Open-access AVALIAÇÃO DO SISTEMA DE INDEXAÇÃO AUTOMÁTICA ANNIF EM ARTIGOS DE PERIÓDICOS EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

Evaluation of the Annif automatic indexing system in information science journal articles

RESUMO

Objetivo:  Avaliar o desempenho da ferramenta de indexação automática Annif na atribuição de descritores a artigos científicos na área de Ciência da Informação.

Método:  Adota uma abordagem empírica e de caráter exploratório. A pesquisa utilizou um corpus composto por 60 artigos escritos em português e previamente indexados manualmente com o Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (TBCI). O corpus foi dividido em duas subseções: 30 artigos foram destinados ao treinamento e 30 ao teste. O Annif foi configurado com o backend MLLM, e a avaliação foi realizada por comparação com os termos da indexação intelectual aplicando as métricas de Precisão, Revocação, F1 e Consistência. Também foi realizada uma análise qualitativa dos termos gerados.

Resultado:  O sistema demonstrou um desempenho moderado, alcançando uma Precisão de 49,52%, Revocação de 50,1%, F1 de 49,23% e Consistência de 31,63%.

Conclusões:  Conclui-se que o Annif é viável como ferramenta de apoio em fluxos semiautomáticos de indexação, desde que suas sugestões sejam validadas por indexadores humanos.

PALAVRAS-CHAVE:
Annif; aprendizado de máquina; indexação automática; repositórios digitais; Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação

ABSTRACT

Objective:  This study evaluates the performance of the Annif automatic indexing tool in assigning descriptors to scientific articles within the field of Information Science.

Methods:  The research adopted an empirical and exploratory approach. It used a corpus composed of 60 articles written in Portuguese and previously indexed manually with the Brazilian Thesaurus of Information Science (TBCI). The corpus was divided into two subsets: 30 articles were used for training and 30 for testing. Annif was configured with the MLLM backend and compared with the terms assigned through intellectual indexing using the metrics of Precision, Recall, F1-score, and Consistency. A qualitative analysis of the generated terms was also conducted.

Results:  The system demonstrated moderate performance, achieving a Precision of 49.52%, Recall of 50.1%, F1-score of 49.23%, and Consistency of 31.63%.

Conclusions:  It is concluded that Annif is a viable tool for supporting semi-automatic indexing workflows, provided that its suggestions are validated by human indexers.

KEYWORDS:
Annif; machine learning; automatic indexing; digital repositories; Brazilian Thesaurus of Information Science

1 INTRODUÇÃO

A crescente disponibilidade de informações digitais impõe desafios à organização e à recuperação do conhecimento. As bibliotecas e os repositórios digitais, responsáveis por lidar com grandes volumes de metadados, historicamente têm recorrido à indexação manual baseada em vocabulários controlados. Embora eficiente do ponto de vista da padronização e da consistência semântica, esse processo é oneroso, demanda alta especialização e esforço humano, além de consumir um tempo considerável (Medelyan, 2009; Suominen, Inkinen, Lehtinen, 2022).

Nesse cenário, a indexação automática (IA) se apresenta como uma alternativa tecnológica para ampliar a escalabilidade dos processos de representação temática, reduzindo custos operacionais e tempo de processamento, sem comprometer a qualidade da recuperação da informação.

A literatura recente evidencia avanços no desenvolvimento de ferramentas baseadas em aprendizado de máquina para indexação automática, bem como sua aplicação em diferentes contextos institucionais e linguísticos. Entre as ferramentas desenvolvidas para essa finalidade, encontra-se o Annif, sistema de código aberto desenvolvido em 2017 pela Biblioteca Nacional da Finlândia, que tem sido progressivamente estudado por instituições de diversos países.

No cenário brasileiro, pesquisas iniciais com o Annif utilizando o Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (TBCI) indicam potencial promissor para aplicação em repositórios digitais, mas ainda carecem de avaliações sistemáticas com um corpus robusto (Brito; Martins, 2023a, 2023b). Adicionalmente, observa-se uma escassez de estudos que avaliem a qualidade da indexação automática do Annif em língua portuguesa aplicada a artigos científicos, especialmente considerando as particularidades terminológicas e estruturais do domínio da Ciência da Informação.

Diante desse cenário, formula-se a seguinte pergunta de pesquisa: Como o sistema de indexação automática Annif se comporta na atribuição de descritores do Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação a artigos científicos em língua portuguesa, considerando métricas quantitativas de desempenho e análise qualitativa dos termos gerados?

Este artigo tem como objetivo geral avaliar o desempenho da ferramenta de indexação automática Annif na atribuição de descritores a artigos científicos na área de Ciência da Informação em língua portuguesa. Para tanto, como objetivos específicos, busca-se:

  • a) configurar o Annif com o backend MLLM (Maui-like Lexical Matching) e o vocabulário TBCI para processamento de textos em português;

  • b) quantificar o desempenho do sistema mediante métricas de Precisão, Revocação, F1 e Consistência;

  • c) analisar qualitativamente os termos sugeridos, identificando padrões de acertos, erros e omissões;

  • d) comparar os resultados obtidos com estudos prévios que utilizaram o algoritmo Maui em corpus similar.

A realização deste estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre o desempenho de sistemas de indexação automática em cenários linguísticos ainda pouco explorados, como a língua portuguesa no domínio da Ciência da Informação. Embora a literatura internacional registre avanços significativos, a aplicação dessas tecnologias nesse momento ainda carece de investigações empíricas sistemáticas.

Ademais, o estudo apresenta um diferencial metodológico ao empregar um padrão-ouro validado no domínio da Ciência da Informação brasileira, composto por indexação manual realizada por especialistas familiarizados com as especificidades terminológicas do TBCI. A combinação entre análise quantitativa, baseada em métricas consagradas na literatura e que permite comparações diretas com estudos que empregaram o algoritmo Maui (Silva; Corrêa; Gil-Leiva, 2020), e análise qualitativa dos termos gerados possibilita uma compreensão mais abrangente do fenômeno investigado.

2 REVISÃO DE LITERATURA

A indexação automática constitui um dos temas centrais da Ciência da Informação, especialmente no que se refere ao tratamento e à recuperação de conteúdos em bibliotecas digitais, repositórios institucionais e bases de dados acadêmicas importantes para a mediação do acesso ao conhecimento registrado. Estudos clássicos acentuam que a função primordial da indexação consiste em representar conteúdos de forma consistente e normalizada, de modo a favorecer a recuperação da informação (Lancaster, 2004; Gil-Leiva; Alonso-Arroyo, 2007).

Nesse processo, os vocabulários controlados, como os tesauros e os sistemas de classificação, são instrumentos empregados para assegurar padronização terminológica e interoperabilidade semântica na indexação de assunto, promovendo conexão entre a linguagem documental e a linguagem de busca.

Na literatura, distinguem-se duas abordagens principais de indexação automática, uma lexical, que relaciona as palavras do texto diretamente com os descritores de um vocabulário controlado, e outra, estatística ou associativa, fundamentada no aprendizado de padrões de correlação entre palavras do corpus com os termos de um vocabulário controlado. Essa distinção é destacada em diferentes estudos, como os de Medelyan (2009) e Toepfer e Seifert (2020). Enquanto os indexadores humanos desenvolvem e aperfeiçoam a habilidade de indexação por meio do treinamento e da experiência profissional, nos algoritmos este processo pode ser simulado mediante técnicas de aprendizado de máquina (Medelyan, 2009), o que justifica a centralidade dessas abordagens na literatura especializada.

Entre as ferramentas que têm se destacado no campo da indexação automática, encontra-se o Annif. Trata-se de um software de código aberto e arquitetura modular que integra diferentes algoritmos de aprendizado de máquina (backends), possibilitando o treinamento supervisionado com vocabulários controlados e a integração em sistemas institucionais por meio de Interface de Programação de Aplicações (APIs). O sistema ainda permite combinações híbridas (ensembles), o que amplia sua versatilidade em coleções de diferentes tipos de documentos (Suominen; Inkinen; Lehtinen, 2022).

No sistema Annif, o backend corresponde ao algoritmo de aprendizado de máquina responsável pela análise e classificação automática dos documentos. Entre os de abordagem lexical destacam-se o STWFSA, baseado em autômatos finitos ponderados, e o MLLM, inspirado no sistema Maui. Já entre os de abordagem associativa, figuram o TF-IDF, que utiliza vetores de palavras ponderadas por frequência e raridade; o fastText, que combina embeddings de palavras e modelo de rede neural; e o Omikuji/Bonsai, que utiliza árvores de decisão para classificação em larga escala.

Além disso, o Annif suporta o uso de ensembles, técnica que combina os resultados de múltiplos modelos de backends para gerar predições mais robustas do que as obtidas por modelos isolados. Outro recurso relevante é a disponibilização de uma API REST, que possibilita a integração com sistemas bibliotecários e repositórios digitais por meio de requisições HTTP padronizadas, facilitando a inserção do Annif no fluxo de trabalho em ambientes institucionais de indexação.

O Annif incorpora ambas as vertentes, lexical e associativa, permitindo a configuração de modelos isolados ou de forma híbrida via ensembles, mitigando as limitações de cada abordagem individual. O Quadro 1 apresenta um panorama sintético dos principais backends suportados pelo Annif, destacando seus tipos, requisitos e características operacionais. Esse quadro contribui para compreender as possibilidades de configuração da ferramenta e os diferentes níveis de complexidade associados a cada algoritmo.

Quadro 1
Backends suportados pelo Annif

Essa diversidade de arquitetura confere ao Annif uma flexibilidade que permite sua adaptação a diferentes documentos e idiomas. Em ambientes com vocabulários extensos e bem estruturados, os modelos lexicais, como o MLLM, tendem a oferecer maior precisão conceitual; por outro lado, em cenários de dados ruidosos ou terminologias não normalizadas, os modelos associativos (como o fastText e o Omikuji) demonstram melhor desempenho em termos de revocação e generalização.

A adoção de ensembles representa um avanço na busca por equilíbrio entre precisão e cobertura semântica, ao combinar a força dos modelos lexicais com a adaptabilidade dos modelos associativos. Já os backends especiais, como o HTTP e o Dummy, exercem funções complementares de integração, teste e validação técnica, reforçando o caráter experimental e interoperável do Annif.

Aplicações do Annif em diferentes domínios de aplicação têm sido relatadas em variados estudos internacionais. Golub et al. (2024), descrevem sua aplicação em tarefas de geração automática de descritores em bibliotecas suecas usando sistema de classificação baseados na Dewey Decimal Classification (CDD). Hahn (2021) investigou métodos de catalogação semiautomática de assuntos em BIBFRAME em projetos de linked data. Lappalainen et al. (2021) destacam o uso do Annif em múltiplos idiomas, incluindo finlandês, inglês e sueco em repositórios acadêmicos. Mitra e Mukhopadhyay (2023) abordaram seu uso em domínios especializados de baixo recurso. No Brasil, Brito e Martins (2023a; 2023b) investigaram aplicações iniciais do Annif com o Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (TBCI), indicando potencial promissor, embora ainda careçam de avaliações sistemáticas com um corpus robusto.

Apesar dos avanços, a literatura ressalta limitações relacionadas à influência da língua, à qualidade do corpus de treinamento e ao vocabulário adotado (Kerketta; Mukhopadhyay, 2025; Dermentzi et al., 2025).

A avaliação da indexação automática baseia-se, em geral, na comparação com padrões-ouro da indexação intelectual, utilizando métricas clássicas de recuperação da informação, como Precisão (P), Revocação (R) e a medida F1, além de indicadores de ranqueamento, como o Normalized Discounted Cumulative Gain (NDCG). Complementarmente, análises qualitativas de termos e estudos de impacto no processo da indexação permitem avaliar a utilidade prática das sugestões em situações reais de aplicação (Suominen, 2019; Golub et al., 2016).

Estudos internacionais têm examinado o desempenho do Annif em múltiplos domínios e idiomas, variando de corpus bibliográficos a registros multimídia, inclusive em condições de baixo recurso, ou seja, cenários com vocabulários restritos, escassez de dados de treinamento ou ausência de ferramentas linguísticas maduras para determinado idioma ou domínio especializado (Lappalainen et al., 2021; Mitra; Mukhopadhyay, 2023; Golub et al., 2024). Esses trabalhos convergem em dois aspectos: a eficácia do Annif na identificação de conceitos centrais e a necessidade de sua aplicação em processos semiautomáticos de indexação, em que a curadoria humana assegura a relevância e a coerência semântica (Suominen; Inkinen; Lehtinen, 2022).

O Quadro 2 sintetiza os estudos que avaliaram ou aplicaram o Annif em diferentes contextos, revelando três tendências principais.

Quadro 2
Estudos sobre a ferramenta Annif

Primeiramente, verifica-se que o desempenho da ferramenta está fortemente condicionado pela escolha do backend e pela qualidade do corpus e do vocabulário controlado. Estudos que utilizam vocabulários amplos e bem estruturados, como o YSO (Suominen, 2019; Lehtonen; Piukkula, 2020; Lappalainen et al., 2021), relatam resultados consistentes e aplicabilidade prática em processos institucionais de indexação. Por outro lado, pesquisas com vocabulários mais restritos ou em domínios com vocabulários pouco desenvolvidos, como o Homosaurus (Mitra; Mukhopadhyay, 2023), evidenciam tanto o potencial quanto às limitações do sistema, reforçando a necessidade de ajustes de corpus e curadoria contínua.

Em segundo lugar, a literatura mostra que a combinação de backends via ensemble tende a superar modelos individuais. Essa constatação é recorrente em investigações recentes que compararam métodos lexicais (MLLM) com abordagens associativas e híbridas (TF-IDF, fastText, Omikuji, SVC, ensembles neurais), como em Golub et al. (2024), Kerketta e Mukhopadhyay (2025) e Dermentzi et al. (2025). Os resultados indicam que o ensemble amplia a robustez da indexação, especialmente em cenários multilíngues e de grande escala, embora ainda demande validação humana para garantir pertinência semântica.

Por fim, observa-se que a adoção mais realista do Annif ocorre em processos semiautomáticos de indexação, nos quais autores e bibliotecários validam ou refinam os termos sugeridos. Essa abordagem é documentada tanto em experimentos com o catálogo nacional sueco Libris, que reúne registros bibliográficos de bibliotecas universitárias e públicas e testou o Annif para atribuição automática de classes da CDD em larga escala (Golub et al., 2024), quanto em investigações aplicadas ao cenário brasileiro, em que o sistema utilizou parte do Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (TBCI), e foi treinado com resumos de artigos científicos e testado em textos completos de teses e dissertações (Brito; Martins, 2023a). Também em sistemas de linked data, como o BIBFRAME, no qual o Annif foi empregado para sugerir descritores interoperáveis em registros MARC, explorando o potencial de integração semântica entre dados bibliográficos (Hahn, 2021).

Em todos os casos, a supervisão humana permanece indispensável para assegurar precisão, coerência e relevância terminológica. A revisão da literatura, contudo, revela lacunas importantes no campo brasileiro: os estudos existentes ainda se restringem a amostras reduzidas, sem comparações sistemáticas entre diferentes backends e sem avaliações baseadas em padrões-ouro, o que limita o entendimento do desempenho do Annif em cenários de produção científica nacional.

3 METODOLOGIA

Este estudo adota uma abordagem empírica de caráter exploratório voltado à avaliação direta do desempenho do Annif na indexação automática em língua portuguesa. Para tanto, utilizou-se um corpus composto pelo texto completo de 60 artigos científicos da área de Ciência da Informação, previamente organizados e indexados intelectualmente por Silva e Corrêa (2019) e compilados como padrão-ouro em Silva e Corrêa (2020).

O vocabulário controlado adotado foi o Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (TBCI), convertido para o formato SKOS, possibilitando sua utilização no Annif. O corpus foi dividido em dois subconjuntos: 30 documentos destinados ao treinamento do modelo e os outros 30 empregados na fase de teste para a avaliação empírica.

O Annif foi configurado com o backend MLLM, uma implementação baseada no sistema Maui, selecionado por sua relevância na literatura em tarefas de extração de termos com vocabulários controlados e por possibilitar comparações diretas com resultados prévios do Maui adaptado para o português como mostra o trabalho de Silva, Corrêa e Gil-Leiva, 2020. O pré-processamento inclui a remoção de stopwords e a radicalização morfológica (stemming) por meio do algoritmo snowball para português, configurado no Annif como parte do pipeline linguístico.

A configuração do experimento foi registrada no arquivo projects.cfg, que define os parâmetros de cada projeto no Annif. Cada instância relaciona um vocabulário controlado, um backend, e os critérios específicos da tarefa de indexação. O Quadro 3 apresenta os parâmetros utilizados neste estudo.

Quadro 3
Explicação dos parâmetros

O analisador linguístico foi incorporado para melhorar a performance do modelo. O stemming normaliza variantes morfológicas, mapeando palavras como ‘bibliotecas e biblioteca’ para o radical ‘bibliotec’, ampliando a capacidade de correspondência com os termos padronizados do TBCI. Já a remoção de stopwords elimina palavras frequentes e pouco informativas (de, para, o), contribuindo para maior precisão.

A avaliação seguiu o protocolo de comparação direta proposto por Silva, Corrêa e Gil-Leiva (2020). Para cada documento do conjunto de teste, os descritores sugeridos pelo Annif foram comparados com o padrão-ouro contendo os termos da indexação intelectual. Foram calculadas as métricas tradicionais de: Precisão (P), percentual de descritores sugeridos que estão corretos (presentes no padrão-ouro); Revocação (R), percentual de descritores do padrão-ouro sugeridos pelo sistema; Medida F1, média harmônica entre Precisão e Revocação; Consistência, percentual de sobreposição entre os descritores automáticos e do padrão-ouro em relação ao total de termos únicos da união de descritores automáticos e intelectuais.

Além da análise quantitativa, realizou-se uma avaliação qualitativa, voltada a identificar os padrões de desempenho do sistema. Foram analisados os acertos (casamentos dos termos), quando há correspondências diretas entre o Annif e o padrão-ouro; os erros (falsos positivos), onde os termos são atribuídos pelo MLLM mas ausentes do padrão-ouro; e as omissões (falsos negativos), em que os termos presentes no padrão-ouro não são recuperados pelo sistema.

Conforme as diretrizes éticas do periódico, declara-se que o ChatGPT (versão GPT-5 Thinking mini) foi utilizado de forma pontual e supervisionada exclusivamente para revisão gramatical e clareza textual do conteúdo deste artigo, sem interferência no conteúdo científico.

4 RESULTADOS

Os resultados médios para o conjunto de 30 documentos de teste (D31 a D60) são apresentados na Tabela 1. O valor de Precisão (49%) indica que aproximadamente metade dos termos sugeridos pelo Annif coincidiu com os descritores atribuídos no padrão-ouro. A Revocação (50,10%) mostra que o sistema recuperou metade dos termos relevantes presentes no padrão-ouro, enquanto a Medida F1 (49,23%) expressa um equilíbrio moderado entre ambas as métricas. Já a Consistência (31,63%) evidencia que aproximadamente um terço dos termos totais foi compartilhado entre a indexação automática e a intelectual, revelando divergências significativas na representação semântica. As métricas individuais de cada documento indexado automaticamente podem ser consultadas no Apêndice A, que apresenta detalhadamente os resultados por registro.

Tabela 1
Resultados médios de desempenho do Annif (backend MLLM)

A comparação com o estudo de Silva, Corrêa e Gil-Leiva (2020), que avaliou a qualidade da indexação automática com o mesmo corpus utilizando o algoritmo Maui em sua implementação adaptada para o português, indica que o Annif configurado com o backend MLLM apresentou um desempenho similar (F1 49% vs 50%). Essa pequena diferença observada pode estar relacionada às etapas adicionais incorporadas pelo framework Annif, como o pré-processamento textual, o mapeamento e a normalização de termos no vocabulário controlado, corroborando as observações de Suominen (2019) sobre a influência da arquitetura modular na variação de desempenho do sistema.

A análise da distribuição dos valores de F1 por documento (Figura 1) revela que dos 30 documentos avaliados, 5 situam-se entre 30% e 40%, indicando razoável correspondência com a indexação humana; 11 ficaram entre 40% e 50% e outros 11 entre 50% e 60%, demonstrando que a maior parte dos casos se concentrou em faixas intermediárias de média harmônica. Apenas dois documentos alcançaram entre 60% e 70%, e um único caso superou os 70%, revelando que resultados de alto alinhamento com a indexação intelectual foram raros.

Essa distribuição evidencia que o Annif tem boa capacidade para recuperar conceitos centrais dos textos, mas ainda apresenta lacunas na cobertura semântica e na precisão, o que limita seu uso como substituto da indexação humana. Em termos aplicados, esses resultados sugerem que a ferramenta pode atuar como suporte eficaz à indexação semiautomática, fornecendo listas iniciais de termos que precisam ser validados ou refinados por indexadores humanos.

A partir desse ponto, a análise qualitativa é organizada em três eixos, acertos, erros e omissões, a fim de detalhar a natureza do desempenho observado. Os resultados da indexação automática obtidos com o Annif (backend MLLM), em contraste com o padrão-ouro de indexação humana, encontram-se apresentados no Apêndice B.

Figura 2
Distribuição de documentos por faixa de F1

4.1 ACERTOS

Considera-se acerto toda correspondência direta entre os descritores sugeridos automaticamente pelo Annif e os termos presentes no padrão-ouro, isto é, a indexação intelectual. Nesse grupo, o sistema apresentou boa capacidade de identificar conceitos centrais e estruturantes da área da Ciência da Informação, como ‘ciência da informação’, ‘gestão da informação’, ‘sociedade da informação’, ‘bases de dados’, ‘bibliometria’ e ‘comunicação científica’, que foram frequentemente sugeridos e coincidiram com a indexação humana.

Em diversos casos, o sistema demonstrou a capacidade em apresentar os conceitos relevantes, como em D32 por exemplo, em que foram atribuídos automaticamente os descritores ‘bases de dados’, ‘recuperação da informação’, ‘controle de vocabulário’ e ‘estratégias de busca’, coincidindo com o padrão-ouro e revelando profundidade semântica e precisão terminológica.

Outro aspecto positivo foi a habilidade em reconhecer variações terminológicas e sinônimos contextualmente adequados. Em D35, o Annif identificou HTML e XML, que estão diretamente associados ao domínio de ‘linguagens de marcação’. Outro exemplo ocorreu em D36, onde o sistema sugeriu corretamente ‘bibliometria’, ‘lei de Lotka’ e ‘produtividade de autor’, alinhando-se à indexação humana.

De forma geral, os acertos demonstram que o Annif, configurado com o backend MLLM, apresenta um bom desempenho na identificação de conceitos centrais e frequentes da área da Ciência da Informação, especialmente aqueles que aparecem no TBCI e de forma recorrente no corpus de treinamento.

4.2 ERROS (RUÍDOS)

Nesta categoria, foram incluídos os casos em que os descritores sugeridos pelo Annif não coincidem com o padrão-ouro. Contudo, é importante observar que nem todo termo ausente do padrão-ouro está necessariamente incorreto, podendo refletir interpretações alternativas válidas ou variações semânticas aceitáveis, as quais merecem análise qualitativa.

No conjunto analisado, foi possível identificar e categorizar dois padrões principais de erros que comprometem a precisão semântica da indexação. O primeiro diz respeito à geração de termos genéricos ou ambíguos, de baixa especificidade semântica. Entre os exemplos mais recorrentes estão ‘pesquisa’ (D33, D41, D52) e ‘paradigmas’ (D43, D58, D60), ambos de natureza abstrata e que, sem uma delimitação semântica mais precisa, adiciona pouco valor discriminatório. Esses termos, embora semanticamente amplos, não contribuem para a representação específica do conteúdo documental, configurando ruído lexical.

Outro exemplo emblemático é o termo ‘levantamentos’, sugerido em D48 e D55. Apesar de gramaticalmente adequado, trata-se de um termo genérico, que pode referir-se a diferentes procedimentos de pesquisa (‘levantamento bibliográfico’, ‘levantamento de dados’...), sem indicar o recorte temático do documento. Além de não constar no padrão-ouro, apresenta baixa discriminação semântica e fraca contribuição informacional, sendo classificado como falso positivo.

O segundo tipo de erro envolve termos deslocados ou pouco relevantes para o conteúdo do documento. Em D45, por exemplo, o termo ‘história’ foi sugerido de forma genérica, para corresponder ao aspecto histórico dos conceitos específicos do texto, como ‘webmetria’ e ‘cientometria’. Já em D51, o termo ‘educação’, embora semanticamente amplo, foi considerado impreciso, pois não reflete o foco conceitual do documento, comprometendo a precisão da indexação.

Por outro lado, alguns erros aparentes revelaram-se interpretações semanticamente válidas, que, embora não coincidam com o padrão-ouro, mantêm coerência com o conteúdo textual, podendo ser considerado um descritor com potencial na representação temática. Um caso positivo ocorreu em D36, onde o termo ‘arquivos privados’ foi sugerido automaticamente, apesar de não constar no padrão-ouro. O artigo, entretanto, discute a aplicação de métodos bibliométricos a diversos conjuntos de dados, incluindo o arquivo privado de Getúlio Vargas, o que torna o termo conceitualmente pertinente. Casos semelhantes foram observados em D33, com ‘periódicos científicos’ pelo Annif e ‘artigos de periódicos’ e ‘produtividade de periódicos’ no padrão-ouro, e D53, com ‘estudos de usuários’ pelo Annif e ‘comportamento do usuário’ pelo padrão-ouro. Logo, mesmo não constando no padrão-ouro, esses termos apresentam correspondência semântica e relevância temática.

Em D48, o sistema sugeriu ‘informação estratégica’, termo convergente com ‘informação para negócios’ do padrão-ouro. Além disso, a sugestão de ‘análise de custos’ em vez de ‘custos’ também evidencia a capacidade do Annif de gerar sinônimos ou expressões variantes que preservam o sentido contextual e ampliam as possibilidades da representação temática.

Assim, os erros observados demonstram que o Annif tende a privilegiar os termos de maior frequência estatística, o que, sem refinamento semântico adicional, pode resultar em descritores genéricos, redundantes ou contextualmente deslocados. No entanto, parte dessas divergências reflete diferenças interpretativas plausíveis entre a indexação humana e a automática, e não necessariamente falhas do modelo.

4.3 OMISSÕES

As omissões correspondem aos casos em que os termos presentes no padrão-ouro não foram recuperados pelo Annif, revelando lacunas na compreensão semântica e na cobertura vocabular do sistema. Essas ausências indicam limitações tanto do vocabulário controlado utilizado quanto do modelo de aprendizado, que nem sempre consegue reconhecer variações lexicais ou conceituais relevantes para a representação temática completa dos documentos.

No documento D31, observou-se a ausência dos descritores ‘internet’ e ‘infraestrutura de informação’, ambos constantes no padrão-ouro. A última falha de correspondência, entretanto, decorre de uma variação ortográfica, o termo aparece como ‘infra-estrutura’ no texto original, o que pode ter prejudicado o reconhecimento automático. Esse caso evidencia a importância do pré-processamento linguístico e da normalização de grafias em sistemas de indexação automática.

Em D33, descritores como ‘artigos de periódico’, ‘citações bibliográficas’, ‘produtividade científica’, ‘produtividade de autor’, ‘produtividade de periódicos’ e ‘revisões de literatura’ não foram sugeridos, o que comprometeu a representação do documento. Essas omissões indicam que o sistema teve dificuldade em captar conceitos ligados à produção científica e aos processos de comunicação do conhecimento, do eixo temático central do texto expresso pelos descritores ‘bibliotecas digitais’ e ‘bibliotecas virtuais’ que foram corretamente atribuídos.

Situação semelhante foi identificada em D45, no qual os termos ‘cienciometria’ e ‘webometria’ não foram reconhecidos pelo sistema devido a variações de grafia, resultando em falhas no alinhamento entre a indexação automática e o padrão-ouro. Essa divergência ocorreu porque, durante o treinamento do modelo, os termos foram aprendidos na forma ‘cientometria’ e ‘webmetria’, levando o sistema a não associá-los diretamente aos descritores. Essa limitação evidencia que, embora o Annif tenha identificado parcialmente o campo temático por meio de descritores correlatos, não captou a precisão conceitual e a completude da representação temática.

De modo geral, as omissões observadas reforçam a necessidade de ampliar a cobertura do vocabulário controlado e de ampliar o corpus de treinamento do sistema, incorporando termos especializados e variações lexicais que podem não estar entre os mais frequentes, mas tem capacidade de impactar diretamente na representação precisa do conteúdo.

5 CONCLUSÕES

Este estudo avaliou o desempenho do sistema de indexação automática Annif, configurado com o backend MLLM, em um corpus de artigos em Ciência da Informação em português. Os resultados demonstram um bom desempenho (F1=49,23%), indicando que a ferramenta é viável para ser utilizada em um cenário de indexação semiautomática, onde atuaria como um sistema de sugestão para um indexador humano, potencialmente agilizando o fluxo de trabalho em repositórios digitais, reforçando a eficiência sem comprometer a precisão.

A análise qualitativa evidencia que o Annif tem bom desempenho em captar conceitos centrais e recorrentes, mas falha em dois pontos, a propensão em incluir termos genéricos ou deslocados, cuja capacidade de discriminação temática é limitada e que introduzem ruído à indexação, e a omissão de conceitos especializados, que compromete a cobertura semântica.

Essas constatações reforçam os achados consistentes na literatura internacional, segundo os quais o desempenho da indexação automática é sensível a fatores como o alinhamento lexical entre o texto e o vocabulário controlado, o tamanho e a representatividade do corpus de treinamento e a natureza do domínio documental (Golub et al., 2024; Kerketta, Mukhopadhyay, 2025).

As principais limitações deste estudo residem no tamanho reduzido do corpus de treinamento, que restringe a capacidade de generalização do modelo, e na avaliação centrada em correspondência lexical, que pode subestimar relações semânticas mais sutis. Além disso, a escolha por um único backend (MLLM), ainda que metodologicamente justificada para fins comparativos, não explorou plenamente o potencial da arquitetura multimétodo do Annif.

Para pesquisas futuras, recomenda-se:

  • a) ampliar o corpus de treinamento, garantindo maior representatividade temática e lexical;

  • b) comparar diferentes backends (ex.: Omikuji, fastText) e explorar combinações via ensembles;

  • c) integrar modelos semânticos baseados em embeddings, capazes de capturar correspondências conceituais não literais;

  • d) realizar estudos empíricos em fluxos reais de indexação semiautomática, com a participação de bibliotecários, de modo a avaliar a qualidade das sugestões automáticas e o impacto prático da adoção do Annif em contextos institucionais.

A força do Annif não reside em um único algoritmo, mas em sua arquitetura flexível, capaz de combinar modelos complementares e ajustar-se a diferentes ambientes institucionais, linguísticos e documentais. Essa característica o consolida como uma solução versátil e escalável para a indexação automática baseada em aprendizado de máquina, permitindo equilíbrio entre precisão, revocação e contextualização semântica.

Em síntese, os resultados confirmam que o Annif é uma ferramenta de indexação automática promissora para a Ciência da Informação no Brasil, especialmente em fluxos de indexação semiautomática. Contudo, seu uso pleno em diferentes domínios depende de investimentos contínuos na qualidade dos dados de treinamento, na customização de vocabulários e na exploração de sua arquitetura multimétodo. Este estudo oferece, assim, um ponto de partida empiricamente fundamentado para a consolidação de pesquisas em indexação automática em língua portuguesa envolvendo a aplicação do software Annif.

REFERÊNCIAS

  • PREPRINTS
    O manuscrito não é um preprint.
  • USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    O uso de inteligência artificial foi mencionado no resumo e na seção de métodos. Foi utilizada a ferramenta ChatGPT (versão GPT-5 Thinking mini) exclusivamente para revisão gramatical e de clareza textual, de forma pontual e supervisionada, em conformidade com as diretrizes éticas do periódico.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA E OUTROS MATERIAIS
    Os dados foram publicados no próprio artigo. Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está incluído no corpo do artigo.
  • LICENÇA DE USO
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  • PUBLISHER
    Universidade Federal de Santa Catarina. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade das pessoas autoras, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

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    Edgar Bisset Alvarez, Genilson Geraldo, Camila de Azevedo Gibbon, Amanda Santos Witt, Karyn Lehmkuhl, Daniela Capri.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Nov 2025
  • Aceito
    16 Jun 2026
  • Publicado
    31 Jul 2026
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