DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PUBLICAÇÃO CONTÍNUA PARA O TRABALHO DOS EDITORES DE PERIÓDICOS CIENTÍFICOS

Rosângela Gavioli Prieto Émerson de Pietri Sobre os autores

A Revista Educação e Pesquisa iniciou, no ano de 2018, a divulgação de manuscritos no formato de publicação contínua. Essa mudança em sua prática editorial, deixando de organizar em números os textos publicados, para localizá-los num volume único anual, mostrou-se um trabalho desafiador, mas bastante positivo, quando se considera a agilidade que esse modo de organização possibilita. A publicação de um texto com editoração finalizada não precisa mais aguardar o momento do trimestre (no caso, a periodicidade anterior de Educação e Pesquisa) em que está previsto o lançamento de um novo número do periódico.

As vantagens da publicação contínua são evidentes nas possibilidades que oferece para a divulgação dos trabalhos publicados. Uma vez que a publicação de novos artigos pode se realizar com maior agilidade, a distribuição de informes com os artigos mais recentemente publicados se apresenta mais constante, o que contribui para incrementar a visibilidade do periódico e, assim, sua recepção pelos potenciais leitores.

O formato de volume único contínuo necessita de um processo de monitoramento do fluxo de publicação diverso do utilizado para a divulgação periódica em números. Neste formato, com uma quantidade mínima pré-estabelecida de manuscritos para compor seu conjunto, a construção das proporções de artigos a serem publicados que estejam vertidos ao inglês, que sejam provenientes de autores estrangeiros, que representem proveniência mais bem equânime de regiões diferentes do país, ou ainda que não configurem endogenia, por exemplo, se faz de modo mais controlável. Na publicação contínua, é preciso o monitoramento constante das proporções a serem publicadas de artigos em relação a cada um desses quesitos.

Outro desafio que se apresenta refere-se à possibilidade de agrupamento dos trabalhos a serem publicados em seções que os aproximem. Dada a imprevisibilidade das submissões, principalmente num periódico que não impõe restrições de ordem temática à submissão de trabalhos desde que tratem de questões educacionais, torna-se difícil estabelecer previamente conjuntos que possam acondicionar manuscritos que se aproximem em seus temas e ou objetos. É preciso considerar nesse caso que as seções a comporem um determinado volume têm que ser definidas a priori, quando, no final de cada ano, se entrega à SciELO o planejamento editorial do ano seguinte. Na transição para a publicação contínua, Educação e Pesquisa constituiu duas seções temáticas: uma, intitulada Educação Superior, se mostrou profícua dada a quantidade de artigos sobre o tema já publicados em ahead of print. Nesse caso, foi o repositório de trabalhos aguardando publicação definitiva o que favoreceu o estabelecimento da seção. A outra seção temática, Seção Homenagem, foi publicada, no ano de 2018, em reconhecimento ao trabalho do professor Celso de Rui Beisiegel, professor emérito da Faculdade de Educação da USP, falecido nesse ano. Além dessas novas seções, Educação e Pesquisa mantém em seu volume a publicação de entrevistas, em número correspondente ao que se publicava no formato não contínuo.

O principal desafio da publicação contínua, portanto, parece ser a obtenção de meios para lidar com o que é da ordem do provável, num contexto em que se pretende não haver acúmulo de textos aguardando publicação, o que dificulta o desenvolvimento de práticas de edição fundamentadas na gestão de repositórios. Assim, as políticas e práticas editoriais precisam elaborar novos meios de produção de regularidades, de ordenações, de mecanismos de controle de publicação e distribuição de textos, diferentes daqueles que se constituíram historicamente na cultura do impresso (FOUCAULT, 1996FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996 [1971]. [1971]). As unidades materiais de publicação e seus suportes (como a revista, o livro), cujas características são em parte emuladas no mundo digital, em parte tensionadas pelos recursos que a textualidade eletrônica apresenta (RIBEIRO, 2006RIBEIRO, Ana E. Texto e leitura hipertextual: novos produtos, velhos processos. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 9, n. 2, p. 15-32, jul./dez. 2006.), bem como as noções de autoria, de obra, de editor, de edição etc., se modificam sob os efeitos que esses novos recursos promovem (cf.; CHARTIER, 2002CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002.).

A publicação contínua posiciona os responsáveis pelo processo editorial ao constante questionamento sobre os modos de constituição e de funcionamento dessas noções, dado que as categorias com que se trabalha na cultura impressa são desestabilizadas pelas novas condições e possibilidades do mundo digital (cf.; MARCUSCHI, 2003MARCUSCHI, Luiz A. A questão do suporte dos gêneros textuais. Língua, Linguística e Literatura, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 9-40, 2003.; ALMEIDA, 2008ALMEIDA, Leonardo P. de. A função-autor – examinando o papel do nome do autor na trama discursiva. Fractal: Revista de Psicologia, Niterói, v. 20, n. 1, p. 221-236, jan./jun. 2008.). Há, assim, a necessidade de aprimoramento do trabalho editorial, pois é preciso lidar mais frequentemente com o que é do plano do circunstancial, do imprevisto, da novidade.

O meio digital também favorece o processo de difusão do periódico, dadas as ferramentas que estão disponíveis para a realização desse trabalho. Contudo, é necessária uma atenção mais presente para a gestão das atividades de divulgação da revista, que solicita outro tipo de assiduidade para a informação pública sobre suas ações, mas dispõe, também, de um diversificado conjunto de recursos para esse trabalho, como a publicação de press releases, de posts em redes sociais, em páginas da internet, blogs, listas de fóruns, associações, instituições de pesquisa, de ensino e de cultura etc. Nesse processo, também, é preciso responder à dinâmica que a publicação contínua dispõe, o que requer agilidade nas ações.

A não previsibilidade que se estabelece no processo de publicação contínua quanto à quantidade de artigos que se apresentam disponíveis e aos momentos de divulgação de novos manuscritos apresenta desafios para a gestão financeira do periódico. A administração da revista Educação e Pesquisa se faz não mais com o orçamento dos custos para a contratação e realização de serviços de edição em prazos pré-fixados, mas passa a demandar estimativas sobre a quantidade de serviços necessários para a publicação futura de artigos, muitas vezes pautadas nas médias de publicação anteriores.

Assim, é preciso uma disciplina diferente para a obtenção e administração dos recursos financeiros, de modo a garantir que sejam alocados suficientemente para cada um dos diferentes serviços que o processo de edição editorial em geral requer, como a revisão de forma e de língua, a diagramação, a marcação XML, observando-se ainda as especificidades de tempo de realização e de custos que cada um desses serviços apresenta. Essa gestão de recursos se torna ainda mais desafiadora no caso de revistas que dependem de financiamento com recursos provindos da instituição a que está vinculada, e/ou dos auxílios obtidos em resposta a editais de agências de fomento: num caso e no outro, é necessário trabalhar com a imprevisibilidade de ser ou não contemplado com recursos para o processo editorial.

O ano de 2018 representa, portanto, para a revista Educação e Pesquisa, um período de novas descobertas e de aprendizados sobre como trabalhar com o processo de publicação contínua, o que propõe muitos desafios e possibilidades para sua equipe editorial. O resultado desse trabalho é o que se apresenta neste volume 44, em que a diversidade própria ao campo educacional se mostra em sua relevância científica e em sua contribuição social, considerando-se que os trabalhos divulgados no periódico informam novas pesquisas, mas também políticas públicas e processos pedagógicos em instituições educacionais, dentre outros impactos sociais que excedem o que é capturado pelas métricas de avaliação de periódicos baseadas em quantidade de citações.

Esperamos que os manuscritos publicados em Educação e Pesquisa continuem favorecendo o desenvolvimento de ações de educação para a equanimidade e a construção de um mundo mais justo, em que a pluralidade de ideias seja o fundamento de uma sociedade mais solidária.

REFERÊNCIAS

  • ALMEIDA, Leonardo P. de. A função-autor – examinando o papel do nome do autor na trama discursiva. Fractal: Revista de Psicologia, Niterói, v. 20, n. 1, p. 221-236, jan./jun. 2008.
  • CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita São Paulo: Unesp, 2002.
  • FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996 [1971].
  • MARCUSCHI, Luiz A. A questão do suporte dos gêneros textuais. Língua, Linguística e Literatura, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 9-40, 2003.
  • RIBEIRO, Ana E. Texto e leitura hipertextual: novos produtos, velhos processos. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 9, n. 2, p. 15-32, jul./dez. 2006.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Nov 2018
  • Data do Fascículo
    2018
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