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À indústria do cinema em crise

CRIAÇÃO / POESIA

À indústria do cinema em crise

Tradução de José Paulo Paes

Não a vós, magras revistas trimestrais e escuros periódicos

com vossas diligentes incursões pela pomposidade das formigas,

nem a ti, teatro experimental em que a Fruição Emotiva esposa perpetuamente a

Introvisão Poética, nem a ti,

Grande Ópera em cortejo, tão óbvia quanto uma orelha (embora me sejas

grata ao coração), mas a ti, Indústria do Cinema

é que eu amo!

Em épocas de crise, devemos todos decidir uma e outra vez a quem amamos.

E dar crédito a quem mereça: não à minha engomada babá, que me ensinou

a ser mau e não-mau mais do quem bom (e recentemente tirou proveito

desta informação), nem à Igreja Católica

que no melhor dos casos é uma introdução hipersolene ao entretenimento cósmico,

nem à Legião Americana, que detesta todos, mas a ti,

gloriosa Tela de Prata, trágico Tecnicolor, apaixonado Cinemascópio,

ampla Vistavisão e surpreendente Som Estereofônico com todas as vossas

celestes dimensões e reverberações e iconoclasmas! A

Richard Barthelmess como o menino "supo'tável" de calça curta e pé no chão,

e Jeannette MacDonald de cabelos e lábios de fogo, pescoço longo, longo,

a Sue Carroll que, sentada sobre o danificado pára-lama de um carro, sorri pela eternidade afora,

a Ginger Rogers com seu cabelo de pagem feito salsicha

sobre os ombros esquivos, ao Fred Astaire alígero de voz-veludo,

a Eric von Stroheim, o sedutor de ofegantes esposas de alpinistas,

aos Tarzans, cada um de vós e todos (não consigo persuadir-me a preferir

Johnny Weissmuller a Lex Baxter, não consigo!), a Mae West num trenó de peliças

com seu fulgor de bordel e seus amenos comentários, a Rodolfo Valentino da lua

com suas paixões arrasadoras e, lunar também, à doce Norma Shearer,

a Myriam Hopkins esvaziando a taça de champanhe pela amurada do iate de Joel McCrea

e chorando sobre o mar mosqueado, a Clark Gable salvando Gene Tierney

da Rússia e Allan Jones salvando Kitty Carlisle de Harpo Marx,

a Cornel Wilde tossindo sangue sobre as teclas do piano enquanto Merle Oberon lhe passa um pito,

a Marilyn Monroe cambaleando com seus saltos de agulha por Niagara Falls,

a Joseph Cotten intrigando e a Orson Wells intrigado e a Dolores del Rio

almoçando orquídeas e quebrando espelhos, a Glória Swanson, reclinada,

a Jean Harlow reclinada e meneando-se, e a Alice Faye reclinada

e meneando-se e cantando, a Myrna Loy sendo sensata e calma, a William Powell

em sua estonteante cortesia, a Elizabeth Taylor florescendo, sim, a vós todos

e a vós também, os grandes, os quase grandes, os principais, os extras

que passam rapidamente e voltam em sonhos dizendo-te em sonhos uma ou duas falas,

todo o meu amor!

Que por muito tempo possais iluminar o espaço com vossas maravilhosas aparições, demoras

e enunciações, e possa o dinheiro do mundo vos cobrir de brilho

enquanto repousais ao fim de um longo dia sob os refletores com os vossos rostos

em bando para nossa edificação, tal como as nuvens aparecem de noite, muitas vezes,

mas os céus funcionam pelo sistema estelar. É um divino precedente que perpetuais!

Girai, bobinas de celulóide, tal como gira a grande terra!

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jun 2005
  • Data do Fascículo
    Ago 1997
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