Aprender com Deleuze

Learning with Deleuze

Resumos

O aprender ocupa, na filosofia de Gilles Deleuze, um lugar de destaque. É um ato de adaptação e de criação, um agenciamento complexo, que concerne às condições de possibilidade do próprio pensamento: formação da Idéia e formulação do problema. O aprender vai além do saber, esposando a vida toda, inteira, em seu curso apaixonado e imprevisível.

Aprender; Agenciamento; Pensamento


Learning occupies a prominent place in the philosophy of Deleuze. It is an act of adaptation and creation, a complex assemblage related to two of the conditions that make thought itself possible: formation of the Idea and formulation of the problem. Learning goes beyond knowledge and envelops entire life in its passionate and unpredictable course.

Learning; Assemblage; Thought


DOSSIÊ: "ENTRE DELEUZE E A EDUCAÇÃO"

Aprender com Deleuze* * Tradução de Tomaz Tadeu e Sandra Corazza.

Learning with Deleuze

René Schérer

Doutor em Filosofia e professor emérito da Universidade Paris VIII. E-mail: rene.scherer@wanadoo.fr

RESUMO

O aprender ocupa, na filosofia de Gilles Deleuze, um lugar de destaque. É um ato de adaptação e de criação, um agenciamento complexo, que concerne às condições de possibilidade do próprio pensamento: formação da Idéia e formulação do problema. O aprender vai além do saber, esposando a vida toda, inteira, em seu curso apaixonado e imprevisível.

Palavras-chave: Aprender. Agenciamento. Pensamento.

ABSTRACT

Learning occupies a prominent place in the philosophy of Deleuze. It is an act of adaptation and creation, a complex assemblage related to two of the conditions that make thought itself possible: formation of the Idea and formulation of the problem. Learning goes beyond knowledge and envelops entire life in its passionate and unpredictable course.

Key words: Learning. Assemblage. Thought.

Pedem-me que fale sobre "Deleuze e a educação". Mas, ignorando, para ser sincero, quais eram as idéias de Deleuze sobre a educação, compreendida como um "sistema educacional voltado à aplicação", prefiro, em vez disso, falar daquilo que Deleuze nos ensinou, daquilo que continua a nos ensinar sobre ele, sobre o mundo e sobre nós.

Há pessoas que tiveram a sorte de escutá-lo, de vê-lo exprimir-se; que tem ainda presente, na mente e nos olhos, seu gesto e seu rosto, seu tom, seu charme inimitável. Mas para aquelas pessoas que não fazem parte desse grupo privilegiado, estão disponíveis, graças ao milagre da reprodução técnica da imagem, a gravação audiovisual de suas aulas e esta coisa maravilhosa e excepcional que é o Abecedário, que o torna vivo para sempre, para além de seu desaparecimento físico. Recolheremos aí fórmulas decisivas, como aquela que fala do "desejo e seu agenciamento". Ou esta outra: "não há potência má, mas poderes perversos". Ou ainda, aprendemos aí sobre a paciência animal do carrapato, para moderar nossa presunção antropológica, demasiadamente humana, que nos leva a nos proclamar os reis da criação. Um Deleuze educador, à maneira de Montaigne ou de Nietzsche.

Poderia, assim, limitar-me a remeter a uma projeção dessas seqüências, nas quais cada um apreciaria diretamente, graças à voz e ao gesto perpetuados do filósofo, sua arte de ensinar e de fazer com que se aprenda [d'apprendre et de faire apprendre]. A palavra "apprendre", permitam-me lembrá-lo, reúne, na língua francesa, os dois sentidos, o de "aprender" e o de "ensinar", em um ato comum entre que aquele que ensina e aquele que é ensinado, aquele que fala e aquele que escuta e recebe.

Não se trata, de resto, de simples encontro fortuito, contingência, fato empírico, na medida em que a imagem do Deleuze docente foi fixada e volta a viver diante de nós, na medida em que ela repete, de acordo com a nossa vontade, e refaz, sempre renovadamente, nosso aprendizado. Sem dúvida, qualquer outro autor poderia ser, doravante, pelos tempos vindouros, gravado e repetível. Mas, justamente, no que concerne a Deleuze, esta empiricidade, como ele poderia ter dito, é quase "transcendental", ou seja, diz respeito às próprias condições da possibilidade de se dar conta do que quer dizer, partindo dele, "aprender". Pois, parece-me que esta impregnação sensível e afectiva – que esta repetição na diferença atualiza – ilustra uma da vias deleuzianas, uma das grandes idéias sobre um aprendizado que nunca se encerrará na aquisição de um saber, mas que consiste em um processo a ser incessantemente recomeçado. Só o que conta é o ato inicial, o movimento em vias de se fazer, o conatus, como diziam os clássicos.

O resto é sobrecarga, queda, recaída na institucionalização. E parece que, assim que Deleuze surge, em sua imagem, com essa atmosfera única que traz consigo e que ilumina, nós somos, logo de saída, colocados em posição de vigilância contra essas sobrecargas.

Limitar-se a remeter, entretanto, ao vídeo do Abecedário, seria, de minha parte, uma solução fácil, uma tanto vergonhosa, um passe de mágica, e não é isto, evidentemente, que se espera, aqui, de mim. Mas, tenhamo-lo ou não presente na mente, nos olhos da memória, não se deveria descartar este suplemento, esta vantagem que nos proporciona a imagem, quando ela está ali, para impedir que o pensamento se volte para a generalidade e a abstração. Ou para impedir que ele se obscureça por um excesso de complicação e de erudição universitária, de referências demasiadamente eruditas, o que, no fundo, dá no mesmo: o movimento próprio do espírito se perde, então, na letra dos saberes.

Gilles Deleuze disse, sobre Michel Foucault, que ele era um "vidente". Esta qualidade aplica-se, eminentemente, a ele próprio. Ele vê e nos faz ver o que até então não era percebido.

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Ora, e aqui chego ao conteúdo em si, ao objeto de minha apresentação, depois de ter evocado o que poderia parecer o simples envelope, a simples forma; ora, repito _ compreendamos corretamente –, o impulso inicial e permanente do pensamento de Deleuze consiste em liberar todo pensamento daquilo que o entrava e o deforma. Impulso de liberação, de desembaraçamento, igualmente válido naquilo que chamamos de prática da vida cotidiana ou na política: desembaraçar-se das divisões e regras artificiais, dos poderes, das instituições, dos impedimentos, das representações, das idéias feitas, dos clichês; de tudo que desvia e bloqueia os processos postos em movimento. Desembaraçar-se de tudo o que imobiliza, que sedentariza: palavra-refrão. Se há algo, antes de tudo, que aprendemos com ele, que dele guardamos, que é sua marca própria e sua luz, é exatamente esse apelo a reativar sem parar o movimento. Nisso ele se aproxima de Malebranche e de Bergson, mas penso também em Fourier. E, como um corolário, trata-se, seguramente, de um apelo e de uma advertência contra os riscos que levam a reflexão a sempre se fixar naquilo que não deve.

A começar pela mais perigosa, embora inevitável, das fixações: aquela que incide sobre a pessoa, sobre o eu [moi-je], este vírus moderno e contemporâneo de onde saiu toda imagem do pensamento, de onde emana todo dogmatismo, de onde decorre toda besteira.

Pois é exatamente em torno do "eu" que a besteira se forma, com seu rosto de olhos fixos, segura de si mesma, surgindo do fundo dos lugares-comuns, das idéias feitas, dos falsos problemas. E, sem dúvida, o que Deleuze nos ensina, aquilo que é o mais difícil e que deve, a cada vez, ser retomado e confirmado, é a necessidade de escapar dessa fixação primeira sobre o eu, dessa tentação de uma subjetividade partilhada de maneira demasiadamente universal, aquela em que a busca sem saída da identidade e a generalidade vazia se confundem. Trata-se, sem dúvida, de atravessar esta bruma ou esta cortina da subjetividade para liberar, por detrás ou ao longo dela, o espaço infinito daquilo que ela nomeia, reconhecendo como tais a única base segura, o único indubitável existente: as multiplicidades e as singularidades.

Aprender a ultrapassar uma subjetividade fundamentada no eu e antropomórfica – as duas coisas se equivalem –, a nos deslocar do ser do eu e da consciência para os devires, eis a primeira lição desse aprendizado. Mas deve-se repeti-lo em todos os sentidos, em todas as ocasiões: isso nunca se dá de uma vez por todas.

Certamente, liberar-se das imposições, das instituições e mesmo, de uma certa maneira, do eu-pessoa, outros o fizeram, nos ensinaram e ensinaram também a Deleuze: penso em Sartre, no qual a subjetividade, o por si, recusa a substancialidade do eu. Mas dizer "sujeito", em lugar de substância, não passa de uma superficial substituição de palavras; pois é esse próprio sujeito que é preciso explodir, dispersar em singularidades ou individualidades que, desta vez, aplica-se igualmente aos não-humanos, aos animais, aos estados de coisas, aos acontecimentos. E esta é a grande revolução liberadora deleuziana, o empirismo radical da dispersão – que eu chamaria de naturalista ou cósmica – de nossas mais ancoradas certezas de sermos consciências e sujeitos.

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Se chegamos a compreender isso, parece certo que atingimos, então, o centro do aprender, que compreendemos qual é o processo de aprender, no próprio Deleuze, a partir dele, o que ele repetirá incessantemente, sob todas as formas, ao longo dos diversos temas e pontos de vista que sua filosofia adotará. Mas, em meio às diferenças, permanece um ponto comum, um denominador comum: não se pode aprender sem começar a se desprender. A se desprender, é claro, dos preconceitos anteriores, mas, antes de tudo, e sempre, a se desprender de si.

Sim, eu sei, esta fórmula encontra-se em Michel Foucault. Ela tem sido, antes de tudo, comentada a partir dele, de sua ocorrência na História da sexualidade, no prefácio para O cuidado de si, o qual foi utilizado como pretexto para a afirmação de que ele anunciava um "retorno ao sujeito". Mas a idéia é também, e simultaneamente, deleuziana. É inclusive a primeira idéia, o primeiro impulso, dizia eu, de uma filosofia que iria inventar, para o pensamento, uma outra concepção, abandonando sua imagem, ou dando-lhe uma outra.

Deleuze nos ensina a desviar, a mudar de direção, a não mais exigir o eu e sua implantação, mas a nos concentrar, de imediato, na Idéia, no problema.

A Idéia, o problema, eis aí outras coisas que ele nos ensinou e às quais "o aprender" está imediatamente associado. Elas são da mesma natureza, da mesma constelação.

Grande idéia deleuziana, grande fórmula do aprendizado segundo Deleuze: as idéias não estão na cabeça, mas fora de nós. Elas não estão dentro, mas fora. Predominância do fora; sempre como em Foucault.

Fiz anteriormente uma alusão a Charles Fourier. Quem deve ser evocado aqui é Samuel Butler, por seu livro O destino de toda carne [The way of all flesh], inteiramente consagrado a uma crítica mordaz e cheia de humor das besteiras da educação e da imagem enraizada do pensamento: "Ele acreditava até agora que as idéias nasciam na cabeça (...), não sabia ainda que o pior de todos os meios para capturar as idéias consistiam em se pôr à caça para as encontrar". Todo Deleuze está nesse precursor. Mas porque Deleuze nos ensinou a encontrar essas coisas nesse autor.

E o grande paradoxo que se deduz desse "estar fora" da idéia é que somente assim chegaremos a "pensar por nós mesmos", a sermos "nós mesmos". Foi de Nietzsche, como Deleuze reconhece, que ele próprio aprendeu: "Ele dá um gosto perverso (...): o gosto para cada um dizer coisas simples em nome próprio (...)" (Deleuze, 1998, p. 14); mas para logo precisar: "Dizer algo em nome próprio (...) não é um absoluto quando nos tomamos por um eu, por uma pessoa ou um sujeito que falamos em nosso nome. Ao contrário, um indivíduo adquire um verdadeiro nome próprio ao cabo do mais severo exercício de despersonalização (...)" (idem, ibid.). Ou seja, é preciso aprender a "se abrir às multiplicidades que nos atravessam", a praticar uma "despersonalização de amor, não de submissão".

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Sim, todo Deleuze já está ali, toda sua abordagem, tudo o que vai nos ensinar, inclusive sobre Nietzsche, que ele mencionou na mesma ocasião, pois se percebe que a exaltação nietzschiana de si, ou até mesmo do "eu", não tem nada a ver com o recuo implicado no narcisismo contemporâneo; que se trata, bem ao contrário, de uma maneira de se abrir, de se entregar às forças que nos atravessam, de aumentar a intensidade da potência de ser e de agir. Deslocando-se da história da filosofia, que não sabe fazer outra coisa do que se apegar à letra dos textos, Deleuze e sua linguagem transpõem, com um salto, as incompatibilidades e afirmam os paradoxos que são, ao mesmo tempo, revelações para cada um de nós. Falar em seu próprio nome é parar de se instalar nas significações correntes, de responder à "palavra de ordem" da linguagem do ensino, de se submeter (uma despersonalização que é uma submissão); é abrir-se, por amor, ao outro que não é, necessariamente, uma outra pessoa, mas, talvez, um animal, uma coisa qualquer, ou também um humano, mas que não recebe, por essa razão, um privilégio particular. Aprender não é reproduzir, mas inaugurar; inventar o ainda não existente, e não se contentar em repetir um saber: "fala-se – percorro outra vez o mesmo texto –, do fundo daquilo que não se sabe, de seu próprio sentido, de seu próprio desenvolvimento, de um conjunto de singularidades soltas"; pois é preciso desfazer os "aparelhos de saber", as organizações preexistentes, incluída a do corpo, para devir, entrar em "devires" que comandam e balizam toda criação.

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Não quero repetir demais o que é bem conhecido, mas buscarei, nesse "aprender" deleuziano alguns pontos notáveis, balizas de uma linha que permitam esboçar-lhes os contornos. E retenho três desses pontos, dessas linhas:

1) Que a distinção entre o verdadeiro e o falso, tal como é concebida ordinariamente, tal como é aprendida nas escolas, deve ser radicalmente repensada. Pois ela só tem a ver com soluções já dadas ou com problemas parciais, com questões separadas e de pouca importância, cuja resposta exige simplesmente uma conformidade à questão. Pouco importa aprender ou não aprender essas "verdades", adquirir ou não esses saberes.

Podemos evocar – a propósito das páginas densas e centrais consagradas, em Diferença e repetição, ao problema filosófico do erro – a célebre frase, de uma lógica insondável, do pequeno Ernesto, em A chuva de verão, de Marguerite Duras: "não quero ir à escola, porque não me ensinam coisas que não sei" (Duras, 1994, p. 22). Igualmente, no curta-metragem de Jean-Marie Straub, baseado numa primeira idéia de 1972 (A chuva de verão desenvolverá o tema do curta-metragem em 1990), que apresenta, em ato, uma lista de perguntas ineptas do professor: "Quem é o presidente? Quem é esse senhor?", ou, mostrando um globo terrestre: "É uma bola? Uma batata?"; ou inflige um truísmo: "Estamos aqui e não em outro lugar", etc. Assim, Ernesto, diante do não-senso do saber ensinante (e ensinado), não tem outra saída senão a de recusar, recusar-se a aprender "o que ele não sabe", ou o que nele não tem nada a responder, não desperta nenhum eco, nem corresponde a falsos problemas.

2) O segundo ponto e a segunda linha que permitem situar a localização do aprender é esta entrevista dada aos Cahiers du cinéma, sobre Godard e sua famosa fórmula: "não uma imagem justa, mas justo uma imagem", que define a criação e que se pode aplicar à operação do pensamento como tal: "Não uma idéia justa, justo uma idéia"; "duas ou três idéias, isso é muito, é enorme"!

Pois o problema do pensamento é precisamente o da invenção de idéias, mais que de sua organização sob a forma das proposições e dos juízos que lhes impomos. Antes da aferição da verdade ou do erro, existe a própria possibilidade de pensar, e esta impossibilidade de pensar alguma coisa da qual se queixava, em termos tão comoventes, Artaud a Jacques Rivière. Daí, em Diferença e repetição, essas páginas extraordinárias, inesgotáveis sobre o pensamento que surge de um fundo puro e obscuro, "o indeterminado de onde surge a indeterminação" e que, na besteira, "sobe, através do eu, sem adquirir forma". É o pesadelo dos pedagogos: esses "deveres" tecidos de banalidades, de não-sensos, de problemas mal postos, inclassificáveis segundo a escala do erro ou do falso, mantendo-se para além de toda decidibilidade.

Mas o que é a idéia senão a determinação singular, surgida do fundo, a linguagem tornada independente da palavra de ordem, entrando em luta contra o poder? Esta pode ser a resposta do Ernesto, de Marguerite Duras, diante da borboleta espetada (no filme): "como se chama isso? – um assassinato, diz Ernesto", ou (nas duas versões), diante do professor que afirma: "estamos aqui, não em toda parte", a réplica leibniziana: "Aqui é todo lugar" (Duras, 1994, p. 81); a qual, a um só tempo, quebra o encadeamento das ordens e abre perspectivas, traça "linhas de fuga".

3) O terceiro é um ponto notável (distinto, em Deleuze, daqueles que ele qualifica de ordinários e que, também eles, marcam inflexões, linhas de fuga), no desenvolvimento consagrado mais precisamente a "aprender", no final do capítulo III, aquele sobre "A imagem do pensamento". Aprender faz com que os belos nomes (belos por sua inserção em uma tradição cultural) do aprendiz e do aluno, os quais têm origem nesse verbo, penetrem na singularidade e na objetividade da idéia, emparelhando-os, ajustando-os, ponto a ponto, com ela, tal como – exemplo dado por Deleuze – o nadador com a onda, que ele esposa e fende. É uma educação dos sentidos, uma conjugação das faculdades.

Seria preciso tudo retomar e comentar. Permitam-me, simplesmente, destacar disso tudo a observação sobre a característica sempre inconsciente, não-deliberada de uma operação e de seu êxito, o que repugna à programação autoritária, e que têm como únicos determinantes o encontro fortuito e o acontecimento feliz. "Nunca se sabe antecipadamente como alguém vai aprender, por quais amores se torna bom em latim, por quais encontros se é filósofo, em quais dicionários se aprende a pensar". Acrescento: onde se vai buscar as palavras proibidas do sexo, como ocorre comumente com as crianças.

Essa admirável frase episódica de Deleuze, que bruscamente cria um ponto notável num desenvolvimento de característica mais abstrata, desvela um espaço apaixonado e carnal, descortinando os horizontes da literatura: são varridos, de um só golpe, as pesadas considerações e os penosos protocolos de experiência de uma psicologia da aprendizagem, incluindo-se aí a mais recente e também a mais próxima das noções deleuzianas de ajustamento, de adaptação, de acomodação. É preciso que passemos a um outro domínio, o da própria vida, e não mais o do laboratório, do observatório pedagógico escolar. Deixamos para trás Rousseau e Freinet. A linha de fuga da infância se desenha ou em O aluno, de Henry James, ou em O destino da carne, de Samuel Butler, ou ainda em Anton Reiser, de Karl-Philipp Moritz, ou em Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse. A aprendizagem segue a via dos encontros e dos amores e não os métodos de uma pedagogia sempre impotente, ultrapassada pelas paixões. "Não existe método para encontrar os tesouros e muito menos para aprender".

E, entretanto, por um paradoxo que se cola a todas as grandes idéias, é possível que essa via, essa escapada altamente transgressiva de toda instituição, esteja, ao mesmo tempo, em descobrir propriedades ainda desconhecidas para uma educação sistematicamente orientada e utilizável para fins sociais.

Deleuze, no mesmo texto, refere-se ao "adestramento", de que fala Nietzsche, a "uma cultura ou paidéia que percorre o indivíduo todo". Mas eu pensaria, antes, em Fourier e em sua educação passional, que ensina ao fazer associações com outras paixões e ao fazê-las atuar por "congregação passional".

Como aprender a gramática e fazer com que ela seja amada por uma jovem que ama o alho?, pergunta-se ele em uma passagem consagrada à educação baseada na harmonia (Fourier, 1966-7, p. 257). "Esta jovem gosta de alho e não gosta de estudar a gramática". Então, como fazer com que ela a aprenda? Enxertar a gramática nessa paixão primeira, colocando-a em um grupo industrial de "alhistas". E, ao apresentar-se-lhe uma "Ode ao alho", ela se apressará a lê-la e, pouco a pouco, será conduzida ao estudo da poesia lírica e da gramática. Historinha cômica, sem dúvida, mas plena de sentido, do sentido da vida e não da metodologia abstrata. E é preciso ampliar esse tipo de experiência, por meio de outras relações passionais e atrativas, que são os verdadeiros acompanhamentos ou as verdadeiras arrancadas do aprender. Tal como a relação, que também é imaginada por Fourier, no que respeita à emulação no trabalho, entre "a jovem Selima, de 14 anos, e o rico Creso, de 50", o qual torna-se, "ele próprio, um outro, no trabalho com os cravos". Relação a propósito da qual ele precisa: "Os gracejadores dirão que esta queda de Creso por Selima deve-se a algum outro tipo de afinidade, de natureza duvidosa; não importa se Creso imagina ter amor por ela, isso só o fará melhor sob a relação cabalística" (v. V, etc.). Apenas a civilização ("a ordem subversiva", segundo Fourier) pôde ignorar e proscrever esta lógica natural do acordo entre o intelecto e os sentimentos e tornar repulsivo um trabalho que deve ser apreendido no movimento amoroso que o acompanha e o transporta.

Igualmente bastante fouriéristas (ou melhor, "fouriérianas") me parecem a inspiração de conjunto e certas observações – de que está recheada a obra de Deleuze – sobre a rejeição das exclusões binárias, "a cultura da alegria, o ódio à interioridade", a afirmação da "exterioridade das forças e das relações, a denúncia do poder" (Deleuze, 1998, p. 14); ainda que não deva se tratar aí, de minha parte, de uma aproximação inteiramente subjetiva, as referências de Deleuze vão, sobretudo, na direção de Spinoza ou de Nietzsche, de Hume ou de Bergson. Entretanto, Fourier é bastante mencionado em O anti-Édipo, como pensador da lógica do desejo, como o que já viu e arrumou, agenciou a máquina de captação dos fluxos produtivos ("ainda aí, tudo foi dito por Fourier quando ele mostra as duas direções opostas da 'captação' e da 'mecanização'", Deleuze; Guattari, 1976, p. 372). Ora, aprender tem a ver com esse mecanismo, descoberto e apresentado, em conjunto com Félix Guattari, em 1972 e, mais ainda nas análises de 1969, ainda feitas no nível das estruturas e do transcendental.

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Essas últimas não deixam de ter um interesse essencial para esclarecer este outro aspecto, este último aspecto que eu gostaria de evocar aqui, do aprender com Deleuze, que é o do incessante surgimento de formulações novas, da invenção ou da criação na continuidade de uma trajetória. Deleuze, enfim libertado, no sentido próprio, "aliviado" das pesadas cadeias da história da filosofia. O que não significa que, através dos autores, ele não tenha estabelecido seu próprio percurso; bem ao contrário.

São exatamente essas escolhas e seus implantes que me parecem particularmente interessantes para aquilo que ele pôde nos ensinar. Ensinar a não se deixar deter pelas prevenções, ensinar a ler e a reler, a escolher.

Foi ele que nos ensinou como tirar Gabriel Tarde ou Samuel Butler do descrédito ou da sombra, como ressuscitar Ballanche, como reviver Charles Péguy. A uma geração, sob a influência exclusiva da fenomenologia e do marxismo, ele relembrou Hume e Bergson. Ele se liberou e nos liberou das ciências tão incertas quanto dogmáticas do estruturalismo, do lacanismo, da filosofia analítica; na contra-corrente de tudo que esterilizou a criação, ao fazer do pensamento, na maior parte do tempo, um servo do poder e de suas palavras de ordem. Ele concedeu direitos a uma filosofia da natureza; depois de um existencialismo demasiadamente inclinado ao humanismo exclusivo, ele relembrou o animal, a mulher, a criança. Mas não, de jeito nenhum, para "elevá-los" à "dignidade do sujeito", mas para, ao contrário, esposar sua diferença, sua despersonalização amorosa e lhes dar expressão. Não do lado da pessoa, mas da dispersão que ele chamou de "molecular"; não do lado do acesso a uma maioria e a seus direitos, mas ao afirmar e assumir sua minoridade, com uma literatura e uma política "menores".

Sua força, sua potência – no sentido spinozista ou nietzschiano que ele deu a essa palavra, totalmente oposto ao de poder – está, num certo sentido, em não ter dito nada além daquilo que já não pensássemos. Ou, melhor, daquilo que não ousávamos pensar, porque não tínhamos nem a palavra nem a idéia para pensar e formular. Nos antípodas, portanto, do bom senso, do senso comum, que se diz ser a coisa mais bem distribuída e que é o terreno onde germina, preferencialmente, a besteira.

Mas a "distribuição" deleuziana situa-se numa certa região obscura do "precursor sombrio", que é como ele gosta de chamá-lo, de onde surge o relâmpago, a fulguração da idéia, a formulação do problema. Se ele se dirige a cada um, não é pela generalidade da proposição, mas pelo traço singular, por este "diferencial", este "infinitesimal" da singularidade – tal como o pensava, igualmente, Fourier –, que é também o mais comumente distribuído. É a parte do "on",** ** N. dos T.: Em francês, partícula que sinaliza o pronome impessoal. outra vez, paradoxalmente, mais profundo, mais "autêntico" que o "eu" do "sujeito". "Esplendor do on", escreveu ele. Abra-se Deleuze ao acaso e pode-se estar certo de encontrar a fórmula que ensina e que, ao mesmo tempo, sempre renovadamente, sobre ele, sobre seu pensamento, nos ensina alguma coisa.

Aprender com Deleuze é também aprender Deleuze. O que não quer dizer sabê-lo.

Recebido em maio de 2005 e aprovado em julho de 2005.

  • DELEUZE, G. Conversações Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1998.
  • DURAS, M. La Pluie d'été. Paris: Gallimard, 1994.
  • FOURIER, Ch. Le nouveau monde industriel. In: FOURIER, Ch. uvres completes. Vol. VI, Paris: Anthropos, 1966-1967.
  • DELEUZE, G ; GUATTARI, F. O Anti-Édipo Trad. Georges Lamazière. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

  • *
    Tradução de Tomaz Tadeu e Sandra Corazza.
  • **
    N. dos T.: Em francês, partícula que sinaliza o pronome impessoal.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2006
  • Data do Fascículo
    Dez 2005

Histórico

  • Aceito
    Jul 2005
  • Recebido
    Maio 2005
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