RESUMO
Embora estudos apontem, cada vez mais, a ampliação de índices da denominada juventude “nem, nem, nem” (nem estuda, nem trabalha, nem pretende voltar a trabalhar e estudar) e a intensificação de sua inserção em facções e rotas do tráfico na paisagem das metrópoles, paradoxalmente observa-se um incremento de experiências juvenis criativas que emergem da vivência das ruas e da formação de coletivos de periferia. Práticas culturais de origem diversa atravessam lugares materiais e digitais, mobilizando entre jovens múltiplos fazeres: organização de saraus, produções audiovisuais realizadas por meio de celulares, formação de coletivos de arte, inserção em grupos de teatros de rua, dentre outros. Contrariando caminhos normativos mediados pela via institucional escola/trabalho e sob um efeito de “táticas desviacionistas” (De Certeau), essas juventudes parecem condensar signos inventariados pelas mídias com repertórios concernentes a estéticas, jeitos e linguagens pactuados nas culturas de rua. Este artigo pretende, assim, discorrer acerca da experiência exemplar de produção do seriado La Casa d’uz Vetin, produzido por influenciadores digitais da periferia, destacando novos diagramas de criatividade e práticas emblemáticas das juventudes contemporâneas.
PALAVRAS-CHAVE:
Juventude; Arte; Redes sociais digitais; Criação; Cultura de rua
ABSTRACT
Although studies increasingly show the growth of the so-called “neither, nor, nor” youths (who neither study, nor work, nor intend to go back to work and study), and their greater insertion in drug trafficking factions and routes in the metropolitan landscape, there is, paradoxically, a rise in creative youth experiences emerging from street life itself and from the formation of collectives in the periphery of cities. Cultural practices of different origins crisscross the material and digital spheres, mobilizing youth to multiple actions, such as organizing soirees, making videos and music on smartphones, creating art collectives, and participating in street theater groups, among others. Going against the grain of normative paths mediated by the institutional route of school/work and under the influence of “deviation tactics” (De Certeau, 1994), these youths seem to condense signs inventoried by the media with repertoires concerning the agreed-upon aesthetics, manners and languages of street cultures. This article intends to discuss the exemplary production experience of the series La Casa Dúz Vetin, produced by digital influencers from the urban periphery, highlighting new diagrams of creativity and emblematic practices of contemporary youth.
KEYWORDS:
Youth; Art; Digital social networks; Creation; Street culture
Os bastidores: quando a palavra é gesto
Este artigo pretende narrar linhas de encontros, atuações, diálogos, participações cruzadas, colaborações entre jovens moradores das periferias de Fortaleza, realizadas por meio de uma extensiva pesquisa antropológica.2
Ao longo de experiências de investigação acadêmica encetadas há mais de duas décadas, no âmbito das práticas e das culturas juvenis,3 pude intuir que seguir caminhos, partilhar espaços de convivência, de produção de eventos, estar em shows, exposições, saraus, exibições torna-se por vezes mais rico do que a edição prévia de um mapa em que o pesquisador pré-define os sítios da pesquisa, seus instrumentos e técnicas.4
Ao invés de tomar variáveis explicativas e generalizantes tais quais a juventude, a cidade, assim como Agier (2011, p.59), pude observar que os conhecimentos da antropologia urbana emergem de uma sequência de “montagem da vida urbana, retiradas de uma ínfima parte do curso real do mundo”. Decidi, assim, no esteio de outros antropólogos urbanos, traçar uma rota metodológica que se esboça no curso de uma geografia que se refaz, continuamente, e transmuda o objeto da análise.
Por meio de uma investigação que vem sendo desenvolvida junto com pesquisadores do Laboratório das Artes e das Juventudes (Lajus),5 acerca da produção das artes de rua em Fortaleza,6 diferentes sequências de encontros, de trocas foram se sucedendo no âmbito dos cenários juvenis. Observo que, muito embora estudos apontem, cada vez mais, a ampliação de índices da denominada juventude “nem, nem, nem” (não estuda, nem trabalha, nem pretende voltar a trabalhar e estudar),7 paradoxalmente, identifica-se um incremento de experiências juvenis criativas,8 que emergem de vivências de rua e que acontecem, no geral, sem a mediação de agentes “externos” ou sem o protagonismo direto deles.
Entre paisagens materiais e digitais,9 práticas culturais de origem diversa, de variadas estéticas e linguagens, têm mobilizado múltiplos fazeres juvenis; tais quais a organização de saraus, as produções audiovisuais realizadas por meio de celulares, a formação de coletivos de arte, a inserção em grupos de teatros de rua, dentre tantos outros. Contrariando caminhos normativos mediados pela via institucional10 escola/trabalho e sob um efeito de “táticas desviacionistas” (De Certeau, 2000),11 essas juventudes parecem condensar signos inventariados pelas mídias com repertórios concernentes a jeitos e linguagens pactuados nas culturas de rua.12 Nesse sentido, este artigo pretende discorrer, tomando como caso exemplar a produção de um selo audiovisual da periferia denominado Vetinflix, acerca de novos diagramas de invenção e de criatividade de juventudes contemporâneas.
No âmbito das culturas de rua, uma “Fortaleza Cromática” aponta para fios diversos de experiências, balizados pela ligação dos jovens com o território, pela formação de coletivos, por esquemas de autoprodução e publicização de imagens, narrativas e audiovisuais. Vale ressaltar que a maior parte dessas iniciativas é de natureza autoral, registrada com selos “independentes”, sendo seus próprios produtores os responsáveis pela difusão e circulação dos conteúdos. São incontáveis as ações que, em Fortaleza, expressam essa pluralidade de práticas e enlace de coletivos juvenis.
Um dos exemplos exponenciaais diz respeito à destacada proliferação, na capital do Ceará, de saraus de periferia. Neles confluem poesia, literatura, leitura dramática, vídeos-poemas, assim como convergem outras iniciativas e manifestações artísticas e culturais. No geral, são reunidos, em um evento de sarau, cantores, performers, atores de práticas circenses, MC,13 roqueiros, rappers, dançarinos e instrumentistas de maracatu, atores de teatro, fotógrafos; crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.
Em Fortaleza, os saraus se multiplicam,14 assumindo a força do que poderíamos denominar “guerrilha poética”. “Microfone aberto” (Silva, 2019), as práticas poéticas não apenas movem o dia a dia de bairros diversos das periferias, como suscitam o eco de seus versos em paragens distintas. O Porto Iracema das Artes, espaço de formação e difusão artística e cultural do governo do estado do Ceará, ofereceu um curso de formação que resultou no zine literaturas periféricas, com a “compilação de imagens, diário de bordo, publicação marginal e estêncil, registros das narrativas dos alunos sobre a cidade e seus habitantes”. O curso, do Programa de Fotopoéticas da Escola, teve como facilitadores os artistas Rômulo Silva, Gustavo Costa e Leo Silva, sendo Rômulo um dos idealizadores e porta-voz do denominado Sarau da B1.15
Mas nem tudo é poesia. Vozes inspiradoras, por meio de gritos em verso e prosa, acabam por denunciar violações diárias de direitos e ações arbitrárias impetradas pela polícia às juventudes de espaços vulnerabilizados. O enfrentamento cotidiano às facções,16 às “exclusões” escolares, a quase inacessibilidade ao mundo do trabalho, a imposição do contumaz silêncio, o inaudível de seus desejos e demandas emergem de vozes juvenis em rimas e métricas. Têm sido corriqueiras, sob o pretexto da busca de drogas, de armas, num visível espetáculo de “sujeição criminal”,17 ocorrências de agressões, censuras, emprego de táticas de terror da polícia às sessões de saraus.18 Dentre outros, o sarau Levante pela Paz é interrompido com um “aparato de guerra”.19
Palavras e imagens, em forma de poesia, literatura,20 de teatro de rua,21 da produção audiovisual têm mobilizado o cotidiano de jovens das periferias. Como diz Piúba (2019, p.3), “existe uma topografia poética que está sendo descrita na superfície das periferias de Fortaleza”. Ocorre uma espécie de reescrita de histórias periféricas que, até então, haviam sido contadas por outros, na maior parte das vezes por pesquisadores, por jornalistas, por especialistas em estudos e análises sobre a pobreza, ficando, no geral, as juventudes na condição de informantes e narradores de pesquisa.
Emergem outras palavras. Uma escrita, como diz Flusser (2010, p.20), que, além de um gesto reflexivo, que se volta para o interior, é também um gesto (político) que se volta para o exterior. Atuam os atores dos saraus, nas diversas práticas poéticas, como se as palavras fossem gestos, formas de agir, formas de intervir. Microfones abertos produzem assim novas imagens e imaginários no espetáculo das variadas cenas urbanas juvenis.22
Imagens em ação: humor, irreverência e improviso
Nove de novembro de 2019, Praia de Iracema, Fortaleza, mais exatamente na parte da orla que se convencionou denominar “praia dos crush”. Ocorre ali um evento significativo. Em torno de cinco mil jovens, na sua maioria moradores da periferia da cidade, se reúnem para assistir ao lançamento do primeiro episódio de uma série denominada La Casa du’z Vetin,23 produzida pelo recém-criado selo audiovisual Vetinflix. Essa cena exemplar condensa múltiplos fios de significados.
O primeiro é a presença de um traço cultural característico do que se costuma denominar Ceará Moleque, relativo à irreverência, ao humor e à comédia. O próprio nome da série ratifica o “cearencês”,24 qual seja, um conjunto de expressões próprias do povo do Ceará. Dados históricos indicam que isso vem de longe. O “espírito moleque”, como frisa Otacílio de Azevedo (apud Ponte, 1993, p.175), referindo-se à sua vivência em Fortaleza entre 1910 e 1930, podia emergir em razão de qualquer evento jocoso, qualquer cena passível de sátira, exagero ou “quebra” da normalidade.
Alia-se ao espírito moleque um segundo aspecto, vinculado à produção do seriado-sátira La Casa d’uz Vetin, aquilo que, como bem ressalta Pais (2012, p.17), aponta para um tipo de prática colaborativa, tecida no âmbito de uma nova criatividade relacional, em que prevalece “uma cooperação entre modos de pensar e fazer, um jogo de astúcias e audácias que coloca em estado de sítio a normatização”. O uso das redes sociais como lugar de fluxo, de combinação de atores e variáveis “distantes” promove o surgimento de talentos peculiares, produz habilidades que escapam à regulação do tempo e à normatividade do mundo do trabalho. Trata-se daquilo que Hannerz (2015, p.295), ao discutir acerca da construção das cidades e da vida urbana, indica como sendo ela, a fluidez, o vetor de “lubrificação para a maquinaria das carreiras” e inovação de papéis. Um exemplo destacado pelo autor é a notória gangue Manson na Califórnia do final da década de 1960. Ele, Manson, havia entrado e saído de instituições de “correção” desde os primeiros anos de adolescência. Segundo Hannerz (2015, p.298), era ele um dos indivíduos capazes “de transformar antigas experiências em um novo papel” no “mundo das amalgamações culturais”.
Trata-se de sujeitos que aprenderam, na “escola da vida”, a se virar, a se desdobrar, a enfrentar “corres” de natureza diversa e dar conta de múltiplas destrezas e, assim, a empreender diversificadas tarefas. Tal qual indicou a pesquisa acerca da “Geração N” (Diógenes, 2019), “o trampo25 no que rolar” evidencia o malabarismo constante que permeia suas vidas, tendo em vista que esses sujeitos “se equilibram entre os ritos da profissionalização e as rotas da criatividade” (Diógenes, 2019, p.57). Vale ressaltar que, mesmo dando seus “pulos”, se desdobrando em diferentes atividades, essa juventude que nem estuda nem trabalha dilata as estatísticas dos que estão fora do mercado de trabalho e dos bancos escolares. No ziguezague entre “diásporas de desespero” e “diásporas de esperança”, esses jovens movimentam “a força da imaginação” (Appadurai, 1996, p.17) e afirmam que, diante da falta de oportunidade de um trabalho26 formal, desejam mesmo é poder desenvolver projetos.27
É assim que Léo, morador da denominada Quadra 10 do residencial Euclides Gomes, no Bairro Jangurussu,28 construído pelo projeto “Minha Casa, Minha Vida”,29 se inspira a criar, junto com outros jovens, o Suricate30 e o La Casa du’z Vetin, de um lugar, como ele mesmo destaca, que nem CEP31 tem. Em uma conversa nossa com vários jovens do residencial, que se estendeu por toda uma tarde de sábado, Léo observa que, na concepção dos que formam o Suricate e dos que integram o seriado, “o imaginário tem que tá ligado ao território, porque todo mundo que mora na periferia sabe disso, pra sobreviver, meu chapa, tem que jogar o jogo que eles jogam”. Marcado pelo conflito32 e pela ocupação de facções,33 por disputas internas pelo controle das unidades habitacionais, segundo Léo, nesse lugar
[...] os meninos jogam bola, os menino brincam de polícia e ladrão e os menino gravam vídeo pra internet, porque é a brincadeira que quando é noite, que desligou as luzes, eles pegam o celular da mãe ou dos amigos e vão ficar assim ó tudo gravando, interpretando cada um a sua história, o que quiser, o mundo contado a partir da visão deles também.
Cria-se assim, num território inóspito, fora dos códigos de endereçamento, aquilo que Appadurai (1996, p.22) vai denominar práticas culturais de todos os dias, por meio das quais se transformam e se multiplicam o que o autor designa “obras da imaginação”. Passam elas a ter, no mundo pós-eletrônico, ainda seguindo as trilhas de Appadurai (1996, p.17), um significativo papel, saindo a imaginação do singular “espaço expressivo da arte, mito e ritual, para passar a fazer parte da atividade mental cotidiana [...]”. Por meio da partilha da senha do Wi-Fi da rede de Léo, muitos dos “vetin” do residencial podem produzir suas páginas nas redes sociais, partilhar suas histórias no Instagram34 e fazer circular imagens do bairro e de práticas e de si.
O terceiro aspecto que o encontro dos Suricates com a Nigéria, produtora do seriado, faz suscitar diz respeito a uma certa torção na construção da linguagem, de demarcação e publicização do jeito de falar dos jovens da periferia. No cenário que abre o primeiro episódio, os “vetin” enunciam, na projeção do ano 2049, o advento da “vetincracia”. O “novo” panorama demarca o prólogo, momento em que os “vetin” chegam ao poder e anunciam o inimigo, aqueles que não parecem se conformar com o domínio dos que vêm das periferias, os PA (Playboys da Aldeota35). Observa-se a escolha do uso de uma linguagem coloquial, como já assinalado, do escárnio e do deboche em detrimento do emprego correto da língua portuguesa. A expressão d’uz, ao invés de dos, configura essa “quebra” com os ritos da escrita codificados nos ditames da gramática.
A conjunção de todos esses aspectos, mais que uma manifestação do vetor isolado da criatividade, destaca, como profere De Certeau (2000, p.94), a expressão de outras maneiras de fazer, “de utilizar a ordem imposta do lugar ou da língua. Sem sair do lugar de onde tem que viver e que lhe impõe uma lei, e aí instaura uma pluralidade e uma criatividade. Por uma arte de intermediação de efeitos imprevistos”. Esses efeitos imprevistos modulam o “rumor da língua” (Barthes, 1988, p.124), revelam a possiblidade de se dizer uma coisa de várias maneiras, fazem dimanar “uma guerra da linguagem”, que “produz-se onde a sociedade transforma a diferença em conflito”.
Os “vetin”, durante os três episódios lançados36 até então, insistem em evidenciar o dia a dia dos jovens nas periferias, a intensidade das ações policiais, a força das facções na regulamentação e o trânsito entre jovens no bairro e entre bairros. O palavreado usado no seriado por seus atores é quase um dialeto para o público desavisado. Neles, a linguagem se contorce, enverga-se, recria-se em “táticas” (Certeau, 2000) que produzem outros dispositivos de fala. Pelo contrário, os “vetin” instituem dispositivos de elocução que agem e engendram esquemas de operações não facilmente capturáveis para quem desconhece o mundo Vetinflix, para quem se mantém longe das periferias.
O seriado La Casa condensa signos diversificados das linguagens juvenis de periferia, aqueles que não costumam ter lugar nas escolas, nas instituições que promovem políticas públicas para juventudes, nos espaços instituídos de sociabilidade. Como aponta Yargo, já citado diretor do seriado,37 “os Vetin também têm cultura, como os Vetin também representam uma fortaleza, enfim, tudo isso é que na nossa visão traz esse potencial desruptivo na cultura que tem esse diferencial”.
Mais que uma linguagem, o que parece ensejar os “vetin” e o seu “potencial disruptivo”, como sublinha Flusser (2014, p.16), é o esboço de um gesto, “movimento no qual se articula uma liberdade”. Pois os episódios, que cada vez mais atraem a atenção de jovens não apenas das periferias, conduzem-se por um tom de insolência, até mesmo de chacota ao papel desempenhado pela polícia, diante das ações e ardis dos “vetin”. É possível perceber que a trama não pretende que facilmente se decifre, para o observador e para quem assiste, “a liberdade que (nela) se exprime” (Flusser, 2014, p.16).
Os “influenciadores digitais”, os atores e as atrizes que contracenam no seriado montam uma espécie de roteiro do improviso, como se o dia a dia da periferia, seus conflitos, suas dinâmicas de vida, se colocasse como o centro da paródia. Como destaca Tim Ingold (2012), tal qual “emaranhados criativos num mundo de materiais”, cada fio do seriado faz parte do enredo, dos lugares do bairro,38 dos artefatos usados pelos “vetin” (incluindo apitos, revólveres de plástico, celulares etc.), das vestimentas, dos jogos de linguagem, das brincadeiras, das danças; tudo isso se associa à dinâmica do repentino, do que acontece e que, no seriado, volta a ocorrer, gerando uma espécie dobra39 do mesmo acontecimento.
O “vetin”, na qualidade de artista, “atua como um itinerante, e seu trabalho comunga com a trajetória de sua vida” (Ingold, 2012, p.38). O espectador, também, foge do papel de mero observante, ele é convocado a coabitar as cenas, assim como é invitado a atuar como cofinanciador do seriado e, consequentemente, como coprodutor da Vetinflix. Ocorre aquilo que Didi-Huberman (2017), em um texto que trava um instigante diálogo com Harun Farocki,40 denomina de “devolver a imagem”. Nessa perspectiva, indica Didi-Huberman (2017, p.206), “é preciso instituir os restos: tomar nas instituições o que elas não querem mostrar - o rebotalho, o refugo, as imagens esquecidas ou censuradas - pra retorná-las a quem tem de direito, à comunidade, aos cidadãos”.
Um outro aspecto, e talvez seja o ponto alto desse entrançado de variáveis que permeia a construção dessa experiência fílmica, diz respeito à correlação entre a circulação e o uso de imagens na paisagem digital e a difusão dos episódios da série. Movidos pela “montagem” de ideias e de “imagens sobreviventes”,41 vindas de múltiplos lugares e de diversos influenciadores digitais, os “vetin” acabam produzindo uma ressemantização dos processos de produção e apropriação de imagens, ao difundirem modalidades de práticas juvenis e repertórios de enfretamento à polícia, às facções e aos contumazes estigmas perfilados pelas instituições. Deixam de aparecer, na qualidade, meramente, de juventude “nem, nem, nem”,42 protagonistas das páginas policiais, sujeitos de risco e de ameaça à ordem pública, e projetam-se na condição de artistas, termo citado em todas as descrições de perfil do Instagram dos participantes do seriado.
Por fim, no deslindar das principais variáveis que atravessam o La Casa du’z Vetin, narro aqui um caso curioso que pude presenciar na projeção do primeiro episódio, ocasião do Seminário Cada Vida Importa,43 ocorrido no Instituto Cultural Iracema, órgão ligado à prefeitura de Fortaleza. Estávamos na Praia de Iracema, cercados por gestores, professores, jovens de projetos de ONG, militantes de direitos humanos, dentre outros. Talmon Lima (31 anos), “vetin” e um dos idealizadores do seriado, se afasta do Centro Cultural e caminha em direção à praia, que se situa logo em frente à edificação. Rapidamente, vários policiais se aproximam e iniciam o baculejo.44 Talmon, que se identifica como humorista e atua nas redes sociais como Maycou Presly, costuma emitir um som peculiar com a boca, como se imitasse um pássaro. No momento da abordagem policial, ficamos todos tensos, mas logo Talmon disse “deixa, eu desenrolo”. Indagado pela polícia sobre o que fazia, ele respondeu: “sou YouTuber”.45
Aquilo pareceu à polícia um tipo de atrevimento, uma atitude de irreverência, uma desobediência. Como um jovem que, certamente, não seria identificado como um potencial morador de bairros nobres da cidade, seria alguém notável? Até que um policial pergunta: “e quem é você no Youtube?”. Talmon, de pronto, responde, “sou Maycou Presley”. Então o policial olha incrédulo e diz: “pois faz aquele barulho com a boca”. Ao emitir o som conhecido, característico, Talmon rapidamente é olhado com entusiasmo pelos policiais, e os gestos de violência se convertem em procedimentos de camaradagem e admiração. O chefe da operação mira os demais e diz: “deixa o cara ir, não é vagabundo não”. E qual seriam as faces e as astúcias desses não “vagabundos” convertidos em artistas e influenciadores digitais?
A maioria da juventude que faz parte do seriado - Léo Suricate,46 Dudú Suricate,47 o Everton48 (Pokindeia), o Talmon Lima Humorista,49 o Rodolfo Rodrigo50 (xero verde), as Princesas do passinho,51 o Pobretion,52 afora Moisés Lourenço (o personagem que encarna o professor) - tem em comum a construção de uma linguagem que se estabelece na periferia para as periferias. Isso afirma, também, para o restante da cidade, a “moral” de uma prática “roxeda”,53 que traz, para as mídias sociais, destacadamente para o YouTube e o Instagram, a vida, a linguagem, os “corres”, as “tretas”,54 as festas, a poesia e afetos que povoam e dinamizam a vida dos jovens nas grandes periferias das metrópoles.
Aspectos conclusivos: espaço aberto para as próximas cenas
De modo geral, observou-se, tanto no que se refere ao conjunto de narrativas pactuadas ao longo da pesquisa quanto em situações de observação direta da pesquisadora, uma direta correlação não apenas entre riso e escárnio, como também no que tange a duas variáveis que aparecem recorrentemente nas falas de Léo: a da artesania, qual seja, da coisa “mal feita”, e a da “brincadeira”.55
O improviso, aquilo é construído dentro do acontecimento, que foge à lógica de uma racionalidade abstrata, em que por vezes “se tem dificuldade em entender, em cheirar as linguagens sensíveis da vida cotidiana” (Pais, 2003, p.21), se transmuda em cada seriado na aventura coletiva da experimentação. Mal feito no que concerne a não estar pronto, acabado, como obra fechada. O rascunho, aquilo que mais parece uma brincadeira que um intento levado à sério, promove, entre os jovens que assistem56 ao seriado, uma espécie de sensação de coprotagonismo, de coparticipação, de cocriação, de obra em aberto.
Observou-se, também, em cada um dos episódios partilhados em público, uma qualidade do uso da caricatura, do exagero, mediado por uma dicções lúdicas, cômicas, que “brincam” com a suposta natureza ociosa dos “vetin”, e a condição “perigosa”, atribuída comumente aos jovens, nos cotidianos embates com a polícia. Isso diferencia, tal qual discutido no transcorrer deste artigo, no diálogo com Appadurai (1996), as distinções e as diluições de fronteiras entre “obras do trabalho” e “obras da imaginação”. Essa aproximação entre diferentes obras, e aqui se concentrou o objetivo mais precípuo da escrita deste artigo, mostra que é no suposto mundo do “não trabalho”, nas denominadas zonas de exclusão social, de esquecimento das políticas públicas de juventude, que móveis e mísseis de fala poética, de imagens em bombardeio literário, de irreverentes produções fílmicas ensejam formas singulares de criação, de produção artística e de reinvenções de si e do mundo.
Na ampliada “máquina do sacrifício” (Agamben, 2007), que atravessa parte exponencial da juventude brasileira negra, pobre, moradora de periferia, de jovens que povoam as estatísticas “nem, nem, nem”, que, por vezes, incorporam o epíteto de anormais57 (sendo eles a maioria da população brasileira), as novas gramáticas visuais e poéticas aqui apresentadas agenciam formas singulares de profanação. Escapando de uma espécie de “museificação do mundo” (Agamben, 2007, p.73) como uma dimensão separada da existência, engessada em normatizações, esses jovens tomam o bairro, seus atores e vizinhos, como contracenantes de outras possibilidades, a de fazer valer imagens e falas de lugares inexistentes, sítios apagados dos códigos postais.
Diante de mecanismos de captura, de classificação, de massificação, essas juventudes produzem dispositivos de “contágio do profano”, “um tocar que desencanta e devolve ao uso aquilo que pareceria separado e petrificado” (Agamben, 2007, p.66). Não seriam essas as linhas tortas de uma linguagem que gagueja, que se esquiva da gramática oficial e põe a “brincar” novos diagramas de criatividade das juventudes contemporâneas?
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Fonte: Catarse.
Foto Lucas Calisto