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In Memoriam: Prof. Dr. Manuel Molina Ortega (1931 - 1999)

In Memoriam

Prof. Dr. Manuel Molina Ortega (1931 - 1999)1 1 - Parte do conteúdo da Palestra de Abertura do 13 º Encontro Regional de Química (21-26/10/01, Araraquara, SP) proferida em 21/10/01.

Cristo Bladimiros Melios

Departamento de Química Analítica - Instituto de Química - UNESP - 14.801-970 - Araraquara - SP - Brasil

Durante o ano de 1999, dois ex-docentes do Instituto de Química da UNESP, de grande proeminência, faleceram. Um deles foi o Prof. Dr. Waldemar Saffioti, falecido em Abril. O Prof. Saffioti foi homenageado naquele mesmo ano, na Sessão Inaugural do 12º Encontro Regional de Química, realizado em Outubro, em Ribeirão Preto, SP. Coube a nós a honra, na ocasião, de invocar o obituário do Prof. Saffioti, anteriormente publicado (Massabni, A.C., Melios, C.B., Franco, D.W., Quím. Nova, 22, 630, 1999; An. Assoc. Bras. Quím., 48 (3), iiii, 1999), além de fornecer outras informações, oriundas do longo convívio com o referido Mestre. Surge agora a oportunidade, talvez ímpar, de homenagear o segundo docente falecido em 1999, que é o Prof. Dr. Manuel Molina Ortega.

É uma feliz coincidência caber a nós, novamente, render homenagem a mais um estimado docente do antigo quadro do nosso Instituto. Tentaremos trazer à tona a sua imagem aos seus ex-alunos, colegas e amigos aqui presentes. Aos que não o conheceram, temos a imensa satisfação de proporcionar-lhes esta apresentação póstuma.

O Prof. Molina (como era mais conhecido) nasceu em Granada (Espanha), em 15 de Julho de 1931, tendo falecido em São Luís do Maranhão, em 16 de Julho de 1999, um dia, portanto, após completar 68 anos de idade.

O Prof. Molina graduou-se Bacharel em Química pela Faculdade de Ciências da Universidade de Zaragoza, Espanha, em 1959. De 1960 a 1961 foi Professor Assistente da Cadeira de Físicoquímica, nessa mesma Faculdade. Em 1961 emigrou para o Brasil e nesse mesmo ano foi contratado pela Pirelli S/A, Seção de Pneumáticos, situada em Capuava-SP, onde permaneceu até o final de 1964, tendo alcançado o cargo de Vice-Chefe do Serviço Tecnológico.

No final de 1964 transferiu-se para Araraquara, sendo inicialmente contratado pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras como Professor Visitante. A partir de Março de 1965 foi contratado como Instrutor, passando a fazer parte do quadro da Faculdade, lotado no Departamento de Química, Área de Química Analítica.

A partir de 1965, foi lentamente montando, a duríssimas penas, o que culminou como Departamento de Química Analítica, em Abril de 1977, pouco tempo após a fundação da UNESP, ocorrida em Janeiro de 1976.

O Prof. Molina defendeu a sua Tese de Doutoramento em Julho de 1970, na extinta FFCL Araraquara. A sua Tese versou sobre Complexos do Íon Prata (I) com Homólogos Piridínicos. O seu Concurso de Livre-Docência realizou-se em meados de 1980, no IQ/UNESP. A Tese correspondente versou sobre "Uma Proposta de Algoritmo para a Investigação de Complexos em Solução a Partir de Dados Espectrofotométricos".

Após concurso público foi investido no cargo de Prof. Titular, a partir de 1984. No 1º Semestre de 1987 estagiou no Departamento de Química Analítica da Universidade de Córdoba onde realizou trabalhos em colaboração com o internacionalmente conceituado Prof. Miguel Valcarcel.

Participou de numerosos Congressos no País e no exterior. Sua obra científica é atestada por mais de 90 publicações, incluindo periódicos nacionais, internacionais e trabalhos completos publicados em Anais, além de cerca de 140 comunicações em conclaves, nacionais e internacionais. Exerceu por diversas vezes, o cargo de Chefe do Departamento de Química Analítica; foi Diretor do Instituto de Química da UNESP, de Novembro de 1980 a Novembro de 1984. Foi coordenador da Comissão Organizadora do VI ENQA, realizado em Araraquara, em Setembro de 1991. Atuou como assessor e consultor científico das principais Agências de Fomento à Pesquisa, em nível nacional. Pertenceu aos corpos editoriais de periódicos nacionais e estrangeiros, recebeu numerosas homenagens e fez parte de grande número de bancas examinadoras.

Aposentou-se do IQ/UNESP em Março de 1995. Nesse mesmo ano, juntamente com o Prof. Oswaldo Godinho, então recém aposentado do IQ/UNICAMP, dirigiu-se a São Luís do Maranhão, a convite do Departamento de Química da Universidade Federal localizada naquele Estado, com o objetivo precípuo de contribuir para implementação do curso de Pós-Graduação em Química Analítica daquela Universidade.

Infelizmente, no segundo semestre de 1996, o Prof. Molina foi acometido de derrame cerebral, o que fez reduzir substancialmente a sua atividade científica. Não desanimou, entretanto. Com o auxílio, principalmente, de intensa fisioterapia, quando já estava quase retornando às atividades normais, sofreu, em Setembro de 1997, novo derrame, bem mais grave que o anterior; este afastou-o, definitivamente, da militância científica. Parece, entretanto, oportuno salientar que, apesar do restrito tempo de trabalho dos Profs. Molina e Godinho na Universidade Federal do Maranhão, o desempenho dos mesmos foi de tal envergadura que, em Setembro de 1997, o corpo docente dessa Instituição reivindicava, para São Luís, o Encontro Nacional de Química Analítica previsto para 2001.

Com a enfermidade do Prof. Molina e posterior desistência do Prof. Godinho, o entusiasmo do pessoal de São Luís provavelmente arrefeceu e o Encontro Nacional de 2001 acabou realizando-se na UNICAMP, ficando para 2003 o conclave a efetivar-se em São Luís.

Inesquecíveis no Prof. Molina são a excelência de sua didática, a inteligência, a inspiração científica, o abraço afetuoso e a palavra amiga, quando mais necessários, o refinado senso de humor. A sua retidão de caráter ainda é paradigma para a grande maioria daqueles que privaram de sua convivência e amizade.

Foram suas características inquestionáveis a inegável habilidade experimental, a compulsão (e mesmo obsessão) no sentido de obter dados com a maior exatidão e precisão possíveis e a tentativa de automatização dos processos. Estabelece o dito popular que "ninguém é insubstituível". Nós comungamos, em grande parte, com a essência desse dito. Entretanto, é forçoso reconhecer também que certas pessoas são mais difíceis de substituir do que outras. Acreditamos que o Prof. Molina é uma dessas pessoas. A sua inspiração, ensinamentos e magnanimidade ainda permeiam e transpiram em muitos de nós que com ele convivemos por décadas.

À guisa desta homenagem ao Prof. Molina, a palestra de abertura que proferimos versou sobre um dos temas de sua preferência, manifestado ainda na década de 60, antes da conclusão do seu Doutoramento. O Prof. Molina acreditava no desenvolvimento experimental de procedimentos que permitissem conduzir a estimativas, ainda que bastante aproximadas, dos coeficientes de atividade individuais de íons metálicos, ligantes e, principalmente, dos complexos oriundos das interações entre metais e ligantes, em solução.

O sonho por ele acalentado durante muitos anos pôde ser concretizado próximo ao final de sua carreira no IQ/UNESP, quando condições favoráveis de diversas naturezas foram-lhe proporcionadas. Conseguiu, antes de seu falecimento, apesar de gravemente enfermo, ver os resultados de seus esforços, juntamente com os de seus colaboradores e orientados, na linha de pesquisas supra mencionada, publicados em periódicos de ampla circulação internacional, com a crítica de assessores especializados (consultar, por exemplo, Talanta, 43, 1689, 1697, 1996; Internat. J. Environ. Anal. Chem., 63, 295, 1997). Cerca de três meses após o seu falecimento, uma obra clássica da Química Analítica (Harris, D.C., "Quantitative Chemical Analysis", 5th. Ed., Freeman, New York, 1999, p. 183) conferia crédito ao sonho concretizado do Prof. Molina, exibindo e registrando resultados de um de seus trabalhos recentes. Em 2001, na segunda edição de obra mais avançada do mesmo autor ("Exploring Chemical Analysis", 2nd. Ed., Freeman, New York, 2001, p. 240), os mesmos resultados voltaram a ser estampados e reconhecidos.

Nós, que estivemos associados ao Prof. Molina em numerosas atividades acadêmicas, estamos profundamente gratos pela oportunidade que tivemos de conhecê-lo e de poder apreciar e testemunhar seus elevados ideais e padrões de qualidade em todas as fases de sua vida pessoal e profissional. Casou-se, em primeiras núpcias, com a Sra. Carmen Calvo Añon e, em segundas núpcias, com a Sra. Elaine C.M. Teixeira. Do primeiro casamento originaram-se quatro filhos e, do segundo, três.

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    - Parte do conteúdo da Palestra de Abertura do 13
    º Encontro Regional de Química (21-26/10/01, Araraquara, SP) proferida em 21/10/01.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      23 Abr 2003
    • Data do Fascículo
      2002
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