Open-access INTEGRALISMO E FASCISMOS: PERSPECTIVAS TRANSNACIONAIS

Integralism and fascisms: transnational perspectives

Integralismo y fascismos: perspectivas transnacionales

RESUMO

A historiografia recente sobre o integralismo brasileiro tem destacado sua inserção em redes transnacionais, superando leituras que o reduziam à derivação periférica dos fascismos europeus. Este artigo revisita esse debate por meio de uma abordagem comparativa e transnacional, examinando definições de fascismo e interpretações do integralismo. Argumenta-se que a Ação Integralista Brasileira (AIB) deve ser compreendida como parte de um campo internacional de direitas ultranacionalistas, no qual símbolos, práticas e discursos circulavam e eram traduzidos localmente. Conclui-se que o movimento foi ator ativo nesse processo, embora persistam lacunas sobre vínculos interamericanos e mediadores culturais.

PALAVRAS-CHAVE:
Integralismo; Fascismo; Comparação; Transnacional; Circulação; Tradução

ABSTRACT

Recent historiography on Brazilian integralism has emphasized its integration into transnational networks, moving beyond interpretations that reduced it to a peripheral derivative of European fascisms. This article revisits this debate through a comparative and transnational lens, examining definitions of fascism and interpretations of Integralism. It argues that the Brazilian Integralist Action (AIB) should be understood as part of an international field of ultranationalist right-wing movements, in which symbols, practices, and discourses circulated and were locally translated. The article concludes that the movement was an active actor in this process, although research gaps remain concerning inter-American connections and cultural mediators.

KEYWORDS:
Integralism; Fascism; Comparison; Transnational; Circulation; Translation.

RESUMEN

La historiografía reciente sobre el integralismo brasileño ha destacado su inserción en redes transnacionales superando las lecturas que lo reducían a una derivación periférica de los fascismos europeos. Este artículo revisita dicho debate mediante un enfoque comparativo y transnacional al examinar definiciones de fascismo e interpretaciones del integralismo. Se sostiene que la Acción Integralista Brasileña (AIB) debe entenderse como parte de un campo internacional de derechas ultranacionalistas, en el cual símbolos, prácticas y discursos circulaban y eran traducidos localmente. Se concluye que el movimiento fue un actor activo en este proceso, aunque persisten vacíos sobre vínculos interamericanos y mediadores culturales.

PALABRAS CLAVE:
Integralismo; Fascismo; Comparación; Transnacional; Circulación; Traducción.

Introdução

Por muito tempo, o integralismo brasileiro foi interpretado ora como derivação do fascismo italiano e do nazismo, ora como movimento original, expressão exclusiva da tradição política e intelectual nacional. Nas últimas décadas, esse quadro foi tensionado por pesquisas que passaram a destacar, simultaneamente, suas especificidades ideológicas e culturais, e sua inserção em dinâmicas políticas mais amplas, alargando o campo de estudos por meio de

recortes regionais, temáticos e metodológicos que desafiam leituras reducionistas.

É nesse horizonte que se situa a proposta deste artigo, que revisa criticamente a histo-riografia sobre o integralismo brasileiro a partir de uma perspectiva transnacional. Em primeiro lugar, o texto discute os contornos conceituais do fascismo, contrapondo abordagens que o circunscrevem à experiência europeia àquelas que o tomam como categoria genérica ou típica-

-ideal. Em seguida, examina o lugar do integralismo nesse debate, acompanhando a evolução das interpretações, a emergência de novas abordagens e temas. Com base nessa discussão, propõe compreender o integralismo como expressão de um fascismo transnacional, de modo a superar os impasses de leituras precedentes. Por fim, aponta novos caminhos de pesquisa, sublinhando a necessidade de comparações sistemáticas e de abordagens transnacionais capazes de situar o integralismo em suas múltiplas inserções, nacionais e globais, no interior das dinâmicas do fascismo histórico e de seus desdobramentos posteriores.

O fascismo é um fenõmeno exclusivamente europeu?

Durante décadas, a América Latina foi terra incógnita nos estudos sobre fascismo pro-duzidos no Hemisfério Norte. As primeiras obras dedicadas ao fascismo internacional ignoraram completamente a região. A coletânea International Fascism: 1920-1945, organi-zada por Laqueur e Mosse em 1966, não incluiu países latino-americanos. Na introdução, Mosse reforçava que o fascismo era “um fenômeno europeu generalizado” (Mosse, 1966: 14; 1979).

Menções rápidas ao peronismo apareciam nessa coletânea. Mosse (1966: 14) afirmou, sem apresentar evidências, que Perón, assim como Hitler e Mussolini, teria alimentado um projeto expansionista orientado para uma “América do Sul dominada pela Argentina”. No mesmo volume, Seton-Watson (1966: 195) declarou que “o único regime fascista forte que existiu depois do fim do Terceiro Reich ocorreu na Argentina”. Marcada pelo clima intelectual da Guerra Fria, essa interpretação reapareceu com frequência na historiografia e na ciência política anglo-saxãs (Blanksten, 1953: 276; Lipset, 1963: 173; Organski, 1965: 154).

A coletânea editada por Woolf (1968a) ampliou o número de casos estu-dados, mas manteve o recorte europeu, afirmando que o “fascismo foi originalmente entendido como a designação de um sistema político e, em certa medida, cultural, econômico e social, próprio de uma área geográfica específica, em um período de tempo delimitado - a Europa entre as Guerras” (Woolf, 1968b: 1). Opiniões semelhantes tiveram Nolte (1966), De Felice (1995: 254), Payne (1980: 176) e Mann (2008: 41). Gentile (2001: 20), por sua vez, foi ainda mais restritivo e confinou o fascismo à experiência italiana. E Allardyce (1979: 270) sustentou que “a palavra fascismo não tem sentido fora da Itália”.

A ruptura com esse quadro começou com o estudo pioneiro de Trindade (1979) sobre a Ação Integralista Brasileira (AIB), que evidenciou a existência de fascismos latino-ameri-canos. Defendida em Paris, sua tese de doutorado foi lida por Gino Germani, Pierre Milza, Stanley Payne e Juan Linz, com acolhida especialmente positiva deste último (Linz, 1976a, 1976b)1. O valor da pesquisa de Trindade também foi reconhecido por Alistair Hennessy (1976), em uma análise pioneira das experiências latino-americanas. Embora não tenha sido capaz de diferenciar claramente os fascismos e o populismo, esse autor argumentou que, diante das dificuldades de difusão do fascismo italiano e nazista, “qualquer forma de fascismo no continente teria de ser de origem local” (Hennessy, 1976: 256; Griffin, 2022: 22-23).

À margem dos debates europeus, intelectuais latino-americanos passaram a levar a sério “seus” fascismos, sobretudo a partir da experiência das ditaduras militares inauguradas nos anos 1960. Nesse contexto, setores nacionalistas e marxistas mobilizaram a categoria de fascismo para interpretar os novos regimes. Muitas vezes, porém, fizeram-no de maneira ampla, quase como sinônimo de ditadura, repressão e terror (Trindade, 1983).

Paralelamente, outros pesquisadores voltaram-se para experiências regionais do entre-guerras. Potashnik (1974), por exemplo, estudou o Movimiento Nacional Socialista chileno, fundado em 1932. Para ele, seus militantes, que se autodenominavam nacistas, combinavam corporativismo, antidemocracia e antissemitismo, produzindo um “movimento chileno sui generis” (Potashnik, 1974: viii, 186, 220). No México, a Unión Nacional Sinarquista, criada em 1937 sob a liderança de Salvador Abascal, foi descrita por Michaels (1966: 238) como um “nacionalismo popular mexicano nativo”. Meyer (1977: 111, 143), por sua vez, conside-rou-a “inevitavelmente fascista nas margens”, embora a entendesse como fundamentalmente nacional-populista e católica. A Acción Revolucionaria Mexicanista, conhecida como camisas doradas e liderada por Nicolás Rodríguez, foi analisada por Gojman de Backal (1988, 1995, 2022), que a definiu como uma organização abertamente antissemita e violenta, com vínculos com o Terceiro Reich.

Outro caso digno de nota é o da Falange Socialista Boliviana, fundada em 1937. Inspirada nas falanges espanholas, no fascismo italiano e no integralismo brasileiro, ela combi-nava anticomunismo, nacionalismo exaltado, anticapitalismo retórico e um catolicismo fervo-roso. Segundo Dómich Ruiz (1978: 174-175, 183), o movimento advogava a construção de um “Estado integral” e de um “Estado Novo” fundado na solidariedade e na organicidade. Apontada como um dos fascismos politicamente mais bem-sucedidos da região, a Falange tornou-se o segundo maior partido da Bolívia nas décadas de 1950 e 1960. Nesse período, notabilizou-se tanto por ações violentas quanto por tentativas de golpe, entre as quais a de 1959, encerrada com a morte de seu líder, Oscar Unzaga (Echazú Alvarado, 1984: 42-44).

No Paraguai, destaca-se o estudo de Seiferheld (1985), que evidenciou a presença precoce do fascismo e do nazismo nas comunidades de imigrantes. Em 1928, formou-se nesse país o primeiro fascio e, no ano seguinte, surgiu a primeira célula do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) fora da Alemanha. Após 1933, nazistas e fascistas italianos ampliaram sua atuação, e simpatizantes de Hitler e Mussolini chegaram a ocupar cargos no governo de Rafael Franco. Entre eles figurava Bernardino Caballero, coautor do Nuevo Ideário Colorado (1934), texto antiliberal e militarista em clara afinidade com o fascismo (Seiferheld, 1985: 39, 46, 70, 91).

A percepção da existência de fascismos fora da Europa abriu espaço para debates conceituais sobre a possibilidade de um conceito genérico para o fenômeno. Griffin (1991) procurou definir um tipo-ideal, caracterizado pelo ultranacionalismo palingenético, aplicável a diferentes contextos. Encontrou limites, entretanto, ao estender sua definição para a América Latina (1991: 148). Evitou classificar como fascistas os governos de Vargas, Perón e Haya de la Torre, mas teve dificuldades em enquadrar movimentos como a Afirmación de una Nueva Argentina, a Acción Revolucionaria Mexicana, a Unión Nacional Sinarquista e a própria Falange Socialista Boliviana. Em sua síntese, apenas a AIB e o Movimiento Nacional Socialista chileno poderiam ser considerados realmente fascismos (Griffin, 1991: 152).

Eatwell (1992) avançou no debate sobre o “fascismo genérico” ao propor um modelo espectral-sincrético2, que definia o fascismo como ideologia híbrida, articulada em quatro eixos: concepções de natureza humana e ordem social, nacionalismo orgânico, uma terceira via econô-mica e valorização da liderança carismática e da ação militante. Esse modelo permitia classificar a AIB como fascista, mas mostrava limites ao aproximar o peronismo do fascismo (Eatwell, 1992: 168-169). Posteriormente, o autor formulou uma definição concisa, o “mínimo fascista”:

Uma ideologia que busca forjar um renascimento social com base em uma Terceira Via radical nacional-holística, embora, na prática, o fascismo tenha tendido a enfatizar o estilo, sobretudo a ação e a figura do líder carismático, mais do que um programa detalhado, engajando-se ainda em uma demonização maniqueísta de seus inimigos (Eatwell, 1996: 313).

Esses primeiros esforços de análise abriram espaço para pensar os fascismos fora da Europa. Um marco foi a sessão “Was there Fascism Outside Europe?”, realizada no XV Congresso da IPSA (International […], 1991). Dela resultou uma coletânea organizada por Larsen (2001a), com estudos sobre Brasil (Trindade, 2001), México (Cárdenas; Tenorio, 2001), Argentina (Spektorowski, 2001) e Chile (Sznajder, 2001). Como observou Bertonha (2004), a qualidade desigual dos textos dessa coletânea refletia a ausência de uma base conceitual comum.

A introdução de Larsen (2001b) evidenciava esse problema: retomava esquemas já superados e incluía equívocos factuais. Um exemplo é a afirmação de que o integra-lismo teria sido “instrumental na criação das bases para Geutilo [sic!] Vargas” (Larsen, 2001b: 809). Além disso, Larsen (2001b: 810) classificava o peronismo como fascista sem explicitar critérios e sem discutir, de modo consistente, as diferenças em relação ao varguismo. Apesar do pioneirismo, a coletânea não consolidou um paradigma comum. Os modelos de Eatwell (2001) e Griffin (2001) também não eram plenamente satisfatórios. Embora úteis, eles mostraram limites quando aplicados a casos mais ambíguos. No conjunto, as inter-pretações produzidas no Hemisfério Norte indicaram avanços no reconhecimento de fascismos latino-americanos, mas também expuseram as antinomias de leituras generalizantes, pouco sensíveis às especificidades regionais.

O integralismo é uma forma de fascismo?

Ainda durante a ascensão do integralismo, o movimento já suscitava interpretações con-correntes. Simpatizantes como Cunha (1935: 90) apresentaram-no como uma doutrina

de inspiração cristã e nacional, distinguindo-se do fascismo e do racismo. Em direção diversa, Albuquerque (1937), ligado à ala antissemita da AIB, aproximou integralismo, fascismo e nazismo. Ao fazê-lo, inseriu o caso brasileiro no quadro de um movimento internacional. Reconheceu, contudo, que as semelhanças eram gerais e que as diferenças derivavam dos contextos nacionais. Daí a defesa simultânea da originalidade do integralismo e da impossibi-lidade de transpor, de modo direto, modelos concebidos para outros países.

Hunsche (1938) publicou a primeira análise acadêmica sistemática do integralismo brasileiro. Definiu-o como um movimento fascista ao mesmo tempo nacional e internacional. Seria originalmente brasileiro, mas integrado a um fenômeno mundial mais amplo. Nessa chave, destacou as tensões entre a ideia de brasilidade integral e a expressiva presença teuto-brasileira. Pouco depois, Gut (1940: 82) enfatizou o nacionalismo de Plínio Salgado e criticou o academicismo da leitura de Hunsche. Sua abordagem revelou simpatia pelo líder integralista. Em contrapartida, relegou a ideologia e a organização do movimento a um plano secundário.

Essas interpretações iniciais seriam posteriormente retomadas e superadas na primeira onda de estudos acadêmicos sobre o integralismo, emergida sobretudo a partir da década de 1970. Para Trindade (1979: 279), o integralismo fundia nacionalismo telúrico, messianismo da “raça mestiça” e tradições autoritárias brasileiras com o integralismo lusitano, o salaza-rismo, o corporativismo fascista e o antissemitismo nazista. Tal como outros fascismos que superaram o estágio grupuscular, o integralismo deveria ser caracterizado como um movi-mento original e eclético, resultante da combinação entre correntes locais e mundiais.

Poucos anos depois, Chasin apresentou uma leitura distinta: integralismo e fascismo seriam objetivações sociais distintas e incomparáveis. O integralismo expressaria o caráter regressivo de uma formação de “capitalismo hiper-tardio”, definida por um apelo rura-lista, um discurso anticapitalista e um anti-imperialismo que, em vez de romper com esse núcleo, o reafirmava (Chasin, 1999: 499, 591, 594). A revolução integralista, nesse sentido, reivindicaria a intervenção do espírito para legitimar um “estado integral” baseado na moral da família (Chasin, 1999: 514).

Outras interpretações também contribuíram para esse debate. Vasconcellos (1979: 57) destacou o mimetismo integralista em relação ao fascismo, ainda que condicionado pela “falácia autonomística” própria de um país dependente. Chaui (2014: 86), por sua vez, deslocou o debate ao sustentar que mais relevante do que discutir a importação da ideologia fascista era reconhecer que o movimento liderado por Plínio Salgado expressava “a verdade do nacionalismo como política autoritária”. Já Araújo (1988) recusou a ideia de que o integra-lismo fosse uma forma de fascismo e recorreu ao conceito de totalitarismo, destacando que seu objetivo era a construção de uma sociedade homogênea e disciplinada.

As pesquisas sobre o integralismo ganharam novos contornos a partir da década de 1990, consolidando-se como campo analítico próprio nas ciências humanas (Bertonha, 2010). O debate, antes centrado na questão classificatória, passou a valorizar as especifici-dades da AIB enquanto movimento de massas da extrema direita. Um marco foi o estudo de Cavalari (1999), que a definiu como o primeiro partido de massas do país, destacando seus mecanismos de mobilização e doutrinação, inclusive pelo uso do rádio3.

Em seguida, a historiografia ampliou o debate. Bertonha (2014: 65) realizou uma revisão abrangente das pesquisas e concluiu que “o integralismo está dentro do universo fascista, ainda que não seja mera cópia de um modelo exterior”. Ramos (2015), por sua vez, sustentou que o movimento incorporou o fascismo de forma “reflexiva” e intencional, mas sem que isso explicasse plenamente seu sentido. Assim, questionou a tese de Trindade, ou ao menos a forma como foi recebida, ao destacar que, ao lado das ideias italianas, havia outros elementos igualmente relevantes que a literatura não estaria considerando.

Paralelamente, multiplicaram-se os estudos monográficos sobre lideranças, que eviden-ciaram a heterogeneidade do movimento. Maio (1992) analisou Gustavo Barroso como formu-lador de uma vertente própria, marcada pelo antissemitismo radical que aproximava sua visão da lógica nazista (Costa Filho, 2019). Posteriormente, Bertonha (2011, 2018: 157) e Gonçalves (2018) destacaram a inserção internacional de Salgado durante o exílio em Portugal, em diálogo com o integralismo lusitano, o salazarismo e o nacional-sindicalismo. Mais recentemente, a obra de Miguel Reale foi revisitada por Costa Filho (2022), que destacou os vínculos do jurista com tradições intelectuais brasileiras, nas quais o direito e a liberdade ocupavam posição central, evitando classificá-lo como simples seguidor do fascismo italiano4.

Um ponto particularmente controverso refere-se às concepções raciais e ao antisse-mitismo. Cruz (2022: 27-28) argumentou que o integralismo não deve ser reduzido a uma simples extensão do fascismo ou do nazismo, enfatizando as bases brasileiras de sua formu-lação racial. Ainda assim, reconheceu os vínculos e redes de colaboração entre a AIB e o movimento hitlerista. As divergências sobre a questão racial teriam gerado tensões entre inte-gralistas e nazistas, reforçando a ideia de uma elaboração própria no interior do integra-lismo. Mesmo Barroso, o dirigente mais marcado pelo antissemitismo, teria rejeitado a noção alemã de “pureza racial”, buscando afirmar certa distância em relação ao nazismo (Cruz, 2022: 204-205).

Os estudos regionais se consolidaram, a partir dos anos 1990, como um dos pilares da renovação historiográfica sobre o integralismo (Bertonha, 2014: 165; Oliveira, 2010). Ao deslo-carem o foco para dinâmicas locais, eles tornaram visível que a nacionalização do movimento não se deu de maneira homogênea. Um passo pioneiro nessa direção foi dado por Gertz (1987), ao analisar a difusão do nazismo e do integralismo nas colônias alemãs do Sul do país. O autor evidenciou contrastes importantes entre o Rio Grande do Sul, onde a separação entre integralistas e nazistas se mostrou mais nítida, e Santa Catarina, onde ocorreu uma sobreposição mais intensa entre as duas experiências.

No Maranhão, Caldeira (1999) destacou o peso da classe média urbana, a centralidade do catolicismo e a força de um discurso antioligárquico que, na prática, frequentemente se traduziu em políticas clientelistas, próximas àquelas que afirmava combater. Em Pernambuco, resultados afins já haviam sido apontados por Silva (2008), o que reforçou, em contexto distinto, o papel da religiosidade como fator estruturante da mobilização integralista.

Por sua vez, na Bahia, Ferreira (2009) examinou a forte inserção do movi-mento, no segundo estado com maior número de núcleos, e chamou a atenção para o papel da imprensa na construção de sua legitimidade pública. Em particular, ressaltou a atuação do jornal O Imparcial na difusão de uma imagem positiva do integralismo. Outros estudos sobre a implantação regional do integralismo, como os de Giron (1994) e Brandalise (2021) no Rio Grande do Sul e Zanelatto (2012, 2015) em Santa Catarina, indicam que a ideologia fascista no Brasil assumiu formas distintas, influenciadas por lideranças e arranjos partidários locais, associações culturais e religiosas e jornais comunitários. A vertente regional da historiografia mostrou, assim, que o integralismo, longe de uma simples imitação, adquiriu perfis próprios e relevância política variável conforme o contexto.

Fascismos transnacionais

A existência de movimentos fascistas fora da Europa é mais bem compreendida a partir de abordagens que o tratam como fenômeno transnacional, múltiplo e interconectado. Bauerkämper (2006: 541-543) propôs uma análise relacional e de múltiplas camadas, ajus-tada a estruturas sociais e repertórios culturais nacionais, reconhecendo a utilidade de defini-ções mínimas como a de Griffin, mas advertindo contra essencialismos e propondo o uso de conceitos como instrumentos heurísticos (Bauerkämper, 2006: 539).

Nesse mesmo horizonte, Finchelstein (2010: 27) definiu o fascismo como uma “rede transnacional de subjetividades ideológicas compartilhadas”. Sustentou, além disso, que sua análise deveria levar em conta as percepções dos próprios atores, em escalas nacional e transna-cional. Esse procedimento permitiria captar continuidades, mudanças e rupturas (Finchelstein, 2017). Zachariah (2014), por sua vez, criticou o eurocentrismo. Defendeu que o fascismo deve ser entendido como uma rede global de repertórios ideológicos e práticas políticas, sempre ajustados às contingências locais. Ao examinar a Índia, introduziu a noção de “Gleichschaltung voluntária”5. Com ela, designou a convergência espontânea de movimentos em torno de estilos, símbolos e discursos fascistas. Sua análise mostrou, em particular, como ideias de völkisch, associadas ao culto do “povo” e à rejeição da democracia liberal, foram reinterpre-tadas em nacionalismos fora da Europa (Zachariah, 2015).

O próprio Griffin (2018) insistiu na necessidade de compreender o fascismo como ideologia de vocação internacional, cujas apropriações locais desafiam fronteiras e interpreta-ções estáticas. Essa perspectiva estimulou tanto estudos transnacionais voltados à circulação de ideias e práticas (Bauerkämper; Rossolinski, 2017) quanto abordagens comparativas que confrontaram diferentes fascismos nacionais entre si e em relação a outras formas de auto-ritarismo (Pinto, 2011). Nesse contexto, Iordachi (2010) propôs que a análise comparativa articulasse níveis empíricos e conceituais distintos, incorporando semelhanças e diferenças contextuais, institucionais e culturais. Desse modo, o fascismo poderia ser compreendido como uma constelação de experiências autoritárias unidas por uma racionalidade comum.

A perspectiva transnacional tem sido igualmente aplicada ao estudo de movimentos neofascistas. Mammone (2015) analisou as conexões entre o Movimento Sociale Italiano (MSI) e o Front National francês, evidenciando vínculos ide4ológicos, organizacionais e simbólicos sustentados pela circulação de militantes, recursos e discursos. Sua análise demonstrou que, mesmo após 1945, elementos centrais do fascismo histórico persistiram sob novas configu-rações. Essas permanências desafiaram taxonomias convencionais e revelaram continuidades significativas sob aparentes rupturas. Sorgonà (2019), por sua vez, examinou a trajetória do MSI durante a Guerra Fria. Destacou o abandono estratégico de referências explícitas ao fascismo em favor de uma identidade anticomunista e atlanticista, progressivamente moldada pela hegemonia estadunidense. Sua investigação evidenciou como fluxos geopolíticos globais condicionaram profundamente a reconfiguração da direita italiana.

Albanese e Del Hierro (2016) reforçaram a compreensão do fascismo como um fenô-meno essencialmente transnacional. Segundo eles, o fascismo do entreguerras produziu redes ideológicas, políticas e simbólicas mundiais. Depois de 1945, essa lógica relacional persistiu e se reorganizou em novas bases. O MSI teria se convertido em um dos principais polos de articulação de redes neofascistas transnacionais, progressivamente mais densas e complexas (Albanese; Del Hierro, 2016). Em estudo mais recente, Albanese (2023) argumentou que, apesar das diferenças nacionais, os neofascismos mantiveram um núcleo cultural comum, marcado pelo racismo, pela rejeição da igualdade e da democracia liberal e por uma concepção autoritária de Estado, continuamente reelaborado por meio de intercâmbios, aprendizagens e estratégias internacionais.

Integralismo e perspectivas transnacionais

Perspectivas comparativas e transnacionais exigem alguns cuidados. Com frequ-ência, elas tomam como ponto de partida um modelo analítico do tipo-ideal. Roberts (2016: 3,7-8) ressaltou a importância desse procedimento, mas também advertiu para um risco recor-rente: ao superestimar a coesão dos movimentos fascistas, certas interpretações acabam por encobrir seus paradoxos e contradições. Iordachi (2020: 295), por sua vez, observou que, embora esses modelos sejam úteis nas etapas iniciais da pesquisa, o estudo de casos concretos precisaria ir além deles, adotando uma perspectiva sensível a “hibridismos e ambiguidades”, a “genealogias” múltiplas e a “causalidades plurais”.

Nessa mesma direção, Kallis (2021: 192) propôs uma abordagem transnacional que recusa a noção de difusão, frequentemente associada à essencialização dos fenômenos e a fluxos unidirecionais. Em seu lugar, sugeriu um paradigma da mobilidade, capaz de apre-ender a imprevisibilidade e a fluidez dos movimentos fascistas e, ao mesmo tempo, evidenciar processos de “circulação, recepção, tradução e/ou reelaboração de ideias e práticas prove-nientes de outro lugar ou de outro tempo” (Kallis, 2021: 193).

Enfim, a análise dos fascismos em perspectiva transnacional exige ir além de leituras centradas na originalidade nacional. Nessa chave, o integralismo poderia ser lido de outra maneira. Ele não seria nem uma simples imitação periférica, nem uma criação inteiramente original. Antes, apareceria como uma tradução criativa e como uma tentativa autônoma de inserção no campo transnacional do fascismo. Trata-se de uma participação ativa em um processo internacional de fascistização, marcado por adaptações e hibridizações. No próprio movimento, essa ambição de internacionalização foi acompanhada por iniciativas organizativas. A AIB buscou se situar em uma constelação autoritária mais ampla. Para isso, articulou vínculos com o fascismo italiano, o nazismo alemão, o integralismo lusitano e o falangismo espa-nhol. Um instrumento central foi a criação da Secretaria Nacional de Relações com o Exterior (SNRE), encarregada de projetar o movimento em escala transnacional (Bertonha, 2014: 113). Somam-se a isso os contatos com organizações latino-americanas, como a Acción Revisionista del Uruguay (Marques, 2019) e a Legión Cívica Argentina (Almeida, 2019). Há ainda indícios de apropriação de ideias integralistas pelas falanges bolivianas (Dómich Ruiz, 1978: 203).

As relações entre o integralismo e o fascismo italiano merecem destaque por terem sido mais intensas e institucionalizadas. Um marco simbólico foi a viagem de Plínio Salgado à Itália em 1930, quando se encontrou brevemente com Mussolini. Embora a reunião de 14 de junho tenha durado apenas quinze minutos e fosse pouco relevante para o duce, o impacto em Salgado foi profundo (Bertonha, 2014: 98). O modelo mussoliniano serviu como impor-tante referência para o integralismo, perceptível nos uniformes, nos rituais de massa, no culto à juventude e na própria liderança carismática de Salgado, moldada à semelhança da de Mussolini (Bertonha, 2014: 163).

Entre 1933 e 1938, a AIB procurou estabelecer vínculos estáveis com o regime italiano, que, ainda que de modo discreto, manteve “contatos contínuos” (Bertonha, 2014: 114). Nesse mesmo período, verificou-se a circulação de panfletos e artigos de orientação fascista na imprensa integralista, troca de correspondência e até indícios de apoio financeiro proveniente de Roma (Bertonha, 2018: 155-156).

Apesar da centralidade do modelo italiano, o integralismo também se articulou a outras experiências autoritárias, como o nazismo alemão, o salazarismo português, o franquismo espanhol e os nacionalismos latino-americanos, compondo uma constelação autoritária trans-nacional. No caso alemão, os vínculos foram mais fragmentados, sem laços institucionais formais, mas com forte apelo simbólico junto à comunidade teuto-brasileira.

Gertz (1987) mostrou que, no sul do país, a AIB foi percebida como alternativa iden-titária capaz de conciliar a lealdade ao Brasil com valores próximos ao nazismo. Essa tese foi confirmada por Dietrich (2012) em estudo mais amplo, que registrou, em algumas locali-dades, o hasteamento conjunto de bandeiras integralistas e nazistas e a ressonância da estética performática da AIB entre simpatizantes do NSDAP. A repressão do Estado Novo, após 1938, atingiu ambos os movimentos, produzindo prontuários policiais que revelam trajetórias de militância cruzadas e configuram sobreposições pragmáticas de concorrência, aproximação e cooperação tática (Athaides, 2011: 181).

Embora Salgado enfatizasse a originalidade de seu projeto, mobilizou seletivamente as ideias de movimentos autoritários católicos, como a Action Française de Charles Maurras e o Integralismo Lusitano (Gonçalves, 2014, 2018, 2024; Tanagino, 2022). Essas conexões situ-avam a AIB em uma constelação autoritária marcada pelo antiliberalismo, pela ordem cató-lica e por projetos de regeneração espiritual e tradicionalista. As diferenças organizacionais e políticas eram importantes. A Action Française e o Integralismo Lusitano eram aristocráticos e restauracionistas. A AIB, por sua vez, era um movimento de massas nacional-popular. Todos, entretanto, convergiam no antiliberalismo, no nacionalismo espiritualista, no corporativismo e na defesa da hierarquia social. Partilhavam também a retórica regeneracionista e a missão redentora da nação (Gonçalves, 2024).

Em particular, a leitura de António Sardinha foi central para Salgado, influenciando seu discurso espiritualista e tradicionalista e inserindo o integralismo em uma “circularidade luso-

-brasileira” que aproximava conservadorismos ibéricos e brasileiros (Gonçalves, 2024: 115). Nesse sentido, mesmo sem constituir um movimento fascista em sentido estrito, o Integralismo Lusitano contribuiu para a constituição de um fascismo ibérico ou modelo luso-brasileiro (Bertonha, 2011), vínculo reforçado pelo exílio de Salgado em Portugal (1939-1946) e pela reelaboração do integralismo em moldes católicos portugueses e espanhóis.

Essa inserção transnacional também assumiu uma dimensão militante na recepção das ideias do franquismo e da Falange. A Guerra Civil Espanhola ocupou um lugar central na propaganda integralista (Bertonha; Paschoaleto, 2018). Os jornais do movimento enqua-draram a guerra como uma luta nacional e religiosa contra um inimigo apátrida, associado ao comunismo internacional. Ao mesmo tempo, apresentavam o franquismo como defesa da pátria e da civilização cristã, em sintonia com a própria autodefinição integralista (Gonçalves; Pereira, 2019: 187-189). A AIB também exaltava a Falange como modelo de juventude disci-plinada e de milícia espiritual. Nesse registro, a morte de José Antonio Primo de Rivera foi incorporada à mitologia integralista como um martírio redentor (Lima Grecco; Gonçalves, 2024: 12-13).

Para além do plano discursivo e simbólico, essas afinidades também se traduziram em contatos militantes e em vínculos duradouros no plano das trajetórias individuais. Em 1936, jovens falangistas argentinos visitaram a redação de A Offensiva, episódio celebrado como expressão de afinidade política (Lima Grecco; Gonçalves, 2024: 19). Essa ligação prolon-gou-se no exílio de Plínio Salgado quando aprofundou seus vínculos com o tradicionalismo hispânico, correspondendo-se desde 1942 com Francisco Elías de Tejada e Manuel Fal Conde (Climent, 2024: 135). O chefe dos integralistas realizou três viagens à Espanha (1948, 1960-1961 e 1967), quando foi recebido por intelectuais e autoridades franquistas (Climent, 2024: 135-137). Apesar de certa “desfascistização” retórica, Salgado permaneceu vinculado a um “universo ideológico” próximo ao carlismo e ao nacional-catolicismo, integrando-se a uma constelação católica reacionária transnacional.

Conclusão

Nas últimas décadas, um giro historiográfico deslocou o eixo analítico da história nacional para dinâmicas transnacionais (Armitage, 2014), impactando profundamente os estudos sobre os fascismos. Nesse contexto, as investigações sobre movimentos ultranaciona-listas latino-americanos, incluindo o integralismo brasileiro, passaram a incorporar com maior frequência perspectivas comparativas e transnacionais, situando a AIB em constelações polí-ticas mais amplas.

Esse deslocamento epistêmico começa a revelar consequências analíticas significa-tivas: o integralismo deixa progressivamente de ser interpretado como mera réplica peri-férica ou criação autárquica, emergindo antes como expressão singular de um fascismo

transnacional. O fascismo brasileiro passa, assim, a ser compreendido no quadro de um processo mais amplo de circulação e tradução de ideias entre diversas experiências ultrana-cionalistas e autoritárias. Estudos recentes têm evidenciado a densidade ideológica do movi-mento, sua capacidade de articular dimensões universais e particulares, traduzindo repertórios autoritários globais em linguagens nacionais.

Trata-se, contudo, de um movimento ainda incipiente, marcado por lacunas rele-vantes. A historiografia privilegiou as conexões com Itália, Alemanha, Espanha e Portugal, explorando insuficientemente os vínculos interamericanos entre integralistas, nacionalistas argentinos, falangistas bolivianos, revisionistas uruguaios e nacistas chilenos. Permanece igualmente subestimado o fluxo inverso: a presença de células fascistas de latino-americanos na Europa e o impacto das elaborações ideológicas produzidas deste lado do Atlântico sobre os fascismos do Velho Continente.

Finalmente, subsiste uma agenda pouco desenvolvida em torno dos media-dores, isto é, intelectuais, clérigos, diplomatas, militares, imigrantes e editores que estruturaram redes pessoais, canais de circulação e a tradução de ideias autoritárias. Explorar essa dimensão mostra-se decisivo não apenas para completar a cartografia dos movimentos ultranacionalistas do século XX, mas também para compreender como esses projetos de regeneração política articularam imaginários nacionais e transcontinentais. Delineiam-se, assim, novos caminhos de pesquisa que demandam comparações sistemáticas e abordagens transnacionais capazes de situar o integralismo em suas múltiplas inserções, locais e globais, no interior das dinâmicas do fascismo histórico e de seus desdobramentos posteriores.

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1

Ver o relato do próprio Trindade na entrevista que concedeu a Gertz, Gonçalves e Liebel (2016: 195).

2

Ver a crítica de ) ao fascismo genérico e a alternativa de Roberts (2016), que enfatiza o “agregado” das manifestações fascistas em vez de expandir o conceito a mais casos.

3

Na mesma década, outras leituras mantiveram a ênfase classificatória, embora já inseridas num cenário de renovação historiográfica. É o caso de Freitas (1998), que interpretou o integralismo como movimento fascista de orientação contrarrevolucionária e antiliberal.

4

Opinião diferente tem Tanagino, para quem o pensamento de Reale expressava um “organicismo-estatista de tendência totalitária”, muito próximo do fascismo (Tanagino, 2019: 158).

5

Gleichschaltung foi o processo de coordenação e uniformização forçada, pelo regime nazista, das instituições e organizações sociais sob controle do partido, com supressão do pluralismo e das autonomias.

Fonte de financiamento

Este trabalho contou com financiamento da FAPESP (processos 2024/22118-8 e 2025/05525-1) e do CNPq (processo 131654/2025-0).

Declaração de Disponibilidade de Dados

Este estudo não utilizou dados passíveis de compartilhamento.

Editora responsável:

Juliana Marques.

Conflito de interesses

Nada a declarar.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Ago 2025
  • Aceito
    09 Jan 2026
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