Infância e linguagem: Bakhtin, Vygotsky e Benjamin

Infância e linguagem: Bakhtin, Vygotsky e Benjamin** Resenha do lvro de Solange Jobim e Souza. Campinas, Papirus, 1994. Resenha do lvro de Solange Jobim e Souza. Campinas, Papirus, 1994.

Marilene Sinder*** Resenha do lvro de Solange Jobim e Souza. Campinas, Papirus, 1994. Resenha do lvro de Solange Jobim e Souza. Campinas, Papirus, 1994.

A necessidade de rompimento dos velhos paradigmas positivistas e cientificistas das ciências humanas faz Solange Jobim pensar em novas abordagens epistemológicas da psicanálise. É no cinema e na literatura que ela vai buscar os elementos de sua reflexão. Nesse encontro, descobre o compromisso existente entre a ciência e a arte.

Solange Jobim faz uma reflexão, a partir da constatação da necessidade de uma nova interpretação das ciências humanas, acerca da concepção de linguagem, tomando como base as teorias desenvolvidas por Bakhtin, Vygotsky e Benjamin. Nesse sentido, a linguagem é "entendida como espaço de recuperação do sujeito como ser histórico, social e cultural".

A partir da observação da dificuldade de responder as questões éticas e estéticas colocadas, no mundo moderno, às ciências humanas a autora procura recuperar o sentido da palavra para também verificar o sentido real de como devem ser tratadas as questões humanas e sociais. A infância também é seu objeto de análise para tentar entender criticamente a cultura do adulto. Para tanto, ela analisa várias falas do cotidiano de crianças de classes sociais diferentes para mostrar como elas constroem a realidade social na sua relação com os outros: aqueles do mesmo meio social ou aqueles de meios sociais diferentes, dos quais elas tomam conhecimento através, principalmente, dos meios de comunicação.

Através da análise das falas de crianças e também de adultos, Solange Jobim mostra, por exemplo, a visão que têm, na sua essência, de conceitos modernos como capitalismo, alienação e modernidade. Um dos instrumentos do capitalismo, o consumismo, aparece nas falas das pessoas, provando sua internalização; uma internalização construída pela prática diária no tratamento com o outro, na escola, no trabalho ou mesmo dentro da própria casa, através dos aparelhos de televisão que ela constata estarem presentes na quase totalidade dos lares.

O cinema mostra à autora a essência, também, da relação mantida pelo homem moderno com os aspectos de sua sobrevivência. Ela lembra Chaplin em "Tempos Modernos", representando o automatismo experimentado pelos trabalhadores na sua relação com a máquina introduzida no processo produtivo moderno, onde a fábrica ocupou o espaço social do homem.

O mesmo choque sentido pelos trabalhadores das fábricas é vivido também, segundo Benjamim, pela multidão que se encontra nas ruas das grandes cidades. Jobim mostra como ele recupera, na poesia de Baudelaire, a relação existente entre o homem da fábrica e a multidão que caminha nas ruas das grandes cidades. Ela utiliza esse exemplo para mostrar como a arte exprime, de maneira fiel, os sentimentos e os comportamentos humanos.

Jobim abre sua discussão epistemológica sobre a psicanálise perguntando: "Que conseqüências têm para o aparato conceitual das ciências humanas as descobertas da psicanálise? De que forma uma abordagem que pretende articular a estrutura do psiquismo com a estrutura das relações sociais nos ajuda a avançar na reflexão sobre as questões humanas e sociais, tendo em vista os rumos do capitalismo mundial integrado? A psicanálise pode oferecer subsídios para uma compreensão e para uma interpretação da cultura contemporânea?" Essas questões a orientam na análise da reconstrução da psicanálise como ciência do comportamento humano, resgatando o indivíduo como ser histórico e cultural.

As críticas mais contundentes à conduta da psicanálise praticada no cotidiano do mundo moderno é sua fragmentação e sua postura positivista. Para a ruptura de tal postura, Jobim propõe a utilização do método dialético, capaz de dar conta da dimensão social e cultural do comportamento humano, para reformulação de conceitos como o de consciência.

Bakhtin formula seu conceito de consciência a partir do conceito de ideologia. Para ele, a construção do inconsciente humano está relacionada à situação de classe ocupada pelo indivíduo; é necessário que o homem tenha um segundo nascimento: o "nascimento social". A consciência do indivíduo é, assim, uma consciência com dimensão coletiva e não individual. O nascimento biológico não é suficiente para o homem, pois que ele é um ser social. O objeto de análise da psicanálise é esse ser social e, portanto, seus parâmetros de análise não devem ser os biológicos, assim como faz Freud.

Bakhtin propõe, nesse sentido, o estudo da palavra como instrumento de análise da dimensão ideológica da consciência humana. Segundo ele, o signo lingüístico é construído socialmente e transmite uma ideologia, presente de sua constituição. Nesse sentido, ele faz uma crítica, ainda, aos estudos lingüísticos centrados na idéia de constituição física do signo lingüístico defendida por Saussure.

Pasolini e Benjamim, como mostra Jobim, defendem a idéia de que "... o conteúdo ideológico da realidade se expressa nos próprios objetos, coisas, palavras, gestos e que tudo isso se constitui em signos de uma situação histórica e cultural precisa". Ela destaca o papel que tem a arte: ciência e literatura, na apresentação da constituição social do consciente do indivíduo.

Solange Jobim trava uma discussão sobre conceitos psicanalíticos desenvolvidos pela psicanálise de Freud e alternativas de interpretação do comportamento humano apresentadas por Bakhtin, Vygotsky e Benjamin. Uma avaliação centrada na linguagem, numa perspectiva dialética de análise, onde toda enunciação constitui-se num diálogo interior (a comunicação individual) ou exterior (a comunicação com o outro), através das palavras, da mímica ou de qualquer outro veículo de comunicação.

Jobim propõe a criação de uma psicanálise que poderíamos chamar de "socioanálise": uma análise centrada na dimensão social e cultural do homem, a única maneira de avançar na criação de paradigmas alternativos ao positivismo e ao cientificismo. Essa psicanálise precisa dar ao homem a autoria de sua palavra e verificar o lugar de seus desejos no confronto com a sua realidade e não, um resultado de sua dimensão psicológica apreendida como produto de seu nascimento biológico.

O trabalho com a arte e a linguagem é mostrado por Jobim como o caminho para se atingir a verdade das ciências humanas, cujo objeto de análise é o homem como ser social. O encontro da arte com a ciência pode elucidar, segundo ela, as questões maiores acerca da dimensão do comportamento humano, contribuindo para a formulação dos novos paradigmas. Essa é a avaliação que ela faz em seu texto, escrito de maneira agradável, chamando a atenção do leitor.

** Professora da faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense.

  • * Resenha do lvro de Solange Jobim e Souza. Campinas, Papirus, 1994.
    Resenha do lvro de Solange Jobim e Souza. Campinas, Papirus, 1994.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Abr 1999
  • Data do Fascículo
    Ago 1998
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