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Apresentação - Educação rural em perspectiva comparada: políticas de escolarização, experiências formativas e trabalho docente (Brasil e México, Século XX)

Presentation - Rural education in comparative perspective: schooling policies, training experiences and teaching work (Brazil and Mexico, 20th Century)

Flávio Anício Andrade Raylane Andreza Dias Navarro Barreto Sobre os autores

RESUMO

O presente artigo apresenta os principais aspectos dos trabalhos de investigação que compõem o dossiê “Educação rural em perspectiva comparada: políticas de escolarização, experiências formativas e trabalho docente (Brasil e México, século XX)”. Neste sentido o que expomos são os resultados das investigações em torno do projeto desenvolvido em rede “Formação e Trabalho de Professoras e Professores Rurais no Brasil: RS, PR, SP, MG, RJ, MS, MT, MA, PE, PI, SE, PB, RO (décadas de 40 a 70 do século XX)”, bem como trabalhos desenvolvidos nesta mesma perspectiva, no México. A escolha pelos dois países está associada a seu protagonismo como polos de experimentação de novas políticas e iniciativas voltadas à expansão do acesso à educação formal no subcontinente latino-americano a partir da segunda metade do século XX. O resultado revela as incongruências da formação escolar rural que em certa medida foi guiada pelos acordos internacionais comandados pelos Estados Unidos, assim como se constituiu também como resultado de experiências singulares e locais.

Palavras-chave:
Educação rural; Formação docente; Trabalho docente; Brasil; México

ABSTRACT

This article presents the main aspects of the research works that make up the dossier “Rural education in a comparative perspective: schooling policies, training experiences and teaching work (Brazil and Mexico, 20th century)”. In this sense, what we present are the results of investigations around the project developed in a network “Training and Work of Rural Teachers and Teachers in Brazil: RS, PR, SP, MG, RJ, MS, MT, MA, PE, PI, SE , PB, RO (40’s to 70’s of the 20th century)”, as well as works developed in this same perspective, in Mexico. The choice of the two countries is associated with their role as centers of experimentation of new policies and initiatives aimed at expanding access to formal education in the Latin American subcontinent from the second half of the 20th century onwards. The result reveals the incongruities of rural schooling, which to a certain extent was guided by international agreements commanded by the United States, as well as constituted as a result of singular and local experiences.

Keywords:
Rural education; Teacher training; Teaching work; Brasil; México

RESUMEN

Este texto presenta los principales aspectos de los trabajos de investigación que componen el dossier “La educación rural en perspectiva comparada: políticas de escolarización, experiencias de formación y trabajo docente (Brasil y México, siglo XX)”. En este sentido, lo que presentamos son los resultados de investigaciones en torno al proyecto desarrollado en red “Formación y Trabajo de Profesores y Maestras Rurales en Brasil: RS, PR, SP, MG, RJ, MS, MT, MA, PE, PI, SE, PB, RO (décadas de los 40 a los 70 del siglo XX)”, así como trabajos desarrollados en esta misma perspectiva, en México. La elección de los dos países está asociada a su papel como centros de experimentación de nuevas políticas e iniciativas destinadas a ampliar el acceso a la educación formal en el subcontinente latinoamericano a partir de la segunda mitad del siglo XX. El resultado revela las inconsistencias de la escolarización rural, que en cierta medida estuvo guiada por acuerdos internacionales comandados por Estados Unidos, así como también fue un resultado de experiencias singulares y locales.

Palabras clave:
Educación rural; Formación docente; Trabajo docente; Brasil; México

Introdução

Ao propor uma análise dos processos através dos quais a relação entre o mundo rural e o mundo urbano foi materializada historicamente e apropriada literariamente na Inglaterra ao longo da modernidade, Raymond Williams (2011WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade na História e na Literatura. São Paulo: Cia. das Letras, 2011.) chama a atenção para a complexidade não apenas daquela relação, mas também das próprias formas assumidas pelas relações sociais e experiências da vida nas áreas rurais daquele país.

De acordo com o autor, à medida que a cidade foi se tornando o polo dinâmico da vida social nos países onde avançou a industrialização, foi também sendo produzida uma visão do rural definido pela falta. Dessa forma, em contraste com a experiência da vida citadina, a vivência nas áreas mais interioranas se caracterizava pela simplicidade dos laços individuais e coletivos e pelo signo da escassez dos meios materiais e culturais à disposição das populações ali residentes. Nesse sentido a proeminência dos processos sociais de natureza urbana, bem como a disseminação concomitante daquela concepção de um mundo rural que, como objeto de estudo, oferecia uma riqueza de artefatos muito menor, resultou em uma diminuta produção de trabalhos de investigação voltados para o entendimento dos fenômenos afeitos ao universo do rural.

Este mesmo fenômeno, ressalvadas as suas diferenças, pode ser percebido quando levamos em conta a produção no campo da historiografia da educação no Brasil. Com efeito, há aí uma significativa preponderância dos estudos que tomam a realização dos processos de natureza educacional nas áreas urbanas em detrimento das rurais. Fato demonstrado nos trabalhos dedicados ao levantamento do estado da arte referentes à educação rural de Damasceno e Bezerra (2004DAMASCENO, Maria; BEZERRA, Bernadete. Estudos sobre educação rural no Brasil: estado da arte e perspectivas. Educação e Pesquisa, vol. 30, n° 1, p. 73-89, jan.-abr. 2004.) e Ávila (2013ÁVILA, Virgínia. História do Ensino Primário Rural em São Paulo e Santa Catarina (1921-1952) - uma abordagem comparada. . Tese (Doutorado em Educação Escolar) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Araraquara, 2013.), que demonstram, dentre outros aspectos, como eram e, podemos assegurar como proponentes deste dossiê, como ainda são poucos os estudos sobre tal temática em comparação com os dedicados à escolarização urbana desde antes do século XX.

Da mesma forma, como já indicado por Werle (2007WERLE, Flávia (Org.). Educação Rural em Perspectiva Internacional. Ijuí: UNIJUÍ, 2007.) e Civera, Alfonseca e Escalante (2011CIVERA, Alicia; ALFONSECA, Juan; ESCALANTE, Carlos (Orgs.). Campesinos y Escolares: La construcción de la escuela en el campo latino-americano. Ciudad de Mexico: Porrua Miguel Ángel, 2011.), responsáveis pela organização de obras que estão entre as pioneiras na busca de uma abordagem de viés mais comparativo entre as diversas realidades nacionais, aquela mesma escassez se repete no quadro da produção historiográfica concernente à área da educação existente nos demais países de expressão latina do continente americano.

Com vistas a entender o fenômeno da educação rural brasileira e consequentemente suprir tal lacuna historiográfica no Brasil é que um grupo de pesquisadores de diferentes instituições brasileiras vem se dedicando, há alguns anos, ao estudo dos aspectos centrais do processo de expansão da educação rural no Brasil em perspectiva histórica. Um dos frutos desta colaboração consistiu no projeto “Formação e Trabalho de Professoras e Professores Rurais no Brasil: RS, PR, SP, MG, RJ, MS, MT, MA, PE, PI, SE, PB, RO (décadas de 40 a 70 do século XX)”, financiado pelo CNPq, no âmbito do qual nasceu também uma aproximação com pesquisadores de outros países latino-americanos, em especial atuantes em instituições universitárias mexicanas. A presente proposta de Dossiê Temático representa justamente uma iniciativa de divulgação de alguns dos resultados deste trabalho colaborativo.

O conjunto de trabalhos ora reunidos em forma de dossiê, igualmente se situa em uma linha de continuidade em relação aos já mencionados, bem como àquele coordenado por Pérez e López (2009PÉREZ, Tereza; LÓPEZ, Oresta. (Coord.). Educación Rural em Iberoamérica: experiencia histórica y construcción de sentido. Las Palmas: Anroart Ediciones, 2009.) que, vale enfatizar, representam importantes iniciativas no sentido do alargamento do horizonte compreensivo relativo à história da educação rural, tomando por referência as experiências históricas de muitas das nações latino-americanas.

Consideramos, portanto, que adquire particular relevância o esforço de análise de algumas das manifestações dos processos de escolarização que ao longo do século XX se tornaram marcantes nestes dois países, os quais guardam entre si elementos de aproximação que permitem buscar compreendê-los como partes de uma totalidade. Tais processos se realizaram condicionados por fatores externos e internos particulares, implicando ritmos e características diversificadas, porém, sendo passíveis de aproximação, dadas certas similitudes apresentadas pelo processo de desenvolvimento vivenciado por Brasil e México ao longo do século passado.

Sobre o Brasil e o México como lócus de análise

Na gênese do pensamento educacional brasileiro, a partir fundamentalmente da criação do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), a presença de uma perspectiva mais internacionalista na abordagem das questões afeitas ao campo da educação escolar e, consequentemente, o interesse pelas realidades nacionais dos nossos vizinhos de continente aparecia como parte de um esforço de enraizamento da escola no território nacional e, portanto, de maior efetivação do direito à educação para a maioria da população do país.

Tal interesse foi igualmente influenciado fortemente pelas iniciativas da recém-criada Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e pela nova importância assumida pelos órgãos transnacionais no continente americano, na esteira do redirecionamento da política externa adotada pelos Estados Unidos da América no contexto da configuração geopolítica que emerge após o encerramento da Segunda Guerra Mundial. Tais fenômenos históricos condicionaram o protagonismo de Brasil e México como polos de experimentação de novas políticas e iniciativas voltadas à expansão do acesso à educação formal no subcontinente latino-americano a partir da segunda metade do século XX. (BARRETO; SIQUEIRA, 2020BARRETO, Raylane; SERRA, Áurea. Sobre a formação de professores rurais no Brasil (1940-1970): O que as memórias revelam. In: CHALOBA, Rosa Fátima; CELESTE FILHO, Macioniro; MESQUITA, Ilka. (Orgs.). História e Memória da Educação Rural no século XX. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2020, v. 1, p. 399-438.)

Além de motivações de natureza geopolítica, a escolha destas duas nações como sedes dinâmicas do movimento de inovação educacional então disseminado por diversos países latino-americanos e caribenhos se deveu ao fato de ambos os países, Brasil e México, possuírem um histórico relativamente consistente de ações e programas direcionados às respectivas populações rurais, que constituíam, igualmente, a maior parte dos habitantes na quase totalidade dos países da América.

Há que se ressaltar que o século passado presenciou, desde suas primeiras décadas, um movimento de estreitamento dos laços entre o Brasil e as demais nações latino-americanas. Esse movimento sofreu uma solução de continuidade após o golpe civil-militar de 1964 e foi retomado com maior constância em período recente de nossa história. Um dos reflexos desta retomada no campo das ciências da educação foi o surgimento de eventos e iniciativas de colaboração que propiciassem um maior entendimento e aproximação entre os diversos esforços de compreensão da realidade educacional da América Latina, a qual, sabemos, guarda muito mais semelhanças que diferenças na sua materialização nos países do continente.

No entanto, vivemos, novamente, a ascensão de uma visão oficial que propugna virar as costas para a herança comum das nações latino-americanas não somente no campo do que poderíamos denominar uma identidade cultural comum, mas também em relação ao aprendizado frente às experiências realizadas no campo da educação. Por isso acreditamos que o esforço de aproximação entre pesquisadores brasileiros e mexicanos, que têm a história da educação rural como objeto privilegiado de estudo, representa não apenas a reafirmação da necessidade de aprofundamento do trabalho coletivo para além das fronteiras de cada um dos nossos países, como oferece importante contribuição no sentido da valorização de um passado compartilhado cujo conhecimento pode contribuir para a melhoria das práticas e políticas destinadas à educação das populações rurais no Brasil.

Neste sentido, o Dossiê Temático ora apresentado se propõe a oferecer uma oportunidade de compreensão de algumas das manifestações particulares do processo de formação em sentido amplo das populações rurais do Brasil e México, buscando desvelar algumas das aproximações e distanciamentos presentes naquele processo. Dessa forma, os artigos que compõem o referido Dossiê abordam as iniciativas de formação voltadas às comunidades rurais no Brasil e no México, as formas assumidas pela educação escolar e pelo trabalho docente em diferentes espaços e tempos do território mexicano, a formação de docentes para a escola primária rural no Brasil, bem como a mútua influência das experiências formativas voltadas à educação das populações rurais nos dois países.

Pretende-se assim contribuir para o aprofundamento das análises e interpretações relativas ao tema da educação rural a partir das experiências nacionais que, apesar de apresentarem características particulares, guardam entre si significativos pontos de contato. Para citar um destes pontos, registramos que o desenrolar das políticas e iniciativas de formação escolar das populações rurais mexicanas se constituiu em referência importante para a implantação de uma ação de mesma natureza no Brasil. Ressaltam-se também, como já indicado, a significativa presença da UNESCO tanto no contexto da experiência mexicana quanto brasileira e o papel central ocupado por Manoel Bergstrom Lourenço Filho na organização das políticas voltadas à educação nas áreas rurais, igualmente influenciadas pelo que foi realizado no México.

Há que se destacar ainda que um dos pontos de contato entre os processos de transformação das sociedades destes dois países pode ser buscado nas experiências de produção da escola pública. Esta última tendo passado, no período citado, por um intenso movimento de expansão no contexto da mudança do eixo dinâmico da economia da agricultura para a indústria. (ANDRADE, 2014ANDRADE, Flávio. Escola como agência de civilização: projetos formativos e práticas pedagógicas para a educação rural no Brasil (1946-1964). História da Educação. Porto Alegre: ASPHE, 2014, v. 18, p. 93-108., 2020). Com efeito, assim como ocorreu na experiência histórica inglesa analisada por Raymond Williams, os dois países em questão passaram por um significativo processo de urbanização e industrialização que impactou sua estrutura social, política, cultural e econômica. De igual forma, tais países presenciaram seus respectivos governos colocarem em marcha, sob variadas formas, um esforço de formação das suas respectivas populações rurais.

Neste momento em que se reaviva o interesse pelo desenvolvimento dos processos educacionais nos países que dividem conosco não apenas um mesmo continente, mas fundamentalmente uma história marcada pelo passado colonial e suas marcas ainda vívidas, reafirmamos que o presente dossiê oferece uma contribuição ao aprofundamento do esforço de compreensão das similitudes e diferenças apresentadas em alguns aspectos particulares assumidos pelo processo de formação das populações rurais no Brasil e no México ao longo do século XX.

Há que se registrar também que vivemos tempos em que a construção da narrativa histórica baseada em um esforço consciencioso de pesquisa de caráter científico se transformou em um ato de resistência contra o obscurantismo e a depreciação do trabalho realizado pelos estudiosos do campo das ciências humanas em geral e, aqui em particular, do campo da história da educação que, aos olhos de muitos cientistas das chamadas áreas duras e da maioria quase absoluta dos políticos que decidem as fatias do orçamento destinadas as ciências e tecnologias, é inservível.

Nesse sentido e tendo em vista tais considerações é que propomos o presente dossiê tanto como uma contribuição para o alargamento do campo de estudos da educação rural, quanto como esforço de diálogo entre pesquisadores da área no Brasil e no México.

Sobre os artigos que compõem o dossiê

O artigo “La casa del estudiante indígena y la educación rural en México (1925-1932)”, de autoria de Marco Antonio Calderón Mólgora, nos apresenta um estudo do internato que abarcou em seus muros diversas etnias indígenas e que contou também com uma escola normal indígena. O texto destaca o modo como a incorporação dos indígenas à cultura nacional oficializada foi pensada e executada pelo Estado pós-revolucionário mexicano através da escola, o que resultou em significativas mudanças culturais.

O artigo “La construcción de sentidos en torno de la escuela primaria en localidades rurales de Cerro de San Pedro, México (1926-1964)”, de autoria de René Medina Esquivel, faz uso de fontes orais e escritas a fim de abordar não somente os processos sociais e econômicos que reverberaram na criação e funcionamento de escolas primárias durante o período anunciado, mas buscar contribuir com a preservação da memória e da identidade da instituição escolar na região tomada como objeto do seu estudo.

Rosa Elena Salazar Meléndez, por sua vez, no artigo “Entre montañas y nogales: las representaciones de la Escuela Primaria Rural ‘Niños Héroes’ del Pueblito, Santa María del Río, México”, trata das representações de professores, estudantes e seus pais acerca de uma escola rural criada em 1933 no Estado de San Luís Potosí, analisando seu lugar no quadro das politicas educativas mexicanas no período.

O artigo “A influência mexicana na educação brasileira: as Missões Culturais de Educação como modelo para as Missões Rurais de Educação”, de autoria de Flávio Anício Andrade, busca apontar o elo entre experiências formativas criadas nos dois países. Ao tratar das intenções e modus operandi de um tipo particular de atuação governamental sobre as populações rurais, o autor evidencia as similitudes entre os dois países e como tais Missões visaram a irradiação de um novo padrão de vivência econômica, política e social baseado no associativismo e na criação de espaços de organização da vida política em nível local.

Também com o intuito de mostrar as relações entre Brasil e México no campo da educação rural, temos o artigo de Ilka Miglio de Mesquita e Rony Rei do Nascimento Silva intitulado “Introduzir-se como observador da educação rural: o itinerário, o calendário e o mapa de Lourenço Filho no México (1947-1951)”. A partir de fontes de natureza diversa, os autores analisam as duas viagens de Manoel Bergstrom Lourenço Filho ao México no bojo das iniciativas encampadas pela Unesco e que envolveram missões, congressos, recomendações e documento norteadores. As conclusões a que chegam perpassam não apenas as inciativas de Loureço Filho, mas igualmente como o que ele apreendeu nas missões foi incorporado às práticas brasileiras em prol da educação rural.

A partir de um estudo de caso no Estado do Paraná, sul do Brasil, as autoras Thais Bento Faria e Analete Regina Schelbauer, como fruto de investigação que tomou por base teses e dissertações sobre os Cursos Normais Regionais paranaenses referentes aos anos de 1946 a 1968, buscaram no artigo “Diálogos entre a capital e o interior: singularidades da formação de professores rurais no Paraná” destacar a dualidade entre o prescrito e o vivido e entre estratégias e táticas na formação de professores rurais, bem como o protagonismo de dois sujeitos históricos importantes no processo de interiorização da formação de professores no Estado, principalmente no âmbito da formação para o magistério rural: Erasmo Pilotto e Diva Vidal, para além de “professores anônimos” que foram decisivos naquele processo.

Com o mesmo propósito de tratar da formação de professores no Brasil, desta feita no nordeste do Brasil, Maryluze Siqueira e Raylane Navarro Barreto analisam as “Estratégias e táticas na formação do professor primário rural em Sergipe (1946-1963)” e neste artigo as autoras trazem à tona o quanto as singularidades das recomendações oficiais podem destoar da práticas, compostas por uma pluralidade de aspectos que em muito destoam das normativas. Fazendo uso de fontes escritas e orais, as autoras expõem como as estratégias do poder público são pensadas e operacionalizadas bem assim como elas foram de fato postas em prática, uma vez que estavam condicionadas por imposições políticas locais e condicionantes pessoais.

Nilce Vieira Campos Ferreira, no artigo “Magistério rural em uma Escola Técnica Federal brasileira (1954-1961)” expõe o resultado da investigação sobre o curso de magistério rural ofertado na Escola de Magistério Rural Licurgo Leite, em Uberaba, no Estado de Minas Gerais, analisando não somente a formação profissionalizante proposta pelo curso, mas sua relação direta com as determinações do Ministério da Agricultura Brasileiro de incluir a formação das mulheres como parte do esforço de educação das populações rurais.

Com caráter de balanço de uma das instituições simbolicamente mais representativas do esforço de educação das populações das áreas rurais no Brasil, fecha este dossiê o artigo “A efêmera trajetória das Escolas Normais Rurais no Brasil” de autoria de Rosa Fátima de Souza Chaloba. O estudo, que se vale da historiografia produzida acerca do tema, deixa evidente as motivações para a criação das Escolas Normais Rurais e quais as causas da sua extinção. Enfatiza assim a necessidade de se entender os sentidos atribuídos à formação do magistério rural naquelas instituições, bem como os limites de seu alcance.

Conclusão

Acreditamos que o conjunto de textos aqui selecionados contribui para oferecer uma perspectiva nacional e latino-americana do processo de formação das populações rurais de Brasil e México, tanto através da educação escolar formalizada, quanto de iniciativas de caráter mais amplo, mas que tomaram a escola como uma instituição central. Isto porque os artigos que compõem este Dossiê foram produzidos visando pensar as práticas e narrativas históricas a partir de tempos e espaços que desvelam experiências brasileiras e mexicanas, as quais denotam algumas das formas como o tema da educação rural foi ganhando tônus em cada um dos países selecionados. Entendemos que se pode pensar o termo “educação rural” para além da referência geográfica e cultural, mas possivelmente também como uma categoria de análise que permite mapear, estruturar, analisar e interpretar as situações, os acordos, os sujeitos e as instituições escolares que a configuram.

Por fim, não podemos deixar de apontar a educação rural como um campo de atuação a partir do qual os governos brasileiro e mexicano - eventualmente guiados pelos acordos internacionais que firmaram com governos de outros países ou organismos internacionais - intentaram implantar um modelo de estruturação e configuração da vida e do trabalho das populações das áreas rurais no sentido da extensão do direito à educação.

Dessa forma, mesmo que a escola rural não tenha se configurado potencialmente como um lugar de emergência de emancipação do homem e da mulher do campo no contexto daquelas iniciativas oficiais, como nos mostram Barreto e Serra (2020BARRETO, Raylane; SERRA, Áurea. Sobre a formação de professores rurais no Brasil (1940-1970): O que as memórias revelam. In: CHALOBA, Rosa Fátima; CELESTE FILHO, Macioniro; MESQUITA, Ilka. (Orgs.). História e Memória da Educação Rural no século XX. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2020, v. 1, p. 399-438.), de todo modo a educação rural foi uma alternativa de formação escolar e deve ter suas páginas registradas na historiografia da educação. Isto porque, apesar de todos os condicionamentos históricos que perpassam a sua criação e existência, as escolas rurais foram, para muitos cidadãos e cidadãs brasileiros e mexicanos, as únicas formas de acesso à educação escolar ao longo do século XX.

REFERÊNCIAS

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  • ANDRADE, Flávio. Escola como agência de civilização: projetos formativos e práticas pedagógicas para a educação rural no Brasil (1946-1964). História da Educação. Porto Alegre: ASPHE, 2014, v. 18, p. 93-108.
  • ÁVILA, Virgínia. História do Ensino Primário Rural em São Paulo e Santa Catarina (1921-1952) - uma abordagem comparada. . Tese (Doutorado em Educação Escolar) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Araraquara, 2013.
  • BARRETO, Raylane; SIQUEIRA, Maryluze. As recomendações da UNESCO e a educação rural em Sergipe (1940-1960). Cadernos de Pesquisa. São Luís: EdUFMA, 2020, v. 27, p. 41-69.
  • BARRETO, Raylane; SERRA, Áurea. Sobre a formação de professores rurais no Brasil (1940-1970): O que as memórias revelam. In: CHALOBA, Rosa Fátima; CELESTE FILHO, Macioniro; MESQUITA, Ilka. (Orgs.). História e Memória da Educação Rural no século XX. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2020, v. 1, p. 399-438.
  • CIVERA, Alicia; ALFONSECA, Juan; ESCALANTE, Carlos (Orgs.). Campesinos y Escolares: La construcción de la escuela en el campo latino-americano. Ciudad de Mexico: Porrua Miguel Ángel, 2011.
  • DAMASCENO, Maria; BEZERRA, Bernadete. Estudos sobre educação rural no Brasil: estado da arte e perspectivas. Educação e Pesquisa, vol. 30, n° 1, p. 73-89, jan.-abr. 2004.
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  • WERLE, Flávia (Org.). Educação Rural em Perspectiva Internacional. Ijuí: UNIJUÍ, 2007.
  • WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade na História e na Literatura. São Paulo: Cia. das Letras, 2011.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Ago 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    31 Jan 2022
  • Aceito
    29 Mar 2022
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