Resumo
O objetivo deste artigo é oferecer subsídios teóricos para melhorar a compreensão a respeito das relações entre sistemas financeiros e mudanças climáticas. Para tanto, adapta-se o arcabouço teórico desenvolvido por Minsky para apreender os atuais efeitos macroeconômicos da crise do clima, enfatizando o que tem sido chamado de instabilidade financeira induzida pelo clima e a possibilidade de um momento Minsky climático. O artigo demonstra que as mudanças climáticas amplificam a incerteza nos cenários que orientam a composição de portfólio e as decisões de investimento, além de alterar a relação entre os fluxos de endividamento e receitas esperados, o que poderia tornar unidades que operam inicialmente sob o regime de financiamento hedge em unidades especulativas ou até mesmo ponzi. A prevenção de um colapso econômico decorrente da mudança climática estaria em uma ampla reconfiguração institucional que promovesse um “Grande Banco Central Verde”.
Palavras-chave:
Macroeconomia ecológica pós-keynesiana; Instabilidade financeira induzida pelo clima; Momento Minsky climático; Banco central verde.
Abstract
The aim of this article is to provide theoretical support to improve understanding of the relationship between financial systems and climate change. To this end, the theoretical framework developed by Minsky is adapted to capture the current macroeconomic effects of the climate crisis, emphasizing what has been called climate-induced financial instability and the possibility of a climate Minsky moment. The article demonstrates that climate change amplifies uncertainty in the scenarios that guide portfolio composition and investment decisions, in addition to altering the relationship between debt flows and expected receipts, which could turn units that initially operate under the hedge financing regime into speculative or even Ponzi units. The prevention of an economic collapse resulting from climate change would lie in a broad institutional reconfiguration that promotes a “Green Big Central Bank”.
Keywords:
Post-Keynesian ecological macroeconomics; Climate-induced financial instability; Climate Minsky moment; Green central bank.
1 Introdução
O tema deste artigo é a intersecção entre sistemas financeiros e mudanças climáticas, aparentemente mediada por uma relação bidirecional. Isso ocorre porque, ao mesmo tempo em que a mudança climática instabiliza os sistemas financeiros, cuja segurança e liquidez deveriam ser asseguradas pelos bancos centrais, também é alimentada pelo grande fluxo de recursos financeiros direcionados majoritariamente a projetos intensivos em carbono, o que indica algum grau de alheamento das autoridades monetárias em relação ao bem-estar ecológico e um viés pró-carbono dos sistemas financeiros.
Sendo assim, o objetivo do artigo é contribuir para o aprimoramento da compreensão a respeito das interações entre sistemas financeiros e meio ambiente, uma vez que os impactos econômico-financeiros das mudanças climáticas ainda permanecem pouco explorados, sobretudo a partir de uma perspectiva teórica. Mais precisamente, o artigo é orientado pela hipótese de que o agravamento das mudanças climáticas pode instabilizar, ainda mais, os sistemas financeiros, com repercussões negativas no lado real da economia. Para isso, busca-se oferecer um enquadramento teórico heterodoxo centrado na teoria de Hyman Minsky.
Embora tenha escrito a maior parte de sua obra na segunda metade do século XX, momento de ascensão e fortalecimento do debate ambiental, Minsky não se debruçou sobre o tema, mas construiu um sofisticado arcabouço teórico que pode ser adaptado para abordá-lo. As ideias de Minsky, de acordo com Nikolaidi (2017; 2021), podem ser facilmente incorporadas em diferentes estruturas macroeconômicas heterodoxas, inclusive para circunscrever a temática ambiental.
Como método, o artigo empreende um esforço de aproximação e adaptação das teses minskianas com o arcabouço teórico da economia ecológica, utilizando o produto desse esforço para construir uma interpretação original sobre a atual crise climática e seus possíveis efeitos adversos para a instabilidade macroeconômica. Dessa forma, as proposições aqui desenvolvidas podem ser localizadas dentro da macroeconomia ecológica pós-keynesiana,1 uma nova disciplina emergente a partir da síntese das teorias de Keynes e Georgescu-Roegen e de seus respectivos discípulos.
Essa nova disciplina busca suprir algumas carências presentes nos programas de pesquisa originais que a compõem. Economistas ecológicos, frequentemente, ofereceram pouca atenção a temas como as dinâmicas do mercado de trabalho e a importância dos padrões de financiamento, enquanto o programa pós-keynesianos demorou a investigar os efeitos deletérios das atividades antrópicas sobre o meio ambiente, um tema ao qual passou a se dedicar apenas recentemente. Em suma, a nova disciplina fortalece o escopo analítico da teoria econômica heterodoxa, ao mesmo tempo em que oferece uma base teórica mais sólida para orientar a formulação de política econômica em um contexto no qual a crise climática é inescapável (Santos; Andrade, 2023).
Atualmente, tanto a literatura econômica quanto a política econômica, em grande parte do globo, seguem majoritariamente influenciadas pelo Novo Consenso Macroeconômico, no qual ou há uma retumbante ausência de questões ambientais ou, quando são tratadas, aparecem sob o pressuposto de substitutibilidade perfeita dos fatores de produção - de modo que recursos naturais, trabalho e capital seriam facilmente intercambiáveis e substituíveis. Dessa forma, o meio ambiente é desvalorizado e seu comportamento ao longo da trajetória de longo prazo da economia não é especificado.2 O resultado é que os efeitos das mudanças climáticas, se tanto, são tratados como choques exógenos que perturbam apenas temporariamente o equilíbrio de longo prazo da economia (Arestis; González-Martínez, 2015).
Com isso, o presente artigo, além de avançar na construção da recente macroeconomia ecológica pós-keynesiana, contribui com uma perspectiva alternativa original ao salientar as determinações endógenas da instabilidade macrofinanceira provocada pelas mudanças climáticas - um ponto até o presente momento relativamente negligenciado, constituindo, então, uma lacuna na literatura. Trata-se, portanto, da contribuição mais distintiva do presente artigo para a literatura.
Para isso, adota-se o pressuposto da indissociabilidade, segundo o qual é impossível separar o lado real do monetário, o econômico do ecológico e a micro da macroeconomia. Dow (2017) já havia criticado a prática dominante de separação conceitual circunscrita em uma ontologia de sistema fechado para encorajar um foco metodológico excessivo na modelagem formal. Reconhecer a incerteza como um elemento endêmico dos sistemas sociais abertos implicaria uma complexificação tamanha do modelo teórico neoclássico que o tornaria matematicamente inviável. Além disso, se as economias forem entendidas como inerentemente propensas à instabilidade financeira em virtude dos ciclos de crédito e de preferência pela liquidez, as estabilidades monetária, financeira, econômica e ecológica (e as políticas monetária, fiscal e climática) seriam vistas como interdependentes entre si, o que demandaria um arranjo teórico no qual essas interdependências fossem explicitadas.
A economia ecológica já conta com uma sólida tradição de pesquisa que trata os processos ecológicos e econômicos como dimensões indissociáveis - talvez esse seja seu principal aporte à construção da nova disciplina. Nesse paradigma, a economia é concebida aprioristicamente como um subsistema da biosfera, isto é, uma parte de um todo maior, um sistema aberto inserido e condicionado por um sistema fechado. Assim, as dinâmicas internas da economia interagem, por meio de complexos mecanismos de propagação e adaptação, com as dinâmicas do sistema ecológico externo. Essa interação é marcada por influências mútuas, nas quais a economia tanto interfere quanto é afetada pelas transformações ecológicas. A economia está, portanto, imersa no sistema ecológico, com o qual realiza trocas contínuas dos elementos fundamentais à vida em sociedade. Tais trocas são cumulativas, retroalimentadas, imprevisíveis, não lineares e altamente correlacionadas (Georgescu-Roegen, 1971).
Portanto, o argumento que será desenvolvido aqui é: as mudanças climáticas acentuam a fragilidade e a instabilidade dos sistemas financeiros, em sentido minskiano. Isso se deve a duas razões:
i) as mudanças climáticas amplificam a incerteza que permeia o ambiente no qual as decisões de investimento são tomadas, de modo que as unidades financeiras são compelidas a considerar as implicações de um planeta mais quente na composição de seus portfólios, o que alteraria o estado das convenções e os prêmios de liquidez e;
ii) as mudanças climáticas podem alterar a relação entre os fluxos de caixa de recebimentos esperados e os fluxos das obrigações, podendo transformar unidades inicialmente hedge em unidades especulativas ou até mesmo ponzi, seja porque obrigariam os governos a implementarem uma política de descarbonização da economia, inviabilizando os negócios intensivos em carbono (riscos de transição); seja porque eventos climáticos extremos promoveriam altos custos de reconstrução (riscos físicos); seja porque instituições de seguro ou agentes envolvidos em crimes ambientais poderiam ser forçados à reparação financeira (riscos de responsabilidade).
Além desta introdução e dos comentários finais, o artigo se subdivide em mais duas partes. A segunda seção apresenta a perspectiva minskiana sobre fragilidade e instabilidade financeira para, em seguida, adaptá-la à temática da crise ambiental. A terceira seção discute as possibilidades de uma crise financeira advinda de fenômenos ambientais, conhecida como “momento Minsky climático” e o seu remédio profilático, o Grande Banco Central Verde.
2 Estabilizando uma economia ainda mais instável
Esta seção explora as ideias de Minsky sobre a instabilidade inerente da economia e a fragilidade dos sistemas financeiros, bem como sua explicação para os ciclos econômicos. Em seguida, adapta essas ideias para apreender as mudanças climáticas enquanto promotoras de fragilidades sistêmicas que vulnerabilizam ainda mais a economia.
2.1 Perspectivas fundamentais da teoria minskiana
O fio condutor da teoria minskiana é o assim chamado Paradigma de Wall Street, uma sofisticada interpretação de Keynes que deu origem ao keynesianismo financeiro e compreende a economia capitalista moderna como um conjunto de unidades econômicas em constante evolução que interagem, entre si e com o ambiente externo, através de uma complexa teia de instituições. A trama minskiana tem como cenário o sistema financeiro, no qual os principais personagens são banqueiros e empresários e o enredo é a perseguição do lucro (Pollin, 1997; Lourenço, 2006).
A nível microeconômico, a principal preocupação das unidades econômicas é determinar a composição dos seus balanços, ou seja, decidir quais ativos adquirir e como financiar as posições nesses ativos. Assim, fazem arbitragens entre todos os ativos (físicos e financeiros) com base em suas taxas de retorno esperadas e, com isso, determinam o horizonte de seus portfólios (Tymoigne; Wray, 2013). Mas as expectativas sobre o futuro podem ser frustradas, afinal, como ponderado por Minky (1975, p. 77): “o mundo é um lugar incerto: há ontens, hojes e amanhãs. Além disso, esse é um mundo capitalista no qual unidades têm portfolios, ativos e passivos que incorporam visões de ontem e tanto geram quanto comprometem receitas de hoje e de amanhã”.
Dessa maneira, fica claro que a interpretação econômica de Minsky é dominada por uma visão de fluxo de caixa, que oferece bastante destaque às variáveis tempo e incerteza. O tempo em Minsky equivale ao tempo em Keynes, é unidirecional e irreversível, é o tempo em sentido gregoriano, diferente do tempo empregado em sentido neoclássico. A incerteza decorre da impossibilidade de cognição prévia do futuro e fundamenta a preferência pela liquidez, pois é justamente o futuro incerto que compele os agentes a entesourarem moeda como mecanismo de proteção contra possíveis revezes (Minsky, 1975; Vicarelli, 1984; Mollo, 1988).
Nessa perspectiva, a economia está persistentemente fora do equilíbrio e resultados “anti-smithianos” são comuns, nos quais interesses individuais descentralizados transformam resultados inicialmente desfavoráveis em resultados ainda piores, frutos malignos da mão invisível (Minsky, 1994). Qualquer intervenção que intente remediar as falhas do sistema produz efeitos apenas provisoriamente, pois a instabilidade lhe é inerente e não pode ser definitivamente erradicada (Lourenço, 2006). Logo, os mecanismos de mercado capitalistas são falhos e não conduzirão a um equilíbrio estável de pleno emprego, a base da falha reside no sistema financeiro (Minsky, 1975).
A instabilidade da economia capitalista advém da forma pela qual a atividade econômica é financiada pelo setor bancário, que se endivida a curto prazo junto ao público para ofertar empréstimos que somente serão recuperados a longo prazo, a depender do sucesso dos empreendimentos financiados (Mollo, 1988). Aqui, o financiamento é entendido como “um processo de criação de dinheiro, de emissão de dívidas. A finança é o princípio, o fundamento da atividade econômica capitalista. Financiar significa criar uma dívida, oferecer um crédito”. Por essa razão, a instabilidade inerente do sistema capitalista está “associada ao ciclo dos negócios e, portanto, não decorre de fatores exógenos ou de erros da política do governo, mas é um resultado normal do processo de financiamento realizado pelos bancos” (Corazza, 1995, p. 100-102).
Assim, na teoria minskiana os lados real e financeiro (bem como as análises micro e macro) são indissociáveis, e são as forças endógenas dos processos de financiamento que alimentam a instabilidade de todo sistema econômico (Mollo, 1988). A fragilidade sistêmica surge quando se eleva o grau de imprudência do endividamento das unidades que constituem o sistema financeiro (Tymoigne; Wray, 2013). Isto ocorre quando a proporção das unidades ponzi e especulativas se torna maior que a proporção de unidades hedge. Nesse momento, a solvência de todo o sistema financeiro fica comprometida, o que o torna, então, mais frágil e suscetível a colapsos (Minsky, 1986).
O Quadro 1 sistematiza o significado e as implicações das unidades classificadas a partir da relação de seus fluxos de recebimentos esperados e de seus compromissos de dívidas:
Recapitulando, um sistema financeiro robusto é aquele em que o número de unidades em regime de financiamento hedge supera a soma das unidades especulativas e ponzi. À medida em que o peso do financiamento especulativo e ponzi na economia aumenta e o sistema vai se tornando mais frágil e propenso a crises, também será maior a pressão ascendente sobre as taxas de juros (Pollin, 1997). Isso ocorre porque esse processo de fragilização promove flutuações no estado de confiança, decorrentes do aumento da incerteza sobre a solvência da economia, e consequentemente variações nos prêmios de risco demandados pelos agentes para renunciar ao entesouramento de moeda (Dymski; Pollin, 1992).
Ressalta-se, ainda, que as unidades especulativas e ponzi têm uma demanda inelástica em termos de juros por fundos emprestados e dependem do mercado de crédito para manter a solvência. A viabilidade econômica dessas unidades está, assim, ameaçada pelo aumento das taxas de juros. Concomitantemente, essa demanda inelástica reforça a pressão ascendente sobre as taxas de juros (Dymski; Pollin, 1992). A taxa de juros é, nessa perspectiva, um fenômeno eminentemente monetário, associado à preferência pela liquidez ou propensão a entesourar, e não o resultado de um suposto equilíbrio entre investimento e poupança.
Um sistema financeiro mais frágil em sentido minskiano tem duas implicações. Na primeira delas, a economia torna-se menos capaz de absorver choques, logo é mais provável que os choques induzam uma crise financeira e uma deflação da dívida. Os choques em si não são a causa da crise, pois uma economia com sistema financeiro robusto - onde a maioria das unidades operam em regime de financiamento de hedge - será resiliente e suportará o choque. Na segunda, o grau de risco dos mutuários e dos mutuantes também aumenta, o que tende a inibir o crescimento da atividade de investimento financiada por dívida (Dymski; Pollin, 1992).
Sob esses aspectos, a fragilidade financeira pode tornar alguns negócios insolventes, isto é, menos aptos a manter um nível adequado de patrimônio líquido e a gerar fluxos de recebimentos suficientes para evitar falências ou sair do mercado; e reduzir, em vários segmentos, a capacidade de cumprimento de seus débitos devido a alterações nas condições financeiras3 (Minsky, 1982; 2004). Afinal, “as expectativas de lucros dos negócios determinam tanto o fluxo de financiamento para as empresas como o preço de mercado dos contratos de financiamento existentes”. Mas, é a “realização dos lucros que determina se os compromissos assumidos em contratos financeiros serão cumpridos e se os ativos financeiros terão o desempenho definido durante as negociações” (Minsky, 2009, p. 317).
Já a proporção entre unidades hedge, especulativa e ponzi é determinada pela própria trajetória do ciclo econômico. Na teoria minskiana há uma tendência inerente do capitalismo em passar de estados de robustez para estados de fragilidade sistêmica, devido a mudanças nas expectativas que ocorrem durante o ciclo de negócios e a forma como essa mudança é transmitida pelo sistema financeiro (Pollin, 1997). Talvez esse seja o ponto que mais tenha recebido atenção dentro do arcabouço teórico minskiano, pois está diretamente relacionado à Hipótese da Instabilidade Financeira, segundo a qual as economias capitalistas alternam períodos de estabilidade e períodos caóticos e turbulentos, de modo que as crises são cíclicas (Tymoigne; Wray, 2013)
A Hipótese da Instabilidade Financeira é sustentada por quatro pressupostos básicos: i) a instabilidade decorre de forças endógenas, referente à forma como a atividade econômica moderna se financia; ii) embora se origine no mercado financeiro tem efeitos sobre a economia real; iii) o setor bancário tende a produzir e agravar a instabilidade e; iv) o estouro da crise é imprevisível, logo não pode ser antecipado (Ferri, 2019).
São nos momentos de estabilidade que as sementes da próxima crise são plantadas, devido ao comportamento de agentes individuais auto interessados que se tornam mais afeitos ao risco. Portanto, a estabilidade é desestabilizadora. Os períodos caóticos tendem a ser caracterizados pelo estouro de bolhas especulativas que amplificam a depressão econômica (Minsky, 1994). Na parte mais baixa do ciclo, os lucros realizados e a expectativa de lucros são baixas, mas a estrutura financeira é robusta. Conforme o ciclo avança, os lucros também começam a subir, embora as expectativas de lucros ainda permaneçam baixas e os padrões de financiamento cautelosos. Gradualmente, os lucros realizados excedem as expectativas, o espírito animal do empresariado desperta e os agentes se tornam mais afeitos ao risco (Dymski; Pollin, 1992).
Nessas circunstâncias, mesmos as empresas mais cautelosas sentem-se pressionadas a perseguir todas as oportunidades aparentes de lucro ou perdê-las para os concorrentes, de modo que expectativas eufóricas ganham espaço (Pollin, 1997). A taxa de crescimento do endividamento excede a taxa de crescimento dos lucros, visto que, para determinada distribuição da renda entre salários e lucros, as oportunidades de lucro são limitadas pelo crescimento da produtividade (Dymski; Pollin, 1992), enquanto a oferta de crédito não sofre limitações, pois, ainda que a autoridade monetária tente restringi-la, os ofertantes poderiam burlar as novas regulamentações com inovações financeiras (Minsky, 1957).
A estrutura financeira torna-se, assim, cada vez mais frágil, pois o endividamento geral aumenta e a proporção de unidades especulativas e ponzi supera a proporção de unidades hedge. Nesse momento, o pleno emprego pode ser alcançado, não como um ponto de equilíbrio natural para a economia capitalista, mas sim, antes de tudo, como um momento transitório no ciclo. Quando as unidades insolventes e as deflações de dívidas provocam uma falha no processo de acumulação, o sistema bancário altera seu comportamento buscando garantir a própria sobrevivência (solvência) diante das falências de seus devedores; com isso, adota estratégias mais cautelosas para proteger os seus balanços, impondo condições mais rigorosas para a concessão de crédito. Consequentemente, as firmas mais alavancadas e incapazes de fazer frente a seus passivos são destruídas, levando um grande número de unidades ponzi e especulativas à falência, uma vez que as possibilidades de refinanciamento se tornaram mais escassas. A eliminação das firmas mais endividadas torna os sistemas financeiros mais robustos4 (Minsky, 1986; Tymoigne; Wray, 2013). Corroborando a tese de que o “capitalismo sem falhas é como a religião sem pecados, não funciona” (Meltzer, 2012, p. 24).
Conforme as turbulências são revertidas, seja por intervenção política ou por restrições institucionais autoimpostas pela organização dos próprios mercados, um novo regime de estabilidade se estabelece, sendo caracterizado por baixo nível de atividade. Com o tempo, na busca pelo interesse próprio, os agentes vão se tornando mais afeitos ao risco e o sistema financeiro mais alavancado, alimentando uma nova bolha especulativa (Minsky, 2009).
2.2 Incluindo as mudanças climáticas na perspectiva minskiana
A temática ambiental deveria receber mais atenção na dinâmica econômica moderna, já que as mudanças climáticas se tornaram uma fonte de risco potencial que pode comprometer a estabilidade do sistema financeiro por meio de canais de transmissão e amplificação, no que tem sido didaticamente chamado de hipótese de instabilidade financeira induzida pelo clima, conforme cunhado por Lamperti et al. ( 2019). Segundo essa hipótese, o agravamento das mudanças climáticas poderia corroer a estabilidade dos sistemas financeiros, aumentando a proporção de unidades especulativas e ponzi sobre unidades hedge, com repercussões no lado real da economia.
Mas o tema permanece negligenciado, em razão da fantasia insidiosa conhecida como “tragédia dos horizontes”, na qual as consequências da crise ambiental recairão apenas sobre as gerações futuras, representando um desincentivo para que a geração atual enfrente o problema. Além disso, as convenções de políticas monetárias estão cristalizadas em torno do objetivo de manter as taxas de inflação dentro de uma meta, favorecendo uma visão de curto prazo, com horizonte de 2 ou 3 anos, em um evidente descompasso com programas de descarbonização que requerem medidas de longuíssimo prazo. Apesar dos esforços frívolos para negligenciar o problema, existem ao menos três canais pelos quais a mudança climática compromete a estabilidade financeira: o canal de riscos físicos, o canal de riscos de responsabilidade e o canal de riscos de transição (Carney, 2015).
O canal de riscos físicos relaciona-se aos eventos climáticos extremos - cada vez mais frequentes e severos - que podem ocasionar danos à propriedade, à infraestrutura e a ativos tangíveis. Tais eventos impactam diretamente a produção e distribuição de alimentos e a oferta de água potável, gerando perdas de safras e estimulando fluxos migratórios, com graves consequências à saúde humana e não humana, uma vez que o crescente aquecimento médio da temperatura também pode estar associado ao aumento de morbidade e da mortalidade. Os choques oriundos da mudança climática podem engendrar, pelo lado da oferta, perdas na produção de alimentos, na oferta de mão de obra e no estoque de capital e, pelo lado da demanda, redução do nível de investimentos e do consumo das famílias (Campos, 2021).
Assim, o canal de riscos físicos5 pode reduzir a produtividade da agricultura e romper cadeias globais de oferta, o que consequentemente, impactaria os níveis de preços, tornando-os mais voláteis. Além disso, ele ainda pode alterar o preço de uma gama de ativos financeiros, além de aumentar o prêmio de liquidez atrelado a eles, devido ao crescimento da incerteza associada às suas taxas de retorno (FSB, 2020). Também pode reduzir a demanda agregada, impactando os balanços patrimoniais de vários segmentos e aumentar os custos de captação de crédito ou de rolagem da dívida, reduzindo a solvência global do sistema (Breitenfellner; Pointner, 2021).
Um segundo meio pelo qual a mudança climática pode aumentar a instabilidade do sistema financeiro é o chamado canal de riscos de responsabilidade e está relacionado à possibilidade de reivindicações futuras das vítimas de eventos climáticos extremos, na forma de reparações e indenizações, que podem atingir seguradoras e empresas intensivas em carbono. O setor de seguros é especialmente vulnerável, pois o aumento da frequência de desastres climáticos culminará no aumento de reivindicações dos prêmios dos contratos de seguros, levando as seguradoras a reconsiderar suas avaliações sobre o valor das empresas clientes, o prêmio que estão dispostas a pagar e os preços das apólices. No pior cenário, poderia haver uma redução da base de clientes das seguradoras e possíveis falências (Carney, 2015; FSB, 2020).
Conforme a crise ambiental se agrava, a oferta de cobertura de seguros em alguns setores da economia - os mais intensivos em carbono - pode simplesmente desaparecer, transferindo para os balanços patrimoniais desses setores todos os riscos envolvidos nos negócios, a ponto de inviabilizá-los (FSB, 2020). Apesar dos potenciais efeitos instabilizadores sobre o setor de seguros, o estado da arte da regulação ainda não avançou o suficiente para incluir possíveis consequências da crise ambiental em seus modelos de previsão e de riscos, ainda bastante atrelados ao curto prazo. Com isso, o setor de seguros perde uma excelente oportunidade de negócio de longo prazo ao negligenciar o apoio à transição verde (Carney, 2015).
Somente no ano de 2023, desastres naturais provocaram perdas seguradas no montante de 108 bilhões de dólares em todo o globo; cerca de 64 bilhões de dólares, mais da metade do total, estiveram relacionados a perdas decorrentes de tempestades severas. Dos 142 desastres naturais segurados contabilizados no mesmo ano, a maior parte foi de gravidade média com perdas orçadas entre 1 e 5 bilhões de dólares, muito acima da média dos dez anos anteriores. Além disso, entre 1994 e 2023, as perdas seguradas mantiveram um crescimento médio de 5 a 7%, enquanto o PIB global no mesmo período cresceu em média 2,7% (Instituto da Suíça, 2024). Na Califórnia, quase 10% das casas não são mais atendidas pelas seguradoras tradicionais devido à alta probabilidade de sinistros ambientais, o que já afeta a trajetória do setor imobiliário da região (FSB, 2025).
Além do setor de seguros, os riscos de responsabilidade também se manifestam na possibilidade de judicialização das consequências das mudanças climáticas. Vítimas de eventos climáticos severos podem recorrer à justiça exigindo indenizações de empresas direta ou indiretamente responsáveis pelo agravamento das consequências ambientais. Tais processos judiciais podem corroer o ativo reputacional dos agentes querelados, reduzindo seu valor de mercado e comprometendo seus fluxos de rendimentos esperados (FSB, 2020). Atualmente, já há cerca de mil ações coletivas relacionadas a mudanças climáticas em 25 países distintos (Guttmann, 2022).
Por fim, há, ainda, o canal de riscos de transição, que decorre das mudanças na política econômica, no padrão tecnológico e no comportamento do consumidor durante um programa de reformas com vistas à implantação de uma economia de baixo carbono, que podem afetar as condições macroeconômicas nos países mais envolvidos com a transição. A busca por fontes alternativas de energia para a substituição da matriz energética centrada em combustíveis fósseis pode comprometer diversos setores - petrolífero, transportes, construção civil, agronegócio expansivo - que são a base dinâmica de muitas economias, levando a rupturas de curto prazo com gigantesco potencial instabilizador (Guttmann, 2022).
Até 2022, o setor de combustíveis fósseis era responsável direto por mais de 10% do comércio mundial e representava cerca de 10% do investimento global (WDI, 2024), o que significa que um desmonte abrupto do setor, ainda que benéfico da perspectiva ambiental, implicaria em elevados custos sociais e fiscais, com o rápido crescimento da taxa de desemprego e a queda na arrecadação em muitos governos. Portanto, ainda que a transição para um modelo de produção e consumo mais sustentável seja urgente, uma transição abrupta e descoordenada poderá corroer a estabilidade financeira e econômica, o que favorece os defensores de uma mudança suave e gradual6 (Campos, 2021).
Os riscos de transição também podem alterar os fluxos de caixa esperados, pois uma vez que um programa de descarbonização implemente novas tecnologias, mudanças regulatórias e novos impostos sobre carbono, o cenário sobre o qual as decisões de investimento foram tomadas se transforma substancialmente, alterando o valor dos ativos, bem como seus coeficientes de risco e retorno. Além disso, a transição também pode criar um conjunto de ativos encalhados, ou seja, um montante de recursos que não encontram mais uso em uma economia verde, por serem altamente intensivos em carbono (Breitenfellner; Pointner; Schumberth, 2019).
Os riscos físicos tendem a afetar todos os agentes da economia, enquanto os riscos de responsabilidade e os de transição afetariam, em maior medida, as empresas intensivas em carbono. Vale ressaltar também que os três canais de risco se retroalimentam através de complexos circuitos de feedback - que surgem quando ações tomadas por agentes individuais auto interessados interagem de múltiplas formas amplificando os resultados positivos e negativos - entre sistemas financeiros ou entre sistema financeiro e economia real, engendrando um movimento de mesma direção nos preços de ativos distintos, que poderia deixar os investidores altamente expostos aos choques das mudanças climáticas, mesmo aqueles que operam com uma estratégia de diversificação de portfólio (FSB, 2020).
Assim, a mudança climática produz choques econômicos e aumento da incerteza em todo o mundo, com implicações sobre o movimento dos preços de bens, serviços e ativos financeiros, deixando-os mais voláteis e criando um cenário ainda mais difícil de modelar ou de fazer previsões. Cabe lembrar, ainda, que a mudança climática é uma tendência e não um fenômeno cíclico, que apresenta efeitos permanentes e potencialmente sobrepostos, podendo inclusive reduzir a eficácia da política monetária e, portanto, exigir novas ferramentas (Breitenfellner; Pointner; Schumberth, 2019).
O Quadro 2 resume os principais resultados dos três tipos conhecidos de riscos climáticos, bem como as consequências de cada um deles sobre a política monetária e o horizonte de tempo no qual eles podem se manifestar. Embora a mudança climática ainda não tenha incentivado um esforço global de coordenação para o esverdeamento da economia, nota-se que ela já produz efeitos em todos os prazos possíveis.
Impactos relevantes sobre o nível geral de preços e o horizonte de tempo da materialização dos riscos climáticos
A Figura 1 apresenta o caminho estilizado que os riscos climáticos percorrem no processo de fragilização sistêmica. Inicialmente os riscos climáticos afetam direta e indiretamente as bases de custos das firmas e produzem choques de oferta e mudanças nos padrões de demanda. Como a interpretação minskiana desse processo confere grande destaque à integração entre os lados real e financeiro, as mudanças de preços nos mercados financeiros implicam mudanças na alocação de capital e nas composições de portfólio.
É apenas uma questão de tempo até que essas mudanças engendrem efeitos sistêmicos, com perturbações nas cadeias de oferta, corrosão nas margens de lucros esperadas, nas taxas de juros e, consequentemente, na elevação da disparidade entre ativos e passivos financeiros. O resultado é o aumento da instabilidade com propagação macroeconômica.
3 Pode acontecer de novo? - o momento Minsky climático
Esta seção aprofunda a análise das consequências das mudanças climáticas para a estabilidade dos sistemas financeiros e da economia como um todo, enfatizando como está sendo gestado o cenário perfeito de um colapso econômico causado pela crise ambiental - o momento Minsky climático. Na sequência, apresenta uma solução profilática para evitar a crise: o modelo de um “Grande Banco Central Verde”.
3.1 As incertezas do momento Minsky climático
Uma economia financeiramente fragilizada é caracterizada por uma grande alavancagem do setor bancário, especulação generalizada e crescente incompatibilidade entre ativos e passivos. É uma economia propensa a crises e mais vulnerável a choques, que pode ser surpreendida por um evento gatilho que engendre uma grave depressão econômica, conhecida na literatura como “momento Minsky”. Para compreendê-lo é preciso considerar o papel da incerteza e as mudanças nos fluxos de caixa (Ferri, 2019).
A partir do exposto na seção anterior, resta claro que a mudança climática pode representar potenciais choques macroeconômicos que são prováveis candidatos a gatilhos para uma crise. Por essa razão, alguns autores já chamam a atenção para a possibilidade de ocorrência de um “momento Minsky climático”. Ou seja, um evento marcado pela repentina reavaliação dos preços dos ativos que desencadeia um movimento deflacionário com repercussões no lado real da economia, decorrente da crescente exposição do sistema financeiro à incerteza climática (Miller; Dikau, 2022).
A incerteza climática7 é um fenômeno imensurável, portanto, impossível de ser quantitativamente considerada no processo de alocação intertemporal do capital e não pode ser razoavelmente explicada pelos modelos macroeconômicos tradicionais. Também não pode ser embutida nos preços dos ativos, tampouco comparada com outras variáveis. Além disso, sua distribuição de probabilidades, relacionada a eventos climáticos extremos, é virtualmente desconhecida. Não se trata de uma mera falha de mercado, e classificá-la dessa maneira impedirá o encaminhamento de soluções adequadas aos desafios que ela impõe. Diante dela, o sistema de informações que orienta as decisões econômicas permanece incompleto e insuficiente, dificultando respostas efetivas à crise ambiental, sobretudo por parte do setor privado (Collins, 2019).
Sob a incerteza climática, a incerteza convencional é amplificada e o futuro se torna ainda mais imprevisível, promovendo mudanças nos cenários que orientaram as decisões de investimento e a formação de expectativas sobre as rendas esperadas. Consequentemente, a incerteza climática é capaz de influenciar o estado das expectativas e alterar os fluxos de caixa esperados, de modo que o valor dos ativos e seus coeficientes de risco e retorno podem ser modificados. Assim, alguns agentes podem perceber que as rendas esperadas dos ativos que compõem seu portfólio já não fazem mais frente aos seus compromissos de dívidas, invertendo a proporção entre unidades financeiras hedge e unidades especulativas e ponzi, fragilizando o sistema (Breitenfellner; Pointner, 2021). Com isso, mudanças abruptas e não antecipadas nos padrões de financiamento podem levar a um colapso de toda a economia.
Nota-se, então, que a incerteza climática pode fomentar a coexistência de dois tipos de choques climáticos: i) os choques exógenos que advêm de eventos climáticos abruptos, encarecem as apólices de seguro ou danificam os estoques de capital e a infraestrutura ao ponto de interromper temporariamente os fluxos de produção e comércio, em geral, afetam um grupo específico de unidades econômicas e são regionalmente localizados e; ii) os choques endógenos que decorrem de mudanças graduais de longo prazo, comprometem gradativamente a produtividade do capital e do trabalho e interferem nas safras agrícolas e na saúde do trabalhador, em geral, afetam espaços territoriais maiores e são mais persistentes (Nikolaidi, 2017; 2021). Em termos minskianos, os choques endógenos acentuam progressivamente a fragilidade do sistema financeiro, enquanto os choques exógenos podem representar os gatilhos que disparam a depressão econômica.
A incerteza climática pode originar uma gama de efeitos deletérios prejudiciais a estabilidade financeira, tais como: i) o aumento da desconfiança generalizada sobre a solvência dos mutuários, que podem ter sua capacidade de pagamento, o valor de suas garantias ou sua lucratividade afetadas por choques climáticos; ii) reprecificações abruptas de ativos, devido a mudanças nas expectativas associadas à transição ecológica ou aos riscos físicos em desenvolvimento, o que eleva os prêmios de risco e a volatilidade do mercado - se o choque climático for suficientemente grande, a solvência de uma ampla variedade de unidades pode ser afetada de forma altamente correlacionada, culminando em riscos sistêmicos; iii) a remoção repentina de financiamento para unidades percebidas como excessivamente expostas ao clima; iv) maiores custos para as seguradoras obrigadas a reparar ou substituir os ativos danificados em decorrência de eventos climáticos (FSB, 2025).
Então, pela ótica da demanda, a ampliação da incerteza climática impacta diretamente os níveis de investimentos. Além disso, um programa de esverdeamento da economia talvez produzisse um deslocamento descoordenado dos investimentos de setores ambientalmente poluentes para os setores mais verdes, o que poderia ser chamado de “green crowding out”, quando novos investimentos em setores verdes desincentivam novos investimentos em setores intensivos em carbono, o que, embora benéfico do ponto de vista ecológico, poderia apresentar efeitos instabilizadores (Batten; Sowerbutts; Tanaka, 2020).
Ainda sobre a ótica da demanda, o comércio global também é desfavoravelmente afetado, uma vez que eventos extremos interrompem cadeias de suprimentos, danificam infraestruturas de transporte essenciais e limitam a mobilidade de pessoas. O transporte marítimo, responsável por cerca de 80% do volume e mais de 70% do valor do comércio internacional, é particularmente vulnerável aos riscos climáticos. A maior frequência de tempestades, a intensificação das chuvas e a elevação do nível do mar provocam fechamentos recorrentes de portos reduzem a velocidade de navegação, impõem a necessidade de rotas alternativas ou de medidas de segurança adicionais e aumentam os custos de manutenção das embarcações e da infraestrutura portuária, comprometendo, nesse processo, a eficiência logística e gerando impactos econômicos em escala global (Dellink et al., 2017).
Já pela ótica da oferta, a incerteza climática está associada a fatores relacionados à mão de obra, como disponibilidade, produtividade e condições de trabalho. Deryugina e Hsiang (2014) encontram, por exemplo, que a produtividade média do trabalho cai cerca de 1,7% para cada aumento de 1ºC na média da temperatura global. Acevedo et al. (2018) apresentam evidências de que o aumento da temperatura afeta indicadores de bem-estar humano, como o IDH. Um amplo conjunto de estudos observacionais e experimentais elencados por Dell et al. (2014) evidenciaram uma forte correlação entre aumentos de temperatura e redução de produtividade dos trabalhadores de fábricas, call centers e escritórios, bem como dos estudantes.
Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024) afirma que as mudanças do clima ameaçam diretamente a saúde da população devido às variações abruptas de temperatura e umidade, pois aumentam as chances de novas pandemias e doenças infecciosas. A poluição do ar representa um grave fator de risco à saúde pública, sendo responsável por cerca de 8 milhões de mortes prematuras por ano. Grande parte dessas mortes decorre de doenças cardiovasculares, derrames, câncer de pulmão e infecções respiratórias, como a pneumonia. Já a exposição prolongada ao ar poluído está associada à maior incidência de asma, diabetes, distúrbios neurológicos, natimortos e diversas complicações gestacionais. As crianças são particularmente vulneráveis, pois os poluentes atmosféricos podem comprometer o desenvolvimento pulmonar e cerebral, elevando o risco de doenças crônicas ao longo da vida.
Especificamente no Brasil, estados como Pará e Mato Grosso estão entre os mais vulneráveis à exposição desproporcional ao calor extremo. As projeções indicam que um aumento de 2 °C na região pode resultar na perda de até duas horas de trabalho seguro por dia, devido à exaustão térmica, desidratação, redução da capacidade cognitiva e física, aumento do risco de acidentes de trabalho, agravamento de doenças pré-existentes e, em casos extremos, morte por hipertermia (Parsons et al., 2021). Esses resultados sinalizam não apenas o comprometimento da saúde dos trabalhadores, como também gastos mais altos com assistência médica e redução da produtividade do trabalho, ampliando as disparidades entre receitas e despesas para os governos, as empresas e as famílias.
Além disso, o aumento da temperatura associado a secas severas ou chuvas intensas pode comprometer a oferta de alimentos e de energia, devido à redução da disponibilidade de áreas agriculturáveis. No Brasil, segundo a Embrapa (2024), os territórios de plantio poderiam ser reduzidos em até 30% nos próximos anos.8Dell et al. (2014) analisaram um grande volume de estudos econométricos que associam as mudanças do clima e à produtividade agrícola e encontraram que mudanças nos padrões pluviométricos, nos volumes de emissões de carbono e no crescimento médio da temperatura do planeta tendem a afetar negativamente a produtividade agrícola.
Os estoques de capital também são vulneráveis às mudanças climáticas, uma vez que o aquecimento global tende a elevar a taxa de depreciação dos ativos físicos. Esse cenário implica maiores custos de reposição e substituição, além de pressionar o saldo das contas retificadoras do ativo permanente nos balanços das firmas. Paralelamente, a implementação de programas de esverdeamento, voltados à transição para uma economia de baixo carbono, pode alterar o padrão tecnológico vigente, exigindo a realocação de recursos para setores mais sustentáveis. Essa transformação, embora necessária, demanda planejamento estratégico para mitigar impactos sobre a produtividade e a estrutura de capital instalada (Batten; Sowerbutts; Tanaka, 2020).
Com isso, a produtividade da economia como um todo - o grau de eficiência com que os processos produtivos convertem insumos como trabalho, capital, energia e recursos naturais em bens ou serviços - tende a se tornar sistemicamente mais comprometida, com repercussões negativas sobre os níveis de lucratividade, tornando as firmas mais expostas às variações do clima, menos atrativas para os credores e, consequentemente, sujeitas a condições de financiamento mais desfavoráveis. Tanto os choques de oferta quanto os de demanda são cumulativos e podem atuar de maneira sobreposta e retroalimentada até o ponto da ruptura. O efeito principal seria uma volatilidade maior dos níveis de preços, impactando taxas de juros, taxas de retorno, custos da dívida, fluxos de caixa e, consequentemente, a geração de renda. Supondo que as economias continuem respondendo às mudanças de temperatura da mesma forma que hoje, uma suposição plausível, considerando a falta de adaptação observada ao longo dos últimos 50 anos, estima-se que, até 2100, os efeitos não mitigados das mudanças climáticas tornarão 77% dos países do mundo mais pobres, em termos de renda per capita, do que seriam em um cenário sem alterações climáticas. Em alguns casos, as mudanças climáticas poderão inclusive fazer com que certos países estejam economicamente piores no futuro do que estão atualmente, dependendo das projeções das taxas de crescimento de longo prazo (Burke et al., 2015).
O Quadro 3 resume a contínua corrosão macroeconômica decorrente das mudanças climáticas que poderia levar ao colapso generalizado.
Um aspecto que merece mais destaque na literatura é a disparidade entre responsabilidade e vulnerabilidade nas diversas regiões do globo, uma vez que os impactos da crise climática podem ser bastante heterogêneos, a depender da localização geográfica e da capacidade interna de adaptação em termos de políticas, estruturas de financiamento e infraestrutura. Nações mais pobres, cujos parques industriais ainda são incipientes, contribuíram e permanecem contribuindo com uma parcela significativamente menor das emissões globais de poluentes em comparação aos países desenvolvidos. No entanto, são justamente essas nações que enfrentam os impactos mais severos das alterações climáticas.
Países como Somália, Haiti, Quênia e Burkina Faso, que figuram entre os mais vulneráveis aos riscos físicos das mudanças climáticas, respondem por apenas 0,13% das emissões globais de gases de efeito estufa. Apesar disso, os países desse grupo frequentemente enfrentam eventos extremos como secas prolongadas, ciclones devastadores e crises alimentares agudas. Entre 2018 e 2024, a incidência de fome severa nesses países aumentou 123% devido à combinação de fenômenos climáticos extremos - secas, desertificação e chuvas irregulares - e conflitos armados (Oxfam, 2022). Em contraste, os países desenvolvidos, embora sejam os principais emissores de carbono, tendem a ser menos afetados pelas variações climáticas, graças à infraestrutura mais sólida, à maior capacidade fiscal, aos sistemas financeiros mais sofisticados e à possibilidade de respostas políticas mais rápidas. Logo, considerando que os países mais pobres possuem sistemas financeiros menos sofisticados e diversificados, a instabilidade macrofinanceira pode ser pior nessas regiões.
Vale enfatizar que subjacente à incerteza climática e às mudanças nos fluxos de caixas decorrentes do agravamento da crise ambiental está a tensão temporal - chamada por Carney (2015) de tragédia dos horizontes - existente entre a visão curto-prazista e atomizada que orienta a tomada de decisões no capitalismo gestor de ativos9 e a urgência de uma ação global coordenada de investimentos de longo prazo que torne a economia ambientalmente sustentável. É justamente essa tensão temporal que poderia engendrar mudanças abruptas nas expectativas dos agentes, pois seria capaz de aumentar a discrepância entre o cenário expectacional e o cenário efetivamente observado. Seja por meio do canal dos riscos de transição, quando o governo é obrigado a implementar uma política de descarbonização surpreendendo os agentes; seja pelo canal de riscos físicos, quando um evento climático extremo implode a capacidade de solvência e liquidez dos envolvidos; seja, até mesmo, via canal de riscos de responsabilidade, quando o ativo reputacional de uma empresa ou o balanço de uma seguradora se arruínam virtude das reivindicações de clientes e consumidores prejudicados.
A interação entre assimetria de informações, racionalidade limitada, um sistema financeiro mais fragilizado e um futuro ainda mais incerto pode comprometer as expectativas de um amplo conjunto de agentes econômicos. Muitos deles tomaram decisões especulativas ou de investimento sem considerar, ou considerando de forma insuficiente, os efeitos da contínua deterioração do capital natural. Diante da crescente discrepância entre a realidade esperada e a realidade efetivamente observada, esses agentes tenderiam a reajustar suas posições de forma abrupta, reestruturando portfólios e revendo estratégias. Esse movimento coletivo poderia desencadear uma reprecificação súbita de ativos, com efeitos sistêmicos adversos sobre a economia: retração do produto, deflação e elevação significativa do desemprego. Tal dinâmica configura o que se poderia denominar de “momento Minsky climático”, ou seja, uma ruptura econômica provocada pela combinação de fatores financeiros endógenos e negligência em relação aos limites ecológicos e à sustentabilidade ambiental (Miller; Dikau, 2022).
A crise instaurada não seria cronologicamente pontual e se propagaria por mais de um período, pois “o passado, o presente e o futuro estão ligados não só pelas características dos bens de capital e da força de trabalho, mas também por relações financeiras e mudanças nessa estrutura” (Minsky, 2009, p. 316). Tampouco seria regionalmente isolada, mas sim se espalharia pela economia global afetando até mesmo aqueles que não contribuíram para a sua ocorrência, pois com a economia capitalista mundial cada vez mais integrada através dos mercados financeiros, a “complexidade institucional pode resultar em várias camadas de intermediação entre os verdadeiros proprietários da riqueza e as unidades que controlam e operam a riqueza das comunidades” (Minsky, 2009, p. 316).
Ainda cabe ressaltar que, tal como todo o processo minskiano, a instabilidade financeira induzida pelo clima e o momento Minsky climático seriam fenômenos endógenos. As mudanças climáticas, os sistemas financeiros e a macroeconomia estão presas à dinâmica interna da acumulação capitalista de forma indissociável, modificando ao longo do tempo os fluxos de recebimentos de caixa e os fluxos de dívidas das unidades econômicas. Some-se a isso, ações políticas que visam alcançar metas ambientais podem alterar, reduzir ou amplificar fluxos de créditos em vários segmentos da economia. Além disso, as próprias mudanças climáticas são o resultado endógeno secular do financiamento de atividades intensivas em carbono, já que por muito tempo, e ainda hoje, volumosos fluxos de crédito alimentaram as emissões cumulativas de gases do efeito estufa (Nikolaidi, 2021; 2017).
Mas a crise é inerente ao capitalismo. Apenas na história recente duas grandes crises abalaram o mundo: a crise do subprime e a crise do coronavírus. A próxima grande crise, com potencial de abalar o capitalismo mundial poderia vir das mudanças climáticas? O momento Minsky climático poderia se manifestar? Em suma: Pode acontecer de novo? A resposta é um categórico não, desde que a estrutura institucional da economia seja reconfigurada para favorecer um sistema financeiro mais robusto, ecológico e resiliente, coordenado por um “Grande Banco Central Verde”.
3.2 O Grande Banco Central Verde
Esta subseção apresenta as diretrizes gerais para a concepção de um modelo de banco central enquanto componente estratégico de um programa de transição ecológica, inspirado pelo arcabouço teórico minskiano. Propõe-se a criação de um “Grande Banco Central Verde”, uma instituição ainda inédita na prática, mas considerada fundamental para viabilizar a descarbonização da economia. Desde já, é necessário fazer uma advertência: embora as autoridades monetárias não possam, isoladamente, resolver a crise ambiental, sua ausência no processo tornaria qualquer solução significativamente mais difícil de aplicar. O envolvimento ativo dessas instituições é, portanto, indispensável. Inicialmente, esta seção discute os fundamentos essenciais do “Grande Banco Central Verde”, reforçando os argumentos que justificam sua implementação, defendendo a superação do modelo monetário vigente e apresentando as ferramentas institucionais e operacionais que poderiam ser mobilizadas para esse novo paradigma.
Na teoria minskiana, o funcionamento normal da economia capitalista tende à instabilidade. Por essa razão, há a defesa da intervenção de um Grande Governo10 (Big Government), para realizar as correções de rota e garantir a estabilidade, a partir de um orçamento contracíclico - superavitário nos momentos de bonança, deficitário nos tempos de recessão. E há, também, a defesa de um Grande Banco (Big Bank), um banco central atuante como prestamista de última instância. Agindo em conjunto, o Grande Governo e o Grande Banco, deveriam ser capazes de dirimir o colapso dos lucros, evitar falências generalizadas, declínios nos preços dos ativos e ancorar as expectativas - condições necessárias para evitar uma depressão profunda (Minsky, 1982). Afinal, “o capitalismo do Grande Governo é mais estável que o capitalismo do Pequeno Governo” (Minsky, 1986).
Em perspectiva ambiental, essas noções deveriam ser aprimoradas, não apenas para conter os efeitos corrosivos das mudanças climáticas sobre as variáveis macroeconômicas, mas também para orientar um programa de transição ecológica. Esse programa é essencial para preservar a estabilidade econômica e atender à crescente demanda por financiamentos de grande escala, voltados a projetos de alto risco e lucratividade incerta, mas com significativos potenciais ecológicos. Para viabilizá-lo, seriam necessárias transformações profundas nos sistemas financeiros, viabilizadas pela criação de uma nova estrutura organizacional.
Um “Grande Banco Central Verde” é um tipo ideal11 - em sentido weberiano - constituído a partir das perspectivas ambientalmente ampliadas de Minsky para abarcar todo o conjunto de bancos centrais, autoridades monetárias e supervisores financeiros capazes de auxiliar a imposição de um novo modelo de acumulação. Não atuaria sozinho, mas sim de forma coordenada com as políticas fiscal, industrial e comercial; e comporia, de maneira não subordinada e nem independente, o grupo que lideraria a transição ecológica - governos, bancos públicos de desenvolvimento, grupos sociais e agentes privados auto interessados na transição. Seria, portanto, o ponto de apoio para as transformações decorrentes de um realinhamento de interesses pró-ambiental.
Um “Grande Banco Central Verde” supervisionaria os canais de riscos climáticos que fomentam a instabilidade financeira, sobretudo os canais de riscos físicos e de transição, evitando que a crise ambiental torne os preços dos ativos mais voláteis. Promoveria ações proativas para reorientar os mercados em uma direção ambientalmente mais sustentável, superando a fantasia de neutralidade da política monetária e afetando a distribuição da oferta de crédito segundo critérios ecológicos. Naturalmente, não se pode esperar que o “Grande Banco Central Verde” substitua a falta de ação climática de outras instituições ou que aja sozinho para resolver a crise ambiental (Oman; Salin; Svartzman, 2024).
Está claro que, sob as atuais circunstâncias de crise climática, um Grande Banco deveria transcender o papel originalmente proposto por Minsky e incluir entre suas atividades regulares todas as considerações feitas até aqui. É por essa razão que é denominado de “Grande Banco Central Verde”, isto é, uma instituição monetária que leva em consideração as consequências macroeconômicas dos riscos climáticos sobre a estabilidade de curto e longo prazos. Nesse caso, os bancos centrais, que tradicionalmente operaram percorrendo uma tríade de objetivos: liquidez, segurança e estabilidade do sistema financeiro, deveriam aderir a mandato de pauta ambiental, por meio da integração de metas ambientais ao conjunto de seus objetivos, oferecendo suporte a outras políticas ambientais em desenvolvimento (Fender et al., 2019).
Muitos argumentos poderiam ser arrolados para defender a criação de um “Grande Banco Central Verde”. O primeiro argumento versa sobre a posição que essas entidades ocupam no sistema financeiro internacional e a experiência que possuem em relações internacionais, devido ao contato frequente que mantêm com outras instituições do mesmo espectro. Essa rede de contatos pode ser utilizada para liderar um programa global de esverdeamento da economia. Deve-se levar em conta a recente criação, em 2017, da Network for Greening the Financial System (NGFS), formada por 83 bancos centrais e supervisores financeiros empenhados em acelerar as finanças verdes - o Brasil aderiu a iniciativa em 2020. E os esforços do Task force on climate related financial disclousures (TCFD), criado para a elaborar e divulgar relatórios sobre o risco financeiro relacionado à mudança climática e o desenvolvimento de ações para aumentar a estabilidade do sistema (Volz, 2017).
Essa posição privilegiada no cenário internacional pode impulsionar a adoção de uma política de securitização climática: abordagem na qual as mudanças climáticas são enquadradas como ameaças à segurança nacional e global, deslocando a pauta ambiental para o domínio da segurança estratégica. Nessa perspectiva, a crise ambiental é interpretada como uma ameaça existencial, exigindo respostas excepcionais e imediatas por parte dos Estados e instituições (Diniz; Santos, 2020). Adicionalmente, essa posição estratégica permitiria a mobilização intensiva de mecanismos de soft power, isto é, a capacidade de um Estado influenciar indiretamente o comportamento ou os interesses de outros atores políticos por meios culturais, ideológicos ou diplomáticos, sem recorrer ao uso da força (Wilson, 2008). O soft power deveria ser empregado como ferramenta de persuasão junto às nações mais resistentes à implementação de um programa global de descarbonização.
O segundo argumento diz respeito às falhas de mercado que mantêm os projetos de investimentos da economia verde subfinanciados. Bancos comerciais almejam apenas retorno financeiro e podem alocar recursos em atividades socialmente indesejáveis ao ignorar os resultados ambientais dos projetos que financiam. Assim, se o mercado estiver estruturado de maneira incompleta e com informação assimétrica, o resultado Pareto-eficiente pode não ser alcançado, de modo que os retornos privados concorreriam com os retornos sociais. Surgiria daí a necessidade de intervenção do “Grande Banco Central Verde” para alterar a distribuição de crédito entre setores verdes e setores intensivos em carbono (Dikau; Volz, 2018).
O poder e a capacidade de moldar, redirecionar e cocriar mercados das autoridades monetárias também compõem o rol dos argumentos favoráveis. Os supervisores e reguladores financeiros deveriam emitir novas instruções normativas que visem adaptar os balanços das corporações, de modo a amplificar a transparência e a divulgação dos indicadores a respeito do uso de capital natural e do gerenciamento do risco ambiental. Nesse sentido, as contas nacionais precisarão ser adaptadas e novas metodologias precisarão ser construídas para que o capital natural integre os novos padrões contábeis (Bolton et al., 2020).
É possível, no entanto, que haja resistência política por parte dos agentes privados, pois aderir a uma nova estrutura de registro contábil implicará em custos associados a implementação dessas mudanças, como os custos de aprendizagem e de treinamento de pessoal especializado (Bolton et al., 2020). Além disso, ainda é preciso considerar, mais uma vez, a tragédia dos horizontes, que oferece à geração corrente de banqueiros centrais e gestores financeiros poucos incentivos para encaminhar soluções climáticas urgentes, pois estão informados pelas convenções de que os custos da mudança climática recairão sobre as gerações futuras, logo quaisquer correções podem ser proteladas (Carney, 2015).
Outro foco de resistência política estará em todos os agentes que se beneficiam do modelo vigente. A criação de um “Grande Banco Central Verde” requer o abandono do atual arranjo teórico-institucional inspirado pelo novo consenso macroeconômico e consubstanciado nas, assim chamadas, “melhores práticas” de política monetária, caracterizadas por i) independência ou autonomia da autoridade monetária; ii) adesão ao regime de metas de inflação e; iii) instrumento único de política monetária, calibrado a partir de uma regra monetária. Esse conjunto de medidas tem estreitado a atuação dos bancos centrais, limitando sua participação em projetos nacionais de desenvolvimento e, é claro, em programas de transição ecológica e descarbonização (Epstein, 2006). Além de reforçar a natureza pró-cíclica da economia, o que exacerba tanto os booms quanto as crises, uma vez que, durante períodos de expansão, os bancos concedem crédito mais facilmente do que nos períodos de crises, alimentando ciclos de reforço positivo quando respostas contracíclicas seriam necessárias (Farley et al., 2013).
Embora ainda distante do modelo de “Grande Banco Central Verde”, diversos bancos centrais ao redor do mundo já incorporam critérios de sustentabilidade na formulação de suas políticas monetárias. Para isso, adotam uma estratégia conhecida como crowding-in, que busca reorganizar a economia por meio de regulação e estímulo à criação e divulgação de indicadores financeiros com considerações ambientais. O objetivo é orientar os fluxos de investimento rumo à chamada economia verde. Essa abordagem é fortemente influenciada pelo Novo Consenso Macroeconômico e aposta no aprimoramento dos sinais de mercado como condição suficiente para enfrentar a crise ambiental. No entanto, ao delegar o ritmo da descarbonização ao setor privado, essa estratégia revela fragilidades importantes, pois está sujeita à captura regulatória, mostra-se inadequada para lidar com a incerteza climática e ignora o potencial das mudanças climáticas para desestabilizar os sistemas financeiros12 (Santos; Andrade, 2024).
Historicamente, as autoridades monetárias sempre desempenharam um papel central no suporte ao processo de acumulação capitalista. Frequentemente, foram mobilizadas em projetos nacionais de desenvolvimento, com foco na industrialização. O Banco da Inglaterra, por exemplo, atuava diretamente tanto na manutenção do padrão-ouro quanto no estímulo às exportações britânicas e à expansão do parque industrial inglês por meio de políticas setoriais específicas. Posteriormente, também foi usado para consolidar a cidade de Londres como centro financeiro global (Block, 1977). Já a criação do Federal Reserve (Fed), em 1913, esteve associada à necessidade de Washington de estabelecer mecanismos capazes de competir com os britânicos no comércio internacional. Isso envolveu o Fed em políticas protecionistas, no financiamento de atividades voltadas à exportação e na promoção do dólar como moeda de referência global (Epstein, 2006).
A partir da década de 1970, os bancos centrais mantiveram-se ativamente envolvidos na sustentação do novo padrão de acumulação, promovendo os processos de globalização e intensificando a integração dos mercados financeiros. Em âmbitos nacional e internacional, passaram a defender os supostos benefícios dos programas de liberalização. Nesse contexto, foram instrumentalizados para favorecer desregulamentações e impulsionar sucessivas ondas de liberalização das contas de capital. Ao adotarem as chamadas “melhores práticas” de política monetária, passaram a atuar com o objetivo de assegurar que a riqueza privada, materializada em uma miríade de ativos financeiros, não se desvalorizasse (Belluzzo et al., 2022).
Ou seja, sob o prisma da história, mobilizar os bancos centrais para sustentar um programa de transição ecológica não representaria uma ruptura com sua trajetória histórica, mas sim uma reorientação coerente com seu papel tradicional de apoio a projetos estratégicos de desenvolvimento. Um “Grande Banco Central Verde” ultrapassaria as chamadas práticas convencionais de política monetária, ampliando seus objetivos e metas para oferecer suporte significativo à transição ecológica. Isto seria viabilizado por meio de maciças injeções monetárias e políticas setoriais estratégicas, assim como muitos bancos centrais de países desenvolvidos fizeram durante seus processos de industrialização. À disposição dessas organizações estariam diversos mecanismos que poderiam orientar a transição para uma economia mais verde.
O Quadro 4 elenca e classifica as principais ferramentas disponíveis a esses propósitos.
Diversas ferramentas descritas no Quadro 4 apresentam potencial para gerar benefícios ambientais mais imediatos. Outras ferramentas, contudo, tendem a produzir impactos ambientais mais limitados e operam predominantemente como mecanismos de transição. Seu objetivo principal é promover a adaptação gradual das instituições financeiras a uma lógica mais sustentável, sem provocar rupturas abruptas em contratos e acordos ainda vigentes. Ao mitigar conflitos institucionais frente ao novo regime financeiro, essas medidas assumem um caráter provisório e conciliador. Entre essas ferramentas, destacam-se os derivativos ambientais, isto é, instrumentos financeiros cujo valor é derivado de ativos vinculados ao meio ambiente, como créditos de carbono, índices climáticos ou indicadores de sustentabilidade. Tal como ocorre com os derivativos convencionais, esses contratos permitem que empresas e especuladores realizem operações financeiras contra riscos específicos, neste caso, riscos climáticos, ou especulem sobre variações futuras desses ativos, contribuindo para a internalização de externalidades ambientais no mercado financeiro (Sullivan, 2013).
Aliás, como qualquer projeto de investimento depende da concessão de crédito, os proponentes de política públicas preocupados com a transição verde, poderiam regular a oferta de novos empréstimos visando objetivos ecológicos, seja direcionando-a para atividades limpas, seja restringindo-a nos setores poluentes, seja uma combinação de ambas. Aqui, autoridades monetárias exerceriam um papel fundamental ao supervisionar o perfil ambiental da oferta de crédito e gerir as metas estabelecidas. Ainda estariam disponíveis ao “Grande Banco Central Verde” mecanismos como a gestão de política macroprudencial, incentivos ao fornecimento de crédito direcionado e realização de testes de estresse relacionados ao clima.13 Há também a possibilidade de sobretaxar instituições financeiras com alta exposição a ativos marrons, restringir a concessão de crédito para setores específicos, estabelecer critérios de capital diferenciados de acordo com o grau de impacto ambiental e discriminar taxas de juros para empréstimos considerando critérios ecológicos (Volz, 2017; Dikau; Volz, 2018).
Um “Grande Banco Central Verde” poderia, como parte das exigências de reservas legais compulsórias dos bancos comerciais, determinar a aceitação de certificados de carbono e de títulos verdes (green bonds). Esses últimos são instrumentos de captação de poupança via mercado, destinados ao financiamento de projetos com impacto ambiental positivo e podem ser emitidos por entidades públicas ou privadas. Embora apresentem menor risco e maior transparência em comparação aos títulos convencionais, os títulos verdes estão geralmente vinculados a projetos de pequena escala. Além disso, ainda são menos negociados e possuem um prêmio de rendimento inferior aos títulos regulares, o que limita sua liquidez no mercado secundário (Santos; Andrade, 2024).
A construção de um sistema financeiro ambientalmente resiliente e financeiramente robusto deve visar ainda a combinação de dois objetivos, a saber, pleno emprego mais desenvolvimento sustentável. Esse sistema deve ser capaz de expandir-se de maneira consistente com a sustentabilidade do meio ambiente e canalizar recursos para investimentos socialmente desejáveis e não para especulação com ativos financeiros (Fontana; Sawyer, 2015). Ou seja, uma transição ecológica que se pretenda exitosa deverá superar o capitalismo gestor de ativos em muitos aspectos.
Considerações finais
O artigo expôs as bases teóricas, construídas a partir da adaptação do arcabouço minskiano, para subsidiar uma investigação sobre os impactos das mudanças climáticas sobre os sistemas financeiros e a macroeconomia como um todo. Considerou-se, como ponto de partida, que o setor financeiro é indissociável do setor real da economia e, portanto, indissociável dos fluxos de capital natural necessários ao processo produtivo. Estabeleceu-se, assim, os vínculos que integram sistemas financeiros, meio ambiente e macroeconomia. A abordagem apresentada mostrou-se suficientemente profícua para o entendimento dos impactos macroeconômicos das mudanças climáticas e ainda apontou direções para um programa de transição ecológica com vistas a superar a degradação atual que os ecossistemas enfrentam.
Sob a perspectiva minskiana, argumentou-se que as mudanças climáticas amplificam a incerteza que permeia os cenários nos quais são tomadas as decisões de investimento e de composição de portfólio, de modo que os agentes estão muito mais expostos a mudanças nos estados de convenções e à frustração das expectativas em um planeta ambientalmente mais deteriorado. Além disso, as unidades econômicas podem sofrer alterações em seus fluxos de caixa de recebimentos esperados e os seus fluxos das dívidas, transformando seus regimes de financiamento de hedge para especulativo ou até mesmo ponzi, com repercussões no lado real da economia.
As mudanças climáticas podem ampliar a incerteza e alterar os fluxos de caixa a partir de três canais. Pelo canal de riscos de transição, quando os governos são forçados a implementar uma política de descarbonização da economia, o que, consequentemente, inviabilizaria muitos negócios intensivos em carbono, convertendo-os em ativos inutilizáveis e reduzindo (as vezes zerando) os rendimentos esperados nesses setores. Pelo canal de riscos físicos, quando eventos climáticos extremos impõem altos custos para a reconstrução das áreas afetadas e do capital destruído, promovendo dívidas inicialmente não contabilizadas. Pelo canal dos riscos de responsabilidade, quando instituições de seguro ou agentes envolvidos em crimes ambientais são forçados à reparação financeira, aumentando seus custos. Os três canais apresentam efeitos sobrepostos, não lineares e cumulativos.
Além disso, a ampliação da incerteza e as alterações nos fluxos de caixa estão na base da instabilidade financeira induzida pelo clima e na possibilidade de um momento Minsky climático. Para dirimir seus efeitos perversos seria necessária uma reestruturação completa dos sistemas financeiros, o que demandaria um “Grande Banco Central Verde”, isto é, um construto teórico formulado a partir das ideias minskianas de Big Government e Big Bank, enquanto mecanismos estabilizadores de uma economia inerentemente instável e ainda mais instabilizada pelas mudanças climáticas. Trata-se uma autoridade com mandato de pauta ambiental, inserida em um projeto de coordenação global de longo prazo, que impõe um viés pró meio ambiente à política monetária, ancora as expectativas dos agentes em uma direção mais verde e adota uma postura ambientalmente mais agressiva do que a observada atualmente.
Um “Grande Banco Central Verde” seria capaz de atuar diretamente sobre os canais de transmissão que afetam a estabilidade dos sistemas financeiros, atenuar a corrosão contínua que as mudanças climáticas impõem sobre as variáveis macroeconômicas e, ainda, garantir os fluxos de financiamento e as margens de lucros para projetos de investimento ambientalmente sustentáveis. Com isso, mitigaria a incerteza climática e os efeitos da crise ambiental sobre os fluxos de caixa dos agentes, tornando a economia mais resiliente a um possível momento Minsky climático.
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JEL: E12, Q57, E58.
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(1)
Trata-se de um recente programa de pesquisa no âmbito da ciência econômica, erigido a partir da aproximação da economia ecológica e da economia pós-keynesiana, o que só foi possível devido as suas similaridades teórico-metodológicas. Ver Santos e Andrade (2023).
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Aliás, a adoção da hipótese de expectativas racionais faz com que os agentes do modelo conheçam, com perfeição e antecipadamente, os efeitos ambientais de suas decisões econômicas, de forma que o sistema de mercado poderia precificar eficientemente os danos e os benefícios ambientais. Ver Arestis e González-Martínez (2015).
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As condições financeiras são alteradas em decorrência de mudanças nos lucros atuais ou esperados deteriorando a relação entre o fluxo de rendimentos esperados e o fluxo de obrigações e quando o capital próprio dos proprietários das firmas se esgota, eliminando a margem de segurança desses negócios. Ver Minsky (1982).
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Minsky, assim como Schumpeter e Marx, aponta para o caráter saneador da depressão econômica em uma economia de mercado não regulamentada. Para o autor, as depressões seriam funcionais ao punir o comportamento especulativo, “queimar” parte do excedente incentivando nova produção e reequilibrar os balanços das unidades econômicas. Assim, se nos períodos de prosperidade são plantadas as sementes da próxima crise de forma que a estabilidade é desestabilizadora, as depressões econômicas, por sua vez, criariam as condições para um retorno à robustez e recuperação financeira. Em suma, as falências generalizadas provocadas pela crise melhoram a estrutura macrofinanceira. No entanto, como os custos sociais e econômicos desse saneamento é muito alto, o autor recomenda a implementação mecanismos de estabilização como orçamento público deficitário e intervenções do emprestador de última instância para suavizar os movimentos do ciclo. Ver Pollin (1997).
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Para Bartelega (2023, p. 43), os riscos físicos se manifestariam “no nível das empresas e seus ativos físicos, impactando suas receitas e despesas e, por conseguinte, seu acesso ao mercado de capitais e seu valor financeiro. A partir do risco no nível das empresas, ele pode se alastrar para o sistema financeiro através dos tradicionais riscos de mercado, de crédito, de liquidez e operacional, propagando-se pelos portfólios das instituições financeiras, com o potencial de se tornar sistêmico”.
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No entanto, relatórios e estimativas recentes sugerem que a janela de oportunidade para uma transição gradual e suave já foi fechada devido à falta de coordenação e ação política. Com o rápido agravamento da crise climática seria necessário, não uma transição verde, mas sim uma revolução verde, isto é, uma mudança estrutural agressiva no modelo de produção e consumo vigente em um curtíssimo prazo. Ver WEF (2024) e UNEP (2021).
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Da noção de incerteza climática origina-se a ideia de cisnes verdes - a versão ambiental dos cisnes negros. Refere-se a eventos climáticos inesperados potencialmente hostis a permanência da vida humana na Terra que produzem efeitos de transbordamento retroalimentados. Ver Bolton et al. (2020).
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Naturalmente a redução de área agriculturável varia de acordo com cada cultura agrícola. Para a soja o aquecimento da temperatura da Terra pode reduzir a área do plantio em 15% até 2050 e em 26% até 2070. Para a cultura do café a extensão de áreas plantáveis pode cair 12% até 2050 e 30% até 2070. Ver Embrapa (2024).
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Capitalismo gestor de ativos é o conceito utilizado por Minsky (1996) para descrever a moderna etapa do desenvolvimento capitalista, caracterizada pelo predomínio de fundos mútuos e de pensão enquanto proprietários e gestores de uma vasta proporção dos instrumentos financeiros existentes. Onde o retorno total do portfólio é o único critério usado para julgar o desempenho dos gestores desses fundos, o que se traduz em uma ênfase curto-prazista na gestão das organizações.
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Em perspectiva histórica, o Grande Governo foi um caso de sucesso. Emergindo nos anos Roosevelt, foi o maior responsável pela estabilização da crise de 1929, período no qual o governo agiu de forma ativa para garantir a estabilidade de um sistema financeiro em crise. Mais tarde, foi vital para a manutenção da ordem econômica do pós-guerra, no que ficou conhecido como Era de Ouro, devido a um desempenho espetacular da economia mundial. Ver Minsky (1986).
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Tipos ideais são construções conceituais elaboradas pelo pesquisador com o intuito de destacar os elementos que caracterizam um fenômeno específico, apontando para o que o diferencia de outros fenômenos. Não são um fim em si mesmo, ou seja, não marcam o fim de uma investigação científica. São um meio, através do qual se busca mediar o conhecimento e a realidade concreta. Florestan Fernandes (1967, p. 92) explica os tipos ideais como “conceitos generalizadores: retém o que é essencial e não o que é acessório. São construídos pelo sujeito-investigador com um fim heurístico. Por isso, parecem relativamente vazios diante da realidade histórica.” Freund (1970, p. 50) salienta que o tipo ideal não é a média do fenômeno comumente encontrado, na verdade trata-se de um exagero, uma “realidade utópica, que nunca se encontra ou só raramente é encontrada em sua pureza na realidade empírica e concreta”.
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Como ferramentas informacionais - amplamente utilizadas na atualidade, mas que isoladamente possuem potencial limitado para promover o esverdeamento da economia - destacam-se os índices de mercado acionário, que avaliam a performance de empresas listadas na Bolsa de Valores com base em critérios de sustentabilidade. No Brasil, o principal exemplo é o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), atualmente composto por 82 empresas distribuídas em 40 setores econômicos. Outro instrumento relevante são os sistemas de certificação ambiental, que têm como objetivo rotular ativos verdes e diferenciá-los dos não verdes, contribuindo para orientar decisões de investimento mais alinhadas com práticas sustentáveis.
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Testes de estresse climático são ferramentas de gestão dos riscos oriundos do clima, que possibilitam uma avaliação da resiliência operacional das instituições financeiras, o que permite verificar a capacidade dessas instituições de resistir a eventos adversos. Com isso, há a identificação prévia de fragilidades e a estimativa da sensibilidade do sistema financeiro frente a catástrofes climáticas, auxiliando a tomada de decisões e propiciando que respostas adequadas sejam aplicadas. A condução do teste é feita por modelos matemáticos que consideram diversas indicadores a respeito da situação financeira, da exposição a riscos e da capacidade de absorver perdas das instituições testadas, o que envolve uma gama de métricas financeiras (como o nível de capital, a liquidez, a qualidade dos ativos e o nível de risco de mercado) e não financeiras (como volume de emissões de carbono, crescimento médio da temperatura do planeta e padrões pluviométricos). Os testes estimam, ainda, mudanças no comportamento desses indicadores diante de cenários climáticos distintos e tem sido a ferramenta mais utilizada entre os bancos centrais atualmente.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa
Não se aplica
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EDITOR RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO
Lilian Nogueira Rolim


Fonte: Adaptado de Campliglio, Daumas, Monnin e Jagow (