Apresentação

Alfredo Veiga-Neto

APRESENTAÇÃO

E ainda mais, o estado do que foi mordido pela víbora é também o meu. Com efeito, dizem que quem sofreu tal acidente não quer dizer como foi senão aos que foram mordidos, por serem os únicos, dizem eles, que o compreendem e o desculpam de tudo que ousou fazer e dizer sob o efeito da dor.

(PLATÃO. O Banquete. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 48)

Após várias consultas a inúmeros assinantes e leitores de Educação & Sociedade, o Comitê Editorial da Revista escolheu o tema Diferenças, para o dossiê deste nº 79. Coube a mim ¾ por indicação daquele Comitê (aliás, uma indicação da qual muito me orgulho) ¾ a responsabilidade de convidar colegas para, junto comigo, construírem este dossiê.

De saída, dei-me conta de que essa não seria uma tarefa fácil. Afinal, as discussões sobre questões como multiculturalismo, identidades e diferença estão na ordem do dia nos campos da Filosofia e das Ciências Humanas, de modo que já existem, entre nós, vários grupos e muitas pessoas pesquisando e escrevendo sobre tais questões. Além disso, trata-se de questões da maior importância no campo da Educação. Isso é assim por duas razões principais e igualmente importantes. Uma delas: nós, educadores e educadoras, temos de lidar direta e cotidianamente com um mundo onde a diferença assume cada vez maior relevância e que, bem por isso, se nos apresenta como um mundo sempre estranho. A outra razão: o próprio discurso pedagógico parece estar se afastando rapidamente do programa homogeneizante pensado por muitos dos ideólogos da Modernidade ¾ os quais preconizavam uma sociedade sem diferenças de qualquer ordem ¾, e parece estar se deslocando no sentido de reconhecer e até defender as diferenças.

Diante dessas dificuldades, optei por dirigir minha encomenda para algumas pessoas segundo o que denominei critério da presença. Tal presença se dá não apenas na (mais ou menos longa...) tradição de cada uma dessas pessoas no campo da pesquisa educacional no Brasil, como, ainda, no interesse que todas elas têm demonstrado pelas discussões que são centrais a este dossiê. Às pessoas que atenderam meu pedido no prazo previsto, agradeço seus esforços no sentido de contribuir para que Educação & Sociedade continue sendo um dos melhores periódicos científicos brasileiros no campo da Educação e continue tendo um claro reconhecimento internacional.

A lista de autores e autoras poderia ter sido maior; nesse caso, talvez o dossiê ficasse ainda melhor. Mas existem limitações, sejam de custos, sejam de prazos, sejam da própria natureza da Revista. Assim, chegou-se ao total de sete artigos, todos eles inéditos.

É claro que desde o início desejei que o dossiê atingisse um alto nível acadêmico, tanto em termos disso que se costuma denominar "qualidade" quanto em termos da sua "utilidade". Agora, reconheço que o resultado superou minhas expectativas. Mas não me refiro propriamente a uma superação que se tenha dado no plano da "qualidade" e da "utilidade" dos artigos. Afinal, considerando as trajetórias acadêmicas das pessoas que atenderam ao convite, o resultado final só poderia ser este mesmo: no que concerne à densidade, à pertinência e à atualidade, estamos diante de textos exemplares. E era bem isso o que eu esperava quando fiz as encomendas e discuti o perfil que cada um poderia dar ao seu respectivo artigo. A superação a que me refiro está no plano do próprio conjunto dos textos, nesse sentido coral a que chegou o dossiê graças a essa possível e desejável combinação simultânea entre diferença e igualdade. Cada texto, apesar de suas especificidades, parece ressoar junto com os demais. Por um lado, há grandes e nítidas diferenças entre eles: ora um se constitui num ensaio, ao passo que outro faz um relato de pesquisa (digamos...) empírica; ora um é de cunho filosófico, ao passo que outro tem um acento sociológico e culturalista; ora um é extenso, ao passo que outro é curto; ora um centra-se em torno do currículo, ao passo que outro tece uma refinada discussão sobre a "outridade" do estrangeiro. Por outro lado, todos parecem olhar na mesma direção: todos partilham uma cumplicidade que, muito longe de ser panfletária, está enraizada num comum que, nas palavras de Platão, é aquele "estado dos que foram mordidos pela víbora" e que acabam experimentando a mesma dor causada pelo mesmo veneno.

Ao invés de comentar em separado cada artigo nesta Apresentação, prefiro parar por aqui e convidar os leitores e as leitoras a adentrarem no dossiê e a se deixarem inquietar pelos desafios que a diferença coloca para todos nós. Que cada um destes textos traga junto com o veneno ¾ que parece instilar em nós ¾ um pouco do antídoto capaz de nos tornar mais fortes e reativos nesse estranho mundo em que vivemos.

Alfredo Veiga-Neto

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Universidade Luterana do Brasil

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Ago 2002
  • Data do Fascículo
    Ago 2002
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