Fórum Social Mundial: um outro mundo é possível

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

Valdemar Sguissardi* E-mail * Professor da Faculdade de Educação da Universidade Metodista de Piracicaba (SP). : vs@merconet.com.br

O Ser Humano é a medida de todas as coisas.

Pelo tamanho do Ser Humano se mede a vastidão do Universo,

assim como pelo palmo e a braça se começou a medir a Terra.

As frases em epígrafe abrem o texto intitulado O Parâmetro Humano, escrito por Luís Fernando Veríssimo e lido na sessão de encerramento do I Fórum Social Mundial que aconteceu em Porto Alegre de 25 a 30 de janeiro de 2001.

A participação de quase 20 mil pessoas, centenas de lideranças políticas e de representantes de mais de centenas de entidades ou organizações (sindicatos, ONG's etc.), e a cobertura de 1.670 jornalistas inscritos trabalhando para mais de 700 órgãos de imprensa escrita, falada e televisiva de 122 países, fizeram do Fórum Social Mundial não um "ato ingênuo patrocinado pelo governo do Estado gaúcho", conforme o negativo prognóstico do presidente da República, nem tampouco um simples evento anti-Fórum Econômico Global, que em sua tradicional edição anual reunia-se na mesma data em Davos (Suíça); fez dele, sim, um verdadeiro "marco de esperança e um novo espaço mundial para a reflexão e a organização de todos os que se contrapõem às políticas neoliberais e estão construindo alternativas para priorizar o desenvolvimento humano e a superação da dominação dos mercados em cada país e nas relações internacionais", segundo anunciavam confiantes os organizadores na apresentação de seu Programa Oficial.

A luta por um mundo sem excluídos, uma das bandeiras do I Fórum Social Mundial, tem suas raízes fixadas na resistência histórica dos povos contra todo o gênero de opressão em todos os tempos, resistência que culmina em nossos dias com o movimento irmanando milhões de cidadãos e não-cidadãos do mundo inteiro contra as conseqüências da mundialização do capital, patrocinada por organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outros.

Os eventos que antecederam ao Fórum Social Mundial e que de forma imediata conduziram a sua organização foram as mobilizações européias contra o Acordo Multilateral de Investimentos (AMI) - uma espécie de Constituição Mundial do Capital, no dizer de alguém - em 1998, as manifestações massivas que impediram a tranqüila realização do encontro da OMC, em Seatle, em novembro de 1999, e as ocorridas contra as políticas do FMI e do BM, em Washington e em Praga, em 2000.

O Fórum Social Mundial constituiu-se, pois, numa nova etapa deste movimento mundial de resistência ao pensamento hoje hegemônico no mundo: o neoliberalismo e a globalização que lhe convêm. Como diz um dos seus idealizadores, Francisco Whitaker, da Comissão Brasileira Justiça e Paz, "Mais além das manifestações de massa e protestos, pareceria possível passar-se a uma etapa propositiva, de busca concreta de respostas aos desafios de construção de 'um outro mundo', em que a economia estivesse a serviço do ser humano e não o inverso" (2001).

Diversas entidades nacionais (Abong - Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais; Attac - Ação pela Tributação das Transações financeiras em Apoio aos Cidadãos; CBJP - Comissão Brasileira Justiça e Paz, da CNBB; Cives - Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania; CUT - Central Única dos Trabalhadores; Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sócio Econômicas; CJG - Centro de Justiça Global; MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e estrangeiras (Attac - Associação pela Taxação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos - e o jornal francês Le Monde Diplomatique), com apoio do governo do Estado do Rio Grande do Sul e da Prefeitura de Porto Alegre, responsabilizaram-se pela realização do evento.

Riqueza e democracia foram os dois grandes temas do Fórum. Daquela debateu-se sua formação, concentração e distribuição, ao lado das candentes questões do emprego, meio ambiente e a ausência de controles do capital financeiro. Da democracia discutiram-se especialmente os limites ou quase impotência dos Estados nacionais em face da ampla liberdade operacional do capital financeiro e o peso de órgãos multilaterais como o FMI. Para as grandes conferências ou mesas-redondas, cada um desses temas dividiu-se em dois eixos: 1) Riqueza: a) a produção de riquezas e a reprodução social; b) o acesso às riquezas e a sustentabilidade; 2) Democracia: a) a afirmação da sociedade civil e dos espaços públicos; b) poder político e ética na nova sociedade. Cada um desses quatro eixos foi debatido por quatro mesas-redondas, reunindo em cada uma de 4 a 5 especialistas nacionais e estrangeiros.

Por proposta das organizações ou instituições participantes, realizaram-se mais de 400 oficinas (debates, apresentação experiências, agendas de luta etc.), envolvendo mais de mil expositores e/ou debatedores e centenas de temas que formam o largo espectro dos movimentos e lutas sociais.

Também se realizaram nos dias do evento o Fórum Parlamentar Mundial, o Fórum das Autoridades Locais pela Inclusão Social e Experiências de Orçamento Participativo.

O Fórum Social Mundial não teve caráter deliberativo, antes se constituiu num imenso espaço de reflexão, de encontro e reencontro de milhares de vozes e vontades por um outro mundo possível e sem excluídos. Ao final, em lugar de um documento único, dezenas de manifestos e algumas propostas consensuais:

a) A realização anual do Fórum Social Mundial, na mesma data em que se realize o Fórum Econômico Global, devendo o do ano 2002 ainda acontecer em Porto Alegre, com a possibilidade de realização simultânea de outro evento semelhante em outro país;

b) realização de ações visando o cancelamento da dívida externa dos países pobres;

c) taxação (taxa Tobin) dos grandes capitais especulativos que circulam hoje livremente pelos quatro cantos do mundo;

d) continuidade da mobilização mundial contra os organismos patrocinadores da globalização neoliberal: FMI, BM, OMC, Alca (Acordo de Livre Comércio das Américas), entre outros.

Uma das formas de manter-se ao par das mobilizações propostas pelo Fórum Social Mundial é o acesso ao site http://www.forumsocialmundial.org.br da Internet, onde o leitor encontrará grande volume de informações sobre esse evento e sobre os preparativos de sua 2a edição. O que constitui a maior riqueza deste site talvez seja o espaço denominado Biblioteca de Alternativas, que nesta data (março/2001) disponibiliza para leitura e cópia mais de 70 textos de dezenas de autores, alguns conhecidos mundialmente, sobre as diferentes temáticas que compõem a pauta de preocupações do Fórum Social Mundial

Recebido para publicação em março de 2001.

Referências bibliográficas

FÓRUM Social Mundial - Um outro mundo é possível. Programa Oficial. Porto Alegre, 25 jan. 2001.

WHITAKER, Francisco. Fórum Social Mundial: Origens e objetivos. http://www.forumsocialmundial.org.br/portugues/biblioteca (capturado em 28/02/2001).

  • E-mail
    * Professor da Faculdade de Educação da Universidade Metodista de Piracicaba (SP). :

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Set 2001
  • Data do Fascículo
    Ago 2001
Centro de Estudos Educação e Sociedade - Cedes Av. Berttrand Russel, 801 - Fac. de Educação - Anexo II - 1 andar - sala 2, CEP: 13083-865, +55 12 99162 5609, Fone / Fax: + 55 19 3521-6710 / 6708 - Campinas - SP - Brazil
E-mail: revistas.cedes@linceu.com.br