A ATUALIDADE DE GILBERTO VELHO: PERSPECTIVAS ANTROPOLÓGICAS ENTRE HISTÓRIA E FILOSOFIA

The topicality of gilberto velho's work: anthropological perspectives between history and philosophy

La actualidad de gilberto velho: perspectivas antropológicas entre la historia y la filosofía

Isis Ribeiro Martins Caio Gonçalves Dias Sobre os autores

RESUMO

O presente artigo analisa a maneira como o pensamento de Gilberto Velho constrói uma antropologia urbana situada a partir do que o próprio autor nomeia de ecletismo. De início, procuramos mostrar os impactos dessa visão para sua antropologia urbana. Posteriormente, a partir de uma mirada propriamente antropológica, apresentamos a análise da complexidade em perspectiva histórica. Por último, procuramos uma confluência entre procedimentos de reflexão que baseiam o trabalho de Gilberto Velho e aqueles operados por filósofos que o influenciaram.

PALAVRAS-CHAVE:
Gilberto Velho; Antropologia Urbana; Antropologia e História; Antropologia e Filosofia

ABSTRACT

This article analyzes the way in which Gilberto Velho's thought builds an urban anthropology based on what the author himself calls eclecticism. At first, we tried to show the impacts of this perspective for its urban anthropology. Subsequently, from a properly anthropological point of view, we present the analysis of complexity from a historical perspective. Finally, we look for a confluence between reflection procedures that serve as basis for Gilberto Velho's work and those operated by philosophers who influenced him.

KEYWORDS:
Gilberto Velho; Urban Anthropology; Anthropology and History; Anthropology and Philosophy

RESUMEN

Este artículo analiza la forma en que el pensamiento de Gilberto Velho construye una antropología urbana a partir de lo que el propio autor denomina eclecticismo. Al principio, intentamos mostrar los impactos de esta visión para su antropología urbana. Posteriormente, desde una perspectiva propiamente antropológica, presentamos el análisis de la complejidad desde una perspectiva histórica. Finalmente, buscamos una confluencia entre los procedimientos de reflexión que fundamentan la obra de Gilberto Velho y los operados por filósofos que lo influyeron.

PALABRAS CLAVE:
Gilberto Velho; Antropología urbana; Antropología e Historia; Antropología y Filosofía

O interesse pela história nunca desapareceu. Sempre foi uma constante, um de meus grandes amores, assim como, de certa forma, a filosofia. […] Sempre achei que era impossível, que não era bom fazer antropologia das sociedades complexas fugindo, descuidando da história (Velho, 2013bVELHO, G. Um antropólogo na cidade: ensaios de antropologia urbana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013b.: 164).

INTRODUÇÃO

Abordar as contribuições da obra de Gilberto Velho para a antropologia brasileira não é um exercício difícil, tendo em vista sua evidente influência para a área e a quantidade enorme de pessoas que ele ajudou a formar. Fomos orientados pelo Gilberto no mestrado no Museu Nacional e em parte do nosso doutorado na mesma instituição. Orientação que foi abreviada por seu precoce falecimento. Em 2022, sua morte completa 10 anos, o que nos faz refletir sobre sua presença nas nossas formações e nas de tantos outros antropólogos e cientistas sociais que tiveram contato com ele direta ou indiretamente. Para nortear este texto, escolhemos um ponto que consideramos central em seu trabalho e que nos influencia: a conjugação de uma série de perspectivas analíticas, de diferentes campos disciplinares, na construção de uma espécie de ecletismo que pode ser considerado marca de sua obra.

O legado de sua trajetória, tanto intelectual quanto institucional, é notório. A dificuldade reside, portanto, em encontrar uma abordagem que possa contribuir de alguma forma ao que já foi escrito sobre ele. Nosso ponto de partida será a trilha que o próprio Gilberto Velho (2011)VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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nos oferece em um dos seus últimos textos, “Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento”, artigo publicado na Revista Mana. Ali, ele estabelece uma reflexão sobre sua carreira e sua obra como forma de indicar o que considerava essencial para esse campo chamado de antropologia urbana, tanto no que diz respeito àquilo que contribuiu para a sua formação quanto ao que seria fundamental para as pesquisas futuras nesse campo. Não nos parece, assim, haver melhor começo para elaborar sobre a atualidade de Gilberto Velho do que considerar aquilo que ele mesmo indicou como possibilidades de um projeto acadêmico e intelectual. O primeiro ponto do argumento que tentaremos estabelecer é, portanto, o tema da interdisciplinaridade como elemento central da antropologia urbana e seus horizontes.

Essa postura intelectual interdisciplinar e “eclética”, como Gilberto define no referido artigo, abre um imenso rol de possibilidades sobre os desdobramentos da sua antropologia na atualidade1 1 Ao adotarmos essa definição colocada pelo próprio Gilberto Velho, não estamos nos furtando à percepção de que o autor foi fundamental para o estabelecimento de uma série de balizas disciplinares que ajudaram a institucionalizar o ensino e a pesquisa da antropologia brasileira, em especial em nível pós-graduado. Velho contribuiu para a construção da antropologia urbana em língua portuguesa, com notável influência em Portugal. Ele atuou como mediador entre as instituições acadêmicas brasileiras e portuguesas (2015). Reconhecemos aqui seu papel como aglutinador de pesquisas antropológicas nos diversos campos no Brasil e no exterior, mas, ao mesmo tempo, pretendemos enfatizar seu papel como intelectual que trouxe uma série de novas reflexões para o campo antropológico por meio de uma formulação interdisciplinar. . Seria possível seguir diversas trilhas: arte, história, psicologia, política, religião etc. Esse ecletismo, que Velho julgava ser “positivo” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 174)2 2 Sobre este ponto, Velho destaca: “Aí voltamos ao que denominei de ecletismo que julgo positivo” (Velho, 2011: 174). , tem interesses claros e envolve uma perspectiva para antropologia que pode ser diretamente situada, ponto inicial que este artigo se dedica a explorar. Ao mencionar sua trajetória intelectual, Velho enfatiza: “Hoje, vejo-me como um intelectual eclético, espero que no melhor sentido. Por uma série de circunstâncias e, até certo ponto, por projeto, desenvolvi um perfil em que o interacionismo e a fenomenologia são muito evidentes” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 172).

A segunda parte do nosso argumento, em continuidade, terá por horizonte o mapeamento de alguns pontos desse ecletismo, tendo como foco a maneira como Gilberto Velho emprega a noção de complexidade para compreender a formação de um olhar para história de modo a construir a antropologia que o interessava. A escolha dessa abordagem não é casual; surgiu do curso que fizemos com o Gilberto Velho sobre antropologia e história em 2010, no qual fomos convidados para atuar como auxiliares. Tínhamos acabado de defender nossas dissertações e o professor Gilberto afirmou que seria um bom momento para treinarmos o ofício da docência. O programa da disciplina refletia sobre as raízes do desenvolvimento da sociedade moderno-contemporânea desde a Antiguidade. Nessa disciplina lemos de Cícero a Montaigne, passando pelos helenistas franceses, historiadores e antropólogos contemporâneos, e vimos como Velho dialogava com diferentes domínios. Uma análise dessa disciplina ocupará, assim, a segunda parte deste artigo.

Posteriormente, dando um corpo interpretativo para esse argumento, abordaremos especificamente um tipo de relação entre antropologia e filosofia suscitada pelo pensamento de Gilberto Velho. Para isso, buscaremos estabelecer alguns fios que pudemos observar sobre a relação da obra de Velho com as filosofias de Montaigne e com o existencialismo de Sartre. Velho não chegou a desenvolver, de modo sistemático, as correlações entre a antropologia que propunha e tais ideias filosóficas. Procuraremos, assim, iniciar algumas reflexões que permitam estabelecer certas aproximações.

ANTROPOLOGIA E ECLETISMO

Ao procurar descrever o que seria antropologia urbana, Gilberto Velho escreveu o seguinte: “É preciso deixar claro que não tenho a intenção de definir, de modo acabado ou restritivo, essa temática que se caracteriza por sua amplitude e heterogeneidade” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 161). Tal amplitude e tal heterogeneidade se relacionam com a quantidade de questões e temas que esse campo pode abarcar e com a conjugação criativa de influências intelectuais muito díspares na sua formação.

Como precursor de uma tradição intelectual, Velho tinha como referência para a constituição de um campo sua própria trajetória intelectual e acadêmica — que não tomamos de modo propriamente paradigmática para o nosso argumento, mas como um exercício singular de elaborações sobre o mundo e proposições que o pudessem imaginar de outro modo. Temos um mosaico intelectual que conjuga, articula e estabelece diálogos entre o marxismo e a fenomenologia, entre o interacionismo, a antropologia social britânica e a antropologia cultural norte-americana, entre o pensamento social brasileiro e a historiografia francesa, e outros muitos arranjos. Velho ressalta que “o fato de transitar entre diferentes correntes teóricas e interpretativas pode ajudar não só os antropólogos, mas os cientistas sociais em geral para o desenvolvimento de suas ideias e formulações” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 174).

Sua primeira influência intelectual foi seu pai, oficial superior do Exército, professor e tradutor, como ele conta em entrevista concedida ao projeto Memória das Ciências Sociais no Brasil, da Fundação Getúlio Vargas (Entrevista com Gilberto Velho, 2009ENTREVISTA COM GILBERTO VELHO. 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7rtlGIL67tw. Acesso em: 17 out. 2019.
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). Seu pai tinha uma extensa biblioteca, na qual constavam, por exemplo, as primeiras edições de Casa-grande e senzala. Tendo sido influenciado por Marx na juventude, passou a incorporar reflexões de autores da Escola de Chicago, cujo contato aprofundou no período em que esteve no Departamento de Antropologia da Universidade do Texas, em Austin (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 161).

Nesse período, Velho teve o primeiro contato com a obra do sociólogo Howard S. Becker, que, posteriormente, tornou-se um amigo e um dos seus principais interlocutores. As reflexões de Becker foram referências fundamentais para sua obra, como a ideia do desvio como ação coletiva3 3 No prefácio à quinta edição de Desvio e divergência: uma crítica da patologia social, Velho (2003: 3) ressaltou: “A originalidade da produção brasileira parece-me que se explica, basicamente, pela junção de uma teoria interacionista, mais característica de uma tradição sociológica que vem de Simmel a Becker e Goffman, como uma teoria antropológica da cultura, onde autores como Mauss, Bateson, Geertz, Sahlins, Dumont, são alguns dos expoentes. Em outros termos, as pesquisas, mesmo quando dirigidas a objetos aparentemente muito particulares e específicos, mantêm-se voltadas para os processos sociais mais amplos”. . Becker (2008)BECKER, H. S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008., por outro lado, destacou a contribuição de Velho ao trazer a abordagem sobre o processo de acusação para o estudo do comportamento desviante, inserindo “a necessidade de alguém acusar alguém de algo” (Becker, 2013BECKER, H. S. Book Review. Vibrant, v. 10, n. 1, p. 581-584, 2013.: 583, tradução nossa). Nesses diálogos com Becker, Velho ressaltou também como os debates da sociologia e antropologia da arte foram estímulos importantes para os seus trabalhos:

Fui reencontrar, em outras bases, diálogo com essa área através, em grande parte, dos trabalhos de Howard S. Becker, principalmente o seu livro Art worlds (1982). Foi uma das melhores maneiras que encontrei de integrar as vertentes de uma história da arte com a análise sociológica de sua construção. Era mais uma oportunidade de estabelecer pontes entre diferentes tradições, fazendo o meu coquetel particular. Toda essa amplitude e heterogeneidade caracterizaram essa linha de trabalho que ficou mais identificada com o que se chama de Antropologia urbana (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 168).

É importante notar que Velho vai articulando outras correntes de pensamento em seus trabalhos, sem que isso signifique um abandono ou uma ruptura total com suas influências anteriores. Em consonância com esse ecletismo, o contato com o interacionismo e com a Escola de Chicago foi travado por Gilberto Velho em constante diálogo com Georg Simmel. Sobre isso, ele escreveu:

Um movimento intelectual crucial foi identificar e refletir, de modo mais sistemático, sobre as relações entre estes autores [da Escola de Chicago] e a obra do pensador alemão Georg Simmel, tarefa que até hoje me interessa. A cidade era, simultaneamente, foco e pretexto para o desenvolvimento dessa perspectiva tão fértil e estimulante (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 163-164).

Ao retornar dos Estados Unidos, Velho defendeu, em 1975, a sua tese de doutorado, intitulada “Nobres e anjos: um estudo de tóxicos e hierarquia”, na Universidade de São Paulo, sob orientação de Ruth Cardoso. Ao comentar sobre a tese, ele relatou os autores que foram importantes interlocutores nesse processo, além de Simmel e Max Weber, que “já eram referências centrais”. Velho destacou:

Defendi a minha tese de doutorado em 1975 na USP, sob a orientação de Ruth Cardoso, já numa fase em que estabelecia pontes entre o marxismo, que foi importante nas primeiras fases de minha formação, com o interacionismo e autores cuja classificação não é nada óbvia, por exemplo, Karl Mannheim, Walter Benjamin, Pierre Bourdieu, Lionel Triling e C. Wright Mills. Tanto Simmel como Max Weber […] já eram referências centrais (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 164).

Além do estabelecimento de “pontes” entre autores de escolas muito distintas, Gilberto Velho sempre articulou em seu trabalho referências de outras disciplinas, como a literatura, a história e a filosofia. Em seu artigo de 2011, Velho descreveu como tais referências foram importantes para “despertar sensibilidades e levantar pistas sobre subjetividade, trajetórias e redes sociais” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 166) e destacou a importância de autores que vão de Marcel Proust a Machado de Assis:

A literatura, especificamente, fosse a nacional ou a internacional, muito me ajudou e a diversos alunos meus (Velho 1988). No meu caso particular, as obras de Marcel Proust e Thomas Mann tiveram um papel crucial para despertar sensibilidades e levantar pistas sobre subjetividade, trajetórias e redes sociais. Em termos brasileiros, Machado de Assis também desempenhou um papel importante, sobretudo os seus Memórias póstumas de Brás Cubas e Memorial de Ayres. O diálogo com a História sempre existiu, pois desde a adolescência interessava-me por uma aproximação e de fato me acheguei, fosse através de historiadores ou de romances históricos. De Alexandre Dumas e Walter Scott a Georges Duby e Jacques Le Goff, entusiasmei-me, fui desenvolvendo receptividade e atenção para com os fenômenos históricos, fortemente estimulados pelo marxismo, como através do 18 Brumário de Luís Bonaparte (Marx 1963 [1869]). Lukács, Hauser e Lucien Goldmann foram leituras preciosas. Mais adiante Panovski, Bakhtin, Ginzburg e Norbert Elias fortaleceram os laços com uma história cultural de alto interesse antropológico. Inevitavelmente, entramos também na importância do pensamento filosófico (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 166).

Esse amálgama de referências em sua formação possibilitou a constituição de uma epistemologia capaz de observar a complexidade característica das sociedades moderno-contemporâneas, especificamente de sociedades profundamente contraditórias como a brasileira. Trata-se de uma antropologia cuja heterodoxia é afetada pela complexidade do real e a ele procura corresponder com uma abordagem suficientemente compreensiva. Velho elegeu, dessa forma, a cidade do Rio de Janeiro (RJ) como o local preferencial de sua pesquisa, sendo esta marcada pela fragmentação, pelas contradições, e uma cidade que não se dá a ver por domesticações analíticas simplificadoras; uma “cidade-laboratório”, como ele mesmo definia (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 176).

Essa forma de conhecer, que foi se consolidando em torno daquilo que se chamou de antropologia urbana, afasta o olhar das formas narcísicas e colonialistas da antropologia. A observação do familiar é uma postura que faz com que os padrões sociais e de pensamento ocidentais sejam o próprio objeto de investigação, não o parâmetro para a definição de alteridades4 4 Referimo-nos, aqui, ao texto “Observando o familiar” (Velho, 2008), amplamente conhecido no campo antropológico, sendo utilizado em numerosos cursos de introdução à disciplina. Nele, nosso autor argumenta sobre a possibilidade de suspendermos percepções entranhadas no senso comum que minoram as possibilidades de compreensão das expressões culturais colocadas no mundo do próprio observador. Nesse artigo, Velho destaca que “o que sempre vemos e encontramos pode ser familiar mas não é necessariamente conhecido, e o que não vemos e encontramos pode ser exótico mas, até certo ponto, conhecido. No entanto, estamos sempre pressupondo familiaridades e exotismos como fontes de conhecimento ou desconhecimento, respectivamente” (Velho, 2008: 126). . Sobre isso, Gilberto Velho escreveu:

Conhecer exigiria de nós um esforço de aproximação e distanciamento que poderia fornecer indicações para uma compreensão mais complexa dos fenômenos em que estávamos diretamente envolvidos, através de experiência, emoções, sentimentos e formas de classificação internalizadas. Isto era visto como um grande desafio, mas enfrentá-lo era essencial para que pudéssemos estabelecer pontes entre a tradição antropológica e, em geral, a produção de conhecimento sobre a nossa sociedade. Nesse sentido, a aproximação e o diálogo com outras disciplinas, como a psicanálise e a história da cultura, assim como as artes em geral, foi sempre altamente profícuo (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 166).

Essa perspectiva abriu caminhos para que abordagens de grande amplitude no que se refere ao seu escopo analítico fossem desenvolvidas. Gilberto Velho (1985)VELHO, G. A busca de coerência: coexistência e contradições entre códigos em camadas médias urbanas. In: FIGUEIRA, S. A. (org.). Cultura da psicanálise no Brasil: psicanálise e psicologia na sociedade contemporânea. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 169-177. e Luiz Fernando Dias Duarte e Carvalho (2005)DUARTE, L. F. D.; CARVALHO, E. N. de. Religião e psicanálise no Brasil contemporâneo: novas e velhas Weltanschauungen. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 48, n. 2, p. 473-500, jul./dez. 2005. https://doi.org/10.1590/S0034-77012005000200002
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analisaram, por exemplo, como a psicologização é um aspecto fundamental da experiência do indivíduo no Ocidente. É nesse cenário que Duarte e Carvalho (2005)DUARTE, L. F. D.; CARVALHO, E. N. de. Religião e psicanálise no Brasil contemporâneo: novas e velhas Weltanschauungen. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 48, n. 2, p. 473-500, jul./dez. 2005. https://doi.org/10.1590/S0034-77012005000200002
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exploram as fronteiras e interseções entre a religião e o campo psi como características de uma cosmologia do Ocidente que delineiam traços fundamentais para a compreensão do Brasil contemporâneo5 5 Ver também Duarte (1995, 1998, 2004). .

Sem ignorar as diferenças e os limites das possibilidades de articulação de diferentes matrizes de pensamento, Gilberto Velho ajudou a construir um campo aberto o suficiente para abarcar uma imensa variedade de temas de investigação. Ele sempre deixou claro que o trabalho de orientação era parte constitutiva de seu projeto intelectual6 6 Em composição com atividades de ensino, pesquisa, publicações, palestras, cursos ofertados em outras instituições, entre outros, temos uma mirada para atividade antropológica que abarca uma perspectiva sobre a construção de conhecimento que é ela própria aberta à multiplicidade. . Sobre isso, ele escreveu: “Não creio que o orientador seja uma espécie de demiurgo, mas sim um interlocutor privilegiado que dialoga com autores que têm seus próprios perfis e interesses” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 168). Em um trecho da já citada entrevista concedida ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil/Fundação Getulio Vargas para o projeto Memória das Ciências Sociais no Brasil, Velho afirma:

Isso faz parte da minha formação, desde cedo, é a ideia de que é fundamental formar pessoas. Formar. O intelectual não está só num mergulho solipsista, numa aventura isolada, mas que se vê como parte de um todo, como herdeiro. Eu me vejo como um herdeiro […]. Herdeiro de várias linhagens e acho que um dos meus papéis é contribuir para a formação de novas gerações de intelectuais. Não só de antropólogos, mas de intelectuais. E estou fazendo uma distinção entre intelectuais, de diferentes tipos, diferentes estilos, mas que têm um compromisso, todos, com um certo tipo de reflexão e que podem estar envolvidos em políticas públicas, uns mais outros menos, mas que têm uma relação forte com a ideia de pesquisa básica. E nesse sentido, eu acho que a antropologia de que eu sou professor é a continuação das leituras que eu fiz de Montaigne, de Erasmo, de Cícero. Aí é como eu me coloco, modestamente, não no nível deles, mas como herdeiro deles (Entrevista com Gilberto Velho, 2009ENTREVISTA COM GILBERTO VELHO. 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7rtlGIL67tw. Acesso em: 17 out. 2019.
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).

Em outra entrevista, esta de 2012, realizada em sua sala no Museu Nacional, ao responder sobre como entendia a antropologia urbana, ele comentou que sempre procurou que seus alunos incorporassem aquilo que fosse pertinente de todos os campos da antropologia. Como exemplo cita casos de seus orientandos que estudaram família e parentesco, aos quais procurou mostrar a necessidade de que estudassem a bibliografia clássica sobre o tema, no campo da etnologia. Ele disse: “Eu acho que tem que tomar muito cuidado com esses compartimentos, com essas separações. […] Eu me beneficio não só da antropologia, mas de outras áreas do conhecimento” (Conversa com Gilberto Velho, 2012CONVERSA COM GILBERTO VELHO. 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PxkXemt8uW8. Acesso em: 17 out. 2019.
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).

Para além daquilo que ele próprio pesquisou, Velho colaborou para a constituição de um conjunto inestimável de conhecimentos para a antropologia, por meio dos trabalhos que orientou e de outros tantos que avaliou em bancas e influenciou diretamente. Entre mestrados e doutorados, Gilberto supervisionou mais de 100 trabalhos com os temas mais diversos. Ele mesmo apontou essa amplitude:

As duas primeiras dissertações que orientei foram sobre instituição psiquiátrica e movimentos sociais. Seguiram-se trabalhos de mestrado e doutorado, totalizando 90, sobre homossexualismo masculino, moradia urbana, umbanda e espiritismo, literatura através de diversos autores, menores institucionalizados, idosas e suas identidades, vários sobre família e parentesco, futebol, bairros, subúrbio e periferia, capoeira, prostituição, música popular como samba, funk, hip hop, heavy metal e forró, militares, jornalistas, escolas, teatro, movimento feminista, hábitos alimentares, cultura popular e folclore, favelas e comunidades, política, novelas, museus, ethos de elites, sociabilidade em espaços públicos, correspondência de políticos, identidades em Moçambique, diplomatas e sua formação, autores como Rui Barbosa, Mário de Andrade, Béla Bartók, João do Rio, Nelson Rodrigues, Academia de Letras, solidão, mediação, prisões, casais, adoção, separação, representações de pessoa e individualismo, terapias, modernismo, condomínios, minorias étnico-religiosas, usos da informática, cinema pornô, salões de beleza, empregadas domésticas, diversos tipos de identidades urbanas e assim por diante (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 168).

É importante citar diretamente alguns temas, pois, se podemos pensar que as pesquisas formam escolas e uma prática disciplinar, acreditamos que tal variedade mostra que ele formou diferentes perspectivas que têm em comum uma maneira complexa de olhar a realidade. A preocupação interdisciplinar é fundamental para aquilo que Gilberto Velho defendia como decisivo para os horizontes intelectuais da antropologia urbana, não como uma subárea “mas como ponto de encontro de pesquisas e análises em que o universo simbólico e de representações seja cada vez mais incorporado às pesquisas e às políticas públicas” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
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: 177).

Essa variedade temática, suportada por uma epistemologia marcada pela interdisciplinaridade e por uma postura intelectual antiortodoxa, ou eclética, fez com que Gilberto Velho fornecesse uma contribuição decisiva para a antropologia brasileira e sua atualidade. Em um momento em que precisamos tanto de chaves para a compreensão do nosso tempo e da nossa sociedade, Gilberto colaborou para a construção da antropologia urbana como um campo intelectual decisivo para a reflexão sobre as contradições e os dilemas brasileiros.

ANTROPOLOGIA E HISTÓRIA

Essa conjugação de diferentes de perspectivas que são abarcadas nos textos e na atividade de orientação de Gilberto Velho também tinha impacto nos cursos que ofereceu no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional. Suas disciplinas sempre foram muito procuradas, tanto pelos alunos do próprio PPGAS quanto por numerosos alunos externos. Nessas oportunidades, podia-se ver a antropologia proposta por Gilberto Velho a partir das leituras que produzia, de enorme criatividade e, por vezes, fora do cânone ou da fortuna crítica tradicional dos autores que mobilizava.

Como pontuamos inicialmente, um dos ensejos para escrita deste texto é a reflexão que pudemos estabelecer quando fomos alunos e auxiliares do curso Antropologia das Sociedades Complexas: Antropologia e História, ministrado no PPGAS do Museu Nacional no primeiro semestre de 2010. De saída, devemos atentar para a primeira parte do título do curso: o foco que mobilizava o olhar de Gilberto para história era a complexidade. Em boa medida, pode-se compreender, e este é o nosso argumento aqui, que a formação de uma mirada propriamente antropológica estaria situada na habilidade em tratar a complexidade de modo analítico nos diferentes cenários sociais. A análise da disciplina, assim, ajudará a mostrar o processo de criação de Velho na composição de referências que são indicadores de sua proposta para antropologia.

É nesse sentido que o primeiro bloco de leituras sugerido por Gilberto no curso pode ser pensado. Com foco em três autores, articulavam-se, de diferentes formas, composições analíticas tendo como horizonte a complexidade. Clifford Geertz (1978)GEERTZ, C. Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura. In: GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 13-41. foi mobilizado, assim, para estabelecer tanto uma noção de cultura mínima como alguns aspectos que poderiam dar substância para sua descrição. Sem tomar este último autor de modo simplista, era com Fredrik Barth (2000BARTH, F. A análise da cultura nas sociedades complexas. In: BARTH, F. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000. p. 107-139.: 107-139) que a perspectiva para cultura mobilizada por Gilberto se tornava mais bem acabada. Certamente colabora, aqui, uma conjugação de perspectivas comuns entre o nosso autor e o antropólogo norueguês — marcadas pela composição entre interacionismo e certa antropologia social britânica (Barth, 2000BARTH, F. A análise da cultura nas sociedades complexas. In: BARTH, F. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000. p. 107-139.: 25-67). De qualquer modo, o aporte metodológico de Barth é contundente ao situar o caráter complexo do mundo social como algo que lhe é constitutivo. Não se tratava, assim, nem de se construir um culturalismo simplista, nem de partir de funcionalismos ou estruturalismos, que poderiam servir como receitas prontas que transformariam o trabalho antropológico numa reafirmação de fórmulas preconcebidas.

Para além de desvendar apenas uma série de regularidades, a dimensão que interessa ao autor é a que leva em conta o caráter fortuito da vida, que pode ser antropologicamente estudado7 7 Ponto que fica claro na citação a seguir: “Metodologicamente, acredito que o elemento-chave seja o foco em causas eficientes: as capacitações e restrições culturais e de interação que afetam os atores, com consequências que podem ser vistas na padronização dos atos resultantes e em suas implicações agregadas. Desta forma, o nível micro onde a maioria de nossas observações antropológicas está localizada e o nível macro das formas institucionais e processos históricos, podem ser integrados” (Barth, 1990: 651, tradução nossa). No original: “Methodologically, I believe the key element to be the focus on efficient causes: the cultural and interaction enablements and constraints that affect actors, with consequences that can be seen in the patterning of resulting acts and their aggregate entailments. In this way, the micro-level where most of our anthropological observations are located and the macro-level of institutional forms and historical processes, can be integrated”. . É assim que as ressalvas de Barth para análise da cultura em sociedades complexas reverberam para antropologia de Gilberto Velho. Ambos, nesse sentido, advogavam por uma proposta analítica que considerasse “correntes de tradição cultural”8 8 O termo em inglês, streams of cultural tradition, é mais feliz para definir o que Barth pretende enfatizar com sua metáfora, pois está ligada à correnteza dos rios, não às correntes com elos. Esse é um ponto que Gilberto sempre enfatizava em suas aulas. Utilizava-se muitas vezes do termo em inglês, inclusive. , “cada uma delas exibindo uma agregação empírica de certos elementos e formando conjuntos de características coexistentes que tendem a persistir ao longo do tempo, ainda que nas vidas das populações locais e regionais várias dessas correntes possam misturar-se” (Barth, 2000BARTH, F. A análise da cultura nas sociedades complexas. In: BARTH, F. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000. p. 107-139.: 123).

Esses aportes teórico-metodológicos em torno das complexidades, porém, ganhariam contornos mais bem definidos com a inclusão de uma perspectiva que considerasse também os indivíduos, seus campos de escolha e suas expressões subjetivas juntamente (e a partir, e por meio) do que estaria situado no coletivo. Aqui entra o terceiro autor para formar as balizas para a compreensão da complexidade: Jacques Le Goff. Procurando formatar uma história das mentalidades, o autor francês define esse tipo de estudo como sendo promissor exatamente porque se “situa no ponto de junção do individual e do coletivo, do longo tempo e do quotidiano, do inconsciente e do intencional, do estrutural e do conjuntural, do marginal e do geral” (Le Goff, 1976LE GOFF, J. As mentalidades: uma história ambígua. In: LE GOFF, J.; NORA, P. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 68-83.: 71). Nesse sentido, uma história das mentalidades teria por base o nível do

quotidiano e do automático; é o que escapa aos sujeitos particulares da história, porque revelador do conteúdo impessoal de seu pensamento, é o que César e o último soldado de suas legiões, São Luís e o camponês de seus domínios, Cristóvão Colombo e o marinheiro de suas caravelas têm em comum (Le Goff, 1976LE GOFF, J. As mentalidades: uma história ambígua. In: LE GOFF, J.; NORA, P. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 68-83.: 71).

As mentalidades, nesse contexto, têm

sua gênese e sua difusão a partir de centros de elaboração de meios criadores e vulgarizadores, de grupos e de profissões intermediárias. […] O mundo popular elabora ou recebe seus modelos nos seus lugares próprios de modelagem das mentalidades: o moinho, a forja, a taverna. Os mass media são os veículos e as matrizes privilegiadas das mentalidades; o sermão, a imagem pintada e esculpida são, ao lado da galáxia de Gutenberg, as nebulosas onde se cristalizam mentalidades. As mentalidades mantêm com as estruturas sociais relações complexas, porém não desligadas delas (Le Goff, 1976LE GOFF, J. As mentalidades: uma história ambígua. In: LE GOFF, J.; NORA, P. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 68-83.: 77).

Esse tripé analítico em torno da complexidade conforma, portanto, a perspectiva para história que seria adotada no restante do curso. Isso não quer dizer que os autores estudados tivessem por horizonte direto as questões propostas por Velho. Mais uma vez, opera aqui o ecletismo que possibilita a procura, nos textos lidos no curso, pelas proposições e questões de interesse para uma antropologia da complexidade. Isso permitia a leitura de autores de diferentes formações — filósofos, historiadores, antropólogos — com produções contemporâneas ou pretéritas. O interesse geral do curso — que é indício da postura de Gilberto para construção de sua antropologia — seria uma mirada específica para diversos momentos da história ocidental considerando suas diferentes possibilidades de elaborações tendo a complexidade — e sua variação ao longo do tempo — como ponto de partida.

Não por acaso, a continuidade do curso é iniciada no cenário greco-romano. Se é temática ampla e diversa, Gilberto procura construir uma visão crítica desse momento da história sem orientações homogeneizantes. Louis Gernet é um dos autores lidos, o que se justifica por propor uma antropologia da religião grega que considerava sua natureza variada e complexa, sem deixar de identificar regularidades nesse conjunto. Para isso, seria necessário admitir que, entre os diferentes setores da sociedade, há certa solidariedade, conformando um sistema passível de decomposição analítica (Gernet, 1976GERNET, L. Anthropologie de la Grèce Antique. Paris: Maspero, 1976.: 9). O lugar para entendimento dessa sociedade estaria em suas representações do mundo:

O mundo é ordenado: a ideia desta ordem, deste cosmos, pode tomar um desenvolvimento particular em certas especulações, mas exprime-se espontaneamente na poesia, isto é, numa espécie de filosofia popular onde os conceitos de “direito” e “justiça” encontram uma aplicação, de fato, mais ou menos cósmica (Gernet, 1976GERNET, L. Anthropologie de la Grèce Antique. Paris: Maspero, 1976.: 10-11, tradução nossa)9 9 No original: “Le monde est ordonné: l'idée de cet ordre, de ce cosmos, pourra prendre un développement particulier dans certaine spéculation, mais elle s'exprime spontanément dans la poésie, c'est-à-dire dans une espèce de philosophie populaire où les concepts de ‘loi’ et de ‘justice’ trouvent une application, en effet, plus ou moins cosmique”. .

Um modo de conhecer certa sociedade, portanto, está nas suas representações colocadas em diversificados suportes e linguagens. Temos, assim, uma análise cultural cujas bases são antropológicas, não propriamente na formatação de sua análise em sentido etnográfico, mas na busca do que é significativo nos diversos cenários estudados a partir do que se poderia depreender das culturas em jogo, cujos indícios, marcas e fragmentos podem ser analisados.

Sem teleologismos, e com um interesse mais claramente voltado para as maneiras como se pode elaborar a construção analítica em determinado tempo histórico, o curso volta-se para textos aparentemente diversos, mas que traduziam essa preocupação analítica. Leituras d’As Bacantes, de Eurípedes, e de Sobre a amizade, de Cícero, serviriam para dar densidade de análise ao que havia sido elaborado não só com Gernet, mas também com Pierre Vernant. Essa dimensão de reconhecer e explorar analiticamente a complexidade é continuada com a leitura de Sagesses Barbares, que mostra a complexidade cultural no período helenístico, com o encontro de cinco civilizações: os gregos, os iranianos, os romanos, os judeus, os celtas (Momigliano, 1979MOMIGLIANO, A. Sagesses Barbares: Les Limites d’Hellenisation. Paris: Maspero, 1979.). A passagem ao cristianismo segue a mesma démarche refletida na leitura de Dodds (1970)DODDS, E. R. Pagan and Christian in an age of anxiety. Nova York: Norton University Press, 1970., que examina diferentes experiências comuns entre cristãos e pagãos no mundo romano entre Marco Aurélio e Constantino.

Já com a modernidade ocidental como horizonte, Gilberto propõe leituras de Panofsky (1967)PANOFSKY, E. Architecture gothique et pensée scolastique. Paris: Les Éditions de Minuit, 1967. e Dumont (1983)DUMONT, L. Essais sur l ´Individualisme: une perspective anthropologique sur l'idéologie moderne. Paris: Esprit/Seuil, 1983., mostrando, por um lado, a diversidade de pensamento e formação de algo que poderia ser analisado como habitus — como propõe Bourdieu (apud PANOFSKY, 1967PANOFSKY, E. Architecture gothique et pensée scolastique. Paris: Les Éditions de Minuit, 1967.) no seu prefácio à publicação — no período escolástico a partir da análise de sua arquitetura, e por outro, a conformação da individuação moderno-contemporânea como um fenômeno sócio-histórico singular.

Esses autores ajudam a desenhar o caminho para as leituras de Bakhtin, acionado para se pensar no modo como nas práticas discursivas diversas vozes se colocam num mesmo plano. O caráter polifônico do discurso se situa exatamente em sua dimensão histórica, pois os significados antecedem e superam os emissores e são diversas as matrizes mobilizadas na formatação de um único discurso; não há, portanto, como operar uma distinção absoluta no que diz respeito a sua origem (Bakhtin, 1971BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1971.). Para a significação, importam os contextos; tem-se, assim, que “o sentido da palavra é totalmente determinado por seu contexto. De fato, há tantas significações possíveis quantos contextos possíveis. No entanto, nem por isso a palavra deixa de ser uma” (Bakhtin, 1971BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1971.: 91). São essas as noções que possibilitaram ao autor a análise da cultura popular a partir da obra de Rabelais (Bakhtin, 1987BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.).

Pode-se pensar, em continuidade, em termos de circularidade, como fez Carlo Ginzburg (1987)GINZBURG, C. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. a partir de Bakhtin: há um intercâmbio de ideias e significados entre classes que se dá não apenas pela via das categorias do dominante impostas ao dominado. Há uma circulação mais ampla, em que o caminho inverso, a partir do subalterno, também ocorre. Nesse contexto, pode-se pensar na cultura de modo dinâmico, permitindo que um moleiro friulano tivesse acesso a textos de uma tradição de elite e os interpretasse de modo próprio. Esse procedimento, ainda, é revelador de como, por meio de algo aparentemente circunscrito — uma trajetória —, pode-se refletir sobre questões culturais mais abrangentes. Essas leituras são cotejadas, na proposta de Gilberto, com Montaigne, que será analisado no próximo segmento deste artigo.

Sombart (1966)SOMBART, W. Le Bourgeois: contribution a l’ histoire morale et intellectuelle de l'homme économique moderne. Paris: Payot, 1966., Weber (1967)WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1967. e Simmel (1971)SIMMEL, G. On individuality and social forms. Chicago: University of Chicago Press, 1971. são mobilizados, posteriormente, para ressaltar aspectos centrais das sociedades moderno-contemporâneas. No primeiro caso, as formas individuais são contrapostas aos arranjos sociais, formatando uma perspectiva analítica importante e que tem enorme impacto no trabalho de Velho. É assim que a tensão constitutiva entre individualismo quantitativo e qualitativo se oferece como perspectiva importante para investigações em sociedades complexas. Velho destacava, ainda, que, em Simmel, individualismo aparecia no plural. Nesse cenário, era enfatizada a dimensão processual das significações de práticas sociais, cuja efetivação se dava a partir da interação entre pessoas e/ou coisas. Weber e Sombart são lidos conjuntamente. O interesse de Gilberto é a maneira como se apresentam, em ambos, análises de condutas individuais que possibilitaram a construção de práticas econômicas ampliadas, possíveis somente com comprometimentos de ordem cultural. O seminal Ética protestante e espírito do capitalismo oferecia-se como oportunidade de compreender de que maneira se poderia analisar processos sócio-históricos de escala, que foram constituintes mesmo da modernidade ocidental. Nesse processo, as práticas culturais teriam enorme importância, tanto como indício sociológico para produção de análises quanto na construção das práticas individuais que foram condições de possibilidade para esse processo. Sombart, por sua vez, colaborou na consideração de fatores espirituais que afetam a vida econômica, mostrando como certo ethos judaico estaria presente também entre os puritanos. De qualquer modo, esse autor não deixa de considerar as diferenças entre grupos sociais, produzindo, por exemplo, uma distinção entre burguês e capitalista.

Caminhando para o final do curso, temos dois autores com trabalhos escritos na mesma quadra histórica, com interesses teórico-metodológicos assemelhados, mas trabalhando com cenários nacionais distintos: Nobert Elias (1990)ELIAS, N. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. e Gilberto Freyre (1933)FREYRE, G. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1933.. Do primeiro, Velho enfatizava alguns aspectos mais comezinhos do que se poderia identificar como a construção da civilização moderna. Não por acaso, a leitura indicada compreendia o volume 1 do Processo Civilizador, em que a formatação dos costumes — com seus aspectos e posturas individuais, porém coletivamente construídas — é sublinhada. A possível construção de uma civilização brasileira, marca de parte significativa do pensamento social no Brasil dos 1930, por outro lado, é a preocupação que orienta a leitura sugerida de Gilberto Freyre. Sem se desvencilhar da necessária crítica às obras do autor pernambucano, Velho conseguia extrair de seus livros o trabalho singular com fontes de diversas ordens, a competente estratégia narrativa e, especialmente no que diz respeito ao curso em questão, a formatação de trajetórias e hábitos individuais em composição com o cenário sociocultural. Velho se interessava pela forma como o cotidiano era retratado nos textos de Freyre, sem se desprender dos processos de longa duração.

A última sessão do curso contou com dois trabalhos do próprio Gilberto como leituras indicadas: “Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas” (Velho, 2013aVELHO, G. Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas. Rio de Janeiro: Expresso Zahar, 2013a.) e “Antropologia urbana: encontro de tradições e novas perspectivas” (Velho, 2009VELHO, G. Antropologia urbana: encontro de tradições e novas perspectivas. In: VELHO, G. Sociologia, problemas e práticas. Lisboa: Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), 2009. p. 11-18.)10 10 Este artigo é uma primeira versão daquele posteriormente publicado em Mana que subsidiou as observações iniciais deste texto. . Na nossa interpretação, esse retorno ao próprio trabalho é indicativo de uma tomada de posição: mostra-nos como a perspectiva colocada num curso sobre antropologia e história necessariamente pressuporia a formatação do que se compreendia por antropologia. Emergem, assim, os pontos que viemos enfatizando ao longo deste artigo: a noção de projeto como sedimentadora da proposta de que se deve levar em conta a existência de condutas articuladas dos indivíduos, mesmo que compostas a partir de campos de possibilidades mais ou menos restritivos; e a construção de uma antropologia urbana como área inter e multidisciplinar, considerando que foi “a própria complexidade da cidade moderno-contemporânea, particularmente das grandes metrópoles, que levou ao desenvolvimento dessa área de investigação” (Velho, 2009VELHO, G. Antropologia urbana: encontro de tradições e novas perspectivas. In: VELHO, G. Sociologia, problemas e práticas. Lisboa: Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), 2009. p. 11-18.: 11).

Acreditamos, assim, que é a busca pela complexidade que se afirma como base da antropologia de Gilberto Velho. Isso se coloca nas múltiplas maneiras que realizou seu trabalho. Inicialmente, apontamos para o ecletismo que balizou suas perspectivas, que, para além de seus próprios textos, pode ser visto nas diferentes orientações realizadas ao longo de sua carreira. Sua proposta de antropologia, em continuidade, pode ser vista numa mirada para história singular, com preocupações claramente voltadas para aquilo que poderia ser examinado a partir da ideia de que a complexidade se coloca em práticas individuais que são coletivamente impactadas. Cabe, agora, refletir com a antropologia de Gilberto, produzindo aproximações interpretativas que possam produzir conexões com outras perspectivas intelectuais; esse é o objetivo da próxima seção deste texto.

INSPIRAÇÕES FILOSÓFICAS

Como dissemos no início deste artigo, procuraremos enfocar as relações entre Montaigne, o existencialismo e a antropologia de Velho como aspectos importantes de seu ecletismo. Seguimos uma trilha inicial talvez ainda pouco explorada na obra de Gilberto.

Nem sempre as influências mais explícitas são aquelas mais decisivas para a vida intelectual. Algumas leituras que não citamos com frequência, mas que nos acompanham por muito tempo, podem ser aquelas que definem que nosso pensamento vá para uma direção, não por outra. Acreditamos que esse seja o caso do impacto de Montaigne para o pensamento de Gilberto Velho. Em várias oportunidades, Velho afirmou que a leitura de Montaigne o acompanhou por grande parte de sua vida. Ao que nos parece, essa recorrência resultou em um estilo intelectual que muito se aproxima da filosofia do cético francês.

Em alguma medida, a antropologia deve tributos a Montaigne por seu célebre ensaio “Dos canibais” (1972: 104). Mas no caso da antropologia urbana de Gilberto Velho, temos aproximações mais profundas. Acreditamos que o ecletismo ou a antiortodoxia de Velho guarda uma relação muito próxima com a filosofia de Montaigne, autor cuja postura filosófica de base consiste no procedimento cético da suspensão do juízo. O ponto de partida para o conhecimento seria, portanto, a suspensão de todo juízo prévio. Conhecer é observar sem ferramentas apriorísticas. Os instrumentos do pensamento são mobilizados como resposta ao caráter pouco definido da realidade, não o contrário.

O pensamento montaigneano opera por uma leitura do real como profundamente marcado pela variedade e pela dessemelhança. Quando nos referimos aqui ao real, pensamos naquilo que diz respeito à experiência humana, a única coisa passível de reflexão para ele. O pensamento precisa, portanto, corresponder ao caráter pouco estável do objeto de reflexão: “Em verdade o homem é de natureza muito pouco definida, estranhamente desigual e diverso. Dificilmente o julgaríamos de maneira decidida e uniforme” (Montaigne, 1972MONTAIGNE, M. de. Ensaios. São Paulo: Abril, 1972.: 14). Nessa passagem, Montaigne nos diz que os instrumentos para interpretar um contexto podem não servir para interpretar outros. A citação consta no primeiro capítulo dos Ensaios, cujo título é “Por diversos meios chega-se ao mesmo fim”. O argumento central é que no curso das ações humanas, não é possível identificar padrões necessários entre causas e efeitos, entre meios e fins. Esse argumento é tão decisivo para Montaigne que em outro capítulo (XXIV) dos Ensaios o reforça com o título “Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados diversos” (Montaigne, 1972MONTAIGNE, M. de. Ensaios. São Paulo: Abril, 1972.: 69).

Vejamos um trecho de outro ensaio de Montaigne, este sobre a embriaguez: “O mundo não é senão variedade e dessemelhança” (Montaigne, 1972MONTAIGNE, M. de. Ensaios. São Paulo: Abril, 1972.: 166). A variedade é, portanto, o elemento definidor da experiência humana. Cabe, assim, àquele que se ocupa da reflexão dos assuntos da vida humana colecionar o máximo de ferramentas possíveis de reflexão e mobilizá-las, combiná-las, ajustá-las para cada caso em observação. Temos aí uma aproximação muito evidente com a postura eclética de Gilberto Velho que procuramos demonstrar neste artigo.

Ao ler os Ensaios de Montaigne e a obra de Gilberto Velho, podemos perceber a semelhança entre os dois justamente pela perspectiva adotada por ambos diante da dessemelhança, da variedade. A lista de temas de pesquisa que Gilberto orientou, citada anteriormente, posta ao lado do sumário dos Ensaios, de Montaigne, revela posturas intelectuais muito próximas. Se os interesses do Velho vão do funk ao heavy metal, do subúrbio a Copacabana, dos militares aos usuários de drogas, os textos de Montaigne elegem como objeto de reflexão temas tão díspares quanto o medo e a perseverança, a ociosidade e a tristeza, a amizade e o pedantismo, os cavalos de guerra e os polegares.

É nesse ambiente intelectual montaigneano, marcado pelo ecletismo e pela diversidade, que Velho parece se mover para a formulação de uma abordagem compreensiva dos assuntos humanos e do tempo presente. Afastando-se de quaisquer determinismos, Velho suspende o juízo sobre a relação entre indivíduo e sociedade. Sua preocupação com a noção de projeto, ou seja, com o modo pelo qual o sujeito constrói o significado de sua trajetória individual, e com a questão da subjetividade tem suas raízes na leitura que fez de Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Posteriormente, Velho vai dialogar com Alfred Schütz para desenvolver a articulação entre os conceitos de projeto e campo de possibilidades. São essas noções, tão centrais em seu trabalho, que evocam essa questão filosófica da liberdade decorrente do existencialismo de Sartre.

Mas o que quero frisar, em se tratando de um depoimento pessoal, é que fiz a minha combinação entre marxismo e existencialismos. Albert Camus e Jean-Paul Sartre, com seus pontos comuns e diferenças foram leituras marcantes, cuja importância não há como diminuir. Certamente, a questão da subjetividade e a preocupação com a noção de projeto têm suas origens principais no período em que me debrucei sobre os seus textos. Quando anos mais tarde me aproximei dos escritos de Alfred Schutz, já existia um terreno favorável para receber parte de suas reflexões. As relações entre marxismo, existencialismo e fenomenologia constituíram-se nas bases da influência filosófica do meu trabalho, embora fragmentada e irregular. […] Na realidade, podemos ver como são complexas, confusas até certo ponto e eventualmente contraditórias as origens e as bases para o desenvolvimento de um modo próprio de olhar e analisar o mundo (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
https://doi.org/10.1590/S0104-9313201100...
: 166-167).

Em Sartre, sobretudo se considerarmos seus textos literários, temos como uma questão central a relação entre a agência e as determinações estruturais. Em livros como a coletânea de contos com o título de O muro (2015), Sartre constrói personagens que estão atados aos rumos da história e tentam tomar para si as rédeas de suas ações. O sentido da ação humana é um tema fundamental nessas obras. No conto que dá nome ao livro, Sartre narra as reflexões angustiadas de um militante político preso e condenado à morte. Esses pensamentos são marcados pelo contraste entre os que vivem como se não fossem morrer e aqueles cuja certeza da morte retira o sentido da vida. Destacamos um trecho:

Neste momento, tive a impressão de que teria toda a vida pela frente, e pensei: “É uma grande mentira”. Não valia nada, pois havia acabado. Perguntei-me como conseguira passear, divertir-me com mulheres; não teria movido um dedo se imaginasse que acabaria desse jeito. Tinha toda a vida diante de mim, fechada como um saco, e entretanto tudo quanto estava lá dentro continuava inacabado. Tentei, num momento, julgá-la. Quisera dizer: foi uma bela vida. Mas não se podia fazer um julgamento, pois ela era apenas um esboço; eu passara o tempo todo fazendo castelos para a eternidade, não compreendera nada. Não tinha saudades de nada; havia uma porção de coisas das quais poderia sentir saudades, do gosto da manzanilla, dos banhos que tomava no verão numa enseadinha perto de Cádis; a morte, porém, roubara o encanto de tudo (Sartre, 2015SARTRE, J.-P. O muro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.: 20).

O condenado à morte e o sobrevivente de guerra são personagens recorrentes em seus trabalhos, expressando essa contradição entre a força das estruturas sociais e a consciência, entre o indivíduo e a sociedade, entre determinismos e a liberdade.

Velho mesmo nos mostra, em entrevista concedida em 2001 para a revista Estudos Históricos, que essa ideia de que mesmo dentro de uma situação de enorme constrangimento ainda permaneça uma possibilidade de exercer determinada liberdade individual, que pode distinguir os indivíduos a partir de suas escolhas, foi fundamental para desenvolver a noção de projeto.

Essa relação entre estrutura e ação também é um tema recorrente em Albert Camus. Lembremos, por exemplo, da novela O estrangeiro (1986) e do ensaio O mito de Sísifo (2018). Em ambos os casos a condição humana é retratada ou refletida em articulação com o tema do absurdo. E o absurdo emerge, nos dois casos, da tensão entre as expectativas sociais e o sentido da ação humana.

Essa tensão está expressa na reflexão sobre o suicídio que Camus desenvolve no Mito de Sísifo. No seguinte trecho, o ato do suicídio é abordado como algo que expõe os limites entre a vida social e a consciência individual:

Sempre se tratou o suicídio apenas como um fenômeno social. Aqui, pelo contrário, trata-se, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto desses se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra. […]

Mas se é difícil fixar o instante preciso, o percurso sutil em que o espírito apostou na morte, é mais simples extrair do gesto em si as consequências que ele supõe. Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos. Mas não prossigamos nestas analogias e voltemos às palavras correntes. Trata-se apenas de confessar que isso “não vela a pena”. Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos sentidos, o primeiro dos quais é o costume. Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento (Camus, 2018CAMUS, A. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.: 18-20).

Pela combinação (é importante frisar: ele não usa síntese ou fusão) entre marxismo e existencialismo sartreano, Velho (2013a)VELHO, G. Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas. Rio de Janeiro: Expresso Zahar, 2013a. desenvolve uma antropologia na qual a relação entre indivíduo e sociedade ocorre a partir de uma indefinição de determinações. É no cotidiano, nas circunstâncias concretas, ao estilo de Montaigne, observando as interações, que Velho busca repensar as noções de sociedade, indivíduo e cultura, destacando a complexidade dessas relações. Para ele, “é o estudo do cotidiano, a preocupação com a etnografia, que vai ser uma das variáveis mais importantes para o diálogo entre antropologia e história” (Velho, 2013bVELHO, G. Um antropólogo na cidade: ensaios de antropologia urbana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013b.: 175).

CRUZANDO FRONTEIRAS E TRADIÇÕES DISCIPLINARES

Procuramos demonstrar, até aqui, a formulação de Gilberto Velho de uma antropologia complexa, construída a partir de vários matizes teóricos. A dimensão do ecletismo afirma-se como ponto basilar para essa formulação. Uma maneira de consolidar esse argumento é perscrutar o modo como Gilberto Velho lidava com a história. Nesse sentido, procuramos examinar um curso oferecido por Velho que traz proposições claras para história a partir das leituras de autores de diversas origens disciplinares.

Nesse sentido, temos um autor que formulou uma mirada para antropologia singular, afirmando-a como uma disciplina voltada para a compreensão da complexidade a partir de suas múltiplas conexões com aquilo que se coloca no cotidiano e poderia deixar-se entrever como sendo constitutivo do mundo social. As articulações aqui delineadas apontam para um posicionamento intelectual claro, fundado numa compreensão do mundo que o contabiliza considerando articulações múltiplas. Para Velho, isso foi possível a partir de uma conjugação singular entre história, filosofia e uma concepção sui generis do que seria a antropologia.

Procuramos mostrar algumas dimensões fundamentais do pensamento de Gilberto Velho. Por um lado, a força que a antropologia urbana possui como instrumento de interpretação do tempo presente, por ser um campo que se define, nas suas perspectivas, pelo ecletismo e pela interdisciplinaridade. Por outro lado, mostramos como se sedimenta uma proposta de antropologia a partir de sua mirada para história com foco para a complexidade. Por último, procuramos indicar quais os possíveis elementos centrais do seu caráter filosófico, como forma de realçar o vigor analítico da antropologia de Velho e de apontar também para uma agenda de pesquisa que sua obra pode sugerir.

Tendo em vista que atravessamos um momento no qual a ciência, a vida intelectual e o campo das humanidades no Brasil estão sob constante ataque, falar da atuação intelectual do Gilberto Velho é também, como disse Bomeny no seu texto “O ‘fazedor de redes’” (2015), resgatar a institucionalização das ciências sociais brasileiras, visto que ele sempre atuou para ampliar os espaços da “política científica”.

Cabe rememorar, assim, o que nos propõe Gilberto no importante Subjetividade e sociedade:

O caráter crítico de nosso trabalho passa, entre outras coisas, pelo risco de desagradar e provocar reações preconceituosas dos defensores de dogmas e verdade inalienáveis, como, por exemplo, a unidade da cultura nacional, sua harmonia, integração etc. (Velho, 1986VELHO, G. Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.: 52).

As reações a nossa antropologia são indicativas de sua potência, que reside na habilidade para tornar visíveis as complexidades, sem homogeneizar as diferenças em nome de perspectivas — e projetos — totalizantes.

NOTAS

  • 1
    Ao adotarmos essa definição colocada pelo próprio Gilberto Velho, não estamos nos furtando à percepção de que o autor foi fundamental para o estabelecimento de uma série de balizas disciplinares que ajudaram a institucionalizar o ensino e a pesquisa da antropologia brasileira, em especial em nível pós-graduado. Velho contribuiu para a construção da antropologia urbana em língua portuguesa, com notável influência em Portugal. Ele atuou como mediador entre as instituições acadêmicas brasileiras e portuguesas (2015). Reconhecemos aqui seu papel como aglutinador de pesquisas antropológicas nos diversos campos no Brasil e no exterior, mas, ao mesmo tempo, pretendemos enfatizar seu papel como intelectual que trouxe uma série de novas reflexões para o campo antropológico por meio de uma formulação interdisciplinar.
  • 2
    Sobre este ponto, Velho destaca: “Aí voltamos ao que denominei de ecletismo que julgo positivo” (Velho, 2011VELHO, G. Antropologia urbana: interdisciplinaridade e fronteiras do conhecimento. Mana, v. 17, n. 1, p. 161-185, 2011. https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000100007
    https://doi.org/10.1590/S0104-9313201100...
    : 174).
  • 3
    No prefácio à quinta edição de Desvio e divergência: uma crítica da patologia social, Velho (2003VELHO, G. Desvio e divergência: uma crítica da patologia social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.: 3) ressaltou: “A originalidade da produção brasileira parece-me que se explica, basicamente, pela junção de uma teoria interacionista, mais característica de uma tradição sociológica que vem de Simmel a Becker e Goffman, como uma teoria antropológica da cultura, onde autores como Mauss, Bateson, Geertz, Sahlins, Dumont, são alguns dos expoentes. Em outros termos, as pesquisas, mesmo quando dirigidas a objetos aparentemente muito particulares e específicos, mantêm-se voltadas para os processos sociais mais amplos”.
  • 4
    Referimo-nos, aqui, ao texto “Observando o familiar” (Velho, 2008VELHO, G. Observando o familiar. In: VELHO, G. Individualismo e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 121-132.), amplamente conhecido no campo antropológico, sendo utilizado em numerosos cursos de introdução à disciplina. Nele, nosso autor argumenta sobre a possibilidade de suspendermos percepções entranhadas no senso comum que minoram as possibilidades de compreensão das expressões culturais colocadas no mundo do próprio observador. Nesse artigo, Velho destaca que “o que sempre vemos e encontramos pode ser familiar mas não é necessariamente conhecido, e o que não vemos e encontramos pode ser exótico mas, até certo ponto, conhecido. No entanto, estamos sempre pressupondo familiaridades e exotismos como fontes de conhecimento ou desconhecimento, respectivamente” (Velho, 2008VELHO, G. Observando o familiar. In: VELHO, G. Individualismo e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 121-132.: 126).
  • 5
    Ver também Duarte (1995DUARTE, L. F. D. Horizontes do indivíduo e da ética no crepúsculo da família. In: RIBEIRO, I.; RIBEIRO, A. C. T. (org.). Família em processos contemporâneos: inovações culturais na sociedade brasileira. São Paulo: Loyola, 1995. p. 27-41., 1998DUARTE, L. F. D. Pessoa e dor no Ocidente (O “holismo metodológico” na antropologia da saúde e doença). Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 4, n. 9, p. 13-28, out. 1998. https://doi.org/10.1590/S0104-71831998000200002
    https://doi.org/10.1590/S0104-7183199800...
    , 2004DUARTE, L. F. D. A pulsão romântica e as ciências humanas no Ocidente. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 19, n. 55, p. 5-19, jun. 2004. https://doi.org/10.1590/S0102-69092004000200001
    https://doi.org/10.1590/S0102-6909200400...
    ).
  • 6
    Em composição com atividades de ensino, pesquisa, publicações, palestras, cursos ofertados em outras instituições, entre outros, temos uma mirada para atividade antropológica que abarca uma perspectiva sobre a construção de conhecimento que é ela própria aberta à multiplicidade.
  • 7
    Ponto que fica claro na citação a seguir: “Metodologicamente, acredito que o elemento-chave seja o foco em causas eficientes: as capacitações e restrições culturais e de interação que afetam os atores, com consequências que podem ser vistas na padronização dos atos resultantes e em suas implicações agregadas. Desta forma, o nível micro onde a maioria de nossas observações antropológicas está localizada e o nível macro das formas institucionais e processos históricos, podem ser integrados” (Barth, 1990BARTH, F. The guru and the conjurer: transactions in knowledge and the shaping of culture in Southeast Asia and Melanesia. Man, v. 25, n. 4, p. 640-653, 1990. https://doi.org/10.2307/2803658
    https://doi.org/10.2307/2803658...
    : 651, tradução nossa). No original: “Methodologically, I believe the key element to be the focus on efficient causes: the cultural and interaction enablements and constraints that affect actors, with consequences that can be seen in the patterning of resulting acts and their aggregate entailments. In this way, the micro-level where most of our anthropological observations are located and the macro-level of institutional forms and historical processes, can be integrated”.
  • 8
    O termo em inglês, streams of cultural tradition, é mais feliz para definir o que Barth pretende enfatizar com sua metáfora, pois está ligada à correnteza dos rios, não às correntes com elos. Esse é um ponto que Gilberto sempre enfatizava em suas aulas. Utilizava-se muitas vezes do termo em inglês, inclusive.
  • 9
    No original: “Le monde est ordonné: l'idée de cet ordre, de ce cosmos, pourra prendre un développement particulier dans certaine spéculation, mais elle s'exprime spontanément dans la poésie, c'est-à-dire dans une espèce de philosophie populaire où les concepts de ‘loi’ et de ‘justice’ trouvent une application, en effet, plus ou moins cosmique”.
  • 10
    Este artigo é uma primeira versão daquele posteriormente publicado em Mana que subsidiou as observações iniciais deste texto.
  • Fonte de financiamento: nenhuma.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Maio 2022
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2022

Histórico

  • Recebido
    10 Jan 2022
  • Aceito
    18 Mar 2022
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