Mas que razão?

Editorial

Mas que razão?

Temos a satisfação de apresentar ao leitor a última Educação & Sociedade do ano, o último do século. Um século cheio de eventos de, ainda, inavaliável significado para o futuro da humanidade. Eventos misto de esperança e holocausto, de emancipação e servilismo, de riqueza e miséria. Raras vezes antes o homem foi, ao mesmo tempo, tão senhor e tão escravo; nunca teve tantas condições para resolver seus problemas, nem jamais foi tão grande sua miséria e subordinação. Se previstas há apenas algumas décadas, as mudanças que ocorrem sob nossos olhos teriam sido inscritas na literatura de ficção científica.

Todos constatam que o homem está em crise e, mais grave, que esta crise será permanente. Desgarrado dos antigos valores e tradições, errante de caminhos à busca de um porvir ainda sem rosto, o homem tornou-se um ser sem topos. Um ser sem lugar que antes de tudo busca encontrar um novo lugar, construir uma nova utopia que, mesmo inalcançável, lhe sirva de rumo, de ponto convergente e abrangente de todos na perspectiva de uma sociedade melhor. A sociedade, pela educação como seu esforço constitutivo, necessita construir um novo projeto de subjetividade e comunidade comunicativamente engendrado não como definitivo, estável ou imperial, mas como um para onde caminhar, sempre precário e renovado.

Incertos serão para sempre os passos, e riscos há muitos que espreitam à beira da estrada. A comovente beleza dos versos do poeta que falam do caminho feito ao caminhar é pura demais para perceber a astúcia dos sedutores de atraentes convites a desviar o homem de si mesmo. Já fizeram dele um ser estranho e obtuso, cada vez mais carente de sentidos e menos capaz de refletir e decidir por si mesmo entre o essencial e o adjetivo, entre o político e o econômico, entre o social e o privado, entre a luta e a resignação.

Mas por quanto tempo, ainda, as maquinações do sistema prolongarão a alienação, a dor, o sofrimento, a nudez, a fome e a ignorância? Por quanto tempo, ainda, se permitirá usar como instrumento de sua tortura aquilo que o ser humano produziu? Parece razoável supor que as condições em que vivem homem e sociedade contemporâneos não irão persistir eternamente. Mas que razões temos para imaginar mudanças? Haverá ouvidos para o grito dos miseráveis? Ruirá o sistema imperialista e injusto pelo abalo de suas próprias contradições? Encontrarão forças as multidões de excluídos para rebelar-se? Com que razão podemos encontrar novos caminhos se a razão (moderna) é suspeita de estar na raiz de todo esse cenário?

Como desde a mais remota antigüidade ocidental, a razão ainda é depositária das esperanças de uma vida digna, humana e emancipada. Mas que razão? Na busca da certeza, de caminhos seguros, ela, reflexo do mundo mecânico, tornou-se mecânica também, só ciência, certeza, objetividade, utilidade. O contorcer-se do homem no esforço para libertar-se dos tentáculos de uma razão imperial e sem sonho, desqualificadora da cultura e da história, levou e segue levando a gestos blasfemos que tentam não apenas tirar da racionalidade a máscara mecanicista e desfigurante, mas também desqualificá-la como instrumento único e universal criado pelo homem ao longo de sua história para elaborar e conduzir o seu próprio destino.

Estaríamos vivendo, neste fim de século, os primeiros ensaios de uma nova geometria do pensamento e da ciência? Desde Platão, "idéia" liga-se à figura da retitude representativa que abarca e submete a luxuriante riqueza e também a fugacidade do real na unidade das idéias. Agora, na fuga da instrumentalidade, transgride-se a continência e a assepsia de um modelo de racionalidade pela irreverência e pela transgressão. Cada vez mais, torna-se questionável a exclusividade da investigação progressiva e regulamentada do ser como forma única de acesso à verdade. O enquadramento semântico da verdade se relativiza e enriquece pelo novo olhar da pragmática histórica. Mas, se assim for, o que isso significa para o projeto humano?

Platão, cientista, desejava banir os poetas de Atenas. Homero, poeta, ensinava outra metafísica. Os mitos assumiam a precariedade humana e se colocavam, sem constrangimento, à imitação do ser humano. Este tornar-se-ia mais humano pela incorporação daquilo que de mais humano, figurado nos mitos, o homem havia até então encontrado. E hoje, retornamos à poesia como o único refúgio do humano? Por que Adorno busca na arte o último baluarte de uma racionalidade não instrumentalizada? Mas onde estão os poetas que perguntam, com humildade e sem a certeza da resposta, pelo humano significativo? Onde estão os poetas que ainda buscam sentidos, de versos não rendidos ao mercado?

Ciência, mitos e poesia são ritos que se excluem? Como falar da diferença na alteridade sem incluir no mesmo sopro de voz a idéia de unidade? Não há divergência que não se abrigue na convergência e não há convergência que não conjugue divergências. Um mundo de vozes se faz ouvir, mas elas não dialogam. Os sons ainda não encontraram o silêncio fecundo que gera o novo mais rico, mais expressão da luxúria do humano real e, por isso, talvez mais verdadeiro, mais humanamente verdadeiro. Ou teria Platão demarcado definitivamente nossa pátria intelectual, constituindo o destino de todos, fora do qual só há exílio? Como as certezas geradas no exercício da racionalidade, crescem as perguntas que continuam sem respostas.

Nesse cenário, ganha sentido o texto de abertura do presente número de Educação & Sociedade que tematiza a ciência, confrontando a visão de uma racionalidade homogeneizante com uma filosofia da singularidade e da diferença. Mais que afirmar busca provocar. O racionalismo clássico e moderno destaca o caráter universal, esquecendo o lado prático (praxis) do devir humano, social. Essa face, figurada como linhas de fuga, aponta para uma nova dimensão do conhecimento, descartado pela razão moderna e desqualificado como não-científico. É suposição desse redescobrir que a ciência teria tomado conta indevidamente do conceito de saber e, com isso, esquecido que os seres humanos são criadores de significações e de sentidos. Mais ainda, esquecido que a ciência é, ela própria, criação de significação. A abstração, característica da tradição científica ocidental, teria abandonado as diferenças, o múltiplo do "pipocado do existir", perdendo a riqueza daquilo que nos olha de frente. Buscando recuperar esse lado esquecido, o texto avança para a captura da filosofia de Deleuze/Guattari pelo candomblé e para o seu experienciar através da máquina elementar do conhecimento evento. A idéia é propor uma descolonização dos espíritos e uma revisão das relações entre ciência e mito, ciência e arte, ciência e culturas de resistência, numa tentativa de recuperar os olhares múltiplos do humano e do social.

O texto busca reabrir os múltiplos acessos ao conhecimento contra a hegemonia e o exclusivismo do científico. Sem esquecer que a própria forma de acesso determina e orienta o saber específico. Esse saber, sempre relacionado a um contexto enunciativo que não é único, envolve aspectos dialógicos, emocionais, sensitivos e intuitivos que se desvendam numa linguagem original entre o comunitário e o universal. A relação que se estabelece entre o saber científico e os impulsos mestres do candomblé tem um caráter inovador e provocador que força o leitor a posicionar-se. Para quebrar os limites do conceito tradicional de ciência, segue uma trilha que vai ao limite do razoável e gera vertigens.

Pedro Goergen*,

a convite do Comitê de Redação.

* Professor titular da Facudade de Educação-Unicamp e membro de nosso Conselho Editorial Nacional.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Out 2000
  • Data do Fascículo
    Dez 1999
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