Pelos caminhos e descaminhos dos métodos

IMAGENS & PALAVRAS

Pelos caminhos e descaminhos dos métodos* * Resenha dos livros Método; métodos; contramétodo (São Paulo: Cortez, 2003) e Método: pesquisa com o cotidiano (Rio de Janeiro: DP&A, 2003), o primeiro organizado por Regina Leite Garcia e o segundo de sua própria autoria.

João Wanderley Geraldi

Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). E-mail: geraldi@obelix.unicamp.br

A história da ciência é também a história de seus métodos de descoberta, a história dos princípios estabelecidos, mas não imutáveis, com os quais se torna possível multiplicar enunciados a propósito de objetos construídos também segundo esses mesmos princípios. Outrora acreditávamos que a natureza nos fornecia a si própria como objeto de nossos estudos, operação contínua de esquadrinhamentos com a qual dividimos nossos lotes, às vezes murados e intransponíveis. Acompanhando esta crença, esforçávamo-nos para enxergar também os fenômenos humanos com a mesma suposta objetividade, e com esquadrinhamentos suportavelmente desenhados. Nestes, sempre foi mais difícil definir com nitidez os limites e controlar "a vergonhosa" subjetividade das compreensões, uma delas já dada de antemão pela própria distinção entre fenômenos da natureza e fenômenos humanos (culturais, sociais, estéticos). Certamente houve tentativas de dirigir o olhar, de modo que se viesse a compreender o que se vê, como se o olhar não fora dirigido: não estamos tão longe dos tempos do exercício de uma "física social". Nem estamos tão longe dos tempos dos recortes analíticos construtores de sistemas, de estruturas desbastadas dos movimentos do tempo, das incertezas dos acasos, da teratologia que costura o miúdo e o graúdo.

Hoje, perdidas as nossas inocências ("não fosse conhecermos von Foerster, talvez não fôssemos capazes de perceber que, só compreendendo aquilo que se olha, é que de fato se vê"), eis nos às voltas com a busca permanente da verdade que não preexiste à sua própria construção, já que resulta das mutáveis compreensões elaboradas e articuladas diferentemente nos tempos e nos espaços. Terreno movediço, aquele dos significados, cuja validade ou rigor, ao contrário do que imaginávamos, somente se calcula no horizonte próprio da teoria em que foram construídos, sem qualquer outra garantia senão aquela fornecida pelo mundo das teorias e de seus diálogos, harmônicos ou conflituosos. Como então controlar estas construções a fim de "coibir" dissoluções? Arriscar para além dos muros, desconhecendo caminhos e deixando, bravatas ou não, bem-sucedidos ou não, marcas deste caminhar que outro caminhante retoma e continua, tais galos cantores tecendo outros amanheceres?

Caminhar e narrar caminhadas são opções de Regina Leite Garcia, que reúne em torno da questão do método um conjunto de outros narradores, caminhantes. Os dois livros que organizou trazem, cada um a seu modo, e cada texto em particular iluminando um aspecto do problema, horizontes de possibilidades de um fazer científico que não ignora seus próprios limites e que nem por isso se deixa reduzir à inanição: seus movimentos não se contentam apenas com a compreensão dos objetos sobre os quais se debruçam, porque recebem o "sopro purificador" dos "eflúvios do futuro": "Em toda parte, o olho que vê procura e encontra o tempo: a evolução, a formação, a história. Por trás do que está concluído, transparece, com excepcional evidência, o que está em evolução e em preparação" (Bakhtin, 1992, p. 247).

No volume Método; métodos; contramétodo, composto de nove artigos, que começa a ser gestado na participação da organizadora no Seminário Internacional sobre o Pensamento Complexo (Havana, 2002), reúne artigos de reflexão mais teórica sobre a questão metodológica nas ciências. Talvez o melhor frontispício para este livro seriam os dizeres do cartaz afixado no muro que separa a aldeia de Chora-Que-Logo-Bebes da Floresta Branca: "Onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos". Diz o cartaz: "É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir".

É preciso estar munido de um "espanto de existir" para aventurar-se. E, tal como João Sem Medo (Ferreira, 2001), em suas aventuras, pular o muro e folhear as páginas na aventura de ler e encontrar-se com Carlos Delgado, para com ele buscar respostas à pergunta "Qual é o alcance cosmovisivo das novas teorias, do novo pensamento emergente?", sem medo às críticas "procedentes das bases epistemológicas e cognitivas dos modelos instrumentais depredadores da natureza", já que o problema ambiental, seu tema específico, "tem origens de ordem cognitiva e social que devem ser descobertas"; e com Denise Najmanovich, para com ela compreender que

renunciar à idéia de um método único que nos conduza sempre à verdade, e que a garanta, não implica de nenhuma maneira que estamos dispostos a desistir da utilização de instrumentos ou dispositivos, técnicas e procedimentos. Só implica que não anteporemos o método à experiência, que não cremos que haja um só caminho ou um só dispositivo adequado para pensar, explorar, inventar... conhecer.

Em resumo, que "renunciar ao método não implica cair no abismo do sem sentido, mas abrir-se à multiplicidade de significados"; encontrar-se também com Edwiges Zaccur, para com ela encaminhar "um diálogo complementar e antagônico entre ciência e literatura", já que não passamos, na clave machadiana, "de erratas pensantes em busca do conhecimento". Sobrando-nos as palavras com que construir significados, restam-nos sempre os textos e

onde não há texto não há objeto de estudo e de pensamento. O texto, como dado primário, lugar de encontro, desencontro, é dialógico: nele é impossível eliminar ou neutralizar a segunda consciência, a consciência de quem toma conhecimento dele. Até porque o texto só se torna vivo, só realiza seu ser autêntico na fronteira de dois sujeitos, de duas consciências.

Manuel Jacinto Sarmento, educador português, entrecruza conceitos para decifrar o cotidiano escolar e a ordem social, recusando a imobilidade no primeiro sem a ingenuidade de imaginar omnisciência e omnipotência se o segundo é o "território do inimigo" onde a ação cotidiana se dá: os conceitos de

acção estratégica e acção táctica (Certeau, 1990; Dubet, 1994) colocam o actor no centro de poderes decisionais, mesmo no interior do "território inimigo", isto é, consideram a possibilidade de geração pelo actor social de intervenções casuísticas de ajustamento concreto, com vista à obtenção de vantagens específicas, ou de acções a longo prazo, que permitam resgatar a posição de subordinação a que está sujeito, que desmentem o contexto de acção como simples espaço de reprodução das estruturas sociais. Pelo contrário, o quotidiano é constituído por espaço-tempos densos, profundamente politizados, no sentido em que se constituem como lugares de disputa táctica e estratégica.

E com Maria Paula G. Meneses, para aprender a ler a capulana, do vestuário feminino (mas também usado por homens) moçambicano, em que se inscreve, com provérbios ou metáforas, com ícones ou textos em línguas locais, uma forma de "comunicação interpessoal, através de um complexo sistema de representações iconográficas. Estes pedaços de tecido, que envolvem o corpo, contêm sentidos escondidos, mensagens silenciosas sobre a identidade, crenças, valores e maneiras de ver o mundo de quem as usa"; com Maria Teresa Esteban, para acompanhar as dúvidas, as perguntas e as exigências postas por um modo de pesquisar que não pretende alcançar a totalidade de um objeto, porque não constrói "entes" isolados sobre os quais discorre, mas busca nos fios e movimentos, que se mostram e se ocultam, as relações tecidas numa totalidade integradora. Os percursos metodológicos não definem o caminho, pois a pesquisa se faz pela "emergência de noções que ampliam o conhecimento" e "vai se desenhando como prática de errância e de produção, também, da ignorância". Instigando o leitor com perguntas que suspendem certezas de desavisados, o texto vai fazendo desfilar um conjunto de categorias que podem auxiliar o pesquisador a se proteger, especialmente de si mesmo: a noção de deriva proposta por Maturana; a distinção entre plausível e verossímil; o paradigma indiciário de Ginzburg; a experiência da triangulação; a parceria entre os sujeitos envolvidos; o trabalho de pesquisa como prática coletiva... Só esta incompleta enumeração já nos mostra o quanto há a percorrer, o quanto há a cuidar para dar concretude ao rigor flexível.

Com Mayra Paula Espina Prieto, que analisa "o giro epistemológico no pensamento social" retomando dois conceitos essenciais: o da totalidade e o do sentido holístico na investigação, apontando a convergência histórica, neste momento, entre ciências naturais e sociais na desmistificação da objetividade e ressaltando que o pouco caso dado à totalidade "é o caminho do fim do conhecimento social: a perda de sua capacidade real de compreensão dos processos sociais e de intervenção na construção de utopias e ideais de futuro e sua conversão em mero instrumento de manipulação à escala reduzida". Depois de salientar o resgate da postura ético-humanista, enfrenta e resume com precisão os princípios da teoria da complexidade para então trazer à consideração metodológica as questões da reflexividade e a reconceitualização do tempo. Reivindica o caráter construtivo e transformador da racionalidade utópica e finaliza seu texto apontando sete mitos básicos da ciência clássica que estão em queda sob a mira constante dos modos contemporâneos de produção de conhecimento, a saber: o mito do universal; o mito da neutralidade valorativa; o mito do equilíbrio e da ordem como qualidades imprescindíveis para a reprodução dos sistemas sociais; o mito da separação sujeito/objeto; o mito da história como progresso universal, linear e inevitável; o mito da possibilidade de recuperação do todo por meio das partes; e o mito da superioridade da ciência como forma de conhecimento da realidade.

Com Paul Cilliers, que tematiza as impossibilidades do conhecimento completo da complexidade, até porque não somos capazes da calcular o que nos escapa. Segundo o autor, "nós não podemos considerar a vida, o universo e tudo o mais em sua totalidade e em todo o tempo. Nós necessitamos de limites a fim de poder dizer alguma coisa" e dizer alguma coisa a propósito de algo é sempre resultado de um processo de interpretação, histórica e contextualizada. "Os limites não são dados transcendentalmente, mas se constituem no resultado de ter de lidar com a complexidade com meios finitos." Isso nos obriga a ter "formas de lidar com aquilo que não conseguimos calcular: a nossa ignorância. Há uma denominação para isso. É denominado 'ética' e não será uma quantidade de teoria da complexidade que nos permitirá disso escapar".

Regina Leite Garcia, para encerrar, retorna à experiência de pesquisar, e de pesquisar o cotidiano, "a hora da verdade". Com exemplos extraídos de situações concretas, a autora vai retomando a discussão metodológica teórica para ir mostrando os atalhos percorridos, as formas de construção de interpretações, as errâncias, o "fascinante processo de encontro e desencontro de parcerias". Com este texto, o leitor recupera o fôlego: sai revigorado pelo sopro vitalizador que escorre do saber de experiência feito.

E o livro encerra-se com a palavra de Prigogine, trazida por Regina, que com ele fecha seu texto, "por me parecer que diz melhor do que eu o que eu gostaria de dizer":

Não podemos ter a esperança de predizer o futuro, mas podemos influir nele. Na medida em que as predições determinantes não são possíveis, é provável que as visões de futuro, e até as utopias, desempenhem um papel importante nesta construção.

Já o volume Método: pesquisa com o cotidiano, com sua independência e com sua força própria, é leitura que se segue (ou que pode preceder o volume anterior), numa complementaridade que enriquece o diálogo e que deixa à mostra caminhos já percorridos por um grupo de pesquisa que tem levado a sério, com rigor e sem ranço, seu trabalho de desvelamento da realidade cotidiana da escola brasileira: uma desvelamento que se faz tendo o outro e a outra (professores das escolas) como parceiros e parceiras sem qualquer reserva para assumir compromissos conjuntos, onde fazer e compreender não são etapas descontínuas de um mesmo desenrolar da vida. Aqui, aquele que diz sobre não é distinto daquele que faz com. Abrem-se os sentidos porque se abrem as interlocuções com alunos, com professores, com professores de professores, todos aprendendo a compreender o compreender dos outros e o seu próprio.

Durante longo tempo a pesquisa tentou associar análises macroestruturas com os acontecimentos micro-históricos - encontrar lentes com que ver de dentro a floresta, sem perder o contato necessário e constante com o promontório donde se vislumbra o desenho global da floresta. Não foi fácil percorrer esta distância e foram inúmeros os tateios, as tentativas. Para aqueles que participaram desta história, especialmente na pesquisa em educação no Brasil - pensamos principalmente no período que vai da hegemonia das teorias da reprodução aos inícios das pesquisas qualitativas - ou para aqueles que pretendem compreender alguns dos embates ainda hoje travados, o nome de Regina Leite Garcia é uma espécie de emblema que não se fixa, que sempre nos surpreende com novidades: dos dados à interpretação; dos modos de fazer pesquisa à elaboração teórica.

Nesse livro se reúne uma orquestra, e é impossível tomar o som procedente de qualquer dos instrumentos sem perder a grandeza do conjunto. Por isso, será preferível uma nota de cá, outra de lá, não para compor um quadro da obra toda, mas para que as notas se tornem um modo de aguçar os ouvidos atentos dos leitores que, tais como os alunos caçadores de sons, podem sair "procurando sons à [sua] volta a partir da escuta atenta e da caça a fontes sonoras nos lixos da escola, de suas casas e das ruas [...]" [para] criar seus próprios "cotidiófonos". Com e como os alunos, poderemos aprender na narrativa ilustrada que somos todos uma promessa de criação, sufocada mas nunca falecida.

Regina Leite Garcia abre o livro com seu texto sobre a compreensão do cotidiano e de sua complexidade, agora fazendo emergirem os conceitos encorpados pela experiência de pesquisa, pelas possibilidades e pelos limites do convívio em um grupo de pesquisa em que cada um opera com o cotidiano sem perder seus temas preferidos, sem perder suas individualidades e sem perder suas questões e suas curiosidades. As preocupações são compartilhadas, são co-pagináveis, mas não perdem seu caráter individual, aquele impresso pelo "ator social" que cada pesquisador e cada pesquisado é, e cujas estratégias e táticas tanto queremos compreender.

A organização do livro mostra a arquitetura de seu projeto de construção: a um conjunto de textos em que pesquisadores do grupalfa apresentam os resultados de seu labor [grupalfa é o grupo de pesquisa que se reúne em seu seminário anual para expor trabalhos realizados, por certo sempre inconclusos, mas quando completada uma etapa], segue-se um texto que os retoma, que os situa teórica e metodologicamente, com eles dialoga e para eles aponta novas questões. Esses textos, de Marisol Barenco de Mello, Carlos Eduardo Ferraço, Edwiges Zaccur, Maria Teresa Esteban e Maria Izabel P. Souza, ressaltam uma ou mais categorias sobre que se debruçam verticalmente para esmiuçar as complexidades a que remetem. Ressaltem-se, entre estes temas eternos, as questões do sujeito pesquisador, dos espaços e tempos, das vias capilares a serem percorridas nem sempre dispostas a carregar as perguntas e trazer as respostas dos pesquisadores, mesmo quando estes são aqueles que estão fazendo a escola que pesquisam. Isso permite ao leitor não só aprender com narrativas e com pesquisas específicas, mas também aprender com o diálogo que se trava na própria arquitetônica que funda os modos de pesquisar desse grupo que aqui se reúne para, formando-se, ensinar a nos formarmos.

Apenas para dar um panorama extremamente incompleto, os pesquisadores aqui reunidos trataram:

- da alfabetização dando voz não ao alfabetizador mas à criança que se alfabetiza e vai nos dando pistas de seus processos alfabetizadores (Carmen Sanches Sampaio);

- dos espaços escolares, onde se imprime o tempo histórico das táticas e astúcias da reinvenção, especialmente onde espaços reduzidos são chamados, pelas políticas públicas de democratização falsa do acesso à escola, a abrigar empobrecidamente as classes populares (Maria Tereza G. Tavares);

- da escrita da música, ouvidos os sons dos lixos e construídos instrumentos inéditos com que produzir novos sons para novas escutas, caminhos para uma vida bonita (nos textos de Christiane Reis Assano e de Aldo Victorino Filho);

- da formação continuada de professoras alfabetizadoras, em texto que se abre às falas dos sujeitos, melhor modo de se compreender por que os professores estão sempre apreensivos pelas inscrições que temporalizam os espaços, nesta construção cronotópica de nossas formações sem fim (Carmen Lúcia Vidal Perez);

- do cotidiano de uma escola de tempo integral (CIEP Luiz Carlos Prestes, na Cidade de Deus), que se inicia com entrevistas individuais, gravações de trabalhos coletivos etc., mas que abandona estes instrumentos como aqueles que deveriam fornecer as essências narrativas e seus produtos, para a aprendizagem de uma escrita de pesquisadora que se submete às interpretações dos sujeitos, deixando-se levar pelo movimento que faz retornar às passagens, às pistas e seus sentidos, dadas como finalizadas: itinerâncias (Joanir Gomes de Azevedo);

- da história oral como opção epistemológica para a prática de pesquisa, recuperando as práticas do griot ("de origem francesa, o termo griot denomina, na sociedade africana, aquele que transmite oralmente a tradição do povo") para deixar aparecerem vozes destas professoras tantas vezes silenciadas, mesmo correndo "o risco da imperfeição, da parcialidade, da fragmentação" (Regina de Fátima de Jesus);

- das táticas de intervenção que compõem o cotidiano escolar, em que se ressalta também a atividade educativa daqueles que não são conceituados como educadores: "Vitória, a funcionária de apoio responsável pelo banheiro das crianças, extrapolava suas funções, que oficialmente se limitariam a varrer e limpar a escola, e cumpria um papel educativo não esperado - como, por exemplo, educar crianças, que nem sempre dispõem de um banheiro em casa, sobre o melhor uso do banheiro" (Mairce da Silva Araújo);

- da leitura, narrando a experiência da Biblioteca Espumas Flutuantes e seu Convés de Leitura, em Angra dos Reis, pela qual comunidades se aproximam da "festa da leitura" sem com isso deixarem de ler as marcas, os sulcos que o mundo mostra e que as palavras podem apenas retomar. Experiência cheia de vida, de uma "educação em que se confere ao homem a liberdade, a criticidade e a conscientização" (Virgínia de Oliveira Silva).

Para o leitor deste Método: pesquisa com o cotidiano, sobrarão exemplos de como se fez e como se pode fazer, sem que este novo fazer possa ser repetição do já feito. Sobrarão questões. Sobrarão indicações e aumentarão nossas vontades de saber por nos reconhecermos em cada história contada, em cada fala registrada, em cada saber manuseado, porque "a permanente busca por tentar entender o que acontece nos cotidianos das escolas [...] traz marcas por mim vividas, como alunoprofessor de escolas públicas. Penso ser essa uma das razões que justificam estudos envolvendo os cotidianos das escolas: estamos sempre em busca de nós mesmos, de nossas histórias de vida, de nossos 'lugares', tanto como alunosalunas que fomos quanto como professoresprofessoras que somos. Estamos sempre retornando a esses nossos 'lugares' (Lefebvre), 'entrelugares' (Bhabha), 'não-lugares' (Augé), de onde, de fato, nunca saímos" (Carlos Eduardo Ferraço, "Eu, caçador de mim", p. 158).

Se os dizeres do cartaz de Chora-Que-Logo-Bebes - "É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir" - poderiam ser o frontispício da coletânea Método; métodos; contramétodo, certamente este segundo volume, este tratado prático e teórico da pesquisa com o cotidiano, merece lembrar Manoel de Barros:

O apanhador de desperdícios

Uso as palavras para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. O romance de educação na história do realismo. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992 (texto de arquivos 1936-1938).

BARROS, M. de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.

FERREIRA, J.G. As aventuras de João Sem Medo: panfleto mágico em forma de romance. 20. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001.

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    Resenha dos livros
    Método; métodos; contramétodo (São Paulo: Cortez, 2003) e
    Método: pesquisa com o cotidiano (Rio de Janeiro: DP&A, 2003), o primeiro organizado por Regina Leite Garcia e o segundo de sua própria autoria.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Set 2004
  • Data do Fascículo
    Ago 2004
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