Os Sujeitos da EJA nas Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos

Pollyana dos Santos Gabriela da Silva Sobre os autores

Resumo:

O trabalho refere-se ao estado do conhecimento das produções científicas sobre sujeitos da EJA no Brasil. O problema de pesquisa foi: quais os principais fundamentos teórico-metodológicos presentes nas produções resultantes das pesquisas no campo da Educação de Jovens e Adultos no Brasil que versam sobre os sujeitos estudantes? A coleta de dados utilizou os descritores: sujeitos+EJA, identidade+EJA e sociabilidade+EJA. A análise dos 13 artigos localizados evidenciou: o caráter interdisciplinar dos estudos; a predominância de pesquisas qualitativas; a diversidade teórica que fundamenta esse campo de investigação. Diante do restrito número de publicações, percebeu-se a importância de explorar essa área de pesquisa e produção do conhecimento.

Palavras-chave:
Educação de Jovens e Adultos; Sujeitos da Educação; Diversidade

Abstract:

This paper refers to the state of knowledge of scientific productions on subjects of YAE in Brazil. The research problem was: What are the main theoretical and methodological foundations present in the productions resulting from research in the field of Youth and Adult Education in Brazil that deal with student subjects? We used the following descriptors for data collection: subjects + YAE, identity +YAE, and sociability + YAE. The analysis of 13 articles showed the interdisciplinary nature of the studies, the predominance of qualitative research, and the theoretical diversity that underlies this field of investigation. Given the limited number of publications, we perceived the importance of exploring this area of research and knowledge production.

Keywords:
Youth and Adult Education; Subjects of Education; Diversity

Introdução

O artigo objetiva apresentar uma pesquisa denominada estado do conhecimento. Considerando, para tanto, as produções que demarcam como objeto de investigação os sujeitos. Para dar conta de nossa proposta, a construção de investigação é do tipo bibliográfico, ancorada nos aportes teórico-metodológicos quantitativo/qualitativo, com base nas análises de conteúdo.

Esta produção está vinculada ao projeto macro de pesquisa intitulado Fundamentos e autores recorrentes do campo da Educação de Jovens e Adultos no Brasil: a construção de um glossário eletrônico. A investigação tem por propósito se desenvolver em 3 etapas e contando com colaboradores de diferentes instituições de ensino superior, mobilizando grupos de pesquisadores das cinco regiões do país1 1 Região Sul: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – instituição executora da pesquisa; Universidade Federal do Paraná (UFPR); Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); Universidade da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Erechim; Instituto Federal de Santa Catarina – Campus Chapecó; Região Sudeste: Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Cachoeiro de Itapemirim; Região Norte: Universidade do Estado do Pará (UEPA); Universidade Federal do Acre (UFAC); Região Nordeste: Universidade do Estado da Bahia (UNEB); Universidade Federal de Alagoas (UFAL); Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB); Região Centro-Oeste: Universidade Federal de Goiás (UFG). A equipe da pesquisa também conta com a participação de pesquisadores portugueses vinculados à Universidade de Coimbra e à Universidade do Minho (UMINHO). , incluindo também participações em âmbito internacional.

Assim, este produto se constitui da segunda etapa de investigação, na qual foram analisados e interpretados os artigos encontrados sobre o eixo temático: sujeitos da EJA. O que aqui denominamos de eixo temático, trata-se de uma das categorias de análise da pesquisa macro. O exercício analítico aqui proposto tenta responder ao seguinte problema: Quais os principais fundamentos teórico-metodológicos presentes nas produções resultantes das pesquisas no campo da Educação de Jovens e Adultos no Brasil que versam sobre os sujeitos estudantes?

Diante disto, nosso desafio foi sintetizar os achados em termos de produções sobre os sujeitos e, de alguma forma, responder à questão principal nos questionando também: Sobre quais concepções fundamentam este campo de estudo e pesquisa?

Sobre os Sujeitos da Educação de Jovens e Adultos

Ao discorrer sobre os sujeitos da EJA, podemos fazê-lo a partir de diferentes pontos de análise. Podemos nos ater às questões legais, aos aspectos cognoscitivos, aos geracionais, às condições de classe social, de gênero, de raça/etnia, de origem (urbana ou do campo), aos contextos históricos, sociais, culturais, econômicos ou políticos em que se inserem os sujeitos estudantes da EJA e suas trajetórias de vida, pensando as especificidades e a diversidade destes sujeitos.

A LDB N. 9394/96, em conformidade com a Constituição Federal de 1988, expressa em seu artigo 37 um primeiro demarcador para situar quem seriam os sujeitos que compõem as classes de EJA:

Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos nos ensinos fundamental e médio na idade própria e constituirá instrumento de para a educação e a aprendizagem ao longo da vida. § 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. § 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. § 3o A educação de jovens e adultos deverá articular-se, preferencialmente, com a educação profissional, na forma do regulamento (Brasil, 1996BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, n. 9394. Diário Oficial da União, Brasília, dez. 1996. Disponível em: <Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm >. Acesso em: ago. 2018.
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).

Parece-nos que não ter concluído a escolaridade obrigatória em idade própria se torna uma condição de identificação desse público. Outros elementos que aparecem no mesmo artigo indicam especificidades dos sujeitos da EJA, como por exemplo, a necessidade de garantir condições de escolarização apropriadas frente às demandas do mundo do trabalho aos quais os estudantes se vinculam.

A esse respeito, faz-se necessária uma breve problematização sobre a expressão idade própria, presente na legislação brasileira para se referir a uma característica do público da EJA. Segundo Di Pierro (2005, p. 1118), ela sinaliza os resquícios da concepção compensatória de educação de jovens e adultos que “[...] inspirou o ensino supletivo, visto como instrumento de reposição de estudos não realizados na infância ou adolescência”. Em concordância com a autora, o paradigma em questão precisa de análise crítica uma vez que não há na literatura científica fundamentos que sustentem a tese da existência de uma idade apropriada para aprender. Ainda segundo Di Pierro (2005DI PIERRO, Maria Clara. Notas sobre a Redefinição da Identidade das Políticas Públicas de Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 92, p. 1115-1139, Especial-Out. 2005. Disponível em: <http://www.cedes.unicamp.br>. Acesso em: 8 jun. 2014.
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, p. 1120): “[...] a educação capaz de responder a esse desafio não é aquela voltada para as carências e o passado […], mas aquela que, reconhecendo nos jovens e adultos sujeitos plenos de direito e de cultura, perguntando quais são suas necessidades de aprendizagem no presente, para que possam transformá-lo coletivamente”.

Para além dos diversos processos de exclusão escolar vivenciada ao longo da vida e da relação com o mundo do trabalho, o que mais podemos falar sobre os sujeitos da EJA? Pensar apenas por esse viés, não incorreria no risco de se lançar um olhar homogeneizante para os sujeitos da EJA? Diante disto, seria importante, inicialmente, explicitar a compreensão sobre a categoria sujeito presente nesta pesquisa:

Ao se falar de sujeito tratamos de um ser Humano, aberto a um mundo, portador de desejos, movido por esses desejos, em relação com outros seres humanos (também sujeitos); um ser social que nasce e cresce em uma família (ou em um substituto de família), que ocupa uma posição em um espaço social, que está inscrito em relações sociais; e ainda um ser singular, exemplar único da espécie humana, que tem uma história, e que interpreta o mundo, dá um sentido a esse mundo, à posição que ocupa nele, às relações com os outros, à sua própria história e à sua singularidade (Charlot, 2001CHARLOT, Bernard (Org.). Os Jovens e o Saber: perspectivas mundiais. Porto Alegre: Artmed, 2001., p. 33, apud Durand et. al., 2011DURAND, Olga Celestina da Silva et al. Sujeitos da Educação de Jovens e Adultos, Espaços e Múltiplos Saberes. In: LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes (Org.). Educação de Jovens e Adultos e Educação na Diversidade. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011. P.160-245., p. 167).

Partindo dessa premissa, entendemos que os estudantes da EJA, percebidos na dimensão de sujeitos, são constituídos por e nas relações sociais, na vida em sociedade, pela intermediação da cultura, dos valores e crenças que dotam essas relações de significados e sentidos. Inserem-se em um contexto histórico, político e econômico e nele ensaiam suas trajetórias de vida. Ao mesmo tempo, realizam um movimento próprio para interpretar esse mundo e traduzi-lo a si mesmo, percebendo-se como parte constituinte de um ou de vários grupos. A esse processo de constituir-se a si mesmo e por si mesmo, Charlot chama de educação e o relaciona ao processo de hominização do ser humano - processo pelo qual, partilhamos a condição humana (Charlot, 2000CHARLOT, Bernard. Da Relação com o Saber: elementos para uma teoria. Tradução: Bruno Magne. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. ).

Refletir sobre jovens, adultos e idosos que estudam na EJA nessa perspectiva significa considerá-los para além da dimensão cognitiva a partir da qual são pensados no processo histórico de escolarização. Também, implica em desconstruir uma percepção homogênea sobre quem são os estudantes, ultrapassando-se as categorias abstratas de jovem e adulto para as quais se convencionam características e lugares sociais. Sendo assim, os estudantes passam a ser compreendidos não pelo que lhes falta quando comparados às representações construídas em torno das categorias abstratas mencionadas anteriormente, mas a partir das situações vivenciadas ao longo da vida que produzem subjetividades, saberes e modos diversos de existência (Oliveira, 1999OLIVEIRA, Marta Kohl de. Jovens e Adultos como Sujeitos de Conhecimento e Aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, n. 12, set./out./nov./dez., p. 59-73, 1999.).

Analisando-se a produção teórica acerca dos sujeitos da EJA é possível, então, identificar a existência de aspectos que são comuns, que demarcariam uma característica dos estudantes dessa modalidade de ensino, e aqueles que apontariam para a diversidade existente entre esse mesmo grupo. Dentre os elementos que aproximam os sujeitos temos: a vivência de diversas formas de exclusão social; as trajetórias escolares entrecortadas e marcadas por processos de exclusão da e na escola; a condição de serem, em sua maioria, trabalhadores/as oriundos das classes populares; e, a existência de projetos e sonhos de estudar e partilhar dos saberes sistematizados pelos currículos escolares, considerados por eles como socialmente relevantes (Haddad, 2000HADDAD, Sérgio (Org.). O Estado da Arte das Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos no Brasil: a produção discente da pós-graduação em educação no período de 1986- 1998. São Paulo: Ação Educativa, 2000.; Gadotti, 2002GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José Eustáquio. Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. 5 ed. CORTEZ: São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2002.; Laffin, 2008LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes. O Conhecimento Escolar, suas Mediações e as Atividades de Ensinar e Aprender. In: LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes (Org.). Crianças, Jovens e Adultos: diferentes processos e mediações escolares. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2008. P. 9-20. ; Durand et. al., 2011DURAND, Olga Celestina da Silva et al. Sujeitos da Educação de Jovens e Adultos, Espaços e Múltiplos Saberes. In: LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes (Org.). Educação de Jovens e Adultos e Educação na Diversidade. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011. P.160-245.).

Se por um lado, esses elementos anunciam as similaridades existentes entre os sujeitos da EJA, outros nos dão conta da diversidade que perpassa as turmas dessa modalidade de ensino: os diferentes saberes produzidos em outras esferas que não apenas a escolar; os interesses que os mobilizam no retorno à escolarização; as questões geracionais; as trajetórias de vida atravessadas pela condição de gênero, de raça/etnia, de origem (urbana ou do campo) e os contextos culturais que cada qual assinala. (Oliveira, 1999OLIVEIRA, Marta Kohl de. Jovens e Adultos como Sujeitos de Conhecimento e Aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, n. 12, set./out./nov./dez., p. 59-73, 1999.; Di Pierro, 2005; Laffin, 2008LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes. O Conhecimento Escolar, suas Mediações e as Atividades de Ensinar e Aprender. In: LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes (Org.). Crianças, Jovens e Adultos: diferentes processos e mediações escolares. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2008. P. 9-20. ; Durand et. al., 2011DURAND, Olga Celestina da Silva et al. Sujeitos da Educação de Jovens e Adultos, Espaços e Múltiplos Saberes. In: LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes (Org.). Educação de Jovens e Adultos e Educação na Diversidade. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011. P.160-245.). Nesse sentido, dada a diversidade de temáticas que se relacionam aos sujeitos da Educação de Jovens e Adultos, esse trabalho se lança a analisar o que nos possibilita evidenciar nas produções acadêmicas com vistas a identificar os principais fundamentos teórico-metodológicos presentes nas produções resultantes das pesquisas no campo da Educação de Jovens e Adultos no Brasil sobre a categoria de análise sujeitos da EJA.

A Pesquisa Realizada

A pesquisa de caráter bibliográfico e exploratório, orientou-se por uma abordagem quantitativa/ qualitativa. Fundamentada nesta perspectiva, utilizamos a bibliografia como recurso de investigação pressupondo realizar um levantamento das referências teórico-metodológicos publicadas em documentos sobre um determinado tema. Neste aspecto, a produção deste tipo de pesquisa tem sua relevância para o campo científico ao apresentar à comunidade acadêmica as “[...] contribuições culturais ou científicas existentes sobre um determinado assunto, tema ou problema” (Cervo; Bervian, 2005CERVO, Amado; BERVIAN, Pedro. Metodologia Científica. 5. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. , p.65). Assim, realizou-se uma pesquisa do tipo estado do conhecimento (Romanowski e Ens, 2006ROMANOWSKI, Joana Paulin; ENS, Romilda Teodora. As Pesquisas Denominadas do Tipo ‘Estado da Arte’ em Educação. Revista Diálogo Educacional, v. 6, n. 19, set./dez., p. 37-50. Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2006. Disponível em: <Disponível em: http://www2.pucpr.br/reol/index.php/DIALOGO?dd1=237&dd99=view >. Acesso em: maio 2018.
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), analisando-se as produções de apenas um setor de publicações: artigos publicados em revistas que se encontram cadastrados na plataforma de periódicos da Capes2 2 Disponível em: <https://www.periodicos.capes.gov.br/>. .

Em termos de compreensão e intepretação dos dados, transitamos pela metodologia da análise de conteúdo, por entendermos que ela nos oferece condições de realização de uma “[...] descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo” (Bardin, 1995BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1995., p.19). As fases de pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação, fundamentaram-se nos pressupostos teóricos da referida autora.

Os artigos analisados foram coletados na primeira fase da pesquisa, realizada em 2017. Na fase de pré-análise, fez-se um levantamento das produções existentes na plataforma de periódicos da Capes, utilizando as palavras-chaves: educação de jovens e adultos. Não foi determinado um recorte temporal para a busca. Portanto, localizou-se 460 artigos, que, posteriormente, o grupo de pesquisadores responsável pela condução dessa etapa os organizou em 04 blocos temáticos.

O 1º bloco reuniu os trabalhos que versavam sobre as políticas públicas, as propostas pedagógicas, alfabetização e letramento, as ações de ensino e as relações trabalho e educação. O 2º bloco agrupou as produções que tratavam sobre as questões curriculares e a EJA, a Educação Popular, as questões relacionadas à docência e aos fundamentos da EJA. O 3º bloco abarcou os artigos que exploraram temas como: os sujeitos da EJA, a EJA em espaços de privação de liberdade, os processos de ensino-aprendizagem, gênero e sexualidade. Por fim, o 4º bloco reuniu as investigações sobre evasão e permanência na EJA, tecnologias, educação do campo e ensino médio na EJA

Os procedimentos metodológicos para a realização das análises dessas produções foram os mesmos para todos os blocos. Assim, a equipe de pesquisadores partilhou dos seguintes passos na fase de exploração do material e tratamento dos resultados:

  • Realização de nova busca no portal da CAPES - Periódicos somente com a categoria analisada, usando palavras-chave referentes à mesma;

  • Leitura inicial dos resumos das publicações disponibilizadas nas bases de dados em questão;

  • Construção de sínteses prévias, considerando: o tema, os objetivos, as problemáticas, as metodologias, as relações entre o pesquisador e a área e os resultados;

  • Leitura e análise dos textos na íntegra dos achados do corpus encontrado e sua análise de conteúdo;

  • Identificação das abordagens, fundamentos teórico-metodológicos e aprofundamento dos principais autores e bases epistemológicas que referenciam as pesquisas analisadas.

Sobre os sujeitos da EJA, foram identificados 13 textos publicados entre os anos de 2006 e 2017. O primeiro levantamento na Plataforma da Capes, localizou 11 produções. Uma segunda busca realizada utilizou-se como filtro as palavras-chave: sujeitos+EJA; identidade+EJA; sociabilidade+EJA. O uso dos descritores identidade e sociabilidade selecionada com base nas palavras-chaves que se repetiam nos artigos evidenciados na primeira busca dessa forma comtemplando mais 02 artigos.

Em sua maioria, as produções não identificavam a natureza desses trabalhos (se eram resultados de teses, dissertações, trabalhos de conclusão de curso ou se eram relatos de experiência). Para tanto, a análise do material coletado será apresentada a seguir situando: a) panorama sobre as pesquisas; b) identificação dos elementos metodológicos das pesquisas; c) identificação das temáticas das pesquisas, os objetos de investigação e as categorias relacionadas; d) principais autores que fundamentam as categorias identificadas.

Entrelaçando Saberes e Fazeres sobre os Sujeitos da EJA

Panorama sobre as Pesquisas

A produção sobre os sujeitos da EJA mostrou-se de forma restrita e incipiente em relação às demais categorias identificadas na primeira fase da pesquisa. Das 460 produções catalogadas, apenas 2,41% enfocavam os sujeitos da educação. O quadro abaixo permite a visualização dos títulos, autores, localização geográfica e vínculo institucional, periódico e ano das publicações.

Quadro 1:
Identificação da Pesquisa

Embora não seja possível tratar da amplitude da produção científica nacional a partir da quantidade de artigos identificados na plataforma, pode-se confirmar a concentração de trabalhos na Região Sudeste (cinco) e Sul (três) do país. Outro dado relevante se refere às vinculações institucionais dos autores das pesquisas, na qual se constata a presença de 12 instituições de ensino superior públicas, evidenciando a importância dessas instâncias para a produção de conhecimento no Brasil. Esses dados se aproximam de panoramas semelhantes percebidos na pesquisa de Haddad (2000HADDAD, Sérgio (Org.). O Estado da Arte das Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos no Brasil: a produção discente da pós-graduação em educação no período de 1986- 1998. São Paulo: Ação Educativa, 2000.) sobre o estado da arte das pesquisas em EJA no Brasil.

No que tange à relevância das publicações para a Educação, nota-se que a produção sobre os sujeitos da EJA se faz em caráter interdisciplinar com outras áreas do conhecimento (Ciências Sociais, Letras, Artes e Linguagem), embora a concentração de periódicos se dê na área da Educação e do Ensino - destacando-se revistas internacionais e nacionais de maior impacto e potencial de divulgação visto os indexadores a elas vinculados.

Contextualização dos Elementos Metodológicos e Teóricos

Num primeiro momento identificamos os elementos constitutivos nos resumos incluindo as palavras-chave. Em sequência, efetivamos a leitura de cada artigo na íntegra, a fim de contextualizar os elementos metodológicos utilizados pelos pesquisadores. Ou porque alguns artigos não continham dados que nos pudessem auxiliar em nossa investigação. Um problema sério em termos de estrutura metodológica verificadas nos resumos. Assim, foi possível realizar uma nova categorização dos trabalhos em: pesquisas de abordagem qualitativas e pesquisas de abordagem quantitativas, obtendo-se o seguinte panorama das produções:

Quadro 2:
Elementos metodológicos da pesquisa

Para fins de situar o leitor sobre as pesquisas classificadas como qualitativas sem especificação da metodologia utilizada, faz-se necessário mencionar os elementos metodológicos que foram possíveis de serem identificados a partir da leitura dos artigos. O trabalho de Marques e Pachane (2010MARQUES, Denise Travassos; PACHANE, Graziela Giusti. Formação de Educadores: uma perspectiva de educação de idosos em programas de EJA. Educação e Pesquisa: Revista da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo , v. 36(2), p. 475-490, 2010. Disponível em: <Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ep/article/view/28243/30077 >. Acesso em: 7 abr. 2018.
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), não apresentou de modo preciso o tipo de estudo realizado. Contudo, aos lermos o texto na íntegra, subentende-se que se trata relato de experiência. Em outros momentos, parece tratar-se de um estudo de caso.

O trabalho de Silva (2015SILVA, Janine Marta Pereira. Antunes da. O Ethos Discursivo do Aluno da Educação de Jovens e Adultos: uma abordagem acerca da identidade dos alunos do 1º e 2º segmento da EJA de uma instituição de ensino da rede municipal de Betim. Revista Memento, v. 6, n. 2, jul.-dez, 2015. Disponível em: <Disponível em: http://periodicos.unincor.br/index.php/memento/article/view/2685/pdf_71 >. Acesso em: 7 abr. 2018.
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), informa que foram realizadas entrevistas com alunos de uma escola pública e os dados foram interpretados a partir de uma abordagem qualitativa e interpretativa. Entretanto, não foram descritas as etapas da pesquisa, o que não tornou possível identificar o tipo de estudo realizado. Encontramos dentre dos artigos analisados, Anacleto e Ladeira (2010) uma produção no campo das Ciências da Linguagem que utiliza como metodologia a categoria Corpus de análise, a partir de um espaço virtual da internet Orkut (Ciberespaço). Utilizando como referência a página de três alunos para compreender as representações e identidades destes jovens de periferia. Entende-se que se trata de análise do discurso, embora não esteja assim expresso pela autora

Considerando as questões teóricas e metodológicas, as produções apresentaram estudos de caso, relatos analíticos ou sistematizações de experiências/práticas/projetos de escopo reduzido, referidos a uma ou poucas unidades escolares, sala de aula ou programa institucionalizado. Analisando-se a própria natureza desses objetos de estudo, prevaleceram pesquisas do tipo qualitativo, recorrendo a instrumentos de coleta de dados e abordagens para análise dos dados distintas em virtude do tipo de pesquisa realizada: a) para as pesquisas do tipo estudo de caso, percebeu-se a realização de observações e entrevistas; b) para as pesquisas bibliográficas, distinguem-se a riqueza de fontes coletadas (ora são artigos, teses e dissertações, ora são análises de documentos oficiais como currículos escolares) e a forma de análise dos dados (análise de conteúdo e análise do discurso).

Análises das Pesquisas por Conceitos e Categorias

Como afirmado acima, a leitura dos artigos na íntegra, permitiu-nos realizar uma análise sobre os objetos de estudo das pesquisas, as categorias ou subcategorias a eles vinculadas. Os quadros a seguir agrupam-nos em eixos a partir dos quais se identificam os subtemas da categoria sujeitos da EJA, a saber: sujeitos EJA e geração; sujeitos da EJA e gênero; sujeitos da EJA, processos de aprendizagem e desempenho escolar; formação de educadores para compreensão das especificidades dos sujeitos da EJA; currículo, discursos e constituições identitárias dos sujeitos; dimensões sociológicas da concepção de juventude; juventudes e formação profissional e técnica. Destaca-se que há uma grande preocupação com os sujeitos jovens, ou da juvenilização da EJA. Um fenômeno muito recente nesta modalidade de educação.

Quadro 3:
Subtemas sobre sujeitos da EJA e categorias de análise

No grupo temático que agrega o subtema sujeitos da EJA e geração, encontram-se as pesquisas que analisaram e compreendem esta categoria com base nos fatores geracionais. Realizaram um estudo sobre a geração ou etapa da vida a que pertencem os sujeitos da pesquisa: juventude, idade adulta e velhice. Outros também abordaram os aspectos socioculturais que atravessavam os grupos geracionais: classe social, origem urbana ou do campo, gênero, trabalho, exclusão social e da escola, trajetórias/percursos/processos de escolarização.

No grupo temático relativo ao subtema sujeitos da EJA e gênero, temos 1 trabalho cujo foco foi analisar processos de escolarização de mulheres matriculadas em turmas da EJA. Esse trabalho não realiza uma interlocução com aspectos relativos à geração ou à faixa etária dos sujeitos da pesquisa. Outros recortes atravessam à condição de gênero e são apontados pela pesquisa: classe social, origem urbana ou do campo, família, trabalho, exclusão social e da escola. Poderíamos considerar que há uma interseccionalidade entre categorias de análise.

No grupo temático que situa o subtema sujeitos da EJA, processos de aprendizagem e desempenho escolar, apenas 1 pesquisa que se dedicou a efetuar um levantamento sobre o desempenho escolar de jovens e adultos em processo de alfabetização. Propôs uma análise descritiva relevante, mas não realizou discussões teóricas acerca das categorias elencadas. Apresenta ao leitor, uma revisão de literatura, trazendo pesquisas que tratam de temáticas semelhantes, mas sem realizar um aprofundamento nas bases teóricas elencadas.

No grupo temático que abarca o subtema formação de educadores para compreensão das especificidades dos sujeitos da EJA, 1 trabalho que também analisou o sujeito da EJA pela perspectiva geracional, enfocou a importância de se ter a presença de discussões sobre as peculiaridades dos sujeitos da EJA nos currículos de formação de professores. Por dedicar uma seção do artigo para realizar essa discussão, entende-se que este trabalho insere outra temática na categoria teórica sujeitos da EJA.

No grupo temático que agrega o subtema currículo, discursos e constituições identitárias dos sujeitos, 02 trabalhos investigados versavam sobre como os enunciados analisados em documentos oficiais sobre a EJA, documentos elaborados por coletivos e movimentos sociais e os enunciados sobre os sujeitos produzidos na esfera acadêmica produzem discursos que circunscrevem uma noção de sujeito intercultural na EJA. O terceiro trabalho incluído neste grupo (Silva, 2015SILVA, Janine Marta Pereira. Antunes da. O Ethos Discursivo do Aluno da Educação de Jovens e Adultos: uma abordagem acerca da identidade dos alunos do 1º e 2º segmento da EJA de uma instituição de ensino da rede municipal de Betim. Revista Memento, v. 6, n. 2, jul.-dez, 2015. Disponível em: <Disponível em: http://periodicos.unincor.br/index.php/memento/article/view/2685/pdf_71 >. Acesso em: 7 abr. 2018.
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) não aborda a temática currículo, no entanto, as categorias estudadas e os referenciais teóricos a aproximam dos outros dois artigos: lança seu olhar sobre o discurso e as práticas discursivas na constituição de processos identitários de estudantes da EJA.

O grupo temático relativo ao subtema dimensões sociológicas da concepção de juventude reúne as produções que procuraram analisar e refletir sobre certas dimensões da juventude partir de referenciais sociológicos. Analisaram as questões relativas à constituição da categoria juventude, suas relações com a escola e a garantia do direito a educação, levando em conta as especificidades culturais, sociais, e as políticas em que os jovens e as organizações educativas se movem e operam. Procuraram compreender as implicações pedagógicas de se trabalhar a partir das especificidades dos processos de aprendizagem destes sujeitos.

O grupo temático que indica o subtema juventudes e formação profissional e técnica é composto de um trabalho que trouxe a temática da formação profissional e técnica de jovens participantes do Projovem do Campo, no que concerne a certificação técnica da Qualificação Profissional e Social. Destaca-se que o foco da pesquisa é com a política especifica, utilizando a EJA como um pressuposto para compreender este programa.

Análise das Pesquisas por Objeto de Investigação

Os artigos foram analisados também pelos objetos de investigação descritos em cada trabalho. Dada à diversidade de temáticas e especificidades que envolvem a categoria sujeitos da EJA, percebemos a existência de 13 objetos de análise distintos, a saber: dimensões sociológicas da juventude; construção da identidade social do aluno a partir das redes sociais; juvenilização da EJA; juventude camponesa; sujeito jovem; referências culturais e identidades juvenis; estudantes idosos na EJA; processos de escolarização de mulheres na EJA; subjetividades multidimensionais no currículo; alunos adultos da EJA; perfil do desempenho escolar de alunos da EJA; imaginário sócio discursivo produzido por sujeitos da EJA e compreensão sociológica da juventude na contemporaneidade.

A partir da análise dos objetos de investigação, podemos perceber que as pesquisas se debruçam sobre as minúcias que conferem o caráter heterogêneo às classes de EJA. Isso não significou ignorar a existência dos fatores comuns que perpassaram as trajetórias de vida e escolares dos sujeitos (processos de exclusão, a relação com o trabalho, pertencimento às classes populares).

A descoberta da diversidade nos paradigmas que fundamentam as políticas nacionais para a EJA, analisada por Di Pierro (2005), se apresenta quando a categoria abstrata aluno passa a não ser suficiente para compreender as especificidades trazidas pelos sujeitos ao espaço da EJA. Uma vez que a produção científica é perpassada pelos contextos históricos e sociais em que ela se desenvolve, observa-se na década de 1980, no bojo da reorganização da sociedade civil, da participação e da constituição do campo dos direitos do cidadão, a emergência da categoria trabalhador rompendo com a homogeneidade do aluno nas pesquisas e políticas voltadas para essa modalidade de ensino. Do início dos anos 2000 em diante, o fortalecimento de coletivos e organizações da sociedade civil tornam a pressionar ampliação da dimensão do sujeito trabalhador para abarcar outras demandas que estão postas ao cenário educacional:

[…] a emergência de movimentos que reivindicam o reconhecimento político e cultural de identidades sociais singulares (mulheres, negros, jovens, indígenas, sem terra), ao lado da difusão do pensamento de autores orientados ao interculturalismo e/ou vinculados ao ‘paradigma da identidade’, favoreceu o reconhecimento da diversidade dos sujeitos da educação de jovens e adultos. Em princípio, sobressai a percepção da ‘juvenilização’ do alunado da educação de jovens e adultos, mas também começam a surgir os recortes de gênero e a especificidade do campo, sendo raros e recentes os estudos que abordam a condição étnico-racial (Passos, 2004), mesmo quando os diagnósticos indicam que a população negra é maioria dentre os jovens e adultos analfabetos e com baixa escolaridade. Ainda mais notável é a escassez de conhecimento sobre as pessoas com necessidades educativas especiais, assim como sobre as identidades e práticas religiosas dos jovens e adultos inseridos em processos de escolarização (Di Pierro, 2005DI PIERRO, Maria Clara. Notas sobre a Redefinição da Identidade das Políticas Públicas de Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 92, p. 1115-1139, Especial-Out. 2005. Disponível em: <http://www.cedes.unicamp.br>. Acesso em: 8 jun. 2014.
http://www.cedes.unicamp.br...
, p. 1121).

Assim, as análises dos objetos de investigação dos 13 artigos reforçam a crescente demanda pela compreensão dos sujeitos estudantes jovens, adultos e idosos a partir dos mais diversos recortes, tal como observado no âmbito dos paradigmas que fundamentam as políticas da/para a EJA. Como a produção de conhecimento se faz nesse entrelaçamento entre as emergências de demandas sociais, a produção de saberes que orienta os olhares sobre um mesmo objeto de análise e as pesquisas que reelaboram esse conhecimento a partir das realidades vividas por professores e estudantes, percebe-se esse campo como em constante mudança.

Análise sobre os Principais Autores por Categorias Temáticas

Este último bloco, buscou identificar quais autores foram citados com aprofundamento para desenvolver as categorias e temáticas existente em cada trabalho. O quadro a seguir apresenta este levantamento:

Quadro 4:
Autores mais citados nas Pesquisas no Campo da EJA

A identificação dos principais autores que fundamentam as pesquisas nos permitiu algumas análises:

  1. percebemos que alguns estudos enunciaram categorias teóricas sem, no entanto, demarcar uma definição para elas. Também não realizaram a fundamentação em autores que versam sobre essas categorias no campo da produção acadêmica e científica. Os casos se aplicam a: adultos; alfabetização; desempenho escolar;

  2. ressaltamos que, embora existam trabalhos que tratem sobre sujeitos adultos, não foi encontrada uma fundamentação teórica sobre esse segmento geracional. A idade adulta foi apresentada pelas situações que lhe atravessavam, como: família, gênero, trabalho, exclusão social, classe social. A percepção adultocêntrica de mundo não favorece a uma produção teórica que a explique como geração, ou etapa da vida ou ainda como um constructo sociocultural (Oliveira, 1999OLIVEIRA, Marta Kohl de. Jovens e Adultos como Sujeitos de Conhecimento e Aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, n. 12, set./out./nov./dez., p. 59-73, 1999.). Sabemos sobre os adultos de maneira tangenciada às situações sociais que se tornam na condição dos sujeitos estudantes da EJA de determinada faixa etária;

  3. das produções que trabalharam a categoria juventudes, verificamos que o objetivo central foi apresentar a visão dos alunos sobre a escola, o significado dela no processo de formação de cada um, na vida como um todo e na relação com o mundo do trabalho em especial. Há uma preocupação em verificar o impacto da experiência escolar nos âmbitos pessoal, familiar e profissional dos educandos. Acreditamos que a relação da EJA com a juventude ainda é um fenômeno contemporâneo que precisa de estudos e pesquisas sobre a juvenilização na EJA (fenômeno apontado por Haddad, 2000HADDAD, Sérgio (Org.). O Estado da Arte das Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos no Brasil: a produção discente da pós-graduação em educação no período de 1986- 1998. São Paulo: Ação Educativa, 2000.; Di Pierro, 2005; Durand et.al., 2011DURAND, Olga Celestina da Silva et al. Sujeitos da Educação de Jovens e Adultos, Espaços e Múltiplos Saberes. In: LAFFIN, Maria Hermínia Lage Fernandes (Org.). Educação de Jovens e Adultos e Educação na Diversidade. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2011. P.160-245.). Observou-se que para a abordagem da juventude, enquanto construção sociocultural procurou demarcar autores que se tornaram referência no campo de estudos sobre os sujeitos jovens, a saber: François Dubet, Danillo Martuccelli, Paulo César Rodrigues Carrano, Juarez Dayrell e Jaqueline Moll. Entretanto, os trabalhos dos referidos autores citados não se circunscrevem no campo da Educação de Jovens e Adultos;

  4. os textos que abordaram as temáticas sobre os currículos e as constituições identitárias e interculturais, trouxeram autores que se destacam nesse campo do conhecimento, tais quais: Tomaz Tadeu da Silva, Alfredo Veiga-Neto, Thomas S. Popkewitz. As obras citadas, também não se inserem no universo das pesquisas e produções teóricas do campo da EJA;

  5. para abordar a constituição de identidades, destacaram-se os seguintes referenciais teóricos: Michel Foucault, L. P. Moita Lopes, Flavio Fortes D’Andrea, F. A. Goffman. Por sua vez, também não abordam os trabalhos produzidos na área de EJA;

  6. alguns autores reconhecidos no campo teórico das pesquisas em Educação de Jovens e Adultos mencionados nos artigos merecem destaque: Marta Kohl Oliveira, Miguel Arroyo, Paulo Freire, Moacir Gadotti. As categorias e conceitos a que se relacionam foram mencionados no quadro anterior.

A partir das análises dos dados, percebemos que a interdisciplinaridade do campo teórico da Educação de Jovens e Adultos se faz fortemente presente ao abordar os sujeitos dessa modalidade de ensino.

Há um desafio sendo proposto nessas produções, o de que precisamos reavaliar a questão da centralidade dos sujeitos e de que os estudantes são seres humanos indissociavelmente singulares e sociais - neste talvez ainda se constitua a marca e a especificidade da EJA como política de direito. Esse desafio coaduna com a percepção de sujeitos apontada inicialmente neste texto e, portanto, nos permite compreender por que as temáticas relacionadas a essa categoria são diversas, múltiplas e interdisciplinares.

Considerações Finais

A análise dos trabalhos relacionados à categoria sujeitos da EJA permitiu-nos traçar um breve panorama sobre essas produções científicas no Brasil. Observou-se que os estudos que se debruçam a compreender os sujeitos da EJA ainda são poucos, quando comparado a outras temáticas relativas a essa modalidade de ensino. Sendo assim, entende-se que ainda há um campo de investigação a ser explorado pelos pesquisadores da área.

Na análise dos 13 trabalhos, encontramos dificuldade em situar o tipo de produção. As informações presentes nos artigos, ora eram imprecisas, ora não constavam nas obras. Alguns resumos não continham os elementos básicos da pesquisa e, portanto, desde um primeiro momento foi necessário realizar a leitura completa dos textos. Apenas foi possível identificar o tipo de produção em dois trabalhos: um proveniente de dissertação de mestrado e um de trabalho de conclusão de curso de graduação.

A análise dos artigos permitiu identificar os objetos de investigação e as temáticas das pesquisas. A partir desses dados, foi possível destacar categorias que se relacionavam aos sujeitos da EJA. Todos os trabalhos apontam estudos sobre jovens, adultos e idosos matriculados na EJA. Embora pareça óbvio, é importante ressaltar que uma categoria intitulada sujeitos da EJA poderia inserir para além dos alunos, professores e demais profissionais que atuam nessa modalidade de ensino, o que, no entanto, não ocorreu nas pesquisas encontradas.

Nesse sentido, podemos afirmar que a constituição desse campo de saber se faz a partir dos estudos das particularidades, das trajetórias escolares, de demandas e processos de aprendizagem, das representações de si que dizem respeito aos estudantes da EJA.

Foi possível identificar e organizar 07 grupos de subtemas relacionados aos sujeitos da EJA: sujeitos EJA e geração; sujeitos da EJA e gênero; sujeitos da EJA, processos de aprendizagem e desempenho escolar; formação de educadores para compreensão das especificidades dos sujeitos da EJA; currículo, discursos e constituições identitárias dos sujeitos; dimensões sociológicas da concepção de juventude; juventudes e formação profissional e técnica.

Os autores ou correntes teóricas que fundamentam essas produções são diversos e não se circunscrevem especificamente na área da produção científica da Educação de Jovens e Adultos. Ao tratar as especificidades dos sujeitos da EJA, observamos que as pesquisas se aportam a estudos desenvolvidos no campo da Psicologia, Sociologia, Educação, Filosofia, Saúde para abordar as temáticas acerca dos grupos geracionais, processos identitários, discursividades, representações sociais, currículo e formação profissional e técnica.

Esse dado nos permite afirmar que a produção sobre os sujeitos da EJA é interdisciplinar. Na interface com outras áreas é que se passa a constituir um arcabouço teórico sobre os estudantes da Educação de Jovens e Adultos.

Sobre as abordagens teórico-metodológicas orientadoras das pesquisas observou-se que 12 das 13 produções se orientaram pela abordagem qualitativa. As estratégias de pesquisa se diversificam em: pesquisas bibliográficas ou documentais e estudos de caso. Outros tipos de pesquisa que se identificaram como qualitativos para a análise dos dados não situaram a forma como conduziram a fase empírica da investigação. Apenas uma pesquisa se orientou pela abordagem quantitativa.

Esse cenário nos indica que recorrer a esse tipo de pesquisa garante a percepção da heterogeneidade do público da educação de jovens e adultos. Percebemos, então, as realidades sobre os sujeitos da EJA a partir de casos particulares, o que sinaliza para a importância de se realizar um estudo no esforço de tecer conexões entre essas pesquisas e suas categorias teóricas a fim de constituir uma fundamentação teórica sobre os sujeitos da EJA.

Diante o número restrito de trabalhos que se voltam aos sujeitos da EJA, percebemos que esse é ainda um campo vasto para pesquisa e produção do conhecimento. A análise dos artigos destacou algumas temáticas que não foram mencionadas e que se situam no campo da diversidade dos sujeitos da EJA, tais quais: os estudos sobre raça/etnia, o ingresso de estudantes com necessidades específicas, as expressões da religiosidade. Entende-se que são olhares necessários e que se apresentam como possibilidade de ampliar as investigações nessa área. Nesse sentido, a socialização de resultados de pesquisa por meio de revistas e periódicos se faz fundamental para divulgação dos saberes produzido nas academias. Observa-se que essa categoria tem sido mais utilizada para designar o aluno dessa modalidade de ensino. Portanto, ainda precisamos avançar em termos de problematizar todos os sujeitos envolvidos nesta modalidade de educação básica.

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Notas

  • 1
    Região Sul: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – instituição executora da pesquisa; Universidade Federal do Paraná (UFPR); Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); Universidade da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Erechim; Instituto Federal de Santa Catarina – Campus Chapecó; Região Sudeste: Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Cachoeiro de Itapemirim; Região Norte: Universidade do Estado do Pará (UEPA); Universidade Federal do Acre (UFAC); Região Nordeste: Universidade do Estado da Bahia (UNEB); Universidade Federal de Alagoas (UFAL); Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB); Região Centro-Oeste: Universidade Federal de Goiás (UFG). A equipe da pesquisa também conta com a participação de pesquisadores portugueses vinculados à Universidade de Coimbra e à Universidade do Minho (UMINHO).
  • 2
    Disponível em: <https://www.periodicos.capes.gov.br/>.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    23 Set 2019
  • Aceito
    03 Dez 2019
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