Open-access O autismo e as biases no âmbito da Ciência da Informação: uma análise de domínio por meio da revisão integrativa na base de dados BRAPCI

Autism and biases in the field of Information Science: a domain analysis through an integrative review of the Information Science database BRAPCI

Resumo

Destaca-se que este estudo se concentra na análise da comunidade discursiva relacionada ao autismo, com objetivo de identificar tendências terminológicas presentes nos artigos indexados na base de dados da Base de Dados em Ciência da Informação. A investigação buscou analisar em que medida o mapeamento dos enfoques da Ciência da Informação no período de 2019 a 2024, e o reconhecimento de suas biases intrínsecas, podem servir como base para o aprimoramento de instrumentos de classificação e organização do conhecimento, visando uma representação temática que ressignifique domínios tradicionalmente marginalizados. Este estudo utiliza dos preceitos da revisão integrativa dos dados, bem como utiliza o suporte das abordagens da análise de domínio desenvolvida por Birger Hjørland. Os resultados deste estudo ressaltam as dificuldades de se construir um Sistema de Organização do Conhecimento quando o domínio ainda é pouco explorado pela área do conhecimento em questão. Um aspecto verificado é a insuficiência de pesquisas no domínio do autismo dentro da Ciência da Informação ressaltando a necessidade de pesquisas científicas na área que corroborem com investigação para os avanços terminológicos, aplicação de métodos de inclusão em ambientes escolares e o desenvolvimento e implementação de políticas públicas.

Palavras-chave:
biases; representação temática da informação; organização do conhecimento; autismo; ética

Abstract

This study focuses on the analysis of the discursive community related to autism, with the aim of identifying terminological trends present in the articles indexed in the Information Science Database. The investigation sought to analyze in which areas of Information Science the topic is being addressed over five years, as well as to assess whether the possible biases associated with the domain can contribute positively to the development of controlled vocabularies and classification systems. This study uses the precepts of integrative data review, as well as the domain analysis approaches developed by Birger Hjørland. The results of this study highlight the difficulties of building a Knowledge Organization System when the domain is still little explored by the area of knowledge in question. One aspect found is the lack of research in the field of autism within Information Science, highlighting the need for scientific research in the area to corroborate research into terminological advances, the application of inclusion methods in school environments and the development and implementation of public policies.

Keywords:
biases; thematic representation of information; knowledge organization; autism; ethics

1 Introdução

Ao longo dos últimos 30 anos, as Tecnologias de Informação vêm sendo desenvolvidas, atualizadas e usufruídas em distintas esferas da sociedade. No contexto da Ciência da Informação (CI), e mais especificamente na linha de Organização e Representação do Conhecimento (ORC), documentos e produções científicas ganham espaços em registro digitais (Moreira; Moura, 2006) permitindo uma série de mecanismos bem como a agilidade nos processos de gerenciamento, busca e recuperação da informação em bases de dados.

Neste mesmo período dos anos 1990, surge a World Wide Web como um sistema de hipermídia que funciona a partir da distribuição de informação em um formato de rede, auxiliando o acesso e a organização de documentos por meio desta teia de relações quando conectados à internet. Este recurso fundamenta-se nos estudos de recuperação, organização e disseminação da informação em áreas do conhecimento como a Ciência da Informação proporcionando a democratização da informação rompendo as barreiras geográficas e temporais.

Os recursos digitais em conjunto com a World Wide Web ampliam as interações em redes de conhecimento no sentido de preservar e disseminar a informação de documentos, resultando nos sistemas de recuperação da informação daquilo que é produzido dentro destes ambientes digitais que utilizam de linguagem natural não tratada para serem recuperados (Moura; Moreira, 2006). A linguagem natural é composta por palavras empregadas no cotidiano, diferentemente daquela construída por especialistas. Ferramentas como o Google, por exemplo, são amplamente utilizadas pela população geral, que recorre a termos cotidianos em vez de um vocabulário técnico em sua pesquisa.

Quando se fala a respeito do processo de recuperação da informação e do conhecimento em bases de dados especializadas, assim como a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), os mecanismos de busca utilizam opções de pesquisa avançadas e operadores booleanos, onde a grande maioria dos que pesquisam nestas bases são acadêmicos e especialistas que têm conhecimento acerca de sua utilização.

Estas bases de dados que acoplam os repositórios digitais e institucionais e até mesmo bibliotecas, utilizam do que se chama de vocabulário controlado. Os termos que representam os documentos são indexados por colaboradores que se valem destes vocabulários e das premissas dos especialistas para que os documentos sejam registrados da forma mais precisa possível garantindo um menor coeficiente de revocação (Lancaster, 2004) tal que, quanto mais genérico o termo, mais documentos “inúteis” da sua busca serão recuperados.

Então, quanto mais precisos estes termos, o coeficiente de revocação (recuperação mais precisa e de menor quantidade de documentos) será menor, mas a qualidade da busca será maior, que trará documentos que em seu contexto tratam exatamente dos termos atribuídos na busca.

A representação temática tem princípios que fundamentam a organização e a estruturação epistemológica. Os mecanismos teórico-metodológicos, por sua vez, realizam uma profunda análise em um domínio específico visando contribuir com sua representação por meio de Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC) e Sistemas de Classificação. No que se refere ao domínio em questão, destaca-se que este estudo se concentra na análise da comunidade discursiva relacionada ao autismo, com objetivo de identificar tendências terminológicas presentes nos artigos indexados na base de dados da Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI).

O conceito de “neurodiversidade” foi explorado e popularizado a partir dos anos de 1990, propondo a percepção de que a variação neurocognitiva é uma característica intrínseca da pluralidade humana, assim como as distinções étnicas. Sob essa lente, a comunidade autista é compreendida como uma minoria neurocognitiva. Segundo Walker (2021), essa mudança de perspectiva permitiu a diferenciação entre dois modelos teóricos: o paradigma da patologia, que interpreta o autismo estritamente como um déficit genético ou clínico, muitas vezes enviesado; e o paradigma da neurodiversidade. Este último afasta-se do olhar puramente deficitário para enxergar o sujeito em sua complexidade, considerando a sua singularidade e as interações com o ambiente social.

De acordo com essa linha de raciocínio, busca-se compreender em que medida o mapeamento dos enfoques da Ciência da Informação no período de 2019 a 2024, e o reconhecimento de seus vieses intrínsecos podem servir como base para o aprimoramento de instrumentos de classificação e organização do conhecimento, visando uma representação temática que ressignifique domínios tradicionalmente marginalizados?

Caracterizada como desvio, tendência, inclinações o fenômeno bias, tem sido estudado de diversas óticas. Quer seja sob o enfoque positivo ou negativo, esse fenômeno na CI estimula reflexões criteriosas. Biases são descritores indexados tendenciosamente com um viés positivo ou negativo. Os positivos evidenciam as tendências, concepções da população, levando-se em conta princípios éticos, inclusivos. Em contrapartida, as biases negativas, evidenciam preconceitos, estigmas nocivos aos princípios de respeito á diversidade humana.

Em algumas unidades de informação podem ser encontradas estes desvios quando o profissional indexador realiza de forma consciente ou não a representação terminológica de modo que a ética profissional seja desconsiderada, e seus valores ou a moral pessoal influenciam na representação documental. Milani e Guimarães (2017) relatam uma possível ocorrência em uma biblioteca dos Estados Unidos, onde o termo “latino” estava registrado sob o cabeçalho de assunto “bibliotecas e deficientes sociais” mostrando o preconceito enraizado no profissional que validou este descritor associando latinos à deficientes sociais:

A representação de assunto insere-se no âmbito da organização do conhecimento, que é o marco teórico-conceitual para a Biblioteconomia e Ciência da Informação. Além disso, é um espeço institucionalizado dentro da área da Ciência da Informação no qual se discutem teorias e metodologias sobre a criação de substitutos documentais, as práticas e as atividades sociais relacionadas ao acesso ao conhecimento (Milani; Guimarães, 2017, p. 74).

Ao observar-se a disposição técnica dos livros em uma biblioteca, nota-se uma aparência de verdade absoluta, quase equiparado ao rigor das ciências exatas. Contudo, percebe-se que tal organização não constitui um campo neuro, podendo mascarar vieses ideológicos consolidados há tempos na estruturação do saber humano.

Mai busca desconstruir a ilusão de que a classificação contemporânea no artigo Ethics, values and morality in contemporary library classifications (2013), em que a organização da informação raramente se limita a um mero procedimento lógico. Uma vez que a realidade não se comporta como uma equação exata, a dinâmica social é marcada por disparidades, e a tentativa de impor uma ordem lógica acaba por negligenciar as facetas mais complexas do mundo real.

A criação de sistemas de classificação raramente advém de uma intenção deliberada de marginalizar grupos sociais. Contudo, reconhece-se que os profissionais da informação possuem o compromisso ético de atenuar os impactos negativos decorrentes de tais estruturas. A intenção original de Dewey, por exemplo, não residia na imposição de uma doutrina universal, mas na busca por soluções práticas de atendimento aos usuários (Mai, 2013).

A busca por uma representação universal do real tem sido alvo de revisões críticas. Diante da valorização das particularidades da experiência humana, o entendimento afasta-se da pretensa neutralidade (Mai, 2013). Dar um número físico à um livro é perfeito para a logística, no entanto, a ideia de que mapear um único universo do conhecimento é objetivo e independente de quem usa, abala-se na era contemporânea. Tentar organizar toda a experiência humana em uma única regra universal é como tentar organizar diversas temáticas e suas subjetividades em uma lista de prioridades:

[...] dadas as críticas à modernidade nas últimas décadas e as explorações sobre a contextualidade e a localidade das experiências humanas, muitas conceitualizações contemporâneas argumentam que a classificação deve ser considerada relativa, vinculada a restrições temporais e espaciais específicas [...] as classificações permeiam a ciência, a sociedade e a cultura, e como elas se tornaram invisíveis (Mai, 2013, p. 242, tradução nossa).

A sistematização da realidade em categorias impõe divisões a um mundo real que é, por natureza, fluido. Fragmentar a experiência em divisórias rígidas é como criar estruturas invisíveis que operam-no cotidiano de forma automática. Com o tempo, as classificações tornam-se parte do cenário, sendo aceitas e replicadas sem que haja um distanciamento crítico sobre a origem e função. Bowker e Star (19991apudMai, 2013, p. 243), explicita que as classificações são grandes auxiliadoras, e devem ser reconhecidas como parte de atuação política e ética; e desta forma, devem ser “reclassificadas”, ou seja, devem manter a essência original de classificar os assuntos, mas evoluírem com as complexidades e os fenômenos do mundo real:

[...] essa mudança exige uma revisão da compreensão da sociedade sobre as bibliotecas como espaços neutros independentes de investigação intelectual e pessoal, bem como uma revisão na formação dos profissionais bibliotecários para enfatizar a natureza epistemológica das classificações, desafiando acadêmicos a desenvolverem abordagens que as vejam como objetos epistêmicos (Mai, 2013, p. 243, tradução nossa).

A solução convencional para essas transformações residiria na consulta aos códigos de ética; entretanto, evidencia-se nessa abordagem a ocorrência de uma ruptura. As organizações como a International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA) e a American Library Association (ALA) orientam que os profissionais da informação dissociem suas convicções pessoais da prática laboral, exigindo uma postura de imparcialidade e a garantia de acesso à informação sem distinções de ordem religiosa, política ou racial. Deste modo, é notável que “O mundo é plural e diverso, e uma resposta eticamente responsável a tal realidade é uma ética que celebra essa pluralidade e diversidade, e não uma que exija a superioridade de uma visão ética específica” (Mari, 2013, p. 245, tradução nossa).

Segundo Gontijo (2006, p. 129), “[...] a palavra ‘ética’ passou a designar, na tradição filosófica tanto o objeto de estudo de uma disciplina quanto o estudo do objeto”, ou seja, identifica-se uma ambiguidade conceitual onde a ética define simultaneamente a norma de conduta observada e a própria ciência que a analisa, onde o termo designa tanto o objeto prático das ações humanas quanto o campo teórico, logo, “Ética, significa, portanto, tanto a disciplina que reflete criticamente sobre o saber encarnado nos costumes e modos de ser, como esse próprio saber”.

A partir deste cenário, considera-se o exercício da ética no panorama da Organização e Representação do Conhecimento fundamental, uma vez que as práticas metodológicas e hermenêuticas podem influenciar diretamente na interpretação, disseminação e acesso aos recursos informacionais. A categorização e sistematização de conhecimento (científico ou não), considera questões de neutralidade e inclusão na representação temática, evitando assimetrias que possam sustentar estereótipos de comunidades de discurso marginalizadas em dado contexto específico. Portanto, a ética na esfera da Organização e Representação do Conhecimento, assegura não somente a qualidade técnica dos processos, mas garante o compromisso e responsabilidade destes no âmbito social.

2 Comunidades discursivas e análise de domínio

Existem algumas definições prévias e abrangentes do que são comunidades discursivas, ou comunidades de discurso como também são chamadas. No artigo escrito por John Swales, intitulado Reflections on the concept of discourse community (2016), o autor apresenta uma breve definição do que vem a ser comunidades discursivas, sendo elas “[...] grupos que têm objetivos e propósitos que usam da comunicação para alcançar estes objetivos” (Swales, 2016, p. 9, tradução nossa). Para além, CD podem ser grupos sociais que compartilham semelhantes características e funcionalidades, assim como pontuado por Swales (2016, p. 10, tradução nossa) baseando-se em um conceito sociolinguístico, comunidades discursivas são “[...] uma assembleia homogênea de pessoas que compartilham lugares, antecedentes, variedades de idiomas e que compartilham amplamente valores sociais, religiosos e culturais”.

Mas como reconhecer e definir o que de fato é uma comunidade discursiva? Swales (1990) aponta para seis características definidoras e necessárias na identificação dos indivíduos de uma comunidade discursiva:

  • a) uma comunidade discursiva tem objetivos públicos e amplamente acordados “[...] escritos formalmente em documentos (no caso das associações e clubes ou podem ser mais tácitos” (Swales, 1990, p. 471, tradução nossa);

  • b) uma comunidade discursiva tem mecanismos de intercomunicação entre os membros. Os mecanismos participativos variam de acordo com a comunidade: reuniões, telecomunicações “[...]. De forma geral, o problema é o seguinte: indivíduos A, B, C e assim por diante ocupam os mesmos papéis profissionais em suas vidas. Eles interagem (em fala e escrita) [...] recebem e respondem do mesmo tipo de mensagem para os mesmos propósitos [...]” (Swales, 1990, p. 471-472, tradução nossa);

  • c) uma comunidade “[...] discursiva usa seus mecanismos participativos principalmente para fornecer informações e feedbacks” (Swales, 1990, p. 472, tradução nossa);

  • d) uma comunidade discursiva utiliza e possui um ou mais gêneros na promoção comunicativa de seus objetivos “[...] desenvolveu e continua desenvolvendo expectativas discursivas. Essas expectativas podem envolver a adequação de tópicos, a forma, a função e o posicionamento dos elementos discursivos, bem como os papéis que os textos desempenham no funcionamento da comunidade discursiva” (Swales, 1990, p. 472-473, tradução nossa).

Em suma, a sentença “c” explica que uma comunidade discursiva usa de gêneros textuais para alcançar seus objetivos com base na comunicação, em que novos grupos precisam criar novas práticas de comunicação para serem considerados comunidade discursiva.

Além de possuir gêneros, uma comunidade discursiva adquiriu alguns termos específicos. Essa especialização pode envolver o uso de termos conhecidos pela comunidade discursiva mais ampla e em comunidades especiais e técnicas, como a comunidade discursiva de tecnologia da informação “[...] a dinâmica embutida em relação à uma terminologia cada vez mais compartilhada e especializada é realizada através do desenvolvimento de abreviações e acrônimos específicos da comunidade” (Swales, 1990, p. 473, tradução nossa);

Ou seja, esta sentença intensifica que uma comunidade discursiva se apropria de um vocabulário próprio e especializado, como termos técnicos e siglas para se comunicar de forma eficiente. Se um grupo não utiliza termos especializados, e que de forma generalizada, a sociedade (pessoas de fora do grupo focal) consigam entender, este “grupo” ainda não pode ser considerado uma comunidade discursiva.

Uma comunidade discursiva possui um nível mínimo de membro com grau adequado de conhecimento relevante a expertise discursiva. As comunidades discursivas têm membros que mudam ao longo do tempo; “[...] a sobrevivência da comunidade discursiva depende de uma proporção equilibrada entre novatos e veteranos” (Swales, 1990, p. 473, tradução nossa).

Esta última característica explica que, uma comunidade discursiva depende de uma quantidade significativa de membros que entendam o suficiente da terminologia e consigam se comunicar através da linguística desenvolvida pelo grupo. Para esta comunidade discursiva continuar existindo, é necessário manter o equilíbrio entre aqueles que já tem conhecimento prévio da linguagem, e dos outros indivíduos que venham fazer parte da comunidade discursiva futuramente.

Por meio destes apontamentos produzidos por Swales (1990; 2016), é possível dizer que pessoas autistas constituem uma comunidade discursiva? A princípio é possível corroborar essa afirmativa, embora tenham que ser pontuadas algumas ressalvas. Pessoas autistas compartilham experiências únicas e mundo, levando a criação de um discurso próprio através de discussões relacionadas ao domínio; assim como os temas “neurodiversidade” ou “inclusão”.

Por este fato, pode-se considerar que pessoas autistas compartilham dos mesmos objetivos e possuem linguagem e comunicação próprias. Estima-se que este grupo focal possua gêneros textuais específicos que apenas os membros participantes tenham conhecimento. Termos como stimming (comportamento repetitivo), prosódia (ritmo de linguagem falada; frequência, altura e entonação que se usa) e meltdown (colapsos que podem acontecer com um autista; acessos de raiva, confusão), são considerados específicos e apenas usados pela comunidade, onde o restante da sociedade não tem o conhecimento e não os usa, muitas vezes, da mesma maneira (Clínica Espaço Crescer, 2025).

A comunidade autista não somente inclui aqueles que têm o transtorno do espectro autista em si, mas abarca também os especialistas nesta temática, assim como os psicólogos, psiquiatras, neurocientistas e tantos outros da área da saúde, onde este assunto é amplamente discutido. Inclui, também, os familiares de pessoas autistas que buscam construir conhecimento acerca do Transtorno do Espectro Autista (TEA) para aprender a conviver e entender o funcionamento do indivíduo autista, e sim, como membros recentes dessa comunidade, pode-se considerar aqueles que são recentemente diagnosticados que já tem alguns anos de vida e que buscam entender as experiências incompreendidas que são causadas devido ao autismo. Todos estes indivíduos compõem a comunidade discursiva do autismo, visto que estes indivíduos possuem objetivos em comum no que diz respeito à inclusão e a desmistificação de estereótipos, elevando a temática a debates de políticas públicas que possam garantir direitos e acessibilidade.

Em sequência ao entendimento que, a comunidade autista pode ser sim considerada uma comunidade discursiva, é quase que imprescindível determinar a conceituação do domínio do autismo, e explicar as abordagens teóricas e metodológicas que resultam do processo desta análise. Birger Hjørland em Domain analysis in information Science: eleven approaches: traditional as well as innovative (2002) apresenta 11 abordagens pelas quais a CI pode abordar um domínio de forma relativamente específica (Hjørland; Barros, 2024, p. 1-2):

  • a) produção e avaliação de guias de literatura e portais temáticos;

  • b) produção e avaliação de classificações especiais e tesauros;

  • c) pesquisa sobre competências em indexação e recuperação de informações em especialidades;

  • d) conhecimento de estudos empíricos de usuários em áreas temáticas;

  • e) produção e interpretação de estudos bibliométricos;

  • f) estudos históricos de estruturas e serviços de informação em domínios;

  • g) estudos de documentos e gêneros em domínios do conhecimento;

  • h) estudos epistemológicos e críticos de diferentes paradigmas, suposições e interesses em domínios;

  • i) conhecimento de estudos terminológicos, Linguagens para Fins Especiais (LSP) e análise de discurso em campos do conhecimento;

  • j) estudos de estruturas e instituições na comunicação científica e profissional em um domínio;

  • k) conhecimento de métodos e resultados de estudos analíticos de domínio sobre cognição profissional, representação de conhecimento em ciência da computação e inteligência artificial.

A partir destes pontos é possível observar que a análise de domínio é fundamental na Organização do Conhecimento (OC) em áreas de especialidade. Hjørland (2002) argumenta que o conhecimento não existe de forma isolada, mas é construído socialmente dentro de comunidades que compartilham objetivos ontológicos e epistemológicos. Para sustentar essa narrativa, afirma-se que esses pontos claramente incluem a Organização do Conhecimento (OC) como parte do estudo geral de domínios (por exemplo, indexação, classificação e tesauros). Essas 11 abordagens enfatizam que “[...] os objetos de estudo para pesquisadores da informação são entidades sociais e teóricas, em vez de mentes universais”, onde “[...] o paradigma cognitivo da CI foi substituído pelo paradigma social” (Hjørland; Barros, 2024, p. 2; Capurro, 2003, p. 3).

Hjørland (2002, p. 422, tradução nossa) argumenta que “A ideia principal dos mecanismos de biblioteca especializada pode estar nos recursos informacionais onde são identificados, descritos, organizados e comunicados de forma que atendam a objetivos específicos”. Nesta sentença, a análise de domínio sob a luz das perspectivas de Hjørland apresentam que existem estruturas de informação com necessidades específicas em diferentes áreas do conhecimento e em diferentes domínios, onde os sistemas de informação devem adaptar-se a estes objetivos específicos (dos usuários e do profissional da informação) fornecendo conhecimento suficiente a uma comunidade especializada.

3 Estratégia metodológica

Este estudo usou como metodologia uma revisão integrativa dos artigos e trabalhos em eventos num período de 2019 a 2024 na Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI), com finalidade de analisar a qualidade da produção científica em diferentes campos da CI no domínio do autismo. Para isso, na barra de busca, apenas foi usado o termo “autismo”, e a partir dos resultados, realizou-se uma depuração daqueles que não contemplavam o período selecionado.

A BRAPCI, segundo Bufrem et al. (2010, p. 25), “[...] é uma plataforma digital brasileira dedicada à coleta, preservação e ao acesso de literatura científica na área de Ciência da Informação”. Nela podem ser encontrados vários formatos de produção científica da ciência da informação (artigos de periódicos, trabalhos em eventos, livros e capítulos de livro) principalmente de fontes brasileiras e da américa latina.

Para realizar a Revisão Integrativa, tomou-se como base a metodologia proposta por Souza, Silva e Carvalho (2010, p. 104-105), onde os autores pontuam que esta metodologia precisa incluir seis fases, sendo elas:

  • a) 1ª fase - elaboração da pergunta norteadora - “[...] incluir a definição dos participantes, intervenções a serem avaliadas e os resultados a serem mensurados. deve ser elaborada de forma clara e específica, e relacionada a um raciocínio teórico já aprendidos pelo pesquisador”;

  • b) 2ª fase - busca ou amostragem na literatura - “[...] a busca na base de dados deve ser ampla e diversificada, contemplando a procura em bases eletrônicas, busca manual em periódicos, as referências descritas nos estudos selecionados [...] o ideal é incluir todos os estudos encontrados ou a sua seleção randomizada; porém se as duas possibilidades forem inviáveis pela quantidade de trabalhos, deve-se expor e discutir claramente os critérios de inclusão e exclusão dos artigos”;

  • c) 3ª fase - coleta de dados - refere-se à “[...] utilização de um instrumento previamente elaborado capaz de assegurar que a totalidade dos dados relevantes seja extraída, minimizar o risco de erros na transcrição, garantir precisão na checagem de informações e servir como registro”;

  • d) 4ª fase - análise crítica dos estudos incluídos - “[...] demanda uma abordagem organizada para ponderar o rigor e as características de cada estudo” evidenciando a utilização presente neste estudo, corrobora-se com o nível quatro desta fase, onde para delinear o estudo é necessário as “[...] evidências de estudos descritivos (não experimentais) ou com abordagem qualitativa”;

  • e) 5ª fase - discussão dos resultados - “[...] além de identificar possíveis lacunas do conhecimento, é possível delimitar prioridades para estudos futuros. Contudo, para proteger a validade da revisão integrativa, o pesquisador deve salientar suas conclusões e inferências, bem como explicitar os vieses”;

  • f) 6ª fase - apresentação da revisão integrativa - “[...] deve conter, então, informações pertinentes e detalhadas baseadas em metodologias contextualizadas sem emitir qualquer evidência relacionada [...] a combinação de diversas metodologias pode contribuir para a falta de rigor e o viés, devendo ser conduzida dentro de padrões de rigor metodológico”.

Para auxiliar as demandas da revisão integrativa, foi utilizado como suporte os preceitos teórico-metodológicos na combinação de três abordagens propostas por Hjørland (2002):

  • a) produção e avaliação de guias de literatura e portais temáticos. Nesta seção, foi usado o portal da BRAPCI para a escolha dos artigos que foram analisados. Entende-se que a escolha desta base de dados é utilizada para a coleta dos dados que não constitui um domínio da Ciência da Informação (CI), todavia, a investigação compreende em como a temática do Autismo está sendo trabalhada no âmbito da área da CI. Para a avaliação dos termos específicos que estão relacionados ao domínio e que foram encontrados através da frequência deles, utiliza-se os Descritores em Ciências da Saúde (Bireme, 2025) o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (American Psychiatric Association, 2014).

  • b) pesquisas sobre competências em indexação e recuperação de informações em especialidade;

  • c) aqui, se buscou entender se há uma eficácia na indexação destes trabalhos científicos dentro da base de dados acerca das necessidades da CI, em como este domínio é representado tematicamente, entendendo que a temática dos trabalhos envolve o domínio do autismo, mas está dentro do contexto da CI;

  • d) conhecimentos de estudos terminológicos, LSP e análise de discurso em campos do conhecimento.

Em uma análise qualitativa, esta abordagem procura examinar como os autores utilizam da linguagem especializada para construir e dar significados terminológicos em diferentes contextos, mesmo que estejam falando do mesmo domínio. Além de focar na terminologia especializada, analisa como o texto pode refletir e influenciar toda uma cadeia de relações (entre o entendimento do autor, o texto propriamente dito, e quem o lê).

Foi utilizado para uma análise qualiquantitativa, a ferramenta Voyant Tools (2025), considerada uma ferramenta de leitura e análise de texto baseado na web, onde é caracterizado por ser “[...] um projeto acadêmico que foi criado para facilitar práticas de leitura e interpretação para estudantes e acadêmicos de humanidades digitais, bem como para o público em geral”. Com esta ferramenta foi possível minerar os termos mais frequentes dentro do corpus escolhido, e obter resultados analíticos como as maiores tendências terminológicas presentes nestes textos, e a criação de uma nuvem de palavras dos termos sem passar pelo processamento de linguagem natural (PLN) na eliminação de stop words.

4 Resultados e discussão

É importante ressaltar que, a BRAPCI, por um erro ou motivo específico da plataforma, indexou o mesmo arquivo com dois títulos diferentes, e por isto, um destes foi desconsiderado, totalizando um corpus documental composto por 11 documentos.

Mediante a estratégia da análise de domínio é possível revelar que a Ciência da informação no Brasil reflete forte influência do domínio médico. Isso é evidenciado pela predominância de termos técnicos e clínicos nos resultados, indicando que a organização do conhecimento sobre o autismo ainda não incorporou plenamente as abordagens socioculturais ou o modelo social do transtorno.

Na ferramenta Voyant Tools (2025), inseriu-se os links de cada um destes documentos, resultando em uma frequência de termos que, a partir de uma análise dos autores, ainda não passou pela eliminação de stop words. Foi escolhida a opção de eliminação manual, pois o corpus não é grande, consequentemente, não se obteve inúmeros termos.

Tabela 1
Termos mais frequentes no corpus de pesquisa minerados pela ferramenta Voyant Tools

Após a mineração dos termos mais frequentes no corpus, foi possível separá-los tematicamente por categorias criadas pelo pesquisador da melhor maneira a agrupá-los.

Quadro 1
Representação temática dos termos sem eliminação de Stop Words e palavras não relacionais ao domínio ou ao contexto

Através desse quadro foi possível detectar que ao separar tematicamente os termos, a categoria “Ciência da Informação” mostra claramente em quais são os contextos da CI o domínio é trabalhado. Nitidamente, além desta categoria, “Educação Pesquisa” identifica que para além das áreas especializadas da ciência da informação como “mediação ou classificação”, esse domínio está sendo discutido primordialmente dentro de um contexto universitário.

A ferramenta utilizada na coleta dos termos não prioriza a prospecção de pronomes, portanto, no grupo “nomes próprios”, observa-se a frequência dos termos ali destacados. O mesmo pode acontecer para o grupo de “stop words” que aparecem datas e outras palavras irrelevantes para um possível vocabulário controlado do domínio do autismo.

No caso dos nomes próprios, estes podem estar relacionados com a autoria das produções científicas analisadas. Há outros pontos a serem destacados, e primeiramente a sigla “inf”, referente ao termo “informação”. Em segundo, a sigla “aba”, que se denomina de Análise do Comportamento Aplicada, do inglês Applied Behavior Analysis. É uma metodologia aplicada à análise do comportamento baseada em evidências científicas, utilizada como abordagem de tratamento psicoterapêutico de pessoas autistas ou não, com a finalidade de promover habilidades no desenvolvimento do comportamento social.

As categorias “Regiões Geográficas” e “Nomes Próprios”, identificaram em quais lugares estes artigos foram analisados e quais autores mais se destacaram. Para este estudo de modo geral, em um contexto terminológico, estas categorias não são utilizadas, pois os temas discutidos são desconexos. Então, após essa coleta, e sem a limpeza de stop words na imagem a seguir, se observa a nuvem de palavras que mais se destacaram dentro do corpus.

Figura 1
Nuvem de palavras referente ao corpus documental sem a limpeza de stop words

É possível identificar que dentro dessa nuvem de palavras tem mais termos que não aparecem dentro da primeira tabela de frequência. Isso se dá por alguns motivos: falta de precisão da ferramenta ou termo pouco frequente (mesmo que relacionado ao domínio, como é o caso de “espectro” ou “TEA”).

Após realizar a limpeza dos dados não pertinentes à pesquisa com base na primeira tabela de termos, obteve-se a seguinte nuvem de palavras.

Figura 2
Palavras distintas do corpus após eliminação de stop word e palavras não relacionais

Essa nuvem de palavras revela uma dinâmica interessante entre os termos mais evidentes e aqueles que não se encontram diretamente relacionados ao domínio analisado. Observa-se que os termos de maior destaque, em virtude de sua frequência, sobrepõem aqueles que não são pertinentes à pesquisa demonstrando sua intensidade no corpus.

No entanto, essa sobreposição não necessariamente indica que os termos de menor relação não são válidos, mas podem apresentar nuances complementares ao domínio, e ontologicamente, deveriam ser analisados de forma mais profunda, a fim de encontrar o devido alcance.

As nuvens de palavras apresentadas servem como ponto de partida para uma investigação abarcada demais metodologias, e através delas, é possível examinar e abranger o tema central do estudo.

Foram realizados testes em outros mecanismos de mineração textual através de linguagem de programação Python. É pertinente ressaltar essa possibilidade, mas os dados dessa aplicação não serão demonstrados pois consideram-se alguns pontos chave: a primeira delas é que foi usado como teste um código de programação open source (proveniente de qualquer autor, de qualquer base de dado ou gerados por inteligência artificial), que apesar das linguagens de programação serem desenvolvidas “matematicamente”, onde uma função sempre será descrita da mesma forma, é importante ressaltar que esse código não foi escrito para a parte.

A segunda questão, é que, dentro deste código foram incluídos mecanismos que realizavam a eliminação e exclusão das stop words e de palavras irrelevantes as quais o pesquisador definiu a não importância relacional ao domínio. No entanto, a mineração textual através da linguagem de programação Python se demonstrou um tanto quanto eficaz em relação aos mecanismos que foram usados da ferramenta Voyant Tools (2025). Observou-se que, os termos prospectados, por mais similares, o código em Python foi capaz de minerar algumas siglas ou acrônimos diferentes daqueles correspondentes pela ferramenta Voyant Tools, assim como a sigla “TEA” (Transtorno do Espectro Autista), ou “espectro”, por exemplo.

Outro mecanismo interessante do código Python, é que ele consegue realizar a eliminação de stop words em outros idiomas. Neste estudo, foram testados em português, espanhol e inglês, assim como vemos na tabela 1, existe variação em idiomas do mesmo termo, e por isso não foram contabilizados na tabela. Além disso, também é possível fazer uma nuvem de palavras relacionadas a cada texto analisado e do corpus no total.

A justificativa pela qual o estudo qualiquantitativos mineração textual não foi feita com os mecanismos da linguagem Python, se dá pelo motivo de autoria do código. Aqui, apresenta-se uma opção a ser feita, mas para evitar plágio, preferiu-se demonstrar apenas os resultados obtidos pelo minerados da Voyant Tools e indicar as possibilidades da Python.

E então, para analisar as bises (variação do termo) e suas tendências que podem ser encontradas em literatura em diversos contextos, foram usadas como garantia os Descritores em Ciências da Saúde (Bireme, 2025) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (American Psychiatric Association, 2014) em sua última versão (5. ed.). Na busca, indica-se os termos os quais deseja-se encontrar, e a partir disso, o mecanismo nos dá as relações hierárquicas (classes e subclasses as quais o termo pertence, como uma ontologia), onde esses termos também podem ser apresentados como classe ou subclasse, variação de idioma (inglês, português, espanhol e francês), a nota de escopo que por muitas das vezes tiradas do próprio DSM-5 usada para definir a conceituação terminológica, os códigos hierárquicos de cada termo e documentos sobre o assunto indexados dentro da base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) (Brasil, 2026). Então, chega-se no seguinte resultado no quadro de número 2.

Quadro 2
Biases encontradas em literatura temática (Descritores em Ciências da Saúde e DSM-5)

A revisão dos vieses terminológicos vai além da simples correção linguística e se insere no âmbito da ética da representação. Conforme visto na literatura analisada, os sistemas de organização do conhecimento carregam intencionalidades, uma vez que refletem o poder de atribuir significados aos objetos. Quando se mantêm termos estigmatizados ou exclusivamente para se referir ao autismo, o sistema negligencia sua obrigação ética de apresentar o sujeito em conformidade com os avanços sociais. A perpetuação desses vieses prejudica a justiça social impedindo que a comunidade autista identifique-se como deseja, reforçando uma linguagem focada no transtorno e na exclusivo. Dessa forma, reforça barreiras que a análise crítica tenta, justamente, derrubar.

O Quadro 2 demonstra que é possível encontrar as tendências terminológicas no âmbito do autismo, onde estes termos possam ser utilizados para representar documentos que estejam aplicados ao domínio. No entanto, é possível reconhecer que alguns destes termos são ultrapassados e não são mais usados para identificar o transtorno. Em sua maioria, os termos encontram-se relacionados (tanto dentro do descritor em ciências da saúde, quanto no DSM-5), a área principal de “transtornos mentais” e a subárea maior “transtornos do neurodesenvolvimento”.

Os resultados da revisão integrativa distribuídos nas tabelas dos apêndices de A a I foram desenvolvidos com base no “Apêndice 1” do artigo intitulado Exemplos de instrumentos para coleta de dados do texto Revisão Integrativa: o que é e como fazer de Souza, Silva e Carvalho (2010, p. 106).

De acordo com Valle e Saldanha (2019, p. 5), autores do artigo analisado apêndice A, “[...] verificou-se a escassez de fontes sobre o domínio em Ciência da Informação, indexadas como produção brasileira, além de frágeis relações terminológicas em vocabulários controlados relevantes para o tema, como CDD, CDU e Descritores em Ciências da Saúde” Ou seja, estes autores identificaram a partir de uma análise documental a ausência de informação em saúde no domínio do autismo relacionada à produção de desinformação sobre o tema, que impossibilita a recuperação eficaz da informação. Aqui corrobora-se com esta ideia, pois mediante às análises apresentadas anteriormente, verifica-se a falta de terminologia especializada para o domínio do autismo, tanto quanto vocabulários controlados relacionados ao tema.

No apêndice B, os autores buscam evidenciar os resultados da pesquisa sob a importância de uma abordagem integrada e contextualizada no desenvolvimento de sistemas audiovisuais voltados para o treinamento de habilidades sociais. Essa perspectiva reforça a ideia de que a eficácia do treinamento depende não apenas do conteúdo ensinado, mas também da forma como ele é contextualizado e adaptado às experiências dos usuários.

O apêndice C identifica as possíveis atuações de inclusão do bibliotecário escolar num contexto do autismo, pois os autores identificaram que há escassez de produção científica no contexto da CI que abordem especificamente as atividades práticas de inclusão dentro de bibliotecas escolares voltadas para alunos autistas.

No apêndice D é possível identificar que os autores tinham objetivo de entender qual o papel da família em um contexto mediador da informação para pessoas autistas, e através da análise, os autores concluem que estes grupos focais demonstram participação ativa na construção de políticas públicas no tema de inclusão para pessoas autistas, já que estes reconhecem os desafios enfrentados em toda uma vida pelos indivíduos autistas.

Não só se conclui a adversidades causadas pelo próprio transtorno, mas é de se reconhecer que o debate contra o capacitismo é algo que precisa ser levado a maiores instâncias, de forma que toda uma sociedade reconheça pessoas com deficiência como seres atuantes e participantes da sociedade. A partir da análise deste texto é possível ponderar que, a inclusão terminológica acerca dos vieses no domínio autista pode levar ao reconhecimento destes debates, com finalidade de disseminar estes termos e implementar políticas públicas.

O texto analisado no apêndice E utiliza dos preceitos de Habermas para permitir inferir que as políticas públicas têm como foco central assegurar dignidade aos indivíduos, com ênfase naqueles que se encontram em contextos de maior vulnerabilidade social. Essa iniciativa está fundamentada nos princípios dos direitos humanos, os quais constituem a base para a promoção de uma sociedade que busca justiça e equidade, partindo do pressuposto que educação é um direito fundamental e garantindo que todos os cidadãos tenham acesso a condições iguais para seu pleno desenvolvimento intelectual, social e humano.

O texto analisado no apêndice F contribuiu para melhorar o acesso e a apropriação de informações inclusivas por parte de familiares de indivíduos autistas, especialmente aqueles que possuem maior vulnerabilidade socioeconômica. Este artigo propõe maiores estudos sobre o tema visando contribuir para a melhoria da qualidade de vida destes indivíduos, na implementação de políticas públicas e na criação de recursos informacionais.

No apêndice G entende-se que a combinação de diferentes abordagens e perspectivas leva à ideia de “Estado de mediação”, uma ferramenta para discutir a condição autista na sociedade. Isso ajuda a entender que o Censo sozinho não é suficiente e precisa ser complementado por outras fontes de informação para dar mais visibilidade ao autismo, mesmo que ele esteja inserido em uma representação política mais ampla das diversas realidades existentes.

No texto analisado no apêndice H é possível identificar que a revisão integrativa utilizada pelos autores tem como proposta ressaltar as necessidades de inclusão da comunidade discursiva do autismo dentro das bibliotecas universitárias, restando a possibilidade de capacitação dos profissionais para garantir que estes espaços sejam de fato integrativos.

O último texto analisado no apêndice I, conclui que uma inteligência artificial baseada nos princípios haremmasianos demonstra potencial para tornar as salas de aula mais inclusivas para alunos autistas, ao mesmo tempo que promove a acessibilidade adequando-se às necessidades dos indivíduos, rompendo e superando as barreiras educacionais tradicionais.

Alguns dos artigos baixados não foram possíveis de serem analisados pois eles não eram de fato documentos, ou estavam duplicados pois foram indexados de mais de uma maneira, ou foram indexados incorretamente, haja visto que não tinha a ver com o domínio do autismo.

5 Considerações finais

As análises realizadas no decorrer do estudo, indicam que não foram identificadas biases negativas na coleta realizada nesta pesquisa, demonstrando a maturidade do campo da Ciência da Informação em reconhecer o viés terminológico sustentado por critérios éticos e adequados em suas produções científicas. Dentro do escopo da Ciência da informação, na base de dados da BRAPCI e nem nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) foram encontradas evidências de biases negativas ao termo preferido dentro do âmbito da CI. Em decorrência pode-se considerar que a produção de um Sistema de Organização do Conhecimento (OC) do campo da Ontologia se demonstra mais eficaz, pois os termos coletados são pertencentes a variações terminológicas, classes e subclasses de forma relacional.

Entretanto, observa-se o conflito entre o paradigma da patologia e o paradigma da neurodiversidade, em que os resultados demonstram que a CI brasileira está em um estágio de transição, em que o reconhecimento da identidade da comunidade autista começa a tensionar as estruturas rígidas dos vocabulários controlados tradicionais.

Observou-se também que as biases positivas são variações e relações terminológicas do domínio o autismo, mostrando certa diversidade lexical, sugerindo que o corpus foi delimitado equilibradamente, priorizando a objetividade e representatividade terminológica. Os termos que corroboram com esta percepção podem ser evidenciados no Quadro 2. Toda produção científica está sujeita a influências mesmo que sutis, e por isso, a interpretação dos dados foi analisado com cautela, considerando as possíveis tendências explicitas e implícitas.

De modo geral, na análise qualitativa dos artigos por meio da revisão integrativa, interpretou que a Ciência da Informação precisa desenvolver em seus campos de pesquisa mais estudos que estejam relacionados ao autismo. Essas pesquisas levam a práticas informacionais de atuação dos profissionais da CI - em sua maioria bibliotecários, como apresentado - que pratiquem a inclusão de pessoas autistas no contexto da biblioteca escolar, e até a discussões de políticas públicas. O trabalho de construção de vocabulários controlados no domínio do autismo deve ser multidisciplinar. As produções que são realizadas até o momento deste estudo, mostram-se insuficientes para a elaboração destes vocabulários pois não são encontradas muitas variantes dos termos.

Outros pontos a serem destacados sobre como a CI pode contribuir com a investigação no domínio do autismo em pesquisas acadêmicas, conectam-se com as demandas de desenvolvimento de tecnologias para indivíduos autistas que enfrentam desafios únicos relacionados à comunicação e à interação social. Há carência de sistemas de informação e de organização que disponibiliza dados relevantes sobre o autismo nessa área, tanto que, a CI é o campo interdisciplinar que estuda o fluxo da informação bem como os produtos dele (organização, acesso e uso), portanto, precisa ser mais investigada esta temática dentro da área, dando impacto social contribuindo significativamente com a visibilidade à comunidade discursiva.

Referências

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  • Declaração de disponibilidade de dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • 1
    BOWKER, G. C.; STAR, S. L. Sorting things out: classification and its consequences. Cambridge: MIT Press, 1999. ApudMai (2013).
  • Como citar
    PEREIRA, Larissa Kawana Passos Benatto Perandre; CERVANTES, Brígida Maria Nogueira; LUNARDELLI, Rosane Suely Alvares. O autismo e as biases no âmbito da Ciência da Informação: uma análise de domínio por meio da revisão integrativa na base de dados da Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI). Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-148563, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.148563

APÊNDICE A - Resultados referente ao artigo (Des)Informação em saúde: o autismo no espelho da classificação

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO (Des)Informação em Saúde: o autismo no espelho da classificação 1.2. PERIÓDICO/EVENTO XX ENANCIB 1.3. AUTORES VALLE, Fernanda; SALDANHA, Gustavo 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2019 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Trabalho em Evento? 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA GT 11 - Informação e Saúde 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Pesquisa Documental Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Valle e Saldanha (2019).

APÊNDICE B - Resultados referente ao artigo Mapeamento sistemático: sistemas audiovisuais para o ensino de crianças com o transtorno do espectro autista

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Mapeamento Sistemático: sistemas audiovisuais para o ensino de crianças com o transtorno do espectro autista 1.2. PERIÓDICO/EVENTO Revista Eletrônica de Comunicação, /informação, Inovação e Saúde (RECIIS) 1.3. AUTORES TOSCANO, Rafael Moura; BECKER, Valdecir 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2019 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade Federal da Paraíba (UFPB)? 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA Computação, comunicação e artes e Informática 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Mapeamento Sistemático Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Toscano e Becker (2019).

APÊNDICE C - Resultados referente ao artigo Biblioteca escolar inclusiva: análise acerca do transtorno do espectro autista

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Biblioteca Escolar Inclusiva: análise acerca do transtorno do espectro autista 1.2. PERIÓDICO/EVENTO Brazilian Journal of Information Science 1.3. AUTORES SAMPAIO, Renata Kelly Oliveira; FARIAS, Gabriela Belmont de 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2020 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade Federal do Ceará (UFC); Colégio Master de Fortaleza. 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação; Biblioteconomia. 5. LINHA DE PESQUISA Mediação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Revisão Sistemática de Literatura Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Sampaio e Farias (2020).

APÊNDICE D - Resultados referente ao artigo Grupos de familiares de autistas na reinvindicação de direitos: uma revisão sistemática da literatura

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Resultados referente ao artigo Grupos de Familiares de Autistas na Reivindicação de Direitos: uma revisão sistemática da literatura 1.2. PERIÓDICO/EVENTO XXII ENANCIB 1.3. AUTORES RIBEIRO, Natasha Coutinho Revoredo; MARTELETO, Regina Maria. 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2022 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Resumo Expandido 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA GT3 - Mediação, Circulação e Apropriação da Informação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Revisão Sistemática de Literatura Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Ribeiro e Marteleto (2023).

APÊNDICE E - Resultados referente ao artigo Os reflexos pandêmicos no ensino ofertado pela rede pública de Maceió/AL: políticas públicas e dignidade sob as perspectivas de Habermas

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Resultados referente ao artigo “Os Reflexos Pandêmicos no ensino Ofertado Pela Rede Pública de Maceió/AL: políticas públicas e dignidade sob as perspectivas de Habermas 1.2. PERIÓDICO/EVENTO LOGEION - Filosofia da Informação 1.3. AUTORES MENEZES, Anderson de Alencar; SILVA, Antonio Tancredo Pinheiro; CARDOSO, Martha Vanessa Lima do Nascimento. 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2022 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade Federal de Alagoas (UFAL); Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA Filosofia da Informação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Análise Filosófica Aplicada Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Menezes, Silva e Cardoso (2022).

APÊNDICE F - Resultados referente ao artigo Información para los familiares de niños, niñas y adolescentes con trastorno del espectro autista - tea: una investigación interdisciplinaria para una información inclusiva en salud

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Información para los familiares de ninos, ninas y adolescentes con transtorno del espectro autista - TEA: una investigación interdisciplinaria para una información inclusiva en salud 1.2. PERIÓDICO Fontes Documentais 1.3. AUTORES SABELLI, Martha et al. 1.4. IDIOMA Espanhol 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2023 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidad de La Republica (Uruguai) 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA Gestão da Informação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO PESQUISA Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Sabelli et al. (2023).

APÊNDICE G - Resultados referente ao artigo Estado de mediação: autismo e a circulação da informação no censo

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Estado de mediação: autismo e a circulação da informação no Censo 1.2. PERIÓDICO/EVENTO XXI ENANCIB 1.3. AUTORES VALLE, Fernanda; QUINTSLR, Marcia; SALDANHA, Gustavo. 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2021 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA GT5 - Política e Economia da Informação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Abordagem qualitativa e quantitativa Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Valle, Quintslr e Saldanha (2021).

APÊNDICE H - Resultados referente ao artigo A biblioteca universitária e a comunidade acadêmica autista: uma revisão integrativa sobre inclusão

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO A Biblioteca Universitária e a Comunidade Acadêmica Autista: uma revisão integrativa sobre inclusão 1.2. PERIÓDICO/EVENTO Informação e Informação 1.3. AUTORES CARON, Mariana Sehorini; MOMBELLI, Monica. 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2023 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE); Universidade de São Paulo (USP) 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA Mediação e Gestão da Informação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Revisão Integrativa Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Caron e Mombelli (2023).

APÊNDICE I - Resultados referente ao artigo Ética discursiva, inclusão do autismo e inteligência artificial: uma proposta de aplicativo

1. IDENTIFICAÇÃO 1.1. TÍTULO Ética discursiva, Inclusão do Autismo e Inteligência Artificial: uma proposta de aplicativo 1.2. PERIÓDICO LOGEION - Filosofia da Informação 1.3. AUTORES PAIVA, Bárbara Gabriella da Silva; CARNEIRO, Rosalvo Nobre 1.4. IDIOMA Português (Brasil) 1.5. ANO DE PUBLICAÇÃO 2024 2. INSTITUIÇÃO SEDE DO ESTUDO Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UFRN) 3. TIPO DE PUBLICAÇÃO Artigo 4. ÁREA DO CONHECIMENTO Ciência da Informação 5. LINHA DE PESQUISA Filosofia da Informação 6. CARACTERÍSTICAS METODOLÓGICAS DO ESTUDO Pesquisa qualitativa com levantamento bibliográfico Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Paiva e Carneiro (2024).

Editado por

  • Editor-chefe
    Thiago Henrique Bragato Barros

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Jan 2025
  • Aceito
    01 Abr 2026
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