Tratamento minimamente invasivo do adenoma hepático em situações especiais

Felipe Nasser Breno Boueri Affonso Francisco Leonardo Galastri Bruno Calazans Odisio Rodrigo Gobbo Garcia Sobre os autores

Resumos

O adenoma hepatocelular é um tumor benigno raro, que apresentou aumento do número de diagnósticos nas décadas de 1980 e 1990, o que foi atribuído à difusão dos contraceptivos hormonais orais, e à melhor disponibilização e ao avanço dos exames radiológicos. Apresentamos aqui o relato de dois pacientes com grandes adenomas hepáticos submetidos ao tratamento minimamente invasivo por meio de embolização arterial. O primeiro caso foi submetido à embolização eletiva, por apresentar múltiplos adenomas, além de hemorragia recente de um desses nódulos. O segundo, caracterizado por vítima de trauma abdominal fechado e rotura de adenoma hepático, foi realizado em caráter de urgência, tendo a paciente sinais clínicos de choque hemodinâmico secundário à hemorragia intra-abdominal. O desenvolvimento de terapias minimamente invasivas locorregionais, como a embolização arterial, trouxe um novo horizonte para pacientes com adenomas hepáticos. Na ressecção emergencial de um adenoma hepático roto, as taxas de mortalidade são de 5 a 10%, enquanto que a ressecção eletiva reduz a 1% esse desfecho. A embolização arterial dos adenomas hepáticos na vigência de hemorragia é tema de debate. Essa constatação aponta para um possível papel da embolização transarterial desses tumores rotos e não rotos, visto que tal conduta poderá limitar a indicação cirúrgica em casos selecionados, resultando na redução da morbimortalidade. O seguimento das pacientes tratadas foi realizado por meio de ressonância magnética e, após 30 dias, já havia diminuição das lesões embolizadas bem como a presença de significativo componente avascular. O controle radiológico, após 12 meses, mostrou ausência de novas lesões e diminuição daquelas embolizadas.

Adenoma de células hepáticas; Embolização terapêutica; Fígado; Relatos de casos


Hepatocellular adenoma is a rare benign tumor that was increasingly diagnosed in the 1980s and 1990s. This increase has been attributed to the widespread use of oral hormonal contraceptives and the broader availability and advances of radiological tests. We report two cases of patients with large hepatic adenomas who were subjected to minimally invasive treatment using arterial embolization. One case underwent elective embolization due to the presence of multiple adenomas and recent bleeding in one of the nodules. The second case was a victim of blunt abdominal trauma with rupture of a hepatic adenoma and clinical signs of hemodynamic shock secondary to intra-abdominal hemorrhage, which required urgent treatment. The development of minimally invasive locoregional treatments, such as arterial embolization, introduced novel approaches for the treatment of individuals with hepatic adenoma. The mortality rate of emergency resection of ruptured hepatic adenomas varies from 5 to 10%, but this rate decreases to 1% when resection is elective. Arterial embolization of hepatic adenomas in the presence of bleeding is a subject of debate. This observation suggests a role for transarterial embolization in the treatment of ruptured and non-ruptured adenomas, which might reduce the indication for surgery in selected cases and decrease morbidity and mortality. Magnetic resonance imaging showed a reduction of the embolized lesions and significant avascular component 30 days after treatment in the two cases in this report. No novel lesions were observed, and a reduction in the embolized lesions was demonstrated upon radiological assessment at a 12-month follow-up examination.

Adenoma, liver cells; Embolization, therapeutic; Liver; Case reports


RELATO DE CASO

Tratamento minimamente invasivo do adenoma hepático em situações especiais

Felipe NasserI; Breno Boueri AffonsoI; Francisco Leonardo GalastriI; Bruno Calazans OdisioII; Rodrigo Gobbo GarciaI

IHospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil

IIMD Anderson Cancer Center, Houston, Estados Unidos

Endereço para correspondência

RESUMO

O adenoma hepatocelular é um tumor benigno raro, que apresentou aumento do número de diagnósticos nas décadas de 1980 e 1990, o que foi atribuído à difusão dos contraceptivos hormonais orais, e à melhor disponibilização e ao avanço dos exames radiológicos. Apresentamos aqui o relato de dois pacientes com grandes adenomas hepáticos submetidos ao tratamento minimamente invasivo por meio de embolização arterial. O primeiro caso foi submetido à embolização eletiva, por apresentar múltiplos adenomas, além de hemorragia recente de um desses nódulos. O segundo, caracterizado por vítima de trauma abdominal fechado e rotura de adenoma hepático, foi realizado em caráter de urgência, tendo a paciente sinais clínicos de choque hemodinâmico secundário à hemorragia intra-abdominal. O desenvolvimento de terapias minimamente invasivas locorregionais, como a embolização arterial, trouxe um novo horizonte para pacientes com adenomas hepáticos. Na ressecção emergencial de um adenoma hepático roto, as taxas de mortalidade são de 5 a 10%, enquanto que a ressecção eletiva reduz a 1% esse desfecho. A embolização arterial dos adenomas hepáticos na vigência de hemorragia é tema de debate. Essa constatação aponta para um possível papel da embolização transarterial desses tumores rotos e não rotos, visto que tal conduta poderá limitar a indicação cirúrgica em casos selecionados, resultando na redução da morbimortalidade. O seguimento das pacientes tratadas foi realizado por meio de ressonância magnética e, após 30 dias, já havia diminuição das lesões embolizadas bem como a presença de significativo componente avascular. O controle radiológico, após 12 meses, mostrou ausência de novas lesões e diminuição daquelas embolizadas.

Descritores: Adenoma de células hepáticas/terapia; Embolização terapêutica; Fígado/lesões; Relatos de casos

INTRODUÇÃO

O aumento do número de diagnósticos de lesões hepáticas sólidas tem sido atribuído ao avanço e à melhor disponibilização dos exames radiológicos(1).

Entre as lesões hepáticas sólidas, o adenoma hepatocelular, um tumor benigno raro e de origem epitelial, mais frequente em mulheres na idade reprodutiva, teve um aumento de sua prevalência nas décadas de 1980 e 1990 atribuído à difusão da utilização dos contraceptivos hormonais orais(2,3). Estimativas atuais para o adenoma hepatocelular apontam para uma incidência de 1 a 3/100.000 habitantes/ano na população geral(4).

Apresentamos aqui o relato de dois casos de pacientes com grandes adenomas hepáticos submetidos ao tratamento minimamente invasivo, por meio da embolização arterial seletiva das lesões. O primeiro caso foi submetido à embolização eletiva, por apresentar múltiplos adenomas e antecedentes de hemorragia recente de um dos nódulos. O segundo se caracterizou por paciente vítima de trauma abdominal fechado e rotura de adenoma hepático previamente desconhecido.

CASO 1

Mulher de 30 anos, com antecedente de obesidade e em uso de contraceptivo hormonal oral, apresentou episódio de dor abdominal súbita em hipocôndrio direito, em janeiro de 2011, sem sinais de irritação peritoneal.

Os exames laboratoriais mostravam queda de hemoglobina e sorologia negativa para as hepatites B e C. A ressonância magnética de abdome revelou presença de múltiplas lesões nodulares sólidas hipervascularizadas, predominantemente no lobo hepático direito, além de formação densa e heterogênea no lobo caudado, com interface entre os lobos hepáticos direito e esquerdo, que media 10,1 x 6,2cm, comprimia a veia cava inferior e promovia o deslocamento das veias hepáticas média e direita, além dos ramos portais ao lobo direito, admitindo a possibilidade de hematoma intraparenquimatoso relacionado à hemorragia de adenoma hepático.

No seguimento ambulatorial, manteve-se assintomática; entretanto, a ressonância magnética de controle realizada 3 meses após o evento revelou o surgimento de múltiplos nódulos hipervascularizados esparsos por ambos os lobos hepáticos, que sugeriam tratar-se de novos adenomas. A angiografia hepática digital confirmou a presença de múltiplas lesões hipervasculares em lobos hepáticos do lado direito. Devido ao risco de hemorragia e ruptura, realizou-se a embolização arterial seletiva, com microesferas calibradas em 300 a 500 mícron, das maiores lesões do lobo hepático direito (Figura 1).


Após 30 dias da embolização, a ressonância magnética de controle mostrou diminuição das lesões embolizadas bem como a presença de significativo componente avascular nas mesmas. O controle radiológico, após12 meses, mostrou ausência de novas lesões hepáticas, além de diminuição daquelas embolizadas (Figura 2).


CASO 2

Mulher de 23 anos em uso regular de anticoncepcional hormonal oral, vítima de trauma abdominal fechado após queda de 2m de altura e choque do hipocôndrio direito em mesa, apresentou dores abdominais de forte intensidade associadas a sinais de irritação peritoneal, além de palidez cutâneo-mucosa e choque hemodinâmico.

Os exames laboratoriais mostravam queda dos níveis de hemoglobina. Realizado primeiro atendimento em sala de urgência, com expansão volêmica e analgesia apresentando controle do choque hemodinâmico. A tomografia computadorizada de abdome revelou a presença de múltiplas lesões nodulares sólidas, hipervascularizadas, com áreas hipoatenuantes liquefeitas centradas nos segmentos VI e VII. As demais lesões, pelo menos dez, localizavam-se principalmente no lobo direito, e a maior, no segmento II/III. Havia também grande quantidade de líquido livre, com área de maior acúmulo junto à borda hepática inferior e goteira parietocólica direita, estendendo-se para a pelve. A margem inferior da lesão hepática estava discretamente irregular, o que sugeria sangramento ativo para o peritônio.

A paciente foi transferida para o Setor de Radiologia Intervencionista, onde foi realizada angiografia hepática digital, que confirmou a presença de múltiplas lesões hepáticas hipervasculares, seguido da embolização arterial seletiva, com microesferas calibradas em 300 a 500 mícron das maiores lesões do lobo hepático direito (Figura 3).Observou-se cessação da hemorragia, seguida de progressiva melhora hemodinâmica. O controle radiológico, após 12 meses, mostrou diminuição das lesões embolizadas e ausência de novas lesões (Figura 4).



DISCUSSÃO

Este estudo ilustra dois casos de adenomas hepáticos tratados com técnica de embolização arterial, em duas situações clinicas distintas: na primeira, como tratamento eletivo após episódio de hemorragia espontânea autolimitada e, na segundo, em caráter emergencial, devido à instabilidade hemodinâmica de uma paciente que apresentou hemorragia em um de seus adenomas após trauma abdominal. Em ambos os casos, obteve-se sucesso com a terapia empregada. As pacientes apresentam-se sem recidiva do sangramento até a presente data. Houve também considerável redução das dimensões das lesões tratadas.

O desenvolvimento de terapias minimamente invasivas locorregionais hepáticas, como a embolização arterial e a ablação por radiofrequência, trouxeram novos horizontes no manejo dos pacientes com adenomas hepáticos não rotos(5). Pacientes que apresentam impacto na Qualidade de Vida relacionado à presença dos adenomas hepáticos, ou que possuam sinais de alarme aos exames de imagem para a malignização do mesmo, merecem ser tratados com a ressecção do tumor.

A ressecção emergencial de um adenoma hepático roto traz consigo taxas de mortalidade estimadas entre 5 a 10%, enquanto que sua ressecção eletiva reduz a taxa de mortalidade relacionada ao procedimento cirúrgico para cerca de 1%(6,7). A utilização da embolização arterial dos adenomas hepáticos, na vigência de sangramento ativo, é tema de debate recente na literatura. Essa constatação aponta para o possível papel da embolização transarterial desses tumores como elemento no manejo dos adenomas hepático, rotos ou não rotos, assim como demonstra a utilidade do seguimento conservador desses pacientes após a embolização, independentemente do tamanho inicial do adenoma, visto que tal conduta poderá limitar a indicação cirúrgica em casos selecionados, resultando na redução da morbimortalidade relacionada a esse procedimento. A excepcionalidade do caso aqui relatado, em que houve o sangramento de um tumor hepático por um trauma abdominal fechado, também demonstrou a utilidade dessa terapia em cenário clínico distinto.

O seguimento clínico desses pacientes deve ser realizado com a interrupção do uso dos contraceptivos orais, visto que a regressão de adenomas hepáticos foi descrita após a interrupção do uso de contraceptivos orais(8,9). A realização de exames de imagem contrastados, como a tomografia e a ressonância magnética, também é elemento fundamental no seguimento desses pacientes(10).

Em conclusão, a utilização da embolização transarterial dos adenomas hepáticos é terapia aceitável no manejo desses pacientes, independentemente da presença ou não hemorragia. Seu emprego promove controle hemodinâmico nos casos de sangramento, associando-se ao possível benefício em termos da redução do tamanho tumoral. Tais achados devem ser confirmados pela realização de estudos multicêntricos prospectivos.

  • Endereço para correspondência:
    Francisco Leonardo Galastri
    Avenida Albert Einstein, 627/701 - Morumbi
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  • Data de submissão: 15/5/2012

    Data de aceite: 9/10/2013

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    Endereço para correspondência: Francisco Leonardo Galastri Avenida Albert Einstein, 627/701 - Morumbi CEP: 05652-900 - São Paulo, SP, Brasil Tel.: (11) 2151-0434 E-mail: francisco.galastri@einstein.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      31 Jan 2014
    • Data do Fascículo
      Dez 2013

    Histórico

    • Recebido
      15 Maio 2012
    • Aceito
      09 Out 2013
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