Resumo:
Este artigo objetiva compreender as práticas de informação das plataformas do programa Educamídia orientadas à promoção da literacia informacional durante a pandemia. Recorre ao método netnográfico para observar as atividades agenciadas pelas plataformas. Constata que a promoção da literacia informacional no ecossistema digital do Educamídia ocorreu por meio das seguintes práticas dispersas: conscientização sobre desinformação; formação docente-pedagógica; recomendação da informação. Conclui que as práticas de literacia informacional do Educamídia contribuem para o enfrentamento da desinformação e podem ser replicadas em outras pandemias.
Palavras-chave:
covid-19; práticas informacionais; literacia informacional; Educamídia
Abstract:
This article aims to understand the information practices of the Educamídia program platforms aimed at promoting information literacy during the pandemic. It uses the netnographic method to observe the activities carried out by the platforms. It notes that the promotion of information literacy in the Educamídia digital ecosystem occurred through the following dispersed practices: awareness of misinformation; teaching-pedagogical training; information curation. It concludes that Educamídia´s information literacy practices contribute to combating misinformation and can be replicated in other pandemics.
Keywords:
covid-19; information practices; information literacy; Educamídia
1 Introdução
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a pandemia de covid-19 se desenvolveu junto a uma infodemia - um excesso de informações, nem sempre confiáveis, durante o surto da doença. Tal excesso de informações dificulta o reconhecimento de fontes fidedignas e contribui para a emergência da desinformação, considerada um problema que inclui a informação falsa disseminada intencionalmente para ludibriar as pessoas sobre as questões de saúde, a exemplo da origem da doença e de seu tratamento (OPAS, 2020).
Durante a pandemia, várias autoridades de saúde se esforçaram comunicativamente para enfrentar este problema e, assim, organizar um cenário de informação sanitário global correspondente às evidências científicas. Por outro lado, algumas autoridades direcionaram as práticas comunicativas para a defesa de seus interesses particulares e antagônicos, a exemplo da promoção institucional e da banalização da ciência (Pinto et al., 2020; Pinto et al., 2022; Tavares; Brito; Brasileiro, 2024; Marques; Alves; Brasileiro, 2024). Esse conflito de entendimentos, potencializado pela circulação de informações a reboque dos diferentes atores dispersos nas redes digitais, dificultou o desenvolvimento de uma literacia informacional baseada em evidências científicas, e produziu um cenário informacional global hiper fragmentado acerca da covid-19.
De acordo com Lloyd (2010), a literacia informacional pode ser compreendida como uma prática de informação crítica. A autora sugere que o processo de se tornar alfabetizado informacionalmente é perpassado por um entendimento prático sobre como fazer coisas com determinadas finalidades, a exemplo de buscar informações. A autora acrescenta que a literacia informacional é formada por um conjunto de atividades ligadas à informação, e organizada por meio do contexto social. No contexto da pandemia, considerando a desorganização do cenário informacional, coube às atividades dos mediadores conscientes (Gomes, 2019), a exemplo do Educamídia1, o papel de constituir a literacia informacional em meio às condições sociais e materiais existentes.
Sendo assim, para sistematizar este esforço informacional a fim de contribuir com a formação da literacia informacional durante pandemias, o presente estudo partiu da seguinte questão: como as práticas informacionais das plataformas Educamídia contribuíram para a promoção da literacia informacional durante a pandemia de covid-19? O objetivo geral deste artigo, portanto, é compreender como as práticas informacionais das plataformas Educamídia contribuíram para a formação da literacia informacional durante a pandemia de covid-19. Para tanto, foram delineados os seguintes objetivos específicos: (i) mapear os atores humanos e não humanos envolvidos nas atividades de informação vinculadas às plataformas do Educamídia; (ii) descrever as atividades de informação do Educamídia em suas plataformas digitais; (iii) e, por último, sistematizar as práticas informacionais do Educamídia orientadas à literacia informacional.
2 Práticas de literacia informacional
A ideia que fundamenta o conceito de prática, presente no conceito de práticas informacionais, é apontada por Araújo (2017, p. 220) como sendo “[...] práxis, isto é, o movimento mesmo por meio do qual os sujeitos agem no mundo e, como causa e também consequência dessa ação, constroem esse mesmo mundo”. O contexto social, portanto, seria constituído pela agência dos sujeitos, que, por sua vez, é condicionada pelo contexto. Trata-se de um processo de co-constituição, explicado por Quéré (2018) em seu modelo praxiológico da comunicação, o qual, em linhas gerais, considera que a existência de um mundo comum decorre de um processo de modelagem mútua constituído pelos agentes por meio das atividades conjugadas que realizam em suas comunidades. A prática, assim, é um termo adequado para fazer referência à atividade humana, uma vez que abarca sua organização e seu caráter organizante:
Schatzki (2005, p. 471) define prática como um conjunto organizado e amplo de articulações de ações interpostas. A definição de prática como atividades humanas organizadas (Schatzki, 1996, 2001, 2002, 2003, 2005) chama a atenção para dois termos: ‘atividade’ e ‘organizada’. ‘Atividade’ remete à noção de prática como um ‘emaranhado’, um conjunto estruturado de ações realizadas pelas pessoas ao longo do tempo e do espaço - jogar futebol, organizar, teorizar, cozinhar. Cozinhar, por exemplo, envolve elaborar o cardápio, comprar os ingredientes, prepará-los (descascando, picando, limpando, etc.), misturá-los, ‘mexer as panelas’, observar os tempos de cocção, apresentar os pratos, etc (Santos; Silveira, 2015, p. 83).
Tal definição de Theodore Schatzki é adotada por diversos estudos contemporâneos baseados em práticas, inclusive os de práticas informacionais. Segundo Lloyd (2010, p. 249), “[...] os interesses filosóficos de Schatzki (2002) residem em compreender como a vida social é constituída e transformada através da prática”. A esse respeito, Lloyd (2010, p. 249) acrescenta que “[...] ele enquadra essa compreensão por meio de uma ontologia de local, em que as práticas não são vistas como propriedade dos indivíduos, mas sim, do local social”. Isso equivale a dizer que, sob a ótica de Schatzki, a vida social existe atrelada a um contexto e, portanto, a análise social deveria partir do mesmo.
Contudo, o contexto não deve se configurar como um conceito abstrato, pois os atores humanos e não-humanos e as atividades e suas ações, inter relacionadas, seriam o próprio contexto (Schatzki, 20022, 20053apudSantos; Silveira, 2015). Rocha e Paula (2019, p. 3) corroboram com tal entendimento ao dizer que “[...] o contexto não é uma estrutura totalizante ou cenário acabado; ele é produzido pelas interações entre atores humanos e não-humanos, sendo que atores e contexto se moldam constante e mutuamente”. De modo didático, Schatzki argumenta que tais inter-relações sócio-materiais, que correspondem ao contexto, são organizadas pelos seguintes elementos: (i) entendimentos (referem- se ao saber fazer as coisas); (ii) regras (dizem respeito às instruções quanto ao que deve ser feito); (iii) e estruturas teleoafetivas (as finalidades e objetivos das práticas) (Schatzki, 20054apudSantos; Silveira, 2015).
Tal perspectiva indica que as práticas são consideradas fenômenos não individuais, pois a organização (entendimentos, regras e estruturas teleoafetivas) não pertence a um indivíduo ou mesmo grupo, mas ao contexto. Isso é importante para entender que a literacia informacional em um determinado contexto está condicionada às diferentes capacidades entrelaçadas: competências, regras, afetividade, arranjos materiais. Quanto maior essas capacidades de enfrentamento dos conflitos informacionais emergentes (e.g. desinformação) e, ao mesmo tempo, de modelagem dessas capacidades em direção à emancipação informacional, evidente é a literacia informacional.
Segundo Lloyd (2010), no século XXI, a literacia informacional pode ser entendida como uma prática informacional que pode facilitar o conhecimento das modalidades de informação de determinados ambientes e sobre como elas são construídas. Lloyd (2010) faz uma crítica às abordagens da prática recorrentes no campo da informação, quando, por vezes, reduzem as análises à descrição de habilidades ao invés de considerarem as características socioculturais que propiciam o surgimento da prática informacional (Lloyd, 2010). Na abordagem da literacia informacional, para a autora, o ideal é não apenas analisar as habilidades informacionais, mas também analisar todo o processo pelo qual a literacia é constituída, suas atividades e ações. Segundo Lloyd (2010, p.252), “[...] é por meio da noção ontológica de local e do enquadramento teórico da prática desenvolvido por Schatzki que a literacia informacional pode ser entendida como uma prática informacional crítica”.
Nesse sentido, com base nos autores supracitados, pode-se dizer que a literacia informacional deve ser compreendida como prática informacional central, que é constituída por atores humanos, não-humanos e suas inter-relações. Considerando que a prática informacional seria um conjunto de atividades informacionais organizadas com determinados fins, torna-se imprescindível o entendimento de que o sujeito faz parte desse complexo processo, que envolve tanto entidades humanas como não humanas (Melo et al., 2021). Neste estudo, portanto, a análise das práticas informacionais se dá no sentido de compreender como essas práticas se estabelecem e como elas favorecem o desenvolvimento da literacia informacional durante pandemias.
3 Educação midiática e plataformas de mídia social: o programa de educação midiática - Educamídia
O pensamento crítico se refere ao modo como as pessoas analisam, sintetizam e avaliam as informações a que têm acesso. É uma atividade reflexiva - demanda questionar o que está incluído ou excluído em determinado enquadramento midiático, por exemplo - onde as pessoas são levadas a questionarem seus “preconceitos”, “interpretações” e “conclusões” e a praticarem a criticidade (Buckingham, 2019). De acordo com essa ideia, se o objetivo da educação midiática é o pensamento crítico, é preciso considerar o modo como ensiná-lo; que “[...] implica uma relação dinâmica entre leitura (isto é, a análise textual), escrita (ou produção criativa), e análise contextual (que define leitura e escrita individual em um contexto social mais amplo)” (Buckingham, 2019, p. 69).
A educação midiática não acontece apenas no âmbito da educação formal e também pode ser empreendida nas plataformas online, assim como acontece com as plataformas de mídia social, objeto empírico deste estudo. Nesse sentido, ressalta-se a importância de se entender o aspecto em comum nos termos plataforma e mídia social aqui adotados. De acordo com D’Andréa (2020, p. 14), “[...] um aspecto que consolida e singulariza a ideia de ‘plataforma online’ é a crescente adoção de uma arquitetura computacional baseada na conectividade e no intercâmbio de dados”. Tal arquitetura, na perspectiva das práticas, equivale aos arranjos materiais digitais que condicionam as práticas.
O Educamídia é um programa criado pelo Instituto Palavra Aberta - instituição sem fins lucrativos - e apoiado pelo Google.org com o intuito de promover capacitação para que professores desenvolvam educação midiática junto aos jovens. Nesse sentido, o programa foi desenvolvido com base nas competências de saber interpretar criticamente as informações, produzir ativamente conteúdos e participar de forma responsável na sociedade. No eixo “ler”, especificamente, observa-se o letramento da informação e a análise crítica da mídia. O letramento da informação, segundo o programa, corresponde às técnicas de busca e curadoria da informação, às capacidades de utilização de termos para busca, de avaliar a qualidade da informação e de usar meios para checar as informações.
O programa conta também com um portal, onde são disponibilizados conteúdos como planos de aula e recursos para educadores, como cursos a distância, podcasts e vídeos. Todos estes conteúdos podem ser filtrados na busca a partir dos eixos Educamídia, que são: Escrever (auto expressão e fluência digital); Ler (análise crítica da mídia e letramento da informação); e Participar (cidadania digital e participação cívica). Todos estão em conformidade com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O Educamídia está presente também nas plataformas de mídia social Facebook, Instagram, YouTube e Twitter. Na página do Educamídia, na plataforma Facebook, o programa utiliza os recursos de publicação de cards, além de links direcionados aos conteúdos. A plataforma Instagram também é utilizada pelo Educamídia, com a publicação de cards e vídeos, como, por exemplo, lives. Na página do Educamídia, na plataforma YouTube, são publicados vídeos, como as lives e os encontros da formação de multiplicadores. Por fim, na página do Educamídia da plataforma Twitter são replicados os cards do programa e os conteúdos de terceiros.
4 Método
O método da presente pesquisa se configura como netnográfico. Para Kozinets (2014, p. 61), “[...] a netnografia é pesquisa observacional participante baseada em trabalho de campo online. Ela usa comunicações mediadas por computador como fonte de dados para chegar à compreensão e à representação de um fenômeno cultural”. Nessa perspectiva, o método foi conduzido em cinco etapas, de acordo com a abordagem das práticas até então apresentada.
Na primeira etapa da pesquisa netnográfica foram definidas as plataformas de mídia social a serem pesquisadas. No caso, todas as plataformas do ecossistema midiático do programa Educamídia foram elencadas, tais como Facebook, Instagram, YouTube, Twitter, além do próprio Website. Para tanto, foi escolhido um recorte temporal de cem dias subsequentes à data 11 de março de 2020, marco do reconhecimento oficial da pandemia pelas autoridades de saúde. Na segunda etapa foram identificadas e selecionadas as postagens que continham menção direta a pandemia do novo coronavírus e que possuíam a identificação da data de publicação, no caso do Website. Na terceira etapa foi realizada a observação a fim de identificar as atividades informacionais realizadas pelo programa de educação midiática, e de coletar os dados, a partir dos prints das postagens. Na quarta etapa, dedicada à análise dos dados, as atividades foram agrupadas em práticas, considerando a atuação do Educamídia nas plataformas de mídia social durante o período do recorte da pesquisa. Na quinta e última etapa, as práticas informacionais e suas respectivas atividades foram descritas e redigidas para a análise e sistematização dos resultados.
5 Resultados
O recorte temporal para análise foi o período de cem dias após o anúncio da Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhecendo a covid-19 como uma pandemia (a partir de 11 de março de 2020 até 19 de junho de 2020). Além disso, foram analisadas apenas as publicações com menção à pandemia. Assim, analisou-se todas as publicações que endereçaram a pandemia e a covid-19 como principal assunto nas plataformas digitais do Programa de Educação Midiática - Educamídia, a saber: Facebook, Instagram (IG), YouTube, Twitter e o Site. No site foram coletados os textos da seção “Acontece”, por serem as versões com datas de publicação identificadas, devido a necessidade de atender ao recorte temporal especificado para a análise. O Educamídia também possui um grupo no Facebook, onde foram coletadas apenas publicações realizadas pelas coordenadoras do programa. As atividades variam entre publicações compartilhadas de outros sites, assim como publicações produzidas pelo próprio Educamídia.
Considerando o Educamídia como um ator de informação do processo de constituição coletiva da literacia da informação sobre a covid-19, durante a emergência de saúde pública, buscou-se mapear as atividades de informação sobre a covid-19 - agenciadas pelo Educamídia -a fim de refletir sobre as práticas de informação emergentes e orientadas à promoção da literacia da informação. Considerando a literacia de informação como prática de informação integradora (Lloyd, 2010), portanto, é possível destacar algumas práticas dispersas, organizadas pelo Educamídia, orientadas à literacia informacional, quais sejam:
(i) práticas de conscientização sobre desinformação; (ii) práticas de formação docente-pedagógica; (iii) e práticas de recomendação da informação.
5.1 Práticas de conscientização sobre desinformação
Essa prática foi mapeada a partir da sistematização das atividades e dos atores humanos e não-humanos (tecnologias) envolvidos com o processo de conscientização sobre a desinformação. Nesse sentido, foram identificadas três atividades pertencentes às Práticas de Conscientização Sobre Desinformação: (1) Orientações sobre não compartilhar desinformação; (2) Orientações sobre discurso de ódio; e (3) Orientações para a valorização do jornalismo.
5.1.1 Orientações para não compartilhar desinformação
Essas atividades envolvem a publicação de estratégias de informação voltadas à orientação sobre o não compartilhamento de desinformação relacionada à pandemia de covid-19, em conjunto com atores não-humanos (tecnologias digitais) que caracterizam um arranjo material (Schatzki, 2005) de plataformas, como as plataformas Instagram, Facebook, Twitter, e o Site.
A finalidade desta atividade é a orientação ao não compartilhamento de desinformações, como, por exemplo, notícias falsas e informações tiradas de contexto sobre a pandemia, sejam estas fabricadas ou enganosas. As mídias sociais são um recurso importante para o combate à desinformação, sendo também utilizadas pela Organização Mundial da Saúde. De acordo com Pinto et al. (2020, p. 9), a OMS “[...] adotou uma posição de provedora global de conteúdos e os países distribuíram estas diretrizes nos seus territórios (protocolos de atendimento, dados epidemiológicos, etc.)”. A circulação de desinformações acerca da pandemia não é incomum, sendo esta um caso de saúde por se tratar de uma doença causada por um vírus, mas também sobre como as pessoas lidam com informações que podem ser imprecisas, visto que há uma busca constante sobre informações atualizadas referentes ao covid-19. Assim, nas páginas do Educamídia, foram publicadas mutuamente - nos meses de março, abril, maio e junho de 2020 - diretrizes acerca do não compartilhamento de desinformação. Observa-se, portanto, que os atores humanos desta atividade são os coordenadores, membros do conselho consultivo do Educamídia e especialistas mencionados nas publicações; e os atores não-humanos (tecnologias digitais) são as mídias sociais e suas possibilidades de compartilhamento e organização da informação, com posts e hashtags.
5.1.2 Orientações sobre discurso de ódio
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de informação voltadas às orientações sobre discurso de ódio na internet referente à pandemia do covid-19. A referida atividade envolve atores não-humanos (tecnologias), como as plataformas digitais. O conteúdo é sobre o enfrentamento ao racismo e a xenofobia durante a pandemia do novo coronavírus. Recuero (2021, p. 34) constata que “[...] a desinformação e o discurso de ódio, mobilizado principalmente através da xenofobia, apareceram de forma conjunta nas mídias sociais”. No contexto da pandemia, Recuero (2021, p. 34) argumenta que “[...] este tipo de conteúdo acaba reforçando discursos preconceituosos e atitudes radicalizadas contra grupos sociais específicos, neste caso, grupos étnicos asiáticos”.
O ator humano dessa atividade, além das pessoas que estão nos bastidores da produção e planejamento das ações do Educamídia, como as coordenadoras e os membros do conselho consultivo, é também o diretor da OMS, que foi mencionado em um dos posts citados para dar credibilidade. Os atores não- humanos em evidência, além das mídias sociais e seus recursos de interação e compartilhamento, foram os cards publicados e as hashtags.
A finalidade dessa atividade é orientar sobre o discurso de ódio no contexto da pandemia. Devido à desinformação sobre a origem do coronavírus - chamado preconceituosamente de vírus chinês - houve muitas atitudes xenofóbicas contra os asiáticos dentro e fora das redes sociais. Assim, as redes sociais do Educamídia publicaram conteúdos entre os meses de março e abril de 2020 para a não disseminação de discurso de ódio, como racismo e xenofobia. Nesse sentido, foram identificados atores humanos, como as pessoas envolvidas com o planejamento e execução dos conteúdos das redes sociais do Educamídia, e as pessoas citadas nas publicações. Já como atores não-humanos, foram identificadas as tecnologias digitais com a postagem de cards e marcações de hashtags. Desta forma, a atividade de orientação sobre discurso de ódio se mostra importante para a constituição da prática de conscientização sobre desinformação, visto que a desinformação e a xenofobia estão atreladas nesse contexto de pandemia (Recuero, 2021), e afetam diretamente a consciência coletiva da população sobre as medidas de saúde.
5.1.3 Orientações para a valorização do jornalismo
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de informação com orientações sobre a valorização do jornalismo, particularmente no contexto da pandemia do novo coronavírus. A atividade envolve também tecnologias como as plataformas digitais. Posetti e Bontcheva (2020) apontam que um dos temas da desinformação na pandemia é o descrédito aos profissionais da imprensa e as informações credíveis disseminadas pela mídia. Segundo as autoras, as tentativas de descrédito aos jornalistas em tempos de emergência sanitária da covid-19 aludem à campanhas desinformativas produzidas com o interesse de prejudicar as informações verificadas e que são de interesse público da população em um momento de incertezas informacionais (Brasileiro, 2020).
Algumas publicações contam com links para notícias em outras plataformas, como sites de veículos de comunicação e hashtags como #coronavírus, #covid19, #fiqueemcasa, #imprensacontraovirus, além de marcações linkadas para páginas, como o perfil do Ministério da Saúde no Instagram e Facebook. Assim, os atores humanos dessa atividade, além das pessoas que a produzem, são as pessoas que são citadas nos posts informativos, como no caso de especialistas. Os atores não-humanos, por sua vez, são as mídias sociais e o site do programa, com a publicação de cards e descrições contendo marcação de hashtags e perfis das redes sociais digitais.
A finalidade dessa prática é orientar sobre a valorização do jornalismo no contexto da pandemia do covid-19, visto que a desinformação esteve atrelada às tentativas de desacreditar os profissionais da imprensa. Contudo, não implica dizer que não deve haver um olhar questionador para a imprensa, mas sim saber reconhecer as fontes fidedignas e sua importância em um contexto de desafios informacionais como uma pandemia. Assim, as redes sociais digitais do Educamídia publicaram conteúdos referentes ao papel da imprensa na pandemia e à importância da divulgação da história das vítimas da covid-19 e dos jornalistas terem acesso ao número de vítimas da doença.
5.2 Práticas de formação docente-pedagógica
Essa prática foi mapeada a partir da sistematização das atividades formativas relacionadas à informação e dos atores envolvidos em seu processo organizativo. Nessa prática, observou-se três atividades específicas, a saber: (1) Orientações quanto ao ensino remoto; (2) Orientações de recursos para educadores; e (3) Orientações sobre pesquisas na internet.
5.2.1 Orientações quanto ao ensino remoto
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de informação voltadas à orientação sobre o ensino remoto emergencial durante a pandemia do covid-19. A atividade mencionada envolve também tecnologias como Instagram, Facebook, Twitter e o Site. O conteúdo geralmente é sobre o ensino remoto emergencial no contexto da pandemia. Segundo Souza e Ferreira (2020), no mês de março de 2020, o Ministério da Educação publicou a portaria n. 343/MEC, com indicações para a adoção de aulas em meios digitais enquanto a pandemia perdurasse. Desta forma, diante do contexto de emergência sanitária decorrente da pandemia do novo coronavírus, o ensino remoto se tornou uma possibilidade para a execução de atividades não presenciais. Ou seja, o ensino remoto na pandemia se dá de maneira emergencial, e é nesse sentido que o Educamídia publica conteúdos com orientações para esse contexto pandêmico, seguindo de certa forma as regras (Schatzki, 2005) emergentes.
Os atores humanos envolvidos nessa atividade são os coordenadores e membros do conselho consultivo do Educamídia, como também os especialistas convidados. Os atores não-humanos são tecnologias como as mídias sociais, as hashtags, links e os vídeos das lives transmitidos de forma síncrona e disponibilizados posteriormente para acompanhamento de maneira assíncrona, sendo divulgado por mais de uma das redes do Educamídia.
A finalidade dessa atividade é orientar sobre o ensino remoto durante a pandemia de covid-19. O ensino remoto foi indicado pelas autoridades de educação do país para ser adotado nesse contexto pandêmico como modo emergencial. Assim, foram compartilhados nas páginas do Educamídia conteúdos como a live sobre os desafios do ensino remoto emergencial com o convidado João Alegria, mostrando pontos que podem ser trabalhados na sala de aula, como a compreensão da dinâmica de sugestão das plataformas de vídeo ou o aproveitamento do espaço doméstico como experiência de aprendizagem, por exemplo. Essa atividade relaciona-se com seus atores humanos (participantes das lives promovidas), e com os atores não-humanos (vídeos e transmissão pelas redes sociais digitais), bem como conteúdos no site oficial do programa. Desta forma, essa atividade mostra-se significativa para a constituição da prática de formação docente-pedagógica e para a promoção da literacia da informação frente aos desafios informacionais gerados pela pandemia, como a exigência inesperada aos professores de diferentes realidades socioeconômicas a se adaptarem ao ensino mediado por tecnologia digital, que, por vezes, não haviam experienciado. No entanto, essa atividade mostra-se importante para os professores que atuam em realidades que acessam minimamente a tecnologia digital para lidarem com o contexto de isolamento social.
5.2.2 Orientações de recursos para educadores
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de comunicação voltadas à orientação de recursos para educadores durante a pandemia de covid-19. Envolve também tecnologias como as redes sociais digitais do Educamídia. Os atores humanos envolvidos nessa atividade são as coordenadoras do Educamídia. Os atores não-humanos são as tecnologias das mídias sociais, como o uso de hashtags nas publicações, o uso de threads no Twitter, com links para outras páginas, e o compartilhamento de arquivos compactados no site.
As finalidades dessa atividade são as orientações de recursos para aplicação por professores durante a pandemia do covid-19. Assim, as plataformas do Educamídia publicaram conteúdos como planos de aula, lives e cards para redes sociais com discussões sobre o ensino remoto. De modo que essa atividade se mostra importante para a constituição das práticas de formação docente- pedagógica durante a pandemia e para a promoção da literacia informacional diante dos cenários de incertezas informacionais (Brasileiro, 2020), visto que os materiais voltados ao trabalho da pandemia em sala de aula são conteúdos de atualização para professores e uso remoto nesse contexto de isolamento social, com recursos para tratar a pandemia e a desinformação.
5.2.3 Orientações sobre pesquisas na internet
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de informação voltadas à orientação sobre pesquisas na internet durante a pandemia. Assim, buscar informações constitui-se em uma atividade que compõe o desenvolvimento da literacia da informação (Lloyd, 2010). Além disso, as buscas por informação podem ser premeditadas ou casuais. A busca premeditada implica em navegar de maneira ativa por informações visando atender a determinada necessidade já conhecida. Por outro lado, a busca fortuita ou casual refere-se ao encontro de informações que antes não se esperava encontrar e que podem servir para alguma necessidade que surja futuramente (McKenzie, 2002).
Dentre os atores humanos envolvidos nessa atividade, no que concerne a quem produz conteúdo, está Mariana Mandelli, coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta, e autora de textos publicados em parceria com o Educamídia, tanto no portal oficial do programa, quanto no portal de notícias da Gazeta do Povo. Os atores não-humanos são as tecnologias digitais como Facebook, Instagram e o compartilhamento de links que direcionam para portais, como o site do programa, bem como o compartilhamento de cards e etiquetagens referentes ao novo coronavírus, como #covid19 e #fiqueemcasa.
A finalidade dessa atividade é orientar sobre pesquisas na internet para que os professores possam ensinar aos seus alunos a realizarem buscas mais assertivas na rede mundial de computadores. Assim, foram publicados conteúdos nas plataformas digitais do Educamídia quanto às orientações sobre como utilizar recursos de busca avançados ou palavras-chave, por exemplo. Essas dicas são essenciais para os professores levarem seus alunos a pesquisarem de maneira mais assertiva, identificando quais notícias encontradas em um buscador podem ser anúncios publicitários podendo surgir como os primeiros resultados, por exemplo.
5.3 Práticas de recomendação da informação
Essa prática foi mapeada a partir da sistematização das atividades de mediação da informação adotadas com fins de indicação qualitativa diante da crise. As atividades encontradas foram nomeadas de: (1) Orientações sobre onde buscar informação; (2) Orientações sobre o excesso de informação; e (3) Orientações sobre um consumo de informação equilibrado.
5.3.1 Orientações sobre onde buscar informação
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de informação voltadas à orientação sobre onde buscar informação durante a pandemia. Seguindo este caminho, abarcam tecnologias digitais como as mídias sociais do Educamídia. Dentre os atores humanos envolvidos nessa atividade está uma das coordenadoras do programa, que escreveu um texto para o site. Os atores não-humanos são as próprias mídias sociais, assim como o site, como já foi referido, e as marcações de hashtags e de perfis na descrição dos posts.
A finalidade dessa atividade é orientar as pessoas para saberem onde buscar informações. Nesse sentido, foram publicados conteúdos nas redes sociais do Educamídia orientando a buscar informações em fontes confiáveis, como autoridades de saúde, a exemplo da OMS e do Ministério da Saúde. De modo que essa atividade se mostra importante para a constituição das práticas de recomendação da informação e para a promoção da literacia da informação na pandemia. Desta forma, as orientações são em torno de como buscar informações sobre o novo coronavírus em perfis de médicos e divulgadores científicos, além de buscar plataformas de checagem de informação.
5.3.2 Orientações sobre o excesso de informação
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de informação com orientações sobre o excesso de informação no contexto pandêmico. O grande volume de informações, associado a uma emergência sanitária global, como a pandemia do covid-19, tem revelado um fenômeno informacional caracterizado pela OMS como infodemia, ou seja, “[...] um excesso de informações, algumas precisas e outras não, que tornam difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando precisa” (OPAS, 2020, p. 2).
Os atores humanos identificados nessa atividade são as coordenadoras do Educamídia que assinam um texto do portal e apresentam uma live sobre infodemia. Os atores não-humanos são as mídias sociais, com a publicação de cards, hashtags; live e links. A finalidade dessa atividade é a orientação para lidar com o excesso de informação durante a pandemia do covid-19. Essa profusão de informações apresenta sua complexidade diante da dificuldade de identificação de informações idôneas ou inverídicas sobre a doença. Além disso, a OMS alertou para os riscos da infodemia à saúde mental. Nesse sentido, as redes sociais do Educamídia publicaram conteúdos referentes às orientações quanto ao excesso de informação em formatos como lives, textos publicados no portal oficial, dicas de como informar-se em veículos com cobertura equilibrada.
5.3.3 Orientações sobre o consumo de informação equilibrado
Essa atividade envolve a publicação de estratégias de comunicação voltadas à orientação sobre o consumo de informações equilibradas durante a pandemia. O conteúdo geralmente é composto de publicações sobre o consumo saudável de informações. O ator humano identificado nessa atividade - além das pessoas responsáveis pela criação e publicação dos conteúdos - foi a psicanalista Vera Iaconelli, que teve um vídeo compartilhado no Instagram quanto ao consumo informacional na pandemia. Os atores não-humanos são as mídias sociais, vídeo, os cards informativos e as hashtags referentes ao coronavírus.
A finalidade dessa atividade é orientar para o consumo de informação de maneira equilibrada durante a pandemia do novo coronavírus. De modo que as plataformas do Educamídia publicaram conteúdos quanto à relação saudável com as redes sociais digitais e quanto a como manter a saúde mental diante das notícias sobre o estado de emergência sanitária.
6 Considerações finais
A partir de uma pesquisa netnográfica foi possível compreender como as práticas informacionais empreendidas pelo Educamídia nas plataformas de mídia social contribuíram para a formação da literacia informacional durante a pandemia do covid-19, de modo a contemplar, assim, o objetivo geral deste artigo. Nesse processo, foi possível mapear os atores humanos e não-humanos entrelaçados com as atividades de informação vinculadas às plataformas do Educamídia, descrever as atividades de informação das plataformas de mídia social do programa, além de sistematizar as práticas de literacia da informação do programa, atendendo, portanto, aos três objetivos específicos propostos.
Observa-se que as atividades elencadas nas plataformas de mídia social do Educamídia, no período da pesquisa, foram organizadas em três práticas informacionais orientadas à literacia informacional, quais sejam: (i) Conscientização Sobre Desinformação (Orientações sobre não compartilhar desinformação; Orientações sobre discurso de ódio; e Orientações para a valorização do jornalismo); (ii) Formação Docente-Pedagógica (Orientações quanto ao ensino remoto; Orientações de recursos para educadores; e Orientações
sobre pesquisas na internet); (iii) e Recomendação da Informação (Orientações sobre onde buscar informação; Orientações sobre o excesso de informação; e Orientações sobre o consumo de informação equilibrado).
Diante do exposto, considerando o mapeamento das atividades envolvendo os atores humanos e não-humanos que constituíram as práticas informacionais, constata-se a importância do Educamídia durante o cenário de informação fragmentado decorrente da pandemia de covid-19. O programa se posicionou como ator na promoção da literacia informacional por meio da articulação de suas plataformas de mídia social na medida em que buscou adequar a sua abordagem às condições materiais do contexto, aos desafios de entendimentos enfrentados pelos sujeitos e às referências apresentadas pela ciência em detrimento de intervenções generalistas. Nota-se, portanto, que essas práticas identificadas, além de servirem de modelo para outros programas de educação midiática que venham a surgir em outros contextos informacionais parecidos, podem se configurar como parâmetro para outros estudos relacionados ao aprimoramento de práticas informacionais durante pandemias.
Referências
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