Indústria cultural e educação: o novo canto da sereia

Indústria cultural e educação: o novo canto da sereia* * Resenha do livro de Antônio A. S. Zuin (São Paulo: Autores Associados/fapesp, 1999).

Filipe Ceppas

Doutorando em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). E-mail: fceppas@terra.com.br

O livro de Zuin, publicação de sua tese de doutorado, é uma contribuição à reflexão sobre a importância da Escola de Frankfurt de Adorno em especial para uma crítica das teorias pedagógicas e para a práxis pedagógica. Práxis que o autor não limita ao contexto escolar, mas a concebe em termos de articulações, teóricas e práticas, do ideal mais amplo de formação que foi se consolidando na história das sociedades ocidentais, no sentido da ilustração e da emancipação. Situado no âmbito da filosofia da educação, o livro procura apresentar a contribuição da Escola de Frankfurt para a análise dos múltiplos aspectos históricos, sociais e psicológicos desse ideal de formação que, supostamente, subjaz, ainda que não necessariamente de modo explicitado ou consistente, qualquer proposta ou prática pedagógica.

O autor, que tem formação em Psicologia, enfatiza a dimensão psicológica dos processos que envolvem as interações/oposições entre indivíduo e sociedade, no que se refere à busca da realização do esclarecimento através da educação i.é, a perspectiva da conquista, por parte dos indivíduos, de um agir racional, autônomo e responsável, que simultaneamente pressupõe e visa a democratização do acesso aos bens materiais e simbólicos, na esperança de compatibilizar justiça e liberdade. Podemos destacar dois eixos fundamentais do de Zuin: (1) as distâncias e as relações determinantes entre a desigualdade material e os diversos sentidos que uma suposta democratização dos bens simbólicos adquire em nossa sociedade, a partir do desenvolvimento da indústria cultural; e (2) os desafios prático-conceituais que se colocam para uma perspectiva criticamente comprometida com o ideal pedagógico emancipatório, diante das conseqüências potencialmente destrutivas daquelas distâncias e relações.

Um dos pontos de inflexão importantes do trabalho de Zuin é a identificação da idéia de formação como o "correlato subjetivo da própria cultura" (p. 55); ou, melhor dito: "(...) é dessa tensa relação entre a dimensão objetiva e subjetiva da cultura que se origina o conceito de formação, ou seja, a subjetividade objetivada nos produtos humanos pela intervenção do agir formativo necessita tanto de um momento de distanciamento quanto de aproximação da realidade que transforma o sujeito tanto quanto é transformada pelo exercício da atividade racional" (idem). Assim, pode-se perceber a difícil dialética dos impulsos formativos na dinâmica cultural. A arte, tomada como instância cognitivamente privilegiada da cultura, pressupõe o relativo afastamento das condições sociais como condição necessária de sua própria identidade e realização, mas este não pode ser absolutizado, sob o risco de ceder à afirmação dos mecanismos de dominação que imperam na ordem social. Por outro lado, a própria idéia de dominação não pode ser negativamente absolutizada, na medida em que se reconheça sua importância nos processos de sublimação dos impulsos vitais na formação psicológica dos indivíduos e na instituição da cultura. Nesta dialética, por fim, Zuin chama a atenção para o perigo de se absolutizar ainda uma tendência de adaptação ao existente, que é a "(...) aversão a qualquer possibilidade de uma atitude de distanciamento em relação ao mundo fenomênico que poderia encetar reflexão e questionamento da barbárie" (p. 57).

A tese assumida pelo autor se apóia na importância conferida à arte pelos frankfurtianos como momento cognitivo revelador desta dialética. Assim, a tese é apresentada através de um paralelismo:

(...) se, para Adorno, a verdadeira experiência estética permite a reapropriação do mimético que se relaciona com o construído sem que ambos sejam absolutizados, da mesma forma, afirmar-se-ia que, na dimensão pedagógica, uma concepção de educação que pretende ser emancipatória poderia auxiliar na realização da auto-reflexão crítica da formação que se converteu na semiformação. (p. 6)

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer o que o autor está chamando de mímesis, que é a "atitude do indivíduo que, para poder livrar-se do medo do desconhecido (leia-se do natural), renuncia a diferenciar-se da entidade com a qual confronta o seu próprio ego e opta por imitá-la, negando a sua própria identidade" (p. 13). Formulado originalmente no contexto da análise da identidade entre mito e esclarecimento, feita por Adorno & Horkheimer, com base nas aventuras de Ulisses, esse mecanismo é transposto para o comportamento dos consumidores da indústria cultural, os pseudo-indivíduos, na terminologia adorniana, que optam por imitar os comportamentos regressivos que se mostram menos conflitantes com uma realidade que se pressente insuperável.

Ao retomar a questão da arte como dimensão exemplar entre os "produtos simbólicos", Zuin apropria-se da reflexão de Adorno & Horkheimer acerca da liberdade da arte dita "séria" com relação ao existente. Esta liberdade, esse caráter construído, mediatizado da representação artística, se mantém "fiel à causa das classes inferiores", precisamente pela não submissão "aos fins da falsa universalidade", vale dizer, pela recusa à "submissão quase que total ao seu caráter de valor" (p. 123). Com esta liberdade, a arte reflete sua dívida para com os ideais da emancipação, seu compromisso com a universalidade, que envolve os ideais de justiça e liberdade para todos. O existente, ao contrário, se impõe à maioria, em toda a sua falsa universalidade, através da indústria cultural, como negação dissimulada desses valores, como recalque e transfiguração dos desejos que supostamente deveriam ser atendidos pela cultura. Mas a arte apenas se afirma como distanciamento, negação e crítica do existente graças ao próprio existente, pois "é esse mundo desigual que produz as condições materiais para a consagração do poder de crítica da arte" (idem). Entende-se, assim, que a verdadeira experiência estética seja aquela que "permite a reapropriação do mimético que se relaciona com o construído sem que ambos sejam absolutizados". A absolutização de um ou de outro representaria seja um distanciamento pseudocrítico da arte dita "séria" frente ao existente (hipostasiação do momento de negação do existente) sem que, entretanto, ela sequer possa se ver totalmente livre de seus influxos ; seja o enrijecimento daqueles impulsos miméticos inevitáveis, que respondem ao medo do desconhecido, à permanência do mito da dominação da natureza que se desdobra em dominação do homem sobre o homem no interior do próprio esclarecimento (hipostasiação do momento de adaptação ao existente).

Dito isto, a segunda parte da hipótese a saber: "(...) da mesma forma (...), na dimensão pedagógica, uma concepção de educação que pretende ser emancipatória poderia auxiliar na realização da auto-reflexão crítica da formação que se converteu na semiformação" torna-se mais clara. Verifica-se, em primeiro lugar, a necessidade de uma compreensão ampla da idéia de educação emancipatória, onde a educação escolar só pode ser pensada em conexão com os diversos aspectos formativos que atravessam a sociedade como um todo. Em segundo lugar, trata-se do esforço para identificar e analisar os mecanismos que impedem que propostas educativas tenham um impacto de fato relevante na busca pela construção de uma práxis educativa que leve a sociedade à realização do ideal de emancipação e esclarecimento. Isto remete à tensão entre distanciamento do e adaptação ao existente, mencionada acima, e pressupõe, necessariamente, uma teoria que transcenda os limites de teorias e práticas pedagógicas fechadas em si mesmas, no sentido de demandar uma análise do contexto social, econômico e político em que se inserem esses processos formativos. Assim, numa formulação certamente por demais sintética, pode-se dizer que a tese de Zuin concentra-se, primordialmente, na exortação para a manutenção, por parte das teorias e práticas pedagógicas, de um olhar crítico para o "duplo caráter da cultura", i.é, que leve em conta a complexa interdependência dos momentos de negação do e adaptação ao existente.

Das idéias de Adorno, destacam-se os elementos que seriam necessários à construção de qualquer pedagogia realmente comprometida com a superação dos problemas colocados pelo confronto entre o ideal de esclarecimento e as condições atuais das sociedades ocidentais: o tempo necessário para a reflexão; a continuidade entre conteúdos e valores assimilados pelos educadores e educandos, em respeito à natureza histórica e interdependente das experiências possíveis; o respeito também à interconexão entre os processos educativos escolares e não-escolares; e, principalmente, a atenção redobrada para com o descompasso inevitável entre teoria e prática, do qual são parte constitutiva as tensões entre a adaptação ao (ou assimilação do) real e a sua crítica. Vale mencionar, ainda, a apresentação que Zuin faz, no final do quarto capítulo, de três autores frankfurtianos que desenvolvem, atualmente, na Alemanha, reflexões e propostas pedagógicas baseadas em Adorno: Andreas Gruschka, Norbert Hilbig e F. Hartmut Paffrath; o segundo envolvido na prática de uma escola adorniana, a Escola Theodor W. Adorno, na cidade de Elze. Todos os três desenvolvem reflexões e práticas muito interessantes que servem para exemplificar alguns aspectos dos elementos destacados acima. Em especial, ressalta-se o conceito de uma pedagogia radicalmente dialógica, idéia que, se não é inovadora, aparece de modo original no contexto das teorizações de Adorno em torno da educação.

Diante do intenso esforço teórico levado a cabo pelo autor, talvez fosse excessivo cobrar uma articulação da análise levada a cabo com exemplos mais representativos do amplo cenário das teorias e práticas pedagógicas hoje existentes, para além dos três autores mencionados acima, que já partem de uma visão educacional de inspiração adorniana. É possível dizer que, em função da ausência de uma tal articulação, a força da tese de Zuin revela também uma fraqueza, na medida em que os objetivos mesmos do autor indicam um tal caminho e deveriam levá-lo a um maior esforço neste sentido. Esta ausência se casa com o tratamento dos elementos empíricos elencados por Zuin para exemplificar ou desenvolver suas análises. Em alguns momentos, este material parece quase apenas atualizar exemplos dos autores trabalhados (como o homem que ama mais o carro do que a esposa); noutras, ele é simplesmente visto sob uma ótica um tanto reducionista (a prática do uso dos piercings como mero ritual sadomasoquista de uma juventude regredida). Neste sentido, Zuin parece apegar-se a limites da apreciação historicamente determinada do próprio Adorno (o que fica evidente quando Zuin assume que "qualquer continuidade do vínculo entre o pensamento e o questionamento da realidade é desestimulada pelos ditames da indústria cultural" (p. 73), em contraste com momentos mais dialéticos e refinados de sua especulação teórica e, claro, do próprio Adorno).

Parece difícil, hoje, subscrever o caráter totalizante e monolítico da visão de Adorno sobre a indústria cultural, incapaz de enxergar elementos que não fossem senão regressivos em suas manifestações concretas particulares ainda que o método e os objetivos do filósofo alemão tornem-se cada vez mais estimulantes, seja somente pela genialidade com que trazem à tona o incômodo com a ordem existente. Esses eventuais limites não diminuem, de modo algum, o resultado final do esforço empreendido por Zuin, que é o de explicitar, articular e sistematizar aspectos essenciais do instrumental frankfurtiano na análise dos dilemas do esclarecimento, buscando desenvolver uma análise-síntese da transformação do conceito de formação em semiformação no contexto da semicultura e sua importância para a reflexão e a prática pedagógicas. Seus limites e tensões correspondem a desafios teóricos e práticos latentes para quem se preocupa com a questão das condições de uma educação voltada para a emancipação.

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    Resenha do livro de Antônio A. S. Zuin (São Paulo: Autores Associados/fapesp, 1999).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Jun 2003
  • Data do Fascículo
    Abr 2003
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