Meus poemas favoritos de ontem & hoje

DOSSIÊ AMAZÔNIA BRASILEIRA II

CULTURA

Meus poemas favoritos de ontem & hoje

Benedito Nunes

As preferências não elidem o juízo crítico. Os poemas que escolhi são esteticamente autônomos. Diferem pela escrita, pelo tom ou pela atitude perante o mundo e os outros. Prefiro os de menor clicheria verbal, os mais sóbrios e os menos "regionalistas", sem desvalorizar a região ou a cor local como meio de passagem ao universal. Excluo os novidadeiros, os modistas, os domingueiros. As qualidades de linguagem enunciativa de cada qual, a fala em lugar do falatório, condicionam largamente minhas preferências. Enfim, estão aqui doze poetas paraenses distintos, reunidos tão só, malgrado as diferenças de idade, época e escola, tão só pelas suas qualidades afins.

O nativo de câncer (fragmento do poema)

Tessitura do arcano, equipagem noturna,

alva rede balança. Juramento nem lei

a ligam à pátria. Cordas e fronteiras

não a prendem:

Esta é Tisbe,

onde as pombas adejam ruidosas.

Esta Eleusis,

de Ceres e de Mário a mais amada.

E, grudado ao negro cabrestame, equinócios

de visgo, luas, peixes, nas quilhas

dessa rede itinerante.

Ó Alcino, sogro e rei, às tuas praias

de perenes lembranças retornei,

pois, se das águas salvo fui um dia,

das voragens do amor não me salvei,

e nessa nau que vês, nutriz de sonhos,

a Óbidos, aos deuses consagrada,

a inupta consorte levarei.

E dois agora somos nesse barco,

mas, se a Circe somarmos somos três.

Ruy Barata (1920-1990), Antilogia. Coletânea de poemas, 2000.

Ode

Os dedos contam as ondas,

os minutos talvez,

jamais o anelo.

Podes marcar a face disfarçada,

a barba,

os bens,

todos os sonhos,

mas escravos do real só te aceitamos

na tua farda de pêlos,

sangue

e ossos.

Quando recriarás a trança libertária,

o horizonte do mito,

o Deus negado,

a tela do perene e do intocável?

Quando libertarás a página e o relógio,

o ser distante que revel condenas

às arestas da ruga e aos frutos sazonados?

Quando

(deste olhar em diagonal ao espelho e à morte)

farás ruir ao peso de teu gládio

e ao sulco de teu grito

as taças do não ser,

o veneno da aurora,

as portas do visível,

e do invisível?

Ó jamais seremos sós perante a Fonte,

jamais seremos nós e a ti mostramos

o sorriso de "clown" que se reparte

em contorções de esperma,

tédio,

e ódio.

Jamais conservaremos o perfume e a liturgia,

e a hora que se esvai não justifica

este desabrochar em cálice e corola.

Não ser

(embora seja no retrato),

não ter

(para ao flagelo condenar-se),

não sentir o chamar do céu porque beleza

e memória de ausências povoada.

Estamos sós,

bem sei,

e como é noite

arrancas o teu mundo no arbitrário,

e a poesia morde o que não é.

Quem te susteve o braço suicida:

a ode ou o catecismo?

Quem te ligou à sorte deste povo:

o sonho ou a promissória?

Quem te fez espalmar a mão como inocente

e a cabeça baixar como culpado?

Ó tempo,

ó dimensão do exílio e da orfandade,

e se não digo eterno,

quase eterno,

deixai toda esperança

"voi che entratte".

Ruy Barata, A linha imaginária, 1951.

Canção dos quarenta anos

Poema, suspende a taça

pelos dias que vivi.

Espelho, diz-me em que jaça

mais fiel me refleti.

Quarenta anos correram

e neles também corri.

Quarenta anos, quarenta.

Quantos mais inda virão?

Morrerei hoje de infarto

ou amanhã de solidão?

Serei pasto da malária?

Serei presa do avião?

A morte engendra esperança.

A morte sabe fingir.

A morte apaga a lembrança

da morte que vai ferir.

E em cada instante que passa

a morte pode surgir.

Quem pode medir um homem?

Quem pode um homem julgar?

Um homem é terra de sonhos,

sonho é mundo a decifrar.

Naveguei ontem no vento,

hoje cavalgo no mar.

Hoje sou. Ontem não era.

Amanhã de quem serei?

Um homem é sempre segredos.

Por qual deles purgarei?

Dos meus netos, qual o neto

em que me repetirei?

Que virtudes foram minhas?

Que pecados confessar?

Que territórios de enganos

a meus filhos vou legar?

A quem passarei meu canto

quando meu canto passar?

Ah! Como a vida é ligeira!

Ah! Como o tempo deflui!

Esse espelho não mais fala

da criança que já fui.

Das minhas rugas ruindo

apenas um nome rui.

Quedê rede balançando?

Quedê peixinhos do mar?

Quedê figo da figueira

pro passarinho bicar?

E o anel que tu me deste

em que dedo foi parar?

Dezembro chama janeiro.

Fevereiro irá chamar?

Monte-Cristo se me visse

não iria acreditar.

Como está velho, diria

a donzela Dagmar.

Um homem cresce espalhando

o reino em que foi feliz.

Onde Athos? Porthos?

Onde o tímido Aramis?

Um homem cresce querendo

e cresce quando não quis.

Crescer é rima de vida,

mas também é de morrer.

Crescer é terna ferida

que só dói no entardecer.

Em cada raiz da morte

há sempre um verbo crescer.

E cresço: macho e poeta.

Subo em linha, volto em cor.

Cresço violentamente.

Cresço em rajadas de amor.

Cresço nos filhos crescendo.

Cresço depois que me for.

Cresço em tempo de eternidade,

cresço em luta, cresço em dor,

não fiz meu verso castrado

nem me rendo ao opressor.

Cresço no povo crescendo,

cresço depois que me for.

E cresço na aurora livre

galopando esse corcel.

Cresço no verso espumando

entre as linhas do papel.

Cresço rubro de esperança

na barba de Don Fidel.

Quarenta anos, quarenta.

E nem sequer percebi.

Quarenta anos correram

e neles também corri.

E nesses quarenta anos,

oitenta de amor por ti.

Ruy Barata, Antilogia. Coletânea de poemas, 2000.

Elegia

Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária

E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite

Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas

E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,

De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,

Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos

Eu te acompanho pelo céu escuro

Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias.

Paulo Plínio Abreu (1921-1959), Poesia.

O comedor de fogo

Veio do comedor de fogo e de seus milagres a esperança impossível.

Do comedor de fogo e de seus milagres à porta de sua tenda

Onde dormiam os cães numa nuvem de moscas.

Veio do comedor de fogo a esperança dos mundos impossíveis.

Veio dessa lembrança hoje apagada pelo tempo o sombrio desejo de evasão.

Veio do comedor de fogo a visão da vida aberta como um grande circo

E o convite irreal para a distância onde se esconde a morte.

Até o amor se perdeu nessa lembrança de um estranho comedor de fogo

E toda a infância confundiu-se com os milagres desse saltimbanco

E de seus cães doentes à porta de sua tenda.

Paulo Plínio Abreu, Poesia.

O polichinelo

O seu segredo era como o dos outros.

Seus olhos eram de vidro azul

e na boca vermelha

o riso da ironia.

O humor profundo, amargo e doloroso

vinha de sua boca;

o riso da sabedoria

e do desespero

gritava da sua boca aberta em sangue.

O riso do polichinelo

vinha do coração ausente, era uma advertência.

Era apenas o riso

e falava de um mundo

maior que sua alma.

Paulo Plínio Abreu, Poesia.

Nam sibyllam...

Lá onde um velho corpo desfraldava

As trêmulas imagens de seus anos;

Onde imaturo corpo condenava

Ao canibal solar seus tenros anos;

Lá onde em cada corpo vi gravadas

Lápides eloqüentes de um passado

Ou de um futuro argüido pelos anos;

Lá cândidos leões alvijubados

Às brisas temporais se espedaçavam

Contra as salsas areias sibilantes;

Lá vi o pó do espaço me enrolando

Em turbilhões de peixes e presságios —

Pois na orla do mundo as delatantes

Sombras marinhas, vagas, me apontavam.

Mário Faustino, O Homem e sua hora.

...

Gaivota, vais e voltas,

gaivota, vais – e não voltas.

Somem-se os homens, deixam-se os peixes

ir à deriva –

mal se respira

o ar do mundo

e experimenta-se a voracidade

do mar, do fundo

envenenado:

esperma – e mente,

ira – e sorriso,

esperança – e dança.

Alguém traz a mirra,

traz açafrão, azeite, vinagre:

eis o homem disposto, com suas faixas,

ei-lo em templo deposto, entre seus panos.

Maresia, santidade – que perfume!

Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,

cala-se alguém que não quis beber,

alguém que não quis

o mar, em vão e nada, o árduo mundo,

gota após gota, anos e anos.

Contemplando o poente, os albatrozes

refletem-se nos elmos derrotados.

Alguém canta o refrão. As algas dançam

no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,

açoite após açoite.

agora, enfim, é noite

e esvaem-se os navios.

– É esta, então, a Vera Cidade?

– É essa, Adão, a tua verdade?

Alguém não quis viver,

alguém não quis seu fardo, suas rotas,

alguém entre alcatrazes,

entre peixes vorazes, ser disforme –

santo lume nascente, ou heresia?

Um rei entre santelmos –

(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,

Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)

...

Mário Faustino, O Homem e sua hora.

Não me avisaram de teu pouso

Para Mário Faustino

Quando te vi no início

– nas linhas do livro –

o sol trabalhava a louça azul esmaltada

os pássaros moravam em teus calcanhares

e voavas.

Quando te vi novamente

– no fim do filme –

o musgo trabalhava a lousa fria póstuma

mas teu epitáfio era legível:

A morte tem o peso de um pouso.

Paulo Vieira, Infância vegetal.

Prece para um carneiro morto

Rezemos uma prece em memória do carneiro assassinado

antes que a justiça atinja nossas testas

com um golpe certeiro e seco

do machado dos dias.

Paulo Vieira, Infância vegetal.

Matéria eterna

Hoje deixe tudo o que é breve

E te consome os olhos sem sono

Perca o caminho do trabalho

Reconheça luas e sóis

Deixe tudo o que parece eterno mas é breve

e cuida de tua matéria

(o que parece breve não o é)

experimente:

retire os sapatos

e as meias três quartos

com pés de anjo

palmilhe o corpo de tua infância vegetal

depois repouse os pés

na terra cheirosa de tua posteridade

e esqueça tudo o que é breve.

Paulo Vieira, Infância vegetal.

CASA-NOITE, quatro

janelas

através, um grilo

opera todo o seu ser

composto de arredores – paisagem

e quase só som por dentro

Entre

norte, sul, leste, oeste, cinco

sentidos quase janelas

abertas ao

não dito

Alfabeto-Grilo

Antônio Moura, Hong Kong & outros poemas.

Almoço na relva

Do céu fechado

(semi-

círculo)

sobre o

lago

cai verde

uma gota de ave

– excremento –

abre n'água

círculos

concêntricos

O lago, outro

círculo

verde

circundado

por mais verde avermelhado

pelo círculo do sol

poente

relva onde talo teso gramo

às portas do seu

triângulo jardim

Antônio Moura, Hong Kong & outros poemas.

III

Canoeiro. Poeta. A lua

avança, peixe, entre ondas.

Uma via láctea de sílabas

canta em coral com piabas.

Que noite ampara esta clara

ave palavra sem pouso,

que ousa, entre Ursa e a rara

estrela, traçar seu verso?

Quem faz o texto navega

vaga e refaz tudo o que

desfez em outros começos,

rema entre rumos até

que o pêndulo das marés,

nesse relógio primeiro,

resolva parar no tempo

de algum poema, o ponteiro.

João de Jesus Paes Loureiro, O ser aberto.

V

A minha canoa vive

além de mim e da morte.

A forma é sua eternidade.

Língua e linguagem. A sorte.

Eu sou, enquanto navego,

de seu ego, nave, templo.

A sua razão de ser.

Metáfora do momento.

Oh! Geometria com alma!

Assim é minha canoa...

Boiúna boiando. Vago

lume vago que flutua.

O que ficará de nós,

além do nada que é nosso:

madeira, quilhas e ossos

cabelo, pedra e verso?

João de Jesus Paes Loureiro, O ser aberto.

Pai João

Pai João sonolento bambo na pachorra da idade

cisma tempo de ontem.

De olhos vendo o passado recorda o veterano

a vida brasileira que ele viu e gozou e viveu!

Mãe Maria contou que o pai dele era escravo...

Moleque sagica e teso, destro e afoito num rolo,

Pai João teve fama da capoeira e navalhista.

– Eita!... era o pé comendo,

quando a banda marcial saía à rua,

com tanto soldado de calça encarnada.

E rabo-de-arraia, cabeçada na polícia,

xadrez, desordens, furdunço no cortiço

e o ronco e o retumbo do zonzo som molengo do carimbó.

"Juvená

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!

De amores... uma anágua de renda engomada,

um cabeção pulando nos bicos duns peitos,

umas sandálias brancas bem na pontinha dum pé.

E o rebolo bolinante dos quartos roliços da Chica Cheirosa...

E a guerra do Paraguai! Recrutamento!

Gurjão! Osório! Duque de Caxias!

Itororó! Tuiutí! Laguna!

E não sabia nem o que era monarquia!

... Agora, sonolento o bambo,

tendo em capuchos a trunfa,

Pai João ao recordar a vida brasileira,

que ele viu e gostou e viveu,

diz do Brasil de ontem:

AH! MEU TEMPO!...

Bruno de Menezes (1893-1963), Batuque.

Batuque

(1) – "Nêga qui tu tem?

– Maribondo Sinhá!

– Nêga qui tu tem?

– Maribondo Sinhá!"

CANTIGA DE BATUQUE – (MOTIVO)

RUFA o batuque na cadência alucinante

– do jongo do samba na onda que banza.

Desnalgamentos bamboleios sapateios, cirandeios,

cabindas cantando lundús das cubatas.

Patichoulli cipó-catinga priprioca,

baunilha pau-rosa orisa jasmim.

Gaforinhas riscadas abertas ao meio,

crioulas mulatas gente pixaim...

(1) – "Nêga qui tu tem?

– Maribondo Sinhá!

– Nêga qui tu tem?

– Maribondo Sinhá!"

Sudorâncias bunduns mesclam-se intoxicantes

no fartum dos suarentos corpos lisos lustrosos.

Ventres empinam-se no arrojo da umbigada,

as palmas batem o compasso da toada.

(2) – "Eu tava na minha roça

maribondo me mordeu!..."

Ó princesa Isabel! Patrocínio! Nabuco!

Visconde do Rio Branco!

Euzébio de Queiroz!

E o batuque batendo e a cantiga cantando

lembram na noite morna a tragédia da raça!

Mãe Preta deu sangue branco a muito "Sinhô moço"...

(3) – "Maribondo no meu corpo!

– Maribondo Sinhá.!"

Roupas de renda a lua lava no terreiro,

um cheiro forte de resinas mandingueiras

vem da floresta e entra nos corpos em requebros.

(1) – "Nêga qui tu tem?

– Maribondo num dêxa

– Nêga trabalhá!..."

E rola e ronda e ginga e tomba e funga e samba,

a onda que afunda na cadência sensual.

O batuque rebate rufando banseiros,

As carnes retremem na dança carnal!...

(3) – "Maribondo no meu corpo!

– Maribondo Sinhá!

– É por cima é por baxo!

– é por todo lugá!"

Bruno de Menezes, Batuque.

Visita de Santo

Meu S. João,

na noite do vosso dia,

com fogueiras brilhando de alegria,

com alegras cantando num rojão,

parai um pouco na melancolia

do meu portão!

Ponde aqui o cordeirinho!...

Sentai no banco a meu lado!...

Tanta estrela no céu, e eu tão sozinho!...

Na terra, tantos sons, e eu tão calado!...

Meu santo bom, por outra noite vossa,

igual a esta (que lembrá-la possa

durante a vida que viver eu vou!...),

mandei-vos, num balão, um sonho lindo

que foi subindo,

foi subindo,

foi subindo,

té que, muito no alto, se queimou...

Mal de muitos?... Eu sei...

Mas também sei

que nunca mais outro balão soltei.

Nunca mais, nunca mais...

........................................................................

Que brisa fria!...

Lá vem o sol como balão dourado!

Levantai-vos, partis?!... Muito obrigado!

DEUS vos pague no céu, meu S. João,

esta parada na melancolia

do meu portão!...

Antonio Tavernard (1908-1936), Místicos e bárbaros.

Última carta

Sobre o leito de morte do poeta, foi

encontrado esse papel cheio de letras

trêmulas e manchado de lágrimas.

Por que não me vens ver? Estou doente...

É possível que morra com o luar...

Anda, lá fora, um vento, tristemente,

as ilusões das rosas a esfolhar.

E, aqui dentro, na alcova penumbrada,

onde arquejo, sozinho, sem sequer

a invisível presença abençoada

de um pensamento meigo de mulher,

há o desconsolo imenso, a imensa dor

de alguém que vai morrer sem seu amor...

De quando em quando,

o coração, que sinto

cada vez mais cansado, se arrastando,

marcando o tempo, recontando as horas,

pergunta-me, num sopro quase extinto,

quando é que virás...

Volta depressa, sim?... Se te demoras,

já não me encontrarás...

Ouço, longe, a gemer de harpas eólias...

É de febre... Começo a delirar...

Desabrocham, no parque, as magnólias...

Vem surgindo o luar...

E, como a luz do luar que vem nascendo,

eu vou aos poucos, meu amor, morrendo...

Antonio Tavernard (1908-1936), Místicos e bárbaros.

A casa

Esta casa é uma ruína,

quase terreno baldio:

coração de minha mãe

– esta terra de ninguém,

está cheio e está vazio.

Esta casa vem abaixo,

está prestes a cair.

Esta casa foi à lua,

esta casa foi um tronco,

foi navio

com seu mar encapelado

e bandeiras em abril

(minha mãe na capitânea,

na janela minha irmã).

Tantos anos se passaram,

tantos sonhos se esgotaram;

minha mãe nos sustentava,

nos amava e costurava

nossa vida à sua alma

como a roupa que vestia.

Esta casa é uma ruína

que dá pena a seus vizinhos.

Sobem ervas nas paredes

desta casa-soledade

encolhida pela vida

que dentro dela cresceu;

esta vida que é poeira

esta vida que é silêncio

esta vida que é fechada

esta vida que é goteira

nesta casa condenada.

Esta casa tinha escada,

esta escada três degraus.

E no último tropeçaram

estes sete filhos seus.

Nesta casa inda ressoa

o pigarro de meu pai

(seu cigarro era uma brasa

nessa noite que o escondeu

de seus filhos tropeçados

nesta vida que os comeu).

Esta casa vai cair!

Veio abaixo nossa vida,

veio a chuva, foi-se o sol;

a lama sobe a escada,

às paredes sobe o limo:

esta casa enlouqueceu!

Nossa mãe se ressequiu.

Sua vida é uma máquina

que de surda enrouqueceu

(único sinal de vida

que a escada não desceu).

Mas é forte esta sua lida,

sua máquina que não pára

que nos cose e nos trabalha.

Max Martins, Não para consolar.

X

A tarde era um problema

(emblema)

a

re

(sol)

VER

O parque

Um violino com seu arco – armava a ponte-pênsil

para o crepúsculo

teias

fibras, fi(m)lamentos

entre

sombras, sabres maduros, árvores

em silêncio.

Idem

a Catedral

de granito, dura

enigmagnetíssima

gótica

no meio do parque

OLHO

genitoris ego

cêntrico

órgão só ave

e

santo

CANTO

ergo:

Imo D'ego

lado: panis ! lado: penis

Era

a hora do juízo

Estendido sobre a grama nu o poeta ruminava a sua

semente-alvo

Salvo

(e insolúvél)

Max Martins, Não para consolar.

Travessia – I (1926-1966)

Existe é homem humano. Travessia.

João Guimarães Rosa

Nasci no mar, dans le bateau

ivre, drapeau d'Arthur, de la muit;

batel fazendo o mapa e o mapa

estas suas águas mágoas,

vagas lembranças, lenços e quebrantos.

– eu era o mar ovante sobre os ombros,

ardendo nas virilhas.

Ou o mar aberto, pulcro de silêncios,

enxame de vidrilhos.

Um bem cevado mar, galhardo moço,

às vezes calmo e desportivo.

Canto esta viagem donde trouxe

astros e asas pelos mastros

(e aos seus lamentos eis-me chegado

– piapitum (*) no rio defunto

impaludado).

Max Martins, Não para consolar.

Sou o mundo

Sou o mundo.

O possível é o horizonte...

Criaturas do mar dormem

balançando-se nas ondas.

Ressoam as vagas

na concha do tempo.

Vem.

A promessa pousa

suas asas entre nós.

Navega.

A certeza é o poente.

Lilia Silvestre Chaves, E todas as orquestras acenderam a lua.

Amar é esquecer-se para o outro

Amar

é esquecer-se para o outro.

É a procura da alma nos sentidos.

É sentir que a liberdade está perdida,

Nos longes de uma eterna despedida.

Amar

é esperar pelo passado

Que se perde no reverso das estrelas.

E, se a memória do tempo é desventura,

A vida é traço de palavra impura.

Lilia Silvestre Chaves, E todas as orquestras acenderam a lua.

Eu temo mesmo que um dia

Eu temo mesmo que um dia,

de tanta melancolia,

torne-me nuvem na alma,

perca-me em tua calma,

dissolva meu desvario

no longe rumo do rio.

Cuidado com este corpo,

é um desenho já morto,

sem cor, sem vida, vazio.

Lilia Silvestre Chaves, E todas as orquestras acenderam a lua.

VENDE-SE

A casa

Foi caiada

Há pouco tempo

Abriga ainda

O mormaço

Dos corpos

A penumbra

Do beijo

A ecoar

O estio

E as estações

Nas vigas nos moirões

No cercado

A violência do sol

No quintal

O cheirar das horas

Verdoengas

Reacendendo

O tempo

Oh tempo!

Que as janelas

Cantavam

E o riso florescia

Na casa

As vozes

E a indulgência do silêncio

Jorge Andrade, Em memória da chuva.

COTIDIANO

É de silêncio

o vazio

o dia

é viril

é de açúcar

a manga

flechada

pelo sol

e o vento

verde

a grama

umedecida

a fome

grave

greva

na boca

(é de muro

a história)

Jorge Andrade, Em memória da chuva.

A CADELA

Caminhava grave pela casa

a cadela.

A cabeça quieta era sua altivez

quadrúpede no centro da cozinha.

Caminhava. Os olhos, costelas,

o mar de ossos, o coração

pardo e lento – caminhava.

A manhã debruçava-se pela janela: cristais no pó,

o púcaro da china, horas de louça

batendo nas palavras na sala da casa.

A cadela caminhava, dura,

secular.

(Domingo dormia

prolongado como um funcionário feriado).

Vivera demais. Descansava à sombra,

perto do quarador.

Sonhava farta, invisível,

a cadela azul,

nua

(o sexo velho e molhado,

um caranguejo arcaico sob o rabo).

Dormia, vazia.

Outubro doía longe, na Ásia,

quando a Fuluca anunciou: "A Catucha morreu".

Age de Carvalho, Ror.

Epitalâmio

à Martina

[e

assim

se inicia – duplo, orante

o anel que aqui nos unia,

selo e semente celebrados:

um e al, alumbrados

unoutro e ouro

iniciamos a viagem,

tocha ofertada ao escuro,

o carvalho tatuado ao nome

e um Sempre pousado nos lábios

(serpente folheada

entre rosas, o coração

entalhado sob iniciais em chamas)

abençoando a primeira página

do livro,

"Pelo casamento

e pela nossa aliança"

* * *

[...]

[...]

vestido [

[

açafrão [

vestido de púrpu[ra

manto [

guirlandas [

[...]

[...]

púrp[ura

[...]

[...]

[...]

p [

* * *

(Nas descargas confortáveis da noite,

beijando o rasto luxuoso do rímel

sob estrelas, o fósforo

entre as mãos

apagando as luzes da cidade –

o mundo, velocidades

distanciando-se pelo retrovisor,

ela dizia: [...rapto,

..] um brilho, sorriso

.. [ ... )

Age de Carvalho, Caveira 41.

Referências

ABREU, Paulo Plínio. Poesia. Belém, Universidade Federal do Pará, 1978.

ANDRADE, Jorge. Em memória da chuva. Belém, IAP (Prêmio Instituto de Artes do Pará, Literatura), 2003.

BARATA, Ruy. Antilogia. Belém, Secult / RGB, 2000.

CHAVES, Lilia Silvestre. E todas as orquestras acenderam a lua. Belém, Imprensa Oficial do Estado, 2000.

CARVALHO, Age de. Ror (1980-1990). São Paulo, Duas Cidades / Secretaria de Estado da Cultura,1990.

______. Caveira 41. São Paulo / Rio de Janeiro, Cosac & Naify / 7 Letras, 2003.

FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.

LOUREIRO, Joâo de Jesus Paes. Tarefa. Belém, União Acadêmica Paraense/ Falângola, 1964.

______. O ser aberto. Belém, Cultural Brasil, Cejup, 1991.

MARTINS, Max. Não para consolar: poesia completa. Belém, Cejup, 1992.

MENEZES, Bruno de. Batuque (poemas). Em Obras completas, Obra poética, vol.I, Belém, Secretaria de Estado da Cultura, 1993.

MOURA, Antônio. Hong Kong e outros poemas. São Paulo, Ateliê Editorial, 1999.

TAVERNARD, Antonio. Místicos e bárbaros, 1953. Em Obras reunidas, vol.1: Poesia. Belém, Conselho Estadual de Cultura, 1986.

VIEIRA, Paulo. Infância vegetal. Belém. IAP (Prêmio Instituto de Artes do Pará de Literatura), 2004.

BENEDITO JOSÉ VIANA DA COSTA NUNES nasceu em Belém, Pará, no dia 21 de novembro de 1929. É professor emérito da UFPA e escritor. Colaborou em obras coletivas nacionais (O romantismo, O modernismo, Idéias estéticas no Brasil) e estrangeiras, como The Literary Historiography of Brazil in Latin América Literature III, Cambridge, 1966 e Belém, Cultural Center, Literary Cultures of Latin America, A Comparative History II, Oxford University Press, 2004. Individualmente publicou, entre outros, os seguintes livros: O drama da linguagem (Clarice Lispector), 1989; Introdução à filosofia da arte, 1989; O dorso do tigre, 1969; Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), 1986 e Filosofia contemporânea, revista e atualizada, 2004.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2005
  • Data do Fascículo
    Ago 2005
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