Observações sobre o Projeto Floram

Benedito Vasconcelos Mendes Sobre o autor

COMENTÁRIOS CRÍTICOS

Observações sobre o Projeto FLORAM

Benedito Vasconcelos Mendes

Professor titular da Escola Superior de Agricultura de Mossoró-ESAM

Por ser de abrangência mundial, necessitando, portanto, de extensas áreas de muitos países para reflorestar, o Projeto FLORAM não deve excluir as regiões secas (áridas e semi-áridas), em virtude, principalmente, da grande expressão geográfica destas terras. Um terço da superfície terrestre é de terras secas. Metade dos países do mundo possui parte ou a totalidade de seus territórios constituídos por terras áridas ou semi-áridas. Somente os trópicos semi-áridos do planeta abrangem uma área de, aproximadamente, 20 milhões de km2, espalhados em meia centena de países de todos os continentes e representam mais da metade das terras agricultáveis do mundo.

1. O Projeto FLORAM deve conter um plano de desenvolvimento socio-econômico para o semi-árido nordestino baseado em atividades agrossilvopastoris.

Considerando que, em termos globais, o Projeto FLORAM coloca o interesse ecológico acima do econômico, nada mais lógico do que, também, no âmbito nacional, se procure agregar ao objetivo principal outras vantagens ambientais e sociais, para que se consiga, a partir do interesse sócio-ecológico regional, alcançar o objetivo universal. Neste particular, a região semi-árida do Nordeste brasileiro, por ser muito vasta, pobre e populosa e por possuir ecossistemas frágeis, altamente vulneráveis à degradação, deve ser priorizada em qualquer plano nacional de reflorestamento que prefira as vantagens ecológicas e/ou sociais ao interesse puramente industrial.

Sugerimos que o reflorestamento desta região seja voltado, prioritariamente, para o desenvolvimento rural e para o controle da desertificação, dando mais prioridade aos aspectos sociais e ecológicos do que mesmo ao econômico.

As deficiências de clima e solo regionais limitam a produtividade madeireira para fins de produção de celulose, porém, não impedem o reflorestamento com essências perenifòlias xerófilas de fins múltiplos como certas frutíferas, forrageiras e produtoras de matérias-primas industriais como óleo, cera, borracha, resinas, tanino, cosméticos, produtos farmacêuticos, fibras e outros. A alegação de que o semi-árido nordestino não deve ser reflorestado por não possibilitar altas produtividades de fitomassa não deve ser aceita, mormente em um projeto predominantemente ecológico como se propõe a ser o Projeto FLORAM. Ao contrário, a região semi-árida nordestina, por possuir vocação natural para a desertificaçao, deve merecer um tratamento privilegiado em relação às outras áreas menos degradadas do país. Sabe-se que a ocorrência de secas periódicas, as características climáticas é edáficas e a pressão humana, traduzida, principalmente, pelo indiscriminado desmatamento e superpastejo dos animais domésticos que o Polígono das Secas, apresenta são os principais responsáveis pelo acelerado processo de desertificação que a região está sofrendo.

Para a recuperação das áreas degradadas do Nordeste seco, sugerimos que o Projeto FLORAM seja enriquecido com um plano de ação agroflorestal para promover o desenvolvimento sócio-econômico regional. Assim, além de contribuir para, em termos locais, atingir o objetivo principal, agregam-se ao projeto outros benefícios ecológicos, sociais e econômicos para esta região e, conseqüentemente, para o país.

2. No semi-árido nordestino existem plantas perenifólias xerófilas que possuem elevada capacidade de fixação de CO2 e que produzem frutos produtos de grande valor econômico.

Com relação à eficiência na fixação de CO2 e ao retorno econômico dos investimentos que serão feitos, o reflorestamento com árvores frutíferas, forrageiras e industriais (produtoras de óleo, cera, resinas etc.) perenifólias xerófilas, atende a estes dois requisitos, haja vista a grande produção de frutos de elevado valor comercial, de produtos industriais e de massa verde que apresentam algumas das espécies recomendadas para estes fins.

3. A região seca nordestina possui extensas áreas disponíveis para atividades agrossilvopastoris.

A região semi-árida nordestina oferece grande disponibilidade de terras que, no momento, estão ociosas e que se prestam para programas de reflorestamento. São terras desmatadas, de baixo valor venal, que não estão sendo utilizadas na agricultura. Programas agrossilvopastoris poderão transformar estas áreas ociosas em terras altamente produtivas, onde a ecologia poderá ser compatibilizada com o desenvolvimento social e econômico da região.

4. O Projeto FLORAM deve propiciar maior porcentagem de reflorestamentos com fins múltiplos, mediante o acréscimo de 5 milhões de hectares a serem reflorestados no semi-árido nordestino.

Considerando as péssimas condições de preservação ambiental verificadas em quase todo território brasileiro, a porcentagem de 71,8% de reflorestamento industrial propriamente dito, que é proposto no referido Projeto, é muito elevada. Para diminuir esta taxa, recomendamos o aumento da porcentagem de reflorestamentos com finalidade múltipla, mediante o acréscimo de 5 milhões de hectares com este tipo de reflorestamento no Nordeste seco. Assim, a inclusão da região semi-árida dó Nordeste pára ser reflorestada em larga escala, obedecendo a uma estratégia fundamentada em ações agrossilvopastoris, servirá para aumentar a participação dos plantios ecológicos/utilitários em relação àqueles destinados à produção de celulose. O reflorestamento de 5 milhões de hectares com essências xerófilas, obedecendo a um plano que possibilite a participação do maior número possível de pequenas e médias propriedades rurais, localizadas na vasta região semi-árida dos nove Estados nordestinos, contribuirá de maneira efetiva para capacitar o Polígono das Secas para melhor conviver com as secas periódicas.

Para a recuperação das áreas degradadas do Nordeste seco, sugerimos que o Projeto FLORAM seja enriquecido com um plano de ação agroflorestal para promover o desenvolvimento sócio-econômico regional.

5. A utilização da região seca do Nordeste para reflorestamento deve levar em consideração os critérios estratégicos do tema conservação e uso do solo estabelecido no Projeto FLORAM.

Ás estratégias e planos de ação estabelecidos para o tema "Reflorestamento e Uso do Solo" do Projeto FLORAM se encaixam muito bem nos critérios que devem ser obedecidos no Plano para o Desenvolvimento Sócio-Econômico desta região, que deve ser baseado em atividades agrossilvopastoris. Sugerimos, entretanto, algumas alterações nas estratégias e planos de ação, como mostra o quadro a seguir:

6. O Polígono das Secas necessita gerar tecnologias para passar a produzir matérias-primas industriais nobres, de origem vegetal.

A região seca do Nordeste apresenta grande potencialidade para a exploração econômica de árvores xerófilas fornecedoras de matérias-primas industriais, como as produtoras de óleo, cera, borracha, tanino, resinas, cosméticos, produtos farmacêuticos, fibras e outros produtos. Para viabilizar o reflorestamento da região com estas plantas, sugerimos algumas modificações nas "Estratégias para o Reflorestamento nos Sertões do Nordeste Seco" que estão incluídas no item "Estratégias Diferenciadas por Domínios e Espaços Regionais", conforme o quadro que segue:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Mar 2006
  • Data do Fascículo
    Ago 1990
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