Resiliência e prática escolar: uma revisão crítica

Resilience and educational practice: a critical review

Resilience et pratique scolaire: une revision critique

Resumos

Explora-se a literatura nacional e internacional sobre resiliência e educação, por meio de um estudo de revisão crítica. A base de análise foi a hermenêutica dialética. Identificamos dois núcleos temáticos: a dimensão relacional da resiliência e a estrutura educacional; a estrutura da política educacional e a resiliência na prática docente. O primeiro subdivide-se em dois campos: um relacionado à psicologia do desenvolvimento, valorizando o lugar do indivíduo na construção de posturas e comportamentos resilientes, e outro que se vincula à perspectiva sistêmica das instituições, incluindo escola e família. Concluímos que na educação são produzidos "processos resilientes" e muito menos resiliência como conceito destituído de contexto, realidade e reflexão. Sugerimos que uma análise dos campos simbólicos, dos capitais gerados nesse universo e do diálogo entre tradições pode ser útil para análises futuras da temática da resiliência e da educação.

Resiliência; Professor; Prática docente


This article explores the national and international literature on resilience and education through a critical review study. The analysis was based on the dialectical hermeneutics. We identified two themes: the relational dimension of resilience and the educational structure, the structure of educational policy and resilience in the teaching practice. The first one is divided into two fields: one related to developmental psychology, emphasizing the individual′s place in building resilient attitudes and behaviors, and another that binds to the systemic perspective of the institutions including school and family. We conclude that, "resilient processes" are produced in education as opposed to resilience as a concept devoid of context, reality and reflection. We suggest that an analysis of the symbolic field, capital generated in this universe, dialogue between traditions, can be useful for future analysis of the theme of resilience and education.

Resilience; Teacher; Teaching practice


Ce texte explore la littérature nationale et internationale sur la résilience et l′éducation, au moyen d′une étude de révision critique. La base de l′analyse a été l′herméneutique dialectique. Nous avons identifié deux noyaux thématiques: la dimension relationnelle de la résilience et la structure éduca tionelle; la structure de la politique éducationnelle et la résilience dans la pratique d′enseignement. Le premier se subdivise en deux champs: un lié à la psychologie du développement, valorisant le lieu de l′individu dans la construction des postures et comportements résilients, et l′autre qui se rattache à la perspective systémique des institutions incluant l′école et la famille. Nous en concluons que dans l′éducation sont produits des «processus résilients» et beaucoup moins de la résilience comme concept dépourvu de contexte, réalité et réflexion. Nous suggérons qu′une analyse des champs symboliques, des capitaux créés dans cet univers, et du dialogue entre traditions peuvent être utiles pour des analyses futures de la thématique de la résilience et de l′éducation.

Résilience; Professeur; Pratique d′enseignement


REVISÃO & SÍNTESE

Resiliência e prática escolar: uma revisão crítica

Resilience and educational practice: a critical review

Resilience et pratique scolaire: une revision critique

Indinalva Nepomuceno FajardoI; Maria Cecilia de Souza MinayoII; Carlos Otávio Fiúza MoreiraIII

IDoutora em Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). E-mail: nalvanf@gmail.com

IIDoutora em Saúde Pública, pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e editora científica da revista Ciência & Saúde. E-mail: cecilia@claves.fiocruz.br

IIIDoutor em Educação e professor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). E-mail: otavio@ensp.fiocruz.br

RESUMO

Explora-se a literatura nacional e internacional sobre resiliência e educação, por meio de um estudo de revisão crítica. A base de análise foi a hermenêutica dialética. Identificamos dois núcleos temáticos: a dimensão relacional da resiliência e a estrutura educacional; a estrutura da política educacional e a resiliência na prática docente. O primeiro subdivide-se em dois campos: um relacionado à psicologia do desenvolvimento, valorizando o lugar do indivíduo na construção de posturas e comportamentos resilientes, e outro que se vincula à perspectiva sistêmica das instituições, incluindo escola e família. Concluímos que na educação são produzidos "processos resilientes" e muito menos resiliência como conceito destituído de contexto, realidade e reflexão. Sugerimos que uma análise dos campos simbólicos, dos capitais gerados nesse universo e do diálogo entre tradições pode ser útil para análises futuras da temática da resiliência e da educação.

Palavras-chave: Resiliência. Professor. Prática docente.

ABSTRACT

This article explores the national and international literature on resilience and education through a critical review study. The analysis was based on the dialectical hermeneutics. We identified two themes: the relational dimension of resilience and the educational structure, the structure of educational policy and resilience in the teaching practice. The first one is divided into two fields: one related to developmental psychology, emphasizing the individual′s place in building resilient attitudes and behaviors, and another that binds to the systemic perspective of the institutions including school and family. We conclude that, "resilient processes" are produced in education as opposed to resilience as a concept devoid of context, reality and reflection. We suggest that an analysis of the symbolic field, capital generated in this universe, dialogue between traditions, can be useful for future analysis of the theme of resilience and education.

Key words: Resilience. Teacher. Teaching practice.

RÉSUMÉ

Ce texte explore la littérature nationale et internationale sur la résilience et l′éducation, au moyen d′une étude de révision critique. La base de l′analyse a été l′herméneutique dialectique. Nous avons identifié deux noyaux thématiques: la dimension relationnelle de la résilience et la structure éduca tionelle; la structure de la politique éducationnelle et la résilience dans la pratique d′enseignement. Le premier se subdivise en deux champs: un lié à la psychologie du développement, valorisant le lieu de l′individu dans la construction des postures et comportements résilients, et l′autre qui se rattache à la perspective systémique des institutions incluant l′école et la famille. Nous en concluons que dans l′éducation sont produits des «processus résilients» et beaucoup moins de la résilience comme concept dépourvu de contexte, réalité et réflexion. Nous suggérons qu′une analyse des champs symboliques, des capitaux créés dans cet univers, et du dialogue entre traditions peuvent être utiles pour des analyses futures de la thématique de la résilience et de l′éducation.

Mots-clés: Résilience. Professeur. Pratique d′enseignement.

Introdução

Este artigo discute a educação escolar à luz do conceito de resiliência. Diversos estudos apontam definições de resiliência como a capacidade desenvolvida pelos sujeitos de responder e reagir às situações consideradas traumáticas, adversas, violentas, sem sucumbir às mesmas (FLACH, 1991; TAVARES, 2001; ANTUNES, 2003; DESLANDES; JUNQUEIRA, 2003; ASSIS, 2006; POLETTI; DOBBS, 2007). Há uma tradição de estudos latino-americanos, portugueses e americanos que exploram as relações entre educação escolar e resiliência (LIPP, 2002; HENDERSON; MILSTEIN, 2005; POLETTI; DOBBS, 2007; GROTBERG, 2006; MELILLO; OJEDA; RODRÍGUES, 2008; TAVARES, 2001; TIMM; MOS-QUERA; STOBÄUS, 2008).

No território brasileiro identificamos uma literatura que explora a vertente da educação escolar associada à resiliência por duas perspectivas: a de um olhar sobre os sujeitos-alvo do processo educacional, no caso alunos, adolescentes de escolas da rede pública, de classes populares e submetidos a contextos de vida marcados pela violência (ASSIS, 2005; HENDERSON; MILSTEIN, 2005; ASSIS; PESCE; AVANCI, 2006; ANTUNES, 2003; MELILLO; OJEDA; RODRÍGUEZ, 2008); e a perspectiva que problematiza a posição dos educadores no desenvolvimento de suas experiências e de posturas resilientes (WOLIN; WOLIN, 1993; YUNES, 2001; ANTUNES, 2003; BARBOSA, 2006; TAVARES, 2007).

Para fins desse artigo, exploraremos essa literatura com vistas a demarcar as principais discussões, pressupostos e perspectivas teóricas que subsidiam as análises sobre resiliência, com vistas a contribuir para reflexões no âmbito da prática escolar. E, nesse campo, o foco incide sobre o papel do educador e sua capacidade de responder de forma consistente e flexível aos desafios e circunstâncias desfavoráveis no ambiente educativo.

Metodologia

Inspirados em Junqueira e Deslandes (2003), retomamos como base metodológica o desenho de estudo de revisão crítica. A análise hermenêutica de base dialética, uma combinação que, do ponto de vista do pensamento, faz a síntese dos processos compreensivos e críticos (MINAYO, 2008), servirá como arcabouço teórico para a leitura crítica dos artigos nacionais, internacionais e livros/capítulos. Busca-se a perspectiva da produção de significados, numa abordagem que trabalha a comunicação da vida cotidiana e do senso comum, criando instrumento de crítica (idem, ibid.) na relação com o contexto histórico, a estrutura sociocultural e os problemas surgidos entre educação, pobreza e violência. O critério para não revisão de teses e dissertações se deu pela busca da dimensão pública e acesso à obra. Neste trabalho priorizamos os textos com pressupostos e perspectivas teóricas que contribuam para reflexões no âmbito da prática escolar, com um enfoque no professor com a qualificação de um ser resiliente, capaz de superar os efeitos de uma adversidade a que está submetido em um dado momento e, ainda, sair fortalecido da situação. A partir da literatura revisada, identificamos dois núcleos temáticos: 1) a dimensão relacional da resiliência e a estrutura educacional; 2) a estrutura da política educacional e a resiliência na prática docente.

Resultados e discussão

A realidade socioeconômica dos países serve como contexto que situa os principais problemas que os autores identificam e a forma como eles vão discutir o conceito de resiliência na relação com a educação. No Brasil e México, países em desenvolvimento, com situações de desigualdade social, dificuldade de acesso a bens e serviços e questões relacionadas aos agravos produzidos pela violência, a literatura enfoca resiliência e prática docente, destacando as interferências da desigualdade e da violência no âmbito da educação. No caso da literatura norte-americana, o enfoque incide sobre a interferência da família e de sua organização no desempenho escolar dos alunos. Nesse caso, os professores atuariam suprindo as lacunas das relações de suporte familiar. Por fim, a literatura portuguesa aponta para a interferência dos avanços tecnológicos na prática escolar, com incorporação e mudanças de posturas por parte dos alunos, com dificuldades nesse processo por parte de alguns professores, que sofrem e podem desenvolver posturas resilientes.

Para tanto, identificamos três artigos e onze livros, num total de quatorze textos, conforme descrevemos no quadro a seguir:

No quadro apresentado, ganham destaque dois eixos nas análises sobre resiliência. O primeiro subdivide-se em dois campos: um relacionado à psicologia do desenvolvimento, por meio da valorização do lugar do indivíduo na construção de posturas e comportamentos resilientes, e outro que vai ao encontro de uma perspectiva sistêmica com a leitura sobre as instituições, incluindo escola e família. O segundo acessa perspectivas críticas, desnaturalizando o marco anterior individualista para enfocar leituras sociológicas e culturais. Neste eixo revelam-se perspectivas que valorizam o aporte das redes de apoio social e religioso. Interessa-nos nas seções seguintes explorar as perspectivas analíticas que embasam a literatura revisada sobre resiliência e prática escolar, a partir de uma perspectiva crítica.

A dimensão relacional da resiliência e a estrutura educacional

Nesse núcleo temático localizamos aquelas análises que se centram na visão adaptativa do indivíduo frente aos desafios e circunstâncias desfavoráveis, contando inclusive com o apoio do professor nesse processo. No caso, Poletti e Dobbs (2007), autoras com uma visão otimista do ser humano e crença nos seus imensos recursos internos, laços e vínculos afetivos e de confiança, defendem que estes são criados a partir também de relações desenvolvidas pelo professor, fazendo parte de suas considerações os aspectos de: (1) comunicação, que representa a possibilidade de elo e troca com os outros; (2) capacidade de assumir a responsabilidade por sua própria vida; (3) consciência limpa, o que significa não ceder à culpabilização, aceitar responsabilidades, reconhecer erros e superá-los; (4) ter convicções sobre alguns valores essenciais que permitem avançar e suportar adversidades. Para essas autoras, a base de análise teórica sobre resiliência se assenta na perspectiva dinâmica de Jung, com conceitos que valorizam a dimensão empática do ser humano.

A leitura crítica dessas autoras nos faz destacar, com base nos conceitos que utilizam, a dimensão individualista que não dialoga com a posição desse indivíduo em seu contexto social. O risco dessa leitura se vincula a possibilidade de responsabilização do indivíduo por seu processo resiliente. Já em Melillo, Ojeda e Rodrígues (2008), a resiliência é mais um estar que um ser. É um processo, um vir-a-ser do Ser Humano que inscreve seu desenvolvimento em um meio e escreve sua história em uma cultura. Estes autores enfatizam o caráter interativo do desenvolvimento dos resilientes e o vínculo positivo com o outro, que determinam dois caminhos interpretativos: um enfoque geneticista e individualista de pessoas resilientes e outro enfoque nas características da interação recíproca dos seres humanos para o desenvolvimento dos sujeitos. No entanto, a interface da sua leitura de resiliência relacionado às Ciências Sociais parece pautado nas observações em indivíduos com o enfoque de base fenomenológica. Segundo Melillo e Ojeda (op. cit.), a resiliência estaria articulada à epidemiologia social, na análise das situações coletivas. A marca teórica do autor revela uma convivência de campos interdisciplinares que dialogam, em um recorte de base fenomenológica, diferentemente do indivíduo psicológico apontado por Poletti e Dobbs (2007).

Em Antunes (2003), Assis (2006) Tavares (2001), Henderson e Milstein (2005), a resiliência se articula à educação escolar, pelo pressuposto de ser a escola um espaço promotor da mesma por duas condições importantes. A primeira, porque agrupa distintos sistemas humanos; a segunda, porque articula a pessoa do professor ao aluno dentro de uma perspectiva de desenvolvimento humano, de proteção, e não de fatores de risco. Depois da família, a escola é o meio fundamental e essencial para que as crianças, na sala de aula, adquiram as competências necessárias para ter sucesso na vida, por meio da superação das adversidades. Portanto, saber lidar com as formas de promover a resiliência pode ser a chave para a educação cumprir objetivos fundamentais como, por exemplo, formar pessoas livres e indivíduos responsáveis; sobretudo nos casos de fragilidade de laços afetivos familiares e de sistemas de suporte social. Nesse caso, cabe à escola um papel fundamental na educação para a resiliência, pois é uma instituição social que possui funções que ultrapassam a mera produção e reprodução do conhecimento. O investimento na escola como promotora da saúde, da qualidade de vida e do bem-estar de todos que nela atuam, comparece em uma perspectiva analítica que se diferencia dos autores anteriores na articulação com as seguintes ideias: a de prevenção de agravos à saúde, ao êxito escolar do aluno e ao papel social do professor. A utilização da categoria papel social por parte dessa literatura nos reenvia ao marco interacionista simbólico, onde há a possibilidade da criatividade, inovação e diálogo com a realidade do contexto daqueles que estudam e/ou trabalham naquela unidade escolar. Possíveis limites dessa abordagem se dão quando, à luz de uma interpretação de base dialética, percebemos que a estrutura social marcada por desigualdades e violências, as mais diversas, coloca limites à superação das dificuldades encontradas nas relações face a face do ambiente escolar.

A violência presente nas instituições, de ordem não só física, mas simbólica, nos leva a refletir sobre o marco social da resiliência. Professores, gestores, pessoal de apoio, pais e responsáveis podem participar da produção de um clima dialógico, de valorização dos estudantes quanto ao papel do profissional professor e que este seja instado a compreender a importância de desenvolver estratégias de fortalecimento das pessoas. Para isso, precisa lidar com situações estressantes e adversas. Haja vista, segundo Assis, Pesce e Avanci (2006), que pesquisas brasileiras e latino-americanas demonstram a existência de algumas escolas em que professores conseguem elevado desempenho acadêmico dos alunos, apesar da situação socioeconômica onde atuam. Cabe refletir o que faz a diferença entre escolas que compartilham estruturas sociais semelhantes em termos de desigualdade e violência, sendo que algumas enfrentam e superam e outras não.

Segundo Yunes (2001), autora afinada com a vertente discutida antes, boa parte dos problemas na escola poderia ser sanada se o ambiente mudasse para melhor. Os eventos estressores podem ser experienciados de distintas maneiras por diferentes pessoas. Daí que a resiliência não pode ser vista como um atributo fixo do indivíduo, pois, se as circunstâncias mudam, a resiliência se altera. Esta só pode ser vista como um conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que acontecem em dado período da vida do sujeito (POLETTO; KOLLER, 2006). Portanto, a resiliência tem tudo a ver com presenças significativas, com solidariedade, com interações de seres humanos que formam comunidades saudáveis e acolhedoras. A transformação da escola em uma comunidade resiliente exige, sobretudo, um olhar atento do docente, pois ele próprio precisa ir se construindo como uma pessoa que detém esse fator diferencial, essa qualificação. Qualificativos relacionados a essa construção são: autoconfiança, persistência, criatividade, bom humor, liderança, capacidade de produzir conhecimento, relacionamento interpessoal e capacidade de sonhar. Estes qualificativos devem ser situados na discussão de base relacional à custa de serem interpretados e resumidos a uma dimensão meramente individualista.

Nessa leitura, o professor atua como promotor de resiliência para si e para o aluno no âmbito das relações de grupo e do ambiente institucional. Há uma relação dos fatores de proteção com o aumento da resiliência, ressaltando-se o importante papel do professor e das condições familiares favoráveis para a formação de jovens fortes e bem-sucedidos na escola. Cabe ao professor, segundo Antunes (2003), assumir o papel de instigador de curiosidades, de ajudante no processo de autoconhecimento e de automotivação do estudante, de estimulador de relações interpessoais saudáveis e de especialista na administração do tempo. Ou seja, tal leitura nos encaminha a uma perspectiva construtivista no âmbito das relações de ensino e aprendizagem, e também para as trocas sociais no âmbito humano.

Essas leituras contribuem para contextualizar a formação profissional, as condições de trabalho, a definição do papel docente, as cobranças e pressões, a segurança na escola. Considera-se, portanto, as modificações históricas e busca-se que o professor desenvolva a capacidade de se libertar dos trilhos que construíram suas representações de escola e de educação. Pensar a escola na sociedade contemporânea, nesse referencial, é pensar em reorientar o ser humano no mundo, é reconfigurar o espaço e o tempo de aprender e ensinar, é reelaborar a cultura pessoal e profissional.

As duas linhagens teóricas situadas nessa seção - a individualista, situada no campo da leitura psicológica da resiliência, e a interacionista simbólica, que embasa a perspectiva sociológica e pedagógica - geram determinadas consequências para o conceito de resiliência. A primeira linhagem pode gerar leituras culpabilizantes ou exaltadoras do indivíduo, e a segunda avança na direção do entendimento de que a resiliência pode ser promovida e estimulada. A promoção da resiliência no âmbito escolar, nesta segunda perspectiva, relaciona-se aos vínculos de sociabilidade, atitudes e comportamentos positivos, reafirmando valores e evitando-se, dessa forma, o isolamento social que leva a outros problemas graves como a violência, a discriminação, a exclusão.

A estrutura da política educacional e a resiliência na prática docente

Nesse núcleo temático, as análises dos autores trabalhados dão destaque a questões estruturais de caráter gestionário, trabalhista e organizacional, que influenciam na prática docente e interferem na construção da resiliência. Ou seja, a determinação social compromete a estabilidade e as relações de confiança, promovendo um campo ambíguo de afetos.

A crescente frustração que domina os profissionais da educação torna-se digna de análise e é colocada como objeto nos estudos de portugueses e latino-americanos (TAVARES, 2001; YUNES, 2001; MELILLO, OJEDA, RODRÍGUES, 2008). No território brasileiro é patente a crise da profissão docente, com um sentimento generalizado de desconfiança em relação às competências e à qualidade do seu próprio trabalho. Na leitura de Tavares (2001) e Antunes (2003), os círculos intelectuais e políticos são influentes e acabam por dispor de um importante poder simbólico potencializado nas atuais culturas de informação. Nessa leitura vemos atualizado o referencial teórico que trabalha o contexto da globalização e do impacto que a mesma promove nos círculos de informação e na estrutura educacional. Quando os autores acessam esse referencial para refletir sobre a resiliência no campo da educação, pela perspectiva do profissional, eles problematizam a estrutura tradicional de acesso a conteúdos e ensino. Dessa maneira, torna-se necessário refletir não somente sobre as capacidades pessoais e particulares, mas sobre as relações destas com o contexto complexo, diverso, onde as produções de conhecimento estão sujeita a provisoriedade.

Para esses autores, o profissional da educação precisa ser formado - e se autoformar - para se preservar psicologicamente, para reagir, para ordenar seu mundo, suas necessidades, suas prioridades, seus desejos e ações. Esta formação, nesse contexto, traduziria sua resiliência - isto é, uma característica de personalidade que, ativada e desenvolvida, possibilita ao sujeito superar-se, superando também as pressões de seu mundo, não desconsiderando a abertura ao novo, à mudança, ao outro.

Destaca-se nessa análise a capacidade de considerar a esfera ideológica comunicando-se com a esfera pessoal, sem abrir mão do contexto. E o contexto aqui é aquele da globalização e da pós-modernidade. É neste contexto que se encontra o profissional da educação, quando percebe que o estresse laboral é muito maior do que aquele que se experimentava nas gerações passadas. Segundo Grotberg (2006), as adversidades no ambiente de trabalho abarcam: carga horária e atribuições excessivas, em que o trabalho real vai além do trabalho prescrito; pouco tempo de descanso; tarefas rotineiras de pouca importância; falta de uso das próprias capacidades criativas; escassa ou nenhuma autonomia; falta de participação nas decisões; falta de comunicação; falta de apoio de colegas e superiores; expectativas de trabalho incerto e/ou conflitivo, ou demasiadas responsabilidades; insegurança no trabalho; falta de oportunidade de crescimento, de progresso ou ascensão; más condições físicas, dificuldade para concentrar-se, mau humor.

Nessa leitura em que o contexto contemporâneo ganha destaque, Dell′Aglio, Koller e Yunes (2006) e Grotberg (2006) criticam a associação entre resiliência, invencibilidade e invulnerabilidade, termos ainda bastante usados como precursores da resiliência pela psicologia. De acordo com essa leitura, qualquer pessoa está vulnerável às situações adversas, aos ambientes desfavoráveis, seja no trabalho ou na vida pessoal. E experimentar demasiado estresse durante muito tempo pode resultar em sérios problemas de saúde, inclusive enfermidades cardiovasculares e transtornos psicológicos, tais como depressão e esgotamento. Apesar do conceito de resiliência ser recente no campo da saúde pública, Deslandes e Junqueira (2003) esclarecem que a psicologia se preocupa com esses aspectos relacionados ao adoecimento e sofrimento humano.

No caso dos professores da escola pública brasileira, os noticiários destacam as condições adversas vivenciadas pelos mesmos, que lecionam em escolas inseridas em comunidades com um contexto social hostil, onde há constantes conflitos entre polícia, traficantes, milicianos e entre facções rivais pelo domínio do tráfico de drogas e armas. Considerar as interferências desse contexto contemporâneo e comum nos países em desenvolvimento significa associar a resiliência à perspectiva da política pública de segurança. Nessa dimensão, as ações intersetoriais servem de campo para promoção da resiliência, ou não, e prevenção da violência. Para Assis (2006), Grotberg (2006), Yunes (2001) e Tavares (2001), a resiliência associada à educação resgata o aspecto da saúde, caracterizando o enfoque centrado na proteção e não no risco.

Considerações finais

As análises teóricas e pesquisas sobre resiliência no campo da educação revelaram-se inovadoras, ao lançarem um olhar sobre o professor e suas capacidades de desenvolver aspectos positivos em ambientes adversos. Reconhecemos uma tradição de estudos que, ao tomarem de empréstimo o conceito de resiliência do campo da física e da engenharia, o lançam no território da psicologia e de suas interfaces com a saúde. Nesses campos os sujeitos resilientes são os que sofrem a ação adversa, traumática e/ou violenta e conseguem, apesar das marcas, prosseguir seu curso de vida.

No caso da resiliência associada à educação, emerge a preocupação não somente com o aluno resiliente, como também com o professor que pode, ele próprio, desenvolver resiliência a seu favor e a favor do outro. Nesse contexto, as leituras individualistas e psicológicas revelam limites no sentido de incluírem pouco ou até desconsiderarem as influências do ambiente, da estrutura social e do campo interacional na construção de processos resilientes. Ou seja, após análise empreendida, que implicou a revisão crítica da literatura pela via da hermenêutica dialética, postulamos mais a ideia de "processos resilientes" e muito menos de resiliência como conceito destituído de contexto, realidade e reflexão. Os significados produzidos pelos atores sofrem interpretações sucessivas e estão encarnados na realidade concreta em que são produzidos. Acreditamos que análises teóricas afinadas com esse campo, mas que avancem na direção da análise dos campos simbólicos, dos capitais gerados nesse universo e do diálogo entre tradições, podem ser úteis para análises futuras da temática da resiliência e da educação.

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Recebido em 20 de outubro de 2010.

Aprovado em 26 de outubro de 2012.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Maio 2013
  • Data do Fascículo
    Mar 2013

Histórico

  • Recebido
    20 Out 2010
  • Aceito
    26 Out 2012
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