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Nossas fogueiras contemporâneas: padrões normativos de gênero em Elas marchavam sob o Sol de Cristina Judar

Our contemporary bonfires: normative gender standards in Elas marchavam sob o Sol by Cristina Judar

Nuestras hogueras contemporáneas: patrones normativos de género en Elas marchavam sob o Sol de Cristina Judar

Resumo

Padrões estéticos, tabus sobre o corpo feminino, desigualdade entre homens e mulheres, sexualidade, opressões, violência e intolerância são questões presentes nas discussões recentes sobre gênero. A obra Elas marchavam sob o Sol, de Cristina Judar, de forma contestadora e muito original, traz à tona todos esses elementos. Com uma narrativa intimista e fluida, a autora por meio de duas jovens personagens — Ana e Joan — questiona padrões normativos de gênero estabelecidos em nossa cultura e interroga a sua validade e utilidade. O objetivo deste artigo é analisar alguns desses questionamentos levantados ao longo da narrativa, relacionando-os com nosso contexto social. Para que isso fosse possível, foi utilizado o conceito de gênero de Joan Scott (1995)SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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como norteador das reflexões e uma bibliografia que auxiliou no processo de análise, a qual contou com autores como Beauvoir (1970)BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro., Pesavento (2003)PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, Saer (2009)SAER, Juan José (2009). O conceito de ficção. Sopro, Desterro, p. 1-4. Disponível em: https://www.culturaebarbarie.org/sopro/n15.pdf . Acesso em: 1º dez. 2022.
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, Emidio e Gigek (2019)EMIDIO, Thassia Souza; GIGEK, Thais (2019). “Elas não querem ser mães”: algumas reflexões sobre a escolha pela não maternidade. Trivium – Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 186-197. https://doi.org/10.18379/2176-4891.2019v2p.186
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Palavras-chave:
literatura; gênero; mulheres

Abstract

Aesthetic standards, taboos about female body, inequality between men and women, sexuality, oppression, violence, and intolerance are issues present in recent discussions about gender. The book Elas marchavam sob o Sol by Cristina Judar, in a challenging and very original way brings all these elements to light. With an intimate and fluid narrative, the autor, through two young characters — Ana and Joan — questions normative gender standards established in our culture and interrogates their validity and usefulness. The objective of this article is to analyze some of these questions raised throughout the narrative, relating them to our social context. For this to be possible, Joan Scott’s concept of gender (1995) will be used as a guide for reflections and a bibliography that will help in the analysis process, which will include authors such as Beauvoir (1970)BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro., Pesavento (2003)PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, Saer (2009)SAER, Juan José (2009). O conceito de ficção. Sopro, Desterro, p. 1-4. Disponível em: https://www.culturaebarbarie.org/sopro/n15.pdf . Acesso em: 1º dez. 2022.
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, Emidio and Gigek (2019)EMIDIO, Thassia Souza; GIGEK, Thais (2019). “Elas não querem ser mães”: algumas reflexões sobre a escolha pela não maternidade. Trivium – Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 186-197. https://doi.org/10.18379/2176-4891.2019v2p.186
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Keywords:
literature; gender; women

Resumen

Las normas estéticas, los tabúes sobre el cuerpo femenino, la desigualdad entre hombres y mujeres, la sexualidad, la opresión, la violencia y la intolerancia son temas presentes en las discusiones recientes sobre género. La obra Elas marchavam sob o Sol, de Cristina Judar, de una manera argumentativa y muy original saca a la superficie todos estos elementos. Con una narrativa íntima y fluida, la autora, a través de dos jóvenes personajes — Ana y Joan — cuestiona los estándares normativos de género establecidos en nuestra cultura y interroga su validez y utilidad. El propósito de este artículo es analizar algunas de estas situaciones planteadas a lo largo de la narración, relacionándolas con nuestro contexto social. Para que esto sea posible, se utilizará como guía de reflexión el concepto de género de Joan Scott (1995)SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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y una bibliografía que ayudará en el proceso de análisis, que contará con autores como Beauvoir (1970)BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro., Pesavento (2003)PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, Saer (2009)SAER, Juan José (2009). O conceito de ficção. Sopro, Desterro, p. 1-4. Disponível em: https://www.culturaebarbarie.org/sopro/n15.pdf . Acesso em: 1º dez. 2022.
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, Emidio y Gigek (2019)EMIDIO, Thassia Souza; GIGEK, Thais (2019). “Elas não querem ser mães”: algumas reflexões sobre a escolha pela não maternidade. Trivium – Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 186-197. https://doi.org/10.18379/2176-4891.2019v2p.186
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Palabras clave:
literatura; género; mujeres

INTRODUÇÃO

Comumente concebida como o “reino do possível e do imaginável” (Bosi, 2002BOSI, Alfredo (2002). Narrativa e resistência. In: BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras. p. 118-135., p. 121), a literatura tem a liberdade para representar personagens, contextos e situações as mais diversas possíveis. Sem a necessidade de comprometer-se com a realidade ou de enunciar apenas aquilo que aconteceu, o texto literário é aparentemente uma produção sem amarras, aberta ao improvável.

Entretanto, isso de forma alguma significa que este tipo de produção é “uma reivindicação do falso” (Saer, 2009SAER, Juan José (2009). O conceito de ficção. Sopro, Desterro, p. 1-4. Disponível em: https://www.culturaebarbarie.org/sopro/n15.pdf . Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 2). Autores de textos literários, ao escreverem, não têm a preocupação de apresentar dados passíveis de verificação, sujeitos reais ou acontecimentos verídicos. Eles têm a possibilidade de criar realidades alternativas. Entretanto, apesar de não terem esse compromisso com a veracidade, escritores muitas vezes representam em sua produção aspectos de sua vivência, de seu contexto ou, ainda, elementos que são caros à sua vida pessoal. A ficção, artefato produzido por esses indivíduos, não pode ser limitada a categorias fixas e irredutíveis. Ela não é nem a representação da pura verdade nem uma simples mentira. A ficção, segundo Saer (2009SAER, Juan José (2009). O conceito de ficção. Sopro, Desterro, p. 1-4. Disponível em: https://www.culturaebarbarie.org/sopro/n15.pdf . Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 2), mescla duas características fundamentais: “o empírico e o imaginário”.

Quando utilizada como fonte de análise, essa “massa pantanosa do empírico e do imaginário” apresenta-se como um material extremamente rico. De acordo com Pesavento (2003)PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, a literatura é um sempre “um registro privilegiado de seu tempo” e, apesar de seu descompromisso com a verdade, “diz muito mais do que outra marca ou registro do passado” (Pesavento, 2003PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 40).

Ela fala do invisível, do imperceptível, do apenas entrevisto na realidade da vida, ela é capaz de ir além dos dados da realidade sensível, enunciando conceitos e valores. A Literatura é o domínio da metáfora da escrita, da forma alegórica da narrativa que diz sobre a realidade de uma outra forma, para dizer além (Pesavento, 2003PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 40).

Produção que nos faz perceber como os sujeitos representavam a si mesmos ao longo da história, a literatura permite-nos identificar características de uma época, concepções vigentes e práticas comuns a um conjunto de indivíduos. Todavia, o texto literário não nos é útil apenas para compreender tempos já muito distantes. Produções contemporâneas igualmente têm o poder de revelar as urgências e problemáticas de seu contexto.

Um exemplo claro disso é a produção de Cristina Judar1 1 Cristina Judar é escritora, jornalista e roteirista. Sua primeira obra publicada foi o HQ Lina, produzido pela editora Estação Liberdade. Em 2011, veio à luz sua segunda produção: a graphic novel Vermelho Vivo, pela Devir Brasil. Sua obra Oito do Sete (Editora Reformatório) foi finalista do Prêmio Jabuti de 2018 na categoria de melhor romance e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria melhor romance para autores acima de 40 anos. Seu segundo romance, Elas marchavam sob o Sol, foi lançado pela Dublinense em abril de 2021. , intitulada Elas marchavam sob o Sol. A obra, que foi lançada pela editora Dublinense em abril de 2021, acompanha um ano vida das jovens Ana e Joan e, já em seu título, dá pistas sobre os importantes assuntos de que trata. Pressões estéticas, tabus sobre o corpo feminino, sexualidade, opressões, violências e torturas são alguns dos temas que Judar discute em sua obra. Seu texto, em suma, evidencia os desafios vivenciados por mulheres, tanto ontem quanto hoje, e representa a marcha daquelas que lutam todos os dias por seus direitos. Em um trecho do livro, Judar, por meio da personagem Joan, descreve essa caminhada incansável das mulheres:

Então avistei mulheres, incontáveis, com tambores e trombetas, lenços e pinturas ritualísticas nos corpos, elas emitiam gritos harmônicos, seguravam pergaminhos com escritas a mim desconhecidas, carregavam crianças, lutavam por uma, por duas e por todas, amavam umas às outras, usavam vestidos ou calças largas, ocupavam as mesmas rotas invadidas pelos animais de locomoção feitos de ferro. Elas marchavam sob o sol. Naquela procissão, por aquelas que se beijaram em um estrondo, como em um motim, na brevidade dos passos de quem beija e ainda assim consegue caminhar, de quem, embora de olhos fechados, tem o senso de direção mais aguçado.

Por elas, não foram ouvidos os gritos — daqui em diante, morrerão todas —, pois sustentavam o fogo na língua, a língua na palavra, a palavra na convicção, a convicção em cada passo, um tremor em cada gesto, em um cosmo sinfônico estabelecido sobre o asfalto, a trazer mensagens de libertação aos humanos (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 38).

Nesse fragmento, a autora, por meio da personagem Joan, mostra que muitas mulheres fazem parte da luta pela igualdade e pela justiça; cada qual com seu ritmo, sua trajetória pessoal, sua cultura e suas dificuldades. O que as une é a convicção em cada ação, em cada pensamento e em cada passo de sua trajetória.

Ao longo das mais de cem páginas de narrativa, Judar dá voz a muitas dessas mulheres que, ao longo de sua trajetória, caminharam, lutaram, sofreram, mas resistiram. Mesclando a escrita ficcional e dados da realidade vivida, ela abre espaço para as mais diversas vivências e transita por múltiplas histórias. Ao mesmo tempo em que apresenta, de forma mais ampla, as descobertas juvenis de Ana e Joan, inclui em sua obra relatos de mulheres que foram torturadas na ditadura2 2 Em entrevista ao Podcast Rabiscos (2021), de Tadeu Rodrigues, Cristina Judar relatou que a escolha por incluir relatos de mulheres que sofreram com torturas na ditadura militar brasileira se deu por considerar que essa era também uma forma de representar mais uma das formas de encarceramento feminino. Os relatos que estão presentes na obra, embora não sejam verídicos, foram construídos com base em casos de torturas reais. , relembra a trágica história da travesti Dandara, que teve sua vida ceifada pela intolerância, de Luana Barbosa, vítima de violência policial, e ainda cita Marielle Franco, que por suas lutas políticas foi violentamente assassinada.

Judar traz à luz assuntos de discussão urgente para uma nação brasileira ainda marcada pelo patriarcalismo, pela misoginia e pela intolerância. E, com sua obra, demonstra também que a produção literária cumpre função essencial no processo de crítica e desenvolvimento da nossa realidade. Elas marchavam sob o sol é um livro que convida a pensar sobre assuntos atuais, que mexe com as feridas de uma sociedade caracterizada por padrões normativos e concepções conservadoras e que, sobretudo, incita a romper com concepções estagnadas e arcaicas.

Neste artigo, o objetivo é justamente perceber a potência dos questionamentos presentes nas representações propostas por Judar. Para tanto, nas análises que se seguem, servirá como conceito norteador a categoria de gênero, proposta por Joan Scott (1995)SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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. De acordo com esta autora, o gênero pode ser compreendido como “um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e [...] uma forma primária de dar significado às relações de poder” (Scott, 1995SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 86).

Para Scott (1995SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 87), gênero implica vários elementos que estão relacionados entre si. Envolve “símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas” e conceitos normativos que definem de forma inequívoca “o significado do homem e da mulher, do masculino e do feminino”. A historiadora ainda afirma que, quando se fala neste assunto, é essencial lembrar que o gênero não se constrói apenas com base nas relações de parentesco, mas em outros âmbitos, como na política e na economia. Por fim, assinala a necessidade de investigar profundamente a construção das identidades generificadas, percebendo atividades, organizações e representações sociais que exercem força nesse processo.

Nas próximas páginas, alguns trechos da obra de Judar foram selecionados e serão pensados à luz dessas proposições. Por meio deles será possível analisar algumas concepções de homem, de mulher, de beleza e sexualidade que ainda são vigentes em nosso meio.

UMA MARCHA À LUZ DO DIA: A OBRA DE CRISTINA JUDAR

Elas marchavam sob o Sol é uma obra que trata do aprisionamento feminino. Em sua produção, a escritora aponta desde as opressões mais cotidianas sofridas elas mulheres — tais como as imposições de papéis sociais e modelos estéticos — até a violência mais intensa, como a tortura do período ditatorial.

Com a história das jovens Ana e Joan, que estão para completar 18 anos, o livro busca discutir os cárceres femininos — de ontem e hoje — e a necessidade de quebrar estereótipos. Para tanto, a própria narrativa não segue as formas mais usuais e apresenta-se de maneira desconstruída e polifônica. Os capítulos são narrados por vários personagens — Ana, Joan, o feto Clarck, a avó de Joan, um padre —, o que faz com que muitas histórias sejam conhecidas e vários pontos de vista sejam expostos.

A estrutura narrativa utilizada pela autora traz a sensação de proximidade com Ana e Joan. Em vários momentos, a impressão é mesmo a de que se tem um vislumbre dos pensamentos mais íntimos das jovens. Essa estratégia, nominada por Humphrey (1976)HUMPHREY, Robert (1976). O fluxo da consciência. São Paulo/Rio de Janeiro: McGraw-Hill do Brasil. de “fluxo de consciência”, “ocupa-se em grande parte com o que está abaixo da superfície”. Em obras que seguem esse estilo de escrita, a intenção é “descrever os estados interiores dos personagens”, sendo essenciais para tanto a exposição de “sensações e lembranças, sentimentos e concepções, fantasias e imaginações — e aqueles fenômenos muito pouco filosóficos, mas consistentemente inevitáveis a que chamamos de intuições, visões e introspecções” (Humphrey, 1976HUMPHREY, Robert (1976). O fluxo da consciência. São Paulo/Rio de Janeiro: McGraw-Hill do Brasil., p. 6). A viagem pelo interior das personagens é, por vezes, tão intensa que as palavras seguem o ritmo de seus pensamentos desalinhados, fazendo com que o leitor seja obrigado acompanhar um texto pouco convencional, cheio de metáforas e sem obviedades.

No livro de Judar, esse aprofundamento sobre o interior das personagens também é possibilitado pela forma como o tempo é organizado na obra. Apesar de a história se apoiar em princípios cronológicos básicos, uma vez que os eventos se passam no período de um ano e cada capítulo corresponde a um dos meses que o compõem, não há uma linearidade na apresentação dos fatos e nem sempre as situações descritas se conectam entre si. Uma leitura apressada pode dar a impressão de confusão e de que as ideias estão pouco ordenadas. No entanto, uma análise sobre as escolhas narrativas e temporais da obra permite identificar que o que impera predominantemente em Elas marchavam sob o Sol é o que Nunes (1988NUNES, Benedito (1988). O tempo na narrativa. São Paulo: Ática., p. 19) chama de “tempo psicológico”. Subjetiva e qualitativa, essa temporalidade é marcada por “momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se”. Sem marcas temporais objetivas, nessa organização temporal há, muitas vezes, uma mescla não ordenada de recordações do passado, com projeções futuras e vivências do presente.

As personagens centrais do livro, Ana e Joan, possuem personalidades complexas e distintas entre si, o que possibilita acompanhar trajetórias femininas que trazem vivências, problemas e situações muito heterogêneas. Ana pertence ao mundo caótico das redes sociais, da rotina agitada das metrópoles e dos modelos de beleza midiáticos. Apesar da juventude, apresenta uma grande maturidade ao rejeitar tudo aquilo que lhe é imposto. “Nascida às avessas” (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 28), deseja permanecer assim e, por isso, não aceita que intervenham em seu corpo, que lhe tracem um destino ou que definam a sua sexualidade. Joan, por outro lado, habita em outra frequência. Ela vivencia a aprendizagem intergeracional, pois aprende com a sua avó rituais e saberes místicos, os quais permitem que ela tenha experiências esotéricas. Profunda e conectada com o espiritual, sofre com a ausência da avó, quando esta é perseguida e torturada por intolerância religiosa e aprende, forçosamente, a virar-se sozinha.

Apesar de extremamente diferentes, as duas jovens mulheres têm seus caminhos entrelaçados. O encontro, predito pela avó de Joan, ocorre ao final do livro, quando elas se conhecem em uma festa comemorativa dos seus 18 anos. Joan depara-se com Ana, e naquele momento ambas iniciam a dança de suas vidas, a qual, longe de ser um conto de fadas, seria tomada por desafios, principalmente em uma sociedade pouco simpática às uniões lésbicas.

Multifacetado, Elas marchavam sob o sol, mais do que a história de duas jovens que estão entrando na vida adulta, é um livro que nos faz questionar nossas certezas, os modelos que regem a nossa própria realidade.

Neste artigo, a principal intenção é analisar como os padrões normativos de gênero estão presentes na obra ficcional de Cristina Judar. Além disso, objetiva-se compreender como esses valores ainda fazem parte da sociedade atual.

SOB RÍGIDOS PADRÕES DE INTOLERÂNCIA: GÊNERO, TABUS E DESCONSTRUÇÃO EM ELAS MARCHAVAM SOB O SOL

Os padrões normativos de gênero dizem respeito a um conjunto de características que fazem com que indivíduos sejam classificados como pertencentes ao sexo feminino ou masculino. Scott (1995)SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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explica que esses conceitos normativos, em geral, estão expressos em “doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou jurídicas e tomam a forma típica de uma oposição binária fixa, que afirma de maneira categórica [...] o significado de masculino e feminino, de homem e mulher” (Scott, 1995SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 86). Essas noções dominantes, construídas histórica, social e culturalmente, são declaradas como as únicas possíveis, como se fossem produto de um consenso social. Elas estipulam as formas de comportamento, os papéis sociais e a sexualidade esperada para cada um dos sexos.

Entretanto, toda esta normatividade vem sendo, aos poucos, descontruída. Graças à luta constante de inúmeras pessoas, cada vez mais se percebe que as categorias de “homem” e “mulher” são vazias e transbordantes. Vazias porque não têm nenhum significado último, transcendente. Transbordantes, porque mesmo quando parecem estar fixadas ainda contêm dentro delas definições alternativas, negadas ou suprimidas” (Scott, 1995SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 93).

A questão dos padrões normativos de gênero está presente de forma muito intensa no livro de Cristina Judar. As personagens da obra apresentam um nível de criticidade muito grande com relação ao meio em que vivem. Interrogam as diferentes cobranças que são feitas aos homens e às mulheres, os espaços que estes ocupam, as expectativas sociais e a heteronormatividade. Esses debates são levantados especialmente por Ana, que ao longo dos meses que antecedem seus 18 anos confronta as regras e ideias que lhe foram passadas e naturalizadas por toda a vida.

O primeiro grande ponto levantado pela jovem refere-se aos padrões estéticos impostos aos corpos femininos. Em relação a este debate, um elemento interessante e que deve ser notado é que, em nenhum momento, são descritas características físicas dos personagens da narrativa. Tal atitude, longe de ser simples, traz uma série de significados. Ela simboliza que indivíduos são mais que sua imagem, e que melhor do que conhecer a cor dos cabelos, dos olhos e o formato do corpo de Ana e Joan era entender os pensamentos que habitavam suas mentes fervilhantes.

A temática dos padrões de beleza é abordada, nas primeiras páginas do livro, por meio da descrição do comercial da cinta modeladora Body Sculpture. A propaganda faz promessas incríveis às consumidoras:

Se você quer ter o corpo ideal, precisa suar a camisa. Mas como transformar isso em prazer e atrair os olhares de todos os que a rodeiam? Conheça esta maravilha: Cinta elétrica Body Sculpture da Molishop. Com movimentos ritmados, ela modela os seus quadris e afina sua cintura, deixando você com a aparência que sempre sonhou! Com apenas alguns minutos por dia, você terá um corpo lindo e saudável, no famoso formato violão, e conquistará admiradores por todos os lados! Os indesejados pneuzinhos desaparecerão e sua silhueta ficará definida. Agora o melhor: você ganha tudo isso sem precisa ir à academia!

[...] Ligue agora e peça já a sua Body Sculpture em uma promoção inédita de lançamento. Ao comprar uma unidade, você receberá outra, totalmente de graça, para presentear sua mãe, sua irmã ou uma amiga! O que está esperando? Corra, restam apenas algumas unidades! (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 24-25).

Qualquer semelhança deste anúncio com os que são veiculados nas emissoras de televisão, nas redes sociais e revistas, não é coincidência. A busca pelo chamado corpo perfeito se tornou obsessão atualmente, fazendo com que corpos reais, com marcas, histórias e sinais se tornem motivo de vergonha, frustração e marginalidade. O que hoje se “propõe são corpos idealizados, abstratos, inatingíveis e mesmo eternos — corpos que não são submetidos à dor, ao envelhecimento e muito menos à morte” (Del Priore, 2013DEL PRIORE, Mary (2013). Histórias e conversas de mulher. São Paulo: Planeta., p. 149).

A propaganda da Molishop, além de persuadir quanto à compra de um produto, revela como os discursos socialmente produzidos contribuem para reafirmar estereótipos. Ao exaltar, por exemplo, o “corpo lindo e saudável” e chamar os “pneuzinhos” de “indesejados”, a mensagem que visa transmitir é que apenas um corpo magro é bom, aceitável e admirado. Além disso, passa-se a impressão de que a corrida pelo corpo escultural é um sonho unânime entre as mulheres, e que aquelas que não o possuem são necessariamente tristes e frustradas. Por fim, o anúncio ainda condiciona a busca pela forma perfeita com a aprovação masculina, ao mencionar os olhares e admiradores que a compradora da cinta receberá ao moldar as suas curvas.

Ana, de Elas marchavam sob o Sol, não se conformava diante dessa padronização dos corpos. Ao ser presenteada por sua mãe com um conjunto de maquiagem — para ganhar um pouco de cor em seu rosto de papel — ela simplesmente deu outra finalidade aos objetos recebidos. Não via motivos em se cobrir de produtos estéticos e nem cogitava o uso de cintas que lhe apertassem o corpo. Também não compreendia por que as cobranças relacionadas à imagem diferiam para homens e mulheres.

Eu não via sentido em colorir o rosto ou limitar as minhas formas para que fossem finas e sinuosas; pretendia sim, ser um corpo em aberto, que não dá para definir onde fica o começo e onde está o término. Conversei com Oswald, observei ele pelo reflexo do espelho: meu irmão vivia sem qualquer artifício, e eu também não tinha motivos para me render a tantos enfeites e coberturas, disfarces, reduções de certas partes do meu corpo e aumento de outras. Descontínua e ilimitada, cheia de arestas e linhas vazadas, rejeitei todas estas intervenções (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 27).

Ana, em seus questionamentos, além de repudiar padrões que a pudessem limitar, também apontava outro dilema da atualidade: a dificuldade de aceitar que os corpos envelhecem e perdem o vigor da juventude. Beauvoir (1970BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro., p. 202) comenta que, “enferma, feia, velha, a mulher causa horror”. Se ela já não conserva os atrativos físicos do corpo, não é interessante. Beard (2018)BEARD, Mary (2018). Mulheres e poder: um manifesto. São Paulo: Planeta do Brasil. também destaca que a forma como a velhice é concebida para os sexos é distinta, pois enquanto o homem idoso passa a ser visto como “a voz da experiência” e é valorizado para além das suas características externas, a mulher é simplesmente classificada como alguém com “data de validade expirada” (Beard, 2018BEARD, Mary (2018). Mulheres e poder: um manifesto. São Paulo: Planeta do Brasil., p. 41). Ana dá voz a essas inquietações ao dizer:

Eu era bem mais que a soma das informações disponíveis no meu perfil, de dois peitos que se encaixam em nádegas, que, por sua vez, se encaixam em lábios que se encaixam em coxas. Todos devidamente inflados, a fim de atrair alguma importância no pódio da desvalorização oferecido a jovens como eu. Porque as velhas são inexistentes em suas murchezas, a não ser quando mantêm as proporções de certas regiões do corpo rígidas e aumentadas, algo que se compara àqueles edifícios em Dubai, grandes obras arquitetônicas construídas sobre as ondas, aos cinquenta graus à sombra. Coisa que envolve altos investimentos, os esforços de uma multidão de trabalhadores braçais e um prazo indefinido, o que, para existências, bolsos e carnes finitas, é coisa quase impossível de ser alcançada (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 34).

Além de criticar esta concepção que invisibiliza a mulher velha, Ana ainda denuncia os múltiplos artifícios utilizados para congelar a juventude, para manter todas as partes do corpo adequadas à norma vigente. Com isso, ela acaba por demonstrar que manter a beleza e o viço da mocidade, muito mais do que apenas seguir um padrão, significa também realizar um investimento monetário, sem precedentes. Isso nos leva a perceber que “o retrato da velhice feminina varia segundo diferentes camadas sociais. Quem pode pagar o home care, a acompanhante, o massagista, remédios e ter um seguro saúde eficiente, tem velhice mais cuidada. Bem diversa é a velhice da mulher dependente e sem recursos” (Del Priore, 2013DEL PRIORE, Mary (2013). Histórias e conversas de mulher. São Paulo: Planeta., p. 159).

Essa atitude questionadora dos padrões, além de ser observada em Ana, também está presente em Joan. Entretanto, a postura dessa personagem difere, pois, ao contrário de Ana, que está passando por descobertas e elaborando suas convicções, Joan já parece mais segura acerca de alguns temas. Originária de uma “tribo-família composta por mulheres em nada heroínas ou santas”, Joan conviveu desde muito cedo com sua avó, que longe de se importar com a beleza física dos corpos se dedicava antes a conexões espirituais. Aprendiz de saberes ancestrais, Joan é iniciada em ritos desde muito cedo para dar seguimento às práticas da avó. Aprende sobre ervas, poções e sobre o acesso às visões futuras. Cultua a “dama da árvore” e a “deusa não descoberta”.

Talvez por ter crescido em um ambiente predominantemente feminino, com valores distintos e mais distante das mídias sociais, a forma como ela vê a si mesma é mais segura e autônoma: “Eu havia conquistado um corpo reconhecível e venerável para mim mesma, sob a mesma lei que define as formas dos picos das rochas e das ondas replicadas na areia por quilômetros, sempre indiferentes à humanidade e aos seus desejos de produção” (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 51).

Sem pretensões de atender aos valores da sociedade, Joan avalia a si mesma apoiada em valores construídos por ela mesma e não impostos por outrem. O desejo insaciável das pessoas de modificar o seu exterior, de esconder seu verdadeiro eu e de adquirir futilmente bens materiais é visto pela personagem como reflexo de uma sociedade doente e infeliz.

Eram tristes e felizes esses seres, que precisavam esquecer sua condição original. Desejosos de ser outra coisa que não eles mesmos, na busca por um invólucro mais apropriado para seus espíritos.

Os humanos vivem a procurar corpos alheios para ocupar. Por isso a sonhada propriedade particular, roupas caras, animais potentes — o acúmulo irrestrito de bens sobre a pele fina. [...] É um homem que se esconde de um homem que se esconde de outro homem, em etapas sucessivas e simbólicas — algo que remete a matrioskas destituídas de seus propósitos originais (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 40).

O olhar perceptivo e inquiridor que Ana e Joan lançam sobre suas distintas realidades faz com que ambas, ao longo dos 12 meses do ano em se passa a narrativa, apropriem-se mais de si mesmas, de suas vontades, de suas necessidades, constituindo a cada página a sua identidade. A um passo da maioridade, os atos cotidianos que passavam imperceptíveis, ou eram naturalizados, passam a ser alvo de reflexão.

Cada vez mais ciente de seu corpo, dos padrões a ele impostos e dos tabus que o cercam, Ana, ao viajar com sua família para um fim de semana na praia, em um devaneio, pondera sobre o valor de seu “sangue menstrual”:

“O que vaza ou escorre da gente, é, da mesma maneira, avaliado por rígidos padrões de intolerância. Naquela época, tomei consciência dos meus líquidos, do vermelho que permanecia no circuito internos do meu corpo e do vermelho que se desprendia de mim” (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 40).

Comprado às pressas, no posto da rodovia, o absorvente utilizado por Ana gera uma sensação de desconforto. O incômodo, embora seja aparentemente resultante apenas da presença da estrutura de algodão presa às suas partes íntimas, possui um significado mais profundo. O que a inquieta não é apenas o absorvente, mas sim o que ele representa: a necessidade da sociedade de represar e esconder a natureza feminina, como se os fluidos menstruais liberados pelas mulheres fossem indesejados, aversivos e vergonhosos. Avessa a essa ideia, Ana recusa-se a aceitar essas concepções que depreciam o seu ser mulher: “[...] Eu não cabia em objeto algum produzido pela indústria. Minhas águas não são represáveis por algodão ou brancura. Não há o que contenha minha natureza de expansão e movimento” (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 35).

A experiência de Ana com a menstruação ilustra as dificuldades em se tratar sobre essa temática, ainda atualmente. Cada vez mais, campanhas de absorventes buscam, por meio de recursos midiáticos, naturalizar a ideia de que a mulher libera fluidos periodicamente e que isso não é necessariamente um problema ou algo do que se envergonhar. Todavia, a noção de que esse ciclo precisa ser ocultado foi construída culturalmente e está arraigada nas práticas cotidianas. Segundo Moreira (2013)MOREIRA, Virgínia Palmeira (2013). “Pronto, agora já sou moça”: valores, crenças e saberes que envolvem a menstruação. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande. Disponível em: http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/xmlui/handle/riufcg/1605. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, quando se trata do sangramento menstrual, significados contraditórios são evocados. Ao mesmo tempo que esse fluido é considerado um “sinônimo de fertilidade, saúde e poder [...], é visto como nojento por ser uma substância que carrega uma noção simbólica de um sangue morto, parado, estéril, que deve ser evacuado do corpo” (Moreira, 2013MOREIRA, Virgínia Palmeira (2013). “Pronto, agora já sou moça”: valores, crenças e saberes que envolvem a menstruação. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande. Disponível em: http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/xmlui/handle/riufcg/1605. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 84-85).

Em uma passagem de sua obra, Judar, por meio de uma reportagem de jornal intitulada “Sobre a absorção do sangue, por Lena Rievas”, mostra que, em nossa estranha sociedade, “muitas são as voltas que se dá para que o sangue seja ocultado da visão dos homens. Deste modo, evita-se que ela padeça de nojo, de cólera, ou de desgosto” (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 40). Sobre esse aspecto, Moreira (2013MOREIRA, Virgínia Palmeira (2013). “Pronto, agora já sou moça”: valores, crenças e saberes que envolvem a menstruação. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande. Disponível em: http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/xmlui/handle/riufcg/1605. Acesso em: 1º dez. 2022.
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, p. 84) aponta a necessidade de tornar a menstruação algo invisível como exigência sem sentido, uma vez que se sabe que a mulher não tem controle sobre o sangue que dela verte e sobre os momentos em que isso acontecerá.

O fato é que, seja por ideais surreais de beleza, seja por preconceitos enraizados, o corpo da mulher foi e continua sendo aprisionado por concepções, regras e imposições que tentam delimitar a sua existência. Negar-se a atender esses requisitos, muitas vezes, é visto como uma negação do que caracteriza o ser mulher. Nesse quesito, entra, por exemplo, a questão da maternidade. Ser mãe, representa, ainda hoje, uma das grandes expectativas depositadas sobre as mulheres.

Ana, em certo momento da obra, reflete sobre o seu futuro e sobre seus desejos. Ao observar a avó e sua mãe, ela se questiona quanto ao que esperava para si mesma. Quando recebe de presente um broche de coroa, herança de família, percebe que talvez não quisesse ter o mesmo caminho de suas ancestrais — o da maternidade:

Um dia, ela me chamou em seu quarto e me entregou um broche em formato de coroa. Ela havia ganhado ele há anos, da minha avó-pessoa [...]. Eu teria que seguir a ordem das coisas, respeitar as obrigações vinculadas ao amadurecimento e ter uma menina-filha que guardasse o broche da nossa tradição familiar — mas eu ainda era muito jovem e nem sabia se um dia ia gerar qualquer coisa dentro de mim, muito menos um ser que tivesse o meu corpo como cativeiro (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 58).

Ser mãe, para Ana, significava seguir a ordem natural das coisas, porém mão representava seus verdadeiros anseios. Ela não se sentia à vontade com a ideia de que futuramente geraria dentro de si outro ser humano, principalmente porque, para ela, isso representaria um dever, uma obrigação, mas não a realização de um desejo genuíno e uma escolha pessoal.

A ideia da maternidade, como algo esperado para toda moça, tem raízes antigas. Durante o século XIX, a medicina defendia que essa “era finalidade mais importante da vida de toda mulher” (Verona, 2013VERONA, Elisa Maria (2013). Da feminilidade oitocentista. São Paulo: Unesp., p. 34), e que se a jovem não tivesse filhos sua vida não estaria completa. Além disso, associava-se a maternidade a uma obrigação feminina em prol do desenvolvimento nacional, uma vez que por meio deste ato se geravam os futuros cidadãos da pátria.

Entretanto, desde o surgimento movimento feminista, a ideia da maternidade como algo imanente à mulher vem sendo questionada. Segundo Emidio e Gigek (2019EMIDIO, Thassia Souza; GIGEK, Thais (2019). “Elas não querem ser mães”: algumas reflexões sobre a escolha pela não maternidade. Trivium – Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 186-197. https://doi.org/10.18379/2176-4891.2019v2p.186
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, p. 188), os avanços feitos pelas feministas possibilitaram uma discussão mais reflexiva e menos romantizada acerca do “ser mãe”. Além disso, o acesso a métodos contraceptivos permitiu a “opção pelo controle sobre a fecundidade” e a abertura a outros desejos femininos.

Dessa forma, “cada vez mais o trabalho, os estudos e a vida social representam ideais de realização, desenvolvimento e autonomia” (Emidio e Gigek, 2019EMIDIO, Thassia Souza; GIGEK, Thais (2019). “Elas não querem ser mães”: algumas reflexões sobre a escolha pela não maternidade. Trivium – Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 186-197. https://doi.org/10.18379/2176-4891.2019v2p.186
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, p. 188). Diante desta nova realidade, muitas mulheres adiam o período de ter filhos para se concentrarem em seu desenvolvimento pessoal. Outras, ainda, desistem por completo desse papel, seja porque não sentem o desejo de ter filhos, seja ainda porque não conseguem mais engravidar em razão de questões biológicas como as dificuldades de concepção ocasionadas pela idade e menopausa.

O rompimento desse ciclo considerado natural não vem sem consequências. Tanto em outros momentos históricos quanto na atualidade, aquelas que “buscaram fugir ou rebelar-se ante as normas naturalizadas sobre seus percursos foram e continuam sendo olhadas com suspeita, caracterizadas como mulheres incompletas, tristes, solitárias e menos femininas” (Emidio e Gigek, 2019EMIDIO, Thassia Souza; GIGEK, Thais (2019). “Elas não querem ser mães”: algumas reflexões sobre a escolha pela não maternidade. Trivium – Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 186-197. https://doi.org/10.18379/2176-4891.2019v2p.186
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, p. 187).

Essa dificuldade em quebrar paradigmas também fez parte da vida de Ana no que se refere à sua sexualidade. No capítulo do mês de julho, ela faz uma série de reflexões acerca das relações amorosas heterossexuais e homossexuais. Ela questiona, por exemplo, como a mulher muitas vezes é submetida a uma série de tabus, como o da virgindade, compreendida como um objeto a ser dominado pelo homem, alvo de fetiches e subjugações. Logo percebe que este não é o caminho que deseja seguir:

Não quero ser selva desbravada ou mata intocada a servir de chão para botinas e tratores. Nem ser vista como força da natureza, a atiçar fetiches sobre o rompimento da pureza nas dependências do corpo. Já disse um guru: os santos só servem para fazer a humanidade média se sentir desprezível. As matas e as mulheres surtem este mesmo efeito nos homens, ao que parece. Por isso tão grande o interesse em nos subjugar a todo o custo (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 82).

Beauvoir (1970)BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro., ao tratar das relações entre homens e mulheres, explica que no regime patriarcal de poder o homem se tornou o senhor da mulher e, por isso, o desejo de dominá-la se expressa também no que se refere à sexualidade. A autora expõe que, neste sistema, a virgindade é superestimada. Afinal de contas, “nada se afigura mais desejável ao homem do que o que nunca pertenceu a nenhum ser humano; a conquista se apresenta, então, como um acontecimento único e absoluto” (Beauvoir, 1970BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro., p. 196).

Ana contesta essas ideias. Está em um momento de descobertas e de perceber o que deseja para si mesma. Em uma amizade com Mimi, percebe a sua sexualidade e vivencia sua primeira experiência sexual lésbica:

Minha garganta se ampliava, meus lábios se abriam na vontade de cantar alguma melodia ancestral, de memória. Eu procurava Mimi, na ânsia de não perder a direção. Eu precisava que ela espelhasse a minha fogueira: um corpo a determinar as frequências executadas em duplicidade. Entrei em tanques de água morna, voltei a emergir e afundar incontáveis vezes. Eu poderia morrer ali. Invadi pelos e pelos: o oculto foi desvendado pelas salamandras que passaram a me domesticar. Eu estava inteira, feto envolvido em placenta doce, terra em transe. Corri ao encontro dela, escorregadia, rumo ao uníssono. Mimi professava nossa liberdade em gestos certeiros. Chegamos ao topo. Um tremor fez o chão amolecer. Puxei o ar com força, meus pulmões chegaram a doer (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 84).

A experiência homoafetiva para Ana é uma surpresa, acontece de forma espontânea, no calor das emoções; porém a percepção das dificuldades existentes em relação àqueles que não se encaixam na heteronormatividade aconteceu apenas em momentos seguintes.

Ana, na ausência de uma atividade que desse fim ao seu tédio, resolve vasculhar os livros velhos que seu pai mantinha no armário. Ao folhear um volume antigo, de capa dura, encontra a foto de “um padre da igreja católica ortodoxa, de barba branca, chapéu preto e uma corrente de elos grossos, com um crucifixo. Um bocado realista, outro tanto, fantástico, seu olhar era tão rígido e insistente quanto a madeira de lei e o simbolismo da cruz” (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 98). Ao mirar a foto, ela começa a “escutar” a história do padre que, por viver em um contexto ainda mais opressor, entregou-se à fé para esconder a sua homossexualidade:

Entre o martírio de não existir, a obrigatoriedade matrimonial e a devoção a Deus, o terceiro e último caminho foi o que me pareceu menos distante daquilo que eu era. Me entreguei a doação e à benevolência na suntuosidade que guardam os rezadores. [...] Estendi a mão para os inimigos da ordem e do senso comum. Os marginalizados, os originais e pervertidos encontravam em mim apoio e certeza.

Abri as portas das minhas dependências, levei os meus pensamentos de liberdade e de rebelião a mestres nos quais confiava e a alguns superiores. Havia inocência demais em mim. Fui perseguido e capturado, até que me tornei duplamente prisioneiro (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 100).

Vítima de uma sociedade que normatiza as relações de afeto, o padre da foto causou intensa impressão em Ana. Conhecer sua história e descobrir que sua sexualidade o havia levado a uma vida de negações, invisibilidade e morte, fez com que ela sentisse o sabor da intolerância. Decidida a honrar a memória do sacerdote, Ana sai de uma atitude de passividade e assume o compromisso de lutar:

Reconheci uma boa narrativa de vida e de morte e, ao enxergar o passado, encarei a possibilidade de dar origem a uma existência respeitável.

[...] Apesar dos passos irregulares, aceitei o destino; o caminho agora era sem volta. Ao saber das dores que o mundo carrega e de todos os mundos contidos em uma única dor, não existe outra possibilidade além de seguir. Antes, eu apenas transitava em círculos (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 103).

Ao final da obra, ao se aproximar o encontro amoroso de Ana e Joan, a personagem da avó de Joan escreve uma espécie de carta à sua neta, com uma série de recomendações e conselhos. Em um dos trechos, ela cita que Joan encontraria em sua trajetória uma mulher, que caminharia ao seu lado e seria sua parceira de vida, porém alerta-se acerca dos perigos que essa relação poderia gerar:

Estejam atentas ao senso de perigo que duas mulheres despertam nos homens. É quase um acinte, uma perda de chão, saberem-se nada fundamentais, de mastros substituíveis. Persistam e não caiam em ciladas, como eu caí. Não se deixem impressionar por expressões faciais, palavras e trajes dos homens do poder, por mais duros, secos e bem cortados que sejam (Judar, 2021JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol. Porto Alegre: Dublinense., p. 144).

Portadora de uma sabedoria ancestral, a avó escancara que ainda no século XXI vivemos em uma sociedade preconceituosa e sexista. Mesmo que o país tente aparentar ser um local que aceita a diversidade, os incontáveis casos de injúria, agressões e até mesmo assassinatos de pessoas que se compõem o grupo LGBTQIA+ não deixam dúvidas de como ainda os padrões heteronormativos imperam e oprimem.

Na fala da avó está representada uma série de pessoas de gerações anteriores, que, como ela, “caíram em ciladas”, foram subjugadas por uma sociedade intolerante e não puderam viver suas histórias e amores com a liberdade a que tinham direito. O conselho da senhora é um conselho para todos os que precisam, todos os dias, enfrentar olhares, julgamentos, recriminações e ofensas — para que persistam e desconstruam os pilares da nossa sociedade opressora.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Perseguidas ontem e hoje, as mulheres continuam a queimar no fogo incessante de uma sociedade que as quer enquadrar, reprimir e encaixar em modelos. Se, nos tempos medievais e modernos, elas eram chamadas de bruxas, acusadas de “praticar feitiços e encantamentos” e lançadas nas labaredas de fogueiras para purgar os seus pecados, hoje a situação não é muito diferente.

“As nossas fogueiras contemporâneas” não assumem a forma material das que existiam em séculos anteriores, mas se personificam em cada violência, estigma e padrão utópico a que as mulheres são submetidas. O fogo atinge ainda com mais intensidade aqueles que se negam à submissão e desejam construir outra realidade, mais livre, mais real e menos opressora.

Questionar padrões nunca é um processo tranquilo. Romper com normas e regras vistas como naturais sempre gera incômodos e mexe com certezas. Aqueles que seguem rumos diferentes e que contrariam as expectativas sociais muitas vezes serão malvistos, julgados e, infelizmente, até violentados.

O livro de Cristina Judar é primoroso em debater os padrões normativos de gênero. Por meio de personagens complexas, que estão trilhando um caminho de descobertas sobre si e sobre o mundo, Judar expõe uma série de preceitos, valores, tabus e concepções que vigoram até hoje, mas que estão cada vez mais sendo questionados e substituídos por novas formas de pensar.

Ana é uma jovem mulher que, com seus 17 anos, possui uma maturidade que muitas vezes é difícil de encontrar no mundo não ficcional. Sua existência, porém, representa um alento. Talvez seu excesso de criticidade seja uma tentativa da autora de mostrar que os jovens de hoje são capazes de refletir, de questionar e de mudar o mundo em que estamos vivendo.

Ao não se mostrar submissa diante dos modelos estéticos e das regras impostas sobre o corpo feminino, Ana ensina-nos que nenhuma mulher deve ser valorizada apenas pelo seu exterior, seguir normas que a aprisionem ou que não a representem. Quando reflete sobre seu futuro, a personagem revela que, se por muito tempo o destino da mulher esteve traçado para além de sua vontade, hoje ela é dona de si mesma e pode fazer suas próprias escolhas. Por fim, quando assume sua identidade como mulher lésbica, ela quebra com a ideia de que relações afetivas precisam seguir as lógicas heterossexuais e mostra que qualquer forma de afeto e relação precisa ser respeitada.

Joan também contesta a sociedade em que vive, na medida em que não se encaixa nos estigmas atribuídos a ela. Herdeira de saberes mágicos, ela faz-nos lembrar de todas as mulheres da história, que por terem conhecimentos e/ou crenças que fugiam dos padrões religiosos vigentes tiveram suas vidas ceifadas. “Menina das árvores e das luas, dos giros e dos presságios”, Joan tem uma existência fluida, perde sua avó, mas mantém-se firme em suas convicções e suas crenças.

Elas marchavam sob o Sol não nos apresenta apenas a história de duas jovens. Não é apenas mais um livro de literatura. É um romance que traz questionamentos de uma sociedade inteira e que representa anseios de ontem e de hoje.

  • 1
    Cristina Judar é escritora, jornalista e roteirista. Sua primeira obra publicada foi o HQ Lina, produzido pela editora Estação Liberdade. Em 2011, veio à luz sua segunda produção: a graphic novel Vermelho Vivo, pela Devir Brasil. Sua obra Oito do Sete (Editora Reformatório) foi finalista do Prêmio Jabuti de 2018 na categoria de melhor romance e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria melhor romance para autores acima de 40 anos. Seu segundo romance, Elas marchavam sob o Sol, foi lançado pela Dublinense em abril de 2021.
  • 2
    Em entrevista ao Podcast Rabiscos (2021)PODCAST RABISCOS (2021). Quanto de escuridão se esconde sob o sol? Elas Marchavam Sob o Sol – com Crisina Judar. [Locucção de:] Tadeu Rodrigues. Disponível em: https://rabiscos.libsyn.com/size/5/?search=cristina±judar. Acesso em: 24 jan. 2022.
    https://rabiscos.libsyn.com/size/5/?sear...
    , de Tadeu Rodrigues, Cristina Judar relatou que a escolha por incluir relatos de mulheres que sofreram com torturas na ditadura militar brasileira se deu por considerar que essa era também uma forma de representar mais uma das formas de encarceramento feminino. Os relatos que estão presentes na obra, embora não sejam verídicos, foram construídos com base em casos de torturas reais.

Referências

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  • BEAUVOIR, Simone de (1970). O segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro.
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  • DEL PRIORE, Mary (2013). Histórias e conversas de mulher São Paulo: Planeta.
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  • HUMPHREY, Robert (1976). O fluxo da consciência São Paulo/Rio de Janeiro: McGraw-Hill do Brasil.
  • JUDAR, Cristina (2021). Elas marchavam sob o Sol Porto Alegre: Dublinense.
  • MOREIRA, Virgínia Palmeira (2013). “Pronto, agora já sou moça”: valores, crenças e saberes que envolvem a menstruação Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Centro de Humanidades, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande. Disponível em: http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/xmlui/handle/riufcg/1605 Acesso em: 1º dez. 2022.
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  • NUNES, Benedito (1988). O tempo na narrativa São Paulo: Ática.
  • PESAVENTO, Sandra Jatahy (2003). O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, v. 7, n. 14, p. 31-45. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220 Acesso em: 1º dez. 2022.
    » https://seer.ufrgs.br/index.php/asphe/article/view/30220
  • PODCAST RABISCOS (2021). Quanto de escuridão se esconde sob o sol? Elas Marchavam Sob o Sol – com Crisina Judar. [Locucção de:] Tadeu Rodrigues. Disponível em: https://rabiscos.libsyn.com/size/5/?search=cristina±judar Acesso em: 24 jan. 2022.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    01 Dez 2022
  • Aceito
    23 Out 2023
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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