Resumo
Este artigo explora as análises de Thorstein Veblen sobre a história do pensamento econômico, com foco nas contribuições neoclássicas, historicistas e marxistas. Nesse esforço, focalizam-se o entendimento das considerações de Veblen acerca de Alfred Marshall, John B. Clark, Gustav Schmoller e Karl Marx. Ao fundo dessa análise, entende-se que o papel crítico de Veblen em relação à teoria econômica é fundamental para se entender suas reflexões sobre a construção dessa ciência. Afinal, sua interação com outros economistas apresenta-se de forma multifacetada, combinando elementos de crítica e admiração, especialmente em relação a Schmoller e Marx. Portanto, este trabalho busca sintetizar as percepções de Veblen de maneira organizada, destacando como sua visão ampla do pensamento econômico está alinhada com suas contribuições teóricas como um dos fundadores do institucionalismo original.
Palavras-chave:
Veblen, Thorstein (1857-1929); História do pensamento econômico; Epistemologia; Teoria Econômica
Abstract
This article explores Thorstein Veblen’s analyses of the history of economic thought, focusing on neoclassical, historicist, and Marxist contributions. It emphasizes understanding Veblen’s perspectives on Alfred Marshall, John B. Clark, Gustav Schmoller, and Karl Marx. Underpinning this analysis is the recognition that Veblen’s critical stance on economic theory is essential for comprehending his reflections on the development of this discipline. His interactions with other economists are multifaceted, blending critique and admiration, particularly in relation to Schmoller and Marx. Thus, this study seeks to synthesize Veblen’s perceptions in an organized manner, highlighting how his broad view of economic thought aligns with his theoretical contributions as one of the founders of original institutionalism.
JEL: B10, B15, B25, B41.
Keywords:
Veblen, Thorstein (1857-1929); History of economic thought; Epistemology; Economic theory
1 Introdução
Thorstein Veblen apresenta suas contribuições ao pensamento econômico propondo uma nova abordagem epistêmica. Para Veblen (1898), observar a ciência econômica como não processual (não evolucionária) seria um erro. Segundo o institucionalista, tal equívoco seria, em grande medida, resultado da perpetuação de uma lógica obsoleta no modo de fazer esta ciência (Veblen, 1898). A ciência seria o resultado dos hábitos dos cientistas do passado que instituíram uma ótica e uma lógica sobre como pensar e fazer conhecimento (Veblen, [1908] 1919). Como resultado direto dessa perpetuação equivocada, Veblen (1898) destaca, principalmente, a presença, inadequada, de características animistas e teleológicas,1 pois ambos os elementos seriam distanciadores dos aspectos humanos, decorrentes da socialização e da psique humana – que em sua época ainda contava com poucos e incipientes estudos. Tais apontamentos são imperativos nos escritos econômicos contemporâneos, ou imediatamente anteriores à Veblen. Sendo assim, compreender as considerações críticas de Veblen à composição do pensamento econômico, parece fundamental para se assimilar a totalidade das contribuições desse autor.
Dados os diversos apontamentos de Veblen aos seus pares economistas, são identificados um número considerável de citações e menções (ver Veblen, 1898; 1899a; 1899b; 1900; 1901; 1906; 1907; 1908). Para dar conta do objeto, recorta-se aqui a apreciação às considerações de Veblen acerca das teorizações do neoclassicismo, do historicismo alemão e do socialismo científico, elencando, especificamente, o papel de Alfred Marshall, John B. Clark, Gustav Schmoller, Karl Marx e seus seguidores, os marxistas. Conforme se constrói em argumento, o papel destes autores é de importância ímpar na constituição crítica e teórica de Veblen, pois eles fundamentaram as interpretações de Veblen acerca da teoria econômica. Para além das constantes e já citadas críticas do autor ao animismo e à teleologia, outras importantes considerações também se fazem presentes nesta análise.
Portanto, o objetivo deste trabalho é organizar e compreender o esforço de avaliação crítica de Veblen a um conjunto de importantes autores da ciência econômica. Tem-se por hipótese que a sistematização das discussões teóricas e epistêmicas que Veblen efetuou sobre outros autores contribui para o entendimento da própria estruturação de pensamento vebleniano, ao permitir mapear pontos de aproximação e de divergência dele para com a obra destes teóricos. Sendo assim, o esforço deste trabalho não se resume a mera revisitação das interpretações veblenianas acerca de seus pares, mas, sim, apresenta-se como uma organização de tais interpretações com vistas ao enriquecimento da história do pensamento econômico pelas lentes de Thorstein Veblen. Como já mencionado, este esforço também contribui para o entendimento da estruturação do pensamento vebleniano
Visando sistematizar as ambições deste trabalho, ele se encontra dividido em quatro partes, além desta introdução. Na seção seguinte, busca-se apresentar uma síntese panorâmica das perspectivas críticas de Veblen, destacando algumas de suas influências e elencando os elementos de recorrência em seus apontamentos, bem como de potenciais considerações conciliatórias com outros pensadores. Na terceira seção são recordadas as considerações de Veblen ao pensamento neoclássico, ao qual Veblen mostrou-se ferrenho crítico e antagonizador. Já na quarta seção, são apresentadas as considerações mais brandas e potenciais influências veblenianas advindas do historicismo e do pensamento marxiano/marxista. Por fim, a última seção apresenta alguns encaminhamentos e considerações finais.
2 Um panorama da perspectiva crítica de Veblen
Veblen, em uma construção crítica baseada em suas influências, apontou as mais diversas inconsistências teóricas dos escritos neoclássicos que já naquela época ganhavam corpo e espaço no pensamento econômico de forma predominante. Tendo como fundamento a filosofia pragmática clássica, Veblen se colocava frontalmente contrário à noção positivista na qual o neoclassicismo se pautava (ver Edgell; Tilman, 1989). Afinal, a aderência ao positivismo significava a rejeição da “metafísica” através da percepção de que a ciência opera através da coleção de evidências visando a predição ao invés da explicação causal (Comte, 1853; Lenzer 1998 apud Camic; Hodgson, 2011). Sendo assim, contrário à noção comtiana, Veblen via na metafísica (ontologicamente falando) premissas que seriam inevitáveis ao se estudar os indivíduos e suas relações em sociedade. Desse modo, o autor pautava-se na necessidade científica de se levar em consideração as mais diversas relações causais. Em outras palavras, Veblen via a necessidade de se melhor observar os fatores “escondidos” entre os eventos observáveis. Para tal, os elementos psicológicos-pragmáticos de seus fundamentos se mostrariam de mister importância, evidenciando o papel das instituições e dos hábitos de pensamento socialmente compartilhados em sociedade (ver Landsman, 1957).
Outro apontamento também bastante recorrente nos escritos de Veblen é referente aos valores morais envolvidos nos trabalhos de teoria econômica e em outras áreas do conhecimento, ao menos daquela época. Para Veblen (1901; 1908) seria de fundamental importância que fossem distinguidas questões factuais de questões morais sempre que possível e de maneira clara, pois segundo o autor, não raro via-se a mescla de contribuições teóricas com aquilo que seriam valores culturais e de conteúdo moral. Essa observação mostra-se bastante convergente com a perspectiva de Dewey –grande influenciador de Veblen – sobre a verdade pragmática (Dugger, 1979a). Adicionalmente às influências pragmatistas, Veblen também bebe de maneira considerável em fontes da antropologia (Mayhew, 1998). Parte significativa de seus escritos se amparam nas terminologias temporais de Lewis Morgan, enquanto seus entendimentos elencam considerações muito próximas às de Franz Boas. Portanto, estas questões veblenianas demonstram-se também bastante embebidas pelos encaminhamentos da contenda entre evolucionistas e culturalistas nas discussões antropológicas.
É neste enredo intelectual que Veblen (1901; 1908) argumentava que, nas ciências sociais, tanto análises quanto explicações deveriam ter prioridade sob qualquer pronunciamento moral. Essa crítica se fez visível em menções a Schmoller e Clark, sendo que em relação ao historicista alemão, Veblen (1908) criticou a excessiva concentração naquilo que seria “o mais desejável” segundo aquele autor; e em relação ao neoclássico, Veblen (1901) aponta a elevada presença de argumentos normativos de “ordem natural” em objetos de análise puramente psicológicos e sociais, como por exemplo, a tomada de decisão do indivíduo sob a ótica de maximização.
Veblen também direcionou críticas às teorizações que expunham o comportamento humano associado a vieses de destino e ação demasiadamente determinísticos, assim como excessivamente atrelados à coletividade. Sobre este ponto, Veblen (1906) deixou clara a rejeição de que o indivíduo é exclusivamente um ser social e que seu processo cognitivo e comportamental é somente determinado pelo meio em que o mesmo está inserido. Tal consideração é direcionada por Veblen especificamente à interpretação de Marx aceca de sua leitura materialista do processo histórico. Nesse ponto podemos observar duas concentrações críticas: a primeira delas está relacionada ao aspecto de como essa dependência atua no processo de comportamento individual (tendo em vista que não há nenhuma explicação sobre hábitos ou instintos na teoria marxiana/marxista); e a segunda estava relacionada a uma incompletude desta noção de dependência do comportamento individual frente ao comportamento coletivo, pois segundo Veblen (1906; 1907), apesar de fundamental de se reconhecer o papel do coletivo na percepção individual, também é presente um critério interno na noção do indivíduo. Desse modo, hábitos e instintos são fatores importantes para se estabelecer uma diferenciação nos escritos de Veblen e Marx (Veblen, 1906; 1907).
Sendo assim, daquilo que compõe este panorama, temos como campo vasto já explorado as críticas veblenianas às teorizações neoclássicas, tendo sido expressas diversas vezes tanto por Veblen quanto por seus comentadores (Veblen, 1898; 1899a; 1899b; 1900; 1908; 1909; Dugger, 1979b; Stabile, 1997; Hodgson, 1992; Cavalieri, 2015). Sendo que, neste recorte, atenção especial é direcionada ao caso de Alfred Marshall e John Bates Clark, contribuintes ao neoclassicismo em território europeu e norte-americano, respectivamente. Marshall ocupou posição de destaque acadêmico como professor de Cambridge e como um dos principais contribuidores da abordagem neoclássica; ademais, foi um dos pioneiros em apontar a relevância das analogias biológicas como inspiração para a teoria econômica,2 adentrando, à sua maneira,3 uma seara relevante ao pensamento vebleniano. Clark, por seu turno, foi professor de Veblen e reconhecido pelo institucionalista como um autor de destaque entre o agrupamento neoclássico. Diferentemente, quando analisados os casos associados a Schmoller e a Marx, nota-se uma relativa escassez de trabalhos exploratórios. Conforme comentado, devido ao papel relevante desempenhado por tais autores, Veblen os mencionou em suas considerações. Porém, o que aqui busca-se retomar e refletir, são também, para além das críticas, os potenciais papeis de admiração e influência que tais pares do pensamento econômico desempenharam em Veblen. Precisamente nesta especificidade, notam-se os esforços de Veblen sobre Gustav Schmoller, Karl Marx e seus seguidores, os marxistas.
Além disso, salienta-se que esta análise das considerações de Veblen sobre a história do pensamento econômico não esgota suas leituras e nem seus apontamentos, ainda que sintetizem importantes atributos, conforme buscará se demonstrar em unidade ao longo do texto.
3 Comentários de Veblen sobre a economia neoclássica: o caso de Alfred Marshall e John Bates Clark
Hodgson (2004) e Rutherford (2011) convergem com a leitura de que o final do século XIX e início do século XX foi de intensa discussão no pensamento econômico em território norte-americano, principalmente pelo anseio de domínio do mainstream desta ciência. De um lado estavam aqueles que apresentavam identificação com a antiga economia clássica e propunham reformas teóricas para obter uma ciência capaz de oferecer medidas numéricas e predições, sendo atualmente conhecidos como neoclássicos,4 como por exemplo, John Bates Clark e Alfred Marshall.5 De outro lado, encontravam-se aqueles de identificação institucional-evolucionária, como por exemplo, Thorstein Veblen e John Commons (Adiksson, 2010; Hamilton, 1970; Marshall, 1988, p. 25).
Essa disputa apresentava-se primordialmente em diferenças epistêmicas, relacionadas ao olhar no qual essas escolas se amparavam (Hamilton, 1919). Enquanto era observável o viés da causação cumulativa em atributos psicológicos e sociais por parte daqueles que defendiam uma ciência econômica institucional-evolucionária, por outro lado, podia-se observar a opção de recortar o objeto da economia como as consequências das ações intencionais individuais sobre os preços e as quantidades de mercadorias, bem como a manutenção de características mecanicistas no discurso econômico daqueles que propunham a observação generalista das características sociais. Por óbvio, tamanha divergência não poderia, nem mesmo a nível teórico, apresentar capacidade conciliatória entre as diferentes perspectivas. (Rutherford 2011; Marshall 1988, p. 26-34).
Veblen (1899a), fazendo questão de salientar a perspectiva de construção da ciência ao longo do tempo, tece considerações a respeito do caráter inercial das perspectivas científicas através do compartilhamento dos hábitos de pensamentos entre diferentes “gerações” de cientistas. Com esse fato em mente, o institucionalista salienta a existência de abordagens teóricas contemporâneas ao seu tempo, mas que apresentam características pré-evolucionárias, mesmo que em discurso se insinuassem proponentes de um método evolucionário (Veblen, 1899a). Em última instância, conforme argumenta-se adiante, tais características seriam resultantes de uma preconcepção não darwiniana do processo evolutivo.
Ao tratar especificamente das contribuições de Marshall, Veblen é enfático ao salientar a perpetuação da ciência pré-evolucionária de características taxonômicas. Veblen (1900) reconhece o anseio de Marshall em estabelecer um estudo voltado ao entendimento do comportamento humano em uma lógica moderna, pautado em atributos econômicos. Porém, mesmo com tal objetivo em mente, Marshall não desenvolveu trabalhos, nem mesmo maiores explicações, sobre aspectos relacionados à conduta humana, tais como os elementos culturais e institucionais (Veblen 1900). Em fato, segundo a perspectiva de Veblen (1900), Marshall atribuiu o comportamento humano a determinantes das condições em que ocorreriam equilíbrios nos mercados. Ou seja, assumiu como verdadeiro a existência de elementos de origem teleológica no comportamento humano.
Desse modo, a crítica de Veblen (1900) acerca das contribuições de Marshall ao entendimento do indivíduo como agente econômico, mostra-se clara quando o institucionalista delata a visão marshalliana como não atenta aos processos de causação cumulativa. Ao invés disto, na interpretação de Veblen, Marshall teria atuado como refém dos velhos pressupostos taxonômicos e teleológicos que implicavam desdobramentos autoequilibrados nos fenômenos econômicos.
Veblen (1900) admite nos trabalhos de Marshall o trato da economia como um processo de desenvolvimento. Porém, de maneira singular, Marshall atribui esse trato ao processo de modo teleológico, tendo em vista suas preconcepções neoclássicas. Essa convergência de abordagens foi possível nos trabalhos de Marshall devido à interpretação spenceriana do evolucionismo, conforme destacam Luz e Fracalanza (2012). Tal processo seria cunhado em perspectivas teleológicas de finalidades pré-estabelecidas. No caso da biologia de Herbert Spencer isso se daria através da geração de heterogeneidade de espécies. Já no caso da teoria econômica de Marshall, tal elemento corresponderia às características de autoequilíbrio oriundos das heranças clássicas e marginalistas do hedonismo e do utilitarismo (Veblen, 1900).
Com base nestas argumentações, Veblen (1900) estabelece o perfil anacrônico da teoria econômica desenvolvida por Marshall. Afinal, na perspectiva vebleniana, toda teoria econômica pós-darwiniana que não apresentasse um processo de causação cumulativa através de aspectos evolucionários, seria uma teoria obsoleta. No caso de Veblen, esses elementos foram sanados através de sua perspectiva institucional, com base nos instintos e nos hábitos de pensamento e comportamento. Já no caso neoclássico de Marshall, há a carência de maiores interpretações acerca do comportamento humano e dos desencadeamentos cumulativos na perspectiva social e econômica. Marshall (1988) assumiu a pouca profundidade e justificou-a como uma escolha condizente com o fazer científico equiparado a medições e predições.
… Será sempre verdade, entretanto, que a maior parte das ações devidas a um sentimento de dever e de amor pelo próximo não pode ser classificada, reduzida a leis e medidas. É por esta razão, e não porque não sejam elas baseadas no interesse pessoal, que a Economia não lhes pode dar maior atenção (Marshall, 1988, v. 1, p. 32).
… [Os economistas] consideram o homem tal como ele é: mas interessando-se sobretudo por esta parte da vida humana onde a ação dos motivos é suficientemente regular para poder ser predita, e onde o cálculo das forças motrizes pode ser verificado pelos resultados, puderam colocar a sua obra sobre uma base científica (Marshall, 1988, v. 1, p. 34).
No intuito de atrelar pensadores e ideias, Veblen apresentava os neoclássicos como teóricos da utilidade marginal, haja vista a importância desse elemento teórico no desenvolvimento das ideias oriundas deste grupo de economistas. Sendo assim, ao tecer críticas a postulados e elementos epistêmicos, Veblen elevava sua crítica do plano teórico para o plano da organização de ideias. Sendo que, segundo próprio Veblen (1909, 620), John Bates Clark seria “[o] mais engenhoso e o mais promissor de tais tentativas [...]”, devido a seus trabalhos marcarem o extremo esforço de estabelecimento dos postulados necessários, dentre eles o da própria utilidade marginal.
A partir da identificação dos elementos de limitação das teorias neoclássicas, principalmente de Marshall e Clark, Veblen (1908; 1909) fundamenta suas críticas no aspecto estático da análise de elementos essencialmente dinâmicos e mutáveis, como o comportamento socioeconômico. Veblen (1909) salienta que por mais que os economistas de raiz neoclássica fizessem uso de termos relacionados a dinâmica, estes nunca foram aptos a contribuir com alguma teoria voltada a mudança ou processo. Ou, nas palavras de Veblen (1909, p. 620):
Apesar de todo o uso do termo “dinâmica”, nem o Sr. Clark nem qualquer um de seus associados nesta linha de pesquisa contribuíram com algo apreciável para uma teoria de gênese, crescimento, sequência, mudança, processo ou semelhantes, na vida econômica.
Sendo assim, por meio do alcance explicativo limitado da perspectiva da teoria da utilidade marginal, proposta por Clark e seguida pelos demais neoclássicos, aqueles que se propunham a essa abordagem seriam reféns de uma ciência de características estáticas e também, conforme já comentado, reféns das prerrogativas teleológicas concernentes ao indivíduo e à sociedade (Veblen, 1909).
Veblen (1908) apresenta argumentos ainda mais fragilizadores do constructo teórico de Clark quando elabora, concomitantemente, as características demandantes de uma sociedade industrial, e os pressupostos e objetivos desta teoria. Afinal, segundo o autor, tal teoria não se diz concernente ao entendimento do funcionamento das características de mercado e de consumo a qual a ciência econômica se propõe. De forma ainda mais incisiva, Veblen (1908; 1909) comenta que a prerrogativa hedonística – um dos grandes pilares teleológicos da teoria neoclássica – além de não ser autossuficiente no esclarecimento de seu objeto de estudo, mostra-se como debilitadora do inquérito científico demandado pela ciência econômica evolucionária.
Desse modo, Veblen salienta que as generalizações necessárias para a factual plausibilidade dos argumentos neoclássicos, demandam postulados confinados à teleologia e ao dedutivismo. Exatamente esta característica, de acordo com o autor, seria a principal diferença entre os economistas da utilidade marginal (neoclássicos) e os economistas clássicos. Afinal, no primeiro caso existe a evidência e aderência muito mais significativa de postulados, bem como suas limitações ficam ainda mais expostas através das recorrentes generalizações e deduções (Veblen, 1909). Sendo que em tais generalizações e deduções, observa-se um caráter bastante otimista em relação ao comportamento humano e seu hedonismo travestidos de “racionalidade”. Essa última crítica sendo frisada por Veblen (1908) principalmente em seus estudos sobre as propostas teóricas de Clark.
Sendo assim, Veblen (1908) observa que todos os elementos de origem cultural, com suas relações humanas e instituições, são tidos como garantidos e pré-existentes, sendo expurgados dos objetivos de inquérito desta perspectiva. Desse modo, o comportamento humano generalizado e hedonista é deduzido através de uma normalização entre os indivíduos da sociedade. Sendo que, para Veblen, tal característica parece ser fonte de crítica não só a Marshall e Clark, mas também a todos os economistas simpáticos a esta corrente do pensamento econômico, como por exemplo, Jevons e Menger.
Com base nestes argumentos, Veblen comenta a existência da desconexão entre o inquérito científico contemporâneo a seu tempo, e aquele proposto pela abordagem neoclássica (Veblen, 1898). Na contramão daquilo que se observa nos anseios científicos das demais áreas do conhecimento, no caso neoclássico, os elementos de ordem cumulativa são deixados de lado já na gênese de suas teorizações. Sendo assim, segundo Veblen (1909), as instituições são, sem dúvida, fundamentais para a explicação do esquema de vida, porém, não são representadas na personificação do agente econômico (indivíduo) neoclássico.
Desse modo, Veblen (1909) aprimora sua crítica à distorção do inquérito científico por parte dos neoclássicos afirmando que esses autores estariam preocupados com atributos de alocação, ou então, distribuição de bens (Camic; Hodgson, 2011). Porém, os mesmos teriam negligenciado aspectos relacionados a consumo e produção, que em seus cernes apresentam características cumulativas muito marcantes e determinantes nos processos de alocação e distribuição.
É válido lembrar que as críticas tecidas por Veblen especificamente às contribuições de Marshall e Clark correspondem a um arcabouço ainda mais amplo do ponto de vista teórico. Porém, como se pôde observar, parte-se do princípio da existência de uma grande diferença epistêmica que fundamenta e dissemina as mais diferentes divergências. Sendo que este elemento viria a ser a fonte de uma das principais discussões da ciência econômica naquele período (Hodgson, 2004; Rutherford, 2011).
Conclusivamente, conforme argumentado, as considerações veblenianas acerca da vertente neoclássica do pensamento econômico é trilha extensivamente percorrida por uma grande e variada gama de economistas e historiadores. Por este motivo, as considerações aqui tecidas não poderiam se fazer faltosas, uma vez que apresentam grande representatividade do olhar crítico de Veblen à história do pensamento econômico. Aprofundamentos mais objetivos e extensivos podem ser analisados em outros autores, como Dugger (1979a; 1979b), Hamilton (1970), Rutherford (2011), Cavalieri (2009).6
4 Críticas, ressalvas e influências(?): considerações de Veblen sobre Gustav Schmoller, Karl Marx e os marxistas
Diferentemente do caso neoclássico, quando nos debruçamos sobre as considerações críticas de Veblen acerca do historicismo alemão e do socialismo científico, suas análises são acrescidas em complexidade, principalmente devido ao caráter prismático de suas exposições. Esta constatação mostra-se verdadeira, dentre outros motivos, pela singular perspectiva de Veblen ao trabalhar estas abordagens em suas bases teóricas e metodológicas, concedendo-lhes para além de críticas, comentários elogiosos, reconhecimentos e, em alguma medida, sinalização de influência (Dugger, 1979a; Edgell; Tillman, 1989). Tal impressão é interpretada diretamente pela análise dos trabalhos de Veblen, mas também pelo estudo de seus comentadores.
Sendo assim, analisar as considerações de Veblen acerca desses casos, parece ser de fundamental importância quando se busca a compreensão da história do pensamento econômico a seus olhos. Para tal, nos casos citados, dá-se atenção especial às considerações de Veblen à Gustav Schmoller, como um dos principais expoentes do historicismo alemão, e a Karl Marx como pai fundador do pensamento marxista.
4.1 Veblen e a crítica do caminho científico proposto por Gustav Schmoller
Quando Veblen (1898) apresenta sua questão acerca da economia não ser uma ciência evolucionária, também deixa clara sua posição de que o “realismo” – apesar de necessário – não é atributo suficiente para a formação de uma ciência de cunho teórico-evolucionário. Tal comentário emerge como crítica às contribuições do historicismo alemão que apresentava trabalhos com cargas extensas de dados (empirismo) e descrição histórica de eventos relacionados à industrialização, porém, sem apresentar o corpo teórico necessário para o desenvolvimento de ciência econômica voltada às causações cumulativas. Desse modo, Veblen (1898, p. 375) comenta que “[...] nenhuma economia está mais longe de ser uma ciência evolucionaria do que a economia da Escola Histórica”.
Com base na noção descrita acima, Veblen (1898) comenta o fato do historicismo alemão ter se desfeito das perspectivas taxonômicas, mas não ter conseguido se desprender das preconcepções de ordem pré-evolucionária, nunca tendo sido apto ao desenvolvimento de uma teoria científica moderna, nos termos do autor. Segundo Veblen, esta teria sido a primeira fase do historicismo alemão. Sendo seguida pela segunda fase, tendo como principal expoente Gustav Schmoller, na sua busca pelo estabelecimento teórico-científico do método histórico.7
Veblen (1901) argumenta a existência de duas correntes historicistas que, segundo o autor, podem ser divididas também temporalmente. No primeiro caso, os historicistas “antigos” seriam aqueles responsáveis pelo desenvolvimento de uma perspectiva descritiva dos avanços históricos em relação à industrialização alemã, tendo como foco, principalmente, o levantamento e apresentação de dados a respeito do tema. Já a segunda geração, os historicistas “novos”, seriam aqueles proponentes de uma teorização ao método histórico. Nesse segundo caso, conforme já comentado, papel de destaque é cedido a Gustav Schmoller, autor ao qual Veblen (1901) dedicou atenção especial ao tratar das contribuições historicistas.
Veblen (1901) comenta que Schmoller adentra o mundo acadêmico de modo bastante crítico à forma em que a ciência econômica era trabalhada, sendo majoritariamente confinada a elementos de narrativa, estática e descrição. Concomitantemente também expressa seus novos ideais teóricos para o avanço científico da economia. Porém, Veblen (1901) salienta que nenhuma contribuição substancial foi feita nesse sentido. Inclusive, Veblen parece levar suas considerações críticas ao papel questionável de Schmoller para o avanço científico na teoria econômica, principalmente se pensada através do processo de causação cumulativa (Veblen, 1901).
Justificando essa leitura, Veblen volta a salientar o aspecto de compartilhamento de visão científica, assim como a característica de reflexão do meio em que está inserido. Partindo dessa apresentação acerca da justificativa do constructo científico, Veblen (1901) salienta que a percepção de Schmoller estaria diretamente influenciada por seus antecessores historicistas, bem como pela visão filosófica e literária alemã, que naquele período apresentava características fundamentalmente romancistas e de cunho hegeliano (Veblen, 1901). Sendo que, majoritariamente, as críticas de Veblen fundamentar-se-iam com base nestes mesmos elementos.
Veblen salienta que há a possibilidade de observar esse método “romântico-histórico” através de uma perspectiva de desenvolvimento, ou então, de evolução. Porém, o institucionalista é enfático ao dizer que esta noção não pode ser confundida com noções darwiniana ou nem mesmo spenceriana. Afinal, o caráter hegeliano que permeia esta base científica torna corriqueira as generalizações potencialmente arbitrárias (Veblen, 1901).
Esse elemento crítico de Veblen faz com que seus comentários se voltem ao caráter normativo e generalista da teoria de Schmoller.8 Em Schmoller ([1881]1894), é evidente a discussão do plano normativo da organização econômica. O autor histórico germânico estabelece a precedência de avaliações do justo e do injusto como requisitos para o estabelecimento de parâmetros econômicos instituídos para a organização social da produção material e para a distribuição da renda. Schmoller ([1881]1894) argumenta que as ideias compartilhadas e dominantes orientam a produção e a distribuição, assinalando a construção social de uma ordem econômica a partir dos ideais do que seja justo ou injusto. Ao assinalar de que a noção de justiça e injustiça altera-se de uma sociedade para outra no fluxo histórico, o germânico sinaliza para a possibilidade de progressos institucionais que levem ao alcance de formas de vida social superior conforme se configure a articulação do plano normativo com regras de operação econômica e jurídica.
Sem sombra de dúvidas, o maior incômodo apresentado por Veblen na sua leitura do historicista seria a noção do autor sobre a perspectiva de tendência melhorativa no curso cultural dos eventos. Desse modo, Veblen mostra-se severamente crítico e contrário ao caráter normativo que essa percepção científica acarreta. Afinal, recorrentemente, Schmoller apresenta julgamento moral sobre questões observacionais que deveriam estar livres de qualquer tipo de juízo de valor, como por exemplo, apresentando formas específicas de organização social e familiar como intrinsecamente melhores e desejáveis em relação às demais (Veblen, 1901). Tal aspecto normativo relacionado aos juízos de valor apresentado por Schmoller, foi fonte de crítica de Veblen (1901) por boa parte de seus comentários.9 Sendo, provavelmente, em sua maioria, tecidos sobre as modificações no padrão patriarcal de constituição familiar e igualdade entre sexos, que segundo Veblen, carecem de maiores explicações quanto às suas causações e às suas consequências.10
Munido dessas críticas, Veblen comenta acerca da possibilidade de Schmoller ter apresentado um inquérito científico mais crítico, haja vista sua formação e conhecimento acumulado. Pelas palavras de Veblen (1901, p. 90):
O professor Schmoller poderia ter feito, com melhores resultados do que qualquer um de seus colegas da ciência; pois ele é, como já notado acima, possuidor da qualificação necessária no caminho do treinamento psicológico, amplo conhecimento do jogo de causa e efeito no crescimento cultural, e uma habilidade para adotar um ponto de vista científico.
Desse modo, Veblen salienta sua insatisfação com a proposta de teorização dos aspectos históricos dentro de sua perspectiva. Afinal, no anseio de teorização dos processos históricos, Schmoller teria perdido sua principal fonte de argumentação, a causação cumulativa. Além disso, teria apresentado julgamentos derivados de juízo de valor, criando uma teorização normativa em relação aos seus critérios de “melhor” e “pior”.
Importa frisar que Veblen não apresentava uma neutralidade em relação à crítica social e nem contrariedade irrestrita ao juízo de valor. Pelo contrário, tais elementos figuram-se como fundamentais na teoria vebleniana. O ponto central destas considerações de Veblen ao trabalho de Schmoller reside na natureza do juízo de valor que, contrariamente ao institucionalista, baseava-se em elementos de preconcepções teleológicas. Afinal, conforme Veblen (1900) comenta, a idealização de uma teoria evolucionária pautada no processo de causação cumulativa também é resultado de uma preconcepção. O ponto a ser observado é a natureza e origem da preconcepção que baliza este juízo de valor e esta crítica social.11
Conforme visto, a procura melhorativa dos desencadeamentos históricos de Schmoller, se dão, em grande medida, através de suas influências, tanto romancistas e históricas, quando de ordem hegeliana que, segundo Veblen (1901), seriam fruto do seu tempo e lugar, porém características condenatórias na construção científica do ponto de vista pós-darwiniano. Afinal, tal aspecto hegeliano dá à natureza espiritual o espaço central em sua teoria. Sendo que, através desta, a vida apresenta-se como um processo essencialmente ativo e vendado por necessidades internas, apresentando os atributos culturais como externos e secundários ao espírito humano. Desse modo, segundo Veblen (1901, p. 78): o ambiente, nesta visão, se não for concebido simplesmente como uma função da força espiritual em ação, é, no máximo, de consequência subsidiária e transitória apenas.
Finalmente, também deve ser mencionada a relação de reverência de Veblen em relação à Escola Histórica Alemã. Afinal, via em sua composição a importante incorporação dos processos históricos que distanciavam suas considerações de preconcepções individualistas. Ainda que destinado a questionar as características teleológicas ou a ausência de proposições teóricas evolucionárias, Veblen via nestes esforços aquilo que parecia ser o desenvolvimento de elementos metodológicos pertinentes à ciência econômica (Dugger, 1979a; Edgell; Tillman, 1989). Conforme comenta Mitchell (1969), a noção do indivíduo como produto da evolução histórica permitiu, na visão de Veblen, a já mencionada união dos fatos e dos valores.
Conforme visto, tal reverência em meio à crítica de Veblen vem acompanhada da constatação da ausência de um corpo teórico evolucionário voltado à descrição do processo de causação cumulativa. Veblen parece procurar pelo “segundo passo” da incorporação histórica na teoria historicista que seria a explicação do mecanismo institucional de desdobramentos habituais/culturais. Afinal, na concepção vebleniana, não basta argumentar a importância da história, mas também deve ser apresentado o corpo teórico que explica o porquê é importante (Mitchell, 1969). Pelo contrário, o que se observa na leitura de Veblen acerca do historicismo (em especial nas contribuições de Schmoller) é a incorporação de generalizações de fatores históricos perenes de um processo dialético que, conforme visto, baseia-se em influência hegeliana (Dugger, 1979a; Cavalieri, 2015).
Tal aspecto crítico em relação à filosofia hegeliana é atributo de recorrente crítica em Veblen, principalmente no que se refere às contribuições de origem alemã. Conforme veremos a seguir e de maneira ainda mais enfática, Veblen também tece severas críticas a ciência econômica proposta por Karl Marx.
4.2 A crítica de Veblen à dialética hegeliana de Karl Marx
Quando Thorstein Veblen direciona sua atenção às contribuições de Marx, deixa clara a separação entre duas desinências: uma que, de fato, são as contribuições de Marx (marxianas), e outra que atua como desdobramento das contribuições desse autor, a marxista. Tal separação fica evidenciada na produção de Veblen, que não teve a mínima pretensão de ser didático, em dois textos sequenciais e de mesmo nome, “The Socialist Economics of Karl Marx and His Followers”, de 1906 e 1907.
Veblen (1906) inicia suas considerações a respeito das teorias de Marx salientando a existência de grande ousadia em sua concepção, assim como uma perceptível consistência lógica. Comenta também a respeito do caráter original, de iniciativa rara nas ciências ao lidar com qualquer fase da cultura humana e, deixa clara sua percepção de que as contribuições de Marx diferem caracteristicamente de qualquer sistema teórico que o tenha precedido, tanto em premissas quanto em objetivos (Veblen, 1906). Tais considerações de Veblen parecem apresentar grande admiração, com comentários bastante elogiosos.
Por não pertencer a nenhuma escola filosófica e por não apresentar uma perpetuação de estudos já iniciados outrora, segundo Veblen (1906), Marx destaca-se por ser o originador de sua própria escola do pensamento, bem como líder de um movimento direcionado para uma finalidade prática. Tal finalidade, conforme fica evidente ao longo da leitura dos trabalhos de Marx, surge como uma resposta ao sistema capitalista através de um movimento revolucionário, advindo da luta de classes. Exatamente sobre esse ponto, Veblen (1906) comenta que, apesar de iniciar seus trabalhos por meio de uma análise dos fenômenos econômicos e suas organizações através de um sistema científico de conhecimento, Marx recorrentemente discorria sob uma percepção tendenciosa de progresso associado à sua principal propaganda, o socialismo.
Segundo Veblen (1906), tal percepção tendenciosa evidencia-se quando Marx, apesar de originador de sua própria teoria, desenvolve-a em duas linhas distintas: a dialética hegeliana, e o sistema Inglês de direitos naturais. Sendo que o primeiro tornaria Marx adepto de um método de especulação (inquérito científico) relacionado à metafísica hegeliana do desenvolvimento, e o segundo delata uma influência inglesa no desenvolvimento teórico de Marx que, segundo Veblen (1906), também apresenta traços utilitaristas e hedonistas. Ou seja, Marx viabiliza que os ideais de sua propaganda sejam ideais de direitos naturais, mesmo que sua teoria atue no curso da história através da perspectiva hegeliana de progresso. Desse modo, segundo Veblen (1906) e conforme entendido contemporaneamente, o método de inquérito e a construção teórica marxiana é se dão através da dialética hegeliana e do materialismo histórico.
Veblen (1906) ainda aponta para o fato de uma das principais contribuições teóricas de Marx ser, também, um dos principais combustíveis para sua propaganda: a teoria do valor. Afinal, segundo Veblen (1906), os corolários desta seriam: (i) a doutrina da exploração do trabalho pelo capital; e (ii) o clamor dos trabalhadores pelo total do produto de seu trabalho. Desse modo, Veblen (1906) argumenta que a teoria do valor pode ser muito mais observada como contida no centro dos principais postulados do sistema marxista, do que derivada destes. Sendo que esta, pela perspectiva do institucionalista, representaria papel de similaridade, ao menos parcial, entre Marx as contribuições de Ricardo, sendo que:
Marx identifica essa doutrina, em seus elementos, com a teoria do valor-trabalho de Ricardo, mas a relação entre as duas é mais uma coincidência superficial em suas proposições principais do que uma identidade substancial de conteúdos teóricos (Veblen, 1906, p. 587).
Tais constatações tecidas a respeito da construção teórica de Marx, servem para que Veblen explore em melhor medida suas fundamentações e inclinações filosóficas e teórico-científicas. Sobre tal, Veblen (1906) comenta que o sistema marxiano de análise seria um esquema de concepção materialista da história que, como já vimos, é especificamente de caráter hegeliano. Porém, Veblen salienta que esse esquema seria oriundo de um hegelianismo de esquerda, de afiliação a Feuerbach (1804-1872).12 Desse modo, Veblen (1906) delata a distinção entre a perspectiva hegeliana materialista, com aquela que seria a perspectiva hegeliana ortodoxa. Tal distinção é de fundamental importância haja vista o contraste gerado em relação ao Darwinismo ou as perspectivas pós-darwinianas, que são de interesse e objetivo de Veblen.
Segundo Veblen (1906) na concepção do hegelianismo materialista, o espírito do indivíduo – o modo como ele pensa – apresenta-se como um reflexo de origem material. Já na perspectiva hegeliana ortodoxa, esse desencadeamento seria contrário, vindo do espírito e desencadeando na materialidade (Veblen 1906). Em ambos, a norma dominante da especulação e formulação teórica se dá na concepção do movimento, desenvolvimento e “evolução”, como bem destaca Veblen (1906). Apesar da diferenciação materialista, nota-se que o desencadeamento do processo desemboca ainda, todavia, na finalidade do progresso; visando um objetivo. Ou seja, mais uma vez, Veblen delata a percepção teleológica relacionada aos atributos do inquérito científico relacionado ao hegelianismo. Conforme já foi brevemente abordado na análise da crítica de Veblen a Schmoller, no caso hegeliano, o movimento atribuído à evolução e mudança apresenta um papel teleológico em que há um fim almejado e/ou esperado.
Tal aspecto teleológico pode ser melhor compreendido na dialética hegeliana através de percepção do conflito de ideias que consistiria em um processo de três fases: a tese, a antítese e a síntese. Sendo que a tese seria a ideia já existente e consolidada, que é contraposta por uma antítese contrária ao pensamento estabelecido. E, a síntese, seria o resultado (nova tese) da oposição entre tese e antítese. Através desta perspectiva, a síntese sempre resultaria em uma resposta mais adequada e melhor “polida” em relação ao problema em questão.
Desse modo, Veblen (1906) argumenta que, através do materialismo histórico e da dialética hegeliana, Marx dedicaria papel fundamental à luta de classes como um desencadeamento da realidade material. Nesse sentido, Veblen explica que o atributo material resultante desta luta de classes não seria necessariamente físico, nem mesmo psicológico, mas sim econômico. Sendo assim, fica evidente que a dialética hegeliana, munida de um movimento progressista, seria vislumbrada através de um plano humano, nas palavras de Veblen (1906), de “desejo e paixão” – através do já comentado espírito humano –, não desempenhando desencadeamentos literalmente materiais (Veblen 1906). Com base nesta argumentação, Veblen (1906) salienta o aspecto inconcebível de causa e efeito atribuído a este processo de evolução na teoria de Marx. Afinal, com base neste, a luta de classes seria meramente o resultante de uma percepção do indivíduo, como resposta do espírito humano à sua materialidade imposta, o que para Veblen seria como uma resposta reflexa, para além dos instintos e tropismos, e carente de maiores explicações.
Exatamente com base no ponto descrito acima, Veblen (1906) apresenta a inconsistência teleológica da dialética utilizada pela teoria de Marx. Segundo Veblen, devido às características de seu inquérito científico, Marx foi inapto a perceber que as respostas do espírito humano (consciência), se dariam através de atributos históricos e psicológicos causados cumulativamente. Afinal, diferentemente, Marx teria atribuindo-os a respostas metafísicas associadas à dialética hegeliana. Munido dessa crítica, Veblen (1906) não hesita em destacar que tal perspectiva não só se mostra prejudicial ao inquérito científico evolucionário, como também mostra-se desarmoniosa com o que em sua época despontava nos estudos psicologistas.
Marx propôs um modelo dialético a um alto grau de abstração, partindo da hipótese de que a tecnologia (as forças produtivas) é a espinha dorsal da estrutura econômica da sociedade. A realidade social foi por ele concebida com dois setores – infraestrutura, fundamentalmente composta pelas forças produtivas, e superestrutura, na qual estão os valores ideológicos. O modelo é completado por duas classes sociais, capitalistas e trabalhadores, que têm entre si uma relação conflitiva e impulsionadora de transformações históricas (Furtado, 1964, p. 17). O modelo dialético simplificado de Marx não contempla uma explicação causal e cumulativa para a aderência dos indivíduos aos valores das classes. O indivíduo é classificado em uma das duas classes conforme possua ou não possua capital.
Conforme já comentado no capítulo anterior, a perspectiva institucional-evolucionária não almeja (e de certo modo não incentiva) nenhum tipo de predição em relação a acontecimentos socioeconômicos futuros, assim como a perspectiva evolucionária na biologia. Afinal, tal processo se daria de forma cega em uma sequência cumulativa de eventos. Porém, mesmo que se tentasse estabelecer este inquérito científico institucional-evolucionário à teoria de Marx, os indivíduos seriam, muito provavelmente, impossibilitados de convergir para uma luta de classes. Veblen (1906) explica esse raciocínio argumentando que os hábitos e as instituições são de fato resultantes da materialidade humana, como a história, a cultura e o sistema econômico vigente. Porém a vigência e o reforço destes se dá em mesma intensidade com que se vive-os. Desse modo, mesmo não almejando predições, a perspectiva institucional-evolucionária é capaz de analisar vias e possibilidades. No caso da luta de classes da teoria de Marx, seria, muito provavelmente, inviável e improvável devido ao caráter institucional em que o sistema capitalista envolveria os atributos históricos, culturais e psicológicos da humanidade. Sendo assim, segundo Veblen (1906), a luta de classes seria algo estranho tanto à realidade material, quando à psique humana.13
Para finalizar, Veblen destaca ainda que um dos desdobramentos atribuídos à dialética hegeliana na teoria de Marx, seria a continuidade do aumento populacional mesmo frente a períodos extensos de crise, como por exemplo, no caso da formação e expansão do Exército Industrial de Reserva. Segundo Veblen (1906) este seria um dos principais elementos de composição da antítese, levando o sistema capitalista a um colapso de desemprego e miséria abaixo da subsistência. Sendo assim, esse ponto acaba sendo mais um elemento de crítica do institucionalista. Sendo que sobre este, Veblen (1906) comenta o aspecto antievolucionário da ideia de aumento de uma população sem a devida capacidade de subsistência. Além do mais, também pontua a carência de evidências sobre a referida afirmação.
Sendo assim, através da leitura de Veblen (1906) observa-se que Marx estabeleceu uma teoria voltada a análise econômica, apontando para o desenvolvimento progressista do curso da história. Esse progresso estaria relacionado à perspectiva dialética de Hegel e culminaria no processo revolucionário da classe trabalhadora, em busca da manutenção de seus direitos naturais e do domínio dos meios de produção. A revolução, portanto, seria a resposta ao eminentemente falho sistema capitalista (antítese), e teria como seu resultado (síntese) o socialismo. Nas palavras de Veblen (1906, p. 595):
Essa meta ou fim, que controla o processo de desenvolvimento humano, é a realização completa da vida em toda a sua plenitude, e a realização deve ser alcançada por um processo análogo à dialética trifásica, de tese, antítese e síntese, em cujo esquema o sistema capitalista, com sua medida transbordante de miséria e degradação, se encaixa como a última e mais terrível fase de antítese. Marx, como hegeliano – isto é, filósofo romântico – é necessariamente um otimista, e o mal (elemento antitético) na vida é para ele um mal logicamente necessário, pois a antítese é uma fase necessária da dialética; e é um meio para a consumação, assim como a antítese é um meio para a síntese.
Veblen (1906) ainda comenta uma série de outros elementos referentes à teoria de Marx, antes de iniciar suas considerações sobre os desdobramentos destas através dos seguidores marxistas. Porém, a crítica constantemente se renova em torno dos pontos já apresentados referentes à dialética hegeliana e, portanto, ao seu inquérito científico.
Quando visa estabelecer uma análise sobre os desdobramentos da teoria de Marx, os marxistas, Veblen (1907) salienta o seu papel de soberania na perspectiva científica do socialismo. Segundo Veblen, nenhum outro movimento socialista era levado a sério como o movimento marxista, principalmente em intensificação de críticas e em número de adeptos, o que, segundo o autor, mais uma vez salienta a importância e relevância dos escritos de Marx ao pensamento econômico.
Tais movimentos, tanto de críticas quanto de adesão, fizeram com que a teoria marxista passasse por processos de mudança e adaptações. Veblen comenta que os “mantenedores” das doutrinas socialistas atuaram em grande tom de convergência com as principais posições e princípios propostos por Marx, porém, também em grande medida, houve adaptação e modernização de posicionamentos visando suprir as exigências recentes do constructo científico. Exatamente por tal motivo, Veblen (1907) argumenta a não precisão na ideia de se considerar o mesmo corpo teórico as contribuições de Marx e as contribuições de seus seguidores (marxistas). Ainda sobre esta questão, Veblen (1907) pontua que, mesmo com a evidência de modificações com a finalidade como as descritas acima, alguns contribuintes tidos como mais ortodoxos mantinham posicionamento conservador em relação às sucessões das ideias de Marx, salientando que nenhuma mudança substancial ocorrera desde que a teoria saiu das mãos de seu criador.
Ademais, Veblen (1907) nos apresenta a uma série de problemáticas originárias da rápida ascensão do pensamento Darwiniano que, conforme já destacado aqui, estaria em desacordo com o núcleo central da perspectiva teórica de Marx. Este, inclusive, teria sido um dos principais elementos motivadores de marxistas “revisionistas” acerca do socialismo científico. Afinal, suas teorias mostravam-se carentes de elaborações melhor trabalhadas quando se objetivava a descrição e o desencadeamento de eventos na teoria de Marx. Veblen (1907) comenta que o materialismo histórico, se aplicado sob a ótica evolucionária, poderia ter se desdobrado de maneira muito mais frutífera nos anais da ciência, pois neste caso, a materialidade seria representada pelo processo de evolução dos hábitos de pensamento. Porém, vislumbrar a teoria de Marx nestes parâmetros, significaria abdicar das conclusões e predições provenientes do tradicional materialismo histórico somado à dialética hegeliana.
Sendo assim, Veblen (1907) explicita a clara necessidade de adaptação que o socialismo científico vem sofrendo com o avançar do curso da história, frente às novas demandas da ciência e da indústria moderna contemporânea ao tempo do autor. Veblen (1907) comenta que nem todas as adaptações ainda se fizeram executadas e, talvez nunca se farão.
As exigências materiais e táticas que surgiram das mudanças no sistema industrial e na situação política, então, trouxeram mudanças de adaptação de longo alcance na posição dos socialistas. A mudança pode não ser extremamente grande em qualquer ponto, no que diz respeito aos artigos específicos do programa, mas, como um todo, a modificação resultante da posição socialista é muito substancial. O processo de mudança, é claro, ainda não está concluído – quer o seja ou não – mas já é evidente que o que está ocorrendo não é tanto uma mudança na quantidade ou grau de convicção em certos pontos dados, mas uma mudança em tipo – uma mudança no atual hábito socialista de mente (Veblen 1907, p. 321).
Desse modo, Veblen (1907) frisa a incapacidade de adaptação plena na teorização marxista à perspectiva evolucionária. Afinal, não lhe é ausente o anseio evolucionário – como pode-se inferir através da interpretação do materialismo histórico – porém as alterações que se mostram necessárias apresentam-se no campo epistêmico e não no campo teórico. Exatamente devido a esta impossibilidade de retificação, Veblen (1907) pauta sua falta de fé nas adaptações marxistas.
Como no caso do historicismo alemão, na leitura de Veblen acerca das contribuições de Marx também são perceptíveis elementos de reverência (Dugger, 1979; Edgell; Tillman, 1989; Cavalieri, 2015). Assim como Marx, Veblen também apresentava uma leitura bastante crítica acerca da composição do sistema capitalista principalmente delatando suas inconsistências em relação ao seu próprio funcionamento. Porém, diferentemente de Marx, Veblen apresentava dúvidas em relação aos desdobramentos finais destas inconsistências. Conforme apresentado, o ponto crucial da divergência vebleniana em relação à Marx se dá na não apresentação de um mecanismo teórico que apresenta os instintos e os hábitos nas interações socioeconômicas. Sendo assim, pode-se argumentar a existência de pontos de convergência entre Marx e Veblen. Primeiramente no que se refere ao elemento crítico de suas teorias, principalmente em relação aos resultados do sistema capitalista devido a suas características contraditórias,14 bem como pela percepção da realidade material como elemento central no processo de mudança, com atenção muito marcada para a tecnologia.
Considerações finais
Conforme se descortinam as avaliações críticas de Veblen ao pensamento econômico contemporâneo à sua época, fica evidente a repetição dos elementos de aversão em suas estruturas epistêmicas, principalmente no que diz respeito às aderências teleológicas. Assim, fica evidente que Veblen fundamenta suas críticas em pilares fundamentais de características arcaicas da formação científica, o que resulta na impossibilidade de construção de um discurso evolucionário a partir do processo de causalidade cumulativa. Como se pôde observar, segundo Veblen, essa afirmação é verdadeira em Marshall, Clark, Schmoller e Marx.
Analisando as ideias de Veblen sobre a ciência econômica de seu tempo, o escopo do surgimento de uma nova abordagem econômica é melhor compreendida. Mais especificamente, através das explicações de Veblen, a ideia de uma nova teorização inspirada em princípios evolutivos darwinianos não-teleológicos é justificada pelo enviesamento analítico que ele atribui às teorias comprometidas com processos teleológicos. Com isso em mente, a contribuição de Veblen ao pensamento econômico é fundamental, não apenas para introduzir uma perspectiva institucional sobre os fenômenos econômicos, mas também para apontar as limitações da ciência econômica e as variações epistêmicas internas ao campo dos teóricos evolucionários.
Em conclusão, três outros comentários ainda devem ser frisados: (i) o papel da incorporação das ideias de Veblen na economia dominante ao longo do século XX; (ii) o aparente descontentamento de Veblen com os métodos individualistas e coletivistas e seus motivos; e, (iii) a potencial sobreposição entre as ideias de Veblen, Schmoller e Marx. Cada um desses comentários finais é expresso abaixo:
Em primeiro lugar, a absorção parcial das teorizações de Veblen no discurso dominante é abundantemente destacada. Esse fenômeno ocorre em período posterior ao recortado neste trabalho, principalmente a partir de meados do século XX, em trabalhos como Duesenberry (1949) sobre “efeitos de demonstração” e em Lebenstein (1950) sobre “Efeito Veblen”. Ressalte-se que tais absorções refletem o “sequestro” e esterilização da teoria vebleniana, distanciando-se de suas concepções básicas originais sobre o princípio evolutivo. Assim, esse fenômeno também não parece representar a compreensão adequada das preocupações do institucionalista, conforme demonstrado neste trabalho.
Em segundo lugar, as considerações de Veblen trabalhadas neste texto sobre os métodos de inferência científica também devem ser comentadas. Conforme observado no caso neoclássico, Veblen destaca a incompletude da inferência dedutiva e individualista. E, no mesmo sentido, no caso historicista alemão, ele destaca a incompletude da inferência indutivista e histórica. Por meio de seus comentários sobre as “críticas de julgamento de Kant”, Veblen (1884) destaca a ausência de um fundamento abdutivo na lógica científica de ambas as formas de inferência. Por meio dessa característica de suas críticas, Veblen parece trazer à tona uma de suas influências mais fundamentais, o Pragmatismo Clássico, principalmente por meio das contribuições de Charles Sanders Peirce (Luz, 2015).
Em terceiro e último lugar, as semelhanças e peculiaridades da teoria de Veblen, Schmoller e Marx também devem ser enfatizadas (Dugger, 1979a; Edgell; Tillman, 1989; Cavalieri, 2015). Afinal, a leitura histórica de Schmoller e a perspectiva crítica de Marx sobre o sistema capitalista e o estabelecimento de conceitos voltados para a compreensão da sociedade em sua estrutura produtiva também parecem ser elementos recorrentes nos escritos de Veblen. Portanto, as críticas do institucionalista não devem ser confundidas com aversão, mas sim com eventual incompatibilidade. Ressalta-se, nos três autores, a existência consonante de elementos teóricos ligados ao conflito, à alienação e, principalmente, ao capitalismo como fenômeno histórico.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa
Não se aplica
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(1)
Animismo confere ideia de uma consciência presente em todos os corpos orgânicos lhes concedendo teor “espiritual” (divino) para além do mundo físico. Já a teleologia pode ser compreendida como a doutrina que designa metas, finalidades e objetivos em transformações.
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(2)
Marshall (1988, p. 203, 204) percebe uma via de mão dupla entre as analogias econômicas e as biológicas. Segundo o neoclássico, o aperfeiçoamento de uma teoria da divisão do trabalho, por Adam Smith, teria sido inspirador para noções biológicas de adaptação derivadas de reorganizações funcionais, e o argumento das crises cíclicas decorrentes do aumento populacional, desenvolvido por Malthus, teria influenciado Darwin a pensar em disputas pela vida entre as espécies vegetais e animais. Desde então, a biologia teria passado a devolver à economia, com juros, ideias inspiradoras, por exemplo, para a organização industrial.
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(3)
Segundo Fishburn (2004), o uso da expressão Natura non facit saltum, por Marshall, é relevante para a noção de gradualismo de ajustes na interação entre indivíduos presente na obra do neoclássico; para além disto, o emprego é impreciso com referências ao longo dos textos de Marshall ora a Darwin, ora a Kant, ora a Spencer e, em algumas passagens, a naturalistas germânicos. De toda a sorte, Fishburn (2004) aponta que Marshall estava olhando para além dos limites da ciência econômica de sua época, buscando enriquecê-la pelo diálogo com outras áreas do conhecimento científico e que este esforço marshalliano de aproximar a economia aos processos biológicos darwinianos é digno de estudo no âmbito da história do pensamento econômico.
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(4)
Em Veblen (1900, p. 261) é observada a primeira menção ao termo “neo-classical” na literatura econômica.
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(5)
Marshall, ainda que em contexto acadêmico britânico, exerce grande influência na academia norte-americana, sendo auxiliar à perpetuação das maturações marginalistas e neoclássicas que, no velho continente, se desdobravam desde as contribuições de Jevon, Menger e Walras.
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(6)
Visando a finalização das perspectivas veblenianas acerca da economia neoclássica, que aqui tiveram como foco Marshall e Clark, nota-se uma relevante consideração a ser feita. Conforme Camic e Hodgson (2011) destacam, houve por parte de Veblen uma tentativa de aproximação entre os economistas de corrente neoclássica e aqueles que viriam a ser conhecidos como austríacos. Segundo Veblen, tanto neoclássicos como austríacos seriam os economistas responsáveis por adotar uma natureza humana passiva e substancialmente inerte. Porém, os autores comentam que tal tentativa teria sido resultado de uma leitura apressada e pouco rigorosa por parte de Veblen, principalmente tendo em vista os trabalhos que vieram a ser desenvolvidos posteriormente por parte da escola austríaca (Camic; Hodgson, 2011).
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(7)
O pano de fundo para a corrente da escola histórica alemã foi o pensamento singular de intelectuais germânicos que posicionaram o pensamento econômico alemão do século XIX como uma heterodoxia frente a ortodoxia representada pela economia política clássica britânica (Fonseca, 2000).
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(8)
Schmoller denominou a sua escola histórico-ética e isto implicava a pretensão de estudar todas as facetas de um fenômeno econômico, incorporando o comportamento e todo o conjunto de motivações humanas inscritas na história, incluindo as motivações especificamente econômicas bem como as demais abarcadas pelo termo ética (Schumpeter, 1964, p.79).
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(9)
Segundo contagem de Camic e Hodgson (2011) as críticas de Veblen referentes a estes aspectos, ocupam não menos do que oito páginas do seu trabalho de 1901.
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(10)
Veblen salienta a possibilidade de uma explicação institucional-evolucionária a respeito do tema, principalmente no que se refere aos desdobramentos econômicos deste fato. Porém, como Veblen bem comenta, tais explicações ficam ausentes das contribuições de Schmoller.
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(11)
Sobre este ponto, também podem ser mencionadas as considerações de Veblen acerca da relação dicotômica entre as instituições e a tecnologia, assim como sobre a função social do sistema econômico em sua lógica de provisionamento (vide: Veblen, ([1921] 2019); [1904] 2017; [1914] 2018). Estas considerações críticas serão retomadas no pensamento institucionalista na segunda metade do século XX, principalmente por parte de veblenianos conhecidos como institucionalistas radicais.
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(12)
Filósofo alemão, responsável pela disseminação da ideia de observação da teologia e das religiões através do papel antropológico.
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(13)
Sendo assim, Veblen (1906) tece importante contraponto. As características emulativas e conservadoras presentes em The Theory of The Leisure Class ([1899]2009) sinalizam para uma baixa possibilidade de insurgência revolucionária de grupos subordinados econômica e politicamente.
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(14)
Segundo Dugger (1988) o marxismo pode ser visto como um primo de primeiro grau do institucionalismo radical, corrente institucionalista de inspiração vebleniana que busca revisitar os princípios da crítica social.
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Fernanda Ultramare
