Quanto tempo o tempo tem!

IMAGENS E PALAVRAS

Quanto tempo o tempo tem!* * Resenha do livro organizado por Vera Lúcia Sabongi De Rossi e Ernesta Zamboni (Campinas: Alínea, 2003).

Olinda Maria Noronha

Professora livre docente do Departamento de Filosofia e Historia da Educação da Faculdade de Educação da UNICAMP (aposentada e atualmente professora colaboradora); professora do Mestrado em Educação Sócio-Comunitária do unisal de Americana (SP) e professora convidada do Mestrado em Educação da PUC-CAMPINAS. E-mail: olinda@lexxa.com.br

As reflexões sobre a categoria do tempo têm despertado ultimamente o interesse de vários setores, desde os acadêmicos até aqueles preocupados em explicar a problemática do tempo relacionado à vida cotidiana. Certamente, a preocupação com o tempo não é recente para o homem, remontando à filosofia antiga, desde os hebreus passando pelos gregos, pela filosofia cristã, pela filosofia moderna até os dias atuais.

A teoria científica do tempo e a teoria filosófica do tempo têm sido objeto de reflexões por muitos cientistas e filósofos. No entanto, o que mais tem se manifestado como campo de interesse atualmente, por amplos setores, é o modo como o tempo está sendo vivido no atual momento histórico (que constituiriam os elementos culturais e sociais do conceito de tempo).

Nas ciências e nos conceitos propostos antes de Kant (1724-1804), o espaço teve um papel preponderante, sendo que o tempo estava determinado pelo espaço e a ele subordinado. Leibniz (1646-1716), por exemplo, sustentava que assim como o espaço é uma ordem de coexistências, o tempo é uma ordem de sucessões que fluem de modo uniforme. Kant critica Leibniz ao desenvolver uma doutrina do tempo na Crítica da Razão Pura, negando que o tempo seja um conceito empírico derivado da experiência, sendo, portanto, uma representação necessária que subjaz em todas as nossas experiências, ou seja, uma forma de intuição a priori. O problema do inatismo (Descartes), do empirismo (Hume) e da solução proposta pelo kantismo (subjetivismo) sobre a questão do tempo foi solucionado por Hegel (1770-1831) ao afirmar que o que existe de mais fundamental à razão que até então não havia sido compreendido é que a razão é histórica. Assim, Hegel introduziu a crítica à intemporalidade atribuída à verdade e à razão. A razão não estaria na História, ela é a própria História; a razão não estaria no tempo, ela é o próprio tempo. A crítica de Hegel estendeu-se também a Kant pelo seu subjetivismo que levaria à crença de que o conhecimento racional dependeria de modo absoluto do sujeito do conhecimento, das estruturas a priori do entendimento. Para Hegel a razão não é somente objetiva (a verdade está nos objetos) nem somente subjetiva (a verdade está no sujeito), mas representa uma unidade do objetivo e do subjetivo. Em Hegel, o vir a ser torna-se um elemento primordial, sendo o vir a ser histórico uma sucessão de momentos da consciência humana. Hegel estabeleceu deste modo o conhecimento do tempo que serviu de fundamento do conhecimento do homem. No entanto, ao construir seu sistema, detém o tempo e fixa-lhe um termo final no sistema por ele criado. Marx (1818-1883) retoma o tema do tempo tornando evidente que o objeto da pesquisa e do conhecimento é o tempo. O vir a ser é histórico, a natureza, o homem e a sociedade são produtos históricos. Para Marx, o tempo histórico é construção de sujeitos históricos em um determinado momento da História efetiva, não se caracterizando, portanto, como algo exterior ao sujeito e à História.

Estas considerações iniciais têm como propósito apenas enfatizar a importância da discussão sobre a categoria tempo para a construção do conhecimento histórico e para a compreensão da historicidade humana.

Este livro que está sendo analisado soma-se a esse esforço de compreensão ampliada desta categoria. É importante ressaltar logo de início que o propósito deste livro organizado pelas professoras Vera Lúcia Sabongi De Rossi e Ernesta Zamboni não é o de lidar nem com a teoria científica nem com a teoria filosófica do conceito de tempo, mas convidar pesquisadores a desenvolver reflexões no campo das representações sobre o tempo. Conforme está explicitado na apresentação do livro, a partir da realização de um Seminário multidisciplinar intitulado "Educação e Representações do Tempo", realizado na Faculdade de Educação da UNICAMP (Grupo de Pesquisa Memória, História e Educação), um grupo de pesquisadores foi convidado a produzir "textos inéditos sobre representações do tempo, dentro de suas temáticas específicas, que abrangem os campos da astronomia, do cinema, da filosofia, da psicanálise, da história, da psicologia e, certamente, da educação escolar."

A amplitude temática, bem como a opção pelas "representações do tempo dentro de temáticas específicas",imprimiu ao livro a sua vocação de ser plural, respeitando as leituras que cada temática propiciou ao conceito de tempo para cada pesquisador convidado a participar da reflexão. O leitor, portanto, não deve buscar um fio condutor que articule os textos entre si, mas, sim, tentar encontrar os lugares teóricos de onde cada pesquisador está lendo e escrevendo sobre o tempo e, a partir daí, dialogar com cada um deles e chegar às suas próprias conclusões.

Percorrendo a seqüência da cuidadosa apresentação do livro feita pelas organizadoras, encontramos a reflexão "Tempo e psicanálise"realizada pela psicanalista Regina Maria Lopes Carvalho, onde é abordada a dificuldade de conhecer o tempo que não se deixa conhecer. Nesta reflexão, encontra-se a referência ao tempo dos mitos, ao tempo da memória e ao tempo marcado pelo desejo e pelo afeto. A historiadora Margareth Rago, no texto "O historiador e o tempo", discute questões relativas às representações do tempo e do passado com as quais operam os historiadores na produção do conhecimento histórico. Angel Pino, filósofo e professor de psicologia, em seu texto "Tempo real, tempo vivido, representações tempo", revela as dificuldades que tanto o homem de ciência quanto o homem comum enfrentam para pensar e lidar com a questão do tempo. Em "O tempo no cinema, imagem em perspectivas", Milton José de Almeida, professor-pesquisador de arte, cinema e televisão, considera que o tempo no cinema é o estudo da tensão entre o continuum da História e sua representação fragmentada, ideológica e técnica, presente em cada filme. No texto "Máquinas e homens: utopias e tempo da revolta", Patrizia Piozzi discute a relação entre o avanço dos conhecimentos científicos e técnicos e o aperfeiçoamento das relações morais e sociais, focalizando o tempo na sociedade moderna. O astrônomo e físico Max Faúndez-Abans, em sua reflexão sobre "O tempo: memórias", explica que vivemos em uma estrutura que definimos como espaço-tempo, na qual é possível discernir as memórias deixadas pela dinâmica do espaço onde vivemos com o transcorrer do tempo. O autor mostra em seu artigo as relações entre memórias do passado e alterações que o planeta Terra vem sofrendo. Em "A temporalidade histórica e os desafios para o ensino-aprendizagem",Lana Mara de Castro Siman mostra que tempo e causalidade são categorias solidárias de pensamento e constitutivas do pensamento histórico. O tempo para a História é construção social, pois o tempo histórico associa-se à memória e essa às identidades sociais dos sujeitos e à sua historicidade. Na reflexão de Sandra Regina Ferreira de Oliveira "O tempo, a criança e o ensino de História", baseando-se em uma pesquisa empírica e tendo como fundamento a teoria de Jean Piaget, a autora demonstrou que a criança não concebe o passado e o presente com a mesma seqüência cronológica do adulto, explicando o passado a partir do presente e não o contrário. O artigo "Reflexões sobre a compreensão (e incompreensões) do tempo na Escola Sônia Regina Miranda", através de análise sobre resultados de uma pesquisa, indica alguns problemas relacionados à construção da temporalidade e à compreensão da História por parte dos alunos do ensino fundamental e médio. A última reflexão que compõe o livro, "Tempo disciplinar escolar: representações de professores",realizada por Magda Tuma, busca analisar, através das produções da literatura sobre o tema, os elementos constituintes do processo de disciplinamento e controle temporal exercido no espaço escolar sobre crianças de 6 a 12 anos de idade.

Acima de qualquer comentário ou ressalva que se possa fazer, a iniciativa do Seminário que deu origem ao livro, bem como o esforço em coordenar as reflexões contidas em Quanto tempo o tempo tem!,são muito bem-vindos ao nosso meio acadêmico pelas questões que suscitam a todos os interessados nesta temática.

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    Resenha do livro organizado por Vera Lúcia Sabongi De Rossi e Ernesta Zamboni (Campinas: Alínea, 2003).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Abr 2004
  • Data do Fascículo
    Dez 2003
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