tour do Morro, isto é, se há hospitalidade a diversas leituras na concepção de futuros com a natureza.
Com este intuito, analisou-se as leituras e questões que permeiam três atividades de mobilização comunitária disseminadas a partir da iniciativa Tour no Morro: o Projeto Emancipação Social a partir da Soberania Alimentar - PESSoA5, o Desafio das Escadarias e o evento Arte com Lixo. As duas últimas foram pesquisadas a partir da dissertação de mestrado “Processo de mobilização comunitária na construção de intervenções socioambientais no bairro de Jesus de Nazareth / Vitória-ES”6, defendida no ano de 2023. Já o PESSoA foi um projeto de extensão cuja execução ocorreu entre os anos de 2022 e 2023. Nesse contexto foram entrevistadas 202 pessoas da comunidade a partir de instrumento de campo do tipo survey. Além desses dados, foram tratados artigos publicados em revistas científicas que tratavam da comunidade abordada nesta pesquisa.
Para produção de dados foram empregados três métodos: a) observação participante com registro de imagens e caderno de campo tendo como horizonte a etnografia; b) entrevistas com lideranças comunitárias e moradores, sobre temas específicos que ora eram diretos em relação tema desta pesquisa, ora o tangenciava (entrevistas sobre: a história do bairro, economia criativa de base comunitária, turismo de base comunitária, publicadas na revista não científica Mirante Criativo: observatório capixaba de economia criativa (https://economiacriativa.org/mirante-criativo/); e, especificamente no caso do PESSoA, foram selecionadas quatorze famílias, indicadas por lideranças da comunidade, que responderam a um questionário estruturado, com registro por escrito, com nove blocos de perguntas: 1) dados pessoais; 2) dados familiares; 3) relação com a comunidade; 4) situação domiciliar; 5) parâmetros de saúde; 6) segurança alimentar; 7) dados socioeconômicos; 8) rotina alimentar; 9) educação transformadora. Por fim, destacamos que foi estabelecido um diálogo com dois especialistas em mobilização comunitária. Eles foram questionados sobre as estruturas políticas e institucionais que facilitam e dificultam a disseminação da metáfora comuπidade no bairro Jesus de Nazareth.
Além dos dados produzidos por nós, utilizamos também pesquisa realizada em 2017 pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - Sebrae, que entrevistou 395 moradores da comunidade de Jesus de Nazareth. Esta pesquisa foi realizada a partir de perguntas fechadas e abertas e foi gentilmente cedida para os pesquisadores.
O percurso de análise do conjunto de dados produzidos acolheu os quase conceitos do pensamento derridiano ao considerar as questões relacionadas à criação de metáforas (Derrida, 1973). Os pressupostos que inspiram o estudo dos discursos na comunidade foram organizados em três construtos.
A partir desses quase conceitos, focou-se em analisar os discursos sobre o bairro Jesus de Nazareth que envolvem a iniciativa Tour. Neste percurso, as normas e instrumentos desenvolvidos para moldar as traduções foram interpretados à luz da metáfora comuπidade. Entretanto, o propósito não é destruir as normas que definem a hospitalidade condicional, mas desestabilizar a oposição que organiza o percurso de tradução. Esse caminho de leitura permitiu analisar como as traduções sobre a comunidade, disseminada pela iniciativa Tour no Morro, facilitaram ou não a concepção de futuros com a natureza.
5. Discursos que promovem acolhida e resistência a concepção de futuros com a natureza no bairro Jesus de Nazareth
Na trajetória do trabalho, foram mapeados pensamentos que visam pautar outras agendas sobre a comunidade Jesus de Nazareth. Entre apagamentos e contragolpes reflexivos, as palavras foram deslocadas por meio do pensamento da hostipitalidade. No percurso de leitura, identificou-se metáforas que negam as singularidades do território inscrevendo-os em uma lógica que legitima representações esquemáticas e reprime as potências criativas da comunidade. Deste modo, os discursos foram estudados a fim de compreender como se desconstrói o modelo prévio definido pela metáfora morro, cuja dinâmica é discutida a seguir.
A análise dos discursos revela o pensamento de que a categoria morro reduz as periferias ao seu conteúdo negativo. Reconhece-se uma das dicotomias que alimenta esse estereótipo, trata-se da oposição entre morro e asfalto. O asfalto, conceito desenvolvido para representar àqueles que vivem fora do bairro Jesus de Nazareth, criou uma linguagem para envolver os moradores em uma metáfora que nega suas singularidades, esse procedimento é ampliado pela cobertura jornalística, ao reforçar uma narrativa que limita sua análise a aspectos negativos dos espaços geográficos que se enquadram na denominação morro, como sinônimo de violências e lugar de consumo de drogas.
As pessoas que moram nas comunidades, contudo, refutam esse discurso e estabelecem estratégias para acionar o dispositivo slam.
Então, a gente trabalha a potencialidade local. E comunidades como a nossa, além do paisagismo, tem uma gama de potencialidades que cada morador tem para desenvolver.
Depois do paisagismo veio a gastronomia, aí veio o aumento do comércio local, gastronomia local para receber os turistas. E, com isso, você vai mostrando que o morro não é só perigo. Que é uma comunidade que tem uma potencialidade gigantesca ali dentro.
Lá tem jogador de futebol, médico, advogado, professor de educação física e até juízes já saíram lá de dentro. Então, quantas comunidades como essa não existem por aí? E as pessoas, ao ver, desmistificam aquela coisa do tipo: os morros são perigosos, ali só tem o tráfico. (Coletivo 1)
O paisagismo, referência às práticas sociais de substituição de espaços utilizados para depósito irregular de resíduos sólidos domésticos e de restos de materiais de construção - os pontos viciosos de lixo, como dito por moradores - por jardins com plantas ornamentais, é a interface entre o natural e o cultural. Como já nos apontou Descola (2016), a linha que separa o natural do cultural nem sempre assume os mesmos contornos, como em uma cerca viva - até que ponto é natural por serem arbustos ou é cultural por ter sido plantada e cortada de acordo com uma prática humana? Em ambientes urbanos, o natural e o cultural assumem outra conotação que difere do ideário das florestas ou áreas com menor impacto antrópico.
Ao ler discursos de comuπidade, há um deslocamento de agendas a depender da fonte emissora. Reconhece-se pautas que podem ser lidas como pensamento slum (hospitalidade condicional) e pensamento slam (hospitalidade incondicional). A busca por definir os territórios de periferias como lugar de violências alinha-se a uma perspectiva que condiciona e limita potencialidades. Isso desperta protocolos e regras que reforçam o afastamento entre morro e asfalto, há uma hostilidade da comunidade Jesus de Nazareth com os discursos desenvolvidos pelo asfalto, que reduzem a complexidade da comunidade aos aspectos negativos do território.
Em 17 de agosto de 2017 uma megaoperação policial, envolvendo homens, viaturas, barcos e helicóptero das polícias militar, civil, federal e rodoviária federal (PRF), parou a região de Bento Ferreira e Jesus de Nazareth.
Essa megaoperação teve como objetivo declarado pelas autoridades policiais a busca e apreensão de drogas e armas, bem como eventuais foragidos da justiça. Teve um papel simbólico acentuado, dada a força e recursos aplicados. No final da operação, pelo menos quatro resultados puderam ser percebidos: 1) foram detidas seis pessoas, sendo uma menor, outra por não pagamento de pensão alimentícia, duas foram liberadas logo em seguida por “não oferecer risco à sociedade”, terem “residência fixa e ocupação lícita”, uma já tinha cumprido pena, tendo assim direito à liberdade; 2) houve severas críticas, pois para se chegar às 6 prisões foram mobilizados 381 militares, o que representou custos operacionais elevados; 3) para a população da cidade de Vitória que conhece pouco o bairro, foi reforçado o estigma de comunidade violenta; 4) a Ordem dos Advogados do Brasil em Vitória considerou a ação um abuso de autoridade e a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória divulgou nota dizendo que a operação foi “abusiva e prepotente”. (Santos & Sgarbi, 2018, p. 141)
Neste texto, esses protocolos e hostilidades são traduzidos como pensamento slum.
Todavia, há discursos que abrem brechas, oportunidade para deslocar essa dicotomia entre morro e asfalto. Em pesquisa realizada pelo Sebrae em 2017, temos elementos que colaboram para a ruptura dessa oposição. Isso ocorre quando se enfatiza a necessidade de investimentos em esporte e lazer como caminhos para fortalecer a vocação turística da comunidade Jesus de Nazareth. Entre os resultados, 83,3% dos moradores indicaram que estavam satisfeitos ou muito satisfeitos em morar no bairro. Quando perguntados sobre o motivo, declararam a forte vocação turística potencializada, entre outros, pela beleza cênica que contorna o bairro (Sebrae, 2017). Outros aspectos que se tornaram invisibilizados para os moradores, mas que puderam ser percebidos a partir da observação participante foi o forte vínculo entre a comunidade e o mar, expresso pela cultura pesqueira, bem como o elo ancestral - mais forte entre os com maior idade - entre a terra e a vivência comunitária. Assim, há um número considerável de pescadores na comunidade, bem como a ampla maioria das casas possui áreas de jardinagem e, aquelas que possuem quintal, árvores frutíferas e plantio de verduras. A língua em viagem se traduz em ação e a ação é a linguagem corporificada, como nos alerta Bourdieu (2004) em seu conceito de habitus. Guardadas as possibilidades - e impossibilidades - de diálogo entre a desconstrução derridiana e o neoestrutrualismo bourdieusiano, a língua não se resume na expressão oralizada e é isso que o conjunto de dados nos mostra acerca do caso dos moradores de Jesus de Nazareth e os possíveis futuros com a natureza.
Outro movimento que coopera para a repensar os discursos estigmatizantes são as atividades de mobilização comunitária disseminadas pela iniciativa Tour: o projeto PESSoA, o Desafio das Escadarias e o evento Arte com Lixo. Essas atividades podem ser lidas como pensamento slam, pois acolhem as singularidades e potencialidades criativas da comunidade Jesus de Nazareth ao enfatizarem as questões socioambientais que envolvem o território, cooperando para desconstruir o conteúdo negativo que muitas vezes a cobertura jornalística reforça.
O Projeto Emancipação Social a partir da Soberania Alimentar - PESSoA foi uma iniciativa de extensão universitária, ocorrida entre os anos de 2022 e 2023, que debateu a alimentação no bairro. Foram realizados levantamentos sobre saúde, hábitos alimentares, cultura do cultivo de plantas no bairro, mapeamento de árvores frutíferas e PANCs (plantas alimentícias não convencionais).
Entre as variáveis pesquisadas, foram levantados dados sobre a insegurança alimentar dos moradores e foi diagnosticado que: 1) 35,6% dos entrevistados tiveram a preocupação, nos 3 meses que antecederam a pesquisa, de que a comida acabasse antes que tivesse condição de comprar, receber ou produzir alimentos; 2) para 19,8% dos entrevistados, nos três meses que antecederam a pesquisa, a comida havia acabado antes que tivessem dinheiro para comprar mais; 3) nos 3 meses que antecederam a pesquisa, 17,3% dos entrevistados alegaram que ele/ela ou algum adulto na casa havia diminuído alguma vez a quantidade de alimentos nas refeições, ou mesmo pulado alguma delas, porque não havia dinheiro suficiente para comprar comida. Estes dados revelam uma das faces mais cruéis da nossa sociedade: a insegurança alimentar moderada ou severa.
A metáfora Tour nesse contexto estimulou um passeio pela comunidade para mapeamento de alimentos já produzidos pelos moradores - árvores frutíferas, hortas, vegetais diversos que poderiam ser usados na alimentação humana. Foi analisado o potencial de aproveitamento do que já era produzido no bairro, bem como identificadas áreas com possibilidade de implantação de quintais produtivos. A metáfora Tour esteve presente nas atividades, seja com a participação do seu idealizador e, também, como vetor de impulsionamento para o próprio Tour. Foi estimulado entre os moradores a possibilidade de alavancar seus quintais à categoria de quintais produtivos - onde os espaços são utilizados na produção de alimentos (os futuros com a natureza).
Além da produção para o próprio consumo, houve pelo menos uma experiência de comercialização dos excedentes. Alimentos que teriam o diferencial de serem produzidos próximos às residências dos consumidores, que poderiam até mesmo colher suas próprias hortaliças em um circuito de turismo de base comunitária.
Entre os limites dessa experiência - talvez as frustrações nos ensinem mais do que os êxitos - estiveram presentes as exigências nutricionais dos moradores - muitos trabalhadores que demandam alto consumo de carboidratos e proteínas, que não foram produzidos durante a experiência -, as exigências do paladar - a dieta vegetal nem sempre atraiu a atenção de moradores -, mas principalmente a concorrência de tempo - para muitos, após um dia árduo de trabalho, se tornou inviável o cuidado com a produção de alimentos.
Apesar de grande parte da idealização não ter se confirmado, o legado do projeto foi que algumas famílias reorganizaram seus conhecimentos ancestrais ligados à terra. Muitas famílias do bairro são oriundas do interior dos estados da Bahia e do próprio Espírito Santo (os mais velhos no bairro possuem forte vinculação com o mar - pescadores - e com a terra - trabalhadores rurais). Frutas que já eram produzidas na comunidade passaram a ser reconhecidas e melhor aproveitadas em sucos, doces e in natura.
Ressalta-se que essa experiência trouxe à tona a leitura derridiana sobre acolhimento - hospitalidade - condicional e incondicional. Desde a história de formação inicial do bairro, com a vinda de trabalhadores para a capital, ocupando o território que os acolheu sob determinadas condições (regras de acolhimento do ambiente, por ser um morro, próximo à baía de Vitória, o que permitiu a ocupação e a prática de pesca, por exemplo). Mas também, a preocupação do desenvolvimento dos quintais produtivos como uma forma de acolher o turista/consumidor - e o fato de cogitarem a venda direta nos quintais ao invés de venda em alguma feira ou entrega em domicílio - revela o desejo de receber a visita da população do asfalto, de romper a imagem de slum. E isso, a partir de uma perspectiva singular de aproximação da comuπidade com a natureza, produzindo outros futuros possíveis.
Outra iniciativa que converge para essa perspectiva de ser slam foram as edições do Desafio das Escadarias, em 20187 e 2019.
Trata-se de uma corrida vertical cujo trajeto passa pelas escadarias da comunidade. São 365 degraus percorridos até as torres, o ponto mais alto do bairro. Organizado pela RL Cultural & Social e Tour no Morro, com apoio de outros projetos sociais, o desafio busca despertar o interesse no esporte e turismo de base comunitária, gerar renda local e dar visibilidade aos aspectos positivos da comunidade, a paisagem e a geografia do bairro, de modo a romper com marketing negativo comumente enfatizado pela mídia sobre as comunidades de periferias urbanas como um lugar perigoso e violento. (Ricardo, 2023a, p. 42)
Ao analisar os depoimentos registrados - ver nota 7, a partir do segundo 54 -, é possível observar as dicotomias entre morro e asfalto, na expressão:
o morro Jesus de Nazareth tem trabalhador, tem estudante, tem profissionais de várias áreas. Então a gente tem uma riqueza, além daquela visão paisagística que a gente tem da ilha de Vitória, de cima do nosso morro, e da baía de Vitória. A gente tem muita coisa boa dentro da nossa comunidade, que não é tão vista normalmente. (Fernando Martins, Guia de Turismo e idealizador do Tour no Morro e co-produtor do Desafio das Escadarias, em entrevista a canal de televisão local)
Realizamos a leitura do depoimento do idealizador do Desafio das Escadarias a partir da exposição da antinomia entre morro e asfalto, dos conflitos expressos pela construção de sentidos a partir da metáfora Morro pelos habitantes do asfalto. É válido também a invocação das belezas cênicas alcançadas a partir do bairro, como um convite ao asfalto para conhecer o morro - a contradição entre ambos os leva a superar a existência conceitual e materializar experiências transformadoras. A experiência com a natureza provoca uma mudança de perspectiva em relação à própria comuπidade.
Por último, acompanhamos ainda a experiência da Arte com Lixo que tiveram duas edições, uma em 2019 e outra em 20228. Nessas atividades, moradores, pessoas ligadas à organizações não governamentais, instituições de ensino superior e coletivos do bairro se uniram para realização de mutirões de limpeza de um espaço fortemente reivindicado pelos moradores como espaço de fluxos de afetividades positivas: a praia da Castanheira. Nesse local, onde se concentram dois restaurantes com grande movimento de pessoas do asfalto, há uma pequena faixa de areia que se comunica com a baía de Vitória, formando uma praia - a única praia de um morro em Vitória, segundo declaram orgulhosos os moradores. A Arte com Lixo é uma denominação que agrega a primeira versão que foi nomeada Ação Coletiva em Prol da Vida Marinha e a segunda inserida no projeto Praia Limpa, organizada pela prefeitura local. O Tour nessas ações foi responsável pela mobilização dos moradores e instituições externas, bem como foi beneficiado pela ação, uma vez que teve apelo midiático positivo para o bairro. A vinculação com a natureza é intensa, já que atuou em um espaço reconhecido pelos moradores como ícone ambiental local, bem como mobilizou energias sociais para educação ambiental - o tratamento dos resíduos sólidos não reaproveitados pela sociedade. Segundo Ricardo (2023b): “Onde o morro encontra o mar, as potencialidades encontram os desafios. A praia é um dos locais escolhidos para as ações ambientais.” (p. 23).
Essas três iniciativas demonstram o potencial pedagógico do território de Jesus de Nazareth, a partir dos esforços de seus moradores. A alternância entre discursos que provocam hostilidades e as ações que visam demonstrar hospitalidade, bem como a tensão entre morro e asfalto e o papel da metáfora Tour, aqui personificada a partir de seu idealizador, mas que o transborda, apresenta as experimentações como ferramenta pedagógica para moradores e visitantes.
Assim, a partir da análise dos discursos sobre a comunidade Jesus de Nazareth, a tendência é compreender o pensamento slam (representado pelas atividades disseminadas pelo Tour no Morro) e o pensamento slum (discursos que enfatizam o conteúdo negativo sobre periferias) como dicotomias, entretanto, há um movimento de indecidibilidade que se revela nesse percurso de tradução, o que desloca a oposição que a metáfora morro desenvolve. Nessa perspectiva a metáfora comuπidade lê essas dicotomias como interpretações, leituras, potências criativas que atravessam os acontecimentos no território, e contribuem para acolher a questão socioambiental como elo constituinte deste percurso de tradução.
No caso do Tour, a questão socioambiental é acolhida como um modo de recontar a história da comunidade por meio de atividades e experimentações. Observa-se nessa estratégia um movimento de hostipitalidade com os discursos sobre Jesus de Nazareth. Há hostilidade com os conteúdos negativos divulgados sobre a comunidade e hospitalidade com os visitantes que respeitam a singularidade socioambiental do território.
Nesse sentido, a chance de acolher a natureza que atravessa a trajetória do território, é potencializada com a metáfora comuπidade. Isso ocorre, pois, a lógica da economia da suplementariedade, vivenciada nas atividades, é marcada por deslocamentos. O suplemento e a experimentação proporcionada por estes eventos invertem a oposição morro e asfalto. Entende-se Jesus de Nazareth como lugar periférico (π) “afastado dos diversos centros, topológicos, epistêmicos, políticos, econômicos, sociais, étnico-raciais, de gênero e sexualidade” (Miranda & Silva, 2022, p. 4), entretanto, há a desconstrução da ideia de afastamento dos centros como algo ruim, já que se repensa a periferia (π) como reserva de potências criativas e socioambientais (Pommer, 2019).
6. Conclusão
O percurso de atividades mobilizadas pela iniciativa Tour no Morro promove deslocamentos e inversões dos discursos sobre a Comunidade Jesus de Nazareth. Este trabalho revela que o território é atravessado por questões socioambientais singulares criadoras de outras economias além do circuito de consumo reprodutor, com ruptura do modelo prévio e transgressão do “limite da diferença discursiva” (Derrida, 2011, p. 402). Com essa leitura, procurou-se identificar as configurações que dificultam a concepção de futuros com a natureza.
Há necessidade de se lidar com as contradições do discurso de economia que restringe a leitura da comunidade ao pensamento slum, ao legitimar um modelo prévio cujo caminho traçado é a consolidação de uma métrica em que se qualifica o lugar periférico (π) como território afastado (Miranda & Silva, 2022). A natureza, nessa perspectiva, é reconhecida apenas como recurso socioambiental (gerenciável), o que valida a leitura logocêntrica da sociedade.
Assim, ao analisar esse acontecimento à luz da metáfora comuπidade, verificou-se procedimentos de hospitalidade condicional de Jesus de Nazareth com os discursos sobre o território, revelando hostilidade com as narrativas que fortalecem preconceitos em relação à comunidade. Dessa forma, verificou-se que a comunidade resiste aos discursos dos sujeitos do asfalto, quando estes enfatizam conteúdos negativos em suas análises a respeito do território.
Os discursos sobre a comunidade Jesus de Nazareth levam os sujeitos a refletirem sobre os estigmas do território, traduzidos pela metáfora morro. No entanto, esse discurso encontra resistências já que o propósito é assimilar a diversidade de experimentações com a natureza e integrá-las em um modelo prévio, lido como pensamento slum. A leitura do Tour, por sua vez, facilita a acolhida dos visitantes no território quando lê os discursos sobre a natureza como pensamentos abertos a rupturas na trajetória de desconstrução.
As atividades disseminadas pelo Tour, por conseguinte, colaboram com a interrupção da metáfora morro, quando acolhem as histórias singulares que atravessam a tradução. Essa hospitalidade incondicional é viabilizada através do deslocamento entre comunidade (morro) e visitante (asfalto). O hospedeiro é traduzido como refém do hóspede, tornando-se “hóspede do hóspede” (Derrida, 2003, p. 109). A comunidade (hospedeiro) traduz-se refém das imprevisibilidades e das singularidades do visitante (hóspede). O visitante não é lido como parte complementar de um todo, mas como suplemento que desconstrói discursos logocêntricos, como é o caso da comuπidade.
Por outro lado, as ações de mobilização comunitária disseminadas pela iniciativa Tour cooperaram para deslocar as idéias estigmatizantes do bairro. É o caso do projeto PESSoA, do Desafio das Escadarias e do evento Arte com Lixo. Essas atividades podem ser lidas como pensamento slam, pois acolhem as singularidades e potencialidades criativas da comunidade Jesus de Nazareth ao enfatizarem as questões socioambientais que envolvem o território, cooperando para desconstruir o pensamento reducionista que a cobertura jornalística comunica quando destaca as informações negativas do território. O que se verifica, portanto, é que a metáfora comuπidade colabora para o deslocamento da dicotomia “morro” e “asfalto", ao acolher a reconfiguração proposta por esses projetos. Reforça-se que cada atividade mobilizada pela iniciativa Tour contribui de um modo singular.
O projeto PESSoA, por exemplo, criou situações onde a memória de conhecimentos ancestrais do território foi fortalecida. Muitos moradores um dia foram estrangeiros no bairro, pois vieram do interior dos estados da Bahia e do Espírito Santo (com forte vínculo com o mar - pescadores - e com a terra - trabalhadores rurais). O Desafio das Escadarias, por sua vez, demonstrou que o bairro oferece condições para a prática de esportes e oportunidades para o turismo de base comunitária, valorizando-se a paisagem, a geografia e a beleza estética do lugar. Já o evento Arte com Lixo promove um processo de educação ambiental na praia da castanheira, um espaço bastante significativo para o lugar. A arte realizada com resíduos sólidos mobiliza “morro” e “asfalto" em uma ação coletiva que transforma o território, tornando um espaço mais agradável de convivência para os moradores e turistas.
Nesta trajetória, como caminho para desenvolvimento de estudos futuros, espera-se o olhar crítico sobre experimentações vividas em outras comunidades, haja vista que esta análise se focou nas atividades disseminadas pela iniciativa Tour do Morro. Este estudo se propôs a ouvir coletivos a respeito da hostipitalidade da comunidade com o visitante (turista e/ ou estrangeiro). Acredita-se que entrevistas com integrantes de outras comunidades podem ser realizadas, com o propósito de analisar as outras metáforas. Propõe-se que o estudo dessas outras mobilizações singulares, aconteça por meio do pensamento da desconstrução e da metáfora comuπidade, a fim de problematizar as configurações que desenvolvem metáforas logocêntricas e dificultam a concepção de futuros com a natureza.
Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo - Fapes. Também agradecemos à comunidade de Jesus de Nazareth, em especial Fernando Martins (Guia de Turismo e Embaixador do Turismo de Base Comunitária na Região Metropolitana da Grande Vitória - ES), que nos acolhe desde o ano de 2016, e nutre novas concepções de futuros com a natureza a partir de parcerias para projetos de pesquisa e de extensão.
Dados disponíveis mediante solicitação
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação aos autores correspondentes, desde que obedecidos os critérios éticos de pesquisa com seres humanos. O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a privacidade dos participantes da pesquisa, conforme aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa, bem como a utilização de dados produzidos por outros pesquisadores e disponibilizados.
Referências
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1
Ao longo deste artigo comuπidade escrito com a letra grega pi (π) em substituição no n fará menção à metáfora - essa apropriação será detalhada no tópico (3. Hostipitalidade: Um modo de ler o Tour na comunidade?). Quando escrito com a grafia utilizada na língua portuguesa - comunidade - fará referência à apropriação semântica usual.
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2
O bairro Jesus de Nazareth fica localizado no município de Vitória, capital do Espírito Santo. Apesar de sua localização em área central da cidade é considerado uma comunidade periférica ou favela, tendo em vista seus índices sociais - tráfico de drogas, configuração socioeconômica da população, falta de infraestrutura viária em parte considerável do bairro.
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3
Em 2022, O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente publicou documento onde denomina as Soluções baseadas na Natureza - SbN como “Ações para proteger, conservar, restaurar, usar de forma sustentável e gerir ecossistemas terrestres, de água doce, costeiros e marinhos, naturais ou modificados, que abordem os desafios sociais, económicos e ambientais de forma eficaz e adaptativa, proporcionando simultaneamente bem-estar humano, serviços ecossistêmicos, resiliência e benefícios para a biodiversidade.”. Destacamos aqui a menção para os ecossistemas ... modificados e a medida da simultaneidade.
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4
O Tour no Morro é uma iniciativa que nasce a princípio como uma estratégia de turismo de base comunitária, com o intuito de gerar renda em Jesus de Nazareth. Acompanhamos a ação desde 2016, bem como seus desdobramentos. Para mais informações ver: https://www.instagram.com/tournomorro/
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5
Projeto Emancipação Social a partir da Soberania Alimentar aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos, sob o número CAAE 64199422.4.0000.5072. Para maiores informações acerca do projeto ver: Santos, L. B. (2024). Quintais produtivos em periferias urbanas: O caso do Projeto Emancipação Social a partir da Soberania Alimentar. Revista Brasileira De Extensão Universitária, 15(1), 15-28. https://doi.org/10.29327/2303474.15.1-2
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6
Projeto aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos, sob o número CAAE 66372122.1.0000.5072. Para maiores informações acerca da dissertação ver: https://repositorio.ifes.edu.br/handle/123456789/4094.
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7
Para ver mais sobre o primeiro evento consultar vídeo “Corrida em escadaria movimenta bairro Jesus de Nazareth, em Vitória” https://globoplay.globo.com/v/7040433/
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8
Para maiores informações visualizar https://www.ultimosrefugios.org.br/single-post/limpeza-de-praia-em-vitoria-comunidadejesusdenazareth (2019) e https://www.agazeta.com.br/es/cotidiano/quase-uma-tonelada-de-residuo-e-lixo-e-retirada-de-praia-em-vitoria-0122 (2022)
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EDITORA GERAL:
Marcia Veirano Pinto http://orcid.org/0000-0002-0795-6297
