Alfabetização de adultos, servidores da UFPR

Elinor Eschholtz Ribeiro

ARTIGOS DE DEMANDA CONTÍNUA

Alfabetização de adultos, servidores da UFPR

Elinor Eschholtz Ribeiro

Professora-Adjunta do Departamento de Métodos e Técnicas da Educação e Mestra em Educação pela UFPR. Relato de experiência

I - INTRODUÇÃO

O presente artigo descreve uma experiência em andamento, um projeto de pesquisa-ação, cuja trajetória tem evoluído à medida que se caminha em busca de formas mais adequadas a serem trabalhadas com a clientela do mesmo projeto. Pretende-se trazer uma contribuição concreta na área de alfabetização de adultos, principalmente no que se refere a procedimentos pedagógicos do cotidiano.

O projeto de pesquisa-ação surgiu de uma solicitação das Assistentes Sociais da PRAC (Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários) ao DMTE (Departamento de Métodos e Técnicas da Educação), para que se elaborasse um programa de alfabetização aos funcionários do R.U. (Restaurante Universitário) no sentido de minimizar problemas de trabalho e de relacionamento, que advinha do analfabetismo.

Para tal fim, um grupo de professores deste departamento aceitou o desafio e elaborou um projeto de ação. O programa de alfabetização teve início em outubro de 1984 com um grupo de sete cozinheiras do R.U., com os seguintes objetivos:

- favorecer o desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da extensão;

- integrar as atividades do DMTE com as necessidades da comunidade universitária;

- desenvolver estudos e pesquisas sobre a educação de adultos;

- proporcionar escolaridade aos servidores analfabetos da instituição, auxiliando-os, por meio de novos conhecimentos, a encontrar uma melhor forma de vida no trabalho e com seus familiares.

O programa previu, desde seu início, trabalho com estagiários - o que veio abrir uma nova alternativa para o desenvolvimento das Práticas de Ensino (Estágio Supervisionado), não só com adultos de Pedagogia mas das demais licenciaturas: Matemática, Ciências, Artes, Educação Física, Geografia, História, Inglês, Biologia, Língua Portuguesa, Psicologia, Ciências Sociais, etc. Desde o início procurou-se trabalhar a alfabetização interdisciplinarmente.

Para atender a essa clientela,a equipe enfrentou inúmeras dificuldades, principalmente quanto à formação deficiente dos professores para atuarem na alfabetização de adultos. Como é do conhecimento geral, naquela ocasião... (1984) tanto as escolas do Magistério, como a própria Universidade pouca atenção davam em seus currículos a esta área.

A fim de suprir estas dificuldades, houve a necessidade de muitos estudos, encontros, seminários e pesquisas relacionadas à educação de adultos, espeficacmente no campo da alfabetização.

II - CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O PROJETO DE ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS.

2.1 Procedimentos pedagógicos.

A partir dos relatos das próprias alfabetizandas, dos estudos e das pesquisas, a equipe envolvida no projeto pôde organizar procedimentos afins e integrados, que possibilitaram o delineamento de uma Metodologia mais adequada. A base cultural dos alfabetizandos foi o ponto de partida de seu processo de aprendizagem.

O trabalho tem sido realizado a partir do que existe, de concreto e do presente, ou daquilo que seja realmente significativo para os alfabetizandos. Não existe seqüência na escolha de palavras "difíceis e ou fáceis", o conteúdo emerge desse trabalho educativo, dispensando um programa previamente estruturado em detalhamento, baseado na pedagogia emergente da realidade dos alfabatizandos.

Tem-se adotado como forma de trabalho, principalmente:

- o diálogo que favorece uma troca contínua de papéis, no qual educador e educando se posicionam como sujeitos do ato do conhecimento;

- a troca de experiências, quando o alfabetizando tem oportunidades de falar livremente, fazer descrições, analisar fatos e informações.

As atividades de expressão corporal, de teatro, de desenho, pintura, de modelagem e de música são vivenciadas como processo de ação criativo-reflexiva e possibilitam aos alunos a aprendizagem de novas leituras da realidade. Estes processos favorecem aos alfabetizandos o desenvolvimento de novas formas de comunicação com o mundo.

Visitas a museus, praças, pinacotecas, igrejas e outros locais, vêm acrescentar a seu universo experiências de aspectos culturais que lhe passavam despercebidos.

As unidades de trabalho são selecionadas em torno dos temas e fatos do momento, escolhidos pelo grupo de alfabetizandos ou pelos professores, conforme as necessidades.

Debate-se o assunto, trabalha-se o conteúdo, faz-se levantamento de palavras e são montadas frases e, daí, parte-se para o texto - que pode ser individual ou grupal.

De início, o texto aparece oralmente e, na medida do aprendizado da escrita, ele vai surgindo graficamente em todas as áreas.

Como exemplo de uma unidade trabalhada, veja o artigo Alfabetizando adultos numa perspectiva interdisciplinar: a prática do cotidiano, publicado também nesta edição.

2.2. Concepções e finalidades da educação de adultos.

A educação de adultos apresenta concepções diferenciadas de acordo com a realidade, natureza e características de cada clientela e enfoques de diversos autores.

Para PINTO (1984), "A educação diz respeito à existência humana em toda a sua duração e em todos os seus aspectos". Desta maneira justifica-se lógica e sociologicamente o problema da educação de adultos.

Este mesmo autor explicita alguns caracteres da educação: a educação é um processo, um fato existencial, consciente e social, um fenômeno cultural, uma atividades teleológica, uma modalidade de trabalho social, um processo exponencial, por essência concreta e por natureza contraditória, fruto do processo econômico da sociedade.

Segundo RIBEIRO (1988), "A finalidade desta educação não se limita à comunicação do saber formal. O que se pretende é a mudança da condição humana do indivíduo que se apropria do saber".

A alfabetização do adulto vai além do aprender rudemente a ler, a escrever e a fazer algumas contas. Está inserida em um processo mais amplo de educação, ultrapassando o domínio da forma mecânica da leitura e da escrita para atingir o homem, como um todo, inserido na sua realidade.

Essa educação deve capacitar o educando a formar uma consciência crítica de si e de sua realidade, para que surja espontaneamente a compreensão da necessidade de alcançar um plano mais elevado do saber.

Para se efetivar esta educação lembra GOGUELIN (1970), "quatro condições devem ser atendidas: aquisição dos conhecimentos, compreensão dos conhecimentos, motivação para aprender e motivação para aplicar conhecimentos a si mesmo e ao seu ambiente".

Não se pode esquecer de que a idade não é a única variável para o sucesso no trabalho com o adulto, mas que se deve estudar e tentar compreender o adulto a partir de uma concepção de vida.

III - CLIENTELA

Incialmente, as sete cozinheiras do R.U. Nos anos seguintes, houve uma grande procura, não só no Setor de Educação, mas nos outros Setores da Universidade, como: Ciência Biológicas, Exatas, Agrárias, Saúde, Tecnologia e Almoxarifado Central, elevando assim a matrícula de 7 para 180 alunos, aproximadamente.

Houve necessidade de pessoal para dar atendimento a essas turmas, além dos estagiários de apoio do Setor de Educação. Para tanto, o reitor da UFPR, através de portaria designou funcionárias habilitadas para atuarem nos respectivos Setores.

Este novo grupo juntou-se, então, ao grupo de apoio, para o delineamento dos trabalhos.

Segundo GLASER (1986), a partir dos resultados do PINADES e do levantamento de interesses feitos pelas estagiárias do Curso de Pedagogia, constatou-se que a clientela era constituída quase exclusivamente por mulheres, na maioria casadas, na faixa etária de 25 a 60 anos, analfabetas ou semianalfabetas, residentes na periferia de Curitiba ou de Piraquara.

No início do curso, as alfabetizandas apresentavam as seguintes características: nervosismo, ansiedade, suor nas mãos, dor de cabeça, bloqueio do raciocínio e sentimento de inferioridade. Da mesma forma, expressavam atitude negativa em relação à aprendizagem, bem como passividade - aceitando idéias de pessoas que consideravam "mais entendidas" ou com maiores conhecimentos.

Demonstravam baixo nível de expectativas frente à vida, conformismo, poucas aspirações em relação ao trabalho e desinteresse pelos acontecimentos políticos e sociais. Seus interesses resumiam-se, simplesmente, em trabalhar e cuidar da casa. As preocupações voltavam-se para os filhos, para a família e para as doenças; poucas vezes para o trabalho.

Este quadro começou a mudar logo após os primeiros meses de aula. As alfabetizandas, à medida que começavam a aprender, tornavam-se mais receptivas, mais alegres, mais sociáveis, menos ansiosas e apresentavam um melhor relacionamento. Agora, além de mais conscientes, consideram seus vencimentos aquém das necessidades básicas, pois recebem menos de três salários mínimos. Por isso vêem no curso de alfabetização uma possibilidade de melhorar a situação financeira e funcional, bem como a conseqüente integração familiar e profissional.

IV - AVALIAÇÃO

Desde o início do trabalho tem-se feito avaliação das atividades de ensino e de aprendizagem e do currículo. Durante o processo de alfabetização, os alunos, professores e os estagiários estão avaliando continuamente o desenvolvimento da proposta.

Deste modo, a programação do projeto tem sido objeto de estudo e de discussões sob vários pontos de vista.

Outra forma de verificação é feita mediante uma pesquisa anual com as alfabetizandas, com o apoio dos alunos da disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa, visando a detectar possíveis falhas e levantar sugestões para melhoria do trabalho.

Este projeto, após cinco anos de experimentação, pretende avançar no sentido de uma proposta de currículo para a alfabetização de adultos, num enfoque interdisciplinar.

V - CONCLUSÕES

De 1984 ao final de 1989, participaram do projeto cerca de 300 servidores e, destes, mais de 200 se submeteram e foram aprovados nos Exames de Equivalência (Secretaria de Educação) e pela Fundação Educar.

Foi imensamente satisfatório quando, em janeiro de 1990, o Departamento de Métodos e Técnicas da Educação recebeu, do serviço de processamento de dados do Departamento de Pessoal da Universidade Federal do Paraná, a informação de que no Cadastro de Servidores desta Universidade não consta nenhum funcionário analfabeto.

Este resultado permite concluir-se que os objetivos do projeto foram atingidos, o que é deveras gratificante a todas as pessoas nele envolvidas.

É de se esperar que os alfabetizandos, participantes deste projeto, daqui em diante, promovam seu futuro para o melhor, pois o seu diálogo com as condições do meio em que vivem não apenas foi encorajado, mas viabilizado - considerando-se que a alfabetização não se limita ao ler e escrever, mas abre-se a uma conscientização, que dá sentido e dinamismo às aspirações de cada pessoa, no seu contexto de vida.

Aos estagiários foram dadas oportunidades de vivenciarem os três objetivos da Universidade: ensino, pesquisa e extensão. A interdisciplinaridade, nas atividades de estágios enriqueceu-lhes de muito o trabalho de aprender e ensinar.

A abertura do projeto para alguns membros da comunidade, como se está iniciando, será de grande importância em termos de desafio e ocasião de crescimento a todos os que participam deste Projeto de Alfabetização de Adultos.

Como coordenadora do projeto, agradeço a participação dos professores das diversas Licenciaturas que conosco vêm trabalhando e igualmente, a participação dos estagiários que atuaram, questionaram, dedicaram-se e enriqueceram nossa proposta e, de forma decisiva, contribuíram para o seu êxito.

  • BECKER, Lauro da Silva et alii. As características do adulto em relação a sua pessoa, profissão e formação Curitiba, UFPR. (Pesquisa em andamento).
  • ETAVE, Roberto. Uma pedagogia para o homem 2Ş ed., Petrópolis, Vozes, 1972.
  • FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação São Paulo, Moraes, 1980.
  • ______. Educação como prática de liberdade 5Ş ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1955.
  • ______. Pedagogia do oprimido Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979.
  • FURTER, Pierre. Educação permanente e desenvolvimento cultural 3Ş ed., Petrópolis, Vozes, 1975.
  • ______. A formação do homem inacabado - ensaio de andragogia. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos Rio de Janeiro, 60 (134); 129-39, abr./jun., 1974.
  • FERREIRO, Emilia. Os filhos do analfabetismo Porto Alegre: artes médicas, 1990.
  • GLASER, Niroá Zuleika Rotta Ribeiro. PINADES - Projeto Integrado de Alfabetização e Desemvolvimento Social Curitiba, Universidade Federal do Paraná, 1986.
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  • GOGUELIN, P. La formation continue des adultes Presses Universitaires de France, 1970.
  • LEON, A. Psicopedagogia de adultos São Paulo, Nacional; Universidade de São Paulo, 1977.
  • PINTO, Álvaro Vieira. Sete lições sobre educação de adultos São Paulo, Loyola, 1984.
  • PAIVA, Vanilde Pereira. Educação popular e educação de adultos São Paulo, Loyola, 1973.
  • RIBEIRO, Elinor; SAUNER, Nelita. Projeto Alfabetização de Adultos Servidores da UFPR Curitiba, Fundação da Universidade Federal do Paraná para o Desenvolvimento da Ciência, da Tecnologia e da Cultura, 1988 (folheto).
  • TFOUNI, Leda Verdiani. Adultos não afabetizados: o avesso do acesso Campinas, São Paulo, Pontes, 1988.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Mar 2015
  • Data do Fascículo
    Dez 1989
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